Antissionismo

Manifestação do Neturei Karta, pela desmontagem pacífica do "estado sionista", na conferência do AIPAC, em Washington, DC, maio de 2005.

Antissionismo é a oposição política, moral ou religiosa às várias correntes ideológicas incluídas no sionismo, inclusive ao estado judeu, criado com base nesse conceito. Antes da Segunda Guerra Mundial, a oposição ao sionismo era comum entre as comunidades judaicas. Críticos seculares viam o sionismo como uma forma de nacionalismo incompatível com o universalismo iluminista, enquanto alguns grupos ortodoxos o rejeitavam por motivos teológicos, considerando que o estabelecimento de um Estado judeu deveria ocorrer apenas com a chegada do Messias.

Eventualmente, o termo também é muitas vezes aplicado à oposição política ao governo de Israel, sobretudo se motivada por denúncias de violações sistemáticas de direitos humanos dos palestinos, incluindo crimes de guerra, mas também à negação ao direito de existência do Estado de Israel.

Os antissionistas condenam o movimento sionista por ter promovido a compra e ocupação das terras no Mandato Britânico da Palestina. O questionamento sobre a definição de Israel como estado judeu ainda suscita controvérsia e oposição entre os antissionistas há mais de sessenta anos, assim como a ocupação da Cisjordânia.

História do antissionismo judaico

A oposição ao sionismo não surgiu exclusivamente entre não judeus. Desde o surgimento do sionismo político, no final do século XIX, judeus mantiveram posições contrárias ao projeto de criação de um Estado judeu. O próprio sionismo moderno surgiu em um contexto de intenso antissemitismo europeu. Theodor Herzl, um dos principais fundadores do movimento sionista, foi influenciado pela experiência do antissemitismo na Europa, incluindo o Caso Dreyfus e a ascensão de movimentos políticos antissemitas em Viena. Em 1897, Herzl organizou o Primeiro Congresso Sionista, que estabeleceu como objetivo a criação de um lar para o povo judeu na Palestina, então parte do Império Otomano.

O surgimento do sionismo, entretanto, não produziu uma posição única entre os judeus. Alguns grupos religiosos consideravam que a criação de um Estado judeu por meios políticos humanos, antes da chegada do Messias, contrariava determinadas interpretações da tradição judaica. Outros judeus, particularmente socialistas e integrantes de movimentos trabalhistas judaicos, rejeitavam o nacionalismo judaico por razões políticas e defendiam a organização das comunidades judaicas nos países onde viviam.

Um dos principais exemplos de oposição secular ao sionismo foi o Bundismo, movimento socialista judaico criado no Império Russo em 1897. O Bund defendia a organização política e cultural dos judeus onde estes viviam e rejeitava a ideia de que a solução para os problemas enfrentados pelos judeus deveria necessariamente ser a criação de um Estado territorial judeu na Palestina.

Entre os judeus religiosos, a oposição ao sionismo assumiu diferentes formas. A organização Agudat Israel, fundada em 1912, representou setores da ortodoxia judaica que viam o nacionalismo sionista como uma ameaça à tradição religiosa judaica. Segundo a Enciclopédia do Holocausto, a organização foi formada em parte como reação ao crescimento do sionismo e de sua influência cultural e política entre os judeus.

Antissionismo e antissemitismo

A relação entre antissionismo e antissemitismo é objeto de controvérsia política, histórica e acadêmica. Os dois conceitos não são sinônimos: antissemitismo refere-se à hostilidade, preconceito ou discriminação contra judeus enquanto judeus, enquanto antissionismo refere-se à oposição ao sionismo, movimento político que surgiu na Europa no final do século XIX e que defendia o estabelecimento de um lar nacional ou Estado judeu na Terra de Israel.

Muitos judeus são antissionistas. Antes do estabelecimento do Estado de Israel, a grande maioria dos rabinos se manifestavam em oposição ao sionismo. Depois do estabelecimento do estado, grupos religiosos como Satmar e Neturei Karta mantiveram a mesma oposição que era comum anteriormente, de dizer que o sionismo é idolatria, de que é proibido um judeu se juntar com sionistas, entre outras coisas. Há judeus agnósticos marxistas, como Ralph Shoenman, Michel Warschawski e Norman Finkelstein, que se autodenominam ou são reconhecidos como antissionistas. Igualmente, alguns proeminentes intelectuais judeus que defendem a desocupação dos territórios palestinos e/ou a eliminação do Estado de Israel são considerados antissemitas por alguns outros judeus e frequentemente são proibidos de entrar em território israelense.

Antissionismo após a criação de Israel

A criação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, alterou significativamente o debate sobre o sionismo. O Estado foi criado em um contexto marcado pela destruição das comunidades judaicas europeias durante o Holocausto e pelo crescimento do apoio internacional à criação de um Estado ou lar nacional judaico.

A experiência do Holocausto contribuiu para ampliar o apoio ao sionismo entre muitos sobreviventes e outros judeus europeus. Para muitos deles, a criação de um Estado judeu passou a ser associada à necessidade de garantir segurança e autodeterminação após séculos de perseguição e, especialmente, após o genocídio nazista. Ao mesmo tempo, grupos judaicos antissionistas continuaram a existir depois de 1948. Posteriormente, novas formas de antissionismo surgiram entre judeus seculares e organizações judaicas progressistas, especialmente associadas à oposição à ocupação israelense dos territórios palestinos e à defesa dos direitos dos palestinos.

No século XXI, organizações judaicas que se identificam como antissionistas passaram a atuar em diferentes países. Um exemplo é a Jewish Voice for Peace (JVP), organização judaica estadunidense que se define como antissionista e que atua em defesa dos direitos dos palestinos e contra diferentes políticas do Estado de Israel.

A existência de organizações desse tipo é utilizada como argumento para demonstrar que não existe identidade necessária entre judaísmo, sionismo e apoio às políticas do Estado de Israel. Judeus podem assumir posições políticas diversas em relação ao sionismo, incluindo posições sionistas, não sionistas e antissionistas. Essa diversidade também pode ser observada em movimentos judaicos religiosos. Enquanto algumas correntes religiosas participam politicamente do Estado de Israel e defendem o sionismo, outras continuam rejeitando sua legitimidade por razões teológicas.

Ver também

Referências

  1. ↑ Brasher 2006, p. 70.
  2. ↑ «Israel comete violações aos direitos humanos». Human Rights Watch. Consultado em 4 de janeiro de 2024
  3. ↑ No, anti-Zionism is not anti-semitism. " As an idea, a Jewish homeland was always controversial. As a reality, Israel still is - and it is not anti-Jewish to say so." Por Brian Klug. The Guardian, 3 de dezembro de 2003.
  4. ↑ Israel’s Contested Identity and the Mediterranean. The territorial-political axis: Eretz Israel versus Medinat Israel, p.8 Arquivado em 10 de junho de 2010, no Wayback Machine., por Raffaella A. Del Sarto. The Hebrew University of Jerusalem. Department of International Relations, 2002.
  5. ↑ «Os Sobreviventes do Holocausto e a Criação do Estado de Israel». Enciclopédia do Holocausto. Consultado em 18 de agosto de 2026
  6. ↑ «Resistance in the Smaller Ghettos of Eastern Europe: Glossary» (em inglês). United States Holocaust Memorial Museum. Consultado em 18 de agosto de 2026
  7. ↑ «Resistance in the Smaller Ghettos of Eastern Europe: Glossary» (em inglês). United States Holocaust Memorial Museum. Consultado em 18 de agosto de 2026
  8. ↑ «Definição de trabalho de antissemitismo». Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Consultado em 18 de agosto de 2026
  9. ↑ «Os Sobreviventes do Holocausto e a Criação do Estado de Israel». Enciclopédia do Holocausto. Consultado em 18 de agosto de 2026
  10. ↑ «Mônica Bergamo: Coletivo de judeus defende Lula e diz que petista externou 'o que está no imaginário'». Folha de S.Paulo. 19 de fevereiro de 2024. Consultado em 21 de fevereiro de 2024
  11. ↑ Anti-Zionism is anti-semitism, por Emanuele Ottolenghi. The Guardian, 29 de novembro de 2003.
  12. ↑ «שלוש השבועות | קונטרסים | ילקוט השבעתי אתכם | בית». yhe620
  13. ↑ Edward Alexander e Paul Bogdanor. The Jewish Divide Over Israel: Accusers and Defenders.Transaction Publishers, New Brunswick, New Jersey 2006.
  14. ↑ “Progressive” Jewish Thought and the New Anti-Semitism Arquivado em 12 de março de 2010, no Wayback Machine., por Alvin H. Rosenfeld. American Jewish Committee, 2006. O documento do American Jewish Committee cita, entre esses judeus antissemitas, o linguista Noam Chomsky, o escritor Joel Kovel, o historiador Norton Mezvinsky, o cientista político Norman Finkelstein, o fundador do International Solidarity Movement, Adam Shapiro, o filósofo e historiador das religiões Daniel Boyarin, o rabino David Weiss Halivni e o teólogo Marc H. Ellis, entre outros.
  15. ↑ «Os Sobreviventes do Holocausto e a Criação do Estado de Israel». Enciclopédia do Holocausto. Consultado em 18 de agosto de 2026
  16. ↑ «Os Sobreviventes do Holocausto e a Criação do Estado de Israel». Enciclopédia do Holocausto. Consultado em 18 de agosto de 2026
  17. ↑ «About» (em inglês). Jewish Voice for Peace. Consultado em 18 de agosto de 2026
  18. ↑ «Anti-Zionism Among Jews» (em inglês). Jewish Virtual Library. Consultado em 18 de agosto de 2026

Bibliografia

Ligações externas