Jaci

 Nota: Para outros significados, veja Jaci (desambiguação).
Jaci
Jaci no céu de Atibaia, antigo território dos guarus ou guarulhos (povo tupi)
Outro(s) nome(s)Iaci • Jaxi • Jaxy • Jacy • Jácy • Jachy • Djatchy • Djasý • Jahi • Jaí • Sahi • Sahy • Zahy • Ya'i • Yaì • Iaê • Mucuraíra • Tyvyra'i
Nome nativoÎasy • Jasy
MoradaIbaque
ClãMaíras; Nhanderus
Arma(s)Arco e Flecha
Genealogia
Cônjuge(s)Jaci-Tatá-Guaçu
PaisMucura
Nhanderu Mbaecuaá e Nhandeci
Irmão(s)Quaraci
Tupã
Filho(s)Sahy-Tatawai

Jaci (do tupi Îasy e do guarani Jasy) é o deus Lua na religião e mitologia tupi-guarani, protetor das plantas, da vida marinha, da fertilidade e da reprodução. Ele é o irmão gêmeo mais novo de Quaraci, o deus Sol.

Enquanto para os povos tupis-guaranis Jaci é do sexo masculino, no imaginário não-indígena, contudo, Jaci passou a ser considerado uma deidade feminina devido a equívocos iniciados por missionários e cronistas, divulgados na literatura de origem não-indígena e atualmente propagados pela Internet. Assim como ocorrido a outras figuras mitológicas tupis-guaranis como Tupã, Anhanga, Jurupari, Maíra e outros, Jaci sofreu a influência da mentalidade eurocêntrica, que pensa na Lua como arquetipicamente feminina, e muito do seu caráter e papel originais nas religiões e mitologias nativas de Pindorama foi distorcido ao longo do tempo. Entretanto, estudos em décadas mais recentes e, principalmente, o resgate das narrativas contadas pelos próprios povos originários na literatura antropológica e etnológica como a de Curt Nimuendajú, León Cadogan, Alfred Métraux, Germano Afonso e outros têm ajudado a corrigir isso.

Além do nome da Lua, “Jaci” também é como os tupis-guaranis chamam ao mês lunar (lunação, período entre duas luas novas consecutivas) e também a um ornato feito de concha branca e talhada em forma de crescente que os tupinambás penduravam no pescoço.

Etimologia

“Îasy” é uma palavra do tupi que significa "Lua".

O nome da Lua tupi-guarani comporta uma grande variação de grafias, de acordo com a língua de cada povo do tronco tupi.

Couto de Magalhães apresentou uma etimologia do nome “Jácy” (com acento em Já, paroxítona) em sua obra O Selvagem (1876), dizendo ser "mãe (ci) dos vegetais/frutas (ja)" em nheengatu.

Luís da Câmara Cascudo registra em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1988) o nome “Jaci” e repete a etimologia apresentada por Magalhães de “mãe dos frutos” (Ia-ci).

Luiz Gustavo Souza Pradella sugere "senhor/dono (ja/dja/jara/iara) da imperfeição (achy/axi/asy)", pois Jaci é o primeiro a nascer imperfeito em comparação ao seu irmão Quaraci.

Descrição

A provável menção mais antiga registrada de Jaci é do frade franciscano e cosmógrafo francês André Thevet, que viajou ao Brasil em 1550 e 1554. Iachu tatà é o termo usado por ele para se referir às estrelas segundo a língua dos tupinambás, em sua transcrição fonética do francês (seria îasytatá, "lua de fogo" ou "fogo de Jaci", que é "estrela" em tupi). No mesmo trecho Thevet menciona a Lua, que ele diz ser o principal dos corpos celestes para os nativos, mas não informa o seu nome tupi, que podemos, entretanto, inferir do termo tupi para estrela.

Outra das menções mais antigas dos nomes de Jaci e seu irmão Quaraci é nos poemas líricos religiosos do padre jesuíta espanhol José de Anchieta, chegado ao Brasil em 1553, como o “Da Conceição de Nossa Senhora” (década de 1560), onde ele usa os nomes îasy e kûarasy para a lua e o sol, mas sem apresentar os astros celestes como deuses (no mesmo poema ele usa “Tupan” como nome do deus cristão e “Anhanga” como o diabo, ignorando a mitologia nativa).

Ainda no mesmo século, em Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil, autrement dite Amérique (História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, Também Chamada América) publicado em 1578, o pastor, missionário e escritor francês Jean de Léry registra os nomes Jasce ou Iasce para a Lua e Couarassi para o Sol, mas, igual a seus predecessores, também não lhes atribui personalidade.

No livro Histoire de la mission des pères Capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisins (História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circunvizinhanças, 1614), o religioso e entomólogo francês Claude d'Abbeville grafou Yasseuh/Yaseuh e Koarassuh para a Lua e o Sol dos tupinambás, respectivamente. Contudo, d'Abbeville considerava que os mesmos não tinham religião por não ter encontrado templos ou ídolos de seus deuses. Para ele, os tupinambás não consideravam o Sol e a Lua como divindades e, portanto, à mesma maneira dos cronistas cristãos antecessores, ele não lhes atribuiu agência. Entretanto, d'Abbeville tem o mérito de ter registrado que os tupinambás conheciam a influência da Lua sobre as marés muito antes dos europeus; somente mais de 70 anos depois da publicação do livro de d’Abbeville, Isaac Newton demonstrou, em 1687, que a causa das marés é a atração gravitacional do Sol e, principalmente, da Lua sobre a superfície da Terra.

Os tupinambás atribuíam a Jaci, a Lua, poder sobre as marés. Nascer da Lua em Maraú, Bahia, região outrora habitada por tupinambás.

Apesar de não reconhecer uma religião para os indígenas, d’Abbeville também registrou a crença tupi de que a estrela Jaguara (Iaouare ou Îaûara/Îagûara, “Jaguar” ou, como ele traduz, “Cão”) tenta devorar a Lua; é uma estrela muito vermelha, que a astronomia ocidental chama de Aldebaran (quando, no começo do inverno, desaparece no horizonte leste pouco antes do amanhecer, por vezes junto à Lua) ou Antares (quando, depois do final do inverno, desaparece no horizonte oeste pouco depois do anoitecer, também por vezes junto à Lua), ou talvez a estrela da tarde (Vésper). Os homens tupinambás se voltavam para o nascente da Lua ao final do inverno quando ela se ergue vermelha de sangue por causa do Jaguara que a persegue e socam o chão com seus cacetes, rogando ao Pai Grande (na verdade "Avô", pois a tradução de Dr. Cezar Augusto Marques de d’Abbeville para o português na edição de 1874 confundiu o francês mon grand Père, que é "meu Avô" em português, com "meu Pae grande", numa equivocada tradução ao pé-da-letra) por prenunciar a possível morte pela destruição do mundo. Trata-se do mito tupi-guarani do Jaguarový, o Jaguar Azul.

Em O Selvagem (1876), Couto de Magalhães denomina Guaracy ou Cuaracy e Jácy (como ele grafa seus nomes) como "mãe dos seres viventes" e "mãe dos vegetais", respectivamente, como etimologias propostas de seus nomes, então geralmente se referindo a ambos os deuses como "mães", e Jácy, especificamente, sendo tratado no feminino por causa do arquétipo lunar feminino europeu que muitos esperam erroneamente encontrar nos mitos nativos brasileiros, em que, por exemplo, "Lua", em português, é uma palavra feminina de origem latina com raízes greco-romanas (onde o satélite da Terra é representado por divindades femininas, como Luna [da qual vêm os nomes do astro noturno, sempre feminino, nas modernas línguas latinas], Diana, Selene, Ártemis e Hécate).

Para Magalhães, os chamados deuses superiores dos tupis são três: Guaracy, Jácy e Rudá ou Perudá, o deus do amor e da reprodução, tendo cada um deles outros deuses menores que lhe são subordinados. Os deuses submetidos a Jácy, associados à vida vegetal e/ou à noite, seriam: Saci Cererê, guardião das matas e das ervas medicinais; Mboitatá, protetor dos campos contra aqueles que os incendeiam; Urutau, "pássaro-fantasma" (Uyrá-Taú) em guarani, ave noturna anunciadora da Lua cujo lamento traz mau-agouro; e Curupira, deus que protege as florestas, fazendo mal-feitores perderem-se dentro delas. Duas manifestações de Jácy seriam subordinadas a Rudá: Cairé (Lua cheia) e Catiti (Lua nova), cuja missão é despertar saudades no amante ausente.

Fazendo um longo estudo de mitologia comparada sobre as grandes mães lunares ao redor do mundo, o pintor e historiador Angelo Guido reapresenta em O reino das mulheres sem lei (1929) o mito das mulheres guerreiras icamiabas como uma tribo matriarcal que adora Jaci como uma mãe das águas junto à Mãe dos Muiraquitãs, associadas ao lago Jací-uaruá (“Espelho da Lua”), uma história primeiro contada pelo frei Gaspar de Carvajal, que acompanhou o conquistador espanhol Francisco de Orellana em 1542 e chamou essas mulheres de “amazonas”, quando eles desciam de navio o Paranaguaçu (“Rio Grande” em tupi, que Orellana rebatizou como “Rio das Amazonas”) e foram atacados por elas (Carvajal, entretanto, não menciona culto à Lua entre as mulheres guerreiras). Na obra de Guido, ele iguala Jaci a outras grandes mães associadas à Lua, como Ísis, Maria e Hécate, ajudando a cimentar o gênero feminino a Jaci no imaginário brasileiro não-indígena. Antes de Guido, no livro Macunaíma (1928), Mário de Andrade também conta das icamiabas se reunindo no Jací-uaruá, mas não as associa diretamente ao culto da Lua tupi. No romance de Andrade, a Lua se chama Capei e o Sol se chama Vei e ambas são mulheres, mas em realidade no mito original dos povos arecuna e taurepangue (família karib) Capei (Kapyi) e Vei (Wéi) são ambos homens.

Um exemplo claro dessa desconsideração pelo sexo masculino de Jaci pode ser encontrado no livro Estórias e lendas dos índios de Herbert Baldus (1960), onde ele conta uma lenda caiouá (guarani) do pós-dilúvio centrada em Sol e Lua, cujos nomes ele grafa Koarahy e Djacy, com elementos referentes ao pós-contato colonial (a lenda menciona paraguaios e brasileiros e conta sobre a mestiçagem entre os povos e a criação de cidades), e junto ao texto há uma ilustração de Sol e Lua como homem e mulher feita por José Lanzellotti (na contação da lenda, contudo, ele só se refere a eles como “o Sol” e “a Lua”, em relação à qual a linguagem está, obviamente, no feminino), embora se saiba que os caiouás, como todos os povos tupis-guaranis, consideram Jacy irmão de Pa'i Kuara, o Sol. Mais sobre a versão caiouá dos gêmeos míticos encontra-se mais abaixo, na seção “Mitologia”, onde Jacy, ou Djasý, é apresentado como um deus, jamais uma deusa.

Família tupinambá, pintura de John White (séc. XVI). Note o colar "jaci" em forma de crescente usado pelo homem.

Arthur Ramos (1971) repete as informações dadas por Couto de Magalhães sobre Jaci, sem acréscimos. Além disso, ele fala do ornamento em forma de crescente ou meia-lua de nome jacy (“lua”) que os tupinambás usavam como colar, suspenso por um cordão sobre o peito, e era feito de concha ou de osso. Alguns grupos tupis-guaranis tinham-nos de pedra ou metal e sua função, segundo Ramos, parecia ser religiosa e mágica. Assim como para Guaraci e Jaci, o folclorista comete o erro de considerar os pares Sol e Lua de outros povos indígenas, como os povos jês apinajés (Myyti ou Mti e Mytwrỳỳre ou Mwrre, a quem ele chama Megapane e Buburé e diz ser um casal que gerou a humanidade) e xerentes (Doí ou Waptokwa e Wahirê ou Wairê), como masculino e feminino, quando eles são, em verdade, todos homens, acertando em apenas uma coisa: esses pares masculinos de deuses ou heróis míticos são, de fato, creditados com a criação da humanidade, determinando que os indivíduos do grupo sob o domínio de um deus deveriam se casar com indivíduos do outro. Logo em seguida, porém, ele referencia a pesquisa de Curt Nimuendajú sobre o Sol e a Lua dos apinajés (agora grafados Mbud-ti e Mbuduvri-re), afirmando o gênero masculino de ambos, e que à noite Lua vem coabitar com as mulheres menstruadas.

Câmara Cascudo (1988), referenciando Couto de Magalhães, informa que, na teogonia indígena, Jaci é irmã e casada com o Sol, Coaraci (mas, em outra obra, ele se contradiz e afirma que “Goaraci, o Sol, e Jaci, a Lua, deuses superiores, são ambos femininos“), e preside a vida vegetal; que os indígenas faziam grandes festas, com comida e bebida, cantos e danças, logo que aparecia a lua nova (Iaci omunhã, Iaci oiumunhã, Iaci pisasu), e na lua cheia (Iaci icaua ou Iaci-ruatu-rusu); e repete os quatro deuses submetidos à deidade. Contudo, discordando de Magalhães, Cascudo escreve no verbete “Coaraci” que não há vestígios que fundamentem a existência de um culto astrolátrico entre os indígenas do Brasil, não tendo os mesmos nenhuma devoção para os astros celestes. Sobre a menção de Jaci ser esposa de Coaraci, algo que Magalhães não menciona, Cascudo não apresenta qualquer fonte (o dicionário Michaelis usa as palavras de Cascudo na definição do verbete "Jaci").

A título de curiosidade, apesar de os deuses tupis-guaranis comumente não serem representados por imagens religiosas, certa vez foi registrado, na casa de dança dos apapocuvas na aldeia Araribá em Avaí (São Paulo), um par de estátuas em tamanho natural dos heróis gêmeos Ñanderyqueý e Tyvýry (Quaraí e Jaci), provavelmente inspiradas no culto cristão de imagens de santos. Durante a cerimônia do culto guarani, entretanto, as estátuas não são objetos de devoção, agitando os pajés seus maracás em direção ao zênite, local de assento de Ñanderyqueý/Quaraí.

Mitologia

Ao contrário das fontes informadas acima, que se tratam mais de interpretações dos mitos indígenas filtradas por vieses do homem branco do que de narrações colhidas diretamente de nativos e apresentadas com o mínimo de alterações possível, em tempos mais recentes tem-se havido um maior cuidado em contar as histórias dos povos indígenas com mais fidelidade. No que se refere a Jaci, elas revelam que a Lua para os povos tupis-guaranis é sempre do sexo masculino, irmão gêmeo ou, em uma versão, irmão mais novo do Sol. O mito dos gêmeos divinos é um dos mais contados e difundidos pela América do Sul.

Aliás, para além dos povos do tronco tupi, para os povos indígenas do Brasil, em geral, a Lua é quase sempre um homem, muitas vezes irmão do Sol, também este quase sempre um homem (cuicuros, waujas/uaurás), às vezes seu gêmeo (tupis, guaranis, camaiurás), e às vezes até amantes numa relação homossexual incestuosa (apapocuvas/nhandevas, waujas/uaurás); outras vezes vivem juntos, mas não são considerados irmãos e sim rivais (caiapós); e há também os que têm o Sol e a Lua totalmente desvinculados em seus mitos (jurunas).

A variedade de mitos do chamado “Ciclo dos Gêmeos” muito semelhantes aos mitos tupis-guaranis evidencia a influência destes nas mitologias de outros povos indígenas espalhados pelo Brasil e outros países da América do Sul.

Origem

De um modo geral, na mitologia tupi-guarani os irmãos gêmeos Sol e Lua são considerados filhos da mesma mãe, mas fecundada por pais distintos.

Os antigos tupinambás, segundo a versão tupi do mito, diziam que os gêmeos míticos são filhos do herói Mairatã ou Mair-Atã (“Mair-Forte”) e do Mucura ("Sariguê" ou "Gambá"), nascidos de uma mãe sem nome. Para os suruís-aiqueuaras (Pará), Korahi e Sahi (Sol e Lua) são filhos gêmeos de Mahyra que completam o trabalho de separação da natureza e da cultura, iniciados pelo pai, enquanto, para os caapores (Maranhão), e os antigos tupis, os gêmeos Mair-aíra (ou Maíra-ira, Mair-a'yra/Mair Ra'yr, "filho de Mair") e Mucur-aíra (ou Mucura-ira, Mykur-a'yra/Mykur Ra'yr, "filho do Mucura ou Micura"), cuja mãe fora morta pelos jaguares e foram criados por uma velha jaguar, desempenham papéis fundamentais nas histórias de criação e organização do mundo, transformando-se no Sol (Kwarahy ou Warahy em caapor) e na Lua (Jahy em caapor), respectivamente.

A mãe do filho de Maíra, que ficou para trás devido à gravidez por não conseguir acompanhar o marido em suas andanças, sai à sua procura guiada pela criança, que lhe indica o caminho a seguir. Recusando-se, porém, a colher legumes para o filho, provoca sua cólera. O menino, por isso, se cala e a mãe se perde. A mãe, deixando de ser guiada pelo filho, chega à casa de um homem chamado Mucura ("Sariguê"), que lhe oferece hospitalidade e, durante a noite, dorme com ela, tornando-a grávida de outra criança. A mulher, prosseguindo o seu caminho, chega a uma aldeia, cujo chefe tem o nome de Jaguar. Vítima da crueldade dos selvagens, é cortada em pedaços e, depois, devorada. Os filhos são lançados ao lixo, onde os recolhe uma mulher que os cria.

Já de acordo com a mitologia guarani, Jaci é filho de um deus obscuro de nome Nhanderu Mbaecuaá (“Nosso Pai Conhecedor de Todas as Coisas”), auxiliar de Nhanderu Eté Tenondé ("Nosso Verdadeiro Pai Primordial"), que engravidou Nhandeci (“Nossa Mãe”) quando esta já estava grávida do primeiro filho, Quaraí, filho de Nhanderu Eté. Por causa disso, Nhanderu Eté se desentendeu com a esposa e abandonou a terra, indo viver no Yvaga, o céu guarani. Então, Nhandeci saiu em busca de seu marido e com frequência perguntava ao filho Quaraí, ainda em seu ventre, qual o caminho a ser seguido. Quaraí chegou a indicar o caminho errado para sua mãe, irritado por ela lhe ter havido negado uma flor que queria para brincar durante o percurso, e Nhandeci chegou à morada dos jaguares. A avó destes seres ferozes tentou em vão salvar a vida da mulher, mas seus filhos, ao voltarem famintos, devoraram Nhandeci, deixando vivos apenas os pequenos gêmeos, protegidos pelo poder de Quaraí. Nhandeci é posteriormente revivida e levada ao Yvaga por Nhanderu, com o qual ela então gera Tupã, onde os filhos irão reencontrá-la depois de crescidos.

Na versão mbiá-guarani, Jaci foi criado a partir de uma folha de kurupika'y (em outra versão, criado a partir de alguns ossos de sua mãe) por Quaraí, filho de Nhamandu ("Origem, Princípio"), deus da luz, a primeira manifestação de Nhanderu Eté Tenondé (chamado também Nhanderu-Guasu, Nhanderuvuçu e Nhamandu'í); por vezes, Nhanderu e Nhamandu são identificados como o mesmo ser. Assim, Jaci, criado por Quaraí para ser seu companheiro, ficou também conhecido como Tyvyra'i ("Irmão Mais Novo" [de um homem] em guarani), enquanto Quaraí seria chamado Nhande Ryke'y, "Nosso Irmão Mais Velho" [de um homem]).

Aventuras

De volta à versão tupi, a origem sobrenatural de Mair-aíra e Mucur-aíra revela-se pela rapidez de seu crescimento e pela sua habilidade em caçar. Indo, certa vez, à procura das iuaias (talvez inajás), souberam os gêmeos pela fala de um jacu do ocorrido com a mãe, e se decidem a vingá-la. Com tal objetivo, arrastam os habitantes da aldeia a uma ilha, onde abundam os referidos frutos. No mesmo instante em que os matadores da mãe atravessam a água, os gêmeos promovem uma tempestade, que os submerge e os transforma em animais felinos. Satisfeito o desejo de vingança, os gêmeos põem-se em busca do pai, que encontram numa aldeia próxima de Cabo Frio, onde o mesmo adquirira vasto renome de mago e de adivinho. Os dois irmãos entram ousadamente na oca paterna, apesar da interdição de penetrar nela, declarando, de pronto, a sua qualidade de filhos de Mair-atã. O velho rejubila-se com o encontro, mas recusa-se a reconhecer os filhos antes de submetê-los a diversas provas.

A primeira prova que Mair-atã exige dos filhos consiste em atirar com o arco; as flechas dos dois gêmeos ficam suspensas no ar. A segunda prova consiste em passar, por três vezes, através da pedra Itha-Irápi, cujas duas metades se entrechocam rapidamente (como as Simplégades da mitologia grega); o filho de Mucura é esmagado pelas pedras, o irmão lhe restitui a vida e ele se sai das duas outras provas tão bem como o seu irmão. Na terceira prova, os dois heróis devem ir ao Agnen-pinaiticane ("o lugar onde Agnen pesca") e furtar a Agnen os apetrechos por meio dos quais ele pesca o peixe Alain, alimento dos mortos; Mucur-aíra tenta, em primeiro lugar, a sorte, mas é dilacerado por Agnen, torna à vida graças a seu irmão, e, juntos, conseguem finalmente tomar a isca do anzol de Agnen. Levam, então, a Mair-atã, o qual os recebe como seus filhos.

Na versão guarani, Quaraí e Jaci viviam com sua avó adotiva, um dos Seres Primitivos (Mba'e Ypy, também chamados de Anhang, “Espíritos”, em uma versão considerados jaguares, em outra, como no Ayvú Rapyta, eles ainda serão transformados em jaguares por Quaraí), sem saber que foram eles que mataram e devoraram sua mãe. Jaci, de espírito impetuoso, desobedeceu uma ordem da Avó. que lhes proibiu de ir até o Cerro Azul, convencendo Quaraí de irem juntos lá caçar, e lá ficaram sabendo pela fala de um papagaio (paɾakaw) do trágico fim de sua mãe. Os irmãos mataram quase todos os Mba'e Ypy/Anhang em uma armadilha feita para afogá-los na água e/ou serem devorados por animais aquáticos, mas por imprudência de Jaci uma fêmea grávida se salvou, e Quaraí a transformou e a seu filho no ventre em jaguares, vaticinando a inimizade que para sempre existiria entre eles e os homens. Depois, Quaraí tentou ressuscitar sua mãe, Nhandeci, a partir dos ossos dela, mas em todas as tentativas a afoiteza de Jaci em abraçá-la interrompia o processo, e então Quaraí desistiu, instituindo a morte definitiva no mundo, e transformou os restos da mãe numa paca. Em algumas versões do mito Nhandeci é revivida por Nhanderu e levada para o Yvaga (o Céu) ou para a Terra Sem Mal, Yvy Marãe’ỹ, paraíso terreno no Leste, no além-mar do Pará-Guaçu (Oceano Atlântico). Na versão em que os dois irmãos são gêmeos de nascimento, como para os guaranis caiouás, Jaci participa da história desde o ventre da mãe junto de Quará; seus pais, aqui, são conhecidos como Nhande Ru Paven (“Nosso Pai de Todos”), filho de Nhane Ramõi (“Nosso Avô”), e Nhande Sy (“Nossa Mãe”).

Frutas Brasileiras de Albert Eckhout (séc. XVII). É Jaci quem faz os frutos brotarem da terra.

Seguindo sozinhos pelo mundo, Quaraí ensinou Jaci sobre as frutas que encontravam no caminho e as variadas formas de prepará-las e comê-las (como se sabe, Jaci é a divindade que tem domínio sobre as frutas e vegetais em geral), também alimentou-o com mel de abelhas e, acompanhando Quaraí, Jaci o testemunhou roubar o fogo dos urubus com a ajuda do sapo (kururu em tupi; em outra versão guarani isso coube a Papá-Mirim [Ixapi, “Orvalho”], auxiliar de Jacairá), até que se depararam com Xariã (ou Chariã, Sariã, também chamado Xivi ["Onça" em guarani]), outro dos Seres Primitivos — que mais tarde seria identificado na lenda como o Jaguar Azul ou Jaguar Celeste que tenta devorar Sol e Lua durante os eclipses e ameaça mergulhar o mundo nas trevas eternas. Pregando peças em Xariã, que estava pescando, este acaba matando Jaci e o leva para ser cozido por sua esposa como um peixe. Quaraí foi convidado a comer também, mas este recusou, pedindo apenas que lhe desse os ossos do "peixe", e ele reviveu Jaci. Por esse motivo é que a Lua vai diminuindo a cada noite, devorada por Xariã (da lua cheia à lua nova), até voltar à sua forma plena, revivida por Quaraí (da lua nova à lua cheia), e sua morte e renascimento representam as fases da Lua; e também é por isso que, no eclipse lunar, a Lua fica vermelha, manchada em seu próprio sangue enquanto é devorada por Xariã. Os mitos guaranis às vezes identificam Xariã como um dos añá/anhã/anham/anhang (“espíritos”), e podem mesmo apresentar “Anhã” como nome próprio, a versão guarani do tupi “Anhanga”.

Incesto

Antes de ascenderem ao céu e cumprir a missão de sua falecida mãe de reencontrar o pai de Quaraí, Jaci comete um último ato de transgressão aqui na Terra. Na versão mbyá-guarani registrada no Ayvú Rapyta e na dos tembés (Pará e Maranhão), onde é conhecido como Zahy, ele se deita à noite com uma tia paterna sem nome e comete o ato de incesto com ela (passagem idêntica à do caraí Jeupié, por cuja transgressão os deuses enviaram o dilúvio à Terra); para os macurapes em Rondônia e para os jurunas em Mato Grosso (que chamam o Lua de Mãdïka ou Manduka), ele se deita com uma irmã também sem nome; e para os apapokuvas (Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná), também conhecidos como nhandevas e chiripás, segundo o etnólogo alemão-brasileiro Curt Nimuendajú (nascido Curt Unckel), que viveu parte de sua vida com eles, Jacý se deitou com o irmão Cuaraý (como ele grafa seus nomes) levado por impulsos homossexuais. (Em registros mais recentes, os nomes de Sol e Lua para os nhandevas são grafados como Pa'i Kuara e Jasy.)

Quem quer que tenha sido o seu objeto de desejo, o misterioso amante noturno somente é descoberto quando, numa das noites de amor, a tia, irmã ou irmão tem a ideia de lambuzar o seu rosto com tinta de jenipapo, que é muito difícil de sair mesmo depois de lavar várias vezes, e Jaci é descoberto na manhã seguinte. É por isso que, quando chove na Lua nova é porque Jaci tenta lavar as manchas de seu rosto, que ficam mais visíveis à medida que a Lua se torna cheia.

Ascenção

Infelizmente não se conhecem registros da antiga versão tupinambá sobre o que aconteceu com os gêmeos após concluírem os desafios de Mair-atã e serem reconhecidos como filhos por eles. Mas os tembés (Pará e Maranhão), que compartilham o mesmo mito dos tupinambás, contam que Mair-aíra teria desafiado o pai a distender o arco numa nova prova de destreza com a arma. As flechas do filho desaparecem rochedo a dentro, ao passo que as do pai se partem contra as pedras, finalmente superando-o num resultado oposto ao da primeira prova.

Mas mesmo os tembés não contam como Mair-aíra e Mucur-aíra se tornaram Quaraci/Sol (que eles chamam Kwarahy) e Jaci/Lua (Zahy), dizendo apenas que, após a realização das ordens paternas, os mesmos se dirigiram para o oriente (justamente o local em que "nascem" o Sol e a Lua), dando nascimento aos rios que correm nessa direção. A conclusão da saga dos gêmeos só é conhecida nas versões guaranis do mito.

Somente durante o eclipse solar Jaci e Quaraci podem se encontrar no céu. Foto tirada em 14 outubro 2023 no Rio Grande do Norte, território potiguara (povo tupi) no passado.

Na versão guarani, Quaraí enfim decidiu ir para os céus à procura de seu pai. Sua preparação para isto consistiu em jejuar, dançar e rezar até sentir-se suficientemente leve de modo a poder subir. Após ascender ao Céu (Yvaga) com seu irmão (na versão mbiá, Quaraí ascendeu ao Céu somente algum tempo depois de Jaci) subindo por uma “coluna de flechas” que eles fincaram uma atrás da outra da abóbada celeste até o chão (o arco de Jaci ficou na terra, transformando-se no “arco-da-lua”, jachyrapa, Aspidosperma quirandy, árvore da qual os guaranis fazem seus arcos), Jaci, após ser recebido com Quaraí por Nhanderu e pela revivida Nhandeci, assume o papel de Lua enquanto seu irmão assume o de Sol. Envergonhado pela transgressão do incesto, grave tabu na cultura guarani, Jaci evita encontrar Quaraí no céu para que ele não veja o seu rosto manchado de jenipapo, preferindo aparecer no período da noite, mas às vezes aparece também durante o dia quando a Lua não está cheia, e, quando os dois irmãos se encontram na Lua nova, em que o rosto de Jaci não está visível, ocorre o eclipse do Sol, quando eles são mais vulneráveis ao ataque de Xariã, agora ascendido como Jaguarový (ou Jaguá Ový), o "Jaguar Azul" ou Jaguar Celeste (ou Onça Azul/Onça Celeste) — os tupinambás o chamavam de Jaguara (Iaouare ou Îaûara/Îagûara) —, seu grande inimigo e eterna ameaça à ordem do mundo. Quando isso acontece, os tupis-guaranis se encarregam de fazer muito barulho aqui na Terra para alertar o Sol e a Lua antes que eles sejam devorados e o mundo seja mergulhado no caos e na destruição.

Quanto à subida para o céu, é do mesmo modo, através de uma coluna de flechas lançadas contra a abóbada celeste e fincadas uma no fundo da outra, que os dois filhos gêmeos do Tamoï ("Avô") dos guaraios, povo guarani da Bolívia, chegam a ganhar o céu, onde são transmutados na Lua e no Sol.

Como parte da corte dos deuses, Lua é também conhecido, em guarani, como Nhanderu Jaci (“Nosso Pai Lua”), enquanto Sol é conhecido como Nhanderu Quaraí (“Nosso Pai Sol”), e ambos receberam de Nhanderu Tenondé as insígnias rituais, o mbaraka (chocalho) e o petyngua (cachimbo). Na visão de mundo tupi-guarani, o Sol e o Lua passam sobre a Terra cuidando de nós, seus filhos, beneficiando nossas colheitas, dando fervor aos nossos corações e proporcionando serenidade e riqueza espiritual.

Jaci, as mulheres e as estrelas

As estrelas no céu noturno são conhecidas em tupi-guarani como jaci-tatá (îasytatá em tupi, “fogos-da-lua”), pois a maioria delas foi criada por Jaci para serem suas companheiras.

Diz-se que, em noites de Lua cheia, Jaci desce à Terra para encontrar jovens moças que estão começando a ser mulher (cunhatãs) durante o sono, e quando acordam percebem que estão sangrando. Dizem que elas foram defloradas por Jaci e essa é a origem mítica da menstruação (os jurunas, povo tupi do Alto Xingu no Mato Grosso, dizem que, se uma menina sonhar com um jovem bonito tendo relações sexuais com ela, é Mãdïka, o deus-Lua, anunciando que ela menstruará logo; os arauetés, povo tupi-guarani do Pará, acreditam que Jahi, o Lua, faz sexo todos os meses com as mulheres com seu pênis "descomunal", o que lhes "quebra" o útero e faz sangrar, mesmo que elas não se lembrem (os mbiás, povo guarani, também falam de Jaxy penetrando com seu "enorme pênis" as meninas e mulheres, e fêmeas em geral, fazendo-as sangrar uma vez por mês, e se recordarmos a versão mbiá-guarani em que Jaci/Jaxy foi criado por Quaraí de uma folha de kurupika'y, popularmente conhecido como pau-leiteiro, pau-de-leite ou leiteiro por dele se extrair látex, árvore sagrada para o deus Curupi, podemos discernir o caráter macrofálico do deus-Lua tupi-guarani desde a sua origem mítica). Por conta disso, Jaci, ao lado de sua mãe Nhandeci, é reverenciado pelas mulheres guaranis por ser ele diretamente responsável pelo ciclo de vida feminino (menstruação, gravidez, parto, sexo do bebê, etc., cessando na menopausa, e em atividades femininas ligadas à vegetação, como plantio e colheita), mesmo sendo um homem, influenciando-as física e espiritualmente.

Entre as moças que ele considerar as mais belas, Jaci as banha em sua luz e as leva para o céu junto consigo, transformando-as em estrelas no firmamento para diminuir a sua solidão nas noites escuras.

Já para os jurunas, diferentemente de outros povos, todos os seres celestes — estrelas, Sol (Kuadï, também etimologicamente relacionado a Kûarasy e Kuat), Lua (Mãdïka) — são homens, ou foram homens e se transformaram em animais antes de ir para o céu; ou seja, não há mulheres-estrelas. Os jurunas também acreditam que o Lua é marido de todas as mulheres, pois é ele quem as faz menstruar todo mês, "furando-as" com o seu falo.

Segundo uma lenda da Amazônia, uma moça (que em menções populares é chamada de Jaçanã, Jaciara, Naiá ou Maraí) queria ser transformada em estrela pelo belo guerreiro da Lua, Jaci, mas, por mais que ela o buscasse, nunca era escolhida. Certa noite, cansada e definhada de tristeza, viu o reflexo de Lua numa lagoa e pensou que ele viera buscá-la. Mergulhando na água, acabou percebendo que era só uma imagem refletida, mas, estando fraca, não conseguiu nadar de volta para a margem e morreu afogada. Jaci, comovido pela morte da jovem, transformou-a na “estrela das águas”, o uapé, que o homem branco chama de vitória-régia. O uapé abre suas pétalas nas noites de luar para revelar sua impressionante beleza e suave perfume para agradar o deus.

A confusão sobre o sexo de Jaci tem levado pessoas a considerar essa lenda como um exemplo de homossexualidade feminina na mitologia indígena brasileira, o que é um equívoco.

Jaci com Jaci-Tatá-Guaçu vistos do nordeste da Bahia, antigo território tupi.

O planeta Vênus, quando visto da Terra, aparenta ser uma estrela muito brilhante, o astro mais brilhante no céu após o Sol e a Lua. Os tupis-guaranis em geral consideram as duas aparições de Vênus (Lúcifer/Estrela d'Alva, Ko'ẽ Mbija, e Vésper/Estrela Vespertina, Ka'aru Mbija) como duas estrelas distintas, mas ambas são igualmente chamadas de Jaci-Tatá-Guaçu (îasytatagûasu, “grande fogo-da-lua”, “estrela grande”), exceção feita aos suruís (tupi-guarani), para quem são o mesmo astro, chamado Sahy-Tatawai, criado pelo fogo primordial, Tatá, para ser filho de Sahy, o Lua, e fazer-lhe companhia nas noites solitárias (“estrela”, em suruí, se diz apenas sahy-tata), enquanto para os tembés Zahy-Imirico/Vênus é mulher de Zahy, o Lua. Estas, ao contrário da maioria das estrelas, como se viu, não foram criadas por Jaci.

Quaraí, no mito guarani, criou a Jaci-Tatá-Guasu da tarde (ka'aru mbija, “estrela da tarde”) para ser o ajudante de Jaci. Após deitar-se com as mulheres e fazê-las menstruar, Jaci chama seu ajudante para auxiliá-lo a se banhar, e é por isso que sempre parece querer chover quando Jaci toma seu banho. Em outra versão, a estrela vespertina é chamada de “Mulher da Lua”, uma mulher muito linda, vaidosa e que nunca envelhece. Ela só fica ao lado do seu marido enquanto ele é jovem (Lua nova, Jasy Pyaú [“Lua Nova”] em guarani ou Îasy-semamo ["Jaci-despontando"] em tupi), afastando-se dele à medida que fica mais velho (Lua cheia, Jasy Guasu [“Lua Grande”] em guarani ou Îasy-obagûasu ["Jaci-de-face-grande"] em tupi). Esse mito foi relatado pelos guaranis do Sul do Brasil e pelos tembés (tupis) do Norte do país, duas etnias da família tupi-guarani que não têm contato entre si.

Outros mitos

Certa vez, conta um mito tupi, Quaraci ordenou às estrelas que trouxessem à Terra, perto da baía do Rio de Janeiro, uma pedra sagrada após a morte do herói cultural Mair-umuana, em recordação deste ilustre caraíba e de dois de seus companheiros também falecidos, todos estelificados (isto é, tornados em estrelas). A pedra era guardada por um animal de nome Moritolyf (provável grafia errônea do tupi myryqui-oryb ou mbyryki, o muriqui, o maior macaco do continente americano) e, quando alguém se aproximava com o intento de apoderar-se da pedra, o animal, com o objetivo de atrair os vizinhos em socorro, soltava gritos, que eram ouvidos a grande distância. Esse animal desapareceu logo após o dilúvio provocado por Tamanduaré, sendo de tão má índole e desagradável às estrelas, que Jaci, o Lua, o principal dos corpos celestes para os tupis segundo André Thevet (que registrou essa história no século XVI), determinou ao irmão Sol e aos outros astros tirar ao Moritolyf o encargo de guardar a pedra, dando-o aos homens, a fim de evitar o seu desaparecimento e ruína. Os tupis acreditavam que, se lhes roubassem a pedra, ou a destruíssem, tal fato arrastaria a ruína e aniquilamento de todo o país.

Para os guaranis, Quaraí e Jaci ensinaram aos homens a dança, as orações e os hinos sagrados. Certo dia, que Quaraí havia ordenado que fosse dedicado à dança e à oração, um homem desobediente adentrou a selva em busca de folhas de palmeira para cobrir uma cabana. Ao retornar, ele foi transformado em um tamanduá por Quaraí, que determinou sua carne como única lícita no período de resguardo da menina em sua primeira menstruação.

Numa variante do mito pelos caiouás (povo guarani), Koarahý e Djasý foram os únicos sobreviventes do dilúvio e foram levados ao céu pela seriema. Depois a Terra tornou a povoar-se por ordem de Nhanderuvuçu. Do céu vieram os primeiros casais de várias "nações", a cujos descendentes o Sol mandou dar todas as coisas de que precisassem. Em primeiro lugar menciona-se o fogo. "Então o Sol disse a Lua, irmão dele: 'Agora dê fogo a esses filhos do caiouá, do brasileiro e do paraguaio'. A todos os três deu fogo. Só depois disso é que receberam utensílios, roupa, sementes e mudas para plantar.” Os textos se referem à época em que não havia diferença entre os homens e os animais. A fauna atual é remanescente duma primitiva humanidade, e os atuais modos de vida, em forma de animais, lhe foram impostos pelos heróis Koarahý e Djasý. Na parte final do gênese caiouá, depois de confiado o governo do mundo ao Sol e ao Lua, este último insiste em aniquilar a Terra de qualquer maneira: ora quer virá-la de cabeça para baixo, ora propõe a sua destruição por um incêndio ou então por um segundo dilúvio. Entretanto, o Sol, que tem mais força e é amigo dos homens, não permite que estes sejam vítimas de simples capricho do irmão.

Na região do rio Xingu, nordeste de Mato Grosso, os netos do deus ou herói divino Mavutsinin, Sol e Lua, são chamados de Kwat/Kuát e Yaì/Ya’i/Iaê/Jaí (gêmeos, com Kwat tendo nascido primeiro, e ambos do sexo masculino, como em todas as tradições xinguanas) na língua camaiurá da família tupi-guarani (compartilhando as mesmas raízes etimológicas de Kûarasy e Îasy, sendo as versões xinguanas destes), onde eles também foram criados por uma Avó Onça e descobriram pela fala de um pássaro que sua família adotiva havia matado a sua verdadeira mãe. Os rapazes, em seguida, se vingaram, matando as onças. Eles mais tarde tomaram a luz dos urubus e se tornaram seus guardiões como Sol e Lua. Kwat e Yaì também se envolvem numa relação homossexual, mas com a participação de um terceiro homem não nomeado conhecido por ter o pênis sempre em ereção; os irmãos experimentaram a ereção pela primeira vez com esse homem, que lhes ajudou a baixar o pênis, e dessa forma Kwat, junto ao irmão e ao outro homem, “começou” as relações sexuais.

Influência em outras mitologias

Como já afirmado mais acima, a variedade de mitos do “Ciclo dos Gêmeos” muito semelhantes aos mitos tupis-guaranis evidencia a influência destes nas mitologias de outros povos indígenas espalhados pelo Brasil e outros países da América do Sul.

Para os caxixós, um povo jê de Minas Gerais, apesar de a maioria deles ser hoje católica, Jacy é uma das entidades centrais e equivalente ao deus cristão, e a este faz oposição o terrível Anguera (“alma sem corpo” em tupi, nome derivado dos Anhang), associado ao Diabo.

Sobre o incesto homossexual entre Sol e Lua, para os waujas (uaurás), povo do Mato Grosso de língua do tronco aruaque, distinto do tupi-guarani, mas vivendo próximos dos camaiurás (povo tupi-guarani), que influenciaram sua mitologia, no Xingu, o Sol (Kamo) tem relações homossexuais com seu irmão Lua (Kejo), que sangra com o ato, visto nos eclipses lunares quando a Lua fica vermelha (para os cuicuros, na mesma região) e nos solares quando o Sol fica vermelho com o sangue do irmão (para os waujas), e recriminam o Sol quando acontece o eclipse solar, quando Sol e Lua se encontram, por temer a repetição do violento ato. A história de origem de Kamo e Kejo é praticamente idêntica à de Quaraci e Jaci, nascendo de uma mãe que foi morta pela Avó Onça e descobrindo a verdade por um pássaro muito tempo depois. Para os waujas, o momento do eclipse é considerado tenso e exige a participação de toda a comunidade. Para enfrentar o fenômeno, eles realizam rituais com máscaras, flautas e o uso da laptauna — um instrumento musical sagrado de sopro (aerofone do tipo trompete) que ecoa durante o evento e tem esse nome do músico Laptauna ou Laptauana, que sempre tocava o instrumento de sopro quando tinha eclipses, até que um dia, respingado com o sangue do Lua/Kejo, machucado ao fazer sexo com o irmão, enlouqueceu e sumiu voando para o céu enquanto tocava sua música.

O povo canamari (não relacionado ao tupis-guarani), do Amazonas, também tem um mito de incesto entre Sol e Lua muito similar, mas heterossexual: o jovem Ipa se deita à noite com a irmã gêmea Pari sem ela saber sua identidade, sendo também desmascarado com o artifício da mancha de jenipapo no rosto. Envergonhados, os irmãos se separam e Ipa se torna o Lua, enquanto Pari se torna a Sol. Além dos gêmeos de gêneros opostos, a Lua e o Sol são também representados na mitologia canamari pelos heróis gêmeos do sexo masculino Tamakori/Lua (mais poderoso e sábio) e Kirak/Sol (menos habilidoso e capaz), que não são envolvidos em incesto.

Morada de Araci

Na versão ficcional do mito guarani da criação do mundo contada em Nuestros Antepasados (Ñande Ypykuéra) do poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) publicada em 1922 — que não é reconhecida por nenhum povo tupi-guarani como parte de sua mitologia —, Jasy, a Lua, é a morada de Arasy (Araci, “Mãe do Dia” ou "Mãe do Céu", deusa da aurora), esposa de Tupã, aqui considerado o deus criador e cuja morada é Kuarasy, o Sol. Essa identificação de Arasy com Jasy, através da qual a esposa de Tupã é também conhecida como Jasyñande (“Lua Nossa”), pode ter contribuído para reforçar a ideia de Jasy/Jaci como do gênero feminino no imaginário não-indígena.

Foi Arasy quem amaldiçoou os sete filhos de Taú e Kerana a nascerem como monstros pelo crime de Taú, o espírito do mal, tê-la raptado, embora curiosamente um deles não nasceu com feições monstruosas, e, por sua aparência encantadora, foi chamado de Jasy Jatere, “Pedaço da Lua” (que desvia as pessoas do caminho certo para levá-las até seu irmão Ao-Ao, que é antropófago).

Sobre a estrela que Colmán chama de Mbyja ko'ê (mais corretamente: ko'ẽ mbija, “estrela da manhã”), esse texto conta que ela fora uma guerreira bela e forte chamada Porãsy (Porãci, “Mãe Bela”) que se sacrificou para destruir os sete monstros. O espírito luminoso de Porãsy se elevou aos céus e o deus Tupã a transformou na Estrela d’Alva, enquanto os sete irmãos monstruosos foram transformados na constelação de Eichu, as Plêiades.

Contudo, deve-se ter sempre em conta que essa narrativa é uma ficção escrita por Colmán reunindo diversos personagens míticos do Paraguai no que foi chamado de “a primeira cosmogonia ficcional guarani”, não constando, do jeito que ele apresentou, nos autênticos mitos indígenas. Esta obra inteiramente ficcional adquiriu uma fama que substituiu os mitos guaranis reais no imaginário social e, com a mesma força, sepultou muitos signos, motivos e procedimentos criativos que até então não haviam sido analisados ​​criticamente.

Ver também

Referências

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