Na Internet, um sistema autônomo (em inglês: Autonomous System, cuja sigla é AS) é uma coleção de prefixos de roteamento sob o controle administrativo de uma ou mais operadoras de rede que apresenta à Internet uma política de roteamento comum e claramente definida (conforme especificado na norma internacional RFC 1930).
Para que uma rede possa participar do roteamento interdominial global da Internet, cada sistema autônomo recebe um identificador numérico exclusivo e globalmente reconhecido denominado Número de Sistema Autônomo (em inglês: Autonomous System Number, ASN). Esse número é utilizado pelo protocolo padrão de roteamento interdominial da Internet, o Border Gateway Protocol versão 4 (BGP-4), para registrar a sequência de sistemas autônomos atravessada pelos anúncios de acessibilidade (atributo AS_PATH). Esse mecanismo desempenha um papel fundamental de prevenção de laços de roteamento (loop prevention) e orienta o encaminhamento de pacotes no sentido inverso ao longo do caminho selecionado.
Na arquitetura conceitual e operacional da Internet, a divisão do espaço de roteamento em sistemas autônomos é uma necessidade fundamental de escalabilidade e governança descentralizada. Seria tecnicamente inviável manter uma tabela de roteamento plana e única contendo cada roteador existente no planeta, tanto pelo consumo de memória e processamento dos equipamentos quanto pela impossibilidade de reconciliar as políticas econômicas concorrentes de diferentes organizações comerciais.
Por esse motivo, o encaminhamento de pacotes na camada de rede divide-se em dois domínios complementares:
Historicamente, os números de sistema autônomo foram padronizados como inteiros de 16 bits (2 bytes), permitindo um espaço teórico de 65.536 valores possíveis (de 0 a 65535). Diante da expansão exponencial da Internet comercial e da proliferação de provedores regionais no início dos anos 2000, projetou-se o esgotamento completo desse estoque em meados da década de 2010.
Para contornar o limite físico dos 16 bits, o IETF desenvolveu a RFC 4893 (posteriormente consolidada e substituída pela RFC 6793), ampliando o espaço de numeração dos ASNs para inteiros de 32 bits (4 bytes). Com essa modificação, a capacidade de alocação de sistemas autônomos expandiu-se para 4.294.967.296 valores possíveis (de 0 a 4294967295), garantindo suficiência operacional para o futuro da rede.
A transição exigiu compatibilidade retroativa para permitir que roteadores modernos (suportando ASNs de 32 bits) pudessem trocar anúncios BGP com equipamentos legados restritos a 16 bits. Essa coexistência foi resolvida mediante a reserva especial do número de transição AS_TRANS (ASN 23456): quando um roteador moderno propaga um anúncio contendo ASNs superiores a 65535 em direção a um par BGP legado restrito a 16 bits, ele substitui esses identificadores pelo ASN 23456 no atributo AS_PATH convencional e empacota a cadeia real de 32 bits em novos atributos transitivos opcionais denominados AS4_PATH e AS4_AGGREGATOR. Equipamentos modernos com suporte a 4 octetos reconstroem a topologia completa a partir desses atributos, enquanto roteadores antigos processam o anúncio de forma transparente enxergando o ASN 23456.
A representação textual dos números de 32 bits gerou diferentes convenções na indústria. Inicialmente, utilizou-se a notação pontuada asdot (na forma x.y, em que x e y são inteiros de 16 bits), associada a certas plataformas de equipamentos. No entanto, para evitar ambiguidades com endereços IP e simplificar a manipulação programática em bancos de dados e ferramentas de diagnóstico, o IETF padronizou formalmente através da RFC 5396 a notação inteira decimal única denominada asplain como a representação textual canônica para a Internet (na qual, por exemplo, o ASN 65536 é grafado puramente como 65536).
Nem todos os números de sistema autônomo estão disponíveis para atribuição pública na Internet global. Diversas faixas foram reservadas pela Internet Assigned Numbers Authority (IANA) e padronizadas pelo IETF para propósitos específicos:
| Faixa de ASNs | Espaço | Norma IETF | Finalidade Operacional |
|---|---|---|---|
| 0 | 16 bits | RFC 7607 | Estritamente reservado. Não deve ser atribuído a nenhuma rede nem anunciado em sessões BGP públicas. No padrão RPKI, é empregado em Autorizações de Origem de Rota (ROA) para indicar prefixos IP explicitamente não autorizados para roteamento na Internet. |
| 1 – 23455 | 16 bits | RFC 1930 | Faixa de ASNs públicos globais de 16 bits delegados a operadores e registros. |
| 23456 | 16 bits | RFC 6793 | AS_TRANS. Reservado para viabilizar a interoperabilidade entre roteadores BGP de 16 bits e 32 bits. |
| 23457 – 64495 | 16 bits | RFC 1930 | Faixa de ASNs públicos globais de 16 bits delegados pela IANA. |
| 64496 – 64511 | 16 bits | RFC 5398 | Reservados para documentação, manuais técnicos e exemplos didáticos. |
| 64512 – 65534 | 16 bits | RFC 6996 | ASNs Privados de 16 bits (1.023 números). De uso exclusivo dentro de redes corporativas, centros de dados ou redes de operadoras. Não podem ser anunciados na tabela pública global da Internet (roteadores de trânsito filtram e removem esses números com o comando remove-private-as). |
| 65535 | 16 bits | RFC 7300 | Reservado como o último valor do espaço de 16 bits. |
| 65536 – 65551 | 32 bits | RFC 5398 | Reservados para documentação e exemplos técnicos em 32 bits. |
| 65552 – 4199999999 | 32 bits | RFC 6793 | Faixa principal de ASNs públicos de 32 bits em alocação regular pelos Registros Regionais da Internet. |
| 4200000000 – 4294967294 | 32 bits | RFC 6996 | ASNs Privados de 32 bits (94.967.295 números). Destinados ao uso interno em infraestruturas privativas e arquiteturas leaf-spine em centros de dados modernos. |
| 4294967295 | 32 bits | RFC 7300 | Reservado como o último valor do espaço de 32 bits (equivalente hexadecimal a 0xFFFFFFFF). |
A alocação dos números de sistema autônomo segue uma hierarquia internacional rigorosa de governança da Internet:

Para receber a concessão de um ASN oficial, a organização solicitante deve atender a critérios técnicos estritos estabelecidos pelas políticas dos RIRs e NIRs:
/32 para IPv6 e /24 para IPv4).Conforme sua política operacional e conectividade externa na topologia da rede, os sistemas autônomos são categorizados em quatro modalidades principais:
Um sistema autônomo do tipo stub mantém conexão com apenas um único AS a montante (upstream). Ele não transporta tráfego originado por outras redes nem oferece rota de passagem. Todas as comunicações originadas em seus computadores saem obrigatoriamente por essa única conexão, e o tráfego destinado aos seus prefixos entra por ela. Embora a maioria das redes desse porte utilize apenas anúncios internos do provedor, um Stub AS pode possuir um ASN formal caso mantenha conexões privadas de intercâmbio direto (bilateral peering) em pontos de infraestrutura financeira, governamental ou de transporte sem visibilidade na tabela global pública.
Um sistema autônomo multihomed é conectado a dois ou mais sistemas autônomos distintos (sejam múltiplos provedores de trânsito ou pontos de troca de tráfego). A grande característica do Multihomed AS é que ele utiliza essa redundância para engenharia de tráfego, balanceamento de carga e prevenção contra interrupções de serviço caso um de seus enlaces falhe, porém não permite que o tráfego passe através de si. Isso significa que um pacote vindo do Provedor X destinado ao Provedor Y nunca utilizará o Multihomed AS como rota transitiva intermediária. É o formato adotado pela grande maioria das médias e grandes empresas, universidades, bancos e redes governamentais.
Um sistema autônomo de trânsito é conectado a múltiplos outros sistemas autônomos e permite expressamente que o tráfego gerado por terceiros atravesse a sua infraestrutura de rede para alcançar destinos remotos. As operadoras de telecomunicações comerciais, empresas provedoras de trânsito IP global (Tier 1 e Tier 2) e grandes provedores de atacado atuam tipicamente como AS de trânsito, comercializando essa capacidade de encaminhamento de pacotes para seus clientes.
Com a consolidação dos pontos de troca de tráfego (IXPs), consolidou-se o modelo de sistemas autônomos operados pelos servidores de rotas (Route Servers) dos IXPs (como o IX.br). Esses ASNs não encaminham pacotes de usuários no plano de dados (o tráfego transita diretamente entre as portas de comutação de camada 2 dos participantes do IXP), atuando estritamente no plano de controle do BGP para receber os anúncios de cada membro e redistribuí-los aos participantes do Acordo de Troca de Tráfego Multilateral (ATM). Conforme padronizado na RFC 7947, o servidor de rotas opera de maneira transparente: ele preserva o endereço IP do roteador anunciador no atributo NEXT_HOP e, por padrão, não insere seu próprio ASN no AS_PATH, viabilizando a troca direta de tráfego entre centenas de redes sem exigir malhas completas de sessões bilaterais ponto a ponto.
A dimensão da chamada zona livre de rota padrão (em inglês: Default-Free Zone, cuja sigla é DFZ) — conjunto de roteadores centrais da Internet que detêm a tabela global completa e não dependem de uma rota padrão (default gateway) para encaminhar pacotes — reflete a evolução quantitativa da infraestrutura mundial. Segundo relatórios históricos do CIDR Report e dados de monitoramento do cientista-chefe da APNIC, Geoff Huston, a quantidade de ASNs únicos ativos no plano de controle global saltou de aproximadamente 5.000 em 1999 para mais de 30.000 em 2008, superando 60.000 em 2018 e atingindo cerca de 80.000 ASNs ativos em IPv4 e mais de 38.000 em IPv6 nos relatórios de análise de roteamento de 2025 e 2026.
As análises de telemetria de roteamento demonstram que, após décadas de crescimento exponencial ininterrupto, a taxa de expansão anual de novos sistemas autônomos entrou em uma fase de acomodação e estabilidade relativa. Esse fenômeno é atribuído à maturidade dos mercados de telecomunicações nos países desenvolvidos e à hiperconcentração da distribuição de tráfego em grandes redes de distribuição de conteúdo (CDNs) e provedores de nuvem de hiperescala (como Google, Meta, Amazon e Cloudflare), o que diminuiu a necessidade de criação de novos ASNs por parte de pequenas corporações consumidoras.
Diferente da maioria dos países do hemisfério norte, onde a infraestrutura de telecomunicações se concentrou em poucas corporações de grande porte, o Brasil desenvolveu um dos ecossistemas de sistemas autônomos mais descentralizados do planeta. De acordo com os registros de delegação aberta do LACNIC e os balanços estatísticos do Registro.br apresentados na Semana de Infraestrutura da Internet do Brasil, o país conta com mais de 9.100 sistemas autônomos (ASNs) ativos, alocando uma média consistente de 260 a 280 novos ASNs por ano.
O Brasil concentra mais de 63% de todos os ASNs geridos pelo LACNIC em toda a América Latina e Caribe (9.124 ASNs brasileiros alocados de um universo regional de cerca de 14.400 ASNs), ocupando a segunda colocação mundial absoluta em quantidade de redes autônomas cadastradas, atrás somente dos Estados Unidos.
Essa densidade singular decorre do papel desempenhado pelos milhares de pequenos e médios provedores de acesso à Internet (ISPs regionais de fibra óptica), que investiram na expansão de enlaces próprios pelo interior do território nacional, respaldados por políticas de incentivo do CGI.br, pela distribuição descentralizada de endereçamento pelo Registro.br e pela malha de pontos de troca de tráfego interligados do IX.br. Adicionalmente, quase 98% dos ASNs brasileiros em atividade contam com alocações ativas do protocolo IPv6, conferindo ao país uma das maiores taxas de prontidão para a nova geração da Internet no mundo.
O protocolo BGP original foi concebido sob um princípio de confiança mútua irrestrita entre os sistemas autônomos, não possuindo mecanismos nativos para verificar a legitimidade dos anúncios de prefixos. Essa ausência de autenticação gerou vulnerabilidades históricas graves, como os vazamentos de rotas (route leaks) e o Sequestro de BGP (BGP hijacking), no qual um AS anuncia prefixos IP pertencentes a outro AS, desviando ou interceptando tráfego maliciosamente.
Para proteger os sistemas autônomos e restabelecer a segurança criptográfica no plano de controle, foram introduzidos novos padrões internacionais: