| Caipira | ||
|---|---|---|
| Pronúncia: | /kajˈpi.ɹɐ/ | |
| Falado(a) em: | ||
| Região: | ||
| Total de falantes: | sem números exatos | |
| Família: | Indo-europeia Itálica Românica Ítalo-ocidental Ocidental Galo-ibérica Ibero-românica Galaico-português Português Caipira | |
| Escrita: | Alfabeto latino | |
| Estatuto oficial | ||
| Língua oficial de: | sem reconhecimento oficial | |
| Regulado por: | sem regulamentação oficial | |
| Códigos de língua | ||
| ISO 639-1: | -- | |
| ISO 639-2: | --- | |

O dialeto caipira (pronunciado: /kajˈpi.ɹɐ/ ou /kajˈpi.ɹ/) é uma variante dialetal da língua portuguesa de origem paulista, falada principalmente nos interiores de São Paulo e Paraná, no leste de Mato Grosso do Sul, sul de Goiás, Triângulo Mineiro, sul de Minas Gerais e em partes de Mato Grosso, uma área conhecida como Paulistânia. O caipira é divido em cinco variações subdialetais e já serviu como base para a formação de novas línguas, como o crioulo ítalo-paulista e o anticrioulo cupópia.
O dialeto caipira foi possivelmente influenciado pelo tupi antigo, bem como por um de seus desenvolvimentos históricos, a língua geral paulista. Sendo a língua habitual dos bandeirantes que ocuparam as regiões onde hoje se ouve tal variante dialetal, a língua tupi antiga não apresentava alguns sons usuais do português, como os representados pelas letras l e r (de "rato", por exemplo) e pelo dígrafo lh. Com efeito, o dialeto caipira se caracteriza pela substituição, em fim de sílaba, do fonema lateral [l] pelo fonema /r/, flap ("almoço" vira armoço, "coronel", coroner), pela substituição do fonema [ʎ] por um i semivocálico, como em "abelha" e "trabalho", que se leem abeia e trabaio, e pela queda da consoante /r/ dos verbos no infinitivo (andá, corrê, dormi). Nos três casos ocorreu a adaptação da fonética portuguesa à tupi. Outro ponto em comum entre a língua tupi e o dialeto caipira é a ausência de diferenciação entre singular e plural: kunhã, em tupi antigo, pode significar tanto "mulher" quanto "mulheres", e o dialeto caipira usa tanto "a casa" quanto "as casa".
O vocabulário da língua caipira é, naturalmente, bastante restrito. Ele é formado, em parte, de elementos oriundos do português usado pelo primitivo colonizador, muitos dos quais se arcaizaram com a criação de novos acordos ortográficos; de termos provenientes das línguas indígenas; de vocábulos importados de outras línguas, por via indireta e de vocábulos formados na própria cultura caipira. Em verdade, estes não se limitam ao léxico, todo o dialeto está impregnado deles, desde a fonética até a sintaxe. O dialeto representa um estado atrasado do português, e que sobre esse fundo se vieram sucessivamente entretecendo os produtos de uma evolução divergente, o seu acurado exame pode auxiliar a explicação de certos fatos ainda mal elucidados da fonologia, da morfologia e da sintaxe histórica da língua. Por exemplo: a pronunciação clara do sons das letras “e” e “o” átonos finais comprova o fato de que o ensurdecimento de vogais só começou em época relativamente próxima, pois de outro modo não se compreenderia porque o caipira pronuncia lado, verdade, quando no português, falado em Portugal, África e Ásia ou na maioria das regiões do Brasil (exceto no Sul) comumente se pronuncia ladu, verdad- ou verdadi.
Releva notar que o povo caipira desconhece a pronúncia do "si", inventada por gramáticos e popularizada entre a gente culta, no Brasil, por via literária. Em relação a este pronome pessoal, o caipira diz sempre, e bem claramente, "se", literalmente como é escrito, sem fazer uso da iotização, que neste caso é comum em todo o Brasil.
São em grande número, relativamente à extensão do vocabulário dialetal, as formas esquecidas ou desusadas na língua. Lendo-se certos documentos vernáculos dos fins do século XV e de princípios e meados do século XVI, é impossível não dar-se conta que há muita semelhança da respectiva linguagem arcaica portuguesa com a dos caipiras e com a linguagem tradicional dos paulistas, que não é senão o mesmo dialeto um pouco mais polido.
Na carta de Pero Vaz de Caminha abundam formas vocabulares e modismos envelhecidos na língua, mas ainda bem vivos no falar caipira: inorância, -parecer (aparecer) mêa (adj. meia), u’a (uma), trosquia, imos (vamos), despois, reinar (brincar), preposito, luitar, desposto, alevantar.
Desde a obra de Amaral, a fonética caipira é marcada por cinco principais traços distintivos:
Algumas características morfossintáticas difundidas por todo o falar brasileiro são, popularmente, vistas como características do dialeto caipira, como:
O verbo ter usa-se impessoalmente em vez de haver, quando o complemento não encerra noção de tempo: Tinha munta gente na eigreja — Tem home que num gosta de caçada — Naquêle barranco tem pedra de fogo. Quando o complemento é tempo, ano, semana, emprega-se às vezes haver, porém, mais geralmente, fazer: Já fáiz mai de ano que eu num vos vejo — Estive na sua casa fáiz quinze dia. Haver é limitado a certas e raras construções: Há que tempo! — Há quanto tempo foi isso? — Num hai quem num saiba. Nessas construções, o verbo como que se anquilosou, perdendo sua vitalidade. Restringimo-nos, entretanto, neste como em outros pontos, a indicar apenas o fato, sem o precisar completamente, por falta de suficientes elementos de observação. Vem a propósito referir que a forma hai, contração e ditongação de há aí (por "há i", que se encontra em muitos documentos antigos da língua portuguesa) só é empregada, que saibamos, nestas condições: — quando precede ao verbo o advérbio não, como no exemplo dado acima; - quando o verbo termina a proposição: É tudo quanto hai — Vô vê se inda hai (Vou ver se ainda há).
| Poema de Mimnermo | |
|---|---|
| Português | Caipira |
| Como as folhas que brotam na primavera em flor | Cumo as fôia que brota na primavera im frô |
| e crescem rápidas à luz do sol, | i rápidas tão creçudas à lúiz do sór, |
| assim é que nós somos; | ansim é que nói semo; |
| como essas folhas, por exíguo prazo | cumo estas fôia, pur pôco tempo |
| podemos usufruir da juventude em flor, | pudemo pruveitá da mocidade im frô, |
| desconhecendo, por divina graça, | discunheceno, pur devina graça, |
| quer o mal, quer o bem. | quié o má, quié o bem. |
| A cada lado estão as negras Parcas: | A cada lado tão as sombrias Parcas: |
| traz uma a cruel velhice, a outra a morte. | tráiz u'a a crué veíce, a ôtra a morte. |
| Da juventude o fruto dura muito pouco, | Da mocidade o fruito dura munto pôco, |
| não mais que sobre a terra à luz do sol; | não mai que sobre a terra à lúiz do sór; |
| e quando possa a plenitude desse tempo | i quano possa a prenitude deste tempo |
| e então melhor morrer do que viver. | i antonce mió morrê do que vivê. |
O dialeto caipira pode ser dividido em cinco subdialetos: