| Nadia Murad | |
|---|---|
Nadia Murad em Washington, D.C. em 2018 | |
| Nome completo | Nadia Murad Basee Taha |
| Nascimento | 10 de março de 1993 (33 anos) Kocho, Iraque |
| Cidadania | iraquiana |
| Etnia | iazidi |
| Ocupação | ativista de direitos humanos |
| Prêmios | Prémio Sakharov de 2016 Nobel da Paz de 2018 |
Nadia Murad Basee Taha (Kocho, 10 de março de 1993) é uma ativista iraquiana da comunidade iazidi que defende os direitos das vítimas de tráfico de pessoas e de violência sexual em conflitos armados. Recebeu o Nobel da Paz de 2018 com o médico congolês Denis Mukwege pelo combate ao uso da violência sexual como arma de guerra, tornando-se a primeira pessoa do Iraque e da comunidade iazidi a receber o prêmio.
Sequestrada pelo Estado Islâmico durante o genocídio dos iazidis, em 2014, perdeu a mãe e seis irmãos e meios-irmãos nos massacres de sua comunidade. Foi mantida em escravidão sexual em Mossul e conseguiu fugir com a ajuda de uma família da cidade. Depois de passar por um campo de deslocados no norte do Iraque, foi acolhida na Alemanha, em 2015, e começou a denunciar os crimes contra seu povo.
Nomeada em 2016 a primeira embaixadora da Boa Vontade do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime para a dignidade das vítimas de tráfico de pessoas, Murad fundou a Nadia's Initiative, organização sem fins lucrativos que apoia vítimas de genocídio e violência sexual e trabalha na reconstrução de suas comunidades. Publicou suas memórias em The Last Girl, de 2017, lançado no Brasil como Que eu seja a última, e participou da criação do Código Murad, um conjunto de orientações para colher depoimentos de vítimas de violência sexual sem expô-las a novos danos.
Nascida em Kocho, aldeia do distrito de Sinjar, no norte do Iraque, Murad cresceu em uma família de agricultores da minoria iazidi. Era a mais nova dos onze filhos de sua mãe e tinha outros quatro meios-irmãos do primeiro casamento do pai. Seus pais se casaram depois da morte da primeira esposa dele.
Na casa da família, Murad gostava de arrumar o cabelo e maquiar as mulheres com quem convivia e queria abrir um salão de beleza em Kocho. Não imaginava deixar a aldeia para morar em outro lugar. A mãe criou os onze filhos sozinha depois da separação e trabalhou no campo para que estudassem.
Murad casou-se com o ativista iazidi Abid Shamdeen em agosto de 2018. O casal se conheceu em Nova Iorque, onde ela participava de atividades nas Nações Unidas.
Em 2020, ingressou no curso de sociologia da American University, em Washington, e concluiu a graduação em maio de 2024.
Aos 21 anos, Murad ainda era estudante em Kocho quando o Estado Islâmico invadiu a aldeia, em 15 de agosto de 2014. Os combatentes reuniram os moradores e mataram cerca de 600 pessoas, entre elas sua mãe e seis irmãos e meios-irmãos. As mulheres jovens e as meninas foram levadas como escravas. Murad estava entre cerca de 6.700 mulheres e meninas iazidis aprisionadas pelo grupo.
Durante o cativeiro em Mossul, foi espancada, queimada com cigarros e estuprada repetidas vezes. Sofreu novas agressões depois de uma tentativa de fuga, mas conseguiu escapar quando um dos captores deixou a casa destrancada. Uma família muçulmana da vizinhança a escondeu e a ajudou a deixar a área controlada pelo grupo. Murad chegou a um campo para deslocados internos em Dohuk, no Curdistão iraquiano, ainda em 2014.
Instalada no campo de Rwanga, onde morava em um contêiner adaptado, Murad deu seu primeiro depoimento público em fevereiro de 2015, sob o pseudônimo de "Basima", a jornalistas do diário belga La Libre Belgique. Foi uma das mil mulheres e crianças acolhidas naquele ano por um programa de refugiados do governo de Baden-Württemberg, na Alemanha, e passou a morar na região de Stuttgart.

Ao falar sobre o tráfico de pessoas e os conflitos armados no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 16 de dezembro de 2015, Murad participou da primeira sessão do órgão dedicada ao tema. Em 16 de setembro de 2016, tornou-se a primeira embaixadora da Boa Vontade do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime para a dignidade das vítimas de tráfico de pessoas. Nessa função, passou a participar de campanhas locais e internacionais sobre tráfico humano e refugiados e a ouvir depoimentos de outras vítimas de tráfico e genocídio.
Em junho de 2016, a advogada Amal Clooney anunciou que a representaria em ações contra os comandantes do Estado Islâmico. Ao discursar no Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, em setembro, Clooney chamou o sistema de genocídio, estupro e tráfico do grupo de "burocracia do mal em escala industrial" e denunciou a venda de mulheres pela internet, inclusive pelo Facebook, e em mercados no Oriente Médio. Murad relatou ter recebido ameaças por sua atuação.
O anúncio da Nadia's Initiative ocorreu em setembro de 2016, em um evento organizado por Tina Brown em Nova Iorque, com a proposta de apoiar vítimas de genocídio. A organização foi formalizada em 2018 e passou a trabalhar na reconstrução de Sinjar e no acesso das vítimas da violência sexual a serviços e reparações. Em parceria com a Mines Advisory Group, Murad e a organização trabalharam para retirar minas de uma área de mais de 2,6 milhões de metros quadrados em Sinjar. Também participaram da preparação e defenderam a aprovação da Resolução 2379 do Conselho de Segurança, que criou uma equipe para reunir e preservar provas de possíveis crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio cometidos pelo Estado Islâmico no Iraque.
Em 3 de maio de 2017, Murad se reuniu no Vaticano com o papa Francisco e o arcebispo Paul Richard Gallagher. Pediu ajuda para libertar os iazidis que ainda estavam em cativeiro e agradeceu o apoio do Vaticano às minorias. A conversa abordou a possibilidade de uma região autônoma para as minorias no Iraque e as dificuldades das comunidades religiosas, dos deslocados internos e dos refugiados do Iraque e da Síria.
Murad pediu ao Governo Regional do Curdistão que reconstruísse as áreas iazidis de Sinjar e permitisse o retorno dos refugiados. Em dezembro de 2018, Nechirvan Barzani declarou apoio ao seu trabalho com as vítimas. Em 2019, ela apoiou o processo na Alemanha contra a esposa de um integrante do Estado Islâmico e a coleta de provas dos crimes do grupo. A Nadia's Initiative trabalhou com a missão alemã nas Nações Unidas na preparação da Resolução 2467, aprovada em abril daquele ano, sobre violência sexual nos conflitos e o atendimento às necessidades das vítimas.

No Conselho Consultivo para a Igualdade de Gênero da presidência francesa do G7, em 2019, Murad defendeu que os países adotassem leis de proteção aos direitos das mulheres. Em julho, participou da segunda reunião ministerial sobre liberdade religiosa nos Estados Unidos, onde apresentou os problemas enfrentados pelos iazidis quase cinco anos depois dos ataques de agosto de 2014 e propôs um plano de ação em cinco pontos. Integrou uma delegação de vítimas de perseguição religiosa que participou do encontro e se reuniu com o presidente Donald Trump, no Salão Oval, em 17 de julho. Falou da morte da mãe e de seis irmãos e pediu medidas para ajudar sua comunidade.
O trabalho no Código Murad começou em 2020, em parceria com o Instituto de Investigações Criminais Internacionais e a Iniciativa para a Prevenção da Violência Sexual em Conflitos, do governo britânico. O projeto reuniu orientações para que entrevistas, investigações e a coleta de informações sobre violência sexual respeitassem os direitos das vítimas e não lhes causassem novos danos. Murad apresentou o código no Conselho de Segurança em 13 de abril de 2022, quando a versão final foi lançada pelo governo britânico, pela Nadia's Initiative e pelo instituto.
Em 6 de fevereiro de 2021, a comunidade iazidi sepultou 104 vítimas do massacre de Kocho. As famílias aguardavam havia mais de seis anos a identificação e o sepultamento dos parentes, enquanto outras valas comuns em Sinjar ainda precisavam ser exumadas. Em março, o Parlamento iraquiano aprovou a Lei das Sobreviventes Iazidis, que reconheceu o genocídio e previu reparações, terras e oportunidades de emprego para vítimas do Estado Islâmico, incluindo pessoas de outras minorias étnicas e religiosas. Murad defendeu a aprovação da lei e cobrou sua aplicação.
Em maio de 2021, Murad e Karim Khan, chefe da Equipe de Investigação das Nações Unidas para os Crimes do Estado Islâmico, a UNITAD, apresentaram exposições ao Conselho de Segurança sobre os crimes do grupo.
Em novembro de 2021, a participação de estudantes de Toronto em um encontro com Murad para discutir seu livro foi questionada dentro do conselho escolar da cidade. A organizadora do clube de leitura, Tanya Marie Lee, afirmou que uma superintendente havia dito que o livro poderia estimular a islamofobia. O conselho escolar respondeu que a opinião transmitida à organizadora não era sua posição oficial e pediu desculpas a Murad. Depois da leitura do material pelos funcionários, os estudantes participaram do encontro, realizado em fevereiro de 2022.
Murad esteve no Brasil em junho de 2023 para participar do Fronteiras do Pensamento, com apresentações em São Paulo, no dia 19, e em Porto Alegre, no dia 21. Nas entrevistas durante a visita, defendeu a punição dos autores de violência sexual e o uso de procedimentos que permitissem às vítimas contar suas experiências sem serem obrigadas a repetir detalhes de seus traumas.
Em janeiro de 2026, criticou a posição da comunidade internacional diante da ofensiva do governo de transição sírio contra a Administração Autônoma do Norte e Leste da Síria.
Murad e Denis Mukwege fundaram em outubro de 2019 o Global Survivors Fund, um fundo que busca garantir reparações e outras formas de compensação a vítimas de violência sexual em conflitos. A proposta nasceu do trabalho de defesa dessas vítimas realizado pelo escritório da representante especial do secretário-geral das Nações Unidas sobre violência sexual em conflitos.
O secretário-geral da ONU apoiou a criação do fundo em abril de 2019, e a Resolução 2467 do Conselho de Segurança fez referência à proposta. Em agosto, o G7 declarou apoio ao fundo na Declaração sobre Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres.
As memórias de Murad, The Last Girl: My Story of Captivity, and My Fight Against the Islamic State, foram publicadas pela Crown em 7 de novembro de 2017 e narram seu sequestro, o cativeiro e a fuga do Estado Islâmico. O livro ganhou traduções com os títulos Pour que je sois la dernière, em francês, Ich bin eure Stimme: Das Mädchen, das dem Islamischen Staat entkam und gegen Gewalt und Versklavung kämpft, em alemão, الفتاة الاخيرة: قصتي مع الأسر ومعركتي ضد تنظيم داعش, em árabe, L'ultima ragazza, em italiano, e Yo seré la última: Historia de mi cautiverio y mi lucha contra el Estado Islámico, em espanhol.
No Brasil, o livro foi publicado pela Novo Século em 2019 como Que eu seja a última: minha história de cárcere e luta contra o Estado Islâmico, com tradução de Henrique Guerra. Em setembro de 2026, Murad publicou I Choose My Beginning: A Story of Courage and Activism, com Jenna Krajeski e prefácio de Gloria Steinem, pela Summit Books.

Ao dividir o Nobel da Paz de 2018 com Denis Mukwege, Murad recebeu o prêmio pelos esforços para pôr fim ao uso da violência sexual como arma de guerra e de conflitos armados. Na justificativa da premiação, o Comitê Nobel Norueguês elogiou sua recusa em se calar sobre os crimes que sofreu e sua disposição de falar em nome de outras vítimas.
Em dezembro de 2024, a BBC incluiu Murad na lista 100 Mulheres, que reúne mulheres escolhidas pela emissora a cada ano.
Rita Dove, former United States Poet Laureate, presenting the Golden Plate Award to Nadia Murad, recipient of the Nobel Prize for Peace, during the Banquet of the Golden Plate Award gala at the St. Regis Hotel in New York City.
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