| Tupã | |
|---|---|
Raios de Tupã atingem o Rio de Janeiro, antigo território tupi | |
| Outro(s) nome(s) | Tupan • Tupana • Tupane • Tupã Ru Eté • Irãmajé • Mair-umuana |
| Nome nativo | Tupã |
| Morada | Tupã ambá (Ibaque) |
| Clã | Nhanderus |
| Arma(s) | Raio |
| Genealogia | |
| Cônjuge(s) | Pará ("Tupã Ci Eté") |
| Pais | Monã Nhanderu e Nhandeci |
| Irmão(s) | Nhamandu Caraí Jacairá Quaraí Jaci |
| Filho(s) | Sumé Tupã Ra'y Tupã Py'aguachu |
Tupã ("trovão" na língua tupi) é o deus das águas, do mar, dos rios, da chuva, do relâmpago e do trovão na religião e mitologia tupi-guarani.
Após a chegada dos europeus à América do Sul, Tupã foi ressignificado pelos jesuítas e passou a designar também o Deus cristão e, com inicial minúscula, divindades ou mesmo caráter divino de um modo geral.
Nenhum mito nativo brasileiro tem sido objeto de tanta discussão quanto o de Tupã. Para certo número de autores, seu nome significa o trovão, o raio, o relâmpago, cabendo aos jesuítas, segundo eles, a responsabilidade da deificação desse termo. O padre jesuíta português Manuel da Nóbrega, de fato, escreveu em 1559 na Bahia: "Esta gentilidade nenhuma coisa adora, nem conhece Deus, somente aos trovões chama Tupane; que é como quem diz coisa divina. E assim nós não temos outro vocábulo mais conveniente para os trazer ao conhecimento de Deus, que chamar-lhe Pai Tupane". Nóbrega e outros jesuítas esperavam encontrar entre os nativos formas religiosas análogas às do continente europeu; daí a decepção com que afirmavam: "os índios não conhecem ou adoram nenhum deus."
Na obra catequética do padre jesuíta espanhol José de Anchieta ainda no século XVI, as menções a Tupã foram usadas como uma estratégia de inculturação, adaptando termos da cosmologia tupi para explicar os dogmas católicos, facilitando a compreensão dos nativos para convertê-los ao cristianismo: a “Deus Pai” ele se referia como Tupã-túba (“Deus-pai”) e a Maria, Nossa Senhora, como Tupansy (“mãe-de-Deus”). Essa fusão cultural era especialmente evidente em seus autos, poemas e peças teatrais, onde unia elementos da tradição católica com a língua e as entidades indígenas.
Mas não resta dúvida, afirmou o frade franciscano e explorador francês André Thevet em 1557, de que Tupã é uma entidade superior, cujos movimentos produzem tempestades e cataclismos meteorológicos, é o que troveja e faz chover.
O pastor, missionário e escritor francês Jean de Léry, em 1576, escreveu que “Toupan entre eles [os nativos] não significa Deus, mas trovão”.
Escreveu o frade capuchinho e entomólogo francês Yves d'Évreux quando esteve no Maranhão entre 1613 e 1614: "Por intermédio do intérprete, informei-me dos velhos do país se acreditavam que esse Tupã, autor do trovão, era homem como eles. Responderam-me que não, porque, se fosse homem como nós, seria um grande senhor - e como poderia ele correr tão depressa, do Oriente para o Ocidente, quando troveja ao mesmo tempo sobre nós e nas quatro partes do mundo, tanto em França, como sobre nós? Demais, se fosse homem, era necessário que outro homem o fizesse, porque todo homem procede de outro homem".
O frade franciscano e entomólogo francês Claude d'Abbeville, em 1614, considerava o Tupã dos tupinambás como o deus cristão e acreditava que Jeropary fosse o Diabo e o punha em oposição a Tupã, criando um dualismo "Deus vs. Diabo" que não existia na mitologia nativa original.
Couto de Magalhães, em O Selvagem (1876), enumera Tupã entre as divindades superiores dos tupis ao lado de Jurupari, Anhanga, Caapora e Curupira (embora em outra parte diga que a trindade suprema são Guaraci, Jaci e Rudá).
O imperador brasileiro Dom Pedro II, no ensaio Quelques notes sur la langue tupi, escrito em francês e originalmente publicado em Paris em 1889, escreveu que, entre as várias explicações oferecidas para a etimologia da palavra "Tupi", a mais plausível parecia ser a do Visconde de Porto Seguro, t'ypi, “aqueles da geração original”, e que esta palavra teria sido derivada de Tupan, o nome de uma divindade comum a todos os tupis ao longo da costa do Brasil, do Prata à foz do Amazonas.
O conde italiano Ermanno Stradelli, que divulgou, deturpadamente, a lenda do herói legislador “Jurupari” do noroeste da Amazônia, escreveu em obra publicada postumamente em 1929 que "Tupana não passa da mãe do trovão, tida na mesma consideração de todas as outras mães, mas porque mãe de cousas de que o indígena não precisa, que dispensa, é uma mãe que não se honra nem se festeja. Na realidade, quando todas as outras mães têm danças e festas, que lhes são dedicadas, nunca ouvi que houvesse festa dedicada a Tupana".
Câmara Cascudo, que costumeiramente negava a existência de uma religião nativa e mesmo a crença em deuses entre os indígenas baseado na bibliografia dos missionários dos primeiros séculos da colonização, afirma que Tupã é um "deus criado pela catequese católica", declarando que o indígena ainda não havia chegado ao estágio de personalizar o divino e de fixar-lhe direitos e ações. Para ele, o conceito de "Tupã" já existia, mas não como divindade, e sim como conotativo para o som do trovão (Tu-pá, Tu-pã ou Tu-pana, golpe/baque estrondante), portanto, não passaria de um efeito, cuja causa o indígena desconhecia e, por isso mesmo, temia. Para Cascudo, o “Tupã realmente indígena” era uma “impossibilidade psicológica”. Curt Nimuendaju, que reconhece a divindade indígena de Tupã, também crê que seu nome funda-se numa onomatopéia muito antiga, na qual tu reproduz o trovão, e pã a pancada do raio.
Osvaldo Orico é da opinião de que os indígenas tinham noção da existência de uma “força”, de um deus superior a todos. Assim ele diz: "A despeito da singela ideia religiosa que os caracterizava, tinha noção de Ente Supremo, cuja voz se fazia ouvir nas tempestades – Tupã-cinunga, ou o trovão, cujo reflexo luminoso era Tupãberaba, ou relâmpago."[carece de fontes] Eduardo Navarro registra esses termos como tupãsununga (“barulho de Tupã”, o trovão) e tupãberaba (“brilho de Tupã”, o relâmpago).
O longo e persistente processo de associação do nome “Tupã” ao do Deus cristão, junto à negação por parte da maioria dos missionários católicos, cronistas colonizadores e até mesmo de pesquisadores mais recentes da existência do deus tupi-guarani na religiosidade nativa original, levou a, modernamente e inclusive entre parte dos próprios indígenas, a palavra “Tupã” (com “T” maiúsculo”) ser a designação para “Deus” (ver: [gn]) e “tupã” (com “t” minúsculo”) para uma deidade qualquer no vocabulário guarani, embora também ainda se reconheça, nessa língua, Tupã como um deus da religião e da mitologia tupi-guarani independente do deus cristão (ver: [gn]).
O fato de Tupã ocupar o quinto lugar na teogonia mbyá-guarani e posições ainda mais secundárias na de outros grupos guaranis, além de ter tido uma origem mortal no mito tupi, como se verá, dá razão a críticos — como o etnólogo alemão-brasileiro Curt Nimuendajú (nascido Curt Unckel), que viveu parte de sua vida com os apapocuvas/nhandevas — quando falam do abuso feito de seu nome pelos missionários que o introduziram para designar o Deus cristão em todo o Brasil, Paraguai, grande parte da Argentina, Uruguai e Bolívia. Sabe-se que Tupã não é o deus supremo, mas uma deidade secundária; contudo, seja como for, a palavra Tupan conheceu uma estranha fortuna e está, hoje em dia, em uso entre todos os indígenas cristianizados, da Argentina às Guianas.
Tupã é um dos deuses tupis-guaranis de culto mais difundido pela América do Sul, indo para além das fronteiras do Brasil. Esse fato e a antiguidade de seus mitos explicam a variedade de histórias que se contam sobre ele, desde sua origem até a sua posição no panteão indígena, que podem ser reunidas nas duas grandes tradições que formam a mitologia tupi-guarani: a mitologia tupi, que se estende principalmente pelo litoral brasileiro, da Amazônia Oriental até São Paulo, e a mitologia guarani, concentrada no sul brasileiro (incluindo o Mato Grosso do Sul) e espalhada para outros países sul-americanos que compartilham a bacia do Prata.
O antropólogo suíço-estadunidense Alfred Métraux, autor de um estudo sobre a religião dos tupinambás publicado em 1950, relata que Tupã é Mair-umuana (ou Maíre-monã, Maír-munhã, Mair-umûan, “Maíra-antigo”), nascido Irãmajé (Irãmaîé, grafado "Irin-Magé" na escrita de André Thevet segundo a fonética francesa), “Pajé do Mel” em tupi (de eíra, “mel” + maîé, “pajé”), o primeiro dos Maíras, que sobreviveu ao grande incêndio causado por Monã, Munhã ou Umuana (do tupi Umûã, Umûan ou Umûana, “Antigo, Velho”), o deus criador para os tupis, para exterminar a humanidade tomada pelo mal, mas, tomado de compaixão por causa das lágrimas de Irãmajé, Monã enviou uma forte chuva para apagar o fogo (tatá em tupi), e a água do dilúvio (iporun ou 'yporu em tupi, “água que come gente”) ficou represada na Terra, formando o mar, restaurando a vida no mundo. A salinidade oceânica foi causada pelas cinzas resultantes do incêndio diluídas nas águas. Monã deu uma companheira a Irãmajé, a primeira mulher, e desse casal se originou a humanidade, que repovoou o globo após o cataclismo. Neste mito apresentam-se três dos elementos sob o domínio de Tupã: a água, a chuva e o mar.
O povo dessa nova humanidade tinha muito medo dos poderes divinos de Mair-umuana, o herói civilizador e sucessor de Monã na Terra, que podia transformar os elementos e os seres. Temendo serem transformados em animais por ele, os homens planejaram destruí-lo durante uma festa em que eles o desafiaram a provar seus poderes ao caminhar por dentro de três fogueiras. Mair-umuana nada sofreu ao passar pela primeira, mas ao tentar passar por uma segunda ele, aparentemente percebendo a trama e desgostado dos homens que ele criara, deixou-se consumir pelo fogo; sua cabeça se rompeu com tamanha força que o ruído horrível subiu até o céu e se converteu em Tupã, encarnando o som do trovão, enquanto o brilho das chamas que o consumiram, precedendo o som, formou o relâmpago — e é por isso que, quando se tem raio, primeiro vemos o relâmpago, o brilho, e só depois ouvimos o estrondo, o trovão. Imediatamente depois, Mair-umuana subiu ao céu e virou estrela, juntamente com dois dos seus companheiros. Irãmajé/Mair-umuana, na morte, transfigurou-se em Tupã.
Couto de Magalhães referenciou o manuscrito de Thevet em O Selvagem, apresentando o mito da origem de Tupã de forma resumida, escrevendo “Este (Monan) criou Irin-Magé, de cuja cabeça nasceu Tupan”. Magalhães identifica Irãmajé (“Irin-Magé”) com Mair-umuana ("maire Monhan"), de quem, ele diz, antes da morte nasceu Sumé, pai de Tamanduaré e Aricuté.

Aos indígenas não passou despercebida a diferença que separava seu deus Tupã do deus falado pelos missionários e por eles, os indígenas, identificado como o herói civilizador, seu “profeta” (“caraíba” em tupi, um sábio, líder entre os pajés). "Se alguém lhe fala de Deus, como o fiz algumas vezes, escutam atentos e admirados, indagando se não se trata do profeta, que lhes ensinou a plantar suas grossas raízes de nome îetyka” (jetica, batata-doce), escreveu Thevet.
Tamanduaré, filho de Sumé e neto do já falecido Mair-umuana, causador de um segundo dilúvio numa briga com seu irmão gêmeo Aricuté, foi instruído por Tupã a como sobreviver à enchente, abrigando-se com a sua família sobre uma palmeira (a pindoba) na montanha mais alta da região, cujos frutos os alimentaram até o momento em que puderam descer à terra, dando origem ao povo tupinambá. Magalhães conclui que é daí que talvez venha o nome de Pindorama, “Região das Palmeiras”, com que os tupis chamavam o Brasil. Além disso, o militar e folclorista brasileiro também supõe que a palavra “Tupi” quer dizer “pequeno raio” ou “filho do raio”, de “Tupã” (“raio”) com o sufixo diminutivo -i.
Na religiosidade guarani Tupã tem os mesmos atributos e muitas das mesmas funções conhecidas entre os tupis, mas também apresenta algumas características próprias e narrativas específicas, além de outras posições no panteão indígena.
Para os mbyá-guaranis, Tupã é uma manifestação do deus criador, por eles conhecido como Nhanderu (“Nosso Pai”) ou Nhanderuvuçu/Nhanderu-Guasu (“Nosso Pai Grande”). Ele é o mais novo dos quatro deuses primordiais criados por Nhanderu, depois de Nhamandu (deus da luz e da palavra, associado ao Sol, que às vezes se confunde com Nhanderu), Caraí (deus do fogo e do crepitar das chamas) e Jacairá (deus do ar, dos ventos e da neblina). Fixando a sua morada, Tupã ambá, no Oeste do Céu (Yvaga para os guaranis), Nhanderu lhe incumbiu de trazer refrescamento às divindades e aos homens em forma de chuva, moderando o fervor de Caraí em nossos corações.
Os mbyás também chamam Tupã de Pará guasú Jára (“dono do extenso mar”).
Assim como seus irmãos, Tupã recebe a alcunha Ru Eté (Tupã Ru Eté, “Verdadeiro Pai Tupã”) e o título Nhanderu (Nhanderu Tupã, “Nosso Pai Tupã”). Ele também é conhecido como Tupã Ymã (“Tupã Antigo”, pois ymã ou ymuã, derivado do tupi umûã, é “antigo” em guarani) possivelmente uma reminiscência do tupi Mair-Umûan (Maíre-Monã), que se transfigurou em Tupã na versão tupi do mito.
Na versão mbyá, os quatro deuses primordiais emanados de Nhanderu criaram as suas respectivas esposas, que recebem o mesmo nome do marido-irmão mais a alcunha Ci Eté (ou Chy Eté, Sy Eté), “Mãe Verdadeira”. A esposa de Tupã é, assim, conhecida como Tupã Ci Eté, isto é, “Verdadeira Mãe (dos filhos de) Tupã”, a deusa das águas, e seu nome pessoal é Pará, “Mar” em tupi-guarani, pois que Tupã possui a atribuição, entre outras, de deus do mar.
As almas encarnadas na Terra provenientes do paraíso celeste de Tupã (Tupã ambá, “casa de Tupã”) no oeste recebem nomes como, segundo os mbyás, se do sexo masculino: Verá (“Brilho” [do Relâmpago]), Verá Mirī (“Brilho Pequeno” [do Relâmpago]), Verá Chunuá (“Emissor de Brilho” [do Relâmpago]), Tupã Kuchuvi Veve (“Tocha Voadora de Tupã”) e Tupã Guyra (“Pássaro de Tupã”); se do sexo feminino: Pará (“Mar”), Pará Rete (“Corpo de Mar”), Pará Mirī (“Mar Pequeno”), Pará Poty (“Flor do Mar”) e Pará Jachuka (“Diadema Feminino do Mar”). Cada um dos quatro deuses primordiais concedem nomes especiais às almas criadas por eles em seus respectivos ambás, pelo qual eles são conhecidos como Ne'eng Ru Eté, “Verdadeiros Pais das Palavras-Almas”.
Na versão apapocuva-guarani (nhandeva), diferente da mbyá em que ele e seus irmãos foram gerados sem mãe (e são conhecidos por isso como ipurua eỹ va'e, “os que não têm umbigo”), Tupã tem por mãe a Nhandesy ou Nhandeci (“Nossa Mãe”), esposa de Nhanderuvuçu, enquanto na mbyá ela é mãe apenas de Quaraí (o deus Sol), e para outros povos guaranis ela é mãe tanto de Quaraí como de Jaci (o deus Lua), o que faz de Tupã irmão mais novo dos gêmeos míticos Sol e Lua, posto que ele nasceu depois que Nhanderuvuçu reviveu Nhandeci, que havia morrido, devorada pelos jaguares originários, antes de dar à luz os gêmeos astrais. Para os nhandevas, Tupã é muito chegado à mãe, que o tem como seu filho predileto e por ordem de quem deixa a sua casa, situada a oeste, para ir visitá-la no leste, na ilha-paraíso de Yvy Marã E'ỹ, onde ela vive. Cada viagem de Tupā através do firmamento provoca tempestades. O som do trovão é produzido pelo seu assento (apycá) côncavo emborcado do qual se serve, à feição de uma canoa, quando tem de transpor a extensão do céu. O longo tembetá feito de resina amarela de jatobá que traz ao lábio inferior lança raios a cada um dos seus movimentos. Em seu barco tomam lugar dois servidores, muitas vezes assimilados aos tapé (tesourinhas), aves, segundo os indígenas, anunciadoras da tempestade. A tormenta só passa quando Tupã chega diante da casa materna, onde, todavia, seu tembetá continua a provocar relâmpagos.
Para os chiriguanos (avá-guaranis), o sobrevivente do dilúvio se chama Arapariguá, salvo por Tupã, que o transportou para o céu, só voltando do firmamento depois de ser o mundo repovoado. Em seguida, tendo praticado toda sorte de abusos e estando ameaçado pelos homens, Arapariguá tornou a dever a sua salvação a Tupã, que o levou definitivamente para o céu.
Dizem que Tupã Ra'y ("filho de Tupă") fez nascer a ka'avo tory ("erva da alegria", Hypericum connatum, também conhecida como orelha-de-gato) simultaneamente com ele. Por isso, os guaranis aconselham carregá-la para que Tupă faça com que todos se agradem com a conduta deles, para que seus semelhantes sejam felizes em sua companhia. A erva sagrada tem o poder de curar os "perigosamente furiosos" (isto é, os que sofrem com delírio e loucura).
O escritor tapuia Kaká Werá diz que, segundo a cultura guarani, Tupã nasceu do coração de Quaraí e criou mundos através dos cantos sagrados, incluindo a “Mãe Terra” (conceito, o da terra como uma mãe divina, originalmente desconhecido nas narrativas guaranis) sob a forma de uma “imensa tartaruga estelar” (outro conceito, o da “tartaruga mundial”, “tartaruga cósmica” ou “tartaruga com o mundo nas costas”, também desconhecido pelos guaranis).
Na mitologia guarani, Tupã atua no mundo com o auxílio de uma série de agentes, que são espíritos da natureza ou "deuses menores", relacionados aos elementos por ele dominados.
A festa do milho nas tradições guaranis, que inclui o rito sagrado Nhemongara'i (o batismo das crianças e dos alimentos), celebra a colheita do milho (avati ou avaxi) como uma dádiva divina entregue às comunidades pelas divindades Tupã e Jacairá. Essa conexão espiritual une o sustento da terra à identidade dos povos originários.
O avaxi etei ("milho verdadeiro") foi criado por Tupã logo após o nascimento de seu filho na Terra e constitui um elemento essencial para a permanência do nhe'ẽ (espírito, alma) entre os vivos. Por isso, as sementes devem ser batizadas antes do plantio e o cultivo do milho deve ser mantido, ainda que em pequena quantidade, para preservar a ligação espiritual com Nhanderu, o Criador.
O poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) publicou em 1929 uma teogonia ficcional do mito guarani intitulada Nuestros Antepasados (Ñande Ypykuéra, “Nossos Antepassados”), que, apesar de não ser reconhecida por nenhum povo tupi-guarani, tornou-se tão popular que para o público não-indígena se tornou sinônimo de mitologia guarani, e muitos hoje acreditam que sua narrativa faça parte das crenças indígenas.
Nessa ficção, Tupã é o deus criador e sua luminosa morada é o Sol (que Rosicrán chama pelo nome tupi Kuarasy em vez das variantes guaranis Kuarahy, Kuaray ou Kuara), de onde ele observa o universo inteiro com olhos escrutinadores que enxergam através das sombras e coisas. Sentindo-se solitário, ele desposa a deusa da aurora Arasy (Araci, “Mãe do Dia”) e a consagra como “Mãe do Céu”, fixando Jasy, a Lua, como sua morada.
Tupã criou uma tempestade, com raios rasgando os elementos e a chuva lavando e fertilizando onde caía, e assim ele criou o mundo. Ele e Arasy desceram então à Terra no monte Areguá (etimologicamente "o que está acima/no alto") no atual Paraguai e de lá eles criaram os mares e rios, as florestas, as estrelas e todos os seres do universo, mas algo faltava para completar a criação, e, assim, Tupã criou o primeiro casal humano a partir da mistura de diversos elementos. Eles foram chamados Rupavê (“pai de todos”) e Sypavê (“mãe de todos”) e, deixando-lhes no Areguá na companhia de Taû (o Mal) e Angatupyry (o Bem) para guiá-los aqui na Terra, Tupã e Arasy retornaram para o céu. Mais adiante Arasy amaldiçoa os sete filhos de Taû e Kerana (“Dorminhoca”, deusa do sono), filha de Marangatu e neta de Rupavê e Sypavê, pelo crime do deus do mal em raptar a moça e tomá-la para si. Porãsy (Porãci, “Mãe Bela”, deusa da beleza), a mais velha das filhas de Rupavê e Sypavê, sacrificou-se para livrar o povo dos filhos monstruosos de Taû e Kerana, e Tupã, para honrá-la, a transformou na Estrela da Manhã (Mbyja ko'ê).
Deve-se, de novo, ter sempre em conta que essa narrativa é uma ficção escrita por Rosicrán reunindo diversos personagens míticos do Paraguai, a maioria deles sem relação direta entre si (como os chamados "sete monstros lendários") e alguns deles criados para essa obra, incluindo até o mito de Atlântida, a mitologia cristã, os maoris da Nova Zelândia e os maias do México no que foi chamado de “a primeira cosmogonia ficcional guarani”, não constando, do jeito que ele apresentou, nos autênticos mitos indígenas, sobretudo a figura de Tupã como o deus supremo. Esta obra inteiramente ficcional adquiriu uma fama que substituiu os mitos guaranis reais no imaginário social e, com a mesma força, sepultou muitos signos, motivos e procedimentos criativos que até então não haviam sido analisados criticamente.
Seja referenciando o deus indígena ou o deus cristão, "Tupã" aparece em nomes de algumas localidades pelo Brasil, como os municípios de Tupã, em São Paulo, e Tuparetama ("região de Tupã/Deus"), em Pernambuco, além do distrito de Tupanaci ("mãe de Deus") do município de Mirandiba, também em Pernambuco.
O Tupã Futebol Clube é um time de futebol do município de Tupã (SP).
Como resultado da campanha Nomeie Exomundos promovido pela União Astronômica Internacional em 2019, a população do Paraguai batizou a estrela HD 108147, na constelação do Cruzeiro do Sul, com o nome de "Tupã", coincidindo com o Ano Internacional das Línguas Indígenas.