Omar ibne Xaba

Omar ibne Xaba (em árabe: عمر بن شبة; romaniz.: ʿUmar ibn Shabba; Baçorá, 24 de novembro de 789 – Samarra, 25 ou 27 de março de 876), cujo nome completo era Abu Zaíde Omar ibne Xaba Anumairi Albáceri, foi um historiador, transmissor de hádices, poeta e estudioso muçulmano do Período Abássida. De origem numairita, estudou em Baçorá, Abadã e Baguedade, dedicando-se à história, à jurisprudência islâmica e à literatura árabe. Posteriormente, estabeleceu-se em Samarra, onde produziu numerosas obras e enfrentou perseguições por sua oposição à doutrina da criação do Alcorão. Sua principal obra preservada é o Tārīkh al-Madīna al-Munawwara (História de Medina, a Iluminada), considerado o mais antigo trabalho sobre a história de Medina que chegou à atualidade. Também escreveu obras sobre a história de outras cidades, os califas, as genealogias árabes e a poesia, conhecidas principalmente por referências de autores posteriores. Seus escritos constituíram fontes importantes para historiadores como Albaladuri e Atabari.

Biografia

Omar ibne Xaba, cujo nome completo era Abu Zaíde Omar ibne Xaba Anumairi Albáceri, nasceu em Baçorá em 1.º de Rajabe de 173 A.H. (24 de novembro de 789). Seu pai, cujo verdadeiro nome era Zaíde, recebeu o apelido de Xaba porque sua mãe costumava repetir a palavra árabe shabba, associada ao crescimento e à aquisição de vigor, nas canções de ninar que lhe cantava durante a infância. Omar era um maula da tribo dos numairitas. Recebeu sua formação inicial em Baçorá, onde estudou com o pai e com diversos estudiosos, entre eles Abu Ubaida, Alasmai e Maomé ibne Baxar. Posteriormente, viajou para Abadã e Baguedade, onde aprofundou seus conhecimentos com Abede Aluaabe Atacafi, Maomé ibne Jafar Gundar, Iáia ibne Saíde Alcatane, Ali ibne Ácime, Iázide ibne Harune e Abu Ácime Anabil, considerado um de seus principais mestres. Dedicou-se especialmente ao estudo dos hádices e das tradições históricas (akhbār), mas também estudou jurisprudência islâmica, outras ciências religiosas, língua e literatura árabes. Interessou-se ainda pela recitação corânica (qirāʾāt), recebendo instrução de Jabala ibne Maleque. Após concluir sua formação, estabeleceu-se em Samarra, onde começou a compor obras sobre diferentes assuntos. Em 212 A.H. (827), durante a controvérsia acerca da criação do Alcorão, Omar foi submetido a pressões e maus-tratos, assim como outros estudiosos de hádices e juristas. Defendeu a posição de que o Alcorão era a palavra de Deus e não havia sido criado, o que levou agentes do califa a destruírem seus livros.

Após o episódio, recolheu-se à própria residência e permaneceu um mês sem falar com ninguém. Compôs um poema sobre o ocorrido, considerado um testemunho de sua habilidade como poeta. Omar morreu em Samarra em 24 ou 26 de Jumada II de 262 A.H. (25 ou 27 de março de 876). Algumas fontes apresentam datas alternativas para sua morte, situando-a em 263 A.H. (877) ou 264 A.H. (878). Omar adquiriu reputação como transmissor de hádices e tradições históricas. Estudiosos especializados na avaliação da confiabilidade dos transmissores, como Iáia ibne Maim e Adaracutni, consideraram-no digno de confiança (thiqa), destacando sua precisão e sua capacidade de distinguir corretamente as tradições que transmitia. Entre os estudiosos que receberam hádices dele estavam Ibne Maja, Ibne Abu Adunia, Abu Alabás Açarraje, Abu Nuaime Aljurjani, Maomé ibne Amade Alatrame, Alcaraiti, Abu Auana Alisfaraini, Ibne Abu Daúde e Maomé ibne Maclade. Seus escritos também foram utilizados por numerosos historiadores posteriores, particularmente em estudos sobre história urbana e política. Albaladuri incorporou trinta tradições transmitidas por Omar em seu Ansāb al-ashrāf, enquanto Atabari recorreu extensamente ao seu Akhbār al-Manṣūr para narrar o reinado do califa abássida Almançor. Outros autores que utilizaram informações de suas obras incluem Abu Alfaraje Alisfaani, Iacute Alhamaui, Açamudi e Ibne Hajar de Ascalão.

Obras

Tārīkh al-Madīna al-Munawwara

A única obra de Omar ibne Xaba preservada até a atualidade é o Tārīkh al-Madīna al-Munawwara (História de Medina, a Iluminada), considerado o mais antigo trabalho sobre a história de Medina que chegou aos tempos modernos. Foi composto segundo o método de transmissão de tradições com cadeias de autoridades (isnād), característico da literatura de hádices. A obra compreende três grandes partes, embora o início e o final de cada uma estejam incompletos. A primeira parte, correspondente às páginas 3–651 da edição moderna, aborda a vida de Maomé em Medina. O texto preservado começa com relatos sobre as orações fúnebres conduzidas pelo profeta, seguindo-se informações sobre o local associado ao anjo Gabriel, a narração de histórias religiosas e seus narradores, a construção das vias próximas à Mesquita do Profeta e as normas de comportamento no recinto sagrado. Também examina a Mesquita de Dirar, outras mesquitas e lugares onde Maomé realizou orações, o monte Uude, o cemitério de Albaqui, os túmulos de alguns companheiros de Maomé e os locais destinados às orações festivas.

A obra apresenta ainda informações sobre Uádi Alaquique, os poços, os nomes e os vales de Medina, as doações realizadas por Maomé, a situação de Caibar e Fadaque, os bairros e locais de residência de determinadas tribos, os poemas dedicados à cidade e seus mercados. Outros assuntos incluem episódios da vida do profeta, suas características pessoais, os elogios poéticos que lhe foram dirigidos, seus nomes e as qualidades atribuídas à sua tribo. Segundo Mustafa Fayda, os relatos preservados nessa parte constituem os mais antigos testemunhos escritos conhecidos sobre a história de Medina. A segunda parte, correspondente às páginas 654–949, dedica-se ao califado de Omar. Seguindo uma organização tradicional, começa com a genealogia do califa e prossegue com a descrição de seu governo e de suas iniciativas em diferentes áreas. A terceira parte, que ocupa as páginas 952–1315, trata do califado de Otomão e adota uma estrutura semelhante, dedicando especial atenção às perturbações políticas e aos acontecimentos que culminaram na Primeira Guerra Civil Islâmica. Diferentemente da primeira parte, concentrada na história de Medina, essas duas seções apresentam características mais próximas das narrativas políticas dos respectivos califados.

Devido às lacunas do manuscrito, não é possível determinar se Omar incluiu na obra seções dedicadas aos califados de Abu Becre e Ali. No caso de Ali, é possível que tenha tratado de seu governo em outra composição, o Kitāb al-Kūfa, que não chegou à atualidade. O Tārīkh al-Madīna al-Munawwara foi preservado em um único manuscrito conhecido, pertencente à biblioteca particular de Saíde Maomé Mazar Alfaruqui, em Medina, sob o número 157. O texto recebeu uma edição crítica preparada por Fahīm Muḥammad Shaltūt, publicada em quatro volumes em Gidá, em 1979, e posteriormente em Beirute, em 1990, e Cume, no mesmo ano. Adaabi afirmou ter conseguido consultar apenas metade da obra, enquanto o manuscrito preservado parece ter sido copiado por Ibne Hajar de Ascalão.

Outras obras

Além de sua história de Medina, Omar compôs numerosos trabalhos sobre história urbana, política, genealogia, poesia, língua árabe e estudos corânicos. Ibne Anadim, em seu Al-Fihrist, registrou os títulos de diversas obras que não chegaram à atualidade. Entre elas estavam o Kitāb al-Kūfa (Livro de Cufa), o Kitāb al-Baṣra (Livro de Baçorá) e o Kitāb Makka (Livro de Meca), dedicados à história dessas cidades, bem como os livros sobre seus governadores: Kitāb Umarāʾ al-Kūfa, Kitāb Umarāʾ al-Baṣra, Kitāb Umarāʾ al-Madīna e Kitāb Umarāʾ Makka. Entre suas obras de história política figuravam o Kitāb al-Sulṭān, o Kitāb Maqtal ʿUthmān, dedicado ao assassinato de Otomão, o Kitāb al-Tārīkh, o Akhbār al-Manṣūr, sobre o califa Almançor, e o Kitāb Muḥammad wa-Ibrāhīm ibnay ʿAbd Allāh ibn Ḥasan, sobre Maomé e Ibraim ibne Abedalá, filhos de Abedalá ibne Haçane. Também escreveu o Kitāb al-Nasab (Livro da genealogia) e o Kitāb Akhbār Banī Numayr, dedicado às tradições dos numairitas. Sua produção literária incluía o Kitāb al-Kuttāb, o Kitāb al-Shiʿr wa-l-shuʿarāʾ (Livro da poesia e dos poetas), o Kitāb al-Aghānī (Livro das canções) e o Kitāb Ashʿār al-shurāṭ, dedicado à poesia relacionada aos agentes policiais. Outros trabalhos abordavam questões de interpretação corânica, vocabulário e gramática árabe, entre eles o Kitāb Mā yastaʿjimu al-nās fīhi min al-Qurʾān, o Kitāb al-Istiʿāna bi-l-shiʿr wa-mā jāʾa fī al-lugha e o Kitāb al-Istizām li-l-naḥw wa-man kāna yalḥanu min al-naḥwiyyīn.

Referências

  1. 1 2 3 Fayda 1999, p. 371.
  2. ↑ Fayda 1999, pp. 371–372.
  3. 1 2 3 Fayda 1999, p. 372.

Bibliografia