
Travestimento é a prática de usar vestuário ou acessórios tradicionalmente associados a um género diferente do da pessoa, de acordo com as convenções sociais e culturais de determinado contexto. As designações travestismo e transvestismo também têm sido utilizadas, embora tenham adquirido sentidos distintos na literatura histórica e sexológica.
O travestimento pode ocorrer por diferentes motivos, incluindo a expressão pessoal, o disfarce e a representação artística, não permitindo, por si só, determinar a identidade de género ou a orientação sexual de uma pessoa. Em contextos de espectáculo, pode integrar práticas de transformismo ou arte drag, cujos significados e relações variam entre diferentes tradições culturais.
Na psiquiatria, o travestimento não constitui, por si só, uma perturbação mental. A perturbação transvéstica, descrita no DSM-5-TR, corresponde a uma situação específica em que a excitação sexual intensa e recorrente associada ao travestimento é acompanhada de sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo funcional, durante pelo menos seis meses. A maioria das pessoas que pratica o travestimento não preenche estes critérios diagnósticos.
O vocabulário relacionado com o travestimento antecede a sua utilização pela sexologia do século XX. O verbo francês travestir já constava da quarta edição do Dictionnaire de l'Académie française, publicada em 1762, com o significado de disfarçar uma pessoa através do vestuário associado a outro sexo ou condição social. Segundo o linguista Paolo D'Achille, a expressão francesa en travesti, aplicada à representação teatral de personagens por intérpretes de outro sexo, encontra-se documentada pelo menos desde 1824. Os vocábulos portugueses travestir e travesti têm igualmente origem francesa.
O emprego de travesti está documentado na imprensa de língua portuguesa desde o século XIX, tanto em representações teatrais como em festividades carnavalescas. Em 26 de Março de 1888, a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, anunciou uma representação na qual a cantora Suzanne Castera desempenharia o papel masculino de André, identificado como travesti, na opereta La mascotte. No Funchal, o Diário de Notícias de 27 de Fevereiro de 1900, numa notícia intitulada «Soirée masquée», descreveu um participante numa festa de Carnaval como «um novel bacharel, travesti de Rainha Victoria», referindo-se a um homem que se apresentou caracterizado como a rainha Vitória. Em Lisboa, o Diário Illustrado de 2 de Maio de 1902 utilizou igualmente a palavra ao descrever a interpretação do pajem Oscar pela cantora Adelina Trombem, na ópera Um Baile de Máscaras, de Giuseppe Verdi.
Em 1910, o médico e sexólogo alemão Magnus Hirschfeld introduziu a designação alemã Transvestit como categoria da investigação sexológica, na obra Die Transvestiten. O conceito procurava distinguir o travestimento da homossexualidade, abrangendo experiências que não se limitavam à apresentação através do vestuário. A investigação de Hirschfeld incluiu pessoas com diferentes orientações sexuais e formas de expressão e identificação relacionadas com o género. A categoria de Hirschfeld não foi, contudo, aplicada uniformemente a homens e mulheres. A historiadora Geertje Mak (1998), ao analisar os casos de quatro mulheres conhecidas por Hirschfeld, observou que apenas uma figurava nos relatos de casos da obra de 1910. Segundo Mak, a utilização de vestuário masculino por mulheres e os conflitos destas com as autoridades não eram interpretados segundo os mesmos critérios aplicados aos homens. A classificação sexológica de Hirschfeld constitui um desenvolvimento específico da história médica do travestimento, não correspondendo à origem da palavra francesa travesti, dos seus usos noutras línguas ou da própria prática social. As designações utilizadas na documentação histórica também não permitem atribuir automaticamente identidades de género contemporâneas às pessoas então descritas.

As práticas actualmente descritas como travestimento encontram-se documentadas em diferentes períodos históricos, com funções relacionadas com o disfarce, a participação em actividades socialmente restringidas, a representação religiosa e a contestação de convenções sociais. A interpretação desses exemplos exige distinguir o uso do vestuário das identidades atribuídas retrospectivamente às pessoas envolvidas.
Na Roma Antiga, um episódio de travestimento é referido a propósito do político Públio Clódio Pulcro. Segundo o relato de Plutarco, em 62 a.C., Clódio entrou disfarçado de tocadora de lira numa celebração dos mistérios da deusa Bona Dea, realizada numa residência associada a Júlio César. Como os rituais eram reservados a mulheres, teria utilizado vestuário feminino para conseguir entrar sem ser reconhecido. Descoberta a sua presença, o episódio originou um escândalo religioso e político. A natureza e as motivações da acção foram objecto de diferentes interpretações historiográficas, incluindo a hipótese de provocação política deliberada.
Na literatura hagiográfica cristã, diversas narrativas apresentam mulheres que adoptaram vestuário masculino e, por vezes, viveram em comunidades religiosas destinadas a homens. Entre os exemplos encontram-se as histórias das santas Pelágia, Marina e Eugénia, nas quais o disfarce podia representar uma forma de ascetismo, de acesso à vida monástica ou de superação das distinções sociais associadas ao sexo. A historiadora Frédérique Villemur analisou estes relatos como manifestações de transgressão e redefinição simbólica dos papéis de género. A sua natureza hagiográfica, contudo, não permite considerar todos os episódios narrados como acontecimentos históricos comprovados.

A tradição hagiográfica inclui também a figura lendária de Vilgeforte, ou Wilgefortis, apresentada em algumas versões como filha de um rei de Portugal. Segundo a narrativa, teria feito voto de castidade e, para evitar um casamento imposto pelo pai, adquirido milagrosamente uma barba, acabando por ser condenada à crucificação. A sua representação como mulher barbada e crucificada adquiriu particular expressão na arte religiosa do final da Idade Média. O investigador Lewis Wallace analisou esta figura enquanto exemplo de transformação e ambivalência de género na iconografia e nas práticas devocionais cristãs.
Durante a Guerra dos Cem Anos, Joana d'Arc (c. 1412–1431) utilizou vestuário masculino, cabelo curto e armadura enquanto acompanhava e comandava forças francesas. Ao contrário de outras pessoas que adoptaram vestuário masculino para ocultar o seu sexo, Joana não procurou, de modo geral, fazer-se passar por homem: a sua condição de mulher era publicamente conhecida. Nos interrogatórios do julgamento de 1431, afirmou que o uso dessas roupas correspondia à vontade divina. O vestuário tornou-se um dos elementos da acusação religiosa contra Joana. Depois de ter aceitado temporariamente vestir roupas femininas, voltou a adoptar vestuário masculino enquanto se encontrava presa. A sua decisão foi interpretada pelos juízes como um sinal de reincidência na heresia. Os testemunhos e a historiografia também relacionam a utilização dessas roupas com as condições do cativeiro e a possibilidade de protecção contra agressões sexuais, embora a interpretação das suas motivações permaneça debatida.
Durante o cerco de Ceuta, em Agosto de 1418, mulheres residentes na praça sob domínio português participaram na sua defesa, transportando pedras e munições para os combatentes. Na Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, Gomes Eanes de Zurara refere que, quando os atacantes se aproximavam, algumas mulheres trocavam as suas roupas por «abetos baroys» («hábitos varonis») e se posicionavam junto às portas das muralhas, munidas de lanças e escudos, ao lado dos homens. Segundo o cronista, os sitiantes muçulmanos não tinham conhecimento de que algumas das pessoas armadas eram mulheres. Noutro momento do cerco, Zurara relata a participação de mulheres que combateram «sem avitos mudados», isto é, sem mudar de vestuário. Nomeia Leonor Afonso, casada com Lopo Martins, e Catarina de Santiago, a quem atribui a morte de combatentes muçulmanos, bem como a mulher de Rui Gomes, que teria defendido uma passagem nas muralhas ao lado do marido, tendo ambos sido feridos. A crónica documenta várias situações de participação feminina no combate, com e sem adopção de vestuário masculino.

No Portugal quinhentista, o uso de vestuário associado a outro sexo era objecto de restrições legais, embora as Ordenações Manuelinas previssem uma excepção para festas e jogos. A historiadora Isabel Drumond Braga identificou cartas de perdão régio respeitantes, entre outros casos, a Leonor, detida em Lisboa em 1522 por utilizar vestuário masculino durante a noite; a João da Rocha, marinheiro encontrado com roupas femininas em 1549, que alegou participar numa festividade; e a Isabel Rodrigues Taborda, moradora em Campo Maior, condenada em 1554 por circular à noite com traje masculino, tendo posteriormente obtido perdão régio. O estudo documenta também ocasiões festivas em que homens representavam mulheres em danças, nomeadamente durante a viagem da princesa Maria Manuela para Castela em 1543.
Entre os casos registados pela Inquisição de Lisboa encontra-se Vitória do Benim, pessoa africana escravizada, oriunda do Reino do Benim, trazida para Ponta Delgada, nos Açores, em 1556 e posteriormente levada a Lisboa. Designada António por outras pessoas, adoptou o nome Vitória, apresentando-se como mulher. Segundo os testemunhos judiciais estudados pelo historiador James H. Sweet, combinava peças de vestuário então associadas a homens e mulheres, incluindo uma espécie de saia aberta à frente, um gibão e um pano na cabeça, sobre o qual usava um chapéu. Era conhecida por procurar clientes masculinos para serviços sexuais. Após ser detida pela Inquisição sob acusação de sodomia, foi sujeita a um exame físico destinado a determinar o seu sexo e condenada, em 1557, a servir perpetuamente nas galés reais. Sweet salienta que interpretar o processo de Vitória apenas como testemunho de relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo desconsidera a condição de escravidão, a origem africana e os diferentes significados atribuídos ao vestuário e aos gestos, sugerindo possíveis relações com práticas de cura, embora as fontes conhecidas não permitam demonstrar que essa fosse a explicação da apresentação de Vitória.
Em Outubro de 1566, durante o Saque do Funchal por corsários franceses, Francisco Gonçalves da Câmara, que governava a capitania na ausência do capitão-donatário, encontrava-se entre as mulheres reunidas numa sala da fortaleza da cidade. Segundo Gaspar Frutuoso, o comandante francês ameaçou matá-lo, mas as mulheres intercederam em sua defesa. Na mesma sala, um frade idoso e sem barba, identificado apenas como Medina, escapou à violência dos assaltantes «vestido e toucado como mulher», confundindo-se com o grupo feminino.

Durante o Renascimento, as festas e mascaradas das cortes europeias podiam incluir a utilização de vestuário associado a outro sexo. Um dos casos referidos pelas fontes históricas é o de Henrique III de França (1551–1589), cuja apresentação pessoal e cujos trajes foram objecto de comentários e sátiras políticas. Em Fevereiro de 1577, o cronista Pierre de L'Estoile relatou que o rei participava em torneios, bailes e mascaradas vestido de mulher, utilizando, entre outros acessórios, golilhas e colares de pérolas semelhantes aos usados pelas damas da corte. A historiadora Katherine B. Crawford assinala, contudo, que a veracidade do travestimento em determinadas ocasiões não pode ser estabelecida com segurança, uma vez que os relatos surgiram num contexto de conflito político e religioso, no qual o vestuário do rei e dos seus favoritos, conhecidos como mignons, era utilizado pelos seus adversários para questionar a sua masculinidade e autoridade. A documentação deve, por isso, ser interpretada no contexto das práticas festivas e da propaganda política da época, sem permitir conclusões directas sobre a identidade de género ou a orientação sexual do monarca.

Na primeira metade do século XVII, Catalina de Erauso, natural de São Sebastião, abandonou o convento onde fora educada, sem ter professado votos religiosos, adoptando vestuário masculino. Utilizando nomes como Alonso Díaz Ramírez de Guzmán, passou da Península Ibérica para territórios coloniais espanhóis na América, onde exerceu actividades comerciais e serviu nas forças militares da Coroa no Vice-Reino do Peru e na Capitania-Geral do Chile. Na década de 1620, o percurso de Erauso obteve reconhecimento das autoridades espanholas, incluindo uma pensão pelos serviços militares, e recebeu autorização do papa Urbano VIII para continuar a utilizar vestuário masculino. A historiografia examina esta trajectória em relação às concepções de sexo e género da Idade Moderna, distinguindo os acontecimentos documentados das versões literárias e autobiográficas posteriormente difundidas, cuja autoria e exactidão têm sido debatidas.

No século XVIII, a inglesa Hannah Snell (1723–1792) prestou serviço militar apresentando-se como homem, utilizando o nome de James Gray. Durante a década de 1740 serviu como soldado e marinheiro, ocultando a sua condição feminina para integrar actividades militares então reservadas a homens. A sua experiência tornou-se conhecida publicamente depois de revelar a sua identidade, sendo divulgada em relatos impressos e gravuras. O caso ilustra o travestimento como meio de acesso a funções profissionais socialmente restringidas às mulheres.
Em 1766, a naturalista francesa Jeanne Baret integrou a expedição de circum-navegação comandada por Louis Antoine de Bougainville, como assistente do botânico Philibert Commerson. Como a presença de mulheres era proibida nos navios da marinha francesa, Baret embarcou vestida como homem, utilizando o nome de Jean Baret. Durante a viagem participou na recolha de espécimes botânicos e viria a tornar-se a primeira mulher conhecida a completar uma circum-navegação do globo. O seu travestimento constituiu, neste contexto, um meio de aceder a uma actividade profissional e científica de que as mulheres estavam excluídas.

Entre 1839 e 1843, durante as chamadas revoltas de Rebecca, no sudoeste do País de Gales, grupos de agricultores e trabalhadores protestaram contra as portagens cobradas nas estradas, atacando e destruindo postos de cobrança. Muitos dos participantes utilizavam saias, toucas e outros elementos de vestuário feminino, apresentando-se colectivamente como «Rebecca e as suas filhas». O travestimento integrava a simbologia dos protestos, associados à representação de uma personagem feminina denominada Rebecca. A historiadora Rhian E. Jones analisou estas práticas como parte da cultura popular e dos rituais de contestação social, examinando os significados atribuídos ao vestuário feminino, à inversão simbólica de papéis e à representação pública dos manifestantes.

Na Madeira, durante os tumultos de Agosto de 1846, o médico e missionário presbiteriano escocês Robert Reid Kalley abandonou inicialmente a sua residência, no Funchal, disfarçado de camponês, refugiando-se na Quinta dos Pinheiros. Para sair da ilha, vestiu roupas femininas, sendo colocado numa rede coberta com um lençol, de maneira a fazer-se passar por uma mulher enferma. Segundo o testemunho de um acompanhante, publicado por Herman Norton em 1849, um dos carregadores chegou a levantar o lençol e a desconfiar da identidade da pessoa transportada; para tentar dissipar as suspeitas, o acompanhante introduziu na rede um frasco de água-de-colónia. O grupo conseguiu alcançar o porto, onde Kalley embarcou no vapor britânico Forth. O disfarce feminino e o transporte em rede são igualmente referidos num estudo posterior sobre a presença protestante na Madeira.

O travestimento teatral consiste na interpretação de personagens de um género por actores ou cantores de outro género, recorrendo a figurinos, caracterização e técnicas de representação. Esta prática possui antecedentes em diferentes tradições teatrais, sendo necessário distinguir as convenções de distribuição de papéis das identidades pessoais dos intérpretes. Na Grécia Antiga, as representações dramáticas de Atenas recorriam a actores masculinos para interpretar personagens masculinas e femininas, com a utilização de máscaras e figurinos específicos. Figurilhas e representações de actores cómicos documentam o uso de máscaras e vestuário para a identificação de diferentes tipos de personagens. No teatro romano, a participação feminina variava consoante os géneros de espectáculo. Embora os papéis da comédia e da tragédia fossem geralmente representados por homens, existiam também actrizes que participavam em espectáculos de mimo, como a intérprete Citéride, activa no século I a.C.
No teatro isabelino inglês, dos séculos XVI e XVII, as companhias profissionais eram constituídas por homens, sendo as personagens femininas habitualmente representadas por rapazes ou jovens actores. Nas peças de William Shakespeare, personagens como Julieta, Ofélia e Desdémona eram interpretadas por intérpretes masculinos. A prática correspondia a uma convenção do teatro profissional inglês, não existindo uma proibição legal geral expressa que impedisse as mulheres de actuar em todos os tipos de espectáculo. Na Itália, por exemplo, as mulheres participavam profissionalmente na commedia dell'arte, documentando-se, por exemplo, um contrato de representação com uma actriz em 1564. Após a Restauração da monarquia inglesa, em 1660, as mulheres começaram a interpretar regularmente personagens femininas nos teatros profissionais ingleses, registando-se em dezembro de 1660 a primeira representação de uma actriz nesses palcos, numa encenação de Otelo, no papel de Desdémona.

No Japão, a tradição do teatro kabuki inclui os onnagata, actores especializados na interpretação de personagens femininas. Esta forma de representação, desenvolvida historicamente num contexto em que as mulheres estiveram impedidas de participar em determinados espectáculos, possui técnicas próprias de interpretação e apresentação cénica. A representação de uma personagem feminina não implica, por si só, uma identidade de género específica do intérprete.
Na ópera, consolidaram-se os chamados papéis em calças (trouser roles), nos quais personagens masculinas são interpretadas por cantoras, frequentemente mezzo-sopranos. Entre os exemplos encontram-se Cherubino, em Le nozze di Figaro, de Wolfgang Amadeus Mozart, o pajem Óscar, em Un ballo in maschera, de Giuseppe Verdi, e Octavian, em Der Rosenkavalier, de Richard Strauss. Estes papéis podem representar jovens ou adolescentes masculinos, embora o recurso a vozes femininas não se limite a personagens dessas idades.
Na tradição teatral europeia, o travestimento incluiu igualmente a interpretação de personagens masculinas por actrizes. Em 20 de Maio de 1899, a actriz francesa Sarah Bernhardt interpretou a personagem masculina de Hamlet numa representação realizada no teatro com o seu nome, em Paris. A interpretação constitui um exemplo da utilização do travestimento cénico por uma actriz que procurou desempenhar um papel tradicionalmente associado a intérpretes masculinos.
O travestimento constitui um recurso narrativo utilizado no cinema e na televisão em histórias de disfarce, comédia, representação artística e transgressão de restrições sociais. As personagens podem adoptar vestuário associado a outro género para ocultar a sua identidade, desempenhar um papel profissional ou participar em situações de representação e inversão de papéis. Noutras produções, o travestimento resulta da caracterização dos próprios intérpretes para representar personagens de outro género, sem que estas utilizem necessariamente um disfarce dentro da narrativa.
Nas comédias de enganos, o travestimento constitui um recurso narrativo associado ao disfarce temporário e à troca ou ocultação de identidades, podendo originar equívocos, situações cómicas e conflitos românticos. O investigador R. S. White (2016) relacionou estes mecanismos com as tradições da comédia teatral, incluindo as obras de William Shakespeare, e a sua influência no cinema. Darren Waldron (2006), por sua vez, analisou o denominado temporary transvestite film, um modelo de comédia em que o disfarce de género permite explorar convenções sociais e expectativas relacionadas com a sexualidade e a apresentação pessoal.
No cinema mudo, Charlie Chaplin utilizou repetidamente o travestimento como recurso cómico. Na curta-metragem A Woman (1915), a sua personagem disfarça-se de mulher para continuar a encontrar-se com uma jovem, apesar da oposição do pai desta. Chaplin já havia anteriormente interpretado personagens femininas nas comédias A Busy Day e The Masquerader, ambas de 1914.

Em Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, 1959), realizado por Billy Wilder, dois músicos, interpretados por Tony Curtis e Jack Lemmon, testemunham um homicídio cometido por criminosos. Para escapar à perseguição, disfarçam-se de mulheres , integrando uma orquestra exclusivamente feminina. O travestimento é utilizado como elemento central do enredo e da comédia de identidades trocadas.
Em A Grande Paródia (1966), realizado por Gérard Oury, o aviador britânico Alan MacIntosh, interpretado por Mike Marshall, adopta vestuário feminino durante a fuga à perseguição alemã. Numa sequência junto de uma entrada para os esgotos de Paris, apresenta-se como mulher para atrair homens, permitindo aos seus companheiros apoderarem-se das roupas destes para prosseguirem a viagem disfarçados. O travestimento funciona simultaneamente como recurso cómico e disfarce temporário.
Em Thoroughly Modern Millie (1967), comédia musical realizada por George Roy Hill e protagonizada por Julie Andrews, Jimmy Smith, interpretado por James Fox, disfarça-se de jovem mulher órfã para se alojar no Hotel Priscilla, na Nova Iorque da década de 1920, e investigar o desaparecimento de várias hóspedes. O plano acaba por falhar quando a proprietária do hotel, envolvida no rapto das jovens, consegue drogar e capturar o próprio Jimmy. O travestimento é aqui um disfarce temporário para obter acesso a um espaço reservado somente a mulheres, e assim descobrir as actividades criminosas da proprietária.
Em Cabaret (1972), realizado por Bob Fosse e ambientado na Berlim de 1931, a representação da vida artística do Kit Kat Klub inclui a personagem Elke, interpretada por Ricky Renée, artista com carreira na imitação feminina em cabarés, cuja participação integra as representações de género presentes no ambiente de espectáculo retratado pelo filme.

Em The Rocky Horror Picture Show (1975), realizado por Jim Sharman, Tim Curry interpreta o Dr. Frank-N-Furter, que se apresenta no próprio musical como transvestite, recorrendo a corpetes, meias de rede, maquilhagem e outros elementos de vestuário. A obra deu origem a uma tradição de sessões com participação do público, entre o qual espectadores que se caracterizam como as personagens do filme, incluindo em travesti.
Em A Gaiola das Malucas (La Cage aux folles, 1978), de Édouard Molinaro, Michel Serrault interpreta Albin, conhecido nos espectáculos de um clube de transformismo de Saint-Tropez como Zaza Napoli. Quando o filho do seu companheiro Renato, interpretado por Ugo Tognazzi, anuncia o casamento com a filha de uma família conservadora, Albin apresenta-se com vestuário feminino para se fazer passar pela mãe do jovem durante a visita dos futuros sogros. A comédia, adaptada da peça homónima de Jean Poiret, combina o transformismo artístico com o disfarce e os equívocos familiares.

No cinema brasileiro, a actriz Lady Francisco interpretou Luís, um homem homossexual de meia-idade, no filme Os Rapazes das Calçadas (1981), realizado por Levi Salgado. Para construir a aparência masculina da personagem, foram utilizados bigode, peruca, vestuário e outros acessórios, enquanto as suas falas foram dobradas pelo actor André Filho. Os investigadores Eugênio Helyantus Stumm e Amadeu de Oliveira Weinmann analisaram a caracterização e a utilização dos enquadramentos cinematográficos na construção da personagem, destacando o papel dos recursos visuais e sonoros na representação de um homem por uma actriz.
Em Tootsie (1982), de Sydney Pollack, Dustin Hoffman interpreta Michael Dorsey, um actor nova-iorquino com dificuldades em conseguir trabalho devido à sua reputação de exigente e conflituoso. Sob a identidade feminina de Dorothy Michaels, consegue interpretar Emily Kimberly na telenovela fictícia Southwest General, tornando-se uma figura popular junto do público. A personagem reage ao tratamento paternalista dispensado às actrizes e estabelece relações pessoais que tornam progressivamente difícil manter o disfarce. Segundo o crítico Michael Sragow, o filme utiliza a representação de Dorothy para explorar a relação entre os papéis desempenhados pelos actores, as condições de trabalho e as expectativas sociais relativas ao género.
Em Victor/Victoria (1982), realizado por Blake Edwards, a cantora britânica Victoria Grant, interpretada por Julie Andrews, procura trabalho nos espectáculos de Paris durante a década de 1930. Com a ajuda do artista Carroll «Toddy» Todd, interpretado por Robert Preston, assume a identidade do conde polaco Victor Grazinski, anunciado como um homem especialista em imitação feminina. No palco, apresenta-se novamente como uma mulher, produzindo uma sucessão de representações: uma mulher que se faz passar por homem, que por sua vez se apresenta como mulher. O êxito do espectáculo e a aproximação ao empresário King Marchan, interpretado por James Garner, complicam a manutenção do disfarce. O argumento retoma o do filme alemão Viktor und Viktoria (1933), realizado por Reinhold Schünzel, que também serviu de base ao filme britânico First a Girl (1935).
Em Privates on Parade (1983), realizado por Michael Blakemore a partir da peça de Peter Nichols, Denis Quilley interpreta o capitão interino Terri Dennis, membro de uma unidade de espectáculos das forças britânicas que actua na Malásia, em 1948. Nos números musicais, Terri imita Carmen Miranda, Marlene Dietrich e uma das Andrews Sisters, recorrendo a trajes e caracterização femininos. Outros integrantes da companhia também actuam em travesti, incluindo em números colectivos de dança. O travestimento de Terri não se limita aos números de palco, surgindo fora do espectáculo na cena final caracterizado como mulher, com um uniforme militar feminino, fazendo par com John Cleese.
Em Yentl (1983), realizado e protagonizado por Barbra Streisand, uma jovem judia adopta vestuário e uma identidade masculinos, apresentando-se como Anshel, para conseguir frequentar uma escola de estudos religiosos reservada a homens. No filme de aventura Sahara (1983), protagonizado por Brooke Shields, a personagem Dale Gordon disfarça-se de homem para poder participar numa corrida automóvel através do deserto do Saara, reservada a concorrentes masculinos, numa narrativa situada em 1927.
No filme argentino Esperando la carroza (1985), dirigido por Alejandro Doria, o actor Antonio Gasalla interpretou Mamá Cora, uma mulher idosa que é a figura central da comédia familiar. Ao contrário das personagens que se disfarçam dentro do enredo, a representação resulta da escolha de um actor masculino para desempenhar uma personagem feminina.

Em Hairspray (1988), de John Waters, o artista Divine interpretou Edna Turnblad, mãe da protagonista Tracy, desempenhando também um papel masculino, Arvin Hodgepile. Na adaptação de Hairspray para a Broadway, estreada em 2002, a personagem Edna foi interpretada por Harvey Fierstein. A versão cinematográfica do musical, Hairspray (2007), de Adam Shankman, manteve a escolha de um intérprete masculino para a personagem, desta vez John Travolta, cuja caracterização envolveu maquilhagem e próteses corporais.
Em Tacones lejanos (1991), de Pedro Almodóvar, Miguel Bosé interpreta o juiz Domínguez, que também se apresenta em espectáculos sob o nome de Letal, imitando a cantora Becky del Páramo, interpretada por Marisa Paredes. O enredo sobrepõe o transformismo cénico à utilização do disfarce em diferentes identidades assumidas pela personagem.
Em Mrs. Doubtfire (1993), realizado por Chris Columbus, Robin Williams interpreta Daniel Hillard, um actor divorciado que assume a identidade de uma ama escocesa, Euphegenia Doubtfire, para trabalhar na casa da antiga mulher e continuar a conviver com os filhos. A mudança de vestuário, voz e aparência constitui o principal disfarce da personagem.
Em Casa de Doidas (1996), realizado por Mike Nichols, Nathan Lane interpreta Albert, artista de um clube de transformismo de Miami, enquanto Robin Williams interpreta o seu companheiro Armand. Adaptação norte-americana de A Gaiola das Malucas (1978) e da peça de Jean Poiret, o filme conserva a tentativa de apresentar uma família convencional aos pais conservadores da noiva do filho de Armand, recorrendo ao disfarce feminino de Albert.
Em Sorority Boys (2002), realizado por Wallace Wolodarsky e distribuído em Portugal com o título Quando Elas... São Eles, três estudantes universitários, interpretados por Barry Watson, Michael Rosenbaum e Harland Williams, disfarçam-se de mulheres para conseguirem alojamento numa residência universitária feminina. Os protagonistas assumem as identidades de Daisy, Adina e Roberta, respectivamente, tornando o travestimento o principal recurso narrativo da comédia. A história explora também as diferenças de tratamento social entre homens e mulheres, através das experiências dos três estudantes enquanto se fazem passar por mulheres.
Em Má Educação (La mala educación, 2004), também de Almodóvar, Gael García Bernal interpreta Juan, que adopta o nome artístico Ángel e representa Zahara, uma personagem feminina, numa narrativa cinematográfica inserida no próprio enredo. A obra combina travestimento de interpretação, representação artística e histórias relacionadas com identidade de género, sem que estes elementos constituam situações equivalentes.
No cinema brasileiro, Ary Fontoura interpretou Dona Dina Rocha, mãe de três filhos, na comédia A Guerra dos Rocha (2008), realizada por Jorge Fernando e baseada na obra Esperando la carroza, de Jacobo Langsner. A composição da personagem exigia peruca, maquilhagem e outros elementos de caracterização; segundo o actor, a preparação podia ocupar cerca de cinco horas. Assim como no filme argentino de 1985, o travestimento decorre da interpretação de uma personagem feminina por um actor, e não de um disfarce utilizado pela própria personagem.

No cinema brasileiro, Paulo Gustavo interpretou Dona Hermínia, uma mãe de dois filhos, na comédia Minha Mãe É uma Peça (2013), adaptada da peça teatral homónima criada pelo actor e inspirada na sua própria mãe. A apresentação feminina é construída pelo intérprete, não correspondendo a um disfarce adoptado pela personagem dentro do enredo. Dona Hermínia regressou nas sequelas Minha Mãe É uma Peça 2 (2016) e Minha Mãe É uma Peça 3 (2019), mantendo a interpretação de uma personagem feminina por um actor masculino ao longo de três produções cinematográficas.
Em Absolutely Fabulous: O Filme (2016), realizado por Mandie Fletcher, Joanna Lumley interpretando Patsy Stone, assume uma aparência masculina e se apresenta como «Pat» para conquistar e casar com uma baronesa muito rica durante uma estadia em França. O travestimento é utilizado como recurso de disfarce e comédia de identidades trocadas.
Em Monty Python's Flying Circus (1969–1974), vários integrantes dos Monty Python interpretavam personagens femininas em sketches, especialmente as chamadas pepperpots, mulheres mais velhas caracterizadas por vestidos, perucas e vozes caricaturais. Terry Jones destacou-se nestes papéis. A representação feminina não esteve exclusivamente a cargo dos actores masculinos, contando também com actrizes, em particular Carol Cleveland.
O humorista britânico Benny Hill recorreu igualmente ao travestimento em sketches de The Benny Hill Show. Uma reportagem da revista TV Times de Abril de 1970 identificou-o a interpretar duas personagens femininas, a apresentadora Katie Boiler e a cantora Mireille Matante, num programa preparado para o festival televisivo de Montreux. O recurso voltaria a aparecer no projecto Benny Hill's World Tour, filmado no início da década de 1990.

No Brasil, Jô Soares interpretou personagens femininas no programa humorístico Viva o Gordo, da TV Globo, como Vovó Naná, uma idosa que tentava conseguir trabalho na televisão; Bô Francineide, uma actriz de pornochanchadas; e Dalva Mascarenhas, apresentada como uma mulher que usava fato masculino, bigode e voz grave, descrevendo-se como feminina e vaidosa. As personagens recorriam ao figurino, à caracterização e à voz para produzir efeitos cómicos e sátira social.

Em Portugal, Herman José interpretou várias personagens femininas nos seus programas de humor. Em O Tal Canal (1983–1984), apresentou Filipa Vasconcelos, uma paródia à cozinheira Filipa Vacondeus, e representou outras figuras femininas, como Norah Hall e Jaquina. Em Humor de Perdição (1987) criou Maximiana, personagem que retomou em programas posteriores, incluindo Crime na Pensão Estrelinha (1990).
Na série britânica 'Allo 'Allo!, ambientada numa localidade francesa durante a Segunda Guerra Mundial, o travestimento é utilizado como recurso cómico associado a planos de fuga e disfarces. Na quarta temporada (1987), o tenente Gruber disfarça-se de freira, e várias personagens masculinas escapam de um campo de prisioneiros caracterizadas como dançarinas das Folies Bergère. Na quinta temporada (1988), numa situação diferente, René encontra-se preso numa masmorra em roupa interior feminina, sendo posteriormente libertado por Gruber. Na mesma temporada, no episódio An Enigma Variation, transmitido em 4 de Fevereiro de 1989, René disfarça-se de mulher para integrar como pianista um quarteto que se infiltra num baile de oficiais no castelo do general von Klinkerhoffen. Edith, sua mulher, apresenta-se por sua vez com vestuário masculino e bigode, enquanto Herr Flick e von Smallhausen comparecem vestidos de criadas. Os disfarces permitem às personagens tentar recuperar pinturas ocultadas numa estátua e uma máquina Enigma. Entretanto, o próprio general repara no bigode da suposta pianista.
Em 1998, a actriz Maria Rueff criou a personagem masculina Zé Manel Taxista para o programa Herman 98, por sugestão de Herman José. Para a sua caracterização, recorreu a um bigode, óculos, um blusão e um penteado destinado a simular a calvície masculina. A personagem regressou posteriormente em produções teatrais e radiofónicas; numa entrevista de 2018, Rueff explicou as dificuldades técnicas de representar convincentemente uma personagem masculina como aquela.
Em Liga de Cavalheiros (1999–2002, com episódios especiais em 2017), a comédia britânica recorreu regularmente a personagens femininas interpretadas por actores. Steve Pemberton representou, entre outras, Tubbs Tattsyrup, proprietária de uma loja com o marido Edward, e Pauline Campbell-Jones, funcionária de um centro de emprego. Mark Gatiss interpretou Val Denton, conhecida como «Auntie Val», e Reece Shearsmith interpretou Stella Hull. O travestimento decorre nestes casos da caracterização dos actores, e não de um disfarce adoptado pelas personagens dentro da história.
Na série Little Britain (2003–2006), protagonizada por Matt Lucas e David Walliams, o travestimento surge em situações distintas. Walliams interpretou Emily Howard, uma personagem masculina que se apresenta socialmente como uma dama, enquanto Lucas interpretou personagens femininas como Vicky Pollard e Marjorie Dawes. A diferença entre a personagem que se traveste no próprio enredo e a interpretação de personagens femininas por um actor masculino é particularmente visível nestes sketches. Os mesmos actores protagonizaram Come Fly with Me (2010–2011), uma série de comédia em formato de falso documentário situada num aeroporto. Walliams interpretou personagens femininas como Melody Baines e Penny Carter, enquanto Lucas representou Keeley St Clair e Precious Little, entre outras. As personagens tinham figurinos, sotaques e caracterizações próprios, sendo interpretadas pelos dois protagonistas masculinos.
Na série de comédia portuguesa Esperança (2020), o actor César Mourão interpreta Esperança Lino de Albuquerque, uma viúva octogenária residente no bairro do Castelo, em Lisboa. Para assumir a personagem feminina, o actor era submetido a cerca de três horas de caracterização, com maquilhagem e próteses de silicone destinadas a alterar a aparência do rosto e do corpo. Produzida para a plataforma OPTO, da SIC, a série constitui um exemplo de interpretação continuada de uma personagem feminina por um actor masculino, sem que o disfarce faça parte do próprio enredo da personagem.
Na telenovela brasileira Chocolate com Pimenta (2003–2004), de Walcyr Carrasco, a personagem Bernadete, interpretada por Kayky Brito, é apresentada e criada socialmente como menina, embora o enredo revele posteriormente tratar-se de Bernardo, um rapaz. A situação resulta de a sua mãe biológica, Cândida, ter ocultado o sexo da criança quando a entregou para adopção a Jezebel, que pretendia adoptar uma menina para cumprir uma promessa religiosa. O episódio constitui um exemplo de travestimento associado ao disfarce e à identidade atribuída à personagem por outras pessoas, distinguindo-se das situações em que o vestuário é adoptado por iniciativa da própria personagem. A caracterização de Kayky Brito incluía vestidos, laços, sapatos e extensões de cabelo destinadas a reproduzir a aparência de uma menina da década de 1920. Segundo a documentação de produção da TV Globo, foram utilizadas quase 300 mechas de cabelo para compor a caracterização da personagem.
Para além dos contextos teatrais, o travestimento é documentado em práticas religiosas e cerimónias de diferentes sociedades, cujos significados dependem dos respectivos contextos históricos e culturais. Na Índia, determinadas correntes da devoção vaisnava a Krishna desenvolveram práticas de identificação ritual com as gopis, figuras femininas associadas ao deus. Em algumas dessas tradições, devotos do sexo masculino adoptavam vestuário e adornos femininos como forma de participação simbólica na relação devocional com Krishna. Estas práticas foram objecto de debate no interior das próprias correntes religiosas e não constituem um costume generalizado do hinduísmo.
Em Nápoles, os femminielli participam em tradições cerimoniais relacionadas com a expressão de género, entre as quais o denominado matrimonio dei femminielli, que envolve a representação ritual de um casamento. Num estudo etnográfico baseado em trabalho de campo realizado em 2010, Eugenio Zito analisou este ritual como uma prática de construção e reconhecimento da identidade social dos participantes, com envolvimento da comunidade local. A tradição não se reduz à utilização de vestuário feminino, estando associada a formas culturalmente específicas de identificação e pertença social.
O travestimento integra diferentes tradições de Carnaval e Entrudo, nas quais o vestuário pode ser utilizado para representar personagens, produzir disfarces, inverter temporariamente papéis sociais ou participar em formas de sátira e representação colectiva. Estas práticas apresentam diferenças históricas e culturais e a utilização de vestuário associado a outro género não determina necessariamente a identidade de género ou a orientação sexual dos participantes.

No Carnaval de Torres Vedras, o travestimento constitui uma componente da tradição das matrafonas, caracterizada pela participação de homens que se apresentam com vestuário e acessórios femininos, frequentemente de forma caricatural ou satírica. Segundo a documentação do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, a tradição desenvolveu-se a partir de práticas do Entrudo rural, ganhando expressão no Carnaval de rua durante a década de 1920. Entre as explicações transmitidas pela tradição oral encontra-se o recurso dos homens a roupas das mulheres da família, devido ao custo das máscaras e dos disfarces. O levantamento etnográfico distingue diferentes modalidades de matrafonas: algumas procuram acentuar deliberadamente a aparência masculina sob o vestuário feminino, enquanto outras recorrem a maquilhagem, cabeleiras, acessórios e outros elementos de caracterização mais elaborados. A prática é transmitida entre gerações, integrando a sociabilidade carnavalesca local. Desde 1924, a figura da rainha do Carnaval foi também tradicionalmente representada por um homem, sendo Jaime Alves identificado como o primeiro intérprete dessa personagem.

Na Madeira, o travestimento integra a história do Entrudo e das festas carnavalescas. No antigo Carnaval de rua do Funchal, homens e mulheres utilizavam vestuário associado ao outro sexo, frequentemente recorrendo a roupas antigas e disfarces improvisados. Uma reportagem histórica da RTP Madeira documentou estas práticas, referindo que, em 1948, durante o Estado Novo, as autoridades chegaram a proibir a utilização de máscaras e travestis nos festejos de rua.
Durante a década de 1980, o travestimento passou também a constituir o tema de festas organizadas por discotecas e outros estabelecimentos de diversão nocturna. Uma investigação histórica publicada pelo Diário de Notícias em 2024 identificou uma «Grande Noite de Carnaval», com espectáculo travesti, na discoteca Disco Sound, em 1983. Em 1985, a discoteca O Farol, instalada no antigo Hotel Sheraton, promoveu uma «Noite Travesti» com participação dos foliões, entrada gratuita para quem comparecesse travestido e prémios destinados aos melhores disfarces.
Em 1987, a discoteca Vespas, então localizada no Ribeiro Seco, fixou a sua «Noite Travesti» na sexta-feira de Carnaval. A realização de festas semelhantes noutras discotecas e bares contribuiu para transformar esta noite numa tradição da quadra carnavalesca madeirense. Em 1992, a discoteca Baccara, posteriormente denominada Copacabana, organizava também a eleição do «travesti do Carnaval».
A continuidade destas festas variou ao longo do tempo. Segundo a investigação de 2024, o Copacabana deixou de organizar a «Noite Travesti» depois de 2016, enquanto as Vespas substituíram a temática em 2024. Outros estabelecimentos do Funchal mantiveram festas dedicadas ao travestimento. A mudança foi relacionada, em análises publicadas na imprensa regional, com a transformação das formas de entretenimento e das atitudes sociais perante o género, sem que tivesse sido estabelecida uma causa única para o declínio da tradição em determinados espaços.
No Brasil, o travestimento também surge em práticas carnavalescas de disfarce e representação de personagens. Um exemplo é o bloco Baianas Ozadas, criado em Belo Horizonte, em Minas Gerais, a partir de uma iniciativa de 2012, quando sete amigos, entre os quais o músico e jornalista Geo Ozado, participaram noutros blocos vestidos de baianas. No ano seguinte, o grupo passou a desfilar como bloco organizado, ampliando progressivamente o número de participantes.
A indumentária de baiana, incluindo saias, turbantes e outros acessórios, tornou-se um dos elementos visuais associados ao bloco, que também incorporou música baiana e homenagens a tradições culturais de Salvador. A partir de 2018, os desfiles passaram a incluir uma lavagem simbólica das escadarias da Igreja de São José, inspirada na Lavagem do Bonfim.
O travestimento também ocorre em festividades não integradas no calendário carnavalesco. No Equador, durante as celebrações de passagem de ano, realizadas em 31 de Dezembro, alguns participantes representam as chamadas viudas del año viejo («viúvas do Ano Velho»), utilizando vestuário feminino em associação com a despedida simbólica do ano que termina. A tradição integra as celebrações do Año Viejo, caracterizadas pela construção e posterior queima de figuras que representam o ano findo. Num estudo publicado em 2010 pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), Gloria María Minango Narváez analisou esta tradição num bairro de Quito. A investigação descreveu a participação de famílias na preparação das figuras e no travestimento das «viúvas», bem como transformações posteriores que envolveram grupos de amigos e outros participantes, examinando a festa enquanto espaço de representação e negociação das normas sociais relacionadas com o género e a sexualidade.
O travestimento não constitui, por si só, uma perturbação mental. As classificações psiquiátricas distinguiram historicamente diferentes formas de travestimento, embora estas categorias não correspondam necessariamente aos significados sociais e culturais da prática.
Na décima revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluía o «travestismo de duplo papel» (F64.1) entre as perturbações da identidade de género, descrevendo a utilização de vestuário associado a outro sexo para experimentar temporariamente a pertença a esse sexo, sem excitação sexual associada. O «travestismo fetichista» (F65.1), por sua vez, encontrava-se entre as perturbações da preferência sexual, sendo caracterizado pela utilização de vestuário associado a outro sexo principalmente para obter excitação sexual. Estas categorias não abrangiam todas as formas de travestimento. Na CID-11, as categorias anteriores de travestismo deixaram de constituir diagnósticos autónomos. A classificação prevê uma categoria mais geral de perturbação parafílica envolvendo comportamentos solitários ou indivíduos consentidores (6D36), aplicável a determinados padrões persistentes e intensos de excitação sexual quando estes provocam sofrimento marcado que não resulta exclusivamente da rejeição social, ou quando envolvem um risco significativo de lesão ou morte. A simples prática do travestimento não preenche estes critérios.
O DSM-5-TR, publicado pela American Psychiatric Association, conserva a categoria de «perturbação transvéstica». O diagnóstico pressupõe um padrão recorrente e intenso de excitação sexual associado ao travestimento, manifestado durante pelo menos seis meses, acompanhado de sofrimento clinicamente significativo ou de prejuízo funcional. O travestimento habitual, por si só, não constitui fundamento suficiente para este diagnóstico.
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