| Sidarta Gautama Buda | |
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Escultura do século V de Sarnath: o gesto do ensino e a roda entre cervos evocam o primeiro sermão atribuído a Buda. | |
| Outros nomes | Buda Gautama; Shakyamuni |
| Conhecido(a) por | Fundação do budismo |
| Nascimento | c. 563 ou 480 a.C. |
| Morte | c. 483 ou 400 a.C. (aos 80 anos) Kushinagar, território dos mallas (segundo a tradição budista) |
| Progenitores | Mãe: Maya Pai: Sudodana |
| Cônjuge | Yasodhara |
| Filho(a)(s) | Rahula |
| Religião | budismo |
Sidarta Gautama, também chamado Buda ("o desperto"), foi um mestre religioso itinerante, ou śramaṇa, que viveu nas planícies indo-gangéticas orientais no século VI ou V a.C. e fundou o budismo. Segundo as narrativas budistas, nasceu em Lumbini, no atual Nepal, em uma família do clã Shakya, e deixou a vida doméstica para viver como asceta itinerante. Depois de mendigar, praticar o ascetismo e meditar, alcançou o nirvana em Bodh Gaya, no atual estado indiano de Biar. Percorreu então a planície indo-gangética, ensinando e formando uma comunidade monástica, a sanga. A tradição budista situa sua morte em Kushinagar, no atual estado de Uttar Pradesh, na Índia, e a descreve como o parinirvana, a libertação final da existência condicionada.
Na tradição budista, Buda ensinou um Caminho do Meio entre a busca dos prazeres sensuais e o ascetismo rigoroso, pelo qual se alcançaria a libertação da ignorância, do desejo, do renascimento e do sofrimento. As Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo resumem esses ensinamentos. O caminho envolve conduta ética e bondade para com os outros, além de práticas meditativas como o domínio dos sentidos, a atenção plena e dhyana. Os cinco agregados e a originação dependente também ocupam lugar central nos ensinamentos atribuídos a Buda: processos físicos e mentais surgem e cessam conforme suas condições, e nenhum dos cinco agregados constitui um eu permanente.
Nos nicaias, Buda costuma referir-se a si mesmo como Tathāgata. O título "Buda", que pode ser traduzido como "desperto" ou "iluminado", está documentado desde o século III a.C. A comunidade budista reuniu regras de disciplina monástica no Vinaya Piṭaka e discursos atribuídos a ele no Sutta Piṭaka. Esses textos foram transmitidos oralmente em línguas indo-arianas médias. Gerações posteriores compuseram tratados conhecidos como Abhidharma, biografias, narrativas de vidas anteriores chamadas jātakas e novos discursos, entre eles os sūtras mahāyāna.
O budismo deu origem a tradições como o teravada, o maaiana e o vajrayana, e se espalhou para além do subcontinente indiano. Na Índia, seus mosteiros permaneceram ativos durante a Idade Média, mas a maioria foi abandonada no século XIII; a tradição também se difundiu pelo Sudeste Asiático e pela Ásia Oriental.

Na China, na Coreia, no Japão e no Tibete, ele costumava ser conhecido como Buda ou Sakyamuni; no Sri Lanka e no Sudeste Asiático, como Gotama Buda ou Samana Gotama ("o asceta Gotama").
Buda significa "desperto" ou "iluminado". O termo vem da raiz sânscrita budh (बुध्), que pode significar acordar, perceber, aprender ou tomar consciência. A raiz também permite a imagem de "abrir-se", como uma flor. Assim, Buda é um título, e não um nome pessoal: designa alguém que alcançou bodhi, o despertar. Buddhi, a faculdade de formar conceitos, raciocinar, discernir e compreender, permite distinguir o verdadeiro (satya) do falso.
| Parte de uma série sobre |
| Budismo |
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Gautama (Gotama em páli) era o nome de sua linhagem familiar (gotra); os shakyas eram a comunidade à qual pertencia. Seu nome próprio, Siddhārtha em sânscrito e Siddhattha em páli, significa "aquele que alcança seu objetivo"; as formas registradas em tibetano, chinês, japonês e coreano são, respectivamente, Dhondup, Xidaduo, Shiddatta ou Shittatta e Siltalta. O nome Gautama significa "descendente de Gotama". Entre as interpretações de Gotama estão "aquele que tem mais luz" e "aquele que possui mais vacas". A adoção, por clãs xátrias, dos nomes de seus sacerdotes domésticos também foi proposta para explicar esse nome.
Embora Buda apareça nos āgamas e no Cânone Páli, seus testemunhos escritos preservados mais antigos datam de meados do século III a.C., nos Éditos de Asoca. A inscrição do pilar de Lumbini registra a visita de Asoca ao local que identificou como o lugar de nascimento de Buda e emprega a expressão Bu-dha Sa-kya-mu-nī em escrita brami. Śākyamuni, também grafado Sakyamuni ou Shakyamuni (em sânscrito: शाक्यमुनि; ), significa "sábio dos shakyas".
Tathāgata ([tɐˈtʰaːɡɐtɐ]) é um termo pelo qual Buda se refere a si mesmo e a outros budas no Cânone Páli. Seu sentido exato é debatido. Pode significar "aquele que assim se foi" (tathā-gata), "aquele que assim veio" (tathā-āgata) ou "aquele que assim não se foi" (tathā-agata). Uma interpretação relaciona o título a alguém que transcendeu o vir e o ir e os fenômenos transitórios. Também é descrito como "imensurável", "inescrutável", "difícil de compreender" e "inapreensível".

Entre os títulos que os discursos antigos atribuem a Buda estão:
O Cânone Páli compara a proclamação do darma por Buda ao rugido de um leão; um verso o chama de “rei do darma” (Dhammarāja). Em inscrições, a expressão mahāśramaṇa (“grande asceta”) também se refere a Buda.

Com base em indícios filológicos, o indólogo Oskar von Hinüber considera que alguns discursos páli preservam topônimos, construções linguísticas e informações históricas muito antigos. Ele situa a composição do Mahāparinibbāṇa Sutta, que descreve os últimos dias de Buda, possivelmente entre 350 e 320 a.C.; nessa hipótese, parte do relato poderia guardar memória de acontecimentos anteriores.
John S. Strong considera que alguns fragmentos biográficos dos textos canônicos em páli e de seus paralelos chineses, tibetanos e sânscritos pertencem à camada mais antiga. Entre eles está o Ariyapariyesanā Sutta (Discurso sobre a busca nobre).

Não se conhece registro escrito contemporâneo de Gautama. A partir de meados do século III a.C., porém, os éditos de Asoca mencionam Buda e a comunidade budista. A inscrição do pilar de Lumbini registra a visita do imperador ao lugar identificado como o nascimento de Buda e o chama de Shakyamuni, “sábio dos shakyas”. Outros éditos tratam de lugares e práticas associados ao budismo.
O nome Sakamuni aparece também numa inscrição do relevo de Bharhut associado à árvore da bodhi e ao despertar: Bhagavato Sakamunino Bodho, "o despertar do venerável Sakamuni".

Entre os mais antigos manuscritos budistas preservados estão os textos de Gandara, escritos em gandari e datados aproximadamente entre o século I a.C. e o III d.C. Foram encontrados numa região que hoje abrange partes do Paquistão e do Afeganistão.

Textos canônicos como o Ariyapariyesanā Sutta (MN 26), o Mahāparinibbāṇa Sutta (DN 16), o Mahāsaccaka Sutta (MN 36), o Mahāpadāna Sutta (DN 14) e o Acchariyabbhuta Sutta (MN 123) narram episódios da vida de Buda, mas não constituem biografias completas. Os jātakas relatam vidas anteriores do bodisatva; parte desse material pode ser antiga.
Versões diferentes da vida de Buda foram reunidas posteriormente em biografias completas, entre elas o Buddhacarita, o Lalitavistara Sūtra, o Mahāvastu e o Nidānakathā. O Buddhacarita, poema de Aśvaghoṣa do século I ou II d.C., é uma das primeiras biografias extensas preservadas; o Lalitavistara é associado à tradição maaiana.
O Mahāvastu, da escola Mahāsāṃghika-Lokottaravāda, foi composto ao longo de um período que pode ter se estendido até o século IV. A tradição Dharmaguptaka preservou uma biografia extensa conhecida como Abhiniṣkramaṇa, transmitida em traduções chinesas. O Nidānakathā, da tradição teravada do Sri Lanka, é atribuído a uma compilação do século V.

Embora muitos detalhes da vida histórica de Buda permaneçam incertos, é geralmente aceito que ele viveu e ensinou na época dos Mahajanapadas, fundou uma comunidade monástica e foi aproximadamente contemporâneo de Bimbisara e Ajātaśatru, governantes de Mágada, e de Mahavira, mestre do jainismo.
Ao adaptar as biografias budistas, que combinam lembranças históricas com elementos lendários e sobrenaturais, alguns autores do século XIX eliminaram esses elementos para compor a imagem de um mestre estritamente racional. Pesquisadores posteriores criticaram essa seleção por projetar no passado expectativas modernas e também questionaram a possibilidade de reconstituir uma biografia segura em todos os seus pormenores.
Rupert Gethin observa que a narrativa tradicional da vida de Buda foi transmitida sobretudo como exemplo de ensinamentos religiosos, e não como uma cronologia histórica no sentido moderno.

As datas do nascimento e da morte de Gautama são incertas. Algumas tradições do leste asiático situavam sua morte em 949 a.C.; o sistema Ka-tan, ligado à tradição Kalachakra, a situava por volta de 833 a.C. Essas datas tradicionais não correspondem às cronologias históricas mais usadas atualmente.
Na "cronologia longa" preservada em crônicas do Sri Lanka, Buda viveu oitenta anos e morreu 218 anos antes da coroação de Asoca. Ao datar essa coroação de 326 a.C., a tradição situa sua vida entre 624 e 544 a.C., datas ainda usadas em partes do Sri Lanka e do Sudeste Asiático. Se a coroação for situada por volta de 268 a.C., como indicam outras evidências, a mesma contagem resultaria em cerca de 566 a 486 a.C.
A "cronologia curta", baseada em outras fontes indianas e em traduções chinesas e tibetanas, situa a morte de Buda cerca de cem anos antes da coroação de Asoca. Com a coroação estimada em 268 a.C. e uma vida de oitenta anos, o cálculo aponta aproximadamente para 448 a 368 a.C.
No início do século XX, muitos historiadores adotavam as datas aproximadas de 563 a 483 a.C. Pesquisas posteriores frequentemente situaram a morte mais perto de 400 a.C. Num encontro acadêmico realizado em 1988, a maioria das propostas ficou no intervalo de cerca de vinte anos antes ou depois dessa data. Não há consenso definitivo.
Os reinados de Bimbisara e Ajātaśatru também recebem datas diferentes conforme a cronologia adotada: na longa, Bimbisara teria reinado aproximadamente entre 558 e 492 a.C., seguido por Ajātaśatru; na curta, os reinados são situados mais tarde. K. T. S. Sarao, que defende uma vida de Buda aproximadamente entre 477 e 397 a.C., propõe para Bimbisara cerca de 457 a 405 a.C. e para Ajātaśatru cerca de 405 a 373 a.C.

A Estupa das relíquias de Vaishali, em Biar, pode ter origem no século V a.C. Seu núcleo de argila foi revestido e ampliado em tijolos em fases posteriores. A relação entre a construção e uma coluna mauria do século III a.C., bem como a remoção de relíquias ali depositadas, foi comparada à tradição de que Asoca redistribuiu relíquias atribuídas a Buda. A datação e a interpretação do sítio dependem da análise arqueológica.
Em escavações realizadas em 2011 e 2012 no templo de Maya Devi, em Lumbini, arqueólogos encontraram vestígios de uma estrutura de madeira e de raízes. Uma publicação de 2013 apresentou datações que podem situar fases do local no século VI a.C. A interpretação dessas evidências como testemunho de um santuário budista tão antigo permanece discutida.

Segundo a tradição, Shakyamuni pertencia aos shakyas, comunidade estabelecida perto do Himalaia, na região entre o atual Nepal e a Índia. Sua organização política é descrita por alguns estudiosos como uma pequena república oligárquica, na qual o pai de Gautama exercia uma função de chefia. Os shakyas ocupavam uma posição periférica em relação aos centros bramânicos do período, e suas origens continuam debatidas. Alguns pesquisadores relacionam práticas religiosas dos shakyas, como a veneração de árvores e bosques e o culto a espíritos yaksha e seres serpentinos naga, a elementos presentes no budismo posterior. Estupas e árvores da bodhi também se tornaram importantes na devoção budista.

A vida de Buda coincidiu com a atuação de diversas correntes de ascetas itinerantes (śramaṇa), entre elas os ājīvikas, os cārvākas, os jainistas e os ajñānas. Textos budistas mencionam debates com mestres como Mahavira, Purana Kassapa, Makkhali Gosala, Ajita Kesakambali, Pakudha Kaccayana e Sanjaya Belatthaputta. O Brahmajāla Sutta reúne numerosas posições filosóficas atribuídas ao período.
Sāriputta e Moggallāna, futuros discípulos destacados de Buda, são descritos como antigos seguidores de Sañjaya Belaṭṭhiputta. Os discursos páli frequentemente narram debates entre Buda e outras escolas. Indícios filológicos sugerem que seus mestres Āḷāra Kālāma e Uddaka Rāmaputta podem ter sido pessoas históricas que lhe ensinaram práticas meditativas. Nesse ambiente, Buda foi um dos diversos mestres śramaṇa, embora seus ensinamentos também criticassem formas extremas de ascetismo.
Jainistas e budistas usavam estupas, enquanto santuários associados a árvores ocorriam também em práticas hindus.

O surgimento do budismo coincidiu com a chamada Segunda urbanização da Índia, período de crescimento das cidades e dos estados na bacia do Ganges. Para Romila Thapar, os ensinamentos de Buda também responderam a essas transformações. Embora os mendicantes renunciassem à vida doméstica, dependiam de doações de moradores de aldeias e centros urbanos.
A ocupação da bacia do Ganges avançou de diferentes direções, com expansão agrícola e desmatamento. A região do médio Ganges, onde se situava Pataliputra, diferia culturalmente das áreas a oeste mais fortemente associadas à tradição védica. Budistas e jainistas questionaram hierarquias de nascimento e encontraram apoio nos centros urbanos e entre grupos ligados ao comércio.
Nos primeiros textos budistas, os nikāyas e os āgamas, Buda rejeita a afirmação de que possuía um conhecimento total e ininterrupto. Segundo Bhikkhu Anālayo, a atribuição de onisciência em sentido mais forte ganhou espaço em textos e comentários posteriores.
As biografias tradicionais de Gautama relatam numerosos milagres, presságios e acontecimentos sobrenaturais. Nelas, Buda frequentemente aparece como um ser transcendente (lokottara), livre das limitações comuns. O Mahāvastu atribui-lhe, ao longo de vidas sucessivas, poderes extraordinários, como um nascimento sem dor e a capacidade de andar imediatamente após nascer.
Os textos budistas oferecem mais detalhes sobre os ensinamentos atribuídos a Gautama do que sobre a cronologia de sua vida. Também descrevem a cultura e o cotidiano da Índia antiga; alguns desses elementos encontram paralelos nos textos jainistas.

Biografias lendárias como o Buddhavaṃsa, em páli, e o Jātakamālā, em sânscrito, descrevem centenas de vidas do futuro Buda, chamado então de bodisatva. Muitas dessas vidas são narradas nos jātakas, histórias que relacionam acontecimentos do presente a uma vida anterior.
Os jātakas atribuem ao passado do bodisatva uma longa trajetória cármica e explicam seu caminho até o despertar. O Buddhavaṃsa apresenta esse percurso como árduo, estendido por quatro períodos incalculáveis (asaṃkheyyas).
Nessas narrativas, o bodisatva renasce muitas vezes como ser humano ou animal. Depois de encontrar budas anteriores, faz votos (praṇidhāna) de tornar-se um buda e recebe previsões sobre seu futuro despertar. Uma história conhecida relata o encontro com Dīpaṅkara, que lhe faz essa previsão.
O comentário páli aos jātakas e o Jātakamālā também descrevem as perfeições (pāramitā) cultivadas pelo futuro Buda. Algumas histórias atribuem dificuldades de sua última vida às ações negativas de vidas anteriores.
Na sucessão de budas descrita nos discursos páli, Buda Kassapa precede Gautama; a tradição também anuncia o futuro aparecimento de Maitreia (Metteyya em páli).

Segundo a tradição budista, Gautama nasceu em Lumbini, no atual Nepal, e cresceu em Kapilavastu. A localização exata da antiga Kapilavastu é incerta: entre as possibilidades estão Piprahwa, na Índia, e Tilaurakot, no Nepal, separadas por cerca de 24 quilômetros. Ambas se situavam no território dos shakyas.

Em meados do século III a.C., o imperador Asoca visitou Lumbini e mandou erguer um pilar cuja inscrição identifica o lugar como o nascimento de Buda, o sábio dos shakyas.
Biografias posteriores, como o Mahāvastu e o Lalitavistara, apresentam Maya, esposa de Sudodana, como uma princesa de Devadaha, capital dos koliyas. Segundo a lenda, ela sonhou que um elefante branco de seis presas entrava pelo lado direito de seu corpo antes de conceber Sidarta.
A tradição situa o nascimento de Sidarta durante uma viagem de Maya, sob uma árvore no jardim de Lumbini. Os textos budistas mais antigos o apresentam como membro de uma família kshatriya do clã Gautama, pertencente aos shakyas, cuja região ficava perto da atual fronteira entre Índia e Nepal. Seu pai, Sudodana, teria sido um chefe eleito da comunidade, cuja capital era Kapilavastu.
Embora os textos mais antigos digam pouco sobre a infância de Gautama, biografias posteriores o retratam como um príncipe que, apesar da vida protegida no palácio, passou a questionar a condição humana. Elas descrevem Sudodana como monarca hereditário da dinastia solar; essa representação é considerada improvável por estudiosos que interpretam a organização política dos shakyas como uma oligarquia.
O nascimento, o despertar e a morte de Buda são lembrados na festa de Vesak em vários países teravada. No Nepal, em Bangladesh e na Índia, a comemoração do nascimento também é chamada de Buddha Purnima e ocorre na lua cheia.
Segundo biografias tardias, o eremita Asita examinou o recém-nascido e reconheceu nele os trinta e dois sinais de um grande homem. Predisse que a criança se tornaria um soberano universal (chakravartin) ou um grande mestre religioso. Numa cerimônia realizada no quinto dia, brâmanes convidados por Sudodana teriam feito previsões semelhantes.
Os primeiros textos sugerem que Gautama iniciou sua busca espiritual ao refletir sobre a velhice, a doença e a morte. Fontes de diferentes escolas budistas e relatos posteriores dizem que teve uma esposa, Yasodhara, e um filho, Rahula.
Biografias lendárias como o Lalitavistara também lhe atribuem grande habilidade marcial, demonstrada em competições com outros jovens shakyas.
Gautama deixa a vida doméstica em busca de um objetivo espiritual nos textos mais antigos; biografias posteriores apresentam uma narrativa mais extensa e dramática de sua renúncia.
Entre os relatos mais antigos dessa busca estão o Ariyapariyesanā Sutta (MN 26) e um texto paralelo preservado em chinês. Gautama explica que, estando sujeito à velhice, à doença e à morte, procurou uma condição livre desses males. Os textos também o apresentam como um jovem que saiu de casa apesar do sofrimento dos pais.

Nas biografias lendárias, Gautama conhece o mundo exterior após uma juventude protegida no palácio. Ao encontrar um idoso, um doente, um cadáver e um asceta, toma consciência do sofrimento e da possibilidade de uma vida de renúncia. Esses encontros são conhecidos como os quatro encontros.
Segundo essas narrativas, pouco depois de ver os quatro encontros, Gautama acordou à noite e encontrou as criadas adormecidas em posições que lhe lembraram cadáveres. A cena reforçou sua percepção da impermanência e sua decisão de partir.
Acompanhado por Chandaka e montado no cavalo Kanthaka, Gautama teria deixado o palácio, a esposa e o filho. Chegou ao rio Anomā, cortou o cabelo e despediu-se do servo e do cavalo. Algumas versões dizem que vestiu ali o manto de asceta, recebido de uma divindade.
Segundo as biografias lendárias, Gautama foi a Rājagaha mendigar alimentos. O rei Bimbisara, de Mágada, ofereceu-lhe parte de seu reino. Gautama recusou, mas prometeu visitá-lo depois de alcançar seu objetivo espiritual.

O Majjhima Nikāya 4 relata que Gautama viveu em florestas remotas e assustadoras durante sua busca espiritual, aprendendo a superar o medo. Outros textos dizem que estudou meditação com dois mestres. Segundo o Ariyapariyesanā Sutta (MN 26) e um texto chinês paralelo, dominou os ensinamentos de Āḷāra Kālāma, mas julgou que eles não conduziam à libertação.
Gautama tornou-se então discípulo de Uddaka Rāmaputta, com quem alcançou um estado meditativo chamado esfera de nem percepção nem não percepção. Também considerou esse resultado insuficiente para pôr fim ao sofrimento e prosseguiu a busca.
Depois de deixar seus mestres, Gautama praticou austeridades intensas, segundo alguns sutras. Os relatos mencionam exercícios de controle da respiração e uma restrição alimentar que o deixou extremamente magro. Por fim, abandonou essas práticas ao concluir que não o levariam ao despertar.
Segundo o relato, seus cinco companheiros o deixaram quando ele abandonou o ascetismo rigoroso. Gautama recordou então uma experiência meditativa da infância, sob uma árvore enquanto seu pai trabalhava, e passou a considerar dhyāna um caminho para a libertação.
O Dhammacakkappavattana Sutta (SN 56) atribui ao Tathāgata a descoberta do Caminho do Meio, distante tanto da entrega aos prazeres quanto da mortificação do corpo. Esse caminho é apresentado como o Nobre Caminho Óctuplo. Em textos posteriores, Gautama aparece cada vez mais sob o título de Buda, "o desperto".

Textos paralelos antigos relatam que Gautama se sentou decidido a não se levantar antes de alcançar o despertar pleno. O Ariyapariyesanā Sutta, porém, fala da realização do nirvana sem descrever essa decisão. A tradição situa o acontecimento sob uma figueira-da-índia, depois chamada árvore da bodhi, em Bodh Gaya.
Textos do Cânone Páli narram que Buda permaneceu sete dias sob a árvore da bodhi, experimentando a felicidade da libertação. Ainda junto ao rio Nairañjanā, teria meditado sobre a originação dependente, as faculdades espirituais e o sofrimento.
Biografias lendárias como o Mahāvastu, o Nidānakathā e o Lalitavistara narram a tentativa de Māra, senhor do reino do desejo, de impedir o despertar. Ele envia as filhas para seduzir Gautama e um exército para atacá-lo. Gautama resiste e convoca a terra como testemunha.

Segundo o MN 26, Buda hesitou em ensinar após o despertar. Considerava difícil transmitir a pessoas dominadas pela ignorância, pela avidez e pela aversão uma verdade sutil e profunda. O deus Brahmā Sahampati o persuadiu, lembrando que alguns seriam capazes de compreendê-la.
Buda pensou primeiro em procurar seus antigos mestres, Āḷāra Kālāma e Uddaka Rāmaputta, mas soube que ambos tinham morrido. Dirigiu-se então aos cinco ascetas que antes o acompanhavam. A caminho de Varanasi, encontrou o asceta Upaka e lhe anunciou sua realização; Upaka não se tornou seu discípulo naquele momento.
Buda encontrou os cinco ascetas no Parque dos Cervos, em Sarnath, perto de Varanasi, e os convenceu de que havia alcançado o despertar. Várias tradições budistas situam ali seu primeiro discurso, sobre o Caminho do Meio e as Quatro Nobres Verdades; o MN 26 apresenta os acontecimentos de modo diferente.
Fontes como o Mahāvastu e diferentes versões do Vinaia também relatam que Buda ensinou aos ascetas a doutrina do não eu. Segundo essas narrativas, os demais integrantes do grupo alcançaram então a condição de arhat.
Os textos do Vinaia narram ainda a conversão de Yasa, filho de um chefe de guilda, e de seus amigos e parentes. Também relatam que três irmãos chamados Kassapa se juntaram à comunidade com centenas de antigos ascetas de cabelos emaranhados.
Ao fim da estação chuvosa, a comunidade contava, segundo a tradição, cerca de sessenta monges que haviam alcançado o despertar. Buda os enviou a diferentes lugares para ensinar e admitir novos membros, em benefício das demais pessoas.
Segundo a tradição, Buda passou cerca de quatro décadas e meia viajando pela planície indo-gangética, em regiões hoje pertencentes à Índia e ao Nepal. Ensinou a reis, ascetas, trabalhadores e pessoas de diferentes posições sociais. Entre os personagens de seus relatos estão Angulimala e Āḷavaka.
Na tradição teravada, Buda ensinava numa língua corrente na região de Mágada.
A sanga viajava durante boa parte do ano, mas seus integrantes permaneciam num só lugar durante a estação das chuvas, período chamado vassa. Além das dificuldades da viagem, procuravam evitar danos à vegetação e aos animais. Nessas residências temporárias, os monges podiam conviver com apoiadores leigos.
A tradição situa a primeira residência da estação chuvosa em Varanasi, quando a sanga se formou. Pouco depois, Buda teria ido a Rājagaha, capital de Mágada, onde o rei Bimbisara doou à comunidade um bosque de bambus.
Durante as viagens da comunidade pelo norte da Índia, os textos narram que Sāriputta e Mahāmoggallāna, antes discípulos do asceta Sañjaya Belaṭṭhiputta, aderiram aos ensinamentos de Buda após encontrar Assaji. Também relatam a entrada de Rahula na ordem monástica durante uma visita de Buda a Kapilavastu.
Entre os primeiros apoiadores leigos citados nos textos está o comerciante Anāthapiṇḍika. Segundo a tradição, ele adquiriu e doou à sanga o bosque de Jeta, conhecido como Jetavana.

Os textos antigos preservam versões diferentes da criação de uma ordem de monjas (bhikkhunī) durante o crescimento da comunidade budista.
Nas diferentes versões antigas examinadas por Anālayo, Mahāpajāpatī Gotamī, madrasta de Buda, pede para ser ordenada junto com outras mulheres. Buda recusa inicialmente. Elas raspam a cabeça, vestem os mantos e passam a seguir a comunidade. Por intervenção de Ānanda, a ordem das monjas acaba sendo formada; os relatos divergem quanto às condições impostas.
Segundo Anālayo, o argumento comum às versões é que as mulheres podem alcançar todos os estágios do despertar. A autenticidade da lista atual das oito regras chamadas garudhammas é debatida por estudiosos devido a inconsistências entre os relatos.
Anālayo considera que a vulnerabilidade de mulheres viajando sem a proteção de familiares pode ajudar a explicar a hesitação atribuída a Buda. Nessa interpretação, algumas regras visavam associar a nova ordem feminina à comunidade masculina já estabelecida.

Segundo John S. Strong, Buda parece ter passado grande parte das últimas décadas de ensino em Śrāvastī, capital de Kosala.
À medida que a sanga cresceu, regras comuns de vida monástica, com preceitos éticos e aspectos cotidianos como o uso de tigelas e mantos, foram reunidas em diferentes versões do Prātimokṣa e recitadas periodicamente pela comunidade.
Os textos antigos situam Buda em cerimônias promovidas por governantes e membros de seu clã. Também relatam que Ajātaśatru tomou o trono de Mágada de seu pai, Bimbisara, e que a expansão do reino passou a afetar os territórios vizinhos.
Durante suas viagens, Buda encontrou integrantes de outras correntes śramaṇa e discutiu seus ensinamentos. O Sāmaññaphala Sutta menciona seis mestres de escolas rivais.
Alguns textos antigos apresentam Buda idoso sofrendo de dores nas costas e confiando parte da instrução aos discípulos para poder descansar. Ele teria continuado a ensinar até os últimos anos.
As fontes antigas narram uma tentativa de Devadatta, primo de Buda, de assumir a liderança da comunidade. Ele saiu da sanga com um grupo de monges e procurou formar uma ordem separada, apoiada, segundo alguns relatos, por Ajātaśatru. Textos páli também lhe atribuem tentativas frustradas de matar Buda.
As versões do Vinaia concordam em apresentar Devadatta como responsável por uma divisão, mas divergem sobre o motivo. As fontes da tradição Sthavira destacam cinco exigências de ascetismo mais rigoroso; o Vinaia Mahāsāṃghika descreve um desacordo mais amplo, que envolve a alteração de discursos e regras.
Na mesma época, segundo os relatos, Mágada, sob Ajātaśatru, entrou em guerra com Kosala, governado pelo já idoso Pasenadi. Ajātaśatru parece ter saído vitorioso; os textos descrevem a reação de Buda ao conflito.

O principal relato dos últimos dias, da morte e dos acontecimentos subsequentes é o Mahaparinibbana Sutta (DN 16). Há versões paralelas preservadas em sânscrito, chinês e tibetano.
O Mahāparinibbāṇa Sutta situa os últimos tempos de Buda em meio aos planos de Ajātaśatru de atacar a confederação Vajji; o governante envia um ministro para ouvir Buda. Este enumera condições para a prosperidade dos vajjis e as aplica, em seguida, à preservação da comunidade budista.
Buda recomenda à sanga reuniões frequentes e harmoniosas, respeito às regras e aos membros mais antigos, moderação dos desejos, apreço pela vida contemplativa e atenção à própria conduta. Apresenta ainda outras práticas que, segundo o relato, ajudariam a comunidade a perdurar.
Os textos situam a morte dos principais discípulos Sāriputta e Mahāmoggallāna pouco antes da de Buda. O Mahāparinibbāṇa Sutta descreve uma doença da qual Buda se recupera temporariamente. Ao ser perguntado por Ānanda sobre a sucessão, afirma que a comunidade deve ter o darma e a disciplina como orientação.
No discurso, Buda diz a Ānanda que ensinou sem reservar uma doutrina secreta e que não designaria alguém para governar a comunidade. Descreve a própria velhice e recomenda que os discípulos encontrem refúgio em si mesmos e no darma.

Buda recebeu sua última refeição de Cunda, um ferreiro, e adoeceu gravemente depois dela. Pediu a Ānanda que não deixasse Cunda sentir-se culpado: oferecer a última refeição a um buda seria, segundo o relato, uma ação de grande mérito. A causa da doença e sua relação com o alimento são debatidas.
Não há consenso sobre o alimento oferecido por Cunda, devido às diferentes tradições textuais e à ambiguidade de um termo páli. Na tradição teravada, costuma-se interpretá-lo como um preparo de porco; outras interpretações o identificam como cogumelos ou trufas. O debate também se relaciona a diferentes posições budistas sobre o consumo de carne.

Depois da refeição, Buda e seus companheiros seguiram viagem até que ele precisou parar em Kusinārā. Ānanda preparou-lhe um leito entre árvores sāla. Buda anunciou a proximidade do parinirvana e, segundo o relato, admitiu pessoalmente um último discípulo na ordem.
Buda entrou em meditação e morreu, alcançando o parinirvana, entendido como a cessação final dos agregados após a morte de uma pessoa liberta. O Mahāparinibbāṇa Sutta descreve a passagem pelos quatro estados de dhyāna e pelas realizações imateriais antes da morte.
Segundo o Mahāparinibbāṇa Sutta, os mallas de Kusinārā honraram o corpo de Buda com flores, música e perfumes. A cremação aguardou a chegada do monge Mahākassapa, que lhe prestou homenagem.
Após a cremação, as relíquias atribuídas a Buda foram divididas entre grupos do norte da Índia, entre eles os de Mágada, dos shakyas e dos koliyas. Foram depositadas em estupas. Séculos depois, segundo a tradição, o imperador Asoca redistribuiu parte delas por novos monumentos de seu império.
Fontes budistas situam o Primeiro Concílio Budista pouco depois da morte de Buda. Nele, sob a presidência de Mahākassapa, os ensinamentos teriam sido recitados e reunidos para transmissão. A historicidade dos relatos tradicionais sobre esse concílio é debatida.
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Cronologia: Desenvolvimento e propagação das tradições budistas (ca. 450 a.C. – ca. 1300 d.C.). | |||||||||||||||||||
| 450 a.C. | 250 a.C. | 100 d.C. | 500 d.C. | 700 d.C. | 800 d.C. | 1200 d.C. | |||||||||||||
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| Escolas iniciais do Budismo | Mahayana | Vajrayana | |||||||||||||||||
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| Budismo Teravada |
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Budismo Tibetano | |||||||||||||||||
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| Chán, Tendai, Terra Pura, Zen, Nichiren | |||||||||||||||||||
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O Mahāparinibbāṇa Sutta recomenda a visita aos lugares do nascimento, do despertar, do primeiro ensinamento e do parinirvana de Buda, sem lhes dar nomes nessa passagem. A tradição identifica esses locais, respectivamente, com Lumbini, Bodh Gaya, Sarnath e Kushinagar. Essa identificação não resolve, por si só, as questões históricas sobre os episódios narrados.
É difícil reconstruir os ensinamentos de Buda e determinar em que medida as doutrinas budistas posteriores remontam a ele. Alguns estudiosos situam a formulação de conceitos centrais, como as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo, depois de sua vida; também se discute em que medida Buda se dedicou à investigação filosófica. Os primeiros textos preservados já refletem comunidades budistas com tradições próprias.

Para investigar o budismo mais antigo, estudiosos comparam o Cânone Páli a textos preservados de outras escolas, entre elas Sarvastivada, Mulasarvastivada, Mahisasaka e Dharmaguptaka, e aos āgamas chineses. Há divergências sobre a confiabilidade desses materiais e sobre a possibilidade de reconstruir, a partir deles, um núcleo anterior à separação das escolas. Entre as posições sobre esse problema estão:
Richard Gombrich, Akira Hirakawa, Alexander Wynne e A. K. Warder consideram possível que parte dos primeiros textos preserve ensinamentos de Buda. Gombrich argumenta que a coerência e a originalidade do conjunto principal de discursos indicam a contribuição decisiva de uma pessoa. Peter Harvey também considera que alguns conteúdos podem remontar ao mestre histórico.
Outros estudiosos aceitam que os textos antigos contenham ensinamentos de Buda, mas duvidam da autenticidade de passagens específicas. Ainslie Embree observa que muitos discursos atribuídos a ele podem ter sido elaborados por mestres posteriores. Tilmann Vetter propôs que a experiência de libertação por meio da meditação ocupava o centro do ensino mais antigo.
Para Vetter, as Quatro Nobres Verdades, o Caminho Óctuplo e a originação dependente teriam sido formulados mais tarde para explicar essa experiência. Lambert Schmithausen também questiona a antiguidade da associação entre as quatro verdades e a percepção libertadora após os quatro estados de dhyāna. Johannes Bronkhorst duvida que as quatro verdades fossem centrais no budismo mais antigo.
Edward Conze considerou especulativas as tentativas de reconstruir os ensinamentos originais de Buda.

Entre os temas recorrentes nos primeiros textos estão os fatores mentais que mantêm os seres no samsara, as seis bases dos sentidos e os cinco agregados, a originação dependente, a impermanência e a ausência de um eu permanente. Os textos também descrevem um caminho de conduta ética, meditação e sabedoria orientado para a libertação. A antiguidade e a interpretação de cada formulação são debatidas.
Os textos páli teravada têm paralelos com o Śālistamba Sūtra, associado à escola Mahāsāṃghika. Há amplas semelhanças doutrinais entre o Majjhima Nikāya teravada e o Madhyama Āgama sarvastivada. Os manuscritos de Gandara também contêm ensinamentos compatíveis com o budismo antigo anterior ao maaiana.

Nos discursos páli, a ignorância e o desejo mantêm os seres no samsara, o ciclo de renascimentos. Entre os fatores que o perpetuam estão os grilhões (saṃyojana), as formações (saṅkhāra), as aflições mentais (kleśa) e os influxos (āsava). Os textos descrevem esse ciclo como sem começo discernível.
O samsara é marcado por dukkha, termo frequentemente traduzido como "sofrimento", mas que também expressa insatisfação ou incapacidade de encontrar segurança duradoura. O apego a coisas impermanentes e a busca de satisfação estável nelas contribuem para essa condição. A libertação do ciclo é apresentada como objetivo do caminho budista.
O carma relaciona ações intencionais e suas consequências, sem ser apresentado como a única causa das condições vividas: os textos também mencionam fatores físicos e ambientais. A ênfase de Buda na intenção distingue sua explicação do carma de certas concepções bramânicas e jainistas centradas no ato físico ou ritual.
As seis bases dos sentidos e os cinco agregados descrevem aspectos da experiência a partir dos quais surgem contato, sensação e apego. As bases compreendem o olho e as formas visíveis, o ouvido e os sons, o nariz e os odores, a língua e os sabores, o corpo e os objetos tangíveis, a mente e os objetos mentais. Os agregados são forma, sensação, percepção, formações mentais e consciência. Nenhum deles, segundo esses ensinamentos, constitui um eu permanente.

Nos primeiros textos, a originação dependente explica o surgimento de dukkha por condições relacionadas entre si: a fórmula "quando isto existe, aquilo surge" afirma que um fenômeno depende de outros e cessa quando deixam de existir as condições necessárias.
Na explicação da originação dependente, a ignorância leva à identificação dos processos físicos e mentais como "eu" e "meu". Daí surgem desejo e aversão, que reforçam o apego e condicionam novos renascimentos.
Muitos textos desenvolvem a fórmula numa sequência de fatores condicionados, frequentemente apresentada em doze elos, da ignorância à velhice e à morte. Há diferentes análises sobre a formação e o significado histórico dessas listas.

A análise da originação dependente é apresentada como um Caminho do Meio entre o eternalismo, que postula uma essência imutável, e o aniquilacionismo, segundo o qual a pessoa simplesmente deixa de existir na morte. Em vez de uma substância permanente, os textos descrevem uma continuidade causal de processos físicos e mentais mutáveis.
No Anattalakkhaṇa Sutta e em textos paralelos, o argumento contra um eu imutável é desenvolvido a partir dos cinco agregados. Forma, sensação, percepção, formações mentais e consciência mudam e não podem ser controladas de modo absoluto; por isso não devem ser tomados como "eu" ou "meu".
Segundo esses ensinamentos, a identificação com fenômenos mutáveis e a incompreensão de sua natureza alimentam o apego e o sofrimento. Rupert Gethin descreve a pessoa como um fluxo de fenômenos físicos e mentais: sua análise não revela um eu permanente por trás deles.
A doutrina do não eu divergia de teorias contemporâneas que postulavam uma essência pessoal imutável, como o jīva jainista e certas concepções bramânicas de ātman e puruṣa. Ainda assim, a ausência de um eu permanente não elimina, no budismo, a continuidade causal entre ações e resultados, inclusive entre vidas sucessivas.

Buda ensinou um caminho (mārga) para abandonar os fatores que prendem ao samsara e alcançar vimutti, a libertação. O Dhammacakkappavattana Sutta o apresenta como um Caminho do Meio entre a busca de prazeres sensuais e a mortificação do corpo.
As Quatro Nobres Verdades são uma apresentação conhecida desse ensinamento e incluem o Nobre Caminho Óctuplo. Outros textos resumem a prática como o abandono dos cinco obstáculos, o cultivo dos quatro fundamentos da atenção plena e o desenvolvimento dos sete fatores do despertar.
O Samaññaphala Sutta apresenta o treinamento gradual descrito nos nikāyas e āgamas, em que cada prática prepara a seguinte.
No caminho, o cultivo (bhāvanā) de qualidades benéficas inclui conduta ética (śīla), contenção dos sentidos, atenção plena (sati), compreensão clara (sampajañña) e meditação (dhyāna). Essas práticas conduzem a estados de maior concentração e equanimidade, apoiados por outras formas de treinamento.

Diferentes textos apresentam Buda como discípulo de Āḷāra Kālāma e Uddaka Rāmaputta. Alexander Wynne vê nesses mestres praticantes de ioga bramânica com ideias próximas às das Upanixades. Johannes Bronkhorst relaciona algumas austeridades atribuídas a Gautama a práticas existentes entre outros ascetas da época.
Para Richard Gombrich, os ensinamentos budistas sobre carma e renascimento reelaboram ideias anteriores presentes em fontes jainistas e bramânicas, como a Brihadaranyaka Upanishad. A concepção de samsara e a busca da libertação também circulavam em outros meios religiosos. Entre as formulações budistas estão a impermanência, a insatisfação e a ausência de um eu permanente.
K. R. Norman considera possível que o termo brahmavihāra, empregado para designar práticas de cultivo de benevolência, compaixão, alegria pelo bem alheio e equanimidade, tenha uma origem bramânica. O budismo o empregou em seu próprio contexto de prática.

Os primeiros textos apresentam a vida errante, celibatária e sem propriedade como ideal para os monges (bhikkhus). Segundo as regras, eles deveriam possuir apenas os objetos necessários, como a tigela de esmolas e os mantos, e depender de doações para viver.
As regras da vida monástica atribuídas a Buda foram preservadas nas coleções do Vinaia de diferentes escolas budistas antigas.
Monges e monjas deveriam obter alimentos por esmola e seguir restrições sobre seu armazenamento, o horário das refeições e a posse de ouro, prata ou outros objetos de valor. As regras específicas variam entre as coleções do Vinaia.

Johannes Bronkhorst observa que os brâmanes não exerciam posição dominante na região em que Buda ensinava. Os primeiros textos, contudo, mostram Buda em diálogo com concepções e práticas bramânicas, que ele por vezes reinterpretava ou criticava.
Na tradição bramânica, os Vedas eram considerados revelação de autoridade permanente (śruti). Buda não aceitou que sua autoridade ou eficácia espiritual decorresse de uma origem divina.
Buda também questionou a capacidade de ritos bramânicos de produzir libertação. No Udāna, contrapôs a pureza decorrente da verdade e da conduta moral àquela atribuída ao banho ritual. Os textos registram críticas aos sacrifícios de animais e apresentam o darma como ensinamento aberto.
Buda contestou ainda a superioridade espiritual baseada no nascimento e a ideia de que determinados grupos fossem intrinsecamente puros ou impuros.
No Vāseṭṭha Sutta, as diferenças sociais entre pessoas são associadas às ações e ocupações, não a uma natureza determinada pelo nascimento. Nessa perspectiva, a palavra "brâmane" pode designar alguém que cultivou a virtude, independentemente de sua origem familiar.
O Aggañña Sutta afirma que pessoas de qualquer classe podem agir bem ou mal e propõe uma narrativa social para a formação das classes, em desacordo com explicações que as atribuíam a uma ordem divina. A interpretação política e o alcance histórico dessas passagens são discutidos por estudiosos.

Embora a libertação espiritual seja seu objetivo principal, os primeiros textos também apresentam relatos em que a autoridade política surge da necessidade de resolver conflitos e os governantes são avaliados por sua conduta ética.
O Aggañña Sutta descreve a escolha de um governante pela comunidade e explica socialmente o surgimento das classes. Matthew J. Moore compara essa narrativa a uma teoria de contrato social, ressalvadas as diferenças de contexto e finalidade.
Textos como o Cakkavatti-Sīhanāda Sutta e o Mahāsudassana Sutta apresentam o governante ideal, o cakkavatti, cuja legitimidade depende da conduta moral e da proteção de seus súditos segundo o darma.
No Mahāparinibbāṇa Sutta, Buda enumera práticas que, segundo o relato, favoreceriam a prosperidade dos vajjis: reuniões frequentes, decisões harmoniosas e respeito às instituições. Recomenda princípios semelhantes à comunidade monástica.

Além da libertação final, os discursos páli tratam da felicidade e da organização da vida cotidiana dos leigos (sukha).
O Sigālovāda Sutta (DN 31) apresenta deveres recíprocos em seis tipos de relação: pais e filhos, professores e alunos, cônjuges, amigos, empregadores e trabalhadores, e leigos e religiosos. O texto liga o bem-estar pessoal à responsabilidade para com outras pessoas.
No Dīghajāṇu Sutta (AN 8.54), Buda associa o bem-estar nesta vida ao esforço no trabalho, à proteção do que se adquiriu, às boas amizades e ao equilíbrio entre ganhos e gastos. Outros discursos também recomendam uma vida familiar sustentada por trabalho honesto e generosidade.
O mesmo discurso relaciona o bem-estar em vidas futuras à confiança nos ensinamentos, à conduta ética, à generosidade e à sabedoria, entendida como compreensão da impermanência dos fenômenos.
Nos discursos, um renascimento favorável é associado a ações hábeis (kusala) e ao abandono de ações prejudiciais (akusala). O MN 41, por exemplo, apresenta dez modalidades de conduta ligadas ao corpo, à fala e à mente.
Os textos chamam a ação benéfica de mérito (puñña) e enumeram entre suas bases a generosidade, a conduta moral e a meditação.

No Ariyapariyesanā Sutta (MN 26), Buda conta que raspou cabelo e barba ao deixar a vida doméstica; o Dīgha Nikāya também o apresenta com a cabeça raspada, como outros monges.
Alguns textos o apresentam como belo e de aparência luminosa na juventude, mas com o corpo curvado e marcado por rugas e fraqueza na velhice.
Outras fontes budistas lhe atribuem características extraordinárias conhecidas como os trinta e dois sinais de um grande homem (mahāpuruṣa lakṣaṇa).
Segundo Anālayo, nos primeiros relatos esses sinais não eram necessariamente perceptíveis a qualquer pessoa e exigiam conhecimento para ser reconhecidos. Em textos posteriores, passaram a ser apresentados como claramente visíveis e capazes de despertar admiração.
O Dīgha Nikāya contém uma descrição dos trinta e dois sinais.

No maaiana, Shakyamuni permanece o Buda histórico que ensinou na Índia antiga, mas sua natureza e suas atividades recebem novas interpretações. Alguns textos o apresentam também numa dimensão cósmica, para além dos limites de uma única vida humana.
Em muitos sutras maaiana, Shakyamuni transmite ensinamentos a bodisatvas avançados. Em comparação com os relatos dos nikāyas e āgamas, essas obras dão maior destaque à amplitude de seu conhecimento, a seus poderes e à continuidade de sua atividade em diferentes mundos.
A cosmologia maaiana apresenta numerosos budas e terras búdicas, como no Avataṃsaka Sūtra. Shakyamuni é o buda associado ao nosso mundo, chamado Sahā, e convive nesses textos com outros budas, sem perder sua importância para as tradições que o veneram.

O Sutra do Lótus apresenta Shakyamuni como alguém que alcançou o despertar em um passado inconcebivelmente remoto. Nessa leitura, o despertar sob a árvore da bodhi é uma manifestação destinada a orientar os seres.
A doutrina do trikāya distingue três corpos de um buda: o nirmāṇakāya, sua manifestação no mundo; o saṃbhogakāya, corpo de fruição associado a uma dimensão gloriosa; e o dharmakāya, relacionado à realidade última e ao darma. As escolas maaiana interpretam essa estrutura de maneiras diferentes.

Com a formação das tradições hindus posteriores, Buda passou a ser incluído em algumas listas dos avatares de Vixnu, frequentemente como o nono. Essa incorporação ocorreu num contexto de intercâmbio e disputa entre comunidades religiosas indianas; os sentidos atribuídos a ela variam entre os textos hindus.
Os ensinamentos budistas não reconhecem a autoridade dos Vedas nem a concepção bramânica de Brahman-Ātman. Por isso, o budismo costuma ser classificado, na terminologia filosófica indiana, como uma escola nāstika, em contraste com escolas que aceitam a autoridade védica.
A história cristã de Barlaão e Josafá deriva de narrativas sobre a vida de Buda transmitidas por diversas línguas e culturas. O nome Josafá remonta a bodisatva por intermédio de formas árabes e georgianas. Josafá chegou a figurar em edições do Martirológio Romano; sua origem narrativa budista foi reconhecida posteriormente.

A presença budista na Transoxiana e no Coração, regiões da Ásia Central que mais tarde integraram o mundo islâmico, deixou referências a suas doutrinas e comunidades em obras de autores muçulmanos.
Fontes islâmicas mencionam Buda sob diferentes nomes, entre eles Budd e Shakyamuni. Autores como Al-Jahiz, Al-Masudi, Albiruni e Al-Shahrastani trataram de seus seguidores e de suas crenças, com graus variados de precisão.
Ao situar Buda em suas próprias classificações religiosas, Ibn Hazm e outros autores muçulmanos apresentaram relatos nem sempre compatíveis com as doutrinas budistas, sinal da transmissão indireta dessas informações.
Rashid al-Din Hamadani dedicou parte do Jāmiʿ al-tawārīkh às crenças budistas no contexto do Ilcanato. Em sua interpretação, identificou Shakyamuni como um profeta monoteísta.
No século XX, Muhammad Hamidullah sugeriu que a figueira mencionada na sura 95 do Alcorão aludiria ao local do despertar de Buda e permitiria interpretá-lo como profeta. Essa leitura é uma hipótese particular, não uma identificação expressa no texto corânico.

Na Fé bahá'í, Buda é reconhecido como uma das manifestações de Deus.
Algumas tradições chinesas de contato entre taoismo e budismo identificaram Buda com Lao Zi ou narraram que ele seria sua reencarnação.
No maniqueísmo, Buda figura entre os mestres religiosos anteriores a Mani.
Na tradição siquista, o Chaubis Avtar, obra incluída no Dasam Granth e tradicionalmente atribuída a Guru Gobind Singh, menciona Buda entre as encarnações de Vixnu. A autoria de partes dessa coleção é debatida.
Uma versão portuguesa do século XIV da história de Barlaão e Josafá, intitulada Vida do honrado infante Josaphate filho del rey Avenir, transformou elementos da biografia de Buda numa narrativa cristã. Trata-se de uma transmissão indireta de sua história, não de um registro de prática budista no Portugal medieval.
Nas cartas sobre as disputas de Yamaguchi de 1551 e 1552, missionários cristãos ligados à expansão portuguesa descreveram debates com monges japoneses; essas descrições repercutiram em crônicas portuguesas dos séculos XVI e XVII. São testemunhos do encontro e das interpretações dos missionários, não exposições neutras dos ensinamentos budistas. A figura de Buda também foi interpretada na literatura portuguesa moderna: Miguel Real examina sua presença em A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós, distinguindo a perspectiva do personagem literário de uma adesão do escritor ao budismo.
Em Portugal, o mestre zen Taisen Deshimaru visitou o país em 1971 e 1972; posteriormente, escolas zen e tibetanas se estabeleceram e a União Budista Portuguesa foi criada em 1997 para reunir grupos de diferentes tradições. Desse modo, o estudo e a prática dos ensinamentos atribuídos a Buda passaram a integrar a vida religiosa do país por vias distintas das antigas narrativas cristãs e missionárias.

Com a imigração japonesa iniciada em 1908, imigrantes e seus descendentes mantiveram tradições religiosas diferentes, entre elas o budismo da Terra Pura, o zen e correntes ligadas a Nitiren. Ao longo do século XX, também se desenvolveram grupos frequentados por pessoas sem ascendência japonesa. Pesquisadores distinguem, para compreender essas trajetórias, o budismo ligado à imigração daquele ligado à adesão de novos praticantes.
Em comunidades budistas de origem japonesa no Brasil, manter atividades no idioma dos imigrantes tornou-se difícil quando muitos descendentes já não o falavam; líderes religiosos também apontaram a necessidade de traduzir textos para o português. A continuidade das instituições e o número de adeptos declarados variavam entre as vertentes budistas, e a visibilidade de Buda na cultura brasileira não indica crescimento uniforme de todas as comunidades.
As primeiras representações artísticas associadas a Buda em Bharhut e Sanchi frequentemente são simbólicas: um trono vazio, pegadas, a roda do darma, uma árvore da bodhi ou um cavalo sem cavaleiro indicam episódios de sua vida sem mostrar sua figura humana. A interpretação desse repertório como um período inteiramente "anicônico" é debatida.
Representações humanas de Buda de pé, sentado com as pernas cruzadas ou deitado tornaram-se frequentes a partir dos primeiros séculos da era comum, sobretudo nas tradições artísticas de Gandara e Mathura, e se difundiram por diferentes regiões da Ásia.


Pelo que sabemos, o homem que veio a ser chamado de Buda, ou Desperto, não era cético nem adepto de uma fé cega em questões religiosas e filosóficas.; Seager, Richard Hughes (2012). Buddhism in America. [S.l.]: Columbia University Press. p. 19. ISBN 978-0-231-15973-9.
Em decorrência de suas descobertas, Sidarta ficou conhecido como Buda, "o desperto" ou "o iluminado".; Davis, Richard H. (2020). «Religions of India in Practice». In: Lopez, Donald S. Asian Religions in Practice: An Introduction. [S.l.]: Princeton University Press. p. 22. ISBN 978-0-691-21478-8.
Os budistas seguem o caminho dos budas, seres que despertaram plenamente para a natureza das coisas. Na era histórica atual, o Desperto foi o kshatriya Sidarta Gautama, nascido perto do Himalaia por volta de 566 a.C.
A mais antiga representação antropomórfica de Buda conhecida até agora, o relicário de Bimaran
Buda
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