A camomila (Matricaria chamomilla), uma das plantas medicinais mais usadas, em ilustração do Köhler's Medizinal-Pflanzen (1887)
Planta medicinal é uma espécie vegetal, cultivada ou não, usada com propósitos terapêuticos. As plantas sintetizam uma grande variedade de compostos químicos que desempenham funções biológicas importantes e servem de defesa contra insetos, fungos e herbívoros. Pelo menos 12 000 desses compostos já foram isolados, número estimado em menos de 10% do total.
As plantas medicinais são usadas desde a pré-história e estão na origem de muitos fármacos modernos, como a morfina, a quinina e a digoxina. A parte da planta usada para fins medicinais, depois de coletada e preparada, é chamada de droga vegetal; os medicamentos obtidos exclusivamente de matérias-primas vegetais são os fitoterápicos. O estudo científico das plantas medicinais cabe à farmacognosia, e o do seu uso tradicional pelos povos, à etnobotânica e à etnofarmacologia.
O uso de plantas como medicamentos antecede a história escrita. Muitas das ervas e especiarias usadas na alimentação também produzem compostos com efeito medicinal. O uso de ervas e especiarias na culinária desenvolveu-se em parte como resposta a patógenos presentes nos alimentos: estudos mostram que em climas tropicais, onde os patógenos são mais abundantes, as receitas são mais condimentadas, e que as especiarias com ação antimicrobiana mais potente tendem a ser as mais usadas. Em todas as culturas, os vegetais são menos temperados que as carnes, presumivelmente porque se deterioram menos.
As angiospermas foram a fonte original da maioria das plantas medicinais. Muitas ervas daninhas comuns nos assentamentos humanos, como a urtiga, o dente-de-leão e a morugem, têm propriedades medicinais. Obras antigas como o Papiro Ebers e Sobre Material Médico, de Dioscórides, já descreviam centenas de plantas usadas como remédio, e esse conhecimento foi a base da terapêutica até o século XIX, quando a química passou a isolar seus princípios ativos.
Princípios ativos
Os compostos químicos das plantas agem sobre o corpo humano pelos mesmos mecanismos dos fármacos convencionais. Por isso, os medicamentos à base de plantas podem ser tão eficazes quanto os convencionais, mas também podem causar os mesmos efeitos adversos. Entre as principais classes de substâncias ativas estão os alcaloides, os glicosídeos, os polifenóis e os terpenos, presentes por exemplo nos óleos essenciais.
O cultivo de plantas medicinais exige manejo intensivo, pois cada espécie tem necessidades próprias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou diretrizes de boas práticas agrícolas e de coleta para plantas medicinais, que recomendam, por exemplo, a rotação de culturas para reduzir pragas e doenças e práticas de conservação do solo e da água. Em muitas plantas medicinais e aromáticas, o teor de substâncias ativas varia muito com o tipo de solo e a forma de cultivo. A coleta de espécies silvestres sem manejo pode ameaçar populações naturais, razão pela qual as diretrizes da OMS tratam também da coleta sustentável.
Preparação
Médico preparando um extrato de planta medicinal, em manuscrito árabe de Sobre Material Médico, de Dioscórides (1224)
As plantas medicinais costumam ser fibrosas e precisam de algum preparo para serem usadas. Os métodos tradicionais incluem a infusão, em que a água quente é derramada sobre a planta, como no preparo de chás; a decocção, em que a planta é fervida em água; a trituração, em que o material seco é moído até virar pó; e a extração com álcool, que produz tinturas. No Brasil, a Anvisa reconhece como chá medicinal a droga vegetal preparada pelo próprio consumidor por infusão, decocção ou maceração em água. Há também preparações de uso externo, como os cataplasmas.
Quando a ciência identifica a substância ativa de uma planta, ela pode ser extraída e purificada ou sintetizada em laboratório, dando origem a um fármaco de composição definida. A extração é preferida quando a molécula é complexa demais para ser sintetizada de forma econômica.
Os medicamentos à base de plantas são amplamente usados em todo o mundo. Em grande parte dos países em desenvolvimento, especialmente nas áreas rurais, a medicina tradicional, incluindo o uso de plantas, é a principal ou única fonte de cuidados de saúde; nos países desenvolvidos, produtos à base de plantas são comercializados como suplementos ou medicamentos alternativos. Em 2015, a OMS alertava que a maioria desses produtos ainda não havia sido testada quanto à segurança e à eficácia, e que sua qualidade era desigual, por vezes com contaminantes perigosos.
Substâncias de origem vegetal como os opiáceos, a cocaína e a cannabis têm usos médicos e recreativos, e cada país regula de forma diferente seu uso.
Conhecimento tradicional
Os povos indígenas e as comunidades tradicionais detêm amplo conhecimento sobre plantas medicinais. Os Yanomami, com apoio de pesquisadores, descreveram 101 espécies usadas em sua medicina tradicional.
Nas comunidades quilombolas, o uso de plantas medicinais é uma forma ancestral de cuidado, transmitida oralmente entre gerações e ligada ao território e à cultura afro-brasileira. Esses saberes, preservados sobretudo pelos mais velhos, orientam o preparo de chás, lambedores e garrafadas e resistiram a um longo histórico de deslegitimação. Na comunidade de Paratibe, em João Pessoa, foram registradas espécies como o boldo (Peumus boldus), a hortelã-da-folha-grossa (Plectranthus amboinicus) e o coité (Crescentia cujete), e o tema foi incorporado às práticas pedagógicas da escola quilombola local.
No Quilombo Sangrador, no Maranhão, um levantamento etnobotânico registrou 121 espécies de 56 famílias botânicas, usadas em chás, lambedores, garrafadas e aplicações in natura. As mulheres lideram o cultivo nos quintais, enquanto homens e mulheres compartilham a coleta na vegetação nativa, e as plantas tratam tanto doenças reconhecidas pela medicina oficial quanto categorias locais de mal-estar, como o "mau-olhado" e o "quebrante". Uma revisão de 19 estudos com quilombolas da Mata Atlântica sistematizou 477 espécies de árvores, arbustos e palmeiras usadas pelas comunidades, entre elas a aroeira-vermelha (Schinus terebinthifolia) e o cajueiro (Anacardium occidentale), este com grande número de indicações medicinais.
Muitos remédios vegetais nunca foram testados de forma sistemática, e seu uso se consolidou informalmente ao longo dos séculos. Uma avaliação de mil plantas publicada em 2010 concluiu que ensaios clínicos mostravam atividade potencial em cerca de 16% delas; para cerca de metade havia apenas evidências limitadas in vitro ou in vivo; cerca de 20% tinham apenas estudos fitoquímicos; 0,5% eram alergênicas ou tóxicas; e cerca de 12% nunca haviam sido estudadas. A organização Cancer Research UK alerta que não há evidência confiável de que remédios à base de plantas tratem, previnam ou curem qualquer tipo de câncer.
Um estudo filogenético de 2012 mostrou que plantas usadas para tratar doenças semelhantes em regiões diferentes do mundo tendem a pertencer aos mesmos grupos de parentesco, o que sugere que esses grupos concentram potencial medicinal real e podem orientar a busca por novos fármacos.
Descoberta de fármacos
O anticancerígeno paclitaxel (taxol) foi desenvolvido a partir do teixo-do-pacífico, Taxus brevifolia
A indústria farmacêutica tem raízes nas boticas europeias do século XIX, que forneciam extratos de plantas como a morfina, a quinina e a estricnina. Fármacos importantes como a camptotecina, da Camptotheca acuminata, usada na medicina tradicional chinesa, e o paclitaxel, do teixo-do-pacífico, foram obtidos de plantas. Os alcaloides vincristina e vinblastina, usados contra o câncer, foram descobertos na década de 1950 na vinca-de-madagáscar, Catharanthus roseus.
Centenas de compostos foram identificados por meio da etnobotânica, que investiga as plantas usadas pelos povos tradicionais. Dos 1 073 fármacos de pequenas moléculas aprovados entre 1981 e 2010, mais da metade derivou de produtos naturais ou foi inspirada neles. Por outro lado, alguns fitoquímicos muito estudados, como a curcumina, o galato de epigalocatequina, a genisteína e o resveratrol, interferem nos testes de laboratório e produzem com frequência resultados in vitro enganosos, o que limita seu valor como ponto de partida para novos fármacos. Nos Estados Unidos, entre 1999 e 2012, apesar de centenas de pedidos, apenas dois medicamentos botânicos foram aprovados pela Food and Drug Administration.
Plantas medicinais podem causar efeitos adversos e até a morte, seja pelos efeitos de suas substâncias ativas, por adulteração ou contaminação, por superdosagem ou por uso inadequado. Não há razão para supor que um produto seja seguro só por ser natural: a existência de venenos naturais potentes, como a atropina e a nicotina, mostra o contrário. Além disso, o teor de substâncias ativas varia com as condições de cultivo e a idade da planta.
Extratos de plantas podem interagir com medicamentos convencionais, tanto por fornecerem doses adicionais de compostos semelhantes quanto por interferirem nas enzimas do fígado que metabolizam fármacos, como o sistema citocromo P450, fazendo com que os medicamentos permaneçam mais tempo no organismo. O uso de plantas medicinais durante a gravidez pode ser perigoso. Como as plantas contêm muitas substâncias diferentes, seus extratos podem ter efeitos complexos no organismo.
Regulamentação
Farmácia ayurvédica em Rishikesh, na Índia, onde a prática é regulamentada pelo Ministério AYUSH
A OMS coordena a Cooperação Internacional de Regulação para Medicamentos Fitoterápicos, rede que busca melhorar a qualidade desses produtos e das alegações feitas sobre eles. Sua estratégia para a medicina tradicional tem como objetivos integrá-la às políticas nacionais de saúde, garantir segurança, eficácia e qualidade, ampliar o acesso e promover o uso racional. Na Índia, onde a Ayurveda é praticada há séculos, os remédios à base de plantas estão a cargo de um órgão governamental próprio, o AYUSH.
Brasil
No Brasil, a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, aprovada pelo Decreto nº 5.813, de 22 de junho de 2006, abrange toda a cadeia produtiva, do cultivo ao uso. No mesmo ano, a Portaria nº 971, de 3 de maio de 2006, aprovou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde (SUS), que inclui a fitoterapia. Em 2009, o Ministério da Saúde publicou a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus), com 71 espécies prioritárias para pesquisa e desenvolvimento de fitoterápicos.
Um modelo brasileiro de destaque são as Farmácias Vivas, criadas em 1983 pelo professor Francisco José de Abreu Matos, da Universidade Federal do Ceará, para oferecer às comunidades assistência farmacêutica com plantas medicinais regionais de eficácia cientificamente comprovada, sem fins lucrativos. Em 2010, a Portaria nº 886, de 20 de abril, instituiu a Farmácia Viva no âmbito do SUS.
123Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 26, de 13 de maio de 2014. Dispõe sobre o registro de medicamentos fitoterápicos e o registro e a notificação de produtos tradicionais fitoterápicos.
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