
Os anti-inflamatórios não esteroides (abreviadamente, AINEs ou NSAIDs, do inglês non-steroidal anti-inflammatory drugs) constituem uma classe heterogênea de fármacos que compartilham a capacidade de controlar a inflamação, promover analgesia (alívio da dor) e combater a febre. O termo foi cunhado em 1960 por Michael W. Whitehouse para distinguir esses novos agentes dos anti-inflamatórios esteroidais (corticosteroides). Diferenciam-se dos esteroides tanto por sua estrutura química — sendo a maioria dos AINEs ácidos orgânicos não baseados no núcleo do esteroide — quanto por seu mecanismo molecular, que atua primariamente na inibição das enzimas ciclo-oxigenases, impedindo a síntese de eicosanoides pela via metabólica da cascata do ácido araquidónico.
Fazem parte deste grupo medicamentos amplamente difundidos no cotidiano, em grande parte pela sua segurança histórica, ampla gama de indicações e por estarem disponíveis como medicamentos não sujeitos a receita médica (MNSRM ou MIPs). Exemplos proeminentes incluem o ácido acetilsalicílico (aspirina), o ibuprofeno e o naproxeno. Apesar de seu amplo uso, AINEs são absolutamente contraindicados em casos de dengue por aumentarem o risco de hemorragias (leia mais em: contraindicações).
Fármacos como o paracetamol (acetaminofeno) e a dipirona (metamizol), embora possuam efeitos antipirético e analgésico significativos através de mecanismos parcialmente semelhantes, carecem de atividade anti-inflamatória clinicamente relevante no ambiente periférico. Por essa razão, a literatura farmacêutica contemporânea geralmente não os classifica como AINEs, categorizando-os isoladamente como analgésicos e antipiréticos puros.

As propriedades no alívio da febre, inflamação e dores proporcionadas pela casca do salgueiro são conhecidas há vários anos. Edmund Stone, um reverendo da Inglaterra, escreveu para um presidente da Royal Society ainda no século XVIII sobre as propriedades de cura do salgueiro no combate à febre. Este reverendo sugeriu que como a planta gostava de nascer em locais de umidade, teria como característica reduzir o calor do corpo.
O salgueiro tem como princípio ativo a salicina, que é muito amarga. Este glicosídeo foi isolado por Leroux em 1829. Numa reação de hidrólise, produz glicose e álcool salicílico que pode ser transformado pelo organismo ou via síntese química em ácido acetilsalicílico.
Em 1875 o salicilato de sódio foi utilizado pela primeira vez para tratar febre reumática e para reduzir a febre. Assim, Hoffman da Bayer aproveitou uma técnica deixada por Gehardt em 1853, para produzir o salicilato de sódio. Com o sucesso do anti-inflamatório, Heinrich Dreser colocou o produto na medicina com o nome de ácido acetilsalicílico. Depois foram surgindo drogas sintéticas e outros compostos mais seletivos de inibição da COX-2.
Desde o isolamento do ácido salicílico em 1828, os AINE tornaram-se uma parte importante do tratamento da febre e da dor. Uma parte da sua popularidade deve-se a não causarem dependência ou depressão respiratória, ao contrário dos opioides. Ainda assim, não são desprovidos de efeitos secundários, sendo os mais comuns a nível gastrointestinal.

Os anti-inflamatórios não esteroides são amplamente utilizados na prática médica devido ao seu triplo efeito terapêutico clássico: atividade anti-inflamatória (redução da resposta inflamatória tecidual), ação analgésica (alívio da dor) e efeito antipirético (combate à febre).
Como analgésicos, os AINEs são eficazes no manejo da dor de intensidade leve a moderada. São particularmente indicados quando a dor está associada a um processo inflamatório subjacente, atuando tanto em condições agudas quanto crônicas. Suas principais aplicações clínicas incluem:
Os AINEs são amplamente utilizados como antipiréticos para reduzir a febre. O mecanismo envolve a inibição da síntese de mediadores inflamatórios lipídicos (prostaglandinas) no hipotálamo, que é estimulada por citocinas pirogênicas durante processos infecciosos ou inflamatórios. Ao bloquear a produção local dessas substâncias, os AINEs redefinem o "termostato" biológico do corpo para a temperatura normal. Ao contrário do que sugeriam literaturas antigas, seu uso não é restrito a febres extremas (hipertermia acima de 40 °C), embora picos febris muito elevados exijam investigação médica imediata para identificar a causa da infecção.
Alguns AINEs, com destaque absoluto para o ácido acetilsalicílico (aspirina), possuem propriedades antiagregantes plaquetárias. Em doses baixas (geralmente de 75 a 100 mg diários), a aspirina inibe de forma irreversível os mecanismos internos das plaquetas responsáveis por deflagrar a coagulação, impedindo que elas se agrupem para formar coágulos nos vasos sanguíneos. Devido a esse efeito, ela é utilizada na prática clínica para a prevenção secundária de eventos cardiovasculares, como a trombose, o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC) em pacientes de alto risco ou com histórico dessas patologias.

Os Anti-inflamatórios não esteroides são inibidores específicos das enzimas ciclooxigenases (COX). As COXs são enzimas essenciais na biotransformação do ácido araquidônico, um lipídeo de membrana, em eicosanoides. Ao bloquear a síntese desses mediadores, os AINEs diminuem os principais sintomas relacionados à inflamação (febre, dor, inchaço, vermelhidão).
Em humanos, as COXs se apresentam em duas isoformas principais: COX-1 e COX-2. De maneira geral, a COX-1 é expressa na maioria das células humanas de forma constitutiva, atuando principalmente na proteção da mucosa gástrica (a partir da secreção de muco), na regulação da função renal e na agregação plaquetária; enquanto a expressão da COX-2 está altamente relacionada à inflamação e é regulada por citocinas, estresse e fatores de crescimento. Embora essa distinção não seja absoluta, ainda é utilizada no ensino de farmacologia porque ajuda a explicar tanto os efeitos farmacológicos quanto os efeitos indesejados dos AINEs. A maioria dos efeitos terapêuticos desses fármacos decorre da inibição da COX-2, ao passo que a maior parte dos efeitos adversos está associada ao bloqueio da COX-1.
A partir da elucidação do papel das isoformas da COX, no início da década de 1990, criou-se expectativas quanto à criação de novos fármacos que mantivessem as propriedades dos AINEs existentes e permitissem diminuir a incidência de efeitos colaterais, planejando fármacos que fossem mais seletivos para inibição da isoforma 2 (COX-2). Assim surgiram os coxibes, fármacos seletivos para inibição da COX-2 e com a promessa de menos efeitos gastrointestinais. O sucesso de marketing foi rapidamente sucedido pela constatação de milhares de casos de infartos e AVCs. Em 2004, a empresa estadunidense Merck Sharp and Dohme retirou do mercado mundial o Rofecoxib após vários estudos demonstrarem sua relação com aumento de eventos trombóticos. Estima-se que entre 88.000 a 140.000 infartos tenham ocorrido por causa do Rofecoxib apenas nos Estados Unidos. Outros fármacos da classe foram reformulados ou retirados do mercado. No Brasil, o celecoxibe é vendido apenas sob prescrição de controle especial. Hoje, entende-se que a COX-2 é expressa naturalmente na parede dos vasos sanguíneos, participando na produção de prostaciclinas e contribuindo com a antiagregação sanguínea. Portanto, uma inativação maciça da COX-2, apesar de aumentar a potência do efeito anti-inflamatório, também diminui a proteção dos vasos sanguíneos.
A maioria dos efeitos adversos dos AINEs está relacionada à inibição não intencional da COX-1. No estômago, essa enzima diminui a produção de ácido clorídrico e estimula a síntese de muco e bicarbonato que protegem a mucosa gástrica. Nos vasos sanguíneos, a COX-1 produz tromboxano, um importante agente de agregação plaquetária, enquanto a COX-2 na parede vascular produz prostaciclina antiagregante. Além disso, as prostaglandinas constitutivas regulam o fluxo sanguíneo renal. O bloqueio dessas vias homeostáticas é o principal responsável pelas toxicidades da classe.
Os efeitos no trato digestivo são as reações adversas mais frequentes. Podem manifestar-se de forma leve, como desconforto gástrico, dispepsia, náusea, vômito e diarreia. Em casos graves ou de uso prolongado em altas doses, a redução das prostaglandinas protetoras favorece o desenvolvimento de úlceras pépticas e hemorragia gastrointestinal.
A inibição das prostaglandinas nos rins prejudica a autorregulação renal, podendo causar edema (retenção de líquidos) e hipertensão arterial. O uso crônico ou inadvertido está fortemente associado ao desenvolvimento de insuficiência renal aguda (por vezes reversível) e nefropatia crônica por analgésicos.
Além do risco de sangramentos e hemorragias gerais devido ao efeito antiagregante, o bloqueio seletivo ou proeminente da COX-2 quebra o equilíbrio circulatório, favorecendo a formação de trombos vasculares, o que aumenta o risco de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC).

AINEs são absolutamente contraindicados em casos de dengue devido ao risco aumentado de manifestações hemorrágicas graves, uma vez que essas substâncias comprometem a agregação plaquetária e fragilizam a mucosa gástrica. Os protocolos clínicos de órgãos oficiais como o Ministério da Saúde, a Anvisa, a Fundação Oswaldo Cruz e a Organização Mundial da Saúde recomendam estritamente evitar o uso dessa classe de medicamentos, preconizando, em contrapartida, o manejo sintomático da febre e da dor exclusivamente com analgésicos e antitérmicos que não interfiram na coagulação, como a dipirona e o paracetamol, combinados a uma rigorosa e intensa hidratação oral.
O uso de AINEs por idosos exige cautela devido às alterações farmacocinéticas do envelhecimento, que aumentam a suscetibilidade a eventos adversos. Diretrizes como os Critérios de Beers recomendam evitar o uso crônico nessa população. O uso de AINEs quadruplica o risco de sangramento gastrointestinal em idosos. No sistema cardiovascular, pode elevar a pressão arterial, diminuir o efeito de anti-hipertensivos, duplicar o risco de internação por insuficiência cardíaca congestiva e aumentar o risco de acidente vascular cerebral. Devido à vasoconstrição renal induzida por esses fármacos, há um risco elevado de doença renal aguda e de progressão da doença renal crônica. Adicionalmente, esses fármacos também aumentam o risco de quedas em idosos e podem desencadear sintomas psiquiátricos, como delírio e psicose. O risco de hemorragias é drasticamente potencializado pela interação com anticoagulantes, antiplaquetários, corticosteroides e antidepressivos.
Por esses motivos, o consenso clínico preconiza que a prescrição de AINEs para idosos seja restrita à menor dose eficaz e pela menor duração possível.
A maior parte dos AINEs é formada por ácidos fracos, com pKa entre 3 e 5. Com exceção do ácido acetilsalicílico, em geral são bem absorvidos no trato digestivo. Como apresentam alta ligação às proteínas plasmáticas (normalmente acima de 95%, sobretudo à albumina), seu volume de distribuição costuma ser baixo e restrito ao compartimento extracelular. A maioria dos AINEs é metabolizada no fígado por enzimas de oxidação e, em seguida, convertida em metabólitos inativos, que geralmente são eliminados pela urina, embora alguns também possam ser excretados parcialmente pela bile. Por isso, alterações da função hepática podem comprometer o metabolismo desses fármacos e aumentar o risco de efeitos adversos gastrointestinais ou renais.
Existem diversos modos de classificar os AINEs, sendo a mais comum por suas características químicas. Abaixo, estão classificados de acordo com sua estrutura química, baseada nos princípios de química medicinal:
| Classe Química | Características Estruturais | Representantes Principais | Estrutura Representativa |
|---|---|---|---|
| Salicilatos | A porção ativa é o ânion salicilato, e a estrutura conta com uma função ácido carboxílico, responsável pelos efeitos colaterais gastrointestinais, além de um grupo hidroxila fenólica. |
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Aspirina |
| Ácidos Aril e Heteroarilacéticos | Apresentam um centro ácido separado de uma superfície plana (um anel aromático ou heteroaromático) por um átomo de carbono. Moléculas dessa classe assumem conformações não coplanares essenciais para a ligação no sítio ativo da ciclooxigenase. |
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Sulindac Etodolaco |
| Ácidos Aril e Heteroarilpropiônicos (Profens) |
Caracterizados pela introdução de um grupo alfa-metil na porção do ácido alcanoico, gerando um carbono quiral. A atividade anti-inflamatória está associada ao enantiômero S(+). | (S)-Ibuprofeno Naproxeno | |
| Ácidos N-Arilantranílicos (Ácidos Fenâmicos) |
São isósteros de nitrogênio do ácido salicílico. A atividade exige a presença do grupo NH e é favorecida quando substituintes orto forçam o anel N-aril a não ser coplanar com o anel de ácido antranílico. | Ácido mefenâmico | |
| Oxicans (Ácidos Enólicos) |
São compostos ácidos não carboxílicos, estruturalmente baseados em 4-hidroxi-1,2-benzotiazinas carboxamidas. O centro de acidez deriva da estabilização de um ânion enolato. | Piroxicam | |
| Inibidores Seletivos da COX-2 (coxibes) | Maioria composta por moléculas grandes, com substituintes de cadeia lateral rígida, como grupamentos sulfamoil ou sulfonil. Seu formato maior explora especificamente uma cavidade adicional existente no sítio ativo da COX-2 e explica a seletividade. |
Coxibes:
Sulidas: |
Valdecoxib Nimesulida |
| Pirazolidinodionas | Moléculas que possuem uma hidroxila enólica que atua como um ácido forte. | Fenilbutazona | |
| Analgésicos Antipiréticos (Sem atividade anti-inflamatória, muitas vezes não são considerados AINEs) |
Derivados do p-aminofenol ou da anilina modificados. Estruturalmente, perdem grupos tóxicos da anilina original, como através da eterificação ou acetilação no átomo de nitrogênio. |
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Paracetamol |