| Cautília | |
|---|---|
| चाणक्य | |
Representação de Chanakya na capa da tradução do Artaxastra publicada por R. Shamasastry em 1915. | |
| Outros nomes | Chanaquia Chanakya Kauṭilya Vishnugupta |
| Conhecido(a) por | Participação na fundação do Império Máuria, segundo as narrativas tradicionais |
| Nascimento | Vila de Chanaka, na região de Golla, Índia do Sul, nas narrativas jainistas, ou Taxila, nas narrativas budistas |
| Progenitores | Pai: Chanin, na narrativa jainista |
| Ocupação | Conselheiro político e primeiro-ministro, segundo as narrativas tradicionais |
Cautília, também chamado Chanakya ou Chanaquia (ISO 15919: Cāṇakya, चाणक्य), é o conselheiro brâmane a quem as tradições indianas atribuem um papel decisivo na queda da dinastia Nanda e na ascensão de Chandragupta Máuria, fundador do Império Máuria. Nessas narrativas, ele escolhe e prepara o futuro imperador, ajuda a conquistar Pataliputra e depois serve como principal conselheiro e primeiro-ministro de Chandragupta e de seu filho Bindusara. Os relatos foram escritos séculos após os acontecimentos que descrevem, e seus episódios não podem ser reconstituídos como fatos documentados.
As versões budista, jainista e caxemira, assim como a peça sânscrita Mudrarakshasa, divergem nos detalhes, mas partem de uma afronta sofrida por Chanakya na corte de Nanda e de seu juramento de derrubá-lo. Entre os feitos que narram estão a formação de um exército, a conquista das regiões fronteiriças antes da capital e o uso de alianças, espiões e disfarces para consolidar o poder de Chandragupta. As narrativas budista e jainista também contam, com diferenças, como Chanakya teria salvado o recém-nascido Bindusara depois de envenenar inadvertidamente a mãe da criança.
Chanakya foi tradicionalmente identificado com Kauṭilya, também chamado Vishnugupta, a quem se atribuiu o Artaxastra, tratado de governo que discute administração, economia, diplomacia e guerra. A identificação é contestada por pesquisas sobre a formação do texto: a versão conservada resultou de várias etapas de composição nos séculos próximos ao início da Era Comum, depois da época máuria. Por isso, a fama do conselheiro das lendas e a autoria do tratado são questões distintas.
A imagem de Chanakya atravessou tradições religiosas e literárias e passou a ser retomada no pensamento político, no teatro, no cinema e na televisão da Índia. O Artaxastra recebeu novas interpretações depois que um manuscrito foi identificado em 1905; no século XX, a associação do tratado a Chanakya também interessou a nacionalistas indianos. Lugares e instituições levam seu nome, enquanto os estudos históricos continuam a distinguir a figura lembrada pelas lendas da autoria da obra que lhe foi atribuída.
Não há documentação contemporânea que permita reconstituir a vida de Chanakya. Os episódios a seu respeito provêm de narrativas lendárias. Entre os relatos examinados por Thomas Trautmann estão quatro tradições indianas da antiga katha, ou narrativa, sobre Chanakya e Chandragupta:
Nas quatro versões, Chanakya se sente ofendido pelo rei Nanda e jura destruí-lo. Depois de destronar Nanda, instala Chandragupta como novo rei.

A lenda de Chanakya e Chandragupta aparece nas crônicas budistas em páli do Sri Lanka. Não consta do Dipavamsa, a mais antiga delas. A fonte budista mais antiga a mencioná-la é o Mahavamsa, geralmente datado dos séculos V ou VI. Seu comentário Vamsatthappakasini, também conhecido como Mahavamsa Tika, acrescenta detalhes. Não se conhece seu autor, e sua datação varia do século VI ao XIII. Outros textos também acrescentam elementos. O Maha-Bodhi-Vamsa e o Atthakatha, por exemplo, dão os nomes dos nove reis Nanda que teriam precedido Chandragupta.

Na lenda budista, os governantes da dinastia Nanda que precederam Chandragupta eram ladrões que chegaram ao poder. Chanakya, chamado Cāṇakka no Mahavamsa, era um brâmane de Takkāsila, ou Taxila. Conhecia três Vedas e a política. Nasceu com dentes caninos que se acreditava serem sinal de realeza. Sua mãe temeu que, caso se tornasse imperador, ele a abandonasse. Para tranquilizá-la, Chanakya quebrou os próprios dentes.

Os dentes quebrados e os pés tortos acentuavam sua aparência, considerada feia. Certo dia, o imperador Dana Nanda organizou uma cerimônia de distribuição de esmolas aos brâmanes. Chanakya foi a Pupphapura, ou Pushpapura, para participar. Repelido por sua aparência, o imperador mandou expulsá-lo da assembleia. Chanakya rompeu com raiva seu cordão sagrado e amaldiçoou o imperador. Nanda ordenou sua prisão, mas ele escapou disfarçado de ajívica. Chanakya fez amizade com Pabbata, filho de Nanda, e o instigou a tomar o trono. Usando um anel de sinete dado pelo príncipe, fugiu do palácio por uma porta secreta.

Chanakya refugiou-se na floresta de Vinjha, na cordilheira de Montes Víndias. Ali produziu 800 milhões de moedas, chamadas kahapanas, por meio de uma técnica secreta que transformava uma moeda em oito. Escondeu o dinheiro e saiu à procura de alguém que pudesse substituir Dana Nanda. Um dia, viu crianças brincando. O jovem Chandragupta, chamado Chandagutta no Mahavamsa, fazia o papel do imperador, enquanto as outras fingiam ser vassalos, ministros e ladrões. Os "ladrões" foram levados à sua presença. Ele mandou cortar-lhes os membros e depois os recolocou milagrosamente. Chandragupta nascera numa família real, mas, após a morte do pai pelas mãos de um usurpador, fora acolhido por um vaqueiro e depois criado por um caçador. As devatas fizeram sua mãe abandoná-lo. Impressionado com os poderes milagrosos do menino, Chanakya pagou mil moedas ao pai adotivo e levou Chandragupta consigo, prometendo ensinar-lhe um ofício.

Chanakya tinha dois possíveis sucessores para Dana Nanda: Pabbata e Chandragupta. Deu a cada um um amuleto pendurado no pescoço por um fio de lã. Para testá-los, pediu a Pabbata que retirasse o fio de Chandragupta enquanto este dormia, sem rompê-lo nem acordá-lo. Pabbata não conseguiu. Tempos depois, quando Pabbata dormia, fez a Chandragupta o mesmo pedido. Chandragupta recuperou o fio cortando a cabeça de Pabbata. Durante os sete anos seguintes, Chanakya o preparou para os deveres imperiais. Quando Chandragupta se tornou adulto, Chanakya desenterrou seu tesouro e reuniu um exército.

O exército de Chandragupta e Chanakya invadiu os domínios de Dana Nanda, mas se dispersou depois de uma derrota severa. Vagando disfarçados, os dois ouviram uma mulher conversar com o filho. O menino tinha comido o meio de um bolo e jogado fora as bordas. A mãe o repreendeu: ele comia como Chandragupta, que atacara o centro do império antes de conquistar as aldeias fronteiriças. Percebendo o erro, Chanakya e Chandragupta reuniram outro exército e começaram pelas aldeias da fronteira. Avançaram aos poucos até Pataliputra, chamada Pāṭaliputta no Mahavamsa, e mataram Dana Nanda. Chanakya mandou um pescador encontrar o tesouro escondido de Nanda e o matou assim que recebeu a informação. Ungiu Chandragupta como imperador e encarregou Paṇiyatappa de eliminar rebeldes e ladrões do império.

Chanakya passou a misturar pequenas doses de veneno na comida do novo imperador para torná-lo resistente a tentativas de envenenamento. Sem saber disso, Chandragupta dividiu a comida com a imperatriz, grávida e a sete dias do parto. Chanakya chegou quando ela acabava de comer o bocado envenenado. Ao perceber que ela morreria, decidiu salvar a criança. Decapitou a imperatriz e abriu-lhe o ventre com uma espada para retirar o feto. Nos sete dias seguintes, colocou-o a cada dia no ventre de uma cabra recém-morta. Depois disso, o filho de Chandragupta "nasceu". Recebeu o nome de Bindusara porque seu corpo estava salpicado de gotas de sangue de cabra, chamadas bindu no relato.
As primeiras lendas budistas não voltam a mencionar Chanakya ao narrar a história da dinastia Máuria. Um comentário de Dhammapala ao Theragatha, porém, traz uma lenda sobre ele e um brâmane chamado Subandhu. Temendo que a sabedoria de Subandhu o superasse na corte, Chanakya convenceu Chandragupta a prendê-lo. Seu filho Tekicchakani escapou e tornou-se monge budista. O autor budista tibetano Taranata, do século XVI, menciona Chanakya entre os "grandes senhores" de Bindusara. Em seu relato, ele destruiu os nobres e reis de 16 cidades e deu a Bindusara o domínio de todo o território entre o mar Arábico e o golfo de Bengala.

A lenda de Chandragupta e Chanakya aparece em comentários do cânone svetambara. Sua versão jainista mais conhecida está no Sthaviravali-Charita, ou Parishishta-Parvan, escrito por Hemachandra no século XII. O relato se baseia na literatura kathanaka em prácrito, composta entre o fim do século I e meados do VIII. Essas lendas constam de comentários, chamados churnis e tikas, a textos canônicos como o Uttaradhyayana e o Avashyaka Niryukti. Thomas Trautmann considera a versão jainista mais antiga e coerente que a budista.
Segundo o relato jainista, Chanakya era filho de Chanin e Chaneshvari, dois jainistas leigos, ou shravakas. Nasceu na vila de Chanaka, no vishaya de Golla, um distrito. Não se sabe com certeza onde ficava Golla. Hemachandra diz que Chanakya era um Dramila, o que aponta para uma origem na Índia do Sul.

Chanakya nasceu com todos os dentes. Monges disseram que isso anunciava que seria rei. Para evitar que o filho se tornasse arrogante, Chanin lhe quebrou os dentes. Os monges então profetizaram que ele seria uma eminência parda. Chanakya cresceu como um shravaka instruído e se casou com uma brâmane. Os parentes dela a ridicularizavam por ter se casado com um homem pobre. Por isso, ele foi a Pataliputra pedir donativos ao imperador Nanda, reputado generoso com os brâmanes. Enquanto esperava na corte, sentou-se no trono imperial. Uma dasi, ou escravizada, ofereceu-lhe com cortesia o assento ao lado. Chanakya pôs nele seu kamandal, recipiente de água, e continuou no trono. A serva ofereceu outros quatro assentos, mas ele depositou um objeto em cada um e não se levantou. Por fim, ela o tirou do trono com um pontapé. Furioso, Chanakya jurou arrancar Nanda e todo o seu poder pela raiz, como um vento forte arranca uma árvore.
Sabendo da profecia de que exerceria o poder por trás do trono, Chanakya procurou alguém digno de ser rei. Em suas andanças, prestou um favor à filha grávida do chefe dos guardadores de pavões do rei, sob a condição de que a criança lhe pertenceria. Ela deu à luz Chandragupta. Quando o menino cresceu, Chanakya o viu brincar de "rei" com outras crianças e lhe pediu um presente para testá-lo. Chandragupta mandou que levasse as vacas próximas, afirmando que ninguém desobedeceria à sua ordem. A demonstração convenceu Chanakya de que ele poderia reinar.

Chanakya levou Chandragupta para conquistar Pataliputra, capital de Nanda. Reuniu um exército com riquezas obtidas por alquimia, o dhatuvada-visaradan. O exército foi duramente derrotado, e os dois fugiram do campo de batalha. Perseguidos por um oficial inimigo, chegaram a um lago. Chanakya mandou Chandragupta mergulhar e se disfarçou de asceta em meditação. Quando o soldado perguntou se tinha visto Chandragupta, Chanakya apontou o lago. O homem tirou a armadura para entrar na água, e Chanakya tomou sua espada e o matou. Quando Chandragupta saiu, Chanakya perguntou o que pensara ao vê-lo revelar seu esconderijo. Chandragupta respondeu que confiava que o mestre tomaria a melhor decisão. Chanakya concluiu que continuaria a exercer ascendência sobre ele depois da coroação. Em outra ocasião, escapou expulsando um lavadeiro e vestindo suas roupas. Certa vez, abriu o ventre de um brâmane que acabara de comer e retirou-lhe a comida para alimentar Chandragupta, que passava fome.
Um dia, ouviram uma mulher repreender o filho, que queimara o dedo ao metê-lo no centro de uma tigela de mingau quente. Ela disse que o menino era tolo como Chanakya: deveria ter começado pelas bordas mais frias, assim como Chanakya deveria ter conquistado as regiões fronteiriças antes de atacar a capital. Chanakya percebeu o erro e elaborou outro plano. Ofereceu a Parvataka, rei do domínio montanhoso de Himavatkuta, metade do império de Nanda em troca de uma aliança.
Com a ajuda de Parvataka, Chanakya e Chandragupta cercaram as cidades fora de Pataliputra. Uma delas resistiu com firmeza. Disfarçado de mendicante xivaíta, Chanakya entrou na cidade e anunciou que o cerco terminaria se as imagens das sete mães fossem retiradas do templo. Assim que os defensores as removeram, mandou suspender o cerco. Eles começaram a comemorar, e o exército de Chanakya lançou um ataque surpresa e tomou a cidade.

Aos poucos, os dois subjugaram as regiões fora da capital. Tomaram Pataliputra e Chandragupta tornou-se imperador. Permitiram que Nanda partisse para o exílio com tudo o que coubesse numa carroça. Quando a família deixava a cidade, a filha de Nanda viu Chandragupta e se apaixonou. Pelo costume do svayamvara, escolheu-o como marido. Ao descer da carroça, nove raios de uma das rodas se quebraram. Chanakya interpretou o fato como presságio de que a dinastia de Chandragupta duraria nove gerações.
Parvataka, por sua vez, se apaixonou por uma das visha kanyas de Nanda, jovens envenenadas usadas como assassinas. Chanakya aprovou o casamento. Durante a cerimônia, Parvataka desabou ao tocar na mulher. Chanakya pediu a Chandragupta que não chamasse um médico. Parvataka morreu, e Chandragupta tornou-se o único governante dos territórios de Nanda.
Chanakya consolidou o poder eliminando partidários de Nanda que atormentavam a população em partes do império. Soube de um tecelão que incendiava qualquer parte da própria casa infestada de baratas e o encarregou de esmagar os rebeldes. Logo não havia insurgentes. Chanakya também incendiou uma aldeia que antes lhe negara comida. Para encher o tesouro imperial, apostou com um dado viciado. Também convidou mercadores ricos à sua casa, deu-lhes vinho e se vangloriou de suas próprias riquezas. Quando eles fizeram o mesmo, usou as informações para aumentar a receita do rei.

Durante uma fome que durou doze anos, dois jovens monges jainistas passaram a comer do prato do imperador depois de se tornarem invisíveis com uma pomada mágica. Chanakya percebeu sua presença espalhando pó no chão do palácio e seguindo suas pegadas. Na refeição seguinte, encheu a sala de fumaça espessa. As lágrimas lavaram a pomada dos olhos dos monges, e ele os apanhou. Queixou-se ao mestre deles, o ácharya Susthita, que atribuiu o comportamento dos jovens à falta de generosidade das pessoas para com os monges. Chanakya passou então a lhes dar esmolas abundantes.
Chandragupta também sustentava monges que não eram jainistas. Chanakya quis convencê-lo de que não mereciam seu apoio. Espalhou pó no chão perto dos aposentos das mulheres e deixou os monges ali. As pegadas mostraram que tinham espiado pelas janelas. Submetidos à mesma prova, os monges jainistas ficaram longe dos aposentos. Ao ver isso, Chandragupta os nomeou seus conselheiros espirituais.
Chanakya misturava pequenas doses de veneno à comida de Chandragupta para torná-lo imune a tentativas de envenenamento. Sem saber, o imperador dividiu a comida com a imperatriz Durdhara. Chanakya entrou no quarto no instante em que ela morreu, abriu-lhe o ventre e retirou o bebê. Uma gota de veneno, bindu, tocara a criança, que recebeu o nome de Bindusara.

Depois que Chandragupta abdicou para se tornar monge jainista, Chanakya instalou Bindusara como imperador. Pediu-lhe que nomeasse Subandhu ministro. Subandhu, porém, queria um cargo superior e tinha ciúme de Chanakya. Contou a Bindusara que ele fora responsável pela morte de sua mãe. As amas confirmaram que Chanakya abrira o ventre da imperatriz. Bindusara ficou furioso e passou a odiá-lo. Já muito idoso, Chanakya se retirou e decidiu morrer por jejum, numa forma de sallekhana. Quando Bindusara soube das circunstâncias completas de seu nascimento, implorou que ele retomasse o cargo. Como não conseguiu demovê-lo, mandou Subandhu convencê-lo a desistir do jejum. Fingindo apaziguá-lo, Subandhu o queimou vivo e tomou sua casa. Chanakya previra isso e deixara ali uma armadilha: um baú fechado por cem cadeados. Subandhu quebrou os cadeados na esperança de encontrar joias, mas achou um perfume doce e o inalou. Em seguida, viu uma inscrição numa casca de bétula: quem sentisse o perfume teria de se tornar monge ou morrer. Subandhu experimentou a substância em outro homem e depois lhe deu uma refeição luxuosa, da qual monges se abstinham. O homem morreu. Para escapar da morte, Subandhu tornou-se monge.

O Brihatkatha-Manjari, de Kshemendra, e o Kathasaritsagara, de Somadeva, são duas coletâneas de lendas de Caxemira em sânscrito do século XI. Ambas derivam do Brihatkatha-Sarit-Sagara, em prácrito, hoje perdido, que por sua vez se baseava no Brihatkatha, escrito por Gunadhya na língua paishachi antes do século III e também perdido. A lenda de Chanakya e Chandragupta nessas coletâneas introduz outra personagem, Shakatala, ou Śakaṭāla.
Vararuchi, identificado com Katyayana, Indradatta e Vyadi eram discípulos do rixi Varsha. Foram a Ayodhya pedir ao imperador Nanda, em nome de seu guru, uma gurudakshina, a remuneração devida ao mestre. Quando chegaram, Nanda havia morrido. Indradatta usou poderes associados à ioga para entrar no corpo do imperador e concedeu a Vararuchi dez milhões de dinares de ouro. O ministro Shakatala percebeu o que acontecera e mandou queimar o corpo abandonado de Indradatta. O falso imperador, Indradatta no corpo de Nanda e também chamado Yogananda, mandou prender Shakatala e seus cem filhos. Na prisão, eles receberam comida suficiente para uma única pessoa. Os filhos morreram de fome para que o pai sobrevivesse e se vingasse.

O falso imperador nomeou Vararuchi ministro. À medida que o comportamento de Yogananda piorava, Vararuchi, desgostoso, retirou-se como asceta para a floresta. Shakatala voltou ao ministério, sem abandonar seus planos de vingança. Um dia, encontrou o brâmane Chanakya arrancando toda a grama do caminho porque uma folha lhe espetara o pé. Decidiu usar aquele homem vingativo para destruir o falso imperador. Convidou-o a presidir uma cerimônia ritual na corte, prometendo-lhe cem mil moedas de ouro.

Shakatala hospedou Chanakya em casa e o tratou com grande respeito. No dia da cerimônia, porém, outro brâmane, Subandhu, reivindicou o lugar de honra. Shakatala levou a disputa a Yogananda, que concedeu o assento a Subandhu. Ao comunicar a decisão a Chanakya, Shakatala atribuiu a afronta ao imperador. Chanakya soltou então o coque no alto da cabeça, a sikha, e jurou não voltar a prendê-lo antes da destruição do imperador. Nanda mandou detê-lo, mas ele fugiu para a casa de Shakatala. Ali realizou um ritual mágico com materiais fornecidos pelo ministro e deixou o imperador doente. Nanda morreu de febre sete dias depois.
Shakatala executou Hiranyagupta, filho do falso imperador, e ungiu Chandragupta, filho do verdadeiro Nanda, como novo imperador. Na versão de Kshemendra, é Chanakya quem o instala no trono. Shakatala também nomeou Chanakya sacerdote imperial, ou rajpurohita. Consumada a vingança, retirou-se como asceta para a floresta.

Mudrarakshasa, "O anel de sinete de Rakshasa", é uma peça sânscrita de Vishakhadatta. Sua data é incerta, mas a obra menciona os hunos, que invadiram o norte da Índia na época do Império Gupta. Por isso, não pode ser anterior a esse período. As propostas de datação vão do fim do século IV ao século VIII. A peça contém episódios ausentes das outras versões. Trautmann entende que grande parte da narrativa é ficcional ou lendária, sem base histórica.
Na peça, o imperador Nanda retira Chanakya do "primeiro assento do império", possivelmente uma referência à sua expulsão da assembleia. Chanakya jura não prender o coque, a shikha, antes de destruir Nanda por completo. Planeja destroná-lo e substituí-lo por Chandragupta, filho de Nanda com uma consorte de posição inferior. Faz Chandragupta se aliar ao poderoso rei Parvateshvara, ou Parvata, e ambos concordam em dividir os domínios de Nanda após a vitória. O exército conjunto reúne soldados bálhicas, quiratas, persas, cambojas, sacas e yavanas. Invade Pataliputra, também chamada Kusumapura, e derrota os Nandas. Alguns estudiosos identificam Parvata com o rei Poro.

Rakshasa, primeiro-ministro de Nanda, foge de Pataliputra e continua a resistir aos invasores. Envia uma vishakanya, jovem envenenada, para matar Chandragupta. Chanakya a faz matar Parvata, enquanto a culpa recai sobre Rakshasa. Malayaketu, filho de Parvata, descobre a verdade e passa para o lado de Rakshasa. Bhagurayana, espião de Chanakya, o acompanha fingindo amizade.
Rakshasa segue planejando a morte de Chandragupta, mas Chanakya frustra cada tentativa. Em certa ocasião, Rakshasa manda assassinos entrarem por um túnel no quarto do imperador. Chanakya nota uma trilha de formigas carregando restos da comida deles e manda queimá-los vivos.

Chanakya convence Vairodhaka, irmão de Parvata, de que Rakshasa matou Parvata e concorda em dividir com ele metade do império de Nanda. Em segredo, prepara sua morte. Sabe que o arquiteto principal de Pataliputra é fiel a Rakshasa e lhe pede que construa um arco do triunfo para a procissão de Chandragupta até o palácio. Marca o cortejo para a meia-noite alegando motivos astrológicos, mas pretende dificultar a visão. Convida Vairodhaka a seguir à frente montado no elefante de Chandragupta e escoltado por seus guardas. Os partidários de Rakshasa derrubam o arco sobre quem pensam ser Chandragupta. Vairodhaka morre, e Rakshasa é novamente culpado pelo atentado.
Malayaketu e Rakshasa se aliam a cinco reis: Chiravarman de Kauluta, ou Kulu; Meghaksha de Parasika, na Pérsia; Narasimha de Malaya; Pushkaraksha do reino de Kashmira; e Sindhusena do reino de Saindhava. O exército aliado também reúne soldados do Chedi, de Gandara, dos hunos, dos khasas, de Mágada, dos sacas e dos yavanas.

Em Pataliputra, um agente informa a Chanakya que restam três partidários de Rakshasa na capital: o monge jainista Jiva-siddhi, o escriba Shakata-dasa e Chandana-dasa, chefe da guilda dos joalheiros. Jiva-siddhi é, na verdade, espião de Chanakya, fato desconhecido até de seus outros agentes. Chandana-dasa abriga a esposa de Rakshasa, que deixa cair sem perceber o anel de sinete do marido, a mudra. Um agente o entrega a Chanakya, que usa o anel para enviar a Malayaketu uma carta alertando-o de que seus aliados seriam traidores. Chanakya também manda alguns príncipes de Chandragupta fingirem deserção para o acampamento de Malayaketu. Em seguida, ordena a morte de Shakata-dasa, mas Siddharthaka, espião que finge servir Chandana-dasa, o "salva". O agente conduz o escriba até Rakshasa.
Ao chegar, Siddharthaka mostra a Rakshasa o anel e diz tê-lo encontrado na casa de Chandana-dasa. Em recompensa, recebe joias que Malayaketu dera a Rakshasa. Mais tarde, outro agente de Chanakya, disfarçado de joalheiro, vende a Rakshasa joias de Parvata.
Rakshasa envia espiões disfarçados de músicos à corte de Chandragupta, mas Chanakya já conhece seus planos. Diante deles, Chanakya e Chandragupta fingem uma discussão furiosa. Chandragupta simula demitir Chanakya e diz que Rakshasa seria um ministro melhor. Perto da casa de Rakshasa, Bhagurayana insinua a Malayaketu que Rakshasa odeia apenas Chanakya e aceitaria servir Chandragupta, filho de Nanda. Logo chega um mensageiro anunciando que Chandragupta demitiu Chanakya e elogiou Rakshasa. Malayaketu passa a desconfiar dele.

Malayaketu decide marchar sobre Pataliputra, animado pela aparente ruptura entre Chandragupta e Chanakya. Rakshasa consulta Jiva-siddhi sobre a hora propícia para iniciar as operações; o monge, que espiona para Chanakya, declara que o dia é favorável. Jiva-siddhi também o convence de que Rakshasa matou seu pai, mas Bhagurayana o dissuade de atacá-lo. Siddharthaka se deixa capturar com uma carta falsa de Rakshasa para Chandragupta. Usa as joias recebidas de Rakshasa e finge ser seu agente. A carta, selada com o anel, afirma que Rakshasa deseja apenas substituir Chanakya como primeiro-ministro e que cinco aliados de Malayaketu querem desertar em troca de terras e riquezas. Furioso, Malayaketu convoca Rakshasa, que chega usando as joias de Parvata compradas do agente de Chanakya. Ao reconhecer as joias do pai, Malayaketu se convence da traição e manda executar brutalmente seus cinco aliados.
Repugnados pelas mortes, os demais aliados abandonam Malayaketu. Rakshasa foge, seguido pelos espiões de Chanakya. Um deles, disfarçado de amigo de Chandana-dasa, conta-lhe que o joalheiro será executado por se recusar a entregar a esposa e os filhos de Rakshasa às autoridades. Ele corre a Pataliputra para se entregar e salvar o amigo. Chanakya, satisfeito com sua lealdade, oferece-lhe clemência. Rakshasa promete servir Chandragupta como primeiro-ministro em troca da libertação de Chandana-dasa e do perdão de Malayaketu. Tendo alcançado o objetivo, Chanakya volta a prender o coque e se retira.
Na Índia, a imagem de Chanakya como pensador político foi retomada por correntes nacionalistas, que viram no Artaxastra o testemunho de uma tradição antiga de governo pragmático. O ex-assessor de segurança nacional da Índia Shivshankar Menon elogiou as análises de poder do Artaxastra, que lhe pareceram precisas e ainda pertinentes, e recomendou a leitura do livro a quem estuda estratégia.

O Artaxastra é um manual sério de governo, sobre como administrar um Estado. Tem um propósito mais elevado, dá orientações claras e precisas e resulta da experiência prática de governar. Não é apenas um texto normativo, mas uma exposição realista da arte de governar. Shivshankar Menon, assessor de segurança nacional da Índia.
Duas obras são tradicionalmente atribuídas a Chanakya: o Artaxastra e o Chanakya Niti, ou Chanakya Neeti-shastra. A segunda reúne aforismos tradicionalmente atribuídos a Chanakya, preservados em diferentes coleções.
A atribuição do Artaxastra a Chanakya já era questionada nas primeiras décadas do século XX. Estudos textuais posteriores questionam a atribuição ao ministro máuria e entendem que o livro tomou forma em etapas. Patrick Olivelle situa a camada mais antiga, as "fontes de Kauṭilya", entre 50 a.C. e 50 d.C.; a "recensão de Kauṭilya", que reuniu partes dessas fontes num novo shastra, entre 50 e 125 d.C. A redação final, correspondente ao texto conservado, é situada entre 175 e 300 d.C. Em outra reconstrução, Mark McClish propõe que um tratado chamado Daṇḍanīti tenha sido composto por volta do século I a.C. e revisto por Kauṭilya por volta do século III d.C. Na análise de McClish, Kauṭilya foi o redator da versão conservada, não o autor do tratado inicial.

O Artaxastra atribui sua autoria a Kauṭilya, possivelmente um nome de gotra, ou clã; um verso acrescentado depois do colofão do livro 15 usa o nome Vishnugupta. McClish considera tardios os versos de atribuição. Entre os primeiros textos sânscritos a identificar explicitamente Chanakya com Vishnugupta está o Panchatantra. K. C. Ojha propõe que a identificação tradicional de Vishnugupta com Kauṭilya nasceu de uma confusão entre o redator e o autor da obra. Para ele, Vishnugupta teria revisto o texto original de Kauṭilya.
R. P. Kangle, que escreveu na década de 1960, aceitava a atribuição tradicional ao primeiro-ministro máuria e, por isso, datava o Artaxastra do período de Chandragupta. Thomas Trautmann e Patrick Olivelle, seguindo Thomas Burrow, rejeitam a identificação entre Chanakya e Kauṭilya como uma associação posterior, formada na época gupta. Trautmann observa que as fontes mais antigas sobre Chanakya não lhe atribuem o tratado. Olivelle acrescenta que o nome Chanakya não aparece no corpo da obra. O verso 15.1.73, no fim da obra, associa implicitamente o autor à pessoa que livrou o país dos reis Nanda, sem mencionar Chanakya pelo nome.
Os governantes guptas procuraram se apresentar como sucessores legítimos dos máurias e chegaram a usar os nomes Chandragupta e Gupta. A peça Mudrarakshasa, que Olivelle situa possivelmente na época gupta, também estabelece essa associação. Olivelle propõe que o verso do Artaxastra seja uma interpolação posterior, feita para associar o autor do tratado político seguido pelos guptas ao ministro máuria.
A atribuição tradicional pesou nas pesquisas que continuaram a datar a obra da época máuria. Nacionalistas indianos a acolheram como prova de uma tradição antiga de autogoverno pragmático. Trautmann observa que a existência de impérios centralizados e de escolas indianas de pensamento político parecia fortalecer essas aspirações. A identificação com Chanakya também associava o tratado à dinastia Máuria. Diante da escassez de fontes sobre esse período, pesquisadores continuaram a usar o Artaxastra para estudá-lo, apesar da falta de evidências que sustentassem a datação tradicional. Para Mark McClish, o desejo de dispor de uma fonte desse tipo afetou as conclusões sobre a formação do texto.

Em 1905, o bibliotecário Rudrapatna Shamasastry identificou um manuscrito em folhas de palmeira do Artaxastra entre os textos recebidos de um pandit pelo Instituto de Pesquisas Orientais de Mysore. Publicou uma edição sânscrita em 1909 e uma tradução inglesa em 1915. O tratado também aborda a teoria do rajamandala. Examina a política monetária, a política fiscal, o auxílio social, as relações internacionais e a estratégia militar, além dos deveres do governante. Emprega, entre outras expressões para a guerra, dharma-yuddha, guerra conduzida segundo regras éticas, e kutayuddha, guerra baseada em dissimulação.
O pensamento econômico exposto no Artaxastra foi estudado como possível precursor da economia clássica em pesquisas modernas. Com base na identificação tradicional entre Kauṭilya e Chanakya, K. N. Jha o apresentou como pioneiro da economia na Índia.
O nome Chanakya ⓘ foi dado ao enclave diplomático Chanaquiapuri, em Nova Déli. O antigo Navio-escola Chanaquia tornou-se o campus de Navi Mumbai da Universidade Marítima Indiana. A Universidade Nacional de Direito Chanaquia e o Instituto Chanaquia de Liderança Pública também levam seu nome.

Adaptações modernas recontam as lendas sobre Chanakya em obras parcialmente ficcionais. Na peça Chandragupta, de Dwijendralal Ray, publicada em 1911, o rei Nanda exila o meio-irmão Chandragupta, que entra para o exército de Alexandre, o Grande. Com a ajuda de Chanakya e Katyayan, antigo primeiro-ministro de Mágada, Chandragupta derrota Nanda, e Chanakya o mata.

