Vale de Mamo é o nome histórico dado nas fontes coloniais a um vale costeiro atravessado pelo rio Mamo, na região actualmente integrada no estado de La Guaira, no centro-norte da Venezuela. José de Oviedo y Baños, escrevendo no início do século XVIII, afirmou que o lugar era igualmente conhecido como vale das Goiabas.
O topónimo aparece ligado, em momentos distintos, a aldeias indígenas, a uma encomienda de pessoas classificadas como tarmas, a uma igreja e povo de doutrina, à prospecção de ouro e a propriedades de cacau e cana-de-açúcar. O nome Mamo permanece actualmente associado ao rio, a um sector de Catia La Mar e à meseta onde se encontra a Academia Militar da Armada Bolivariana.
As fontes não estabelecem os limites exactos do vale histórico nem demonstram que todas as referências coloniais a Mamo correspondessem a uma unidade territorial imutável.
Oviedo y Baños chamou ao lugar «vale de Mamo» e «vale das Goiabas». Na sua narrativa, as aldeias indígenas estendiam-se pelo vale e o rio desaguava directamente no mar das Caraíbas.
Vicente Dávila empregou a forma «vale de Mamo» ao resumir o expediente da encomienda visitada em 1660. O título de 1649 mencionado pelo autor abrangia os indígenas, as povoações e os seus sujeitos, bem como terras, elevações, várzeas, montes, águas, pesqueiros, áreas de caça e bebedouros associados ao repartimento.
No catálogo patrimonial venezuelano de 2004–2005, Mamo aparece cartograficamente a oeste de Catia La Mar. O mesmo catálogo situa a Escola Naval na avenida La Armada Bolívar, em Mamo, e identifica o seu terreno como a meseta de Mamo. O directório oficial do ensino superior mantém a designação «Meseta de Mamo» e coloca-a na paróquia de Catia La Mar, município Vargas, estado de La Guaira.
O rio Mamo continua a dar nome a uma bacia do litoral central. Em 2026, o governo estadual incluiu-o entre os seis cursos de água prioritários do plano de limpeza e remoção de sedimentos para a estação chuvosa.
A historiografia venezuelana associa o vale de Mamo a comunidades classificadas nas fontes como tarmas. Nectario María enumerou Mamo entre quatro áreas de encomienda onde encontrou pessoas assim designadas: Maiquetía, o vale dos Tarmas, Mamo e Carayaca.
Oviedo y Baños atribuiu a chefia das comunidades do vale aos caciques Parnamacay e Prepocunate. Nectario María conservou as formas Parmanacay e Prepocunate e relacionou ambos com a resistência indígena regional.
Oviedo y Baños situou no vale um dos episódios de resistência à imposição da encomienda, o da apresentação de Julián de Mendoza como encomendero, enviando ordem a Parnamacay, Prepocunate e aos restantes chefes para que fossem trabalhar nas suas lavouras. Alguns indígenas ter-se-iam então dirigido a Caracas, declarando obediência e entregando redes de dormir, frutos e alimentos. Julián teria interpretado o gesto como aceitação da encomienda, obtendo licença para visitar as aldeias e tomar posse do repartimento. Uma informação de méritos de Garci González de Silva, conservada no Arquivo Geral das Índias, menciona as «montañas del río de Mamo», referindo a «muerte que le avían dado al capitán don Julián de Mendoça», associando documentalmente a morte de Julián ao contexto de Mamo. Os pormenores da morte continuam a depender da narrativa posterior de Oviedo y Baños, que afirma que Julián chegou à foz do rio Mamo acompanhado por dois soldados. Prepocunate tê-lo-ia atingido pelas costas com um machete, matando-o; os dois acompanhantes refugiaram-se numa casa junto do rio, acabando por morrer quando o edifício foi incendiado.
Nectario María atribuiu a Bartolomé García, então responsável pelo governo local de Caracas, o envio de Sancho del Villar com quarenta soldados contra as comunidades do vale. Segundo a reconstrução do autor, os tarmas tinham-se fortificado nas montanhas próximas do rio Mamo; depois da morte de cinco soldados e de ferimentos graves em outros três, a força espanhola retirou-se. O mesmo autor afirma que uma entrada posterior de Francisco de Vides também fracassou, tendo as forças comandadas por Parnamacay lhes tomado a bagagem. Nectario María situa esse episódio entre o final de 1569 e o início de 1570.
Nectario María apresenta uma terceira campanha sob o comando de Garci González de Silva. Segundo a sua narrativa, Prepocunate morreu nessa campanha, numerosos indígenas foram mortos e os sobreviventes aceitaram submeter-se à autoridade espanhola. Parte do núcleo documental provém de um depoimento de Sancho del Villar numa informação de méritos, segundo o qual participara em duas ou três tentativas anteriores e presenciara a vitória de Garci González.
Em 26 de Março de 1573, o cabildo de Santiago de León de Caracas encarregou Garci González de Silva de uma diligência mineira ligada aos assentos de San Antón e de Nuestra Señora de Caraballeda. A comissão mandava-o levar a gente necessária, examinar o rio Mamo, procurar filões, jazidas superficiais e outros indícios de metal e identificar o melhor caminho para abastecer o acampamento mineiro que se projectava estabelecer na área.
Um expediente de confirmação conservado no Arquivo Geral das Índias reproduz o título pelo qual o governador García Girón concedeu a Alonso Félix de Aguilar, em Santiago de León de Caracas, a 8 de Abril de 1616, a encomienda do vale de Mamo. A mercê foi concedida pela vida de Alonso Félix e de um sucessor e estabelecia obrigações de doutrina e protecção dos indígenas, proibia o seu emprego na extracção de pérolas e obrigava o beneficiário a requerer confirmação régia dentro do prazo estabelecido de quatro anos. Vicente Dávila, ao resumir o expediente posterior, identifica a unidade como «encomienda de indígenas tarmas do vale de Mamo». Segundo o resumo, a primeira vida pertencera a Alonso Félix de Aguilar e a segunda ao seu filho, Félix Alonso de Aguilar.
Depois da morte de Félix Alonso, a encomienda foi declarada vaga. Vários opositores apresentaram serviços próprios e familiares durante o prazo público de trinta dias, sendo Alonso Rodríguez Santos considerado o candidato mais benemérito e recebendo uma nova mercê.
O expediente de 1616 não fornece, no entanto, um instrumento que ligue esta mercê à encomienda atribuída a Julián de Mendoza no século XVI.
O título concedido a Alonso Rodríguez Santos foi expedido em Santiago de León de Caracas em 3 de Agosto de 1649. Abrangia o principal ou chefe indígena, as povoações, os sujeitos e os espaços associados à encomienda, incluindo terras, montes, águas e recursos de caça e pesca. Em 7 de Agosto de 1649, o alcalde ordinário Melchor de La Riva ordenou a posse perante o escrivão José López de Villanueva. Dávila regista como testemunhas Domingo de Vera, Felipe García y Mendoza e Tomás de Aguirre.
A documentação inclui certificados de pagamento do direito de meia anata. Em 20 de Agosto de 1651 foi certificado o pagamento calculado sobre oito indígenas considerados úteis para tributação; outro certificado foi emitido em 4 de Maio de 1660. A confirmação régia do título foi expedida em Madrid em 6 de Setembro de 1652.
Em Julho de 1660, o governador e capitão-general Pedro de Porres y Toledo iniciou uma visita às encomiendas da costa. Em 5 de Julho ordenou que os moradores apresentassem os títulos das pessoas indígenas que possuíam; dois dias depois, Alonso Rodríguez Santos apresentou em La Guaira a documentação da encomienda situada no litoral de Mamo.
O padrão incluído no processo registou 42 pessoas: 24 do sexo masculino e dezoito do feminino. O conjunto compreendia oito casais, treze adultos solteiros — oito homens e cinco mulheres — e treze crianças — oito rapazes e cinco raparigas.
| Categoria | Homens ou rapazes | Mulheres ou raparigas | Total |
|---|---|---|---|
| Pessoas casadas | 8 | 8 | 16 |
| Adultos solteiros | 8 | 5 | 13 |
| Crianças | 8 | 5 | 13 |
| Total | 24 | 18 | 42 |
O padrão corresponde à população registada naquele repartimento e não a um recenseamento de todos os habitantes do vale. Os 42 indivíduos não devem, por isso, ser apresentados como a população total de Mamo em 1660.
Durante a visita, três indígenas do repartimento foram interrogados separadamente numa inquirição reservada sobre o tratamento recebido do encomendero. Segundo o resumo de Dávila, os depoentes declararam possuir no vale de Mamo um povoado integrado no repartimento de Maiquetía, com igreja dedicada a Nossa Senhora da Imaculada Conceição e a São Sebastião, identificando o licenciado Luis Méndez como sacerdote doutrineiro. O governador formulou acusações com base nos depoimentos, tendo Alonso Rodríguez Santos apresentado a sua defesa. Dávila assinala, porém, que ao expediente faltava a sentença definitiva que normalmente encerraria a visita.
Uma relação genealógica e de serviços produzida em 1671 distingue dois homónimos. Alonso Rodríguez Santos, bisavô do mestre de campo referido no documento, aparece como encomendero de Caipauro, enquanto «el Castellano Alonso Rodríguez Santos» é identificado como encomendero no vale de Mamo, «a la costa del mar». A mesma relação declara que Santiago Liendo, primo direito do referido mestre de campo, «fue Encomendero en el Valle de Mamo».
Em 7 de Agosto de 1690, uma matrícula administrativa descreveu o «pueblo de Mamo costa de la mar abajo», a sete léguas de Caracas, declarando que a encomienda que Santiago Liendo possuíra se encontrava então «en cabeza de Su Majestad». A relação nominal registou três homens considerados úteis, quatro rapazes menores de dezoito anos e quatro mulheres, num total de onze pessoas pertencentes à encomienda. Entre elas figurava Doña Bernardina, filha do antigo cacique; o texto esclarece que os seus dois filhos mestiços não foram inscritos por serem livres.
A contagem refere-se às pessoas matriculadas naquela encomienda e não à população total do vale. A própria autoridade ordenou que fossem recolhidos dentro de seis meses os indígenas pertencentes ao repartimento que se encontrassem fora do povoado.
Na regulamentação tributária de 1691 estudada por Fabricio Vivas Ramírez, Mamo figura entre os povos situados dentro das dez léguas de Santiago de León. Os indígenas considerados úteis, entre dezoito e cinquenta anos, estavam sujeitos a seis pesos anuais, aos quais se acrescentavam quatro reais para o corregedor e dois para a caixa de comunidade, perfazendo 54 reais por tributário.
Uma certificação elaborada pelo escrivão régio Juan Rengel de Mendoza em 1684 reuniu informações sobre propriedades rurais pertencentes a moradores de Caracas, relacionando-as para fins fiscais e administrativos. Encarnación Rodríguez Vicente publicou e estudou esse documento como fonte para a propriedade rústica da região. O capitão Manuel de Urbina possuía no vale de Mamo, na costa a oeste de Caracas, um trapiche, isto é, um pequeno engenho destinado a produzir melado, e cerca de 1 500 cacaueiros. A mesma relação atribui-lhe outro engenho no vale do rio Tuy, não devendo os dois estabelecimentos ser confundidos. Andrés de Landaeta possuía no vale de Mamo cerca de três mil cacaueiros e outro engenho destinado à produção de melado.
O nome Mamo sobreviveu no litoral de La Guaira como hidrónimo e topónimo urbano. O catálogo patrimonial de 2004–2005 marcou Mamo no mapa do então município Vargas, situando-o na área ocidental de Catia La Mar.
A Escola Naval de Venezuela transferiu-se para uma nova sede na meseta de Mamo durante a década de 1960. Amador Clark e Gilberto Bruzual Báez fixam a inauguração em 24 de Julho de 1967. O Instituto del Patrimonio Cultural também data a inauguração de Julho de 1967 e atribui o projecto ao arquitecto José Hoffman Bossio, com construção dirigida pelo engenheiro Roberto Smilter. A instituição é actualmente identificada pelo directório oficial do ensino superior como Academia Militar da Armada Bolivariana, localizada na meseta de Mamo, paróquia de Catia La Mar.
O rio Mamo continua integrado na gestão contemporânea das bacias do litoral. A sua inclusão no plano estadual de limpeza de 2026 demonstra que o curso de água permanece uma unidade operacional de prevenção durante a estação chuvosa.
A história do vale depende de fontes de natureza e proximidade diferentes. A acta capitular de 1573 comprova uma comissão municipal de prospecção mineira, mas não o êxito da exploração. Uma informação de méritos de Garci González de Silva contém uma referência documental à morte de Julián de Mendoza no contexto das «montañas del río de Mamo», mas não fixa a data exacta da morte nem lhe atribui, nesse trecho, um título de encomienda. Os pormenores sobre Parnamacay, Prepocunate, a tomada de posse e a forma da morte procedem da narrativa de Oviedo y Baños, publicada mais de um século depois dos acontecimentos.
Para o século XVII, o expediente AGI, SANTO_DOMINGO,41,N.72 conserva o título de 8 de Abril de 1616 a Alonso Félix de Aguilar. Dávila resumiu o expediente posterior da encomienda, conservando a sucessão das duas primeiras vidas, a nova mercê de 1649, a posse, a confirmação, o padrão e a visita de 1660. A sua edição assinala, contudo, que faltava ao expediente a sentença definitiva da visita.
A relação de serviços de 1671 distingue os homónimos Alonso Rodríguez Santos e regista Santiago Liendo como encomendero de Mamo. A matrícula de 7 de Agosto de 1690 constitui uma fotografia administrativa posterior: localiza o povo de Mamo a sete léguas de Caracas, declara a encomienda «en cabeza de Su Majestad» e enumera as pessoas então matriculadas. O estudo de Vivas Ramírez enquadra esta documentação na reorganização do tributo indígena do final do século XVII, incluindo Mamo entre os povos situados dentro das dez léguas da capital.
O cadastro rural publicado por Rodríguez Vicente, por seu torno, permite identificar propriedades particulares em 1684, embora não constitua um inventário completo do vale.