
O mel louco é um tipo de mel que contém grayanotoxinas, substâncias presentes em certas plantas da família Ericaceae. As abelhas levam essas toxinas ao mel ao recolher o néctar de espécies de Rhododendron. O produto costuma ser escuro ou avermelhado e pode causar tontura, queda da pressão arterial e redução dos batimentos cardíacos.
O mel louco é produzido na região turca do mar Negro e no Nepal, onde também é consumido como remédio popular ou pelos seus efeitos psicoativos. Nas montanhas do Himalaia, as abelhas gigantes do Himalaia (Apis laboriosa) fazem ninhos em paredões rochosos. Comunidades gurung colhem o mel desses ninhos, numa prática transmitida entre gerações. Há relatos raros de mel com grayanotoxinas no leste dos Estados Unidos.
O mel já havia adoecido soldados gregos no século V a.C., num episódio contado por Xenofonte na Anábase. Durante a Terceira Guerra Mitridática, os heptacomitas deixaram mel intoxicante no caminho de tropas de Pompeu. No século XVIII, mel da região do mar Negro era levado à Europa e misturado a bebidas alcoólicas.
Ao atravessar a região do Ponto em 401 a.C., soldados gregos comeram mel durante a marcha e depois vomitaram, tiveram diarreia e não conseguiam ficar de pé. Xenofonte contou que ninguém morreu e que os homens conseguiram retomar a marcha depois de alguns dias.
Na guerra entre Roma e Mitrídates VI, por volta de 65 a.C., os heptacomitas, aliados do rei, deixaram recipientes com mel nas estradas por onde avançavam tropas de Pompeu. Estrabão atribuiu a eles o ataque a três manípulos romanos depois que os soldados consumiram o mel e perderam os sentidos.
Plínio, o Velho chamou de maenomenon um mel do Ponto associado a flores de rododendro. Ele observou que a toxicidade podia variar de um ano para outro e até entre partes de um mesmo favo.
Na costa turca do mar Negro, as flores de Rhododendron ponticum e Rhododendron luteum estão entre as fontes do néctar que dá origem ao mel com grayanotoxinas. A quantidade de toxina varia entre colheitas, e o mel de poucas colmeias está associado a mais intoxicações. A mistura de grandes quantidades de mel durante o processamento comercial tende a diluir a toxina.
No Himalaia, Apis laboriosa constrói favos expostos sob saliências de rochas. No Nepal, a colheita gurung costuma ocorrer na primavera e no outono. Os coletores descem até os ninhos por escadas de corda e usam fumaça para afastar as abelhas. A coleta também envolve cerimônias locais.
A retirada excessiva dos favos e a perda de habitat ameaçam colônias de Apis laboriosa em áreas do Nepal. Obras de estradas e barragens também perturbam os locais onde as abelhas fazem ninhos. Para diminuir os danos da coleta, um especialista do ICIMOD recomenda deixar parte dos favos novos intacta.
No leste dos Estados Unidos, a intoxicação por mel é rara, mas pode ocorrer quando as abelhas recolhem néctar de plantas que contêm grayanotoxinas, como espécies de Kalmia. Nos Alpes e nos Pirenéus, Rhododendron ferrugineum também fornece néctar para a produção de mel. Algumas amostras de mel alpino italiano continham pequenas quantidades de grayanotoxina I, mas não havia relatos de intoxicação por mel produzido na União Europeia na avaliação publicada em 2023.
Na região turca do mar Negro, o mel louco é consumido como remédio popular na tentativa de aliviar dor abdominal, indigestão, gastrite, úlcera péptica e gripe. Há também quem o use para artrite, diabetes e hipertensão. Outra razão para o consumo é a crença de que o mel melhora o desempenho sexual ou ajuda na disfunção erétil. Os relatos médicos de intoxicação envolvem com frequência homens de meia-idade que o ingeriram com esse objetivo.
No Cáucaso, pequenas quantidades de mel produzido a partir de Rhododendron ponticum eram acrescentadas a bebidas alcoólicas para intensificar a embriaguez. Na Turquia, uma colherada de mel louco era misturada ao leite como tônico.
Em 2005, a autoridade sanitária da Coreia do Sul suspendeu temporariamente a distribuição de mel importado do Nepal enquanto analisava a presença de grayanotoxina. Para novas importações de mel da região do Himalaia, passou a exigir um certificado de ausência da toxina.
Poucos minutos ou algumas horas após ingerir mel louco, a pessoa pode sentir tontura, náusea, fraqueza, suor intenso e alterações da visão. As grayanotoxinas impedem que certos canais de sódio das células nervosas se fechem normalmente, podendo reduzir a frequência dos batimentos cardíacos e a pressão arterial. Nos casos graves, podem ocorrer desmaio, confusão, bloqueio atrioventricular, convulsões e respiração lenta ou insuficiente.
A concentração das toxinas varia entre amostras de mel, e a quantidade ingerida, por si só, não permite prever a gravidade da intoxicação. Quando a pressão cai muito, o tratamento pode exigir líquidos intravenosos. A bradicardia e os problemas de condução do coração costumam responder à atropina. Alguns pacientes precisam de acompanhamento por mais de um dia e, raramente, de um marcapasso temporário. Uma revisão de 1.199 casos publicados entre 1981 e 2014 não encontrou relatos de morte, mas a intoxicação pode causar alterações cardíacas graves.
Em camundongos, a exposição à grayanotoxina III ou a mel com grayanotoxinas I e III causou danos aos cromossomos. Ainda não há dados suficientes para determinar o risco do consumo prolongado por pessoas.