Peering (frequentemente traduzido como emparelhamento de redes ou troca direta de tráfego) é, no âmbito das redes de computadores e telecomunicações, a interconexão voluntária e direta entre duas redes de dados administrativamente independentes — formalmente constituídas como sistemas autônomos (ASNs) — para troca recíproca de tráfego entre os usuários e clientes de cada uma.
Sua característica econômica definidora é a ausência de compensação financeira mútua, operando sob o regime conhecido como settlement-free (também denominado bill-and-keep ou sender keeps all). Nesse modelo, nenhuma das partes remunera a outra pelo volume de tráfego trocado no enlace; cada organização aufere e retém receita exclusivamente a partir de seus próprios clientes finais. Embora a ampla maioria das conexões de peering opere sob gratuidade mútua, existe também a modalidade híbrida do peering pago (paid peering). Nessa modalidade, o escopo de rotas permanece limitado apenas aos clientes das partes envolvidas (sem concessão de trânsito global), mas uma rede compensa financeiramente a outra por volume de dados transmitido para acomodar assimetrias volumétricas severas de tráfego.
O peering difere fundamentalmente do trânsito IP. Na compra de trânsito, uma rede cliente remunera uma operadora de telecomunicações (upstream provider) para obter acesso universal à totalidade da Internet global (a chamada full routing table), conectando-se indiretamente à Default-Free Zone. No peering, a troca de tráfego restringe-se estritamente aos endereços e blocos de rede pertencentes aos próprios participantes e aos seus respectivos clientes diretos.
A Internet é composta por milhares de redes públicas e privadas independentes denominadas sistemas autônomos (AS), cada um identificado globalmente por um número exclusivo (ASN) e responsável por suas próprias políticas de roteamento. A interconexão entre sistemas autônomos ocorre fundamentalmente de duas formas:
Para estabelecer uma ligação de peering, os operadores necessitam de uma conexão física compartilhada e de uma sessão lógica de roteamento exterior configurada através do protocolo Border Gateway Protocol (eBGP).
Durante a sessão BGP, cada rede anuncia (propaga) para a outra somente os prefixos IP de seus próprios usuários e de seus clientes que lhe pagam trânsito. Uma regra elementar do peering é que uma rede nunca propaga rotas aprendidas por meio de seus próprios provedores de trânsito para os seus parceiros de peering. Caso isso ocorresse, o parceiro poderia rotear pacotes gratuitos através da infraestrutura contratada da primeira, configurando vazamento de rotas (route leak) e uso indevido de trânsito não autorizado.
| Característica | Peering | Trânsito IP |
|---|---|---|
| Relação financeira | Sem liquidação (settlement-free); raramente tarifado (paid peering) | Comercial (cobrança mensal por largura de banda contratada ou percentil 95) |
| Escopo das rotas | Restrito aos participantes e aos seus clientes diretos | Tabela global completa da Internet (full routing table) |
| Acordo operacional | Acordo tácito informal (99,9%) ou memorando simples | Contrato jurídico formal com acordos de nível de serviço (SLA) |
| Escopo e volume de tráfego | Limitado aos cones de rede acordados; volume frequentemente assimétrico (ex.: proporção desbalanceada entre redes de acesso e provedores de conteúdo) | Acesso irrestrito a qualquer destino ou origem da tabela global; tráfego agregado irrestrito |
A principal motivação para a realização de peering é econômica e operacional:
O emparelhamento físico entre redes divide-se em duas categorias principais:
Ocorre dentro de um Ponto de troca de tráfego (PTT ou IXP, do inglês Internet Exchange Point). Em um IXP, múltiplos sistemas autônomos conectam seus roteadores a uma infraestrutura compartilhada de comutação de alta capacidade (matriz de switches Ethernet).
Através de uma única interface física conectada ao IXP, um participante pode estabelecer sessões de peering com centenas de outras redes presentes na mesma localidade, reduzindo custos de infraestrutura e viabilizando a troca de tráfego entre redes de pequeno e médio porte. Exemplos proeminentes incluem o IX.br no Brasil (operado pelo NIC.br), o DE-CIX na Alemanha e o AMS-IX nos Países Baixos.
Conhecido pela sigla PNI (Private Network Interconnection), consiste em uma interconexão física ponto a ponto direta e dedicada entre dois roteadores pertencentes a organizações distintas, habitualmente instalados dentro do mesmo centro de dados (data center de colocalização) através de uma conexão cruzada de fibra óptica (cross-connect).
O PNI é empregado quando o intercâmbio de tráfego entre duas organizações atinge a escala de dezenas ou centenas de gigabits por segundo (Gbps), tornando economicamente vantajoso e operacionalmente seguro retirar esse volume das portas públicas compartilhadas do IXP para evitar saturação. É amplamente utilizado entre grandes distribuidores de conteúdo e plataformas em nuvem (como Google, Netflix, Meta, Microsoft e Amazon) e operadoras de telecomunicações de grande porte.
Cada operador de sistema autônomo estabelece uma política pública ou privada para definir sob quais condições aceita trocar tráfego. Essas políticas são habitualmente catalogadas no PeeringDB, uma base de dados global mantida pela comunidade de operadores de rede:
Nos pontos de troca de tráfego, o peering pode ser implementado de duas formas lógicas:
Ao contrário da maioria dos contratos de fornecimento do setor de telecomunicações, as interconexões de peering na Internet operam predominantemente de maneira informal.
Um estudo extensivo coordenado pela organização internacional Packet Clearing House (PCH), que avaliou dezenas de milhares de acordos de interconexão ativos em mais de uma centena de países, apurou que 99,93% dos acordos de peering em todo o mundo são informais (conhecidos como handshake agreements). Nesses casos, os participantes não assinam contratos legais formais, amparando-se em acordos de cavalheiros, confiança mútua e normas de boa convivência técnica da comunidade da Internet. Apenas 0,07% das interconexões analisadas possuíam instrumentos contratuais formalizados por escrito, geralmente celebrados entre corporações com exigências estritas de governança corporativa ou em jurisdições com regulação estatal de monopólio.
A implementação prática de políticas de interconexão repousa nos atributos de roteamento e nas rotinas de segurança do BGP:
# Rotas aprendidas de clientes pagantes recebem a maior prioridade (ex.: valores de 200 a 300), pois geram receita direta para o operador; # Rotas recebidas de pares de peering gratuito recebem prioridade intermediária (ex.: valores de 150 a 200), assegurando que o roteador prefira enlaces de custo zero em detrimento de saídas pagas; # Rotas de trânsito IP recebem a prioridade base (ex.: valores de 100 ou 50), sendo utilizadas apenas como último recurso ou para alcançar destinos fora do cone de clientes e pares.
O processo pelo qual uma rede encerra unilateralmente uma interconexão voluntária com outra é denominado depeering. Como o peering baseia-se na percepção de reciprocidade e benefício mútuo, a relação pode ser desfeita quando uma das partes conclui que o equilíbrio operacional ou econômico se perdeu.
As motivações mais frequentes para o depeering incluem:
Ao longo da história da Internet, episódios notórios de depeering entre grandes operadoras de trânsito (como disputas envolvendo Level 3, Cogent Communications, AOL e provedores de banda larga) ocasionaram situações temporárias de inalcançabilidade de prefixos para usuários de ambos os lados até a renegociação das condições operacionais.
Na arquitetura original da Internet comercial, o fluxo de tráfego estruturava-se de forma estritamente hierárquica: provedores locais compravam trânsito de provedores regionais, que por sua vez compravam trânsito de um grupo restrito de operadoras globais de primeira linha (Tier 1).
O modelo denominado donut peering descreve a transformação estrutural contemporânea da Internet, na qual redes de pequeno e médio porte, provedores regionais de conexão à Internet (ISPs) e grandes plataformas de distribuição de conteúdo (CDNs) passaram a se interconectar intensamente entre si nas bordas geográficas através de IXPs e PNIs locais. Essa malha descentralizada forma uma figura similar a um toroide ("donut"), cujo centro — o conjunto tradicional de redes de trânsito Tier 1 — é progressivamente contornado.
No Brasil, esse fenômeno foi expressivo a partir da década de 2010 com a proliferação de provedores regionais de banda larga em fibra óptica e a expansão do IX.br para dezenas de regiões metropolitanas, permitindo que a maior parcela do tráfego de dados nacional passe a ser trocada diretamente dentro do país, com redução de custos e independência em relação a rotas internacionais.