Naceritas

 Nota: Para outros significados, veja Banu Nácer.

Os naceritas ou Banu Nácer (em árabe: بنو نصر; romaniz.: Banū Naṣr) foram uma tribo árabe, ramo dos hauazinitas pertencente aos caicitas. Segundo a tradição genealógica árabe, descendiam de Nácer ibne Moáuia ibne Becre ibne Hauazine e, juntamente com os juxamitas e os saditas, integravam o agrupamento conhecido como Ujez Hauazine. Dividiam-se em diferentes linhagens descendentes dos três filhos atribuídos a Nácer — Aufe, Damane e Becre —, algumas das quais produziram chefes tribais, companheiros de Maomé e famílias posteriormente estabelecidas em outras regiões do mundo islâmico. Seus territórios tradicionais situavam-se no Hejaz e em Négede, sobretudo a leste de Taife e na zona de transição entre as montanhas do Hejaz e as terras altas de Négede.

Possuíam vales, águas, pastagens e terras em lugares como Jildane, Lia e Bisle, além de propriedades nas proximidades de Ucaz. Algumas de suas possessões eram contíguas ou compartilhadas com as dos juxamitas. Os naceritas aparecem nas tradições históricas desde a Arábia pré-islâmica, inclusive em episódios relacionados às Guerras Sacrílegas. Nos primeiros anos do Islã, constituíam um dos principais componentes das forças hauazinitas reunidas contra Maomé em 8 A.H. (630). Seu chefe Maleque ibne Aufe Anáceri comandou os hauazinitas na Batalha de Hunaine, após a qual se converteu ao Islã e passou a exercer autoridade sobre sua tribo. Nos séculos seguintes, diferentes linhagens naceritas são documentadas em regiões como Baçorá, Egito e Alandalus.

Genealogia

Árvore genealógica nacerita

Os naceritas eram um ramo dos hauazinitas, uma grande confederação tribal dos caicitas tradicionalmente vinculada à linhagem de Adenane. Seu epônimo, Nácer, era filho de Moáuia ibne Becre ibne Hauazine ibne Mançor ibne Icrima ibne Caçafa ibne Caice Ailane ibne Modar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. Nácer pertencia, portanto, à mesma geração genealógica de Juxame, epônimo dos juxamitas. Não devem ser confundidos com os descendentes de Nácer ibne Sade ibne Becre, um ramo homônimo dos saditas, cujos membros também podiam receber a nisba Anáceri. Juntamente com os juxamitas e os saditas, os naceritas integravam o agrupamento denominado Ujez Hauazine (em árabe: عُجْز هَوَازِن; romaniz.: ʿUjz Hawāzin, lit. "retaguarda dos hauazinitas"), expressão empregada para os ramos da confederação que continuavam a ser designados coletivamente como Hauazine quando grupos como os amiritas e os taquifitas eram considerados separadamente. As tradições genealógicas atribuíam a Nácer três filhos principais, Aufe, Damane e Becre, dos quais se originaram diferentes ramos dos naceritas. De Aufe descendiam, entre outros, os quilfaítas (de Quilfa). Entre estes figurava Zufar ibne Hirtane, cuja genealogia era traçada através de Hirtane ibne Alharite ibne Hirtane ibne Dacuane ibne Quilfa. Outro ramo descendente de Aufe produziu Abede Aluaide ibne Abedalá, cuja linhagem era traçada através de Cabe ibne Omeir ibne Tubai ibne Abade ibne Aufe. Abede Aluaide exerceu funções administrativas sob os Omíadas e governou Medina em nome da dinastia.

Damane deu origem a uma extensa linhagem à qual pertenciam vários personagens conhecidos dos primeiros tempos do Islã. Entre seus descendentes encontrava-se Uaila. Um de seus principais ramos procedia de Habibe ibne Uaila e incluía diferentes linhagens naceritas. A esta descendência pertencia Rebia ibne Otomão, cuja genealogia era traçada através de Rebia ibne Mazane ibne Anabiga ibne Anze ibne Habibe e que é mencionado nas fontes por sua participação na Batalha de Cadésia. À mesma descendência de Habibe pertencia Calide ibne Galabe, cuja linhagem era traçada através de Alharite ibne Auce ibne Anabiga ibne Utar ibne Habibe. Calide tornou-se ancestral dos galabitas de Baçorá e aparece nas fontes associado ao governo de Ispaã durante o califado de Otomão (r. 644–656). Também pertencia à descendência de Habibe Mudarris ibne Sufiane, cuja genealogia era traçada através de Cufaja ibne Anabiga ibne Anze ibne Habibe. Segundo a tradição transmitida por Ibne Hajar de Ascalão, com base em Ibne Alcalbi, Mudarris participou ao lado de Maomé da Batalha de Hunaine.

Outro ramo descendente de Uaila era o dos iarbuítas (Iarbu). De Iarbu procedia a linhagem de Maleque ibne Aufe Anáceri, filho de Aufe ibne Sade ibne Rebia ibne Iarbu. Maleque tornou-se um dos mais destacados chefes dos naceritas e comandou os hauazinitas na Batalha de Hunaine. À mesma linhagem de Iarbu pertencia Auce ibne Alhadatane, cuja ascendência era traçada através de Aufe ibne Rebia ibne Sade ibne Iarbu. Auce é contado entre os companheiros de Maomé e foi pai de Maleque ibne Auce. Entre os iarbuítas figurava também Ufaife ibne Aufe, filho de Aufe ibne Abade e mencionado pelas fontes como chefe dos naceritas. Outro agrupamento dessa linhagem eram os xaitanitas (Banu Xaitane), que se estabeleceram em Medina na mesma área dos muzainaítas, juntamente com grupos dos soleimitas e aduanitas. Segundo Ali ibne Abedalá Samudi, a instalação conjunta desses grupos relacionava-se à contiguidade de seus territórios na bádia.

Ainda entre os descendentes de Damane encontrava-se Juail ibne Anre. Dele procedia Humás ibne Zalime ibne Juail, ancestral de um grupo nacerita que posteriormente adquiriu importância no Egito. Segundo Almacrizi, os descendentes de Humás tornaram-se numerosos e poderosos no país, chegando a ocupar extensas áreas do Baixo Egito. Posteriormente foram sobrepujados pelos leuatas, após o que passaram a viver de forma sedentária em aldeias. A região em que se estabeleceram tornou-se conhecida por sua presença como Ilha dos Banu Nácer, preservando assim o nome da tribo na geografia egípcia. O terceiro grande ramo procedia de Becre. Entre seus descendentes, Ibne Hasme registra uma linhagem que posteriormente se estabeleceu no Alandalus. A ela pertencia Ismail ibne Isaque Anáceri, cuja ascendência era traçada através de Ibraim ibne Ziade ibne Alaçuade ibne Ziade ibne Nafi ibne Moáuia ibne Aufe ibne Saçaa ibne Becre. Natural de Écija, Ismail é mencionado como tradicionalista dedicado ao estudo do hádice.

Geografia

Os naceritas ocupavam territórios no Hejaz e em Négede, concentrados sobretudo na região a leste de Taife e na faixa de transição entre as montanhas do Hejaz e as terras altas de Négede. Parte de suas possessões era contígua ou compartilhada com as dos juxamitas, outro ramo dos hauazinitas. No Hejaz, Albaradane era atribuído principalmente aos naceritas, embora uma pequena parcela pertencesse aos uçaimaítas juxamitas. A tribo estava igualmente estabelecida nas proximidades de Taife, onde controlava os cursos inferiores de dois importantes vales. O curso superior de Bisle pertencia aos famitas, enquanto seu curso inferior era nacerita; situação semelhante ocorria em Lia, cujo curso superior pertencia aos taquifitas e o inferior aos naceritas. Entre os dois vales situava-se Jildane, extensa área plana habitada pelos naceritas. Em Jildane erguia-se uma elevação escura denominada Buta, à qual uma tradição local atribuía antigas sepulturas e na qual teriam sido encontrados objetos antigos. Nas terras de Taife encontrava-se também Futuque, aldeia pertencente aos naceritas. A presença da tribo estendia-se ainda à região de Ucaz. No relato do Dia de Xaribe, um dos combates das Guerras Sacrílegas, Albacri, transmitindo Abu Ubaide, registra que, após a retirada dos demais hauazinitas e caicitas, os naceritas permaneceram combatendo ao lado dos taquifitas porque possuíam em Ucaz palmeirais e outras propriedades.

Mais para leste, os territórios naceritas penetravam em Négede e se confundiam em alguns pontos com os dos juxamitas. Alasmai situava Basse, Bassiã e Raua nas terras pertencentes conjuntamente aos juxamitas e aos naceritas. Entre as formações montanhosas atribuídas especificamente aos naceritas estavam Aljamade, Basse e Abraque. A mesma tradição mencionava Buta entre suas montanhas, provavelmente em referência à elevação situada em Jildane. Outra área nacerita era o vale de Atalabute, descrito como um vale dotado de grandes reservas de água e associado nas tradições locais aos descendentes de Nácer. A distribuição dessas localidades mostra que as possessões naceritas não formavam apenas um conjunto de pontos isolados. Seu território acompanhava os vales que desciam das proximidades de Taife em direção ao interior e alcançava as áreas ocidentais de Négede, onde se encontrava com as terras de outros ramos hauazinitas. A ocupação abrangia vales, águas, pastagens e elevações montanhosas, algumas pertencentes ao conjunto da tribo e outras associadas a ramos específicos. Nesse espaço, os naceritas mantinham estreita proximidade territorial com os juxamitas, como demonstra a posse conjunta de Basse, Bassiã e Raua, ao mesmo tempo que conservavam núcleos próprios, particularmente em Jildane e nos cursos inferiores de Bisle e Lia.

História

No período pré-islâmico, os naceritas estavam entre os grupos de Ujez Hauazine que cultuavam Aluzá, cujo santuário se situava em Nacla; Ibne Alcalbi inclui expressamente os naceritas, juntamente com os juxamitas e os saditas, entre seus adoradores. A proximidade territorial dos naceritas com Taife levou-os também a conflitos com os taquifitas. Segundo Ibne Alatir, quando os alafitas (al-Aḥlāf, lit. "os aliados por juramento"), uma das duas grandes facções taquifitas, enriqueceram e aumentaram sua cavalaria, reservaram para seus cavalos uma área de pastagem em Jildane, terra pertencente aos naceritas. Os naceritas reagiram à ocupação e entraram em guerra com os alafitas. Eram então chefiados pelo iarbuíta Ufaife ibne Aufe, enquanto os alafitas eram chefiados por Maçude ibne Muatibe. À medida que o conflito se prolongava, os malequitas, outra das grandes facções taquifitas e antigos rivais dos alafitas, aproveitaram a situação para intervir. Sob a chefia de Jundabe ibne Aufe, aliaram-se aos iarbuítas contra os alafitas. O primeiro grande confronto da nova aliança ficou conhecido como Dia de Taife. Depois de intenso combate, os alafitas prevaleceram e expulsaram os malequitas e seus aliados para um vale situado além de Taife, enquanto numerosos malequitas e iarbuítas foram mortos num desfiladeiro das montanhas da região. A guerra prosseguiu em outros confrontos conhecidos por nomes próprios, entre eles o Dia de Gamer de Du Quinda, nas proximidades de Nacla, e o Dia de Curuna, nas proximidades de Huluã. Neste último, uma tradição atribuía a Ufaife ibne Aufe um grito tão intenso que teria provocado o aborto de setenta mulheres grávidas. Seguiu-se um combate violento, após o qual os adversários se separaram. Os malequitas procuraram o apoio dos daucitas, catamitas e outros grupos, enquanto os alafitas dirigiram-se a Medina em busca de uma aliança com os ançares. Maçude ibne Muatibe procurou Uaia ibne Aljulá, dos aucitas, mas fracassou. Segundo Ibne Alatir, não ocorreu depois disso outra guerra de importância entre as duas facções taquifitas.

Outros episódios envolvendo os naceritas ocorreram em Ucaz, importante ponto de contato entre as tribos da região e um dos principais cenários das Guerras Sacrílegas. Os naceritas possuíam terras e propriedades em suas proximidades e aparecem em diferentes tradições relativas às tensões que antecederam esses conflitos. Segundo uma delas, Badre ibne Maxar, dos guifaritas, proclamou-se o mais honrado dos árabes e desafiou quem reivindicasse posição superior a golpeá-lo na perna com uma espada. Amar ibne Mazine, identificado em uma das versões como membro dos naceritas, aceitou o desafio e o feriu, embora o incidente não tenha assumido maiores proporções. Outro confronto ocorrido em Ucaz teria resultado da recusa de um quinanaíta em reconhecer uma dívida para com um nacerita. Esses episódios inseriam os naceritas nas tensões que culminaram nas Guerras Sacrílegas, série de conflitos que opôs principalmente os coraixitas e quinanaítas, de um lado, e diferentes grupos hauazinitas, de outro. No segundo desses conflitos, no Dia de Xameta, os naceritas constituíam um contingente próprio dos hauazinitas, comandado, segundo Abu Alfaraje Alisfaani, por Atia ibne Afife Anáceri. As fontes transmitiam também Abu Asma Adaribe como possível comandante dos naceritas, mas este pertencia na realidade ao ramo homônimo dos naceritas saditas.

Nos primeiros anos do Islã, os naceritas ainda aparecem entre os grupos hauazinitas hostis aos muçulmanos. Em Xabã de 7 A.H. (dezembro de 628–janeiro de 629), Maomé enviou Omar à frente de trinta homens contra Ujez Hauazine em Turaba. Albaladuri enumera entre os grupos visados os juxamitas, os naceritas, os saditas e os taquifitas. Avisados da aproximação da força muçulmana, eles abandonaram o local, e Omar regressou sem que ocorresse combate. Em 8 A.H. (630), após a Conquista de Meca, diferentes grupos hauazinitas começaram a reunir forças para enfrentar Maomé. Ao receber a informação de que hauazinitas, taquifitas, naceritas e juxamitas estavam se concentrando, Maomé enviou Abedalá ibne Abi Hadrade para averiguar suas intenções e confirmar se preparavam uma campanha contra os muçulmanos. A mobilização culminou na Batalha de Hunaine, na qual o nacerita Maleque ibne Aufe Anáceri assumiu o comando das forças hauazinitas. Segundo Ibne Isaque, aderiram a ele os naceritas, juxamitas, saditas, taquifitas e um pequeno contingente de hilálios, enquanto outros ramos hauazinitas não participaram do combate. Maleque determinou que os combatentes levassem consigo suas mulheres, filhos, camelos, rebanhos e demais propriedades, procurando desse modo impedir que os guerreiros abandonassem o campo de batalha. A decisão foi contestada por Duraide ibne Acima, dos juxamitas, que, apesar de sua idade avançada, acompanhava o exército como conselheiro devido à sua longa experiência militar. Duraide recomendou que as famílias e propriedades fossem mantidas em segurança e que somente os combatentes enfrentassem o inimigo, mas Maleque recusou-se a alterar seus planos. Na batalha, os hauazinitas inicialmente conseguiram surpreender as forças muçulmanas, mas acabaram derrotados. Após a derrota, parte deles retirou-se para Autas e Nacla, enquanto Maleque sobreviveu e refugiou-se com grande parte dos hauazinitas em Taife. Duraide morreu durante ou logo após os combates.

Quando uma delegação dos hauazinitas posteriormente se apresentou a Maomé, já professando o Islã, solicitou a restituição dos prisioneiros e bens capturados em Hunaine. Maleque ainda se encontrava em Taife entre os taquifitas, mas Maomé prometeu devolver-lhe sua família e seus bens e conceder-lhe cem camelos caso se convertesse. Maleque deixou Taife, apresentou-se a Maomé e abraçou o Islã, sendo então nomeado amil de sua tribo e de grupos vizinhos. Em 11 A.H. (632), é registrado à frente de Ujez Hauazine, abrangendo os juxamitas, naceritas, taquifitas e saditas, evidenciando a incorporação desses grupos à autoridade islâmica. Após as conquistas muçulmanas, grupos naceritas participaram dos movimentos migratórios que levaram numerosas tribos árabes para fora da Península Arábica. Sua presença é documentada particularmente no Egito. Durante o Período Abássida, famílias dos naceritas, juntamente com grupos dos amiritas, hauazinitas e soleimitas, migraram em diferentes momentos para a região situada entre o mar Vermelho e o Nilo. No reinado do califa Almançor (r. 754–775), o conjunto desses grupos teria alcançado cerca de cinco mil pessoas. A presença nacerita no Egito encontra paralelo nas tradições genealógicas, que registram descendentes de Juail, do ramo de Damane ibne Nácer, estabelecidos no país. A vinculação aos naceritas continuou a ser registrada nos primeiros séculos islâmicos por meio de relações de clientela e pertencimento tribal. Maimune ibne Mirane, destacado estudioso da geração dos tabis que exerceu funções administrativas e judiciais em Raca, é apresentado por uma das tradições biográficas como maula dos naceritas hauazinitas, embora outra versão o considerasse liberto de uma mulher dos azeditas. Uma ligação com os naceritas é documentada também em Baçorá: a mãe de Abu Daúde Ataialici, tradicionalista de origem persa nascido em 751/2, é descrita como uma escrava persa pertencente aos naceritas.

Referências

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Bibliografia