


Engenharia geotécnica, também chamada de geotecnia, é o ramo da engenharia civil que estuda o comportamento dos materiais terrestres em problemas de engenharia. Usa princípios da mecânica dos solos e da mecânica das rochas para resolver esses problemas. Também emprega conhecimentos de geologia, hidrologia, geofísica e outras ciências relacionadas.
A engenharia geotécnica tem aplicações na engenharia militar, engenharia de minas, engenharia de petróleo, engenharia costeira e construção offshore. A engenharia geotécnica e a geologia de engenharia têm áreas de conhecimento que se sobrepõem. A primeira é uma especialidade da engenharia civil, enquanto a geologia de engenharia é uma especialidade da geologia.
Os seres humanos usam o solo há muito tempo como material para controle de enchentes, irrigação, sepultamentos, fundações e construção de edifícios. Diques, barragens e canais datados de pelo menos 2000 a.C., encontrados em partes do Egito Antigo, da antiga Mesopotâmia, do Crescente Fértil e dos primeiros assentamentos de Moenjodaro e Harappa, no vale do Indo, mostram atividades antigas de irrigação e controle de enchentes. Com o crescimento das cidades, estruturas passaram a ser erguidas sobre fundações planejadas. Os gregos antigos construíam sapatas isoladas, sapatas corridas e radiers. Até o século XVIII, porém, não havia uma base teórica para o projeto em solos, e esse trabalho dependia mais da experiência do que de uma ciência estabelecida.
Problemas de engenharia relacionados a fundações, entre eles os da Torre de Pisa, levaram cientistas a examinar o subsolo de modo mais sistemático. Os primeiros avanços ocorreram nas teorias de pressão de terra para a construção de muros de arrimo. Henri Gautier, engenheiro real francês, reconheceu em 1717 a "inclinação natural" de diferentes solos, ideia que mais tarde recebeu o nome de ângulo de repouso. Na mesma época, foi criado um sistema rudimentar de classificação dos solos com base no peso específico do material, que não é um bom indicador do tipo de solo.
A aplicação de princípios da mecânica aos solos já estava documentada em 1773, quando o físico e engenheiro Charles Coulomb desenvolveu métodos melhores para determinar as pressões de terra contra fortificações militares. Coulomb observou que, na ruptura, formava-se um plano de deslizamento definido atrás de um muro de arrimo em movimento. Para fins de projeto, propôs que a tensão de cisalhamento máxima nesse plano podia ser expressa em função da coesão do solo, , e do termo de atrito , em que é a tensão normal e é o ângulo de atrito. Com a combinação da teoria de Coulomb e da representação de tensões desenvolvida por Christian Otto Mohr, surgiu a teoria de Mohr-Coulomb. Na aplicação moderna, e são parâmetros de uma envoltória de resistência adotada para representar o comportamento do material. Em solos cuja relação entre resistência ao cisalhamento e tensão normal efetiva é não linear, um intercepto de coesão diferente de zero pode resultar da aproximação linear de apenas uma parte dessa relação.
No século XIX, Henry Darcy desenvolveu o que se tornou conhecido como lei de Darcy, que trata do escoamento de fluidos em um meio poroso. O matemático e físico Joseph Boussinesq formulou teorias sobre a distribuição de tensões em sólidos elásticos, úteis para estimar tensões em profundidade no terreno. O engenheiro e físico William Rankine criou uma alternativa à teoria de Coulomb para a pressão de terra. Albert Atterberg desenvolveu os índices de consistência das argilas, os limites de Atterberg, ainda usados na classificação dos solos. Em 1885, Osborne Reynolds reconheceu que o cisalhamento provoca dilatação volumétrica em materiais granulares densos e contração em materiais granulares soltos.
O termo "geotecnia", do sueco geoteknik, foi cunhado pela Comissão Geotécnica das Ferrovias Estatais Suecas, criada em 1913 depois de repetidos deslizamentos ao longo das ferrovias do país. Sob a direção de Wolmar Fellenius, a comissão investigou mais de 300 rupturas de aterros e deslizamentos, trabalhou com métodos de investigação de campo e laboratório e publicou seu relatório final em 1922.
A publicação de Erdbaumechanik, de Karl von Terzaghi, em 1925 é um dos pontos de referência para o desenvolvimento da moderna mecânica dos solos. Terzaghi desenvolveu o princípio da tensão efetiva e mostrou a relação entre tensão efetiva e comportamento mecânico dos solos. Também formulou teorias de capacidade de carga de fundações e o modelo unidimensional usado para prever o recalque de camadas de argila devido ao adensamento.
Em 1941, Maurice Biot publicou uma teoria tridimensional de adensamento para meios porosos elásticos saturados, generalizando o tratamento unidimensional do problema e formulando equações para tensões e recalques em três dimensões. Esse trabalho tornou-se uma das bases da poroelasticidade.
Em seu livro de 1948, Donald W. Taylor relacionou o entrelaçamento e a dilatação de partículas densamente compactadas à resistência máxima observada nos solos. K. H. Roscoe, A. N. Schofield e C. P. Wroth desenvolveram em 1958 uma representação do comportamento dos solos em termos de tensão efetiva, índice de vazios e tensão de cisalhamento, incluindo uma linha de estado crítico na qual grandes deformações podem ocorrer sem mudança dessas grandezas. Esses conceitos deram origem à mecânica dos solos no estado crítico, usada no desenvolvimento de muitos modelos constitutivos para solos.
Em 1961, Alec Skempton publicou uma revisão das formulações de tensão efetiva para solos, concreto e rochas. Para solos saturados, examinou a equação de Terzaghi como aproximação da tensão que controla resistência e variação de volume. Também discutiu formulações destinadas a materiais parcialmente saturados e mostrou que as mesmas relações não podem ser aplicadas sem qualificação a concreto e rocha saturados.

Engenheiros geotécnicos investigam as condições do subsolo e determinam as propriedades dos materiais encontrados. Também projetam obras de terra, estruturas de contenção, túneis e fundações, e podem supervisionar e avaliar terrenos. Esse trabalho pode envolver monitoramento do local, avaliação de riscos e medidas para reduzir riscos naturais.
Engenheiros geotécnicos e profissionais de geologia de engenharia fazem investigações geotécnicas para obter informações sobre as propriedades físicas do solo e da rocha sob e ao redor de um local. Esses dados são usados no projeto de obras de terra e fundações e no reparo de danos em obras e estruturas causados por condições do subsolo. As investigações geotécnicas abrangem a exploração da superfície e do subsolo, muitas vezes com amostragem e ensaios de laboratório. Métodos de geofísica de exploração também podem ser empregados, entre eles medições de ondas sísmicas de compressão, cisalhamento e Rayleigh, métodos de ondas superficiais e métodos em furos de sondagem. Também são usados levantamentos eletromagnéticos, magnetômetros, medições de resistividade elétrica e radar de penetração no solo. A tomografia de resistividade elétrica pode ser empregada para investigar propriedades do terreno e localizar estruturas subterrâneas.
A exploração de superfície pode abranger inspeções a pé, mapeamento geológico, métodos geofísicos e fotogrametria. O mapeamento geológico e a interpretação da geomorfologia costumam ser feitos em consulta com um geólogo ou profissional de geologia de engenharia. A exploração do subsolo normalmente envolve ensaios in situ, como a sondagem SPT e o ensaio de penetração de cone. Também podem ser usados ensaios de palheta, dilatométricos e pressiométricos. A escolha depende do tipo de solo ou rocha, das condições locais e dos parâmetros necessários ao projeto. Poços de inspeção e trincheiras, sobretudo para localizar falhas e planos de deslizamento, também podem ser usados para examinar diretamente as condições do terreno. Sondagens de grande diâmetro são raras por causa do custo e dos riscos à segurança, mas às vezes permitem a inspeção visual e manual da estratigrafia do solo e da rocha.
Há diferentes tipos de amostradores de solo para atender às necessidades de cada projeto. A sondagem SPT, que usa um amostrador bipartido de parede espessa, é um método comum de coleta de amostras deformadas. Amostradores de pistão e tubos de parede fina podem ser usados para obter amostras menos perturbadas de solos coesivos. Métodos especializados, como o amostrador de bloco Sherbrooke, permitem obter amostras de qualidade elevada, mas têm custo maior. A extração de testemunhos com congelamento do terreno pode produzir amostras indeformadas em materiais difíceis de amostrar pelos métodos convencionais, entre eles areia, aterros e zonas fraturadas.
A instrumentação geotécnica permite acompanhar o comportamento do terreno e das estruturas durante a construção ou a operação. Entre os instrumentos empregados estão piezômetros, usados para medir pressões da água nos poros, e inclinômetros, usados para medir deslocamentos laterais. Medidores de recalque, extensômetros e outros instrumentos podem ser escolhidos conforme a grandeza a acompanhar.
A modelagem em centrífuga geotécnica permite testar modelos físicos reduzidos de problemas geotécnicos. Como o comportamento mecânico dos solos depende do nível de tensões, um modelo pequeno sob a gravidade terrestre não reproduz automaticamente o estado de tensões do protótipo. A centrífuga aumenta a aceleração aplicada ao modelo, permitindo reproduzir, em escala reduzida e sob relações de semelhança apropriadas, níveis de tensão comparáveis aos do protótipo.
A fundação de uma estrutura transmite suas cargas ao terreno. Engenheiros geotécnicos projetam fundações com base nas características dessas cargas e nas propriedades dos solos e da rocha matriz no local. Em geral, estimam primeiro a magnitude e a posição das cargas a sustentar. Depois elaboram um plano de investigação do subsolo e determinam os parâmetros necessários por meio de ensaios de campo e laboratório. Com esses dados, podem iniciar o projeto da fundação. Entre as principais verificações estão a capacidade de carga, o recalque e os movimentos do terreno sob as fundações.

Engenheiros geotécnicos também participam do planejamento e da execução de terraplenagens, que abrangem melhoramento do solo, estabilização de taludes e análise de estabilidade.
O melhoramento do solo abrange métodos destinados a modificar propriedades do terreno para atender às exigências de uma obra. Entre eles estão compactação, drenos verticais, colunas de brita, injeções, substituição de materiais e mistura profunda do solo. A escolha depende do tipo de terreno, das cargas, do mecanismo de deformação ou ruptura que se pretende controlar e das condições de execução.
Também podem ser usados geossintéticos de reforço, como geocélulas e geogrelhas. Em ensaios de subleitos submetidos a carregamentos repetidos de veículos, reforços desse tipo reduziram recalques e aumentaram o número de ciclos suportados em comparação com condições não reforçadas.

Engenheiros geotécnicos podem analisar e melhorar a estabilidade de taludes por métodos de engenharia. A estabilidade depende da relação entre as tensões de cisalhamento mobilizadas e a resistência ao cisalhamento disponível ao longo de possíveis superfícies de ruptura. Mudanças na geometria, nas pressões de água, no carregamento ou nas propriedades dos materiais podem reduzir a estabilidade.
Entre as medidas de estabilização estão alterações da geometria do talude, drenagem superficial e subterrânea, reforço do maciço, estruturas de contenção e ancoragens. A escolha depende da geologia, das condições de água subterrânea, do mecanismo provável de ruptura e das restrições da obra.
A análise de estabilidade procura identificar possíveis mecanismos de ruptura e avaliar a relação entre as forças ou momentos resistentes e os que tendem a produzir movimento. Métodos de equilíbrio limite são usados com frequência em análises bidimensionais. Métodos numéricos, como os de elementos finitos e diferenças finitas, também podem ser empregados quando é necessário representar relações tensão-deformação, geometrias ou condições de contorno mais detalhadas. Análises tridimensionais podem ser apropriadas quando a geometria da ruptura ou do terreno varia de modo relevante fora da seção analisada.
A aproximação de talude infinito é aplicável a situações em que o talude se estende por uma distância grande em comparação com a profundidade da possível superfície de ruptura e onde essa superfície é aproximadamente paralela à face do talude. Ela é especialmente útil para rupturas rasas em encostas relativamente uniformes e não deve ser tomada como modelo geral para qualquer talude.
Geossintéticos são produtos poliméricos usados em contato com solo, rocha ou outros materiais geotécnicos. Entre eles estão geotêxteis, geogrelhas, geomembranas, geocélulas e geocompostos. Dependendo do produto e da aplicação, suas funções podem abranger separação, filtração, drenagem, reforço, proteção e barreira ou contenção.
Os geossintéticos são produzidos em diferentes formas e materiais e muitas vezes são empregados em conjunto. São usados em estradas, aeroportos, ferrovias, aterros, estruturas de contenção, reservatórios, canais, barragens, aterros sanitários, proteção de margens e obras costeiras.
A geotecnia ambiental aplica conhecimentos da mecânica dos solos, hidrogeologia e engenharia geotécnica a problemas que envolvem resíduos, solos contaminados, águas subterrâneas e materiais de contenção. Entre seus temas estão barreiras de baixa permeabilidade, sistemas de disposição de resíduos, transporte de contaminantes, remediação de terrenos contaminados e aspectos geotécnicos de barragens de rejeitos. A área começou a se organizar como especialidade própria no fim da década de 1970 e no início da década de 1980.
A engenharia geotécnica sísmica estuda a resposta de solos, fundações e sistemas de interação solo-estrutura a carregamentos sísmicos. O campo abrange propagação de ondas, propriedades dinâmicas dos solos, resposta local do terreno, liquefação do solo, estabilidade sísmica de taludes e comportamento de fundações e estruturas de contenção sob terremotos.

A engenharia geotécnica offshore, ou marinha, trata do projeto de fundações e sistemas de ancoragem para estruturas instaladas no mar, afastadas da costa. Plataformas petrolíferas, ilhas artificiais, turbinas eólicas e dutos submarinos estão entre suas aplicações.
A engenharia geotécnica offshore apresenta condições diferentes das encontradas em terra. A investigação e o melhoramento do terreno no fundo do mar são mais difíceis e caros, e as estruturas podem ficar expostas a riscos geológicos e a carregamentos produzidos por vento, ondas e correntes. Esses efeitos precisam ser considerados juntamente com o comportamento da fundação durante a vida útil da estrutura.
Em análises geotécnicas de sedimentos marinhos saturados, o material pode ser modelado como um meio formado por uma fase sólida, constituída por partículas minerais, e uma fase fluida constituída pela água dos poros. Estruturas offshore podem ser apoiadas diretamente no fundo do mar ou flutuar e permanecer aproximadamente na mesma posição por meio de sistemas de ancoragem. Entre os sistemas usados em estruturas flutuantes estão as pernas atirantadas e linhas de amarração em catenária.
O método observacional foi usado por Karl von Terzaghi em problemas de mecânica dos solos e foi sistematizado por Ralph B. Peck em sua Rankine Lecture de 1969. O método combina projeto, observação do comportamento da obra e possibilidade de modificar o projeto durante a construção. Peck propôs que se definissem previamente as condições mais prováveis, os desvios desfavoráveis concebíveis, as grandezas a observar e as medidas a tomar caso o comportamento observado se afastasse do previsto.
Uma formulação posterior do método manteve esses princípios e enfatizou seu uso quando o projeto pode ser revisto à medida que novas informações surgem durante a obra.
O método observacional pode ser resumido nas seguintes etapas:
O método depende da possibilidade real de observar o comportamento da obra e modificar o projeto ou a execução em tempo hábil. Por isso, não é adequado quando as alterações necessárias não podem ser implementadas antes que condições perigosas se desenvolvam.
A revista Geotecnia foi publicada pela primeira vez em junho de 1971. É editada em conjunto pela Sociedade Portuguesa de Geotecnia (SPG), pela Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS) e pela Sociedad Española de Mecánica del Suelo e Ingeniería Geotécnica (SEMSIG). Publica trabalhos em português ou espanhol sobre mecânica dos solos, mecânica das rochas, geossintéticos, geotecnia ambiental e geologia de engenharia.