Zhu Xi

Zhu Xi
Pintura de um letrado chinês de barba, chapéu e traje escuro
Retrato do período Qing tradicionalmente atribuído a Zhu Xi
Nascimento18 de outubro de 1130
Youxi, Fujian, Song do Sul
Morte23 de abril de 1200 (69 anos)
Kaoting, Jianyang, Song do Sul
Obra filosófica
EraFilosofia chinesa medieval
EscolaConfucionismo e neoconfucionismo da escola Cheng-Zhu
Principais interessesFilosofia chinesa, textos clássicos, ensino e estudo da natureza
Ideias notáveisLi, qi, investigação das coisas e cultivo moral
Trabalhos notáveisComentários reunidos aos Quatro Livros, Reflexões sobre as coisas próximas
InfluênciasConfúcio, Mêncio, Zhou Dunyi, Cheng Hao, Cheng Yi e Zhang Zai
InfluenciadosWang Yangming, Yi Hwang, Wang Fuzhi, Fujiwara Seika e Hayashi Razan

Zhu Xi (朱熹; Zhū Xī; 1130–1200) foi um filósofo, professor e funcionário público chinês da dinastia Song do Sul. Um dos principais pensadores do neoconfucionismo, reinterpretou a tradição de Confúcio e deu a ela uma influência duradoura. Também se dedicou à história, ao estudo da natureza e à caligrafia chinesa.

Reuniu e comentou quatro textos clássicos que passaram a formar os Quatro Livros. Seus comentários se tornaram referência para gerações de estudantes e foram adotados nos exames imperiais, usados para selecionar funcionários do governo. Durante séculos, sua interpretação desses textos orientou o ensino na China.

Para Zhu Xi, estudar não era apenas guardar palavras na memória. Era preciso ler com atenção, observar as coisas e examinar a própria conduta para aprender a agir melhor. Ao relacionar o conhecimento à formação moral, procurou explicar tanto os padrões que via no mundo quanto as escolhas das pessoas.

Ele levou essas ideias às academias onde ensinou e ao trabalho que exerceu no governo. Embora tenha sofrido perseguição política no fim da vida, sua obra ganhou prestígio após sua morte. Seus ensinamentos circularam pela Coreia, pelo Japão e pelo Vietnã; seus livros ainda são lidos e discutidos, e sua memória permanece em templos e cerimônias.

Família e formação

Zhu Xi descendia da família Zhu de Wuyuan, na antiga prefeitura de Huizhou, associada a Zhu Gui, que viveu no período das Cinco Dinastias e Dez Reinos. A tradição familiar traçava a ascendência até Zhu Jingze, funcionário e historiador da época da dinastia Tang. Wuyuan pertencia anteriormente a Anhui e passou a Jiangxi em 1952.

Seu nome de cortesia era Yuanhui, também registrado como Zhonghui. Usou ainda os nomes Hui'an, Kaoting, Huiweng, Ziyang Xiansheng, Ziyang Fuzi, Cangzhou Bingsou e Yungu Laoren. É conhecido também como Zhuzi, ou "mestre Zhu", e pela antiga grafia ocidental Chu Hsi.

Seu pai, Zhu Song (1097–1143), passou no exame jinshi e ocupou cargos no governo da dinastia Song. Sua mãe era Zhu Wuniang (祝五娘). A biografia de Zhu Xi na História da dinastia Song registra o pedido feito por Zhu Song, pouco antes de morrer, para que o filho estudasse com Hu Xian, Liu Mianzhi e Liu Zihui.

Zhu Song se opôs às negociações de paz da corte Song com os jurchéns. A História da dinastia Song relata que o chanceler Qin Hui reagiu às críticas e que Zhu Song foi afastado para um cargo em Raozhou, que não chegou a assumir antes de morrer. Ensinou o filho em casa e lhe indicou estudiosos com quem deveria prosseguir a formação.

Nascimento e infância

Pintura antiga com uma figura sentada em uma plataforma, acompanhada por outras pessoas entre árvores.
Ilustração do período Song para o Clássico da Piedade Filial, um dos textos que Zhu Xi começou a estudar na infância.

Zhu Xi nasceu na residência da família Zheng, em Youxi, na atual província de Fujian, no 15.º dia do nono mês do quarto ano da era Jianyan, correspondente a 18 de outubro de 1130. O lugar passou a ser chamado Academia Nanxi. Na infância, estudou o Clássico da Piedade Filial. Uma biografia antiga conta que observava os trigramas desenhados na areia e perguntava ao pai o que sustentava o céu.

Depois da morte do pai, em 1143, recebeu apoio de Hu Xian, Liu Zihui e Liu Mianzhi. Em 1148, foi aprovado no exame jinshi da turma de Wang Zuo. Voltou à terra da família em 1149 para visitar os túmulos ancestrais e recuperar terras destinadas aos ritos familiares. Seu primeiro posto foi o de secretário distrital em Tong'an, exercido de 1153 a 1156. Ali cuidou da arrecadação, da administração local e da escola, para a qual redigiu normas de conduta. Procurou Li Tong em 1153 e tornou-se formalmente seu discípulo em 1160. Ao longo da carreira, ocupou cargos provinciais, foi chamado à corte por pouco tempo e ensinou em academias. Recebeu os títulos de funcionário da Biblioteca Baowen e de nobre de Wuyuan, além de incumbências ligadas aos arquivos imperiais.

Casamento e descendência

Interior de uma sala tradicional com madeira escura, cadeiras e um altar ao fundo.
Interior de uma residência hoje associada a Zhu Xi em Nanping; os registros de sua vida também preservam os nomes dos filhos e os vínculos entre famílias.

Zhu Xi casou-se com Liu Qing, também chamada Liu Qing Siniang, filha de Liu Mianzhi. Ela morreu em 1176. O casal teve três filhos, Zhu Shu, Zhu Ye e Zhu Zai, e cinco filhas. Entre elas, Zhu Xun casou-se com Liu Xuegu, Zhu Dui com Huang Gan, discípulo de Zhu Xi, e outra filha com Fan Yuanyu. As fontes sobre a família divergem na identificação e na ordem de nascimento das filhas; por isso, não é seguro atribuir uma posição a cada uma delas.

Vida pública e morte

Em 1167, depois de uma inundação e de uma escassez de alimentos em Chong'an, Zhu Xi e Liu Ruyu conseguiram grãos das autoridades para socorrer os moradores. No ano seguinte, surgiu a proposta de conservar os grãos devolvidos pelas famílias na própria comunidade. O celeiro permanente, ou shecang, foi concluído em 1171 e concedia empréstimos de grãos para o período anterior à colheita. A cobrança de juros provocou críticas, e Zhu Xi alterou as condições propostas para safras ruins. Em 1182, defendeu a adoção do modelo em outras localidades; a corte aprovou a ideia, mas a falta de financiamento oficial limitou sua aplicação.

Em 1179, Zhu Xi foi nomeado para administrar Nankang, após duas décadas sem um cargo público permanente. Restaurou a Academia da Caverna do Veado Branco, na região do monte Lu, estabeleceu regras para os estudantes e convidou Lu Jiuyuan a lecionar ali, em 1181. Lü Zuqian escreveu um relato sobre a academia. Zhu Xi também lecionou na Academia Yuelu, em Hunan. A manutenção das escolas, a agricultura e as finanças locais fizeram parte de seu trabalho administrativo.

Pátio e edifícios da academia na região do monte Lu.
Ao administrar Nankang, Zhu Xi restaurou a Academia da Caverna do Veado Branco para reunir ensino dos clássicos e formação moral.

Em 1194, deixou a administração de Tanzhou e foi chamado à corte para ensinar os clássicos ao imperador Ningzong. Uma carta escrita no caminho para a capital trata da transferência de assuntos da administração local a um subordinado. Sua passagem pela corte durou cerca de 40 dias: ensinou, apresentou propostas políticas e discutiu ritos da corte, antes de ser afastado em meio a disputas políticas.

Em 1195, após a queda do chanceler Zhao Ruyu, Zhu Xi e outros homens próximos dele passaram a ser atacados por Han Tuozhou. A corte condenou seus ensinamentos como "falso saber", afastou adeptos de cargos públicos e deu início à perseguição chamada proibição de Qingyuan. Zhu Xi disse, nos últimos anos, que sua cabeça parecia sempre ameaçada. Em 1196, o censor Shen Jizu fez acusações pessoais contra ele, entre elas a de manter duas religiosas como concubinas. A denúncia fazia parte da disputa política da época e não deve ser tomada como fato comprovado.

Zhu Xi morreu em Kaoting, Jianyang, no nono dia do terceiro mês do sexto ano de Qingyuan, correspondente a 23 de abril de 1200. Um grande número de discípulos e admiradores compareceu a seu funeral. A corte iniciou medidas para reabilitá-lo em 1208 e, no fim do ano chinês de 1209, concedeu-lhe o nome póstumo Wen, do qual deriva a denominação Zhu Wengong. Em 1227, o imperador Lizong deu-lhe postumamente o título de grão-preceptor e o nomeou duque de Xin, posteriormente duque de Hui, pelo trabalho de comentário aos Quatro Livros. Em 1241, uma tabuleta em sua homenagem foi colocada no templo de Confúcio em Qufu. Nos períodos Ming e Qing, sua posição entre os sábios homenageados no templo foi elevada.

Ensino e pensamento

Fachada de uma academia tradicional chinesa entre árvores.
A academia de Wuyi hoje associada a Zhu Xi recorda a importância dos espaços de estudo e discussão na circulação de seus ensinamentos.

Zhu Xi ensinou durante décadas em escolas e academias e manteve uma extensa correspondência com outros estudiosos. Seus comentários e edições de textos antigos, bem como as conversas anotadas pelos alunos, ocupam dezenas de volumes. Ele entendia o estudo, a reflexão e a conduta como trabalhos contínuos de formação moral.

Os Quatro Livros

Duas páginas impressas com caracteres chineses dispostos em colunas verticais.
Edição dos Quatro Livros com comentários: a seleção e a interpretação de Zhu Xi moldaram o currículo confucionista dos séculos seguintes.

Zhu Xi editou o Grande Aprendizado e A Doutrina do Meio, antes partes do Clássico dos Ritos, e os leu junto aos Analectos de Confúcio e ao Mêncio. Na abertura do Grande Aprendizado, atribuiu o texto principal a Confúcio, transmitido por Zengzi, e os comentários aos discípulos deste. Sua interpretação dessa origem textual não é aceita sem reservas pela crítica histórica. A coleção dos Quatro Livros passou a ser estudada ao lado dos Cinco Clássicos e, sob as dinastias Yuan, Ming e Qing, ocupou o centro dos exames para o serviço público.

O Grande Aprendizado apresenta uma sequência que parte da investigação das coisas e do conhecimento, passa pela sinceridade, pelo domínio de si e pela vida familiar e chega à administração do Estado. Zhu Xi organizou os textos como um percurso de estudo. Seus comentários aos Quatro Livros foram recebidos com desconfiança por parte de alguns contemporâneos e se tornaram textos de referência nas gerações seguintes.

Li, qi e natureza humana

Diagrama vertical com círculos, linhas e símbolos chineses para os cinco processos.
Diagrama da suprema polaridade de Zhou Dunyi, cujas relações entre yin, yang e os cinco processos foram reinterpretadas por Zhu Xi.

A filosofia de Zhu Xi reuniu o li (理), princípio ou padrão presente nas coisas, e o qi, força material pela qual elas tomam forma. Nenhum deles se encontra isolado na experiência. O taiji, ou suprema polaridade, é a unidade dos princípios e da atividade pela qual o mundo se diferencia. A maneira de entender a precedência do li em sua obra continua a ser discutida, assim como a classificação de sua metafísica como monismo ou dualismo.

As alternâncias de yin e yang e os cinco processos, madeira, fogo, terra, metal e água, faziam parte de sua explicação das transformações naturais. Zhu Xi relacionou o taiji a ideias do taoismo, mas não o tomou simplesmente como outro nome para o dao. A comparação de seu li com conceitos budistas também foi debatida por seus intérpretes.

Ao desenvolver a ideia de Cheng Yi de que "a natureza é princípio", Zhu Xi distinguiu a natureza original, orientada para o bem, das disposições particulares moldadas pelo qi. Todos recebem o li, mas emoções, desejos e circunstâncias podem dificultar a conduta moral. Estudar e examinar a própria conduta eram caminhos para tornar mais claras essas disposições. Sua leitura da bondade da natureza humana seguia Mêncio e se opunha à interpretação de Xunzi.

A expressão "preservar o princípio celeste e eliminar os desejos humanos" aparece nos ensinamentos ligados a Zhu Xi. Nela, o cultivo moral exige atenção às inclinações que afastam a pessoa do que julga correto. O debate sobre a relação entre desejos, li e qi não se reduz à ideia de suprimir toda emoção.

Investigação das coisas, conhecimento e ação

Páginas antigas impressas com texto chinês em colunas verticais.
Uma edição antiga dos escritos de Zhu Xi: em sua ideia de gewu, a leitura cuidadosa se relacionava com o exame das situações concretas.

Zhu Xi chamou de gewu a investigação das coisas. Ler, observar o mundo e examinar situações concretas permitiam buscar o princípio de cada uma delas. O alcance de gewu, bem como o sentido de "coisas" nessa expressão, é objeto de debate.

Conhecimento e ação dependem um do outro: é preciso saber como agir, e a conduta põe à prova o que se aprendeu. Zhu Xi dava prioridade ao conhecimento na ordem do estudo e à ação quando julgava o peso de cada um na vida moral.

Para o julgamento moral, a investigação precisava levar em conta os detalhes de cada situação. Zhu Xi também discutiu o quan, a ponderação que permite abrir exceções às regras rituais em circunstâncias urgentes ou quando aplicá-las causaria sofrimento. Entre os exemplos debatidos estão socorrer uma pessoa que se afoga e permitir que uma viúva sem meios de subsistência se case novamente. Essa discrição, segundo ele, exigia cuidado e formação moral.

Diálogos e debates

Edifício e pátio arborizado de uma academia chinesa.
A academia Ehu, em Jiangxi, preserva a memória do encontro de 1175 em que Zhu Xi e os irmãos Lu divergiram sobre os caminhos do aprendizado.

Li Tong defendia o cultivo da mente pela quietude; Zhang Shi dava maior ênfase à atenção durante a ação. Zhu Xi trocou cartas e discutiu essas propostas com Zhang, buscando combinar quietude e atividade em sua prática de estudo e cultivo moral.

Em 1175, Lü Zuqian intermediou um encontro de Zhu Xi com os irmãos Lu Jiuyuan e Lu Jiuling no Lago dos Gansos, em Jiangxi. Os participantes não chegaram a um acordo sobre os caminhos do aprendizado. Zhu Xi insistia no estudo, na reflexão e na observação; Lu Jiuyuan dava prioridade ao esclarecimento da própria mente.

Academias e leitura

A Academia da Caverna do Veado Branco foi um dos lugares em que Zhu Xi pôs em prática seus planos de ensino. Também lecionou na Academia Yuelu. A difusão de livros impressos lhe trouxe uma preocupação: ter muitos textos ao alcance não bastava se o estudante os lesse sem atenção. Suas orientações de leitura insistiam em voltar às passagens difíceis e relacionar o estudo à conduta.

Difusão e reconhecimento

Estátua de um estudioso coreano em trajes tradicionais.
Estátua de Yi Hwang, pensador coreano que estudou a tradição neoconfucionista de Zhu Xi, difundida além da China.

Sob a dinastia Yuan, os comentários de Zhu Xi aos Quatro Livros entraram nos exames imperiais. Os governos Ming e Qing mantiveram essa leitura no currículo, com interpretações e graus de aplicação que mudaram entre reinados. O sistema tradicional de exames foi abolido em 1905. O neoconfucionismo da escola Cheng-Zhu também chegou à Coreia, ao Japão e ao Vietnã. Na Coreia e no Japão, foi estudado por pensadores como Yi Hwang, Fujiwara Seika e Hayashi Razan.

Zhu Xi, Zhang Shi e Lü Zuqian foram reunidos pela tradição intelectual sob a designação de "três sábios do sudeste".

Observação da natureza

Zhu Xi escreveu sobre fenômenos celestes, minerais e mudanças na paisagem. Em uma conversa registrada por seus discípulos, comparou a forma de seis pontas da neve à de certos cristais minerais. Joseph Needham e Lu Gwei-Djen estudaram essa observação; seus comentários sobre conchas fósseis nas montanhas também foram examinados por historiadores da filosofia natural. A leitura de Needham foi discutida por historiadores da ciência. As explicações de Zhu Xi pertenciam à filosofia natural de seu tempo, na qual as relações entre yin, yang e os cinco processos tinham lugar central.

Práticas religiosas

Estátua de Zhu Xi diante de um altar com ornamentos coloridos.
Uma imagem de Zhu Xi em templo de Taipé mostra sua veneração posterior; durante a vida, ele também praticou ritos e discutiu espíritos e ancestrais.

Na juventude, Zhu Xi se interessou pelo budismo, antes de estudar com Li Tong. Mais tarde criticou doutrinas budistas e cerimônias funerárias que julgava incompatíveis com seus princípios confucionistas. Durante seu serviço em Zhangzhou, tentou restringir a ordenação de mulheres e certas atividades nos templos, mas também conviveu com monges e trocou poemas com eles.

Fez ritos em homenagem a Confúcio e Fuxi, orou por chuva, consultou o I Ching e admitia a existência de espíritos. Suas ideias sobre ancestrais e sacrifícios não cabem bem na afirmação de que rejeitava qualquer culto aos mortos. Em 1195, quando cogitava enviar uma defesa de Zhao Ruyu à corte, recorreu à adivinhação e desistiu de apresentar o texto.

Na interpretação de Zhu Xi, Tian, o Céu, e a suprema polaridade não precisavam ser descritos como a vontade de um deus pessoal. Isso não excluía suas práticas rituais nem sua discussão sobre espíritos e ancestrais, temas que permaneceram em sua leitura dos clássicos.

Na prática chamada jingzuo, sentava-se em quietude para examinar os próprios pensamentos. A semelhança externa com formas budistas de meditação não apaga o objetivo confucionista que atribuía ao exercício, ligado à atenção e à formação moral.

Além de comentar os clássicos, Zhu Xi estudou como realizar os ritos na vida familiar e pública. O Jiali (Ritos familiares) descreve cerimônias de maioridade, casamento, funeral e culto aos ancestrais; o Yili jingzhuan tongjie reúne e interpreta textos rituais antigos. Essas obras tiveram longa circulação no leste da Ásia.

Recepção e controvérsias

Portão de um complexo de exames imperiais em uma praça de Nanjing.
O antigo centro de exames de Jiangnan, em Nanjing, lembra o sistema no qual os comentários de Zhu Xi se tornaram leitura obrigatória.

A posição ocupada por Zhu Xi nos exames imperiais fez de seus comentários uma leitura obrigatória para gerações de estudantes, mas sua atuação já dividia os contemporâneos. Seu discípulo Huang Gan o elogiou por retomar a transmissão dos antigos mestres e organizar os ensinamentos de Confúcio, Mêncio, Zhou Dunyi, Cheng Yi e Zhang Zai. Quan Zuwang, em Casos de estudos da filosofia nas dinastias Song e Yuan, escreveu que Zhu Xi reuniu tradições antes separadas e criticou o que via como limites das escolas rivais.

No relato biográfico que escreveu sobre o mestre, Huang Gan apresentou uma sucessão de estudiosos que parte de Confúcio, passa por Zengzi, Zisi e Mêncio e chega aos pensadores da dinastia Song. Julgava que Zhu Xi dera forma clara a ensinamentos que seus predecessores haviam deixado dispersos. Quan Zuwang reconheceu o alcance dessa reunião, mas comparou as posições da escola de Zhu às de Jiangxi, de Zhejiang oriental e de Yongjia.

Qian Mu dedicou um extenso estudo a Zhu Xi e o colocou ao lado de Confúcio em sua história do pensamento chinês. Entre as críticas antigas, Xu Wei censurou a atitude de Zhu Xi em relação a outros escritores, acusando-o de exigir dos demais uma perfeição que buscava para si. No século XVIII, Yan Yuan atacou a ênfase no estudo de livros e na meditação, que considerava insuficiente para a ação. Comparou a divisão do dia entre sentar-se em silêncio e ler à alternância entre a vida monástica e o estudo textual, e julgou que a falta de exercício enfraquecia os estudantes. Durante o Movimento de Quatro de Maio, críticos do neoconfucionismo de Cheng e Zhu o aproximaram da ordem política imperial.

Uma anotação atribuída ao jovem Mao Zedong em livros de Zhu Xi menciona seu interesse pelas questões do fundamento e da compreensão do mundo.

Em interpretações do século XX, Hu Shi valorizou o aspecto empírico de sua investigação, ao passo que Feng Youlan aproximou o li das formas platônicas. Qian Mu procurou explicar seus conceitos no contexto da tradição filosófica chinesa. Essas leituras distintas mostram como o sentido do li e o peso da observação continuaram em debate.

O caso Yan Rui e os relatos posteriores

Na disputa política com Tang Zhongyou, Zhu Xi apresentou denúncias contra o funcionário. Um estudo dos memoriais de acusação concluiu que os vínculos familiares e locais tiveram papel importante nos abusos atribuídos a Tang. O episódio foi recontado em Registros de Yijian, de Hong Mai, e na coletânea literária Surpresas ao bater na mesa pela segunda vez. Nesses relatos, Yan Rui, artista ligada à administração local, teria sido presa e pressionada a acusar Tang. As versões não são concordantes e a narrativa literária não prova todos os acontecimentos que descreve. Shu Jingnan considerou que havia fundamentos para as acusações administrativas contra Tang, mas questionou partes da história transmitida por Hong Mai.

Página antiga impressa com colunas verticais de caracteres chineses em tinta preta.
Exemplar de 1219 do Zizhi Tongjian Gangmu: Zhu Xi e seus discípulos reorganizaram a história de Sima Guang em entradas principais e comentários.

Zhu Xi defendeu em uma petição que, nos litígios, as relações de hierarquia familiar e social deviam ser examinadas antes da disputa concreta. O filósofo Dai Zhen mais tarde criticou o uso dessas normas morais para justificar decisões injustas, numa crítica lembrada pela expressão "matar com o princípio".

Zhu Xi também se interessava pelo feng shui e discutia a escolha dos locais de sepultamento com o discípulo Cai Yuanding. A atribuição de cada túmulo familiar a uma escolha pessoal sua depende de tradições locais. Em sua casa, o nome Ziyang lembrava uma colina de Shexian onde o pai havia estudado, e acabou empregado como um de seus nomes de mestre. Uma crônica da queda da dinastia Song conta que Zhu Jun, apresentado como descendente de Zhu Xi, se enforcou quando as tropas mongóis chegaram a sua casa em Jianning.

Obra histórica

Zhu Xi e seus discípulos trabalharam na Síntese e comentários do Espelho abrangente para ajudar no governo, em 59 volumes. A obra reorganizou a cronologia da história chinesa em entradas principais e comentários e avaliou as dinastias segundo a legitimidade que lhes atribuía. Nessa obra, tratou Shu Han como herdeiro legítimo da dinastia Han durante o período dos Três Reinos. O historiador Conrad Schirokauer observou, porém, que a ideia de legitimidade de Zhu Xi mudou em seus últimos anos e que seus escritos também revelam atenção à crítica das fontes. Zhang Taiyan criticou o peso dado ao julgamento moral nessa obra.

Recepção em língua portuguesa e em Macau

Fotografia histórica da fachada e da escadaria das ruínas de São Paulo, em Macau.
As ruínas de São Paulo recordam a presença jesuíta em Macau; ali, no século XX, o jesuíta português Joaquim Guerra publicou traduções dos clássicos confucionistas.

A relação documentada de Zhu Xi com o mundo lusófono é posterior à sua vida e se dá pela leitura e tradução dos clássicos. Em Macau, então sob administração portuguesa, o jesuíta Joaquim Guerra publicou, a partir de 1979, traduções de clássicos chineses para o português. Sua interpretação divergia de leituras dos textos confucionistas apoiadas nos comentários de Zhu Xi: Guerra procurava recuperar o que entendia como o sentido religioso dos textos antigos.

No Brasil, Giorgio Sinedino traduziu Os Analectos para uma edição da Editora Unesp publicada em 2012. O livro reúne comentários antigos, e o tradutor afirmou que o comentário de Zhu Xi foi uma de suas principais referências para compreender e verter as passagens de Confúcio. É um exemplo de como a obra de Zhu Xi continua a participar da leitura desses textos em português.

Homenagens

Vista externa do templo dedicado a Zhu Xi na ilha de Kinmen.
Em Kinmen, o templo de Zhu Xi reúne a memória do pensador às práticas de ensino e às cerimônias locais em sua homenagem.

A memória de Zhu Xi é preservada em academias, templos e cerimônias. Em Youxi, sua terra natal, há registros de ritos em sua homenagem desde 1237, quando se construiu um templo dedicado a ele e ao pai. A cerimônia local em seu aniversário foi reconhecida em 2011 como patrimônio cultural imaterial da província de Fujian. O reconhecimento é provincial; em 2026, as autoridades ainda preparavam a candidatura da cerimônia à lista nacional.

Na ilha de Kinmen, o templo dedicado a Zhu Xi integra a Academia Wujiang. Construído na época Qing, continua a ser usado em cerimônias anuais em sua homenagem e é protegido como monumento histórico em Taiwan.

Na Academia Yuelu, em Changsha, uma escultura representa o diálogo entre Zhu Xi e Zhang Shi, realizado em 1167 e lembrado na história da academia como Zhu-Zhang huijiang. Em Wuyuan, o templo de Wengong foi reconstruído em 2018. Em Huangdun, hoje parte de Huangshan, componentes do arco comemorativo Luomin suben, associado à tradição de Cheng e Zhu, foram recuperados em 2019. O arco foi reerguido no local em 2021 e incluído na lista de bens protegidos pela província de Anhui em 2026.

Caligrafia

Página de caligrafia chinesa com traços de tinta preta e dois selos vermelhos.
Outra página da carta de 1194 permite observar a escrita corrente que se conservou entre os manuscritos atribuídos a Zhu Xi.

Zhu Xi aprendeu a escrever com o pai e professores próximos da família. Na caligrafia chinesa, estudou modelos que textos antigos relacionam a Cao Cao, além da escrita de Zhong Yao e Yan Zhenqing; a identificação do modelo inicial com Cao Cao foi questionada por estudiosos. Praticou as escritas regular e cursiva. As peças conservadas são, em grande parte, cartas curtas. Obras atribuídas a ele se encontram em coleções da China, de Taiwan e do Japão. Algumas atribuições feitas em seu nome são falsas; um estudo de história da dinastia Song contesta a autenticidade do Rolo da cabana e de uma versão do Clássico dos Mil Caracteres. No primeiro, pesquisadores identificaram um texto de Tu Long, escritor da época Ming, posterior à vida de Zhu Xi. Os colofões atribuídos a Wen Tianxiang, Fang Xiaoru, Tang Yin e Hai Rui, assim como um selo com o nome de Zhu Yunming, não provam a autenticidade do rolo.

Manuscritos e rolos

Página de álbum com caracteres chineses grandes em tinta preta sobre papel claro.
Neste álbum conservado pelo Museu Nacional do Palácio, a caligrafia atribuída a Zhu Xi registra uma passagem do Livro das Mutações sobre a suprema polaridade e os trigramas.

Inscrições em pedra

Placa retangular de pedra gravada com caracteres chineses, vista de cima.
Uma placa de pedra em Lanting conserva uma inscrição atribuída à caligrafia de Zhu Xi, exemplo da transmissão de sua escrita em pedra.

Estilo e recepção da caligrafia

A tradição elogiou a escrita corrente e cursiva de Zhu Xi, mas os exemplares exigem atenção à proveniência e à autenticidade. O Museu do Palácio, em Pequim, conserva seu rolo de poemas escritos em resposta a Zhang Shi; o Museu Nacional do Palácio, em Taipei, conserva cartas e um álbum sobre o Livro das Mutações. Essas peças permitem comparar diferentes formas de sua escrita.

Principais escritos

Zhu Xi escreveu comentários sobre os clássicos, tratados filosóficos, poemas, cartas e textos destinados ao ensino. As conversas anotadas pelos discípulos foram reunidas depois de sua morte em Zhuzi yulei, preservando perguntas e respostas em uma linguagem mais próxima da fala que a dos tratados clássicos. Editou com Lü Zuqian Jinsi lu, uma coletânea de passagens de autores neoconfucionistas anteriores.

Páginas abertas de livro japonês antigo impresso com caracteres chineses.
Esta edição japonesa do Jinsi lu, preparado com Lü Zuqian, mostra a leitura de uma obra de Zhu Xi fora da China.

Seus escritos foram reunidos em Coletânea de Zhu Wengong e suas conversas, em Zhuzi yulei, compilado por Li Jingde. A quantidade exata das obras varia conforme a maneira de contar edições e compilações.

Ver também

Notas

  1. ↑ O jinshi era um grau obtido nos exames para ingressar na elite de funcionários do império. Passar na prova abria caminho para uma carreira pública, mas não significava receber imediatamente um cargo.
  2. ↑ A data original segue o calendário usado pela corte Song, que contava os anos pelo nome de cada período de governo e os meses por um calendário lunissolar. A data de outubro é a conversão para o calendário atual.
  3. ↑ Os trigramas são conjuntos de três linhas, inteiras ou interrompidas, usados no Livro das Mutações para representar padrões de mudança. Aqui aparecem em uma história sobre as perguntas que Zhu Xi fazia quando criança.
  4. ↑ A renda dessas terras ajudava a manter cerimônias em memória dos antepassados. Cuidar delas também fazia parte das obrigações atribuídas à família.
  5. ↑ Era um cargo local da administração imperial. Entre suas tarefas estavam registros, impostos e assuntos da escola, sob a autoridade de outros funcionários.
  6. ↑ Essas academias eram centros de ensino e debate dos clássicos, muitas vezes ligados a mestres e apoiadores locais. Não eram universidades no sentido atual.
  7. ↑ O chanceler era um dos dirigentes mais influentes do governo imperial. Perder seu apoio podia deixar outros funcionários expostos a acusações e afastamentos.
  8. ↑ Censores eram funcionários encarregados de fiscalizar e denunciar a conduta de outros agentes do governo. Seus relatórios também podiam ser usados em disputas políticas.
  9. ↑ Era uma distinção muito alta da corte. Como Zhu Xi já havia morrido, a concessão reconhecia sua reputação e não lhe dava novas tarefas.
  10. ↑ A tabuleta trazia seu nome e marcava sua inclusão entre os estudiosos homenageados nos ritos do templo. Não se tratava de um retrato.
  11. ↑ Em edições antigas, distinguia-se uma passagem tida como núcleo da obra das explicações acrescentadas à sua volta. Zhu Xi propôs uma maneira específica de separar e ler essas partes.
  12. ↑ “Celeste” aqui se refere à ordem moral que Zhu Xi buscava reconhecer nas coisas. A frase não significa, por si só, que todas as emoções humanas fossem ruins.
  13. ↑ A palavra remete à ideia de pesar uma situação. A pergunta é se seguir uma regra ao pé da letra ajudaria ou prejudicaria as pessoas naquele caso.
  14. ↑ “Quietude” descreve um exercício de atenção e recolhimento. A discussão era sobre como essa atenção se relacionava com o que a pessoa fazia fora dos momentos de silêncio.
  15. ↑ “Sudeste” situa os círculos de estudo ligados a esses mestres na China de sua época. É um nome dado pela tradição, não um título oficial que os três receberam juntos.
  16. ↑ Antes de existirem as disciplinas científicas atuais, estudiosos também procuravam explicar plantas, minerais e fenômenos celestes por meio de ideias filosóficas. Isso ajuda a entender o tipo de pergunta que Zhu Xi fazia.
  17. ↑ Ordenação é a entrada formal na vida religiosa budista, como monja. A medida mencionada tratava desse vínculo institucional com os templos.
  18. ↑ Nesse contexto, “sacrifícios” costuma designar oferendas rituais, como alimentos e bebidas, feitas em homenagem a antepassados; a palavra não implica necessariamente violência.
  19. ↑ Esses ritos assinalavam publicamente a passagem da juventude para as responsabilidades da vida adulta, com formas diferentes para homens e mulheres.
  20. ↑ Essa sequência expressa uma ideia de transmissão dos ensinamentos de mestre para mestre. É uma forma de situar Zhu Xi nessa tradição, não uma árvore genealógica.
  21. ↑ Funcionários escreviam petições ou memoriais à corte para propor medidas e defender posições. O texto registrava um argumento de Zhu Xi sobre como julgar disputas.
  22. ↑ Para Zhu Xi, contar quem governou não bastava: era preciso decidir quem tinha o direito de ser considerado continuador da ordem imperial. Essa escolha moral moldava sua narrativa histórica.
  23. ↑ São estilos da caligrafia chinesa. A escrita regular separa os traços com clareza; na cursiva, os movimentos do pincel podem se ligar e ganhar mais rapidez.
  24. ↑ Um colofão é uma anotação acrescentada a um manuscrito, geralmente por alguém que o leu ou colecionou. Numa obra falsificada, as assinaturas também podem ter sido inventadas.

Referências

  1. ↑ Coletânea classificada dos escritos completos de Zhuzi, volume 1, "Origem dos ramos familiares".
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Bibliografia

Estudos em chinês disponíveis online

Traduções e edições

Leitura adicional

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