Nhanderu

Na cosmogonia e mitologia guarani, Nhanderu ou Nhande Ru ("Nosso Pai") é a divindade suprema e criadora, a origem do cosmos, da palavra e dos fundamentos da vida.

Por extensão, "Nhanderu" é também o título dado aos deuses masculinos do panteão guarani, bem como ao conjunto das deidades em geral, além dos líderes espirituais dos guaranis.

O Criador

Segundo a obra Ayvú Rapyta, compilação de mitos orais dos mbiá-guaranis do Guairá (Paraguai) feita pelo antropólogo paraguaio León Cadogan com o relato oral de nativos como o cacique Pablo Verá, o Criador é conhecido por diversos nomes, tais como: Nhande Ru Tenondé ("Nosso Pai Primeiro"), Nhande Ru Pa-pa Tenondé ("Nosso Pai Absoluto Primeiro"), Nhamandu, Nhamanduí, Nhande Ru Nhamandu Tenondé ("Nosso Verdadeiro Pai Nhamandu, o Primeiro"), Nhamandu Ru Eté Tenondé ("Verdadeiro Pai Nhamandu, o Primeiro"), Nhamandu Yma ("Nhamandu Antigo"), entre outros.

Ainda de acordo com a versão mbiá, Nhanderu fez surgir a si mesmo em meio às trevas primordiais através da reflexão de sua própria sabedoria e essência luminosa, e é uma divindade que se manifesta em múltiplos aspectos ou expressões divinas associadas aos pontos cardeais e aos elementos, como Nhamandu (associado ao sol e ao sul), Caraí (fogo e leste), Jacairá (névoa, ventos e norte) e Tupã (trovão e oeste), que lhe auxiliam na criação do mundo e da humanidade.

Numa adaptação poética do Ayvú Rapyta pelo escritor tapuia Kaká Werá em seu livro Tupã Tenondé (2001), ele é descrito primeiramente como um colibri.

Para os apapocuvas (antigo subgrupo guarani ligado aos nhandevas), ele é conhecido como Nhanderuvuçu ("Nosso Grande Pai") e Cheruvuçu ("Meu Pai Grande"), o primeiro deus a surgir, e o faz com uma luz resplandescente no peito com a qual ele se descobre, sozinho, em meio às trevas. Sobre um suporte em forma de cruz, "ele dá à terra o seu princípio" e a provê com água. Com Nhanderu Mbaecuaá, que ele "acha" de repente ao seu lado, Nhanderuvuçu cria a mulher, Nhandeci ("Nossa Mãe"), surgida de uma panela feita por Nhanderuvuçu, que se torna esposa de ambos e mãe dos gêmeos Nhanderyqueý ("Nosso Irmão Mais Velho", Quaraí) e Tyvýry ("Irmão Mais Novo", Jaci), que serão responsáveis pela criação de outros diversos elementos terrenos.

Os nhandevas e caiouás chamam-no Nhande Ru Paven, filho de Nhane Ramõi ("Nosso Avô") e Nhane Jari ("Nossa Avó") e marido de Nhande Ci (“Nossa Mãe”), com quem ele gera Pa'i Quará, o deus Sol, e Jaci, o deus Lua.

Outros usos

Os guaranis chamam os seus deuses masculinos — não só o Criador, mas também seus quatro grandes auxiliares (Nhamandu, Caraí, Jacairá e Tupã) e os gêmeos astrais (Quaraí e Jaci) — de Nhanderus (“Nossos Pais”), assim como as deusas são chamadas de Nhandecis (“Nossas Mães”), ou Nhanderu kuery e Nhandexy kuery na forma plural do guarani.

Além destes, há também os deuses menores que, igualmente, recebem a alcunha de "Nhanderu", como Nhanderu Mbaecuaá ("Nosso Pai Conhecedor das Coisas") ou Cheru Mbaecuaá ("Meu Pai Conhecedor das Coisas"), pai de Jaci na versão apapocuva; Nhande Ru Tapari/Jeupié/Joajué, sobrevivente do dilúvio; e Nhande Ru Papa Mirim/Nhande Ru Ixapi filho ou assistente de Jacairá e criador de Yvy Pyau, a "Nova Terra", a terra atual, após o dilúvio.

Em conjunto, os deuses, masculinos e femininos, são conhecidos como, entre outras expressões, Nhande Ru Jukuéry (ju, "amarelo, dourado, áureo", e kuéry, designativo de plural), significando "Nossos Pais Áureos". Também se pode referir a uma deidade masculina como Xeru/Cheru ou Xe Ru/Che Ru (“Meu Pai”).

Nas comunidades guaranis contemporâneas, os líderes espirituais e de oração que guiam a comunidade na opy (casa de oração) também são chamados de "nhanderu", se homens, e "nhandeci", se mulheres.

Ver também

Referências

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  2. ↑ CADOGAN, 1959, pp. 13-14.
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Bibliografia