Batalha dos Alcaides

Batalha dos Alcaides
Guerras Luso-Marroquinas

A Serra Verde de Marrocos, à vista da qual se deu a Batalha dos Alcaides.
Data14 de Abril de 1514
LocalBoulaouane, Marrocos
DesfechoVitória portuguesa
Beligerantes

Reino de Portugal Império Português

Reino de Fez

Comandantes

Reino de Portugal D. João de Meneses

Lutete
Latar

Forças

1000 lanceiros portugueses
1300 peões portugueses
2000 cavaleiros berberes

7,000 homens

Baixas

>50 mortos
100 feridos

2000 mortos

A Batalha dos Alcaides deu-se a 14 de Abril de 1514, entre os portugueses e as tropas do sultão de Fez. Saldou-se numa vitória portuguesa e foi a primeira batalha campal travada pelos portugueses em Marrocos, bem como a única antes de Alcácer-Quibir.

Contexto

Portugal encontrava-se envolvido em Marrocos desde a Conquista de Ceuta em 1415. Marrocos sucumbiu pouco depois à guerra-civil, o que permitiu à Coroa Portuguesa intervir na região: Alcácer-Ceguer foi conquistada em 1458. Ao mesmo tempo, as costas de Marrocos, sobretudo no sul mais afastado da capital de Fez, eram muito frequentadas por numerosos mercadores e armadores portugueses, pelo que algumas cidades costeiras, como Safim e Azamor, repudiaram os seus laços com o sultão de Marrocos para se lançarem na protecção do rei de Portugal. Anafé, importante cidade portuária e conhecido couto de piratas, foi destruída em 1468. Arzila e Tânger foram conquistadas em 1471 e, em 1487, o rei D. João II enviou uma expedição à Enxovia, para responder a um apelo lançado por Mulei Benfageja, parente próximo do sultão de Fez e que pedia ajuda contra os habitantes de Enxovia, entre Anfa e Larache, que se haviam revoltado.

A ofensiva do rei D. Manuel em Marrocos

Ao mesmo tempo que prosseguiam as Descobertas com grandes resultados, o rei D. Manuel nutria o desejo de conquistar Marrocos, antiga ambição dos reis portugueses. A política de conquistas em Marrocos era muito popular em Portugal, sobretudo entre a nobreza. Logo após subir ao trono em 1495 portanto, "proveu em muita abastança todo os lugares de além, assim de mantimentos, como de gente de pé e de cavalo, artilharia e outras munições, acrescentando ordenados, soldos e mantimentos aos capitães, adais e outros oficiais e assim aos moradores e outra gente de guerra", segundo Damião de Góis. Para além do mais, concedeu também o dízimo dos tributos cobrados aos mouros à Igreja. Logo no ano seguinte, o rei autorizou o visconde de Vila Nova de Cerveira a fretar navios na Galiza ou em Biscaia, para quando chamasse a marinha a participar numa grande campanha em Marrocos liderada por si.

Os Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, entretanto, tudo fizeram para impedir o avanço das forças portuguesas em África, pelo que só em 1505 é que o rei D. Manuel pode desencadear a sua grande ofensiva em Marrocos. Nesse mesmo ano, João Lopes de Sequeira fundou a fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué. No ano seguinte, autorizou Jorge de Melo a fundar uma fortaleza no porto de Mazagão, porém este morreu na tentativa. Em 1507, a cidade de Safim foi conquistada. A 12 de Dezembro deste ano, o célebre Diogo de Azambuja referia ao rei que os trabalhos de fortificação da cidade decorriam favoravelmente e dava-lhe conta da "fé que tinha em por bandeira em Marrocos, esperando que um filho d'el-rei viesse a ser ali rei".

Após a ocupação de Safim, o novo capitão desta cidade, Nuno Fernandes de Ataíde, levou a cabo uma série de campanhas vitoriosas que levaram as armas lusas até ao Atlas. Logrou também firmar um pacto com as tribos berberes da região que, receosos de o enfrentarem, aceitaram a soberania portuguesa, sendo assim fundado o Protectorado da Duquela. Estes aliados muçulmanos passaram a combater sob as ordens dos capitães portugueses e muito contribuíram para a afirmação da presença portuguesa em Marrocos. A Safim começou então a fluir cereal como tributo de paz pago pelas tribos, que passou a abastecer Portugal.

Desembarque das tropas portuguesas na conquista de Azamor.

Em 1508, D. Manuel enviou uma pequena expedição à conquista de Azamor, a maior cidade na região e na qual o rei já contava com o apoio de um príncipe marroquino, Mulei Zião. Porém o ataque falhou. Azamor foi só conquistada em 1513, quando o duque de Bragança, D. Jaime, comandou uma poderosa frota com mais de 400 navios e de 25,000 homens, a maior organizada no reinado do Venturoso. Destes, 13,000 eram soldados de infantaria e 2,000 de cavalaria. O exército desembarcou no porto de Mazagão a 28 de Agosto e marchou dali por terra para Azamor mas os defensores desta cidade preferiram abandoná-la do que enfrentar os portugueses. Ocupada a cidade a 3 de Setembro, a sua guarnição foi fixada em 1,900 homens. Azamor serviria apenas como primeira etapa de um plano mais ambicioso que tinha por objectivo a conquista de outras cidades ao longo da costa marroquina, bem como a conquista da cidade de Marraquexe e todo o sul de Marrocos. Embora se esperasse que o duque D. Jaime ficasse em Marrocos pelo menos um ano, este partiu para Portugal a 21 de Novembro com a maioria das tropas. Ficou por capitão da cidade Rui Barreto e D. João de Menezes como capitão do campo.

Inicialmente, o Protectorado da Duquela o abarcava apenas as terras de Garabia e Abida mas, com a conquista de Azamor, passou a incluir também a Xerquia, portanto toda a região da Duquela.

O contra-ataque do sultão de Fez

Marrocos em inícios do séc. XVI, vendo-se o Protectorado da Duquela.

Com as populações do sul de Marrocos a serem alvo das almogavarias de cavaleiros que partiam de Azamor ou de Safim e apercebendo-se do grande perigo que o seu trono corria caso os portugueses consolidassem as suas posições, o sultão de Fez Mulei Mafamede, o Português, procurou de imediato recuperar o território perdido. Logo em Dezembro de 1513 circularam boatos de que que o sultão pretendia atacar Azamor e, a 11 deste mês, Lopo Cabreira, um oficial, escrevia a D. Manuel dando-lhe conta de que ficaria na cidade para enfrentar o contra-ataque esperado.

Com a chegada a Azamor de notícias cada vez mais alarmantes dos preparativos do sultão de Fez e da aproximação da vanguarda do seu exército, os portugueses aperceberam-se do perigo que corriam, encontrando-se as obras de fortificação da cidade ainda em curso. Os capitães de Safim e de Azamor decidiram unir esforços para rechaçar as tropas do sultão que se encontravam ainda em fase de agregação, perto de Boulaouane ou Bolião. Ficaram sob o comando de D. João de Meneses, ao passo que Yahya ben-Tafuft comandava os aliados berberes dos portugueses.

A batalha

O castelo de Boulaouane.

Em inícios de Março de 1514 começam a chegar a Safim e Azamor informações precisas quanto às tropas que o sultão de Fez se encontrava a reunir na região, fruto do sistema de informações e espionagem montado pelos portugueses. O sultão enviara para a região a vanguarda do seu exército, composta por cerca de 7,000 homens, entre cavaleiros, besteiros e espingardeiros, comandados por dois dos seus alcaides. Eram estes Lutete e Latar (Ahmad al-Attar). Acamparam com as suas tropas em Alfemiz ou Suk al-Khamis, a 15km de Boulaouane, enquanto esperavam a chegada do resto do exército comandado pelo sultão. Este fora, porém, inesperadamente obrigado a partir para norte em socorro dos alcaides de Alcácer-Quibir e Larache, que tinham sido derrotados pelos portugueses quando tentaram atacar a praça-forte de Tânger. Entretanto, o baixo número de tropas dos alcaides e o receio que as populações da Duquela tinham de uma retaliação do sultão levou a que fossem mal-recebidos pelos principais xeques e autoridades da região, sendo mesmo impedidos de se abrigarem no kasbah de Boulaouane. De Alfemiz, os dois alcaides partiram para se juntarem às tropas do vice-rei de Mequinez, Mulei Nacer, que se encontrava perto de Anafé, para juntos sitiarem Azamor. A posse destas informações foi decisiva para o avanço dos portugueses contra os alcaides.

Os portugueses avançaram com cerca de 1000 lanceiros, dos quais 200 se encontravam sob o comando pessoal do capitão de Safim Nuno Fernandes de Ataíde, 1300 peões, entre besteiros, arcabuzeiros e piqueiros, e ainda cerca de 2000 cavaleiros berberes.

O combate

A Serra Verde de Marrocos.

Os portugueses encontraram os alcaides acampados com as suas tropas no sopé da Serra Verde ou Djabal al-Akhdar, já em campo aberto. O ataque disferiu-se a 14 de Abril, Sexta-Feira de Endoenças, no dia anterior à prevista chegada das tropas de Mulei Nacer, logo de madrugada para tirar partido do efeito de surpresa. D. João de Meneses dividiu as suas tropas em cinco "azes". Um deles era comandado por si, outro por Yahya ben-Tafuft e outro por Nuno Fernandes de Ataíde com um misto de cavaleiros berberes e portugueses. Na rectaguarda, dois corpos de infantaria para proteger a carriagem e canhões, cuja posse por parte dos portugueses os colocava em clara vantagem em relação aos seus adversários. Entre a infantaria, contavam-se disciplinados piqueiros organizados segundo o moderno modelo de ordenanças à suiça.

Estandarte da Ordem de Cristo, usado pelos portugueses em terra e no mar.

D. João de Menezes mandou Bentafufa avançar pelo flanco e, com o apoio de cavaleiros portugueses comandados pelo adail Fernão Caldeira e Martim Afonso de Melo, capitão de Mazagão, escaramuçar com os cavaleiros inimigos numa manobra de diversão. A Nuno Fernandes de Ataíde, ordenou que não avançasse com os seus homens enquanto não lhe fizesse sinal. O combate começou por volta das sete horas da manhã, com os atiradores muçulmanos a dispararem sobre os portugueses, sem grande efeito por se encontrarem muito longe. Com 600 cavaleiros e "um grande batalhão de mouros de pazes", D. João de Meneses dispersou-os com uma violenta carga de cavalaria. Em consequência disto, os três esquadrões em que se encontravam divididas as tropas dos alcaides começaram a retirar-se do campo de batalha e a fugir para a Serra Verde, bem como para os aduares próximos.

Desbaratadas as tropas dos alcaides, muitos portugueses e berberes abandonaram a perseguição para se dedicarem ao saque do acampamento inimigo, o que permitiu aos guerreiros em fuga retirarem-se em segurança, para reagruparem-se na Serra Verde. Alguns portugueses seguiram-nos pela serra dentro em desordem, expondo-se assim a um contra-ataque que poderia rapidamente transformar uma vitória num desastre. Efectivamente, as tropas dos alcaides contra-atacaram, obrigando os portugueses a recuarem desordenadamente. Valeram-lhes os experientes veteranos do capitão Nuno Fernandes de Ataíde, bem como os disciplinados piqueiros de ordenança à suíça, que mantiveram os seus postos de combate mais recuados e avançaram de forma cerrada em seu socorro.

Rescaldo

Muralhas portuguesas de Azamor.

Morreram, no contra-ataque, mais de 50 cavaleiros. Entre a infantaria portuguesa morreram poucos, embora tenham ficado feridos cerca de cem homens. Entre as tropas do sultão de Fez as baixas foram significativas, tendo os atiradores sido quase todos dizimados e só escapado cerca de 10 ou 12. Cerca de 2,000 terão morrido. Foram capturadas 280 pessoas pelos portugueses, que mais tarde foram resgatadas por elevadas quantias. O vice-rei de Mequinez, Mulei Nacer, chegou às margens do rio Morbeia no dia seguinte à batalha. Após ter ainda tentado cobrar impostos às populações leais ao sultão de Fez mas fustigadas por ataques portugueses, sofreu um ataque demolidor disferido por Yahya ben-Tafuft e foi obrigado a fugir em desordem. Repudiado pelas tribos da Duquela, o emir de Marraquexe também lhe recusou abrigo, pelo que Mulei Nacer foi obrigado a partir para Fez de forma a evitar a captura.

A vitória dos alcaides cobriu de glória os seus vencedores mas D. João de Meneses ficou acamado devido à idade e pela melancolia de ter perdido vários familiares próximos no combate, vindo a morrer de desgosto passados poucos dias, o que ensombrou o ambiente após a batalha.

A cidade de Marraquexe.

A batalha dos Alcaides permitiu aos portugueses alargarem o seu domínio no sul de Marrocos e apertar o cerco a Marraquexe. Os 16 meses que se seguiram à batalha corresponderam ao zénite da expansão lusa em Marrocos. A conquista do sul de Marrocos chegou a parecer eminente: No Verão de 1514 o emir de Marraquexe discutiu uma submissão a D. Manuel, porém as negociações falharam. A cidade de Marraquexe chegou mesmo a ser ameaçada por cavaleiros portugueses ainda em 1514 e no Verão seguinte Nuno Fernandes de Ataíde envolveu-se em batalha junto às portas da cidade.

Ver também

Referências

  1. ↑ João Paulo Oliveira e Costa, Vítor Luís Gaspar Rodrigues (2007): A Batalha dos Alcaides, 1514: No Apogeu da Presença Portuguesa em Marrocos, Tribuna da História, p. 8.
  2. ↑ Fernando Pessanha: A conquista e destruição de Anafé (Casablanca) pelo Infante D. Fernando (1468) – Considerações sobre uma pouco conhecida operação anfíbia. in Revista de História de Sociedade e Cultura, 2018, p. 97-117.
  3. 1 2 3 Maria Augusta Lima Cruz, António Manuel Lázaro: A Política Marroquina de Dom João II in Jorge Correia, André Teixeira: A Peninsula Ibérica e o Norte de África (Séculos XV a XVII). História e Património., 2019, CHAM - Centro de Humanidades, Universidade Nova de Lisboa, p. 100.
  4. 1 2 3 João Paulo Oliveira e Costa, Vítor Luís Gaspar Rodrigues (2007): A Batalha dos Alcaides, 1514: No Apogeu da Presença Portuguesa em Marrocos, Tribuna da História, p. 11.
  5. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 17.
  6. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 12.
  7. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 20.
  8. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 24.
  9. 1 2 3 4 5 Costa, Rodrigues, 2007, p. 28.
  10. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 24.
  11. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 27.
  12. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 30.
  13. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 32.
  14. 1 2 3 Costa, Rodrigues, 2007, p. 33.
  15. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 35.
  16. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 36.
  17. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 47.
  18. 1 2 3 Costa, Rodrigues, 2007, p. 52.
  19. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 54.
  20. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 53.
  21. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 55.
  22. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, pp. 49-50.
  23. 1 2 3 Costa, Rodrigues, 2007, p. 56.
  24. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 57.
  25. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 60.
  26. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 61.
  27. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 64.
  28. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, pp. 64-65.
  29. 1 2 3 Costa, Rodrigues, 2007, p. 66.
  30. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 68.
  31. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, pp. 69-70.
  32. 1 2 3 Costa, Rodrigues, 2007, pp. 70-71.
  33. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 72.
  34. 1 2 Costa, Rodrigues, 2007, p. 77.
  35. ↑ Costa, Rodrigues, 2007, p. 78.