
O EllaLink é um cabo submarino de fibra ótica de alta capacidade que interliga a América do Sul à Europa. Com uma extensão aproximada de 6.200 quilômetros em sua rota transatlântica principal, o cabo conecta diretamente as cidades de Fortaleza, no Brasil, e Sines, em Portugal. Inaugurado oficialmente em junho de 2021 a um custo de 150 milhões de euros, o sistema foi projetado para contornar a dependência histórica de rotas de dados que passam pela América do Norte, reduzindo a latência de comunicação entre os dois continentes em 50% para menos de 60 milissegundos.
O projeto opera sob o modelo de acesso aberto e operador neutro, sendo gerenciado pelo consórcio privado irlandês EllaLink Ireland e financiado majoritariamente pelo fundo de investimento europeu Marguerite II. Além de atender ao mercado comercial de telecomunicações, computação em nuvem e tráfego financeiro, o cabo possui infraestrutura dedicada à comunidade científica internacional através do consórcio BELLA (Building the Europe Link to Latin America), interligando universidades e centros de pesquisa da Europa e da América Latina.
Até o início da década de 2010, o tráfego de dados de internet entre a América do Sul e a Europa dependia quase inteiramente de rotas que passavam pelos Estados Unidos. O único cabo direto existente entre os dois continentes era o Atlantis-2, mas sua capacidade limitada restringia seu uso praticamente à telefonia de voz. Essa dependência de infraestrutura gerou preocupações de segurança nacional após as revelações de 2013 de que a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA espionava comunicações brasileiras. Em resposta, o governo brasileiro, liderado pela presidente Dilma Rousseff, passou a defender publicamente a criação de uma rota direta com a Europa para garantir a neutralidade da rede e blindar o tráfego de dados.
Para viabilizar o projeto, foi proposta uma parceria entre a estatal brasileira Telebras e a empresa espanhola IslaLink, com um orçamento inicial estimado em 185 milhões de dólares e previsão de início das obras para julho de 2014. A expectativa técnica era de que a nova rota reduzisse os custos de internet no Brasil em até 15% como consequência direta da redução da latência. Embora o planejamento original da Telebras incluísse a construção de cinco rotas internacionais (com parcerias voltadas para os EUA, Uruguai e Angola), severas restrições financeiras forçaram a estatal a cancelar ou repassar os demais projetos para focar todos os seus recursos disponíveis na ligação com o continente europeu.
Em fevereiro de 2014, durante uma cúpula bilateral em Bruxelas, o governo brasileiro e a União Europeia formalizaram o apoio ao projeto do cabo transatlântico ligando Lisboa a Fortaleza, impulsionados pelo desgaste diplomático comum após as revelações de espionagem da NSA contra Dilma Rousseff e líderes europeus. Na ocasião, desenhou-se o arranjo societário inicial da joint venture: a IslaLink deteria 45% das ações, a Telebras ficaria com 35%, e os 20% restantes seriam divididos entre fundos de pensão brasileiros e europeus, com a expectativa de que a infraestrutura entrasse em operação já em 2015.
Após anos de negociações e reestruturações financeiras, a construção do cabo foi oficialmente viabilizada no início de 2019, após um acordo final entre o consórcio EllaLink e a fabricante Alcatel Submarine Networks. O projeto de quase 10 mil quilômetros, projetado para ligar Fortaleza a Sines com capacidade inicial de 100 Gbps, ganhou um forte pilar científico por meio do consórcio BELLA (Building the Europe Link to Latin America). Financiado em parte pela União Europeia, o consórcio garantiu a compra antecipada de capacidade dedicada para interligar instituições de ensino e pesquisa dos dois continentes. Além de Sines e Lisboa, o desenho da rede previu extensões comerciais para hubs na Espanha (Madri) e França (Marselha), consolidando uma rota diagonal no Atlântico Sul capaz de redesenhar o mercado global de tráfego de dados e reduzir a dependência das conexões via América do Norte.
Em janeiro de 2020, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, a Telebras desistiu formalmente de participar da iniciativa em meio a crises financeiras e ao início do processo de avaliação para a sua privatização. A estatal já havia reduzido sua atuação em 2018, quando trocou sua participação acionária de 35% por uma promessa de compra de "direitos irrevogáveis de uso" da rede. Contudo, a ausência de verbas na Lei Orçamentária Anual daquele ano impediu o cumprimento do acordo, levando a estatal a solicitar a rescisão contratual amigável com a EllaLink Ireland. Apesar da retirada total do governo brasileiro, a construção do cabo prosseguiu sob a responsabilidade da Alcatel Submarine Networks, sendo financiada pelo fundo de investimento europeu Marguerite II, com uma capacidade técnica projetada de 72 Tbps distribuídos em quatro pares de fibra ótica.
Em março de 2020, o presidente-executivo (CEO) da EllaLink, Philippe Dumont, confirmou que o projeto estava completamente financiado e com 60% da fabricação do cabo concluída pela Alcatel Submarine Networks. O cronograma previa o início da instalação marítima para o meio daquele ano e a conclusão das obras até dezembro de 2020. Sob a perspectiva comercial, a empresa passou a defender que a rota de 6,2 mil quilômetros entre o Ceará e Portugal seria a alternativa mais curta e eficiente não apenas para conectar a América do Sul à Europa, mas também para interligar o mercado sul-americano à Ásia (especialmente à China), competindo diretamente com as rotas que passam pela América do Norte ou pelo Atlântico Sul via continente africano.
Após a instalação inicial na costa de Fortaleza, a infraestrutura alcançou um marco crítico em 6 de janeiro de 2021 com a ancoragem física do cabo em Sines, Portugal, restando apenas a junção das duas metades em meio ao Oceano Atlântico. O orçamento final consolidou-se em 150 milhões de euros, financiado em metade por clientes-âncora e na outra metade pelo fundo europeu Marguerite II, o acionista principal. Sob a liderança do CEO Philippe Dumont, o consórcio programou o início das operações comerciais para o segundo trimestre daquele ano, estimando o retorno do investimento para 2026. A escolha estratégica por Sines justificou-se por ser o ponto de entrada no Atlântico mais a sudoeste da Europa (reduzindo custos pela menor distância geográfica) e por oferecer maior segurança contra cortes acidentais causados por atividade humana. O projeto foi apontado pelo Secretário de Estado da Internacionalização de Portugal, Eurico Brilhante Dias, como uma das grandes apostas da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia.
Tecnicamente, o sistema de acesso aberto e operador neutro foi estruturado com tecnologia de ponta, oferecendo inicialmente 72 Tbps de capacidade através de quatro pares de fibra ótica diretos. Ao criar a rota transatlântica mais curta e evitar a passagem por países terceiros, a EllaLink reduziu a latência em 50% em relação à infraestrutura antiga, atingindo um tempo de ida e volta real inferior a 60 milissegundos entre Portugal e o Brasil. Além da conexão submarina principal, o sistema integrou rotas terrestres ligando centros de dados estratégicos operados em parceria com a Equinix e a Interxion nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Lisboa, Madri e Marselha. O planejamento também previu ramificações para a Ilha da Madeira e Cabo Verde, além de futuras conexões com Marrocos, Mauritânia, Guiana Francesa e Ilhas Canárias. O ecossistema serviu como base para o lançamento do Sines Tech – Innovation and Data Center Hub, em cooperação com a Câmara Municipal de Sines, para atrair grandes empresas de tecnologia, além de apoiar o programa científico BELLA na interligação de comunidades acadêmicas europeias e latino-americanas.
O sistema EllaLink foi formalmente inaugurado em 1º de junho de 2021, em uma cerimônia realizada em Sines, Portugal, que contou com a presença do então ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações do Brasil, Marcos Pontes. A infraestrutura ativou a primeira conexão direta de alta velocidade entre os dois continentes desde a obsolescência do Atlantis-2, eliminando a necessidade de redirecionar o tráfego de dados por estações intermediárias nos Estados Unidos. Embora o investimento principal tenha se mantido privado, o governo brasileiro efetuou um aporte minoritário focado no tráfego acadêmico por meio da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).
Especialistas em telecomunicações destacaram que, embora o impacto da nova rota seja praticamente imperceptível para o usuário final em aplicativos de mensagens ou navegação cotidiana, a estrutura expandiu a capacidade máxima do sistema para patamares próximos a 100 Tbps. Essa largura de banda foi apontada como fundamental para fornecer suporte logístico à telefonia 5G e futuras redes 6G no Brasil, evitando gargalos de conexão. Além disso, a rota direta estabilizou serviços de armazenamento em nuvem de alta demanda e impulsionou aplicações que dependem de computação de alto desempenho e baixíssima latência, tais como telemedicina, monitoramento climático e ambiental, e processamento de operações financeiras. Do ponto de vista de segurança da informação, a ativação do EllaLink garantiu redundância ao sistema de comunicações brasileiro, criando caminhos alternativos para o tráfego transatlântico em caso de acidentes ou rompimentos em outras rotas.
Em junho de 2026, a EllaLink concluiu o desembarque do cabo submarino Lum@link na praia de Montabo, em Caiena, efetivando a ramificação planejada para a Guiana Francesa. Desenvolvido em parceria com a estatal local SPLANG e cofinanciado pela União Europeia através do programa Connecting Europe Facility, o novo ramal foi projetado para integrar o território ultramarino diretamente ao sistema transatlântico principal em Fortaleza, com previsão de início das operações comerciais para o fim de 2026. A nova rota visa reduzir a latência de comunicação da Guiana Francesa com a Europa para menos de 80 milissegundos, atendendo à crescente demanda por conectividade da indústria de energia e do setor público na região do Escudo das Guianas. Para apoiar essa expansão e novos negócios de infraestrutura na América do Sul, a EllaLink contratou no mesmo ano a consultoria brasileira Colin.
Em maio de 2026, a EllaLink e o governo da Mauritânia realizaram o desembarque de um novo ramal submarino de 670 quilômetros na cidade de Nuadibu, marcando a expansão da infraestrutura em direção ao continente africano. Co-financiado pelo Estado mauritano e pela União Europeia por meio do programa Connecting Europe Facility, o projeto estendeu duas fibras óticas a partir do tronco principal da EllaLink até uma nova estação de aterragem neutra em Nuadibu. Sob a gestão do Ministro da Transformação Digital local, Ahmed Salem Bede, a iniciativa foi apontada como um marco para a soberania digital e resiliência das comunicações da Mauritânia, reduzindo o risco de apagões de conectividade e abrindo corredores de tráfego de dados de baixa latência em direção à região do Sahel.
As especificações operacionais e estruturais do sistema EllaLink compreendem os seguintes parâmetros:
| Parâmetro | Detalhes Técnicos |
| Comprimento da Rota Principal | ~10.000 km incluindo redes terrestres |
| Capacidade de Projeto | Até 100 Tbps (capacidade inicial ativada a 72 Tbps) |
| Estrutura de Fibra | 4 pares de fibra ótica diretos |
| Latência Homologada (RTD) | Menos de 60 milissegundos (tempo de ida e volta) |
| Ponto de Ancoragem (Brasil) | Praia do Futuro (Fortaleza, CE) |
| Ponto de Ancoragem (Europa) | Sines (Distrito de Setúbal, Portugal) |
| Centros de Dados Parceiros | Equinix e Interxion |
| Tecnologia de Transmissão | Acesso aberto (open access) e operação neutra |
| Fornecedor / Fabricante | Alcatel Submarine Networks (ASN) |