Mutaiabitas

Os mutaiabitas (em árabe: المطيبين; romaniz.: al-Muṭayyabīn; lit. "os Perfumados") foram uma aliança de clãs dos coraixitas formada em Meca durante o período pré-islâmico. A coalizão surgiu de uma disputa pela distribuição das principais funções políticas e religiosas da cidade entre os descendentes de Abede Manafe e os abedadaritas, aos quais essas atribuições haviam sido legadas por Cuçai ibne Quilabe. Os abedemanafitas foram apoiados pelos açaditas, zuraítas, taimitas e alharititas, enquanto outros clãs coraixitas se alinharam aos abedadaritas ou permaneceram neutros. A aliança recebeu seu nome da cerimônia de juramento realizada por seus integrantes, que teriam mergulhado as mãos numa substância perfumada e depois as esfregado na parede da Caaba.

O pacto por eles estabelecido ficou conhecido como Hilfe Almutaiabine (Ḥilf al-Muṭayyabīn, "Pacto dos Perfumados"). Seus adversários constituíram uma coalizão própria, conhecida como Hilfe Alalafe, e os dois blocos chegaram a preparar-se para um confronto armado. A disputa, contudo, terminou mediante acordo: determinadas funções permaneceram com os abedadaritas, enquanto outras foram transferidas aos abedemanafitas, evitando-se assim uma guerra interna entre os coraixitas. A divisão estabelecida pelo acordo permaneceu essencialmente em vigor até o surgimento do islã. Embora algumas tradições tenham associado Maomé aos mutaiabitas, essa identificação resulta de uma confusão com o posterior Hilfe Alfudul, pois Maomé ainda não havia nascido quando a aliança dos Perfumados foi formada.

História

Origem da aliança

Segundo a tradição, Cuçai ibne Quilabe, um dos antepassados de Maomé, dividiu o território de Meca em dez partes a partir das proximidades da Caaba e distribuiu-as entre dez ramos dos coraixitas. A ocupação e urbanização dessas áreas contribuíram para transformar Meca, até então um povoado disperso, numa cidade, processo que avançou especialmente após a morte de Cuçai, durante a geração de seus filhos. De acordo com sua vontade, importantes funções políticas e religiosas foram confiadas a seu filho Abede Adar ibne Cuçai e posteriormente transmitidas aos descendentes deste: a nadua, ou presidência das reuniões realizadas na Dar Anadua, o conselho da cidade; a quiada, ou comando militar; a hijaba ou sidana, relativa à guarda da cobertura e das chaves da Caaba; a liua, ou guarda do estandarte; a sicaia, que consistia no fornecimento de água aos peregrinos; e a rifada, relativa à alimentação dos peregrinos pobres. Outro filho de Cuçai, Abede Manafe, inicialmente não teria disputado essas atribuições, confiando no prestígio de que já desfrutava. Posteriormente, porém, os filhos de Abede Manafe — Abede Xemece, Haxime, Almotalibe e Naufal — alegaram que sua superioridade numérica e seu maior prestígio lhes davam direito às funções até então exercidas pelos abedadaritas. A disputa dividiu os coraixitas em três grupos.

Os maquezumitas, samitas, jumaítas e aditas apoiaram os abedadaritas, enquanto os açaditas, zuraítas, taimitas e alharititas apoiaram os abedemanafitas. Os amiritas e moarribitas permaneceram neutros. Os clãs que apoiavam os abedemanafitas juraram auxiliar uns aos outros até o fim e não abandonar seus aliados. Como parte da cerimônia, mergulharam as mãos num recipiente contendo uma substância perfumada e depois as esfregaram na parede da Caaba. Por esse motivo, passaram a ser chamados mutaiabitas (al-Muṭayyabīn, "os Perfumados"), e seu pacto recebeu o nome de Hilfe Almutaiabine (Ḥilf al-Muṭayyabīn, "Pacto dos Perfumados"). Também se encontra nas fontes a forma mutaibitas (al-Muṭayyibīn), com o sentido de "os que aplicam perfume". Há tradições que associam Maomé ao Hilfe Almutaiabine, mas Algül considera-as resultado de confusão com o posterior Hilfe Alfudul, do qual Maomé efetivamente teria participado. Um relato transmitido por Amade ibne Hambal afirma que Maomé tomou parte na aliança juntamente com seus tios, mas isso seria cronologicamente impossível, pois ele ainda não havia nascido quando o Hilfe Almutaiabine foi estabelecido. A tradição que situa esses pactos durante a reconstrução da Caaba, quando Maomé tinha cerca de 35 anos, é igualmente considerada incorreta.

Acordo

Os abedadaritas e seus aliados também juraram não abandonar uns aos outros e ficaram conhecidos como alafitas (al-Aḥlāf, "os aliados por juramento"), enquanto sua coalizão recebeu o nome de Hilfe Alalafe. Segundo outra tradição, sacrificaram um animal, recolheram seu sangue num recipiente, mergulharam nele as mãos e depois as lamberam como parte do juramento. Por isso, também foram chamados Lacate Adame, "os que lambem sangue", e sua aliança, Hilfe Lacate Adame. Após os juramentos recíprocos, chegaram a ser determinados quais clãs dos dois blocos se enfrentariam caso a disputa resultasse em combate. Os abedemanafitas enfrentariam os samitas; os abedadaritas, os açaditas; zuraítas, os jumaítas; os taimitas, os maquezumitas; os alharititas; e os aditas. Entretanto, prevaleceram entre os coraixitas os partidários de uma solução negociada, e os dois grupos chegaram a um acordo sobre a distribuição das funções. A hijaba, a liua e a nadua permaneceram com os abedadaritas, enquanto a sicaia, a rifada e a quiada ficaram sob responsabilidade dos abedemanafitas. Desse modo, os coraixitas evitaram no último momento uma guerra interna de grandes proporções. A divisão resultante do acordo permaneceu, sem provocar conflitos significativos entre os antigos aliados, até o advento do islã. Posteriormente, a quiada passou para Abede Xemece, enquanto a sicaia e a rifada foram atribuídas a Haxime ibne Abede Manafe em razão de sua riqueza e generosidade. Após Haxime, essas duas funções passaram para seu filho Abede Almotalibe, avô de Maomé.

Referências

  1. 1 2 3 Algül 1998, p. 32.
  2. 1 2 3 Algül 1998, p. 33.

Bibliografia