Alábeta

Alábeta (em árabe: الأبطح; romaniz.: al-Abṭaḥ), também conhecida como Almuassabe (al-Muḥaṣṣab), Batá (al-Baṭḥāʾ) e Caife Bani Quinana (Khayf Banī Kināna), é uma localidade histórica situada entre Meca e Mina, na região do Hejaz, na atual Arábia Saudita. Seu nome deriva de um termo árabe empregado para designar leitos de cursos de água cobertos por cascalho fino ou extensões arenosas e pedregosas. A região é mencionada por geógrafos e historiadores islâmicos, que registraram diferentes delimitações de seu território, abrangendo áreas próximas a Alhajune e ao caminho entre Meca e Mina. Associada às antigas vias de circulação e aos locais de acampamento dos peregrinos, Alábeta também se destacou como espaço de atividades comerciais e de acontecimentos políticos e religiosos ligados à história de Meca.

No período pré-islâmico, Alábeta foi cenário de um confronto entre os partidários de Cuçai ibne Quilabe e seus adversários, cuja resolução contribuiu para consolidar o domínio dos coraixitas sobre Meca. A localidade passou a identificar os grupos coraixitas estabelecidos nas áreas centrais da cidade, conhecidos como Coraixe Albita, e serviu como ponto de concentração de mercadorias provenientes de outras regiões da Arábia e da Abissínia. Nos primeiros tempos do islão, aparece associada à pregação pública de Maomé, às perseguições sofridas pelos primeiros convertidos e a tradições relacionadas à Batalha de Badre. O profeta utilizou a região como lugar de acampamento durante a unra de 629, a conquista de Meca em 630 e a Peregrinação de Despedida em 632. Sua permanência em Alábeta após os ritos de Mina deu origem à prática conhecida como tacibe, cuja natureza ritual foi objeto de divergência entre os primeiros muçulmanos e as escolas de jurisprudência islâmica.

Durante a Idade Média, Alábeta continuou a desempenhar uma função estratégica nas disputas pelo governo de Meca. Em 1232, serviu de acampamento às forças da dinastia raçúlida que ocuparam temporariamente a cidade, enquanto em 1387 foi palco de um confronto entre facções dos catádidas, no contexto das intervenções do Sultanato Mameluco. No período otomano, a região também esteve associada à memória funerária de Meca, incluindo o sepultamento do poeta e calígrafo Gubari Abederramão, cujo túmulo se tornou um lugar de visitação. Com a expansão urbana contemporânea, a antiga localidade foi incorporada à malha de Meca, preservando referências históricas em monumentos como a Mesquita Alijaba, tradicionalmente identificada com Caife Bani Quinana e reconstruída no início do século XXI.

Geografia

Alábeta é uma localidade histórica situada entre Meca e Mina, na região do Hejaz, na atual Arábia Saudita. Seu nome deriva do substantivo árabe abṭaḥ, utilizado para designar o leito de um curso de água coberto por cascalho fino ou um vale de fundo amplo, arenoso e pedregoso. Segundo o geógrafo Iacute Alhamaui, a palavra também podia indicar, conforme as definições atribuídas a Ibne Duraide e Abu Zaíde, uma extensão de areia relativamente plana ou o traçado de um curso de água, independentemente de sua largura. Iacute situou Alábeta aproximadamente à mesma distância de Meca e Mina, embora admitisse que pudesse estar mais próxima desta última. A localidade também era conhecida como Almuassabe (em árabe: المحصب; romaniz.: al-Muḥaṣṣab), Batá (em árabe: البطحاء; romaniz.: al-Baṭḥāʾ), Batá (Baṭṭāḥ) e Caife Bani Quinana (em árabe: خيف بني كنانة; romaniz.: Khayf Banī Kināna), denominações preservadas nas fontes geográficas e nas tradições relacionadas à peregrinação islâmica. Iacute identificou expressamente Alábeta com Almuassabe e Caife Bani Quinana, mas rejeitou sua identificação com Du Tuá, encontrada em outras tradições.

Embora sua localização geral entre Meca e Mina seja consensual, as fontes históricas apresentam delimitações distintas para Alábeta. Segundo Alasraqui, a localidade estendia-se desde Alhajune, pelo lado esquerdo do caminho de Meca para Mina, até o muro de Curmã, numa área elevada em relação ao leito do vale. Quando o número de peregrinos era elevado, os acampamentos também ocupavam o próprio leito. Alfaqui, por sua vez, registrou descrições transmitidas por habitantes de Meca que situavam os limites de Almuassabe nas proximidades do Xibe Anre, do Xibe Açafi e dos muros de Mucaicira e Curmã, além de mencionar a passagem de Adaquir. Outras tradições geográficas estabeleceram limites diferentes. Conforme a descrição atribuída a Alasmai, Alábeta compreendia a região entre o Xibe Anre, conhecido como Alto Malaui, e o Xibe Banu Quinana, também denominado Baiadia. Já uma delimitação atribuída a Axafii situava a localidade entre os montes Alaira e Alácar, identificados, respectivamente, com os montes Almunaná e Alhajune. Algumas tradições estendiam o nome Alábeta a toda a região entre Alhajune e Mina, enquanto outras o aplicavam à área das Jamarate, onde se realizava o ritual de apedrejamento durante o haje. Essas diferentes identificações demonstram que a extensão geográfica do topônimo variou conforme os autores e as tradições locais.

História

Período pré-islâmico

Alábeta aparece nas tradições relativas à formação do domínio dos coraixitas sobre Meca. Quando Cuçai ibne Quilabe procurou assumir o controle da cidade e dos serviços associados à Caaba, contou com o apoio de grande parte dos quinanaítas, mas enfrentou a oposição dos becritas, que anteriormente haviam participado, ao lado dos cuzaaítas, da expulsão dos jurumitas de Meca. Os grupos adversários enfrentaram-se numa batalha travada em Alábeta, na qual ocorreram numerosas mortes. Para encerrar o conflito, as partes recorreram à arbitragem de Iamar ibne Aufe Alaiti, que decidiu em favor de Cuçai. O acordo consolidou o controle coraixita sobre Meca e pôs fim às vinganças de sangue decorrentes dos combates. Segundo a tradição recolhida por Ibne Sade, depois da vitória, Cuçai distribuiu os coraixitas por diferentes áreas da cidade. Os grupos estabelecidos em Alábeta ficaram conhecidos como Coraixe Albita, enquanto aqueles instalados nas regiões exteriores de Meca receberam a denominação de Coraixe Azauair. Essa distinção passou a identificar dois agrupamentos territoriais da tribo coraixita.

Além de sua importância na organização territorial dos coraixitas, Alábeta desempenhou uma função comercial no período pré-islâmico. Segundo uma tradição preservada por Ibne Habibe, os coraixitas costumavam realizar viagens comerciais anuais ao Iêmem, durante o inverno, e à Síria, durante o verão. Com o tempo, porém, essas expedições foram negligenciadas, e comerciantes de Tabala, da Abissínia e das regiões costeiras do Iêmem passaram a transportar suas mercadorias até as proximidades de Meca. Aqueles que chegavam por terra concentravam-se em Almuassabe, identificado com Alábeta, enquanto os que utilizavam as rotas marítimas desembarcavam em Gidá. Dessa maneira, os habitantes de Meca puderam obter mercadorias sem empreender pessoalmente as duas longas viagens anuais. Entretanto, sucessivos períodos de escassez comprometeram sua situação econômica, levando Haxime ibne Abde Manafe a retomar as expedições comerciais à Síria. O nome alternativo de Alábeta, Batá (Baṭḥāʾ), também era utilizado como uma das denominações de Meca. Segundo tradições registradas por Anuairi, Abede Almotalibe, avô de Maomé, era conhecido pela cúnia Abu Albatá, e teria se referido a si próprio como filho do senhor de Batá.

Primeiros tempos do islão

Segundo uma tradição atribuída a Aliacubi, foi em Alábeta que Maomé encerrou os três anos iniciais de pregação reservada e realizou pela primeira vez sua convocação pública à nova religião. A localidade também aparece associada ao próprio profeta por meio da nisba Alabetai, atribuída à sua descendência de Abede Almotalibe e à sua permanência na região. Durante os primeiros anos da propagação do islão, Alábeta também foi utilizada como lugar de perseguição aos convertidos. Segundo as tradições relativas a Iacir ibne Amir e sua esposa Sumaia binte Cubate, ambos pertencentes aos primeiros muçulmanos de Meca, membros dos maquezumitas, especialmente os associados a Abu Jal, conduziam a família até Alábeta, nos arredores da cidade, e a submetiam a maus-tratos sobre a areia e as pedras aquecidas pelo sol. As perseguições tinham por objetivo obrigá-los a abandonar o islão e afastar-se de Maomé. Segundo os relatos, o profeta tinha conhecimento dos acontecimentos e visitava os perseguidos para confortá-los, embora não dispusesse de meios para impedir os abusos. Iacir e Sumaia morreram em consequência das perseguições, provavelmente por volta de 615, sendo tradicionalmente considerados, respectivamente, o primeiro homem e a primeira mulher martirizados pela fé islâmica.

A localidade também figura nas tradições relacionadas aos acontecimentos que antecederam a Batalha de Badre, em 624. Segundo um relato preservado sobre Ática binte Abede Almotalibe, tia de Maomé, ela teria tido um sonho no qual um homem montado num camelo chegava a Meca e passava por Alábeta, pela Caaba e pelo monte Abu Cubais, anunciando aos habitantes que deveriam dirigir-se, dentro de três dias, ao lugar onde combateriam e seriam mortos. O homem lançava então uma rocha do alto do monte, que se fragmentava e espalhava seus pedaços pelas casas da cidade. Ática contou o sonho a seu irmão Alabás, mas a notícia acabou se difundindo entre os coraixitas. A tradição relaciona o episódio à inquietação que precedeu a chegada do mensageiro enviado por Abu Sufiane para solicitar auxílio à caravana ameaçada pelos muçulmanos. Em 629, Maomé retornou a Meca para realizar a unra, conforme as condições estabelecidas pelo Tratado de Hudaibia. Durante os três dias de permanência autorizados pelo acordo, alojou-se numa tenda instalada em Alábeta. Nesse período, os muçulmanos realizaram suas orações na Mesquita Sagrada, enquanto Bilal proclamou o adã do teto da Caaba. A presença dos peregrinos permitiu que os emigrantes revisitassem suas antigas residências e procurassem notícias dos parentes que haviam permanecido na cidade. Segundo a tradição, a conduta dos muçulmanos despertou o interesse de alguns habitantes de Meca pelo islão e contribuiu para reduzir a hostilidade de parte dos coraixitas.

Durante a conquista de Meca, em 630, Maomé voltou a estabelecer seu acampamento em Alábeta. Segundo a tradição transmitida por Ibne Sade, era um dos lugares onde costumava permanecer quando visitava a cidade. Após a conquista, recebeu ali a declaração de fidelidade de Hinde binte Oteba e de outras mulheres que haviam abraçado o islão. Alábeta adquiriu particular importância nas tradições relacionadas à Peregrinação de Despedida, realizada por Maomé em 10 A.H. (632). Depois de chegar a Meca, em 4 de Dulrija, Maomé realizou a circunvolução da Caaba e o percurso ritual entre Safa e Merve, dirigindo-se em seguida a Alábeta, onde mandou instalar sua tenda e permaneceu com seus companheiros até o oitavo dia do mês. Durante esses dias, dirigiu as orações em forma abreviada, com duas unidades rituais, e não voltou à Caaba antes de prosseguir para os demais locais da peregrinação. Em 8 de Dulrija, deixou Alábeta e partiu para Mina, onde iniciou a etapa seguinte dos ritos.

Concluídos os ritos em Mina, Maomé retornou a Alábeta, também conhecida como Almuassabe ou Caife Bani Quinana. Antes de deixar Mina, anunciou que desceria ao vale dos quinanaítas, local associado a uma antiga reunião dos politeístas de Meca para estabelecer um acordo de boicote contra os muçulmanos. Ao chegar, encontrou a tenda preparada por seu liberto Abu Rafi e ali permaneceu, realizando as orações do meio-dia, da tarde, do pôr do sol e da noite. Depois de descansar por algum tempo, dirigiu-se durante a noite à Caaba para realizar a circunvolução de despedida, antes de iniciar a viagem de regresso a Medina. A parada em Alábeta ficou conhecida como tacibe (taḥṣīb), termo relacionado a Almuassabe, outra denominação da localidade. A interpretação religiosa dessa permanência tornou-se objeto de divergência entre os primeiros muçulmanos. Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe considerava o tacibe uma prática recomendada pelo exemplo de Maomé, posição que também era associada aos califas Abu Becre, Omar e Otomão, que costumavam realizar a parada após a peregrinação. Em contrapartida, Abedalá ibne Alabás e Aixa sustentavam que Maomé havia permanecido no local apenas para descansar, sem intenção de estabelecer um rito religioso. A divergência também se refletiu na jurisprudência islâmica. Os juristas hanafitas consideraram o tacibe uma prática da suna, interpretando a permanência de Maomé em Alábeta como uma resposta deliberada ao antigo boicote dos politeístas. Já os maliquitas, xafeítas e hambalitas classificaram a parada como recomendável, mas não obrigatória. Apesar dessas diferenças, os juristas concordaram que sua omissão não comprometia a validade do haje nem exigia qualquer compensação ritual.

Período medieval

Em 629 A.H. (1231–1232), Alábeta serviu de acampamento às forças enviadas por Nuredim Omar ibne Ali, governante do Iêmem e fundador da dinastia raçúlida, para disputar o controle de Meca com os aiúbidas. A expedição era comandada por Ibne Abedane e acompanhada pelo xarife Raji ibne Catada, que pretendia recuperar o governo da cidade. Os invasores estabeleceram-se em Alábeta, enquanto Raji procurava conquistar o apoio dos principais habitantes de Meca. Parte das lideranças locais abandonou o governador aiúbida Toguetequim e aderiu aos aliados de Omar. Diante do enfraquecimento de sua posição, Toguetequim retirou-se inicialmente para Nacla e depois para Iambo. As forças raçúlidas ocuparam Meca em Rabi Alarrir, e a cutba passou a ser pronunciada em nome de Nuredim Omar. A ocupação foi temporária. O sultão aiúbida Alcamil enviou do Egito um exército comandado por Facradim Iúçufe ibne Axeique, com o apoio de Abu Sade Alhaçane, estabelecido em Iambo, e de Xia ibne Haxime, emir de Medina. As tropas egípcias chegaram a Meca em Ramadã de 629 A.H. (1232), derrotaram os partidários de Nuredim Omar e restauraram a autoridade aiúbida. Raji retirou-se, e Toguetequim reassumiu o governo da cidade.

Alábeta voltou a ser cenário de um confronto durante as disputas entre os catádidas pelo governo de Meca, no final do século XIV. Em 789 A.H. (1387), o sultão mameluco Barcuque decidiu substituir o emir Inane ibne Mugamis por Ali ibne Ajelane, depois de receber notícias dos conflitos entre Inane e os descendentes de Ajelane, bem como dos distúrbios ocorridos em Gidá. Inane, contudo, recusou-se a entregar o governo da cidade. Em 30 de Xabã de 789 A.H. (14 de setembro de 1387), suas forças enfrentaram em Alábeta os partidários dos filhos de Ajelane. Inane saiu vitorioso, e Cubais, um dos principais adversários, morreu no combate. Ali e os sobreviventes retiraram-se para o Uádi Marre. Apesar da vitória, Inane não conseguiu conservar o emirado. Com a chegada da caravana egípcia do haje, deixou Meca e refugiou-se em Uádi Nacla, permitindo que Ali assumisse o governo. Posteriormente, Inane estabeleceu-se no Uádi Marre e em Gidá, de onde continuou a contestar a autoridade de Ali. Durante o período otomano, Alábeta também aparece associada à área funerária de Meca. O poeta, calígrafo e erudito Gubari Abederramão, que residiu durante vários anos na cidade e compôs obras sobre a Caaba e os ritos da peregrinação, foi sepultado na região de Alábeta, no Cemitério de Almuala. Segundo o testemunho de Evliya Çelebi, seu túmulo tornou-se um lugar de visitação dos peregrinos.

Período contemporâneo

Na configuração urbana contemporânea de Meca, a área historicamente associada a Alábeta encontra-se integrada aos bairros e às vias de circulação da cidade. Um dos seus marcos tradicionais é a Mesquita Alijaba, situada no bairro de Almaábida, nas proximidades do caminho histórico de Adaquir. A Saudipédia identifica a mesquita com Caife Banu Quinana, também denominado Almuassabe, e registra a tradição segundo a qual Maomé teria orado no local. O edifício conserva referências a duas inscrições de fundação, datadas de 898 A.H. (1492–1493) e 1124 A.H. (1712–1713), encontradas na parede voltada para a direção da oração. Durante o período saudita, a mesquita passou por sucessivas reformas, incluindo uma reconstrução em 1422 A.H. (2001), quando recebeu revestimentos de mármore, uma cúpula e um minarete.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 Öğüt 1994, p. 82.
  2. ↑ Iacute Alhamaui 1995, p. 74.
  3. ↑ Alasraqui 1983, p. 160.
  4. ↑ Alfaqui 2003, pp. 72–73.
  5. ↑ Avcı 2002, p. 32.
  6. ↑ Hamîdullah 2000, p. 63.
  7. ↑ Efendioğlu 2013, p. 341.
  8. ↑ Uraler 2010, p. 134.
  9. ↑ Fayda 1991, p. 73.
  10. ↑ Küçükaşcı 2012, p. 154.
  11. ↑ Erul 2012, p. 590.
  12. ↑ Erul 2012, p. 591.
  13. ↑ Öğüt 1994, p. 83.
  14. ↑ Ibne Fade 1986, p. 613.
  15. ↑ Ibne Fade 1986, p. 614.
  16. ↑ Almacrizi 1997, p. 287.
  17. ↑ Alfaci 1998, pp. 423–425.
  18. ↑ Alfaci 1998, p. 425.
  19. ↑ Alparslan 1996, p. 168.
  20. ↑ Saudipédia 2021.

Bibliografia