Charles André Joseph Marie de Gaulle (francês: [ʃaʁl də ɡol] (ⓘ), Lille, 22 de novembro de 1890 – Colombey-les-Deux-Églises, 9 de novembro de 1970) foi um general, político e estadista francês que liderou as Forças Francesas Livres durante a Segunda Guerra Mundial e presidiu o Governo Provisório da República Francesa de 1944 a 1946, a fim de restabelecer a democracia na França. Em 1958, saiu da reforma quando foi nomeado Presidente do Conselho de Ministros (Primeiro-ministro) pelo Presidente René Coty. Reescreveu a Constituição da França e fundou a Quinta República após a aprovação por referendo. Foi eleito presidente de França no final daquele ano, cargo para o qual foi reeleito em 1965 e manteve até sua renúncia em 1969.
Embora reeleito à presidência em 1965, ele enfrentou protestos generalizados de estudantes e trabalhadores em maio de 1968, mas teve o apoio do Exército e venceu uma eleição com uma maioria crescente na Assembleia Nacional. De Gaulle renunciou em 1969 após perder um referendo no qual propôs mais descentralização. Ele morreu um ano depois na sua residência em Colombey-les-Deux-Églises, deixando as suas memórias presidenciais inacabadas.
Muitos partidos e figuras políticas francesas reivindicam um legado gaullista; muitas ruas e monumentos de França foram dedicados à sua memória após a sua morte.
De Gaulle nasceu na região industrial de Lille, no Flandres francês, sendo o terceiro dos cinco filhos de Henri de Gaulle, um professor de história e literatura em uma faculdade jesuíta que mais tarde criou sua própria escola, e de Jules Maillot, empresária do ramo têxtil. Foi criado em uma família de devotos católicos, nacionalistas e tradicionalistas, mas também bastante progressistas.
O pai de Gaulle, Henri, descendia de uma longa linhagem de aristocratas da Normandia e da Borgonha, enquanto sua mãe, Jeanne Maillot, pertencia a uma família de ricos empresários de Lille.
Durante a Primeira Guerra Mundial, foi feito prisioneiro durante a Batalha de Verdun, e esteve no mesmo campo de prisioneiros onde estava o jornalista Rémy Roure, que eventualmente seria um aliado político de De Gaulle e o futuro marechal soviético Mikhail Tukhachevsky, que foi executado em 1937 durante o Grande Expurgo. Nos anos 1920 e 1930 de Gaulle destacou-se como um proponente da guerra de blindados e defensor da aviação militar, que ele considerava um meio para romper o impasse da guerra de trincheira.
Durante a Segunda Guerra Mundial, foi promovido ao posto temporário de brigadeiro, liderando um dos poucos contra-ataques de cargos bem-sucedidos, antes da queda da França, em 1940. Em seguida, serviu por pouco tempo ao governo francês, antes do início da hierarquia, e logo refugiou-se na Inglaterra, de onde proferiu um famoso discurso, transmitido pelo rádio, em junho de 1940, no qual exortava o povo francês a resistir à Alemanha Nazista e organizando as forças francesas livres com oficiais franceses exilados no Reino Unido.
Durante a Segunda Guerra Mundial rivalizou com o general Henri Giraud na liderança das forças militares e da Resistência francesa. Ao passo que o general Giraud tinha o apoio de Franklin Delano Roosevelt e dos Estados Unidos, De Gaulle foi preferido pelos sectores de esquerda da Resistência, que preferiam a postura mais antiamericana de De Gaulle, mesmo durante a guerra.
Gradualmente, obteve o controle de todas as colônias francesas - a maioria das quais haviam sido inicialmente controladas pelo regime pró-alemão de Vichy. À época da libertação da França, em 1944, de Gaulle dirigia um governo no exílio - a França Livre - insistindo que a França deveria ser tratada como uma potência independente pelos outros aliados. Sua irmã, Marie-Agnès de Gaulle, foi capturada e detida pelos alemães e resgatada após a Batalha pelo Castelo Itter em 5 de maio de 1945. Após a libertação da França, tornou-se primeiro-ministro do Governo Provisório Francês, renunciando em 1946 devido a conflitos políticos.
Após a guerra, fundou seu próprio partido político, o RPF. Embora se tivesse retirado da política em 1950, após a derrota do RPF, foi escolhido pela Assembleia Nacional Francesa para voltar ao poder como primeiro-ministro, durante a crise de maio de 1958. De Gaulle liderou a redação de uma nova Constituição, fundando a Quinta República e foi eleito Presidente da França, um cargo que agora detinha um poder muito maior do que na Terceira e Quarta Repúblicas.
Como presidente, Charles de Gaulle pôs fim ao caos político que precedeu o seu regresso ao poder. Durante seu governo, promoveu o controle da inflação e instituiu uma nova moeda em janeiro de 1960. Também fomentou o crescimento industrial. Apesar de ter apoiado inicialmente o domínio francês sobre a Argélia, decidiu mais tarde conceder a independência àquele país, encerrando uma guerra cara e impopular. A decisão dividiu a opinião pública francesa, e de Gaulle teve que enfrentar a oposição dos colonos pieds-noirs e dos militares franceses que tinham inicialmente apoiado seu retorno ao poder.
De Gaulle empreendeu o desenvolvimento de armas nucleares francesas e promoveu uma política externa pan-europeia, buscando livrar-se das influências norte-americana e britânica. Retirou a França do comando militar da OTAN - apesar de continuar a ser membro da aliança ocidental - e por duas vezes vetou a entrada do Reino Unido na Comunidade Europeia.

Viajou frequentemente pela Europa Oriental e por outras partes do mundo e reconheceu a China comunista. Em 1967, durante uma visita oficial ao Canadá, incentivou publicamente o Movimento pela independência de Quebec, o que causou a mais grave crise diplomática entre a França e o Canadá. Seu discurso pronunciado em Montreal, no dia 24 de julho, foi concluído exatamente com o slogan dos separatistas: "Viva o Quebec livre!", o que foi interpretado pelas autoridades canadenses como apoio do presidente francês ao movimento autonomista.
Charles De Gaulle foi alvo de três atentados confirmados, todos falhados. O primeiro ocorreu em Paris, no ano de 1945, por atiradores furtivos alemães. Outro em 8 de setembro de 1961, organizado por Raoul Salan, uma bomba fabricada com explosivo plástico explodiu perto de seu carro. O último aconteceu em 22 de agosto de 1962, quando seu carro foi crivado de balas, ficando o vidro traseiro estilhaçado e os pneus estourados, num atentado que mais tarde foi narrado no livro best-seller "O Dia do Chacal", de Frederick Forsyth (que inspirou um filme homônimo em 1973). Ainda em 1963, seria desbaratado um complô na Escola Militar para matá-lo.
Durante seu governo, no período 1961-1963, a França passou por um conflito diplomático com o Brasil. Este atrito, motivado pelos direitos de exploração econômica de águas territoriais brasileiras foi solucionado pacificamente, por vias diplomáticas, ficando conhecido como a "Guerra da Lagosta".
Durante seu mandato, de Gaulle também enfrentou a oposição política dos comunistas e dos socialistas. Apesar de ter sido reeleito presidente em 1965, desta vez por voto popular direto, em maio de 1968 parecia provável que perdesse o poder, em meio a protestos generalizados de estudantes e trabalhadores. No entanto, sobreviveu à crise com uma ampliação da maioria na Assembleia. Pouco depois, em 1969, depois de perder um referendo sobre a reforma do Senado e a regionalização, renunciou.
De Gaulle faleceu em 9 de novembro de 1970, na comuna de Colombey-les-Deux-Églises, vítima de um aneurisma cerebral. Encontra-se sepultado no cemitério paroquial de Colombey-les-Deux-Églises, Champanha-Ardenas na França.
De Gaulle é considerado como o líder mais influente da história da França moderna. Sua ideologia e seu estilo político - o gaullismo - ainda têm grande influência na vida política francesa atual.
De Gaulle fez 31 turnês regionais durante sua presidência, visitando todos os departamentos franceses; para muitas cidades pequenas, a visita foi um momento importante na história. Ele gostava de entrar nas multidões que o recebiam; um assessor observou quantas vezes as pessoas diziam "ele me viu" ou "ele me tocou", e outro recordou como uma mãe implorou a de Gaulle pelo toque do rei em seu bebê. Eles, apoiadores e opositores supunham que de Gaulle era uma figura semelhante a um monarca para os franceses.:616–618

Historiadores concederam a Napoleão e de Gaulle o status de líderes franceses de maior classificação nos séculos XIX e XX. De acordo com uma pesquisa de 2005, realizada no contexto do décimo aniversário da morte de François Mitterrand, 35 por cento dos entrevistados disseram que Mitterrand foi o melhor presidente francês de todos os tempos, seguido por Charles de Gaulle (30 por cento) e Jacques Chirac (12 por cento). Outra pesquisa da BVA quatro anos depois mostrou que 87% dos franceses consideravam sua presidência positivamente.
Estátuas homenageando de Gaulle foram erguidas em Londres, Varsóvia, em Moscou, Bucareste e Quebec. O primeiro presidente argelino, Ahmed Ben Bella, disse que de Gaulle foi o "líder militar que nos trouxe os golpes mais duros" antes da independência argelina, mas "viu mais longe" do que outros políticos, e tinha uma "dimensão universal que falta com muita frequência nos líderes atuais." Da mesma forma, Léopold Sédar Senghor, o primeiro presidente do Senegal, disse que poucos líderes ocidentais poderiam se orgulhar de ter arriscado suas vidas para conceder independência a uma colônia. De Gaulle foi admirado pelo presidente dos EUA Richard Nixon; após um encontro no Palácio de Versalhes pouco antes de o general deixar o cargo, Nixon declarou que "Ele não tentou se dar ares, mas uma aura de majestade parecia envolvê-lo... sua performance—e não uso essa palavra pejorativamente—foi de tirar o fôlego." Ao chegar para seu funeral, Nixon disse sobre ele: "a grandeza não conhece fronteiras nacionais".
Em 1990, o presidente Mitterrand, antigo rival político de de Gaulle, presidiu as celebrações para marcar o centésimo aniversário de seu nascimento. Mitterrand, que uma vez escreveu uma crítica vitriólica sobre ele chamada "Golpe de Estado Permanente", citou uma pesquisa de opinião recente, dizendo: "Como General de Gaulle, ele entrou no panteão dos grandes heróis nacionais, onde ele ocupa posição à frente de Napoleão e atrás apenas de Carlos Magno." Sob a influência de Jean-Pierre Chevènement, o líder do CERES, a facção de esquerda e soberanista do Partido Socialista, Mitterrand havia, exceto em certas políticas econômicas e sociais, aderido a muito do gaullismo. Entre meados dos anos 1970 e meados dos anos 1990, desenvolveu-se um consenso esquerda-direita, apelidado de "Gaullo-Mitterrandismo", por trás do "status francês" na OTAN: ou seja, fora do comando militar integrado.
Um número de comentaristas tem sido crítico de seu fracasso em prevenir os massacres após a independência argelina, enquanto outros adotam o ponto de vista de que a luta havia sido tão longa e selvagem que era inevitável. O historiador australiano Brian Crozier escreveu que "o fato de ele ter sido capaz de se separar da Argélia sem guerra civil foi uma grande conquista, embora negativa, que com toda a probabilidade estaria além da capacidade de qualquer outro líder que a França possuísse".
De Gaulle foi um excelente manipulador da mídia, como visto em seu uso astuto da televisão para persuadir cerca de 80% da França metropolitana a aprovar a nova constituição para a Quinta República. Ele depois desfrutou de índices de aprovação massivos, e uma vez disse que "todo francês é, foi ou será gaullista".
As opiniões de De Gaulle não necessariamente sempre refletiam a opinião pública francesa mainstream. Seus vetos à entrada do Reino Unido na Comunidade Econômica Europeia (CEE) em 1963 e 1967 contradizem a maioria decisiva que o povo francês obteve no referendo de 1972 sobre o assunto. Sua influência inicial no estabelecimento dos parâmetros da CEE ainda pode ser vista, mais notavelmente com a controversa Política Agrícola Comum. Alguns escritores adotam o ponto de vista de que Pompidou foi um líder mais progressista e influente do que de Gaulle porque, embora também fosse gaullista, ele era menos autocrático e mais interessado em reformas sociais. Embora tenha seguido os principais princípios da política externa de de Gaulle, ele estava ansioso para trabalhar em direção a relações mais cordiais com os Estados Unidos.
Em 1968, pouco antes de deixar o cargo, de Gaulle recusou-se a desvalorizar o franco por motivos de prestígio nacional, mas ao assumir o poder Pompidou reverteu a decisão quase imediatamente. Durante a crise financeira de 1968, a França teve que confiar na ajuda financeira americana (e da Alemanha Ocidental) para sustentar a economia.
Perry escreveu que os
eventos de 1968 ilustraram a fragilidade do governo de de Gaulle. O fato de ele ter sido pego de surpresa é uma acusação ao seu governo; ele estava muito distante da vida real e não tinha interesse nas condições sob as quais as pessoas francesas comuns viviam. Problemas como habitação inadequada e serviços sociais haviam sido ignorados. Os franceses receberam a notícia de sua partida com algum alívio, pois cresceu o sentimento de que ele havia sobrevivido à sua utilidade. Talvez ele tenha se agarrado ao poder por tempo demais, talvez devesse ter se aposentado em 1965, quando ainda era popular.

Brian Crozier disse que "a fama de de Gaulle supera suas conquistas, ele escolheu fazer gestos repetidos de petulância e desafio que enfraqueceram o ocidente sem vantagens compensatórias para a França"
Régis Debray chamou de Gaulle de "super-lúcido" e apontou que praticamente todas as suas previsões, como a queda do comunismo, a reunificação da Alemanha e a ressurreição da 'velha' Rússia, se tornaram realidade após sua morte. Debray o comparou com Napoleão ('o grande mito político do século XIX'), chamando de Gaulle de seu equivalente do século XX.
Embora de Gaulle tivesse muitos admiradores, ele também foi um dos homens mais odiados e injuriados da história francesa moderna.
Vários monumentos foram construídos para comemorar de Gaulle. O maior aeroporto da França, localizado em Roissy, nos arredores de Paris, é chamado Aeroporto Charles de Gaulle. O porta-aviões de propulsão nuclear da França também leva seu nome.
| Cargos militares | ||
|---|---|---|
| Novo cargo | Líder da França Livre 1940–1943 |
Cargo extinto |
| Presidente do Comitê Nacional Francês 1941–1943 | ||
| Presidente do Comitê Francês de Libertação Nacional 1943–1944 Serviu junto a: Henri Giraud | ||
| Cargos políticos | ||
| Precedido por: Hippolyte Ducos |
Subsecretário de Estado para Guerra e Defesa Nacional 1940 |
Cargo extinto |
| Precedido por: Philippe Pétain como Chefe do Estado Francês |
Presidente do Governo Provisório da França 1944–1946 |
Sucedido por: Félix Gouin |
| Precedido por: Pierre Laval como Chefe de Governo | ||
| Precedido por: Pierre Pflimlin |
Primeiro-ministro da França 1958–1959 |
Sucedido por: Michel Debré |
| Precedido por: Pierre de Chevigné |
Ministro da Defesa 1958–1959 |
Sucedido por: Pierre Guillaumat |
| Precedido por: André Mutter |
Ministro de Assuntos Argelinos 1958–1959 |
Sucedido por: Louis Joxe |
| Precedido por: René Coty |
Presidente da França 1959–1969 |
Sucedido por: Georges Pompidou |
| Títulos de nobreza | ||
| Precedido por: Philippe Pétain |
Copríncipe de Andorra 1944–1946 Serviu junto a: Ramon Iglesias Navarri |
Sucedido por: Félix Gouin |
| Precedido por: René Coty |
Copríncipe de Andorra 1959–1969 Serviu junto a: Ramon Iglesias Navarri |
Sucedido por: Georges Pompidou |