MANRS (acrônimo para Mutually Agreed Norms for Routing Security, em português: Normas Mutuamente Acordadas para Segurança de Roteamento) é uma iniciativa global liderada pela indústria de telecomunicações que estabelece um conjunto de ações técnicas e compromissos operacionais para fortalecer a resiliência e a segurança da infraestrutura de roteamento da Internet.
Lançada em novembro de 2014 por um grupo pioneiro de nove operadoras de rede com o apoio institucional e financeiro da Internet Society (ISOC), a iniciativa foi concebida para superar as vulnerabilidades estruturais do protocolo Border Gateway Protocol (BGP-4) — em especial o Sequestro de BGP (BGP hijacking), vazamentos de rotas (route leaks) e ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS) amplificados por falsificação de endereços de origem (IP address spoofing).
Em janeiro de 2024, a governança operacional e a Secretaria Executiva da iniciativa foram formalmente transferidas para a Global Cyber Alliance (GCA), passando a ser gerida por um Comitê Gestor (Steering Committee) eleito pela própria comunidade de redes, mantendo a Internet Society como entidade fundadora e parceira estratégica.
O protocolo padrão que interliga os Sistemas Autônomos (ASNs) da Internet, o BGP, foi originalmente desenvolvido na década de 1980 sob um paradigma de confiança cega mútua entre os operadores, carecendo de mecanismos nativos de criptografia e validação de legitimidade de anúncios de caminhos.
A segurança do roteamento interdominial padece do chamado "problema da ação coletiva": o nível de segurança de qualquer rede individual na Internet não depende unicamente de suas próprias defesas, mas sim da postura e dos controles de filtragem adotados por todas as demais redes com as quais ela se conecta direta ou indiretamente na tabela global livre de rota padrão (DFZ). Um erro de digitação acidental em um filtro de prefixos (fat-finger error) ou a injeção deliberada de rotas falsas por uma operadora situada no outro lado do planeta pode propagar-se em poucos minutos por toda a malha global, desviando tráfego sigiloso ou causando a interrupção generalizada de serviços essenciais.
O MANRS foi criado para transformar recomendações técnicas históricas do IETF — historicamente dispersas em Melhores Práticas Vigentes (Best Current Practices - BCPs) de baixa adoção — em compromissos industriais mensuráveis e auditáveis pela comunidade.
O núcleo fundacional do MANRS é o Programa de Operadores de Rede (voltado para provedores de acesso à Internet, empresas de trânsito IP e redes corporativas autônomas). Para qualificar-se como participante, o operador deve comprovar a conformidade com quatro ações mandatórias:
Com a evolução e maturação da iniciativa, o MANRS ampliou seu escopo além das operadoras de telecomunicações tradicionais, criando módulos específicos adaptados a diferentes atores da infraestrutura digital:
| Programa Setorial | Ano de Criação | Público-Alvo | Foco das Ações Obrigatórias |
|---|---|---|---|
| Operadores de Rede | 2014 | Provedores de Acesso (ISPs), operadoras de trânsito IP e grandes corporações. | As 4 ações fundamentais: Filtragem rígida de anúncios BGP de clientes, bloqueio de IP spoofing (BCP 38/uRPF), contatos no PeeringDB/Whois e publicação de ROAs RPKI. |
| Pontos de Troca de Tráfego (IXPs) | 2018 | Operadores de comutação pública de tráfego (como o IX.br e o DE-CIX). | Filtragem mandatória em Servidores de Rotas (Route Servers - RFC 7947) com base em RPKI/IRR, proteção da malha de comutação de camada 2 contra pacotes não autorizados e disponibilização de ferramentas de diagnóstico como o Looking Glass. |
| Provedores de Nuvem e CDN | 2020 | Empresas de hiperescala e redes de distribuição de conteúdo (Google, Amazon Web Services, Cloudflare, Microsoft, Akamai, Netflix). | Aplicação de filtragem rigorosa em peering bilateral em escala planetária, contenção de vazamentos de rotas em múltiplos backbones e validação estrita de rotas recebidas de provedores a montante. |
| Fabricantes de Equipamentos (Vendors) | 2021 | Fabricantes de roteadores e sistemas operacionais de rede (Cisco, Juniper Networks, Huawei, Arista Networks, Nokia). | Fornecimento de configurações de fábrica seguras por padrão (secure defaults), suporte nativo aprimorado a uRPF, facilidade de implementação de validação RPKI e telemetria de conformidade nos equipamentos. |
Lançado oficialmente em agosto de 2019, o Observatório MANRS (MANRS Observatory) é uma plataforma pública de monitoramento e telemetria contínua que avalia em tempo real o nível de conformidade de Sistemas Autônomos de todo o mundo em relação às ações de segurança.
O observatório agrega dados provenientes de múltiplas redes de sensores e coletores globais:
Com base nessas métricas, a ferramenta gera um "Índice de Prontidão" (Readiness Score) individualizado para cada operadora e produz relatórios estatísticos periódicos sobre o estado global de saúde e resiliência da infraestrutura de roteamento da Internet.
Para mitigar as limitações remanescentes da validação de origem de rota convencional — que assegura a legitimidade do ASN originador, mas não impede a falsificação de saltos intermediários no atributo AS_PATH (como em sequestros de caminho ou vazamentos acidentais) —, a comunidade técnica do MANRS e os grupos de trabalho do IETF (SIDROPS) estudam a incorporação da Autenticação de Provedor de Sistema Autônomo (Autonomous System Provider Authorization - ASPA), protocolo que valida criptograficamente as cadeias de conectividade cliente-provedor ao longo de todo o percurso da rede.
O Brasil possui uma posição de destaque na adoção prática e na disseminação das diretrizes do MANRS na América Latina, reflexo da densidade de seu ecossistema de internet (segundo país em volume de Sistemas Autônomos no mundo, com mais de 9.100 ASNs ativos):
Centenas de Sistemas Autônomos de telecomunicações e operadoras privadas brasileiras figuram como membros credenciados no programa global do MANRS, conferindo ao país altos índices de conformidade de roteamento na América Latina.