PeeringDB

O PeeringDB é uma base de dados pública, gratuita e mantida pela comunidade internacional que cataloga redes de computadores, Sistemas Autônomos (ASNs), Pontos de Troca de Tráfego (IXPs), centros de dados (data centers) e instalações de interconexão em escala global.

Considerada na indústria de telecomunicações como o "ponto de parada obrigatório" (first stop) para engenheiros de rede e coordenadores de tráfego, a plataforma funciona como a principal fonte de referência para o estabelecimento e a automação de acordos de interconexão direta (peering) e trânsito IP entre operadoras na Internet.

Histórico e governança

O PeeringDB foi concebido e programado em 2004 pelo engenheiro de redes norte-americano Richard Steenbergen (conhecido na comunidade técnica pelo pseudônimo Ras) durante discussões no âmbito do fórum de operadores da América do Norte (NANOG). Naquela época, o crescimento vertiginoso da Internet comercial provocava gargalos na coordenação entre operadoras, que dependiam de listas manuais dispersas de e-mails, planilhas privadas e comunicações informais para descobrir onde outras redes estavam presentes e com quem aceitavam trocar tráfego.

Com a expansão contínua da Internet, a administração informal do projeto tornou-se insustentável. Em 2015, a iniciativa foi formalmente institucionalizada com a criação da PeeringDB, Inc., uma associação sem fins lucrativos constituída sob a seção 501(c)(6) da legislação tributária dos Estados Unidos.

A governança da entidade é estruturada sobre os seguintes pilares:

Modelo de dados e arquitetura

Em 2016, a plataforma passou por uma reformulação estrutural completa (conhecida como PeeringDB 2.0), substituindo o código legado por uma arquitetura em Python e Django sustentada por um banco de dados relacional e uma interface de programação de aplicações (API) pública do tipo REST.

O modelo de dados do PeeringDB organiza a infraestrutura global da Internet em objetos principais inter-relacionados:

ObjetoNome TécnicoDescrição e Finalidade Operacional
RedenetRepresenta um Sistema Autônomo específico. Registra o número do ASN, razão social, política de peering praticada, endereço do site institucional, URL de servidor Looking Glass, indicação de presença em Servidores de Rotas e os limites máximos de prefixos aceitáveis (max-prefix) para os protocolos IPv4 e IPv6.
InstalaçãofacIdentifica uma instalação física neutra ou privada de centro de dados (data center / colocation facility) com endereço físico, coordenadas geográficas e operador responsável, onde redes podem instalar equipamentos e contratar conexões cruzadas privadas (Private Network Interconnect - PNI).
Ponto de TrocaixDescreve um Ponto de Troca de Tráfego (IXP) público, com dados sobre cidade, país, operadora mantenedora, meio de transmissão e suporte a roteamento multilateral.
Presença em IXPnetixlanModela o vínculo direto de um Sistema Autônomo a uma sub-rede ou malha de comutação (ixlan) de determinado IXP. Contém os endereços IPv4 e IPv6 alocados para o roteador daquela rede, MTU suportada, velocidade da porta contratada e se a rede mantém sessão BGP ativa com os servidores de rotas locais.
Presença em Data CenternetfacIndica que determinada operadora ou provedor mantém pontos de presença física ativos dentro de uma instalação de data center específica, facilitando a negociação de enlaces locais de fibra óptica.
Contato OperacionalpocRegistra os pontos de contato operacionais e administrativos (Point of Contact) da rede, categorizados em contatos de engenharia de tráfego (Peering), suporte 24/7 (NOC), segurança e notificação de incidentes (Abuse) e diretoria técnica.
OrganizaçãoorgEntidade corporativa guardiã que congrega e gerencia administrativamente múltiplas redes, IXPs ou instalações pertencentes a um mesmo grupo econômico.

Políticas de interconexão registradas

Um dos campos operacionais mais consultados no PeeringDB é a declaração pública da política de peering (Peering Policy) de cada Sistema Autônomo. O registro classifica as redes em quatro categorias padronizadas:

  1. Aberta (Open): A rede mantém a diretriz de estabelecer sessões de troca de tráfego gratuita com qualquer outro participante presente no mesmo Ponto de Troca de Tráfego, geralmente aceitando conexões bilaterais e conectando-se aos Servidores de Rotas para troca de tráfego multilateral (acordos multilaterais ou Multilateral Peering Agreements - MLPA);
  2. Seletiva (Selective): O operador exige o cumprimento de critérios técnicos ou econômicos mínimos prévios para firmar parcerias de peering (tais como volume mínimo de tráfego compartilhado, proporção equilibrada entre tráfego de entrada e saída, presença em múltiplos pontos geográficos ou NOC operacional em regime 24/7);
  3. Restritiva (Restrictive): A rede possui requisitos severos de interconexão, negociando parcerias de peering quase exclusivamente com grandes operadoras transcontinentais ou redes de trânsito Tier 1;
  4. Não realiza peering (No): A organização não troca tráfego livremente, exigindo que redes terceiras contratem seus serviços comerciais de trânsito IP pago.

Automação de redes e integração de indústria

O PeeringDB consolidou-se como peça central nos fluxos de automação de engenharia de redes (Network Automation) e redes definidas por software (SDN).

Em operadoras modernas, a configuração de sessões BGP deixou de ser realizada manualmente linha por linha na linha de comando dos roteadores. Ferramentas livres de orquestração de grande porte — tais como o ARouteServer (usado por servidores de rotas de IXPs), o Peering Manager e rotinas baseadas em NetBox e Python — consultam periodicamente a API REST do PeeringDB para:

Adicionalmente, grandes redes de entrega de conteúdo (CDNs) e provedores de nuvem de hiperescala (como Google, Netflix, Cloudflare e Meta) exigem contratualmente que qualquer operador que deseje estabelecer interconexão direta possua um registro ativo, completo e aprovado no PeeringDB como pré-requisito mandatório para abertura de negociações técnicas.

O ecossistema no Brasil e na América Latina

Em virtude do modelo descentralizado da infraestrutura de telecomunicações brasileira — o país concentra mais de 9.100 Sistemas Autônomos alocados pelo LACNIC e administrados pelo Registro.br —, o Brasil possui uma das maiores densidades de registros ativos em toda a base global do PeeringDB.

Ver também

Referências

  1. 1 2 3 Aemen Lodhi; Natalie Larson; Amogh Dhamdhere; Constantine Dovrolis; kc claffy (2014). «Using PeeringDB to Understand the Peering Ecosystem». ACM SIGCOMM Computer Communication Review. 44 (2): 20–27. doi:10.1145/2602182.2602186
  2. ↑ «PeeringDB: The Interconnection Database». PeeringDB, Inc. Consultado em 30 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 26 de outubro de 2026
  3. ↑ James F. Kurose; Keith W. Ross (2021). Redes de Computadores e a Internet: Uma Abordagem Top-Down 8ª ed. [S.l.]: Pearson. pp. 342–348. ISBN 978-6550110055
  4. 1 2 3 «PeeringDB Documentation and Governance». PeeringDB, Inc. Consultado em 30 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 23 de outubro de 2026
  5. 1 2 3 «PeeringDB API Documentation (v2)». PeeringDB, Inc. Consultado em 30 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 3 de outubro de 2026
  6. 1 2 Philipp Richter; Georgios Smaragdakis; Anja Feldmann; Nikolaos Chatzis; Jan Boettger; Walter Willinger (2014). «Peering at Peerings: On the Role of IXP Route Servers». ACM Internet Measurement Conference (IMC): 31–44. doi:10.1145/2663716.2663732
  7. ↑ «Mutually Agreed Norms for Routing Security». MANRS Community. Consultado em 30 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 15 de outubro de 2026
  8. ↑ «IX.br (PTT.br) São Paulo on PeeringDB». PeeringDB. Consultado em 30 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 5 de outubro de 2026

Ligações externas