Cautília

Cautília
चाणक्य
Representação artística de um homem de cabeça raspada com uma mecha de cabelo, brinco e veste branca, identificado como Chanakya.
Representação de Chanakya na capa da tradução do Artaxastra publicada por R. Shamasastry em 1915.
Outros nomesChanaquia
Chanakya
Kauṭilya
Vishnugupta
Conhecido(a) porParticipação na fundação do Império Máuria, segundo as narrativas tradicionais
Nascimento
Vila de Chanaka, na região de Golla, Índia do Sul, nas narrativas jainistas, ou Taxila, nas narrativas budistas
ProgenitoresPai: Chanin, na narrativa jainista
OcupaçãoConselheiro político e primeiro-ministro, segundo as narrativas tradicionais

Cautília, também chamado Chanakya ou Chanaquia (ISO 15919: Cāṇakya, चाणक्य), é o conselheiro brâmane a quem as tradições indianas atribuem um papel decisivo na queda da dinastia Nanda e na ascensão de Chandragupta Máuria, fundador do Império Máuria. Nessas narrativas, ele escolhe e prepara o futuro imperador, ajuda a conquistar Pataliputra e depois serve como principal conselheiro e primeiro-ministro de Chandragupta e de seu filho Bindusara. Os relatos foram escritos séculos após os acontecimentos que descrevem, e seus episódios não podem ser reconstituídos como fatos documentados.

As versões budista, jainista e caxemira, assim como a peça sânscrita Mudrarakshasa, divergem nos detalhes, mas partem de uma afronta sofrida por Chanakya na corte de Nanda e de seu juramento de derrubá-lo. Entre os feitos que narram estão a formação de um exército, a conquista das regiões fronteiriças antes da capital e o uso de alianças, espiões e disfarces para consolidar o poder de Chandragupta. As narrativas budista e jainista também contam, com diferenças, como Chanakya teria salvado o recém-nascido Bindusara depois de envenenar inadvertidamente a mãe da criança.

Chanakya foi tradicionalmente identificado com Kauṭilya, também chamado Vishnugupta, a quem se atribuiu o Artaxastra, tratado de governo que discute administração, economia, diplomacia e guerra. A identificação é contestada por pesquisas sobre a formação do texto: a versão conservada resultou de várias etapas de composição nos séculos próximos ao início da Era Comum, depois da época máuria. Por isso, a fama do conselheiro das lendas e a autoria do tratado são questões distintas.

A imagem de Chanakya atravessou tradições religiosas e literárias e passou a ser retomada no pensamento político, no teatro, no cinema e na televisão da Índia. O Artaxastra recebeu novas interpretações depois que um manuscrito foi identificado em 1905; no século XX, a associação do tratado a Chanakya também interessou a nacionalistas indianos. Lugares e instituições levam seu nome, enquanto os estudos históricos continuam a distinguir a figura lembrada pelas lendas da autoria da obra que lhe foi atribuída.

Narrativa de Chanakya e Chandragupta

Não há documentação contemporânea que permita reconstituir a vida de Chanakya. Os episódios a seu respeito provêm de narrativas lendárias. Entre os relatos examinados por Thomas Trautmann estão quatro tradições indianas da antiga katha, ou narrativa, sobre Chanakya e Chandragupta:

Nas quatro versões, Chanakya se sente ofendido pelo rei Nanda e jura destruí-lo. Depois de destronar Nanda, instala Chandragupta como novo rei.

Mapa do subcontinente indiano com a extensão aproximada do Império Nanda destacada.
Mapa conjectural dos domínios de Dana Nanda por volta de 323 a.C.; as quatro tradições narram a queda desse poder.

Versão budista, séculos V e VI

Fontes

A lenda de Chanakya e Chandragupta aparece nas crônicas budistas em páli do Sri Lanka. Não consta do Dipavamsa, a mais antiga delas. A fonte budista mais antiga a mencioná-la é o Mahavamsa, geralmente datado dos séculos V ou VI. Seu comentário Vamsatthappakasini, também conhecido como Mahavamsa Tika, acrescenta detalhes. Não se conhece seu autor, e sua datação varia do século VI ao XIII. Outros textos também acrescentam elementos. O Maha-Bodhi-Vamsa e o Atthakatha, por exemplo, dão os nomes dos nove reis Nanda que teriam precedido Chandragupta.

Ruínas de antigas construções de pedra em Taxila, cercadas por árvores e colinas.
Ruínas de Taxila, cidade que a versão budista apresenta como origem de Chanakya.


Narrativa

Na lenda budista, os governantes da dinastia Nanda que precederam Chandragupta eram ladrões que chegaram ao poder. Chanakya, chamado Cāṇakka no Mahavamsa, era um brâmane de Takkāsila, ou Taxila. Conhecia três Vedas e a política. Nasceu com dentes caninos que se acreditava serem sinal de realeza. Sua mãe temeu que, caso se tornasse imperador, ele a abandonasse. Para tranquilizá-la, Chanakya quebrou os próprios dentes.

Interior da caverna Sudama, com paredes de pedra polida e uma entrada iluminada.
Interior da caverna Sudama, em Barabar, destinada aos ajívicas na época máuria. No relato budista, Chanakya escapa da corte disfarçado de ajívica.

Os dentes quebrados e os pés tortos acentuavam sua aparência, considerada feia. Certo dia, o imperador Dana Nanda organizou uma cerimônia de distribuição de esmolas aos brâmanes. Chanakya foi a Pupphapura, ou Pushpapura, para participar. Repelido por sua aparência, o imperador mandou expulsá-lo da assembleia. Chanakya rompeu com raiva seu cordão sagrado e amaldiçoou o imperador. Nanda ordenou sua prisão, mas ele escapou disfarçado de ajívica. Chanakya fez amizade com Pabbata, filho de Nanda, e o instigou a tomar o trono. Usando um anel de sinete dado pelo príncipe, fugiu do palácio por uma porta secreta.

Detalhe de moeda antiga de metal com três figuras gravadas por punção.
Moeda da época máuria marcada por punções. As centenas de milhões de moedas produzidas por Chanakya pertencem à lenda budista.

Chanakya refugiou-se na floresta de Vinjha, na cordilheira de Montes Víndias. Ali produziu 800 milhões de moedas, chamadas kahapanas, por meio de uma técnica secreta que transformava uma moeda em oito. Escondeu o dinheiro e saiu à procura de alguém que pudesse substituir Dana Nanda. Um dia, viu crianças brincando. O jovem Chandragupta, chamado Chandagutta no Mahavamsa, fazia o papel do imperador, enquanto as outras fingiam ser vassalos, ministros e ladrões. Os "ladrões" foram levados à sua presença. Ele mandou cortar-lhes os membros e depois os recolocou milagrosamente. Chandragupta nascera numa família real, mas, após a morte do pai pelas mãos de um usurpador, fora acolhido por um vaqueiro e depois criado por um caçador. As devatas fizeram sua mãe abandoná-lo. Impressionado com os poderes milagrosos do menino, Chanakya pagou mil moedas ao pai adotivo e levou Chandragupta consigo, prometendo ensinar-lhe um ofício.

Colinas verdes dos montes Víndias ao longe, vistas de um caminho sobre o planalto de Malwa.
Montes Víndias vistos do planalto de Malwa. A versão budista situa na floresta dessa cordilheira o tesouro lendário de Chanakya.

Chanakya tinha dois possíveis sucessores para Dana Nanda: Pabbata e Chandragupta. Deu a cada um um amuleto pendurado no pescoço por um fio de lã. Para testá-los, pediu a Pabbata que retirasse o fio de Chandragupta enquanto este dormia, sem rompê-lo nem acordá-lo. Pabbata não conseguiu. Tempos depois, quando Pabbata dormia, fez a Chandragupta o mesmo pedido. Chandragupta recuperou o fio cortando a cabeça de Pabbata. Durante os sete anos seguintes, Chanakya o preparou para os deveres imperiais. Quando Chandragupta se tornou adulto, Chanakya desenterrou seu tesouro e reuniu um exército.

Fotografia histórica de uma escavação arqueológica com bases de pilares em Kumhrar.
Vestígios do salão de pilares de Kumhrar, na área da antiga Pataliputra; a conquista da capital encerra a campanha na versão budista.

O exército de Chandragupta e Chanakya invadiu os domínios de Dana Nanda, mas se dispersou depois de uma derrota severa. Vagando disfarçados, os dois ouviram uma mulher conversar com o filho. O menino tinha comido o meio de um bolo e jogado fora as bordas. A mãe o repreendeu: ele comia como Chandragupta, que atacara o centro do império antes de conquistar as aldeias fronteiriças. Percebendo o erro, Chanakya e Chandragupta reuniram outro exército e começaram pelas aldeias da fronteira. Avançaram aos poucos até Pataliputra, chamada Pāṭaliputta no Mahavamsa, e mataram Dana Nanda. Chanakya mandou um pescador encontrar o tesouro escondido de Nanda e o matou assim que recebeu a informação. Ungiu Chandragupta como imperador e encarregou Paṇiyatappa de eliminar rebeldes e ladrões do império.

Fotografia de escavação antiga mostrando estacas de madeira alinhadas numa vala.
Paliçada de madeira escavada em Bulandi Bagh: um vestígio material da antiga Pataliputra, que as lendas apresentam como objetivo da campanha.

Chanakya passou a misturar pequenas doses de veneno na comida do novo imperador para torná-lo resistente a tentativas de envenenamento. Sem saber disso, Chandragupta dividiu a comida com a imperatriz, grávida e a sete dias do parto. Chanakya chegou quando ela acabava de comer o bocado envenenado. Ao perceber que ela morreria, decidiu salvar a criança. Decapitou a imperatriz e abriu-lhe o ventre com uma espada para retirar o feto. Nos sete dias seguintes, colocou-o a cada dia no ventre de uma cabra recém-morta. Depois disso, o filho de Chandragupta "nasceu". Recebeu o nome de Bindusara porque seu corpo estava salpicado de gotas de sangue de cabra, chamadas bindu no relato.

As primeiras lendas budistas não voltam a mencionar Chanakya ao narrar a história da dinastia Máuria. Um comentário de Dhammapala ao Theragatha, porém, traz uma lenda sobre ele e um brâmane chamado Subandhu. Temendo que a sabedoria de Subandhu o superasse na corte, Chanakya convenceu Chandragupta a prendê-lo. Seu filho Tekicchakani escapou e tornou-se monge budista. O autor budista tibetano Taranata, do século XVI, menciona Chanakya entre os "grandes senhores" de Bindusara. Em seu relato, ele destruiu os nobres e reis de 16 cidades e deu a Bindusara o domínio de todo o território entre o mar Arábico e o golfo de Bengala.

Versão jainista, século XII, baseada em fontes dos séculos I a VIII

Fontes

Folha estreita de manuscrito jainista coberta por linhas de escrita em sânscrito.
Manuscrito do Yoga-shastra, outra obra de Hemachandra; sua versão da lenda está no Parishishtaparvan.

A lenda de Chandragupta e Chanakya aparece em comentários do cânone svetambara. Sua versão jainista mais conhecida está no Sthaviravali-Charita, ou Parishishta-Parvan, escrito por Hemachandra no século XII. O relato se baseia na literatura kathanaka em prácrito, composta entre o fim do século I e meados do VIII. Essas lendas constam de comentários, chamados churnis e tikas, a textos canônicos como o Uttaradhyayana e o Avashyaka Niryukti. Thomas Trautmann considera a versão jainista mais antiga e coerente que a budista.

Narrativa

Segundo o relato jainista, Chanakya era filho de Chanin e Chaneshvari, dois jainistas leigos, ou shravakas. Nasceu na vila de Chanaka, no vishaya de Golla, um distrito. Não se sabe com certeza onde ficava Golla. Hemachandra diz que Chanakya era um Dramila, o que aponta para uma origem na Índia do Sul.

Folha horizontal de manuscrito jainista com escrita e uma pequena cena pintada de monge e discípulos.
Ilustração do Yoga-shastra de Hemachandra: a relação entre mestre e discípulo também estrutura a formação de Chandragupta nas lendas jainistas.

Chanakya nasceu com todos os dentes. Monges disseram que isso anunciava que seria rei. Para evitar que o filho se tornasse arrogante, Chanin lhe quebrou os dentes. Os monges então profetizaram que ele seria uma eminência parda. Chanakya cresceu como um shravaka instruído e se casou com uma brâmane. Os parentes dela a ridicularizavam por ter se casado com um homem pobre. Por isso, ele foi a Pataliputra pedir donativos ao imperador Nanda, reputado generoso com os brâmanes. Enquanto esperava na corte, sentou-se no trono imperial. Uma dasi, ou escravizada, ofereceu-lhe com cortesia o assento ao lado. Chanakya pôs nele seu kamandal, recipiente de água, e continuou no trono. A serva ofereceu outros quatro assentos, mas ele depositou um objeto em cada um e não se levantou. Por fim, ela o tirou do trono com um pontapé. Furioso, Chanakya jurou arrancar Nanda e todo o seu poder pela raiz, como um vento forte arranca uma árvore.

Sabendo da profecia de que exerceria o poder por trás do trono, Chanakya procurou alguém digno de ser rei. Em suas andanças, prestou um favor à filha grávida do chefe dos guardadores de pavões do rei, sob a condição de que a criança lhe pertenceria. Ela deu à luz Chandragupta. Quando o menino cresceu, Chanakya o viu brincar de "rei" com outras crianças e lhe pediu um presente para testá-lo. Chandragupta mandou que levasse as vacas próximas, afirmando que ninguém desobedeceria à sua ordem. A demonstração convenceu Chanakya de que ele poderia reinar.

Escultura contemporânea de dois homens, um mais velho atrás de outro mais jovem, num parque de Nova Déli.
Representação contemporânea de Chanakya e Chandragupta em Nova Déli. As narrativas budista e jainista descrevem a escolha e formação do futuro imperador.

Chanakya levou Chandragupta para conquistar Pataliputra, capital de Nanda. Reuniu um exército com riquezas obtidas por alquimia, o dhatuvada-visaradan. O exército foi duramente derrotado, e os dois fugiram do campo de batalha. Perseguidos por um oficial inimigo, chegaram a um lago. Chanakya mandou Chandragupta mergulhar e se disfarçou de asceta em meditação. Quando o soldado perguntou se tinha visto Chandragupta, Chanakya apontou o lago. O homem tirou a armadura para entrar na água, e Chanakya tomou sua espada e o matou. Quando Chandragupta saiu, Chanakya perguntou o que pensara ao vê-lo revelar seu esconderijo. Chandragupta respondeu que confiava que o mestre tomaria a melhor decisão. Chanakya concluiu que continuaria a exercer ascendência sobre ele depois da coroação. Em outra ocasião, escapou expulsando um lavadeiro e vestindo suas roupas. Certa vez, abriu o ventre de um brâmane que acabara de comer e retirou-lhe a comida para alimentar Chandragupta, que passava fome.

Um dia, ouviram uma mulher repreender o filho, que queimara o dedo ao metê-lo no centro de uma tigela de mingau quente. Ela disse que o menino era tolo como Chanakya: deveria ter começado pelas bordas mais frias, assim como Chanakya deveria ter conquistado as regiões fronteiriças antes de atacar a capital. Chanakya percebeu o erro e elaborou outro plano. Ofereceu a Parvataka, rei do domínio montanhoso de Himavatkuta, metade do império de Nanda em troca de uma aliança.

Com a ajuda de Parvataka, Chanakya e Chandragupta cercaram as cidades fora de Pataliputra. Uma delas resistiu com firmeza. Disfarçado de mendicante xivaíta, Chanakya entrou na cidade e anunciou que o cerco terminaria se as imagens das sete mães fossem retiradas do templo. Assim que os defensores as removeram, mandou suspender o cerco. Eles começaram a comemorar, e o exército de Chanakya lançou um ataque surpresa e tomou a cidade.

Fileira de pequenas figuras esculpidas em pedra sob a entrada de um templo.
Painel das Sete Mães em um templo de Odisha. Na lenda jainista, Chanakya manda retirar imagens dessas divindades de uma cidade cercada.

Aos poucos, os dois subjugaram as regiões fora da capital. Tomaram Pataliputra e Chandragupta tornou-se imperador. Permitiram que Nanda partisse para o exílio com tudo o que coubesse numa carroça. Quando a família deixava a cidade, a filha de Nanda viu Chandragupta e se apaixonou. Pelo costume do svayamvara, escolheu-o como marido. Ao descer da carroça, nove raios de uma das rodas se quebraram. Chanakya interpretou o fato como presságio de que a dinastia de Chandragupta duraria nove gerações.

Parvataka, por sua vez, se apaixonou por uma das visha kanyas de Nanda, jovens envenenadas usadas como assassinas. Chanakya aprovou o casamento. Durante a cerimônia, Parvataka desabou ao tocar na mulher. Chanakya pediu a Chandragupta que não chamasse um médico. Parvataka morreu, e Chandragupta tornou-se o único governante dos territórios de Nanda.

Chanakya consolidou o poder eliminando partidários de Nanda que atormentavam a população em partes do império. Soube de um tecelão que incendiava qualquer parte da própria casa infestada de baratas e o encarregou de esmagar os rebeldes. Logo não havia insurgentes. Chanakya também incendiou uma aldeia que antes lhe negara comida. Para encher o tesouro imperial, apostou com um dado viciado. Também convidou mercadores ricos à sua casa, deu-lhes vinho e se vangloriou de suas próprias riquezas. Quando eles fizeram o mesmo, usou as informações para aumentar a receita do rei.

Tela de pedra perfurada com diversas figuras e episódios esculpidos em faixas.
Tela esculpida da Chandragupta Basadi, em Shravanabelagola, com cenas tradicionais ligadas a Chandragupta e Bhadrabahu; a versão jainista associa o imperador a essa comunidade religiosa.

Durante uma fome que durou doze anos, dois jovens monges jainistas passaram a comer do prato do imperador depois de se tornarem invisíveis com uma pomada mágica. Chanakya percebeu sua presença espalhando pó no chão do palácio e seguindo suas pegadas. Na refeição seguinte, encheu a sala de fumaça espessa. As lágrimas lavaram a pomada dos olhos dos monges, e ele os apanhou. Queixou-se ao mestre deles, o ácharya Susthita, que atribuiu o comportamento dos jovens à falta de generosidade das pessoas para com os monges. Chanakya passou então a lhes dar esmolas abundantes.

Chandragupta também sustentava monges que não eram jainistas. Chanakya quis convencê-lo de que não mereciam seu apoio. Espalhou pó no chão perto dos aposentos das mulheres e deixou os monges ali. As pegadas mostraram que tinham espiado pelas janelas. Submetidos à mesma prova, os monges jainistas ficaram longe dos aposentos. Ao ver isso, Chandragupta os nomeou seus conselheiros espirituais.

Chanakya misturava pequenas doses de veneno à comida de Chandragupta para torná-lo imune a tentativas de envenenamento. Sem saber, o imperador dividiu a comida com a imperatriz Durdhara. Chanakya entrou no quarto no instante em que ela morreu, abriu-lhe o ventre e retirou o bebê. Uma gota de veneno, bindu, tocara a criança, que recebeu o nome de Bindusara.

Escultura de duas figuras sentadas, uma delas com a mão erguida, num nicho arquitetônico.
Chandragupta e o mestre jainista Bhadrabahu representados em Shravanabelagola; a versão jainista encerra o reinado de Chandragupta com sua vida religiosa.

Depois que Chandragupta abdicou para se tornar monge jainista, Chanakya instalou Bindusara como imperador. Pediu-lhe que nomeasse Subandhu ministro. Subandhu, porém, queria um cargo superior e tinha ciúme de Chanakya. Contou a Bindusara que ele fora responsável pela morte de sua mãe. As amas confirmaram que Chanakya abrira o ventre da imperatriz. Bindusara ficou furioso e passou a odiá-lo. Já muito idoso, Chanakya se retirou e decidiu morrer por jejum, numa forma de sallekhana. Quando Bindusara soube das circunstâncias completas de seu nascimento, implorou que ele retomasse o cargo. Como não conseguiu demovê-lo, mandou Subandhu convencê-lo a desistir do jejum. Fingindo apaziguá-lo, Subandhu o queimou vivo e tomou sua casa. Chanakya previra isso e deixara ali uma armadilha: um baú fechado por cem cadeados. Subandhu quebrou os cadeados na esperança de encontrar joias, mas achou um perfume doce e o inalou. Em seguida, viu uma inscrição numa casca de bétula: quem sentisse o perfume teria de se tornar monge ou morrer. Subandhu experimentou a substância em outro homem e depois lhe deu uma refeição luxuosa, da qual monges se abstinham. O homem morreu. Para escapar da morte, Subandhu tornou-se monge.

Versão caxemira, século XI

Fontes

Página ilustrada de um manuscrito indiano, com uma cena pintada em cores.
Fólio ilustrado do Kathasaritsagara, uma das coletâneas caxemiras que preservam a narrativa de Chanakya e Chandragupta.

O Brihatkatha-Manjari, de Kshemendra, e o Kathasaritsagara, de Somadeva, são duas coletâneas de lendas de Caxemira em sânscrito do século XI. Ambas derivam do Brihatkatha-Sarit-Sagara, em prácrito, hoje perdido, que por sua vez se baseava no Brihatkatha, escrito por Gunadhya na língua paishachi antes do século III e também perdido. A lenda de Chanakya e Chandragupta nessas coletâneas introduz outra personagem, Shakatala, ou Śakaṭāla.

Narrativa caxemira

Vararuchi, identificado com Katyayana, Indradatta e Vyadi eram discípulos do rixi Varsha. Foram a Ayodhya pedir ao imperador Nanda, em nome de seu guru, uma gurudakshina, a remuneração devida ao mestre. Quando chegaram, Nanda havia morrido. Indradatta usou poderes associados à ioga para entrar no corpo do imperador e concedeu a Vararuchi dez milhões de dinares de ouro. O ministro Shakatala percebeu o que acontecera e mandou queimar o corpo abandonado de Indradatta. O falso imperador, Indradatta no corpo de Nanda e também chamado Yogananda, mandou prender Shakatala e seus cem filhos. Na prisão, eles receberam comida suficiente para uma única pessoa. Os filhos morreram de fome para que o pai sobrevivesse e se vingasse.

Vale verde de Pahalgam com um rio entre encostas cobertas de árvores e montanhas ao fundo.
Vale de Pahalgam, na Caxemira. Duas coletâneas compostas na região preservam outra versão da narrativa de Chanakya.

O falso imperador nomeou Vararuchi ministro. À medida que o comportamento de Yogananda piorava, Vararuchi, desgostoso, retirou-se como asceta para a floresta. Shakatala voltou ao ministério, sem abandonar seus planos de vingança. Um dia, encontrou o brâmane Chanakya arrancando toda a grama do caminho porque uma folha lhe espetara o pé. Decidiu usar aquele homem vingativo para destruir o falso imperador. Convidou-o a presidir uma cerimônia ritual na corte, prometendo-lhe cem mil moedas de ouro.

Duas folhas de casca de bétula amarronzada cobertas de linhas de escrita.
Manuscrito de casca de bétula produzido na Caxemira. Coletâneas sânscritas da região preservaram outra versão da história de Chanakya.

Shakatala hospedou Chanakya em casa e o tratou com grande respeito. No dia da cerimônia, porém, outro brâmane, Subandhu, reivindicou o lugar de honra. Shakatala levou a disputa a Yogananda, que concedeu o assento a Subandhu. Ao comunicar a decisão a Chanakya, Shakatala atribuiu a afronta ao imperador. Chanakya soltou então o coque no alto da cabeça, a sikha, e jurou não voltar a prendê-lo antes da destruição do imperador. Nanda mandou detê-lo, mas ele fugiu para a casa de Shakatala. Ali realizou um ritual mágico com materiais fornecidos pelo ministro e deixou o imperador doente. Nanda morreu de febre sete dias depois.

Shakatala executou Hiranyagupta, filho do falso imperador, e ungiu Chandragupta, filho do verdadeiro Nanda, como novo imperador. Na versão de Kshemendra, é Chanakya quem o instala no trono. Shakatala também nomeou Chanakya sacerdote imperial, ou rajpurohita. Consumada a vingança, retirou-se como asceta para a floresta.

Versão do Mudrarakshasa, séculos IV a VIII

Fonte

Folha de rosto impressa com o título Mudrârâkshasa, o nome de Vishakhadatta e dados editoriais.
Página de rosto de uma edição de 1915 do Mudrarakshasa, peça em que o anel de sinete de Rakshasa move parte da intriga.

Mudrarakshasa, "O anel de sinete de Rakshasa", é uma peça sânscrita de Vishakhadatta. Sua data é incerta, mas a obra menciona os hunos, que invadiram o norte da Índia na época do Império Gupta. Por isso, não pode ser anterior a esse período. As propostas de datação vão do fim do século IV ao século VIII. A peça contém episódios ausentes das outras versões. Trautmann entende que grande parte da narrativa é ficcional ou lendária, sem base histórica.

Narrativa do Mudrarakshasa

Na peça, o imperador Nanda retira Chanakya do "primeiro assento do império", possivelmente uma referência à sua expulsão da assembleia. Chanakya jura não prender o coque, a shikha, antes de destruir Nanda por completo. Planeja destroná-lo e substituí-lo por Chandragupta, filho de Nanda com uma consorte de posição inferior. Faz Chandragupta se aliar ao poderoso rei Parvateshvara, ou Parvata, e ambos concordam em dividir os domínios de Nanda após a vitória. O exército conjunto reúne soldados bálhicas, quiratas, persas, cambojas, sacas e yavanas. Invade Pataliputra, também chamada Kusumapura, e derrota os Nandas. Alguns estudiosos identificam Parvata com o rei Poro.

Quatro moedas antigas escuras expostas lado a lado numa vitrine de museu.
Moedas associadas a Toramana, governante huno. A menção aos hunos no Mudrarakshasa ajuda a situar a composição da peça após o início do período Gupta.

Rakshasa, primeiro-ministro de Nanda, foge de Pataliputra e continua a resistir aos invasores. Envia uma vishakanya, jovem envenenada, para matar Chandragupta. Chanakya a faz matar Parvata, enquanto a culpa recai sobre Rakshasa. Malayaketu, filho de Parvata, descobre a verdade e passa para o lado de Rakshasa. Bhagurayana, espião de Chanakya, o acompanha fingindo amizade.

Rakshasa segue planejando a morte de Chandragupta, mas Chanakya frustra cada tentativa. Em certa ocasião, Rakshasa manda assassinos entrarem por um túnel no quarto do imperador. Chanakya nota uma trilha de formigas carregando restos da comida deles e manda queimá-los vivos.

Capitel de pedra esculpida exposto sobre um pedestal num museu.
Capitel encontrado em Pataliputra, cidade onde se desenrola a disputa pelo poder na peça.

Chanakya convence Vairodhaka, irmão de Parvata, de que Rakshasa matou Parvata e concorda em dividir com ele metade do império de Nanda. Em segredo, prepara sua morte. Sabe que o arquiteto principal de Pataliputra é fiel a Rakshasa e lhe pede que construa um arco do triunfo para a procissão de Chandragupta até o palácio. Marca o cortejo para a meia-noite alegando motivos astrológicos, mas pretende dificultar a visão. Convida Vairodhaka a seguir à frente montado no elefante de Chandragupta e escoltado por seus guardas. Os partidários de Rakshasa derrubam o arco sobre quem pensam ser Chandragupta. Vairodhaka morre, e Rakshasa é novamente culpado pelo atentado.

Malayaketu e Rakshasa se aliam a cinco reis: Chiravarman de Kauluta, ou Kulu; Meghaksha de Parasika, na Pérsia; Narasimha de Malaya; Pushkaraksha do reino de Kashmira; e Sindhusena do reino de Saindhava. O exército aliado também reúne soldados do Chedi, de Gandara, dos hunos, dos khasas, de Mágada, dos sacas e dos yavanas.

Relevo em pedra de um cortejo antigo com uma pessoa montada num elefante.
Relevo de Bharhut, posterior a Chandragupta, com um cortejo sobre elefante. Na peça, Vairodhaka ocupa o elefante do imperador e é morto no lugar dele.

Em Pataliputra, um agente informa a Chanakya que restam três partidários de Rakshasa na capital: o monge jainista Jiva-siddhi, o escriba Shakata-dasa e Chandana-dasa, chefe da guilda dos joalheiros. Jiva-siddhi é, na verdade, espião de Chanakya, fato desconhecido até de seus outros agentes. Chandana-dasa abriga a esposa de Rakshasa, que deixa cair sem perceber o anel de sinete do marido, a mudra. Um agente o entrega a Chanakya, que usa o anel para enviar a Malayaketu uma carta alertando-o de que seus aliados seriam traidores. Chanakya também manda alguns príncipes de Chandragupta fingirem deserção para o acampamento de Malayaketu. Em seguida, ordena a morte de Shakata-dasa, mas Siddharthaka, espião que finge servir Chandana-dasa, o "salva". O agente conduz o escriba até Rakshasa.

Ao chegar, Siddharthaka mostra a Rakshasa o anel e diz tê-lo encontrado na casa de Chandana-dasa. Em recompensa, recebe joias que Malayaketu dera a Rakshasa. Mais tarde, outro agente de Chanakya, disfarçado de joalheiro, vende a Rakshasa joias de Parvata.

Rakshasa envia espiões disfarçados de músicos à corte de Chandragupta, mas Chanakya já conhece seus planos. Diante deles, Chanakya e Chandragupta fingem uma discussão furiosa. Chandragupta simula demitir Chanakya e diz que Rakshasa seria um ministro melhor. Perto da casa de Rakshasa, Bhagurayana insinua a Malayaketu que Rakshasa odeia apenas Chanakya e aceitaria servir Chandragupta, filho de Nanda. Logo chega um mensageiro anunciando que Chandragupta demitiu Chanakya e elogiou Rakshasa. Malayaketu passa a desconfiar dele.

Pequeno selo oval escuro com caracteres gravados, apoiado numa vitrine.
Selo de marfim inscrito em escrita brâmi máuria. Na peça, a posse de um sinete permite a Chanakya dar aparência de autenticidade a cartas falsas.

Malayaketu decide marchar sobre Pataliputra, animado pela aparente ruptura entre Chandragupta e Chanakya. Rakshasa consulta Jiva-siddhi sobre a hora propícia para iniciar as operações; o monge, que espiona para Chanakya, declara que o dia é favorável. Jiva-siddhi também o convence de que Rakshasa matou seu pai, mas Bhagurayana o dissuade de atacá-lo. Siddharthaka se deixa capturar com uma carta falsa de Rakshasa para Chandragupta. Usa as joias recebidas de Rakshasa e finge ser seu agente. A carta, selada com o anel, afirma que Rakshasa deseja apenas substituir Chanakya como primeiro-ministro e que cinco aliados de Malayaketu querem desertar em troca de terras e riquezas. Furioso, Malayaketu convoca Rakshasa, que chega usando as joias de Parvata compradas do agente de Chanakya. Ao reconhecer as joias do pai, Malayaketu se convence da traição e manda executar brutalmente seus cinco aliados.

Repugnados pelas mortes, os demais aliados abandonam Malayaketu. Rakshasa foge, seguido pelos espiões de Chanakya. Um deles, disfarçado de amigo de Chandana-dasa, conta-lhe que o joalheiro será executado por se recusar a entregar a esposa e os filhos de Rakshasa às autoridades. Ele corre a Pataliputra para se entregar e salvar o amigo. Chanakya, satisfeito com sua lealdade, oferece-lhe clemência. Rakshasa promete servir Chandragupta como primeiro-ministro em troca da libertação de Chandana-dasa e do perdão de Malayaketu. Tendo alcançado o objetivo, Chanakya volta a prender o coque e se retira.

Recepção

Na Índia, a imagem de Chanakya como pensador político foi retomada por correntes nacionalistas, que viram no Artaxastra o testemunho de uma tradição antiga de governo pragmático. O ex-assessor de segurança nacional da Índia Shivshankar Menon elogiou as análises de poder do Artaxastra, que lhe pareceram precisas e ainda pertinentes, e recomendou a leitura do livro a quem estuda estratégia.

Identificação com Kauṭilya, autor do Artaxastra

Folha comprida e estreita de manuscrito com linhas de escrita grantha.
Folha de uma cópia posterior do Artaxastra conservada em Mysore; a atribuição do tratado a Chanakya é debatida nesta seção.

O Artaxastra é um manual sério de governo, sobre como administrar um Estado. Tem um propósito mais elevado, dá orientações claras e precisas e resulta da experiência prática de governar. Não é apenas um texto normativo, mas uma exposição realista da arte de governar. Shivshankar Menon, assessor de segurança nacional da Índia.

Duas obras são tradicionalmente atribuídas a Chanakya: o Artaxastra e o Chanakya Niti, ou Chanakya Neeti-shastra. A segunda reúne aforismos tradicionalmente atribuídos a Chanakya, preservados em diferentes coleções.

A atribuição do Artaxastra a Chanakya já era questionada nas primeiras décadas do século XX. Estudos textuais posteriores questionam a atribuição ao ministro máuria e entendem que o livro tomou forma em etapas. Patrick Olivelle situa a camada mais antiga, as "fontes de Kauṭilya", entre 50 a.C. e 50 d.C.; a "recensão de Kauṭilya", que reuniu partes dessas fontes num novo shastra, entre 50 e 125 d.C. A redação final, correspondente ao texto conservado, é situada entre 175 e 300 d.C. Em outra reconstrução, Mark McClish propõe que um tratado chamado Daṇḍanīti tenha sido composto por volta do século I a.C. e revisto por Kauṭilya por volta do século III d.C. Na análise de McClish, Kauṭilya foi o redator da versão conservada, não o autor do tratado inicial.

Página de manuscrito indiano com escrita e pintura de pessoas observando uma tartaruga.
Página ilustrada do Panchatantra, uma das obras que associam Chanakya ao nome Vishnugupta; esta cópia é muito posterior ao texto antigo.

O Artaxastra atribui sua autoria a Kauṭilya, possivelmente um nome de gotra, ou clã; um verso acrescentado depois do colofão do livro 15 usa o nome Vishnugupta. McClish considera tardios os versos de atribuição. Entre os primeiros textos sânscritos a identificar explicitamente Chanakya com Vishnugupta está o Panchatantra. K. C. Ojha propõe que a identificação tradicional de Vishnugupta com Kauṭilya nasceu de uma confusão entre o redator e o autor da obra. Para ele, Vishnugupta teria revisto o texto original de Kauṭilya.

R. P. Kangle, que escreveu na década de 1960, aceitava a atribuição tradicional ao primeiro-ministro máuria e, por isso, datava o Artaxastra do período de Chandragupta. Thomas Trautmann e Patrick Olivelle, seguindo Thomas Burrow, rejeitam a identificação entre Chanakya e Kauṭilya como uma associação posterior, formada na época gupta. Trautmann observa que as fontes mais antigas sobre Chanakya não lhe atribuem o tratado. Olivelle acrescenta que o nome Chanakya não aparece no corpo da obra. O verso 15.1.73, no fim da obra, associa implicitamente o autor à pessoa que livrou o país dos reis Nanda, sem mencionar Chanakya pelo nome.

Os governantes guptas procuraram se apresentar como sucessores legítimos dos máurias e chegaram a usar os nomes Chandragupta e Gupta. A peça Mudrarakshasa, que Olivelle situa possivelmente na época gupta, também estabelece essa associação. Olivelle propõe que o verso do Artaxastra seja uma interpolação posterior, feita para associar o autor do tratado político seguido pelos guptas ao ministro máuria.

A atribuição tradicional pesou nas pesquisas que continuaram a datar a obra da época máuria. Nacionalistas indianos a acolheram como prova de uma tradição antiga de autogoverno pragmático. Trautmann observa que a existência de impérios centralizados e de escolas indianas de pensamento político parecia fortalecer essas aspirações. A identificação com Chanakya também associava o tratado à dinastia Máuria. Diante da escassez de fontes sobre esse período, pesquisadores continuaram a usar o Artaxastra para estudá-lo, apesar da falta de evidências que sustentassem a datação tradicional. Para Mark McClish, o desejo de dispor de uma fonte desse tipo afetou as conclusões sobre a formação do texto.

Fachada de um edifício histórico de dois andares, com colunas e um domo central, em Mysore.
Foi no Instituto de Pesquisas Orientais de Mysore que Shamasastry identificou o manuscrito do Artaxastra em 1905.

Em 1905, o bibliotecário Rudrapatna Shamasastry identificou um manuscrito em folhas de palmeira do Artaxastra entre os textos recebidos de um pandit pelo Instituto de Pesquisas Orientais de Mysore. Publicou uma edição sânscrita em 1909 e uma tradução inglesa em 1915. O tratado também aborda a teoria do rajamandala. Examina a política monetária, a política fiscal, o auxílio social, as relações internacionais e a estratégia militar, além dos deveres do governante. Emprega, entre outras expressões para a guerra, dharma-yuddha, guerra conduzida segundo regras éticas, e kutayuddha, guerra baseada em dissimulação.

O pensamento econômico exposto no Artaxastra foi estudado como possível precursor da economia clássica em pesquisas modernas. Com base na identificação tradicional entre Kauṭilya e Chanakya, K. N. Jha o apresentou como pioneiro da economia na Índia.

Nomes de lugares e instituições

O nome Chanakya pronúnciaⓘ foi dado ao enclave diplomático Chanaquiapuri, em Nova Déli. O antigo Navio-escola Chanaquia tornou-se o campus de Navi Mumbai da Universidade Marítima Indiana. A Universidade Nacional de Direito Chanaquia e o Instituto Chanaquia de Liderança Pública também levam seu nome.

Teatro

Retrato em preto e branco do dramaturgo Dwijendralal Ray.
Dwijendralal Ray levou a lenda ao teatro em Chandragupta (1911).

Adaptações modernas recontam as lendas sobre Chanakya em obras parcialmente ficcionais. Na peça Chandragupta, de Dwijendralal Ray, publicada em 1911, o rei Nanda exila o meio-irmão Chandragupta, que entra para o exército de Alexandre, o Grande. Com a ajuda de Chanakya e Katyayan, antigo primeiro-ministro de Mágada, Chandragupta derrota Nanda, e Chanakya o mata.

Cinema e televisão

Homem de óculos fala diante de um microfone durante um evento.
Chandraprakash Dwivedi interpretou Chanakya na série televisiva de 1991, uma das adaptações modernas de sua história.

Livros sobre o Artaxastra e Chanakya

  • Chanakya on Management, de Ashok R. Garde, reúne 216 sutras sobre raja-neeti, acompanhados de tradução e comentário.
  • Ancient Indian Economic Thought, Relevance for Today, de Ratan Lal Basu e Rajkumar Sen, ISBN 81-316-0125-0, publicado pela Rawat Publications em Nova Déli em 2008, examina ideias econômicas do Artaxastra e sua pertinência ao mundo moderno.
  • O livro Economics in Arthashastra, organizado por Raj Kumar Sen e Ratan Lal Basu, foi publicado em 2006. Em 2009, completaram-se cem anos da primeira edição sânscrita do tratado, publicada por R. Shamasastry em 1909.
  • Pavan Choudary, Chanakya's Political Wisdom, Wisdom Village Publications Division, 2 de fevereiro de 2009, ISBN 978-81-906555-0-7, é um comentário político sobre Chanakya.
  • Balbir Singh Sihag, Kautilya: The True Founder of Economics, Vitasta Publishing, 2014, ISBN 978-81-925354-9-4.
  • Radhakrishnan Pillai escreveu livros sobre Chanakya, entre eles Chanakya in the Classroom: Life Lessons for Students, Chanakya Neeti: Strategies for Success, Chanakya in You, Chanakya and the Art of War, Corporate Chanakya, Corporate Chanakya on Management e Corporate Chanakya on Leadership.
Retrato do escritor Ashwin Sanghi, de óculos e camisa escura.
Ashwin Sanghi adaptou a vida de Cautília em Chanakya's Chant.

Ficção e outras obras

  • Chanakya, romance de B. K. Chaturvedi publicado em 2001.
  • Chanakya's Chant, de Ashwin Sanghi, é um romance sobre Chanakya como estrategista político na Índia antiga. Duas histórias correm em paralelo: as manobras de Chanakya para levar Chandragupta ao trono de Mágada e os planos de Gangasagar Mishra, personagem de uma época recente que quer tornar uma criança de favela primeiro-ministro da Índia.
  • The Courtesan and the Sadhu, de Mysore N. Prakash, é um romance histórico e espiritual sobre o papel atribuído a Kauṭilya na formação do Império Máuria.
  • Shatavadhani Ganesh trata da participação de Chanakya na cultura da Índia na obra em canares Bharatada Samskrutige Chanakyana Kodugegalu.

Ver também

Notas

  1. ↑ Trautmann considera incertos os acontecimentos narrados e exagerado o papel de Chanakya nessas histórias, embora julgue provável que alguém com esse nome tenha existido. A lenda e a existência possível de seu protagonista são questões diferentes. Trautmann 1971, pp. 9–10, 67.
  2. ↑ As quatro tradições contam o mesmo conflito de maneiras diferentes. As diferenças entre elas ajudam a estudar como a história foi transmitida, mas não permitem escolher uma versão como relato comprovado.
  3. ↑ A ausência nessa crônica não prova que a história ainda não circulasse; mostra apenas que ela não aparece no texto preservado.
  4. ↑ A data de um comentário indica quando essa versão foi escrita; não indica, por si só, quando aconteceriam os fatos que ela conta.
  5. ↑ É assim que os Nandas são apresentados na lenda budista. A frase não descreve uma origem comprovada da dinastia.
  6. ↑ O relato junta formação religiosa e habilidade política para apresentar Chanakya como alguém preparado para aconselhar governantes.
  7. ↑ Nesse episódio, os dentes são tratados como um sinal do destino. A crença faz parte da lenda, não de uma forma de prever quem governará.
  8. ↑ Dar presentes a brâmanes fazia parte da cena de corte narrada aqui. É por causa da cerimônia que Chanakya consegue chegar à assembleia do rei.
  9. ↑ A técnica que multiplica moedas e a enorme soma obtida pertencem ao enredo lendário. Não há registro de que esse tesouro tenha existido.
  10. ↑ Vassalos são governantes subordinados a outro soberano. Na brincadeira, as crianças reproduzem os papéis de uma corte.
  11. ↑ O desafio não é adivinhar quem tem mais sorte: Chanakya usa o fio para testar até onde cada candidato iria para cumprir sua ordem.
  12. ↑ Os sete anos fazem parte do relato. Não há uma cronologia independente que confirme esse período de treinamento.
  13. ↑ Ungir alguém significa aplicar óleo numa cerimônia. Aqui, o gesto marca sua instalação solene no poder.
  14. ↑ A prática é atribuída a Chanakya pela lenda. Não há registro contemporâneo de que ele tenha alimentado o imperador dessa maneira.
  15. ↑ A narrativa budista aqui resumida não informa o nome da imperatriz. A versão jainista adiante a chama Durdhara.
  16. ↑ O salvamento do bebê é contado como um acontecimento extraordinário da tradição budista; não é um relato médico documentado.
  17. ↑ Essa extensão das conquistas é contada por um autor budista tibetano muito posterior aos máurias; não é uma lista contemporânea de campanhas.
  18. ↑ Prácrito é o nome usado para línguas indianas antigas distintas do sânscrito literário. As histórias retomadas por Hemachandra passaram por textos em mais de uma língua.
  19. ↑ Um comentário acompanha um texto mais antigo e o explica. Às vezes também preserva histórias que não estavam no próprio texto comentado.
  20. ↑ Ele compara as tradições que deram origem aos relatos, não afirma que o livro de Hemachandra, escrito no século XII, seja mais antigo que o Mahavamsa.
  21. ↑ O termo indica uma divisão territorial no relato. Como a localização de Golla é incerta, chamá-lo de distrito não permite encontrá-lo com precisão num mapa atual.
  22. ↑ A palavra Dramila, usada logo adiante, sugere uma associação regional, mas não resolve onde ficava a vila mencionada na lenda.
  23. ↑ Os dentes aparecem nas versões budista e jainista como sinal de um destino excepcional, mas cada tradição conta de outro modo quem os quebrou e por quê.
  24. ↑ Ao ocupar o assento oferecido com um objeto, ele evita levantar-se do trono sem recusar verbalmente o lugar.
  25. ↑ A brincadeira serve, no relato, para mostrar que Chandragupta já se comportava como rei quando criança. É um motivo narrativo, não uma prova sobre sua infância.
  26. ↑ Asceta é alguém que segue uma vida religiosa de disciplina e renúncia. Aqui, essa aparência serve para que o perseguidor não reconheça Chanakya.
  27. ↑ A confiança, mesmo depois de Chanakya apontar seu esconderijo, convence o mestre de que conservará influência sobre o futuro rei.
  28. ↑ Esse episódio extremo faz parte da caracterização lendária de Chanakya como disposto a tudo para proteger seu escolhido.
  29. ↑ A promessa dá a Parvataka um motivo para ajudar na conquista. O destino dessa aliança se torna decisivo mais adiante na história.
  30. ↑ As Sete Mães formam um grupo de divindades da tradição hindu. A história não identifica qual era a cidade cercada nem o templo do episódio.
  31. ↑ Na cena, é a filha de Nanda quem decide com quem se casar. O episódio não comprova que esse casamento tenha acontecido.
  32. ↑ Um presságio é um acontecimento lido como sinal do futuro. A quebra dos nove raios explica, dentro da história, a previsão das nove gerações.
  33. ↑ A morte provocada pelo simples toque pertence ao repertório fantástico dessas lendas; não deve ser lida como descrição de um veneno conhecido.
  34. ↑ O detalhe da casa explica a escolha: a história retrata o tecelão como alguém que atacaria um problema sem hesitar, mesmo pagando um preço alto.
  35. ↑ Ácharya é um título de mestre religioso. Susthita é chamado a responder pela conduta dos jovens monges.
  36. ↑ Nesse contexto, dar esmolas aos monges é uma forma de sustentar pessoas que vivem da prática religiosa, e não apenas de ajudar quem passa fome.
  37. ↑ A comparação favorece os monges jainistas porque é contada numa fonte jainista; ela não permite julgar como se comportavam os monges de outras tradições.
  38. ↑ Embora um livro antigo tenha se perdido, é possível conhecer parte de sua história pelas obras posteriores que o usaram. Não temos como conferir cada detalhe diretamente no original desaparecido.
  39. ↑ Um rixi é apresentado como sábio ou mestre religioso. Os três discípulos viajam em nome dele, e não para cobrar uma dívida própria.
  40. ↑ Entrar no corpo de outra pessoa é um acontecimento sobrenatural dessa versão da história, não uma descrição de uma prática de ioga.
  41. ↑ Nanda é o dono do corpo; Indradatta é quem age por meio dele; Yogananda é o nome dado a essa figura na narrativa.
  42. ↑ A cena explica a vingança de Shakatala na trama. Ela pertence à versão caxemira, que difere das narrativas budista e jainista.
  43. ↑ Chanakya reage a uma ofensa mínima com uma resposta desmedida. É esse traço que faz Shakatala acreditar que poderá usá-lo contra o imperador.
  44. ↑ O cabelo solto torna a promessa visível. A peça Mudrarakshasa também usa esse gesto para marcar o começo e o fim da ação de Chanakya.
  45. ↑ A doença é apresentada como efeito do ritual dentro da lenda; o texto não oferece uma explicação histórica ou médica para a morte.
  46. ↑ Uma referência a um povo ajuda a estabelecer um limite para a data da obra, mas não revela o ano em que a peça foi escrita.
  47. ↑ Uma peça foi escrita para ser representada, com personagens e conflitos em cena. Seus acontecimentos não precisam ter ocorrido para que ela seja uma fonte importante sobre a tradição literária.
  48. ↑ Essa origem de Chandragupta é própria da peça; a versão jainista e a budista contam histórias diferentes sobre seus pais.
  49. ↑ A lista de povos e o ataque pertencem ao enredo da peça. Não são, por si só, um registro de quem integrou um exército histórico.
  50. ↑ Rakshasa é o nome pelo qual conhecemos esse ministro na peça. Embora a palavra também possa designar um ser sobrenatural, aqui ele é uma personagem humana.
  51. ↑ Como Malayaketu acredita estar entre aliados, Bhagurayana pode influenciar o que ele pensa de Rakshasa sem se apresentar como inimigo.
  52. ↑ Chanakya prepara a substituição antes da procissão: os atacantes acreditam atingir Chandragupta porque veem seu elefante e sua escolta.
  53. ↑ Uma guilda reúne pessoas de um mesmo ofício. A posição de Chandana-dasa dá importância à sua casa e às joias que passam pela trama.
  54. ↑ O anel de sinete deixa uma marca usada para autenticar mensagens. Na trama, controlar essa marca permite fazer uma carta falsa parecer verdadeira.
  55. ↑ Chanakya faz as joias chegarem às mãos de Rakshasa para que, mais tarde, Malayaketu pense que houve uma traição.
  56. ↑ O desentendimento é encenado diante dos espiões de Rakshasa para que a notícia falsa chegue ao grupo adversário.
  57. ↑ A consulta sobre a hora propícia dá aparência religiosa a uma decisão militar. O monge usa essa confiança para adiantar a marcha.
  58. ↑ Essa é uma leitura política feita muitos séculos depois do período máuria. Ela ajuda a entender a recepção moderna do livro, não a fixar sua data de composição.
  59. ↑ Um aforismo é uma frase breve que concentra um conselho ou ideia. Reunir frases atribuídas a Chanakya não demonstra que ele escreveu cada uma.
  60. ↑ Sobre as primeiras contestações, Kane 1926, p. 87 observa que Keith e Winternitz negavam que o Kautiliya conservado fosse obra de um ministro máuria. Bhandarkar 1926, p. 67 apresenta a hipótese, difundida entre sanscritistas europeus, de que o tratado seria do século IV d.C., e menciona os argumentos de Jolly, Winternitz e Keith.
  61. ↑ Um livro formado em etapas pode reunir trechos compostos em épocas diferentes. Por isso, a data de uma parte antiga não precisa ser a data da versão completa que chegou até nós. Ver autoria e datação do Artaxastra.
  62. ↑ Shastra é um tratado organizado para ensinar uma área de conhecimento; neste caso, o governo. A palavra não indica, sozinha, quem escreveu o texto.
  63. ↑ Recensão é uma versão de um texto preparada a partir de materiais anteriores. As datas propostas por Olivelle são intervalos de composição, não datas exatas de um único manuscrito.
  64. ↑ Colofão é uma indicação colocada no fim de um texto ou de uma parte dele. Estar depois desse fecho é um dos motivos para examinar o verso separadamente.
  65. ↑ Trautmann 1971, p. 5 observa que o verso final é o único a empregar Vishnugupta em vez do nome de gotra Kauṭilya. Olivelle o distingue do verso 15.1.73 e o considera um acréscimo posterior. Olivelle 2013, pp. 34–35.
  66. ↑ Trautmann 1971, p. 67 reproduz o argumento de Thomas Burrow: Cāṇakya também é nome de gotra, e as demais evidências apontam para duas pessoas, o ministro das lendas e o compilador do Artaxastra. Burrow sugere que a grafia original do nome do compilador fosse Kauṭalya, alterada para Kauṭilya após a identificação com o ministro, por causa de um jogo de palavras. A grafia posterior teria então substituído a anterior nas listas de gotras e em outras fontes.
  67. ↑ Uma interpolação é um trecho acrescentado a um texto depois de sua composição inicial. Identificá-la depende de comparar a passagem com o restante da obra e com sua história textual.
  68. ↑ Um texto posterior pode preservar ideias antigas, mas não vira testemunha contemporânea só porque restaram poucos documentos de uma época.
  69. ↑ Identificar o manuscrito em 1905 não significa que a obra tenha sido escrita naquele ano. Era uma cópia antiga de um texto que voltou a ser estudado e publicado.
  70. ↑ Política monetária diz respeito à moeda; política fiscal, à arrecadação e aos gastos do governo. O tratado discute esses temas no contexto da Índia antiga.
  71. ↑ Chamar a obra de "precursora" significa comparar algumas ideias antigas com teorias elaboradas muito depois; não significa que os autores clássicos a tenham lido.
  72. ↑ Enclave diplomático é uma área que concentra embaixadas e outras representações estrangeiras; o uso do nome mostra uma homenagem moderna à personagem.

Referências

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Bibliografia

Leitura adicional

Ligações externas

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