
Tata Inti ou simplesmente Inti (em quéchua: inti, lit. 'Sol') é o Deus solar da mitologia Inca que foi venerado como padroeiro nacional do Estado Inca. Embora seja geralmente identificado como o Deus do Sol, é mais apropriadamente compreendido como um conjunto de aspectos solares, uma vez que os Incas dividiam sua identidade de acordo com as fases do Sol.
A crença mais difundida, sustenta que Inti nasceu de Viracocha, este possuía muitos títulos, mas o principal era o de Deus da Criação dos Incas. Inti exercia a soberania no plano superior ou divino, do mesmo modo que um intermediário seu, o Imperador Inca, chamado "Filho de Inti", que reinava sobre os homens, ou seja, acredita-se que ele e sua família descendiam do Deus solar.
Inti foi uma das principais divindades da religião Inca, ele era cultuado em muitos santuários, recebendo oferendas como o ouro, a prata, e as chamadas "virgens do Sol", que o serviam. O Deus do Sol possuía um grande templo em Cusco, (em quéchua, Quri Kancha, "recinto de ouro" ou "templo dourado", originalmente Inti Kancha, "templo do sol"), capital do Império Inca, onde as múmias dos Imperadores Incas eram guardadas, e cujas muralhas eram feitas de ouro, o que os Incas acreditavam ser o suor do Sol.
A palavra Inti não é de origem quéchua, mas um empréstimo do puquina, o que explica por que línguas historicamente não relacionadas, como o quéchua, o aimará e o mapuche têm palavras semelhantes para o Sol.As semelhanças não são apenas linguísticas, mas também simbólicas, como na cosmologia mapuche e andina central, em que o Sol (Inti/Antu) e a Lua (Killa/Cuyen) são cônjuges.

A Engenharia inca foi destacada pelo domínio da cantaria com encaixes milimétricos sem uso de argamassa, construção de estradas nas montanhas (Qhapaq Ñan), terraços agrícolas (andenes) com controle de erosão, e avançados sistemas hidráulicos de abastecimento e drenagem, garantindo extrema resistência a terremotos.
As construções incas carecem de ornamentação ou de intrincada decoração. Talha, escultura, altos ou baixos-relevos não são usados de forma excessiva ou decorativa. Essa austeridade também se reflete na disposição dos cômodos dos templos, até mesmo na própria câmara do governante. Apesar dessa simplicidade, as crônicas dos invasores falam de uma decoração especial em Coricancha , onde se destacavam relevos e esculturas em ouro. Aparentemente, este templo seria o único a possuir esse tipo de decoração.
O elemento mais comum da arquitetura inca é a kancha, um composto retangular que continha uma ou mais estruturas de um cómodo.Nas áreas residenciais, as kanchas eram verdadeiras moradias dos residentes locais. Noutras áreas, como de trabalho, podiam ser moradas temporárias, abrigos. Havia setores especiais em alguns centros destinados a abrigar o Sapa Inca e a sua comitiva durante as suas viagens. Havia também a kallanka, um prédio retangular e alongado contendo um espaço interior sem divisões, com um dos lados abrindo-se para uma praça.
As kallankas eram comuns na região norte e abrigavam grupos em trânsito, como tropas, além de serem também usadas para festas. Já na região sul do império inca, havia diversos locais onde só havia uma única kancha. As sofisticadas construções em pedra vistas em Cuzco eram raras nas províncias, onde as casas e prédios eram construídos com a utilização dos materiais disponíveis na região. Na região costeira, por exemplo, o material mais utilizado era o barro.
Por muito tempo, o quipu foi tratado pela arqueologia como um engenhoso instrumento de contabilidade do Império Inca. Criado a partir de cordas principais das quais pendiam fios coloridos com nós em diferentes posições, o sistema era tradicionalmente associado ao registro de números, censos populacionais, estoques agrícolas e tributos. Atualmente, certos estudos apontam a possibilidade de se assemelhar à um sistema simples de "prototipo" computador, mas não foi confirmada esta possibilidade.
No Império Inca, o quipu desempenhava um papel central na administração territorial. Sem um sistema de escrita alfabética consolidado, a civilização utilizava os nós para registrar informações que iam de colheitas a deslocamentos populacionais. O valor numérico de cada dado dependia da posição do nó na corda, obedecendo a um sistema decimal posicional. Décadas atrás, estudos matemáticos já haviam demonstrado a sofisticação desse método, revelando que os incas dominavam uma lógica de registro extremamente precisa.
Nas tradições Incas, Inti era descrito como uma divindade benevolente, mas quando descontente, podia manifestar sua ira por meio de eventos como eclipses solares, tornando necessários sacrifícios e oferendas para recuperar sua boa vontade. Segundo uma das tradições míticas Incas, Inti foi criado pela divindade suprema Viracocha a partir de uma ilha no Lago Titicaca. Embora Viracocha ocupasse uma posição superior no panteão Inca, era menos diretamente envolvido nos assuntos mundanos, permitindo que divindades como Inti exercessem influência direta sobre o mundo.
Outra versão do mito afirma que Inti era irmão de Mama Killa (escrito Mama Quilla ou Mama Kilya), a Deusa da Lua e eles tiveram dois filhos, Manco Cápac (também conhecido como Ayar Manco) e Mama Oqllo (escrito Mama Ocllo ou Mama Coya), que além de sua irmã era sua esposa, considerados os ancestrais fundadores da civilização Inca. De acordo com o mito, Inti transmitiu conhecimentos a Manco Cápac, enquanto Mama Killa instruiu Mama Oqllo, que posteriormente teria repassado esses ensinamentos às mulheres.
A narrativa também relata que, ao observar o estado dos povos andinos, Inti enviou seus filhos à Terra com a missão de instruir os humanos a civilização e a religião. Manco Cápac teria ensinado aos homens práticas relacionadas à organização social e ao trabalho, enquanto Mama Oqllo teria instruído as mulheres em atividades como a tecelagem, a preparação de alimentos e a administração do lar. Segundo a tradição, ambos percorreram diferentes regiões, transmitindo conhecimentos considerados fundamentais para o desenvolvimento da sociedade Inca.
De acordo com a mitologia, Inti também ordenou que seus filhos construíssem a futura capital Inca (cusco) no local onde uma barra ou bastão de ouro divino que carregavam consigo penetrasse a terra, os Incas acreditavam que isso havia acontecido na cidade de Cusco.
Segundo algumas interpretações, o mito da criação possui um conflito entre Viracocha e Inti acerca do significado da criação do Sol e da questão de saber se ele deveria ser venerado como uma entidade independente. Algumas fontes identificam a figura central do Portal do Sol como Inti, enquanto outras a identificam como Viracocha, considerando o Sol apenas uma das muitas criações.
Os Incas dedicavam muitas cerimônias ao Sol para garantir o bem-estar do Sapa Inca. O Sol também era importante para os Incas, particularmente para os povos das terras altas, pois era necessário para a produção de culturas como o milho e outros grãos.Acreditava-se também que o calor do Sol causava a chuva, pois, durante a estação chuvosa, o Sol era mais quente e brilhante, enquanto na estação seca era mais fraco.
Os Incas reservavam grandes quantidades de recursos naturais e humanos em todo o Império para o culto de Inti. Cada província conquistada deveria dedicar um terço de suas terras e rebanhos ao Deus solar, conforme determinado pelo Inca. Além disso, as províncias mais importantes possuíam um Templo do Sol, no qual sacerdotes e sacerdotisas prestavam serviços.Os itens oferecidos no culto a Inti, para os quais há evidências arqueológicas, incluíam alimentos, folhas de coca e tecidos, além de animais, sangue e sacrifícios humanos.
As sacerdotisas eram as mamakuna escolhidas entre as aqllakuna ("mulheres escolhidas"), que teciam tecidos especiais e preparavam a chicha para as festividades e os sacrifícios dedicados a Inti.Além disso, elas desempenhavam um papel especial durante o solstício, pois dizia-se que o Sol teria pressagiado uma morte que acabaria com a linhagem solar no Império Inca. Após o solstício, as mamakuna iniciavam um período de jejum, na esperança de se aproximarem da dor do Sol, para que pudessem compreender o que estava prestes a acontecer e impedir que o mal ocorresse.
O sumo sacerdote de Inti, Willaq Umu (também escrito como Villac Umu), ocupava a posição religiosa mais elevada do Império Inca. Além de suas funções cerimoniais, possuía considerável autoridade política e militar, sendo frequentemente considerado a segunda pessoa mais importante do Império, estando diretamente abaixo do Sapa Inca na hierarquia política e religiosa, muitas vezes eram até irmãos.
Há outro aspecto do culto que não envolve os sacerdotes, mas sim o povo Inca, uma vez que eles acreditavam que eram descendentes do Sol, mais especificamente, acreditava-se que a classe dominante descendia do Sol, o que reforçava a associação simbólica entre a elite e o povo Inca com a divindade solar. Há interpretações que sugerem que essa concepção influenciava práticas sociais e rituais associados a viagens, pois, sempre que um membro da sociedade Inca viajasse, sua viagem era entendida como um símbolo de Inti e de sua nação, o que levava à necessidade de um caráter sagrado para entrar em certas cidades e até mesmo para viajar dentro do Império.
Segundo algumas interpretações, os templos dedicados ao Sol eram descritos como estruturas altamente ornamentadas, com os desenhos no interior feitos de ouro e outras joias. Isso aumentava o status daqueles que cultuavam o Sol dentro do edifício e demonstrava que havia certo sacrifício ao Deus, ao conferir ao templo essas glórias que não seriam mais utilizadas pelo povo, mas sim por ele.
O principal templo da religião estatal Inca era o Qurikancha em Cusco, dentro dele, havia nichos nas paredes nos quais os corpos de Imperadores e governantes anteriores eram exibidos, juntamente com várias estátuas de Inti em certos festivais. Algumas representações do Deus do Sol também o mostravam em forma humana, com uma cavidade na região central do corpo preenchida por uma mistura de pó de ouro e cinzas dos corações dos reis Incas.
Uma das mais importantes representações cultuais de Inti era Punchao (em quéchua, "dia", também escrita como Punchaw), uma estátua de ouro associada ao culto solar no Qurikancha, em Cusco. Segundo as descrições preservadas, a imagem retratava a divindade sob a forma de um menino sentado, adornado com insígnias reais e raios solares, além de figuras de leões e serpentes projetando-se de sua forma.Relatos também afirmam que seu interior continha as cinzas ou restos dos órgãos de governantes Incas falecidos. Em 1572, durante a captura de Túpac Amaru e a queda de Vilcabamba, a estátua foi tomada pelos espanhóis. Documentos indicam que ela pode ter sido levada para a Espanha, onde provavelmente permaneceu até o início do século XVII, embora seu destino final seja desconhecido.
Alguns autores consideram o culto a Inti e sua ascensão como formas de utilização da religião para fins políticos, uma vez que o rei Inca passou a ser cada vez mais identificado com o Deus do Sol. Isso reforçava o caráter de legitimação divina do poder Imperial.

O festival de Inti Raymi, que atualmente atrai muitos turistas para Cusco, significa "Festival do Sol" e homenageia o Deus Sol. Originalmente era realizado por volta de 24 de junho no Império Inca, durante o solstício de inverno do Hemisfério Sul, o dia mais curto do ano e tinha como objetivo celebrar o início de uma nova estação de plantio.

Segundo Juan José Vega, o festival foi reorganizado durante o governo de Pachacuti, governante frequentemente associado à consolidação e expansão do culto solar Inca.De acordo com Vega, o cronista Juan de Betanzos relata que Pachacuti teria instituído uma importante festividade solar denominada Yahuarincha Aymoray, considerada por alguns autores uma forma anterior do Inti Raymi.
A festividade contava com a presença de governadores (tocricocs) e autoridades vindas das províncias de todos os setores do Tawantinsuyu. Os capitães, funcionários e curacas presentes vestiam trajes de alto prestígio, incluindo roupas de cumbe e insígnias decoradas com placas de ouro e prata, com marcas em suas roupas que identificavam sua origem e posição hierárquica diante do Inca.
A preparação para o festival de Inti Raymi começava com um jejum de três dias, durante o qual não se acendiam fogueiras e as pessoas se abstinham de relações sexuais. Este festival durava nove dias e, durante esse período, as pessoas consumiam grandes quantidades de comida e bebida.ambém eram realizados muitos sacrifícios, todos concentrados no primeiro dia. Ao final dos nove dias, os participantes partiam com a permissão do Inca.
Correspondendo aos três estágios diurnos do Sol, a identidade de Inti também é dividida em três subcomplexos principais: o pai, o filho e o irmão.
O primeiro é Apu Inti ("Inti supremo"), que representa o pai e às vezes é conhecido como "O Senhor Sol". O segundo refere-se a Churi Inti ("Filho Inti"), que representa o filho de Inti e é frequentemente conhecido como "Luz do Dia". Já a terceira, e última, divisão de Inti é Inti Wawqi ("irmão Sol", ou "irmão Inti", também escrito como Inti-Guauqui ou Inti-Huaoqui), que também representa o Deus Sol em sua posição específica como pai fundador do Império Inca e centro do culto oficial aos ancestrais do Estado.
Além disso, Apu Inti e Churi Inti podem ser interpretados ao longo de um eixo astronômico, porque estão associados, respectivamente, aos solstícios de verão e inverno. No entanto, Inti Wawqi não está associado a uma localização astronômica.
Outra teoria sobre a separação do Sol envolve as funções que Inti desempenhava, em vez de se tratar de diferentes fases do Sol. A crença afirma que um dos sóis representava a estrela real no céu, que dava luz e calor ao planeta, o outro representava o dia, quando o Sol era o destaque do céu em vez da Lua, e o terceiro dizia respeito ao poder de fazer crescer as coisas, relacionado ao significado agrícola do culto ao Sol.
O Sol já estava presente na cultura andina mesmo antes do domínio do Império Inca. Essa conexão com o Sol pode ser atribuída à importância da agricultura nessas sociedades, já que, sem luz solar constante, a maioria das plantações não prosperava. O Sol também estava ligado à chuva, outro aspecto essencial para o desenvolvimento das plantações.
O Sol tinha clara importância para a civilização Inca, o que pode ser visto até mesmo na arquitetura do Império. Os Ushnus eram edifícios que tinham uma profunda conexão com o Sol e proporcionavam conexões durante as passagens do zênite solar. Neles os soldados juravam lealdade à liderança Inca. O impacto disso pode ser visto no fato de que essas estruturas eram construídas com base na compreensão que eles tinham sobre o Sol, já que prestavam atenção no horizonte em vários dias importantes do ano, para que pudessem estabelecer essas conexões. Supõe-se que isso se referia ao momento em que as cerimônias poderiam ocorrer, para que fossem abençoadas pelo Sol.
Um exemplo de simbolismo encontrado fora da cultura Inca é o Portal do Sol em Tiwanaku, que possui impacto significativo na arqueologia solar do local, pois oferece uma compreensão da posição do Sol em dias importantes, como os solstícios e os equinócios.

Além de o Sol de ter sido utilizado em símbolos do passado e possuir uma importância na cultura e na religião da região, ele continua presente em importantes símbolos nacionais de países que outrora integraram o Império Inca. Esses símbolos têm sido interpretados como exemplos da permanência de elementos da herança cultural andina até os dias atuais. Ainda que não haja garantia de que esses símbolos estejam diretamente relacionados ao Deus Inti, o significado cultural do Sol se manteve ao longo das mudanças de Império e da colonização dos Andes.
O Sol também é representado nos brasões da Bolívia, da Argentina, do Uruguai e do Equador, bem como na bandeira histórica do Peru. Todos esses países, com exceção do Uruguai, incluem territórios que fizeram parte do Império Inca. A mais alta honraria concedida pelo Estado peruano, a Ordem do Sol, também faz referência a Inti.
Alguns autores associam o Sol de Maio a possíveis origens relacionadas a Inti e que ele pode ser encontrado nas bandeiras da Argentina e do Uruguai.