| Escritório familiar | |
|---|---|
| Natureza | Estrutura privada de gestão patrimonial |
| Modalidades | Escritório unifamiliar e escritório multifamiliar |
| Atividades | Gestão de investimentos, administração patrimonial e planejamento sucessório |
Family office, ou escritório familiar, reúne profissionais encarregados de administrar o patrimônio de uma família com grande fortuna. Eles acompanham os investimentos, cuidam dos bens e ajudam a organizar sua transmissão às gerações seguintes. Quando o escritório atende apenas uma família, o capital administrado pertence a ela.
O trabalho pode chegar à rotina da casa, à administração de imóveis e ao pagamento de despesas. Conforme as necessidades da família, a equipe também acompanha questões jurídicas, coordena projetos de filantropia e ajuda a preparar os herdeiros para administrar os bens e fazer o planejamento sucessório.
Há escritórios que cuidam apenas dos bens da família que os criou. Outros, chamados escritórios multifamiliares ou multi-family offices, atendem famílias diferentes. Manter profissionais próprios custa caro, por isso esse tipo de administração é mais comum entre famílias com grandes fortunas.
Em 1882, John D. Rockefeller criou uma estrutura própria para administrar seus negócios particulares e os bens da família Rockefeller, que esteve entre as pioneiras nesse tipo de organização no final do século XIX.
Os escritórios familiares se tornaram mais comuns na década de 1980, e seu número voltou a crescer depois de 2005, quando a quantidade de pessoas extremamente ricas atingiu níveis recordes.
Em 2007, veio a público a suspeita de que uma pessoa de confiança da família Ayer havia desviado cerca de 58 milhões de dólares ao longo de alguns anos.
Durante a elaboração da Lei Dodd-Frank, em 2010, os escritórios dedicados a uma única família, reunidos pela Private Investor Coalition, conseguiram que o Congresso dos Estados Unidos criasse uma exceção à definição de consultor de investimentos prevista na Lei dos Consultores de Investimento de 1940. Antes disso, esses escritórios podiam deixar de se registrar quando atendiam menos de 15 clientes. A Lei Dodd-Frank encerrou essa dispensa e determinou a criação de regras próprias para os escritórios familiares.
Em 22 de junho de 2011, a Securities and Exchange Commission, conhecida pela sigla SEC, aprovou as regras definitivas durante o governo de Barack Obama, quando a agência era presidida por Mary Schapiro. Cerca de cem escritórios familiares participaram da consulta por meio de advogados, que recorreram ao sigilo profissional para proteger a identidade das famílias.
Para receber a dispensa de registro da SEC, o escritório precisa aconselhar apenas determinados clientes familiares, pertencer integralmente a eles e ficar sob controle de integrantes ou entidades da família. Os escritórios que atendem famílias diferentes não recebem automaticamente a mesma dispensa.
No Brasil, a administração profissional de carteiras de valores mobiliários depende de autorização da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, conforme a Resolução CVM nº 21, de 2021, e suas alterações. O nome family office, por si só, não determina quais regras se aplicam à organização.
Um dos advogados justificou por que a família preferia participar da consulta à SEC sem revelar sua identidade: "A família extensa que controla o escritório familiar solicitou a este escritório de advocacia que apresentasse à Comissão comentários sobre a proposta de regulamentação em seu nome, pois acredita que fazê-lo diretamente poderia comprometer sua privacidade, inclusive ao revelar publicamente a maneira como conduz as atividades de seu escritório familiar".
A valorização acelerada das empresas de tecnologia depois de 2010 criou novas fortunas e aumentou a procura por escritórios familiares. Nesse mesmo ano, Torsten Pieper lançou a revista científica Journal of Family Business Strategy, dedicada à publicação de trabalhos sobre empresas familiares.
Em 2015, alguns escritórios familiares passaram a usar nomes comerciais como private investment office, expressão inglesa para "escritório de investimentos privados". Os serviços anunciados podiam enfatizar o atendimento de empresas privadas e a "assessoria em filantropia estratégica". A estimativa de 2015 era de que 79 mil famílias controlassem, juntas, aproximadamente 19 trilhões de dólares em ativos no mundo.
Entre 2012 e 2017, Leon Black pagou 158 milhões de dólares a Jeffrey Epstein por assessoria tributária ligada a seu escritório familiar. Os pagamentos vieram a público em janeiro de 2021.
O colapso da Archegos Capital Management, no primeiro semestre de 2021, levou autoridades de fiscalização financeira a examinar os riscos dessas organizações e motivou questionamentos de Sherrod Brown, então presidente da Comissão de Bancos do Senado dos Estados Unidos. O caso também trouxe questionamentos sobre as exigências de divulgação de informações, menos rigorosas para escritórios familiares do que para outros veículos de investimento.
Na Câmara dos Representantes, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez apresentou o projeto Family Office Regulation Act of 2021, identificado como H.R. 4620. A proposta restringiria a dispensa de registro como consultor de investimentos na SEC aos escritórios com até 750 milhões de dólares em ativos sob gestão. Também impediria a participação de pessoas proibidas de atuar no mercado ou sujeitas a decisões definitivas por fraude, manipulação ou engano. O projeto avançou na Comissão de Serviços Financeiros da Câmara em 2021, mas não se tornou lei. Em 2022, o Escritório de Orçamento do Congresso ainda analisava seus custos como proposta legislativa.
Os comissários Hester Peirce, da SEC, e Brian Quintenz, da Commodity Futures Trading Commission, conhecida pela sigla CFTC, defenderam em 2021 que o caso Archegos não justificava novas regras para os escritórios familiares. Outros reguladores e comentaristas também se opuseram a uma regulamentação adicional.
O fundador da Archegos, Bill Hwang, foi condenado por fraude e manipulação do mercado em julho de 2024 e recebeu pena de 18 anos de prisão em dezembro do mesmo ano.
Um escritório unifamiliar, single-family office ou SFO em inglês, pertence a uma única família e trabalha exclusivamente para ela. Seus profissionais cuidam da gestão de investimentos, dos tributos, das doações, dos trusts e de questões jurídicas, além de administrar os bens e efetuar pagamentos aos familiares quando necessário.
O custo anual de um escritório familiar pode passar de um milhão de dólares, o que torna esse serviço mais comum entre famílias com 50 milhões a 100 milhões de dólares, ou mais, de patrimônio líquido disponível para investir.
Um escritório familiar pode ser uma empresa de capital fechado, constituída como sociedade anônima ou sociedade limitada, com dirigentes e profissionais de apoio. O pagamento dos dirigentes depende do acordo firmado com a família e costuma incluir incentivos ligados aos lucros ou aos ganhos de capital obtidos pelo escritório.
Os profissionais podem cuidar diretamente dos principais investimentos que formam o capital financeiro da família e destinar parte dos rendimentos a novos negócios. As aplicações podem envolver private equity, capital de risco, fundos de cobertura e imóveis comerciais. Alguns escritórios usam fundos de cobertura para buscar uma relação entre risco e retorno adequada aos objetivos da família. Outros deixam a escolha dos investimentos a gestores externos e se limitam a distribuir os recursos entre eles.
A equipe pode cuidar da administração de imóveis, da contabilidade e dos salários, coordenar funcionários domésticos, organizar viagens e acompanhar questões jurídicas. Também pode ajudar na administração do patrimônio da família, na educação financeira dos herdeiros e dos investidores e na coordenação de doações e fundações privadas. Os escritórios multifamiliares podem atender famílias com bens sujeitos às leis de países diferentes. A equipe então precisa conhecer as regras de cada jurisdição, inclusive em assuntos tributários, de herança e de investimentos de longo prazo.
Em junho de 2008, calculava-se que havia cerca de mil escritórios unifamiliares no mundo, atendendo famílias com pelo menos cem milhões de dólares em ativos. Mais da metade administrava patrimônios familiares superiores a um bilhão de dólares. Além de cuidar de investimentos, imóveis, contabilidade, folha de pagamento e assuntos jurídicos, muitos auxiliavam na governança da família, na educação financeira dos herdeiros, na filantropia e no planejamento sucessório.
Em 2026, apenas 35% de um grupo de 307 escritórios familiares tinham um plano definido para manter sua equipe e seus serviços depois de uma mudança de dirigentes. Esse percentual diz respeito à sucessão na administração do escritório, não à existência de testamentos ou de planos de herança das famílias.
Com a concentração de grandes fortunas em poucas mãos, famílias multimilionárias e bilionárias passaram a criar equipes próprias para administrar sua riqueza e seus assuntos particulares. O trabalho tende a aumentar quando os bens crescem, passam de uma geração a outra ou ficam distribuídos entre integrantes da família.
Nos Estados Unidos, alguns escritórios familiares doam recursos a candidatos e comitês de ação política de diferentes partidos. Também utilizam mecanismos legais de elisão fiscal para pagar menos impostos. A Private Investor Coalition, que reúne escritórios familiares, tenta obter decisões favoráveis junto à Securities and Exchange Commission. A Managed Funds Association, representante de fundos de cobertura, procura preservar ou ampliar as possibilidades legais de redução de impostos no Congresso dos Estados Unidos.
Em 2015, antigos dirigentes da Receita Federal dos Estados Unidos temiam que a redução dos recursos de fiscalização, depois da controvérsia de 2013 envolvendo o órgão, estivesse dificultando as auditorias tributárias de famílias muito ricas e das entidades que elas controlavam. A preocupação alcançava também o trabalho do Global High Wealth Industry Group, criado para examinar as declarações de pessoas com renda muito elevada.
Na amostra de 317 escritórios familiares examinados pelo UBS em 2025, os investimentos em mercados privados ocupavam uma parcela expressiva das carteiras. Em 2024, a média destinada a private equity foi de 21%, com 11% em participações diretas e 10% por meio de fundos. Em 2025, 70% de um grupo de 346 escritórios familiares declararam fazer investimentos diretos. Em 2026, um grupo de 351 escritórios familiares de 41 países manifestou maior interesse por ações negociadas em bolsa, sem abandonar os investimentos privados. Naquele ano, 60% de outros 307 escritórios pretendiam mudar a distribuição de seus investimentos nos 12 meses seguintes.
Como um investimento privado pode demorar a encontrar comprador, um escritório familiar pode recorrer a empréstimos para obter liquidez sem vender esses ativos. Uma dessas opções é o crédito lombardo, oferecido por bancos privados mediante garantias formadas por ativos negociáveis, como ações cotadas em bolsa, títulos de dívida e cotas de fundos de investimento.
As linhas de crédito garantidas pelo valor patrimonial líquido, conhecidas pela sigla inglesa NAV, de net asset value, surgiram no setor dos fundos de private equity. Nelas, a garantia é o valor de uma carteira de participações em fundos privados e de outros ativos sem negociação pública. O pagamento costuma ter prazo definido, sem a possibilidade de reutilizar o limite como numa linha de crédito rotativa. Nos escritórios familiares, essas garantias podem reunir carteiras diversificadas de imóveis, participações em empresas privadas, crédito privado, capital de risco e fundos de cobertura. Quando o crédito é concedido a um escritório familiar, o contrato não precisa acompanhar o calendário de aplicações de um fundo de investimento.
Para obter recursos sem assumir uma nova dívida, o escritório pode vender participações em fundos no mercado secundário de private equity. Em 2025, as carteiras de investidores com responsabilidade limitada foram negociadas, em média, por 87% de seu valor patrimonial líquido.
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