Cristóvão Colombo

 Nota: Para outros significados, veja Cristóvão Colombo (desambiguação).
Cristóvão Colombo
(em lígure: Christoffa Corombo em italiano: Cristoforo Colombo em latim: Christophorus Columbus)
Provável retrato de Colombo por Sebastiano del Piombo, 1519. Não há retratos autenticados de Colombo.
Nome completoChristoffa Corombo
Outros nomes
Nascimento
Morte
20 de maio de 1506 (54 anos)

Nacionalidadegenovês
ProgenitoresMãe: Susanna Fontanarossa
Pai: Domingos Colombo
Parentesco
CônjugeFilipa Moniz
ParceiroBeatriz Enríquez de Arana
Filho(a)(s)
Ocupação
Cargo
Serviço militar
PaísCoroa de Castela
ReligiãoCatólico
Assinatura

Cristóvão Colombo (em lígure: Christoffa Corombo; em italiano: Cristoforo Colombo; em latim: Christophorus Columbus) (Génova, entre 26 de agosto e 31 de outubro de 1451 – Valladolid, 20 de maio de 1506) foi um navegador, explorador, cartógrafo e almirante genovês que liderou quatro viagens através do oceano Atlântico ao serviço dos monarcas Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão. Na primeira delas, a sua frota chegou às Caraíbas a 12 de outubro de 1492, num acontecimento tradicionalmente conhecido como o descobrimento da América, quando procurava alcançar a Ásia navegando para oeste. Em viagens posteriores alcançou a costa setentrional da América do Sul e percorreu parte da costa caribenha da América Central.

O seu nome em italiano é Cristoforo Colombo, em latim Christophorus Columbus e em espanhol, Cristóbal Colón. Este antropónimo inspirou o nome de um país, a Colômbia, e de duas regiões da América do Norte: a Colúmbia Britânica, no Canadá, e o Distrito de Colúmbia, nos Estados Unidos. Está enterrado na catedral de Sevilha, na Espanha.

Embora navegadores nórdicos tenham estado na América do Norte em 1021, quase cinco séculos antes da primeira viagem de Colombo, as viagens de Colombo abriram um período de contacto transatlântico duradouro entre a Europa e as Américas e de expansão, conquista e colonização europeias no continente. Nos primeiros anos da colonização das Antilhas, Colombo promoveu também a escravização de indígenas, propondo o envio de cativos para Castela como forma de financiar a empresa colonial.

Antecedentes familiares

A chamada Casa de Colombo, em Génova, reconstrução posterior do edifício onde a família viveu durante parte da juventude de Cristóvão.

A documentação notarial genovesa situa a família de Colombo em Génova em 1451, época do seu nascimento. Marianne Mahn-Lot, no Dizionario Biografico degli Italiani, situa o nascimento no vico dell'Olivella, junto da torre e porta do mesmo nome, enquanto Giovanni Nuti considera igualmente provável que tenha ocorrido na casa que o pai ocupava nessa zona.

Era filho de Domenico Colombo e de Susana Fontanarossa, filha de Giacomo Fontanarossa, tecelão estabelecido no vale do Bisagno. O avô paterno, Giovanni Colombo, era originário de Moconesi, no Val Fontanabuona, encontrando-se já estabelecido em Quinto antes de 1429. Domenico tinha pelo menos um irmão, Antonio Colombo, e uma irmã, Battistina Colombo, casada com Giovanni Fritalo. Num acto de 20 de abril de 1448, Domenico e Antonio, descritos como habitantes de Quinto e filhos do já falecido Giovanni, reconheceram perante notário uma dívida a Pasquale Fritalo, pai de Giovanni, correspondente ao restante da dote de Battistina.

A 21 de fevereiro de 1429, quando tinha cerca de onze anos, Domenico foi colocado pelo pai como aprendiz de Guglielmo di Brabante, tecelão de panos em Génova, para aprender o ofício durante seis anos. Em 1439 aparece já documentado como mestre tecelão, contratando por sua vez um aprendiz. Em 1440 tomou de aforamento uma casa com terreno no carrubeus Olivelle, em Génova. Em fevereiro de 1447 foi nomeado guarda da torre e da porta da Olivella, cargo para o qual voltou a ser nomeado em novembro de 1450 e que exerceu até setembro de 1451, sem abandonar o ofício de tecelão.

Domenico dedicou-se posteriormente a actividades comerciais. A partir de 1470 aparece alternadamente em Génova e Savona, exercendo, além da tecelagem, a actividade de taberneiro e participando no comércio de vinho. A sua situação financeira deteriorou-se nas décadas seguintes; em 1483 chegou a arrendar parte da casa e da oficina genovesas, e em 1489 teve de ceder a casa ao genro Giacomo Bavarello para liquidar a dote que não conseguira pagar à filha Bianchinetta.

Domenico Colombo e Susana Fontanarossa tiveram cinco filhos: Cristóvão, Giovanni Pellegrino, Bartolomeu, Giacomo e Bianchinetta. Num acto de 7 de agosto de 1473, Susana aparece acompanhada por Cristóvão e Giovanni Pellegrino, ambos já com capacidade jurídica para consentirem na venda de uma propriedade familiar. Giovanni Pellegrino, provavelmente o segundo filho do casal, morreu antes de 21 de julho de 1489, data em que já não figura entre os filhos de Domenico. Bianchinetta casou em 1489 com o queijeiro genovês Giacomo Bavarello. Um acto notarial de 26 de outubro de 1517, quando Bianchinetta já era falecida, identifica o filho do casal, Pantaleone Bavarello, então com mais de vinte e sete anos, como seu único filho e herdeiro. O irmão mais novo, Giacomo — posteriormente conhecido em Castela como Diogo Colombo — aprendeu o ofício de tecelão antes de se juntar aos irmãos nas Índias.

Vários documentos notariais genoveses e savonenses atestam a ausência dos três filhos de Domenico, Cristóvão, Bartolomeu e Giacomo, e a sua presença nos domínios da Coroa espanhola. Em 1489, no litígio relativo à dote de Bianchinetta, Domenico, então viúvo, figura como legítimo administrador dos bens dos seus três filhos ausentes, Cristóvão, Bartolomeu e Giacomo, herdeiros de Susana Fontanarossa. A 11 de outubro de 1496, Giovanni Colombo de Quinto e os irmãos Matteo e Amighetto, filhos do já falecido Antonio Colombo, acordaram que Giovanni se dirigiria a Espanha, a expensas comuns, para procurar «Cristóvão Colombo, seu primo, Almirante do Rei de Espanha». Giovanni acabaria por encontrar o primo e acompanhá-lo na terceira viagem. Em 1501, vizinhos da família em Savona declararam sob juramento que Cristóvão, Bartolomeu e Giacomo Colombo, filhos e herdeiros do falecido Domenico, estavam «há muito tempo afastados da cidade e território de Savona, para lá de Pisa e de Nice em Provença, e que vivem em Espanha, como toda a gente sabe e o sabia já».

Primeiros anos

Colombo infante, de Giulio Monteverde (Museo delle Culture del Mondo, Castell d'Albertis, Génova)

O intervalo provável do nascimento de Colombo foi estabelecido a partir de dois documentos notariais: Num acto de 31 de outubro de 1470, lavrado em Génova pelo notário Nicolò Raggio, Cristóvão, identificado como filho de Domenico Colombo, aparece como tendo mais de dezanove anos (maior annis decem novem). Com autorização do pai, reconheceu uma dívida de 48 libras, 13 soldos e seis dinheiros genoveses a Pietro Bellesio, relativa a vinho anteriormente fornecido a ambos. O documento conserva-se no Arquivo do Estado de Génova, entre os actos do notário Nicolò Raggio, filza 2, n.º 905. Em 25 de agosto de 1479, num depoimento prestado em Génova no âmbito de um litígio comercial entre Ludovico Centurione e Paolo di Negro, Colombo declarou ter cerca de vinte e sete anos. A comparação deste testemunho, conhecido como documento Assereto, com o acto de 1470 permitiu estabelecer como intervalo provável do nascimento o período entre 26 de agosto e 31 de outubro de 1451.

Durante a juventude, Colombo participou nas actividades económicas da família, ligadas à tecelagem, ao comércio de lã e tecidos e à venda de vinho. No acto de 31 de outubro de 1470, tanto Cristóvão como Domenico são identificados como tabernarii, no contexto da aquisição de uma partida de vinho. Em 26 de agosto de 1472, Cristóvão voltou a figurar, juntamente com o pai, num contrato de aquisição de lã em Savona. A designação lanerius, utilizada nos documentos savonenses, podia referir-se à actividade mercantil de aquisição de lã e venda de tecidos, distinta do trabalho manual do tecelão (textor).

São escassas as informações documentais sobre a educação de Colombo. Bartolomé de las Casas elogiou a caligrafia de Cristóvão e do irmão Bartolomeu, levando alguns historiadores a admitir que tivessem recebido formação nessa arte. Colombo adquiriu também conhecimentos de cosmografia e de cartografia, embora não existam elementos seguros que permitam estabelecer onde e como os aprendeu. A tradição segundo a qual teria estudado na Universidade de Pavia não encontra confirmação documental.

A cronologia do início da sua actividade marítima é menos segura. Segundo a tradição transmitida por Fernando Colombo, o pai começou a navegar aos catorze anos, o que corresponderia aproximadamente a 1465. No entanto, no relato de 21 de dezembro de 1492, Colombo afirmou que navegava havia vinte e três anos, o que apontaria para um início por volta de 1469, quando teria dezassete ou dezoito anos. Numa carta de 1501, referiu mais de quarenta anos de experiência marítima, duração que não é possível conciliar literalmente com os restantes elementos da sua cronologia. Segundo Luís Filipe Thomaz, estas indicações retrospectivas devem ser entendidas como aproximadas, e não como datas rigorosas.

A permanência do nome de Colombo na documentação dos negócios de lã e vinho até 1473 não exclui, por si só, que já realizasse viagens marítimas, nomeadamente no comércio costeiro da Ligúria. Thomaz observa que, na Génova do século XV, a actividade marítima não era necessariamente uma ocupação exclusiva, podendo ser conciliada com outros ofícios e actividades mercantis. O cronista genovês Bartolomeo Senarega, ao registar em 1493 as notícias do regresso de Colombo da primeira viagem às Índias, escreveu que Cristóvão e o irmão Bartolomeu, depois de terem trabalhado no ofício paterno, se haviam dedicado à navegação ao atingir a adolescência, segundo o costume dos genoveses. Este testemunho confirma que a actividade marítima dos irmãos era conhecida em Génova, embora sem permitir determinar os itinerários ou as datas das primeiras viagens.

A ilha de Quios num mapa de Bartolomeo dalli Sonetti, publicado em 1485, próximo da época das viagens mediterrânicas atribuídas a Colombo.

Uma das primeiras viagens atribuídas a Colombo foi à ilha de Quios, no mar Egeu, então sob domínio genovês. A ilha era um centro de produção e comércio de mástique, resina extraída da aroeira, cuja exploração constituía um monopólio de uma sociedade mercantil genovesa, a maona de Quios. Nos relatos da primeira viagem às Antilhas e na carta enviada a Luis de Santángel em fevereiro de 1493, Colombo comparou resinas encontradas nas novas terras com a almécega de Quios, demonstrando conhecer as características do produto, a sua época de colheita e o valor comercial que representava para Génova. A viagem a Quios é geralmente situada em 1474 ou 1475. Luís Filipe Thomaz identifica duas expedições genovesas que poderiam corresponder à deslocação: uma frota comercial saída de Savona a 25 de maio de 1474, na qual participavam os armadores Gioffredo e Nicolò Spinola, e outra que partiu de Génova em setembro seguinte, incluindo um navio de Paolo di Negro, de quem Colombo viria a ser agente comercial em Lisboa. O historiador considera mais provável a participação nesta segunda expedição, embora nenhum documento conhecido identifique expressamente Colombo entre os seus tripulantes ou passageiros, não sendo possível, por isso, estabelecer se viajou como marinheiro, mercador ou agente comercial.

Outro episódio das primeiras navegações é conhecido por um fragmento de uma carta que Colombo dirigiu aos Reis Católicos em janeiro de 1495, conservado através das transcrições de Fernando Colombo e Bartolomé de las Casas, no qual o navegador afirma que Renato de Anjou, a quem chamou «rei Reinel», o enviara a Tunes para capturar uma galeaça denominada Fernandina. Quando se encontrava nas proximidades da ilha de São Pedro, ao largo da Sardenha, soube que a galeaça estava acompanhada por duas naus e uma carraca. Segundo o seu relato, os homens que o acompanhavam quiseram desistir da missão e regressar a Marselha para obter reforços. Colombo afirmou que simulou aceitar a decisão, mas alterou a orientação indicada pela agulha da bússola e continuou a navegar para sul durante a noite, alcançando ao amanhecer o cabo de Cartago, na costa da actual Tunísia. O fragmento não informa se a Fernandina foi efectivamente capturada, nem contém elementos que permitam datar a operação. Alguns historiadores situaram-na entre 1472 e 1475, embora essas datas sejam conjecturais. Thomaz considera pouco verosímil a descrição da travessia nocturna entre a Sardenha e a costa tunisina, que exigiria uma velocidade excessiva para as embarcações da época, questionando igualmente se Colombo teria realmente comandado a expedição, como o relato parece sugerir. Na interpretação do historiador, a galeaça estaria ligada a Ferrante I de Nápoles, rival de Renato de Anjou, não havendo elementos que permitam relacionar necessariamente o episódio com a guerra pelo trono de Aragão.

A tradição biográfica atribuiu também a Colombo relações com dois corsários conhecidos pelas alcunhas «Colombo, o Velho» e «Colombo, o Moço». O primeiro era Guillaume de Casenove, também chamado Coulon le Vieux, vice-almirante ao serviço da Coroa francesa; o segundo era o grego Jorge Paleólogo Bissipat, conhecido como Coulon le Jeune. A semelhança dos nomes originou conjecturas sobre um eventual parentesco com Cristóvão, que não se encontra documentalmente demonstrado. Fernando Colombo e Las Casas confundiram ainda acontecimentos relacionados com esses corsários, em particular, o combate travado ao largo do Cabo de São Vicente em agosto de 1485, entre navios franceses e embarcações venezianas, distinto do confronto ocorrido na mesma região em agosto de 1476, envolvendo navios mercantes genoveses e forças francesas.

Presença em Portugal

A data exacta da chegada de Colombo a Portugal não pode ser determinada com segurança. Fernando Colombo e Bartolomé de las Casas relacionaram-na com um combate naval ao largo do Cabo de São Vicente, no qual o navio em que Colombo seguia se teria incendiado, obrigando-o a alcançar a costa a nado. A tradição biográfica confundiu, porém, diferentes confrontos ocorridos naquela região: a batalha atribuída ao corsário conhecido como «Colombo, o Novo» ocorreu quando Colombo já se encontrava em Castela, enquanto um combate entre uma frota mercante genovesa e navios franceses está documentado em agosto de 1476. A participação de Colombo neste último confronto e a sua chegada a Lisboa na sequência dele são consideradas plausíveis, mas não permitem fixar por si sós o início da sua permanência portuguesa.

A primeira presença de Colombo em Portugal comprovada por documentação contemporânea encontra-se no chamado documento Assereto. No seu depoimento perante um notário de Génova, em 25 de agosto de 1479, Colombo declarou que em julho do ano anterior se encontrava em Lisboa com o mercador genovês Paolo di Negro, que o enviara à Madeira para adquirir mais de 2 400 arrobas de açúcar por conta da casa de Ludovico Centurione. A mercadoria deveria ser carregada no navio do capitão português Fernando de Palência, tendo Di Negro fornecido parte do dinheiro da compra a Colombo, sendo que o restante deveria chegar ao Funchal a tempo da transacção ser concretizada e da chegada do navio que deveria carregar o açúcar, o que não aconteceu, tendo os vendedores se recusado a concretizar a transacção. No mesmo documento é identificado como cidadão de Génova, afirmando que tencionava regressar a Lisboa no dia seguinte. A deslocação comercial à Madeira em 1478, demonstrada pela documentação não permite, no entanto, concluir que Colombo tivesse então residência permanente no arquipélago, nem se essa viagem foi ou não a sua primeira visita àquelas paragens. O caso da transacção de açúcar falhada acabou nos tribunais de Génova, onde Colombo, então com 27 anos, se encontrava a 25 de agosto de 1479, tendo prestado declarações na qualidade de testemunha e cidadão genovês. No dia seguinte, 26 de agosto de 1479, Colombo embarcaria novamente com destino a Lisboa.

Uma referência posterior do próprio Colombo documenta uma ligação directa ao Porto Santo: numa carta escrita aos Reis Católicos em janeiro de 1495, já em Hispaniola, aludiu a um poço que anteriormente mandara escavar naquela ilha, indicando uma intervenção pessoal no Porto Santo, embora sem permitir determinar a duração ou o carácter da sua permanência ali.

Casa que alberga o Museu Colombo na ilha do Porto Santo, na Madeira

Colombo atribuiu também a este período viagens pelo Atlântico Norte. Segundo um texto seu transmitido por Fernando Colombo, em fevereiro de 1477 teria navegado cem léguas para além de uma ilha denominada Thule, que tem sido geralmente identificada por historiadores com a Islândia. Colombo afirmou que a ilha se encontrava a 73° de latitude norte, e não a cerca de 63° como sustentavam outros, que era aproximadamente tão grande como a Inglaterra, que nela comerciavam ingleses, sobretudo de Bristol, que o mar não se encontrava gelado e que as marés atingiam vinte e seis braças. David Quinn assinala, contudo, várias dificuldades no relato: a latitude indicada colocaria a Islândia mais de seis graus demasiado a norte; fevereiro encontrava-se fora da época habitual de navegação e comércio naquela região, que decorria essencialmente entre maio e setembro; e não são conhecidas viagens de cerca de trezentas milhas para norte da ilha nesse período. Apesar destas incongruências, considera que a maioria dos investigadores aceita que o relato conserve a memória de uma viagem efectivamente realizada por Colombo, embora o seu alcance exacto não possa ser estabelecido com segurança.

Colombo deixou ainda uma anotação autógrafa na sua cópia da Historia rerum ubique gestarum, de Enea Silvio Piccolomini, na qual registou que, em Galway, na Irlanda, vira «um homem e uma mulher» sobre ou agarrados a dois madeiros, episódio que associou a homens vindos do Catai pelo Atlântico. A formulação latina da parte final da nota tem sido traduzida de formas diferentes, pelo que não é possível determinar com segurança a natureza exacta da embarcação ou dos objectos em que se encontravam.

A data do casamento de Colombo com Filipa Moniz permanece incerta. Henry Vignaud supôs que, em agosto de 1479, Colombo ainda não era casado nem estava definitivamente estabelecido em Portugal, baseando-se, entre outros elementos, no facto de o documento Assereto o identificar como cidadão de Génova. Luís Filipe Thomaz considera provável que o casamento tenha ocorrido depois da passagem do navegador por Génova, em 1479. Joel Silva Ferreira Mata, por outro lado, identificando a última presença conhecida de Filipa Moniz nas actas capitulares do Mosteiro de Santos-o-Velho em 16 de janeiro de 1477, e verificando que o seu nome já não figura nas reuniões de outubro e novembro desse ano, propôs com base nesta ausência que o casamento tivesse ocorrido no final de janeiro ou início de fevereiro de 1477, embora não tenha identificado documentação que comprove directamente a data do matrimónio. Filipa era filha de Isabel Moniz e de Bartolomeu Perestrelo, cavaleiro da casa do Infante D. Henrique, povoador e primeiro capitão do donatário do Porto Santo, de uma família com origem presumida em Placência. A família de Filipa Moniz estava ligada à administração municipal de Lisboa. Em 8 de junho de 1431, Bartolomeu Perestrelo, então casado com Margarida Martins, figurava como foreiro de umas casas pertencentes a D. João I, situadas na Rua Nova, junto à Porta da Erva, em Lisboa. Em 1438, exerceu o cargo de vereador da Câmara de Lisboa, juntamente com o irmão Richiarte Perestrelo. Pelo lado materno, Filipa era neta de Gil Aires, escrivão da puridade do condestável D. Nuno Álvares Pereira, e de sua mulher Leonor Rodrigues, pais de Isabel Moniz. A relação familiar encontra apoio na documentação relativa à capitania do Porto Santo: em 1458, Isabel Moniz e o irmão Diogo Gil Moniz intervieram, como tutores do jovem Bartolomeu Perestrelo, na venda da capitania a Pedro Correia da Cunha.

Filipa integrou a comunidade feminina do mosteiro de Santos-o-Velho, da Ordem de Santiago, em data incerta. Joel Silva Ferreira Mata considera possível que tenha ingressado por volta de 1468, embora a documentação por ele identificada confirme a sua participação nas reuniões capitulares apenas a partir de janeiro de 1470. Era uma dona professa da Ordem de Santiago, participando nas deliberações relativas à administração do património do mosteiro. Segundo Mata, não ocupou os cargos de comendadeira, vigária, sacristã ou mordoma, nem se conhece que usufruísse individualmente de rendimentos provenientes do património conventual. O último registo capitular identificado pelo historiador em que figura o nome de Filipa data de 16 de janeiro de 1477. Nessa reunião, presidida pela comendadeira Beatriz de Meneses, foi aprovado o emprazamento de propriedades situadas em Palma, no termo de Lisboa, a Afonso Figueira, cavaleiro da casa do príncipe D. João, mediante o pagamento de uma renda anual. Filipa já não aparece nas actas conhecidas das reuniões de 23 de outubro e 20 de novembro seguintes. Da união de Colombo com Filipa nasceu por 1480 o único filho legítimo de Colombo que se conhece, Diogo, depois nomeado pela Coroa Espanhola como 2º Almirante e Vice-rei das Índias.

A experiência portuguesa de Colombo incluiu viagens à costa ocidental africana. O próprio navegador afirmou ter estado na Guiné, utilizando posteriormente lugares e experiências africanas como termos de comparação nas descrições das terras americanas. Há igualmente referências suas a São Jorge da Mina, embora não se conheçam com segurança nem a data nem a função que desempenhou nessas viagens. Luís Filipe Thomaz considera provável que tenha realizado uma ou mais viagens à costa africana no âmbito das actividades comerciais a que se encontrava ligado, observando que Colombo não parece ter acompanhado José Vizinho e mestre Rodrigo na expedição régia de 1485.

Por volta de 1484, Colombo apresentou a D. João II o seu projecto de alcançar a Ásia navegando para oeste. Segundo João de Barros, o monarca entregou a proposta à apreciação de Diogo Ortiz, mestre Rodrigo e José Vizinho, a quem confiava matérias de cosmografia e descobrimentos. Barros afirma que os três consideraram as propostas de Colombo fundadas em conjecturas acerca de Cipango retiradas de Marco Polo. Não é possível determinar, contudo, se a avaliação incidiu especificamente sobre as dimensões do globo e a distância entre a Europa e a Ásia pelo ocidente, embora Colombo efectivamente subestimasse essa distância.

Já em Castela, Colombo voltou a procurar o apoio português. No início de 1488 escreveu a D. João II, provavelmente de Sevilha, solicitando um salvo-conduto para regressar ao reino. A carta de Colombo não se conservou, sobrevivendo, no entanto, a resposta do rei, datada de 20 de março de 1488. D. João II tratou-o por «amigo», manifestando o desejo de que regressasse, assegurando-lhe expressamente que, durante a ida, permanência e regresso, não seria preso, retido, acusado, citado ou demandado por questões civis ou criminais. Uma anotação de Colombo relativa ao regresso de Bartolomeu Dias e à sua comunicação com D. João II em dezembro daquele ano tem sido interpretada como indício de que Colombo se encontrava então novamente em Portugal.

Projecto de Colombo

"Mapa de Colombo", Lisboa, oficina de Bartolomeu e Cristóvão Colombo, c. 1490

O projecto de Colombo consistia em alcançar a Ásia navegando para oeste através do oceano Atlântico. A possibilidade teórica de uma rota ocidental não dependia de demonstrar a esfericidade da Terra, ideia conhecida pela cosmografia europeia da época, mas sobretudo da distância que separaria a Europa da Ásia pelo ocidente. Entre os factores discutidos pelos cosmógrafos encontravam-se a extensão longitudinal das terras conhecidas, a circunferência do globo, o comprimento atribuído a cada grau e a proporção entre as superfícies terrestres e oceânicas.

Colombo adoptou argumentos de uma tradição cosmográfica segundo a qual a parte habitada do mundo se estendia muito para oriente, deixando entre a Espanha e a Ásia uma extensão de oceano relativamente pequena. Entre as obras que utilizou encontrava-se a Imago Mundi, de Pierre d'Ailly, que anotou abundantemente e na qual encontrou argumentos derivados de Roger Bacon, Aristóteles, Plínio e outros autores acerca da proximidade entre os extremos oriental e ocidental do mundo habitado. A distância real era, porém, muito superior àquela que Colombo considerava navegável; a sua empresa só alcançou terra dentro da distância prevista porque entre a Europa e a Ásia se encontravam as Américas.

As objecções apresentadas ao projecto em Portugal e posteriormente em Castela também se apoiavam em concepções cosmográficas então respeitáveis. Os seus opositores consideravam que a extensão das terras conhecidas era menor e, por consequência, que o oceano entre a Europa e a Ásia seria demasiado vasto para a viagem proposta. A expansão marítima portuguesa ao longo da costa africana forneceu, entretanto, novos dados empíricos acerca da extensão das terras para sul, que foram utilizados no debate sobre a configuração e dimensão do mundo habitado. Deste modo, a controvérsia em torno da viabilidade do projecto dizia respeito sobretudo à dimensão do mundo habitado, à relação entre as superfícies de terra e água e à distância oceânica entre a Europa e a Ásia, e não à esfericidade da Terra.

Influência de Toscanelli

Mapa atribuído a Toscanelli

O humanista florentino Paolo dal Pozzo Toscanelli interessou-se por questões geográficas e pela extensão do mundo conhecido. Em 1474, dirigiu ao cónego português Fernão Martins uma carta acerca da possibilidade de alcançar a Ásia navegando para oeste, acompanhada por uma carta náutica que não se conservou. Uma cópia latina da carta a Martins, feita por Colombo, foi posteriormente encontrada entre os seus papéis.

Fernando Colombo e Bartolomé de las Casas afirmam que Cristóvão Colombo entrou depois em correspondência directa com Toscanelli e que este lhe enviou uma cópia da carta dirigida a Martins e da respectiva carta náutica. A autenticidade e a transmissão dessa correspondência têm, contudo, sido objecto de discussão historiográfica. Marianne Mahn-Lot assinalava em 1982 que predominava então entre os historiadores a aceitação da sua autenticidade, enquanto Patrick Gautier Dalché, numa revisão da história da cartografia publicada em 2007, considera apócrifa a correspondência entre Toscanelli e Colombo e chama a atenção para o carácter conjectural de várias reconstruções posteriores do papel do florentino.

Independentemente dessa controvérsia, a possibilidade de atingir a Ásia navegando para oeste não era uma ideia exclusiva de Toscanelli. Argumentos sobre a reduzida distância oceânica entre a Europa e a Ásia circulavam anteriormente nas obras de autores como Roger Bacon e Pierre d'Ailly, que fizeram parte do ambiente cosmográfico no qual se formou o projecto de Colombo.

O historiador Demetrio Ramos Pérez analisou a carta de Toscanelli a Fernão Martins, no contexto do ambiente português da época. Em 1452 teve lugar a viagem de Diogo de Teive, cuja rota antecipou a de Colombo, a qual tinha a intenção premeditada de fazer o reconhecimento do Atlântico oriental; nessa viagem encontrava-se o marinheiro Pedro Vásquez de la Frontera, que surge mais tarde em Palos angariando tripulantes para a expedição de Colombo, assegurando que se encontrariam as Índias; não é seguro, no entanto, que Teive tenha avistado terra. Nos anos seguintes, as doações de ilhas por achar nas chancelarias portuguesas parecem indicar suspeitas fundamentadas de terras nessas longitudes. Foi por esta altura, em 1474, que ocorre a consulta a Toscanelli, com o objetivo de confirmar estes avistamentos, e de inquirir sobre a possibilidade do oriente asiático estar mais perto do que o que se supunha. A concessão feita em 1475 a Fernão Teles volta a demonstrar as intenções portuguesas em encontrar ilhas intermediárias numa rota para o Atlântico ocidental.

Presença em Castela

A partir do início de 1485 Colombo passa a Castela. Em Córdova, onde acompanhava a corte, Colombo iniciou uma relação com Beatriz Enríquez de Arana, da qual nasceu Fernando Colombo, em 15 de agosto de 1488. Em 1493, atribuiu-lhe uma pensão anual de 10 000 maravedis, paga pelas rendas dos açougues de Córdova. Mais tarde, no seu testamento, encarregou o filho Diogo Colombo de assegurar a subsistência de Beatriz, declarando fazê-lo por razões de consciência que não especificou.

O Mosteiro de La Rábida, onde Colombo encontrou apoio de religiosos franciscanos durante as negociações para a sua primeira viagem.

Entre os contactos familiares de Colombo na Andaluzia encontravam-se parentes da sua mulher portuguesa, Filipa Moniz. Uma sua cunhada, identificada por Consuelo Varela como Briolanja Moniz, vivia na região de Huelva com o marido, Miguel Muliart. A identificação de Briolanja com Violante Moniz, frequente na historiografia, não é consensual: Nunziatella Alessandrini, ao analisar as referências familiares no testamento de Diogo Colombo de 1509, menciona Violante, mulher de Muliart, e Briolanja como duas tias distintas. O casal estava estabelecido em San Juan del Puerto, onde explorava terras arrendadas ao duque de Medina Sidonia. Um privilégio ducal de 20 de janeiro de 1493 confirma que o arrendamento era anterior à primeira viagem de Colombo, tendo a cedência dos terrenos provocado protestos dos habitantes, que anteriormente os utilizavam para aproveitamento comunitário. Segundo o testemunho do médico García Fernández, recolhido nos Pleitos Colombinos, Colombo pretendia encontrar-se com o marido da sua cunhada quando se deslocou à região de Palos de la Frontera e Huelva. A data exacta desse episódio permanece discutida. É igualmente provável que o filho mais velho do navegador, Diogo, tenha permanecido durante algum tempo ao cuidado destes parentes, embora García Fernández também tenha declarado que se encarregara do menino.

O percurso inicial de Colombo em Castela é conhecido sobretudo por testemunhos posteriores, cuja cronologia nem sempre é concordante. Segundo uma reconstrução de Luís Filipe Thomaz, terá desembarcado em Palos de la Frontera por volta de 1485 e visitado o Mosteiro de La Rábida, onde poderá ter conhecido o franciscano António de Marchena, que possuía conhecimentos de cosmografia e se tornou um dos primeiros defensores do seu projecto. Os depoimentos dos Pleitos Colombinos parecem, contudo, misturar acontecimentos desta primeira passagem com uma segunda estadia em 1491. O papel de Frei Juan Pérez, outro religioso de La Rábida, encontra-se sobretudo associado a esta última ocasião.

Colombo perante os reis católicos Fernando e Isabel, representado por Emanuel Leutze

Colombo deslocou-se depois à corte itinerante dos Reis Católicos. Thomaz considera provável que tenha sido recebido por Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão em Alcalá de Henares, a 20 de janeiro de 1486, embora a data e o local resultem de uma reconstituição historiográfica. O projecto foi submetido a uma junta presidida por Hernando de Talavera, da qual participou também Rodrigo Maldonado de Talavera, membro do Conselho Régio e um dos negociadores do Tratado das Alcáçovas. A junta reuniu-se em Salamanca, em finais de 1486, examinando a proposta com o auxílio de letrados, cosmógrafos e homens do mar. O parecer foi desfavorável, considerando-se que a viagem não poderia alcançar a Ásia nas condições propostas por Colombo.

A recusa não implicou o afastamento imediato do navegador da corte. Documentos da contabilidade régia registam pagamentos destinados ao seu sustento e às deslocações que efectuava ao serviço dos monarcas. Em 5 de maio de 1487 recebeu 3 000 maravedis, sendo identificado como «Cristóbal Colomo, estrangeiro». Outros pagamentos documentados incluem 4 000 maravedis em 27 de agosto, destinados à deslocação ao arraial régio junto de Málaga, 4 000 em 15 de outubro de 1487 e 3 000 em 16 de junho de 1488.

Após a sua última deslocação conhecida a Portugal, Colombo regressou a Castela, provavelmente no início de 1489, procurando outros patrocinadores. Segundo Bartolomé de las Casas, dirigiu-se inicialmente a Henrique de Gusmão, duque de Medina Sidónia, que não apoiou a empresa, e depois a Luís de la Cerda, duque de Medinaceli. Este acolheu-o em Puerto de Santa María dispondo-se, segundo Las Casas, a financiar uma expedição de três navios, embora consultando previamente os monarcas. A hospitalidade prestada pelo duque é corroborada por uma carta que enviou ao cardeal Pedro González de Mendoza em 19 de março de 1493, já depois do regresso da primeira viagem de Colombo.

Isabel preferiu que a empresa continuasse a ser examinada pela Coroa. Em 12 de maio de 1489 ordenou, por cédula régia, que as autoridades das localidades por onde Colombo passasse lhe fornecessem alojamento durante a deslocação à corte. O navegador voltou a ser recebido pela rainha, provavelmente em Jaén, embora se desconheça a data exacta da audiência. A decisão definitiva sobre a expedição continuou, porém, adiada enquanto prosseguia a Guerra de Granada.

Em 1491, após novas dificuldades nas negociações, Colombo chegou a considerar a possibilidade de procurar o apoio da corte francesa. Passou novamente por La Rábida, onde expôs a Frei Juan Pérez os resultados das suas diligências. Segundo o testemunho do médico García Fernández, o religioso procurou dissuadi-lo de abandonar Castela, enviando uma carta à rainha Isabel. A soberana respondeu solicitando que Colombo regressasse à corte, enviando-lhe 20 000 maravedis, destinados a custear a viagem e a sua apresentação. Entre os depoentes que confirmaram aspectos deste episódio encontrava-se Juan Rodríguez Cabezudo, que declarou ter emprestado uma mula para a deslocação de Frei Juan Pérez.

Em 2 de janeiro de 1492, Colombo encontrava-se junto da corte, assistindo à entrada dos Reis Católicos em Granada, como posteriormente registou no diário da primeira viagem. A proposta foi novamente discutida, desta vez no Conselho de Castela, onde suscitou objecções relacionadas tanto com a distância da travessia como com as recompensas e os poderes que Colombo reclamava. Apesar da oposição, a intervenção de figuras próximas dos soberanos, entre elas Luís de Santángel, Diego de Deza, Hernando de Talavera e Juan Cabrero, contribuiu para a reabertura das negociações e para a decisão régia de financiar a expedição.

As negociações culminaram nas Capitulações de Santa Fé, acordadas em 17 de abril de 1492 entre os monarcas e Colombo. O documento, redigido pelo secretário régio Juan de Coloma, compreendia cinco capítulos, nos quais eram enunciadas as concessões solicitadas por Colombo e aceites pelos soberanos. Caso a empresa tivesse êxito, Colombo receberia o título de almirante do Mar Oceano, vitalício e hereditário, com as prerrogativas associadas ao cargo de almirante-mor de Castela. Seria também nomeado vice-rei e governador-geral das ilhas e terras firmes que viesse a descobrir ou conquistar. Para o provimento dos cargos administrativos nesses territórios, teria direito a apresentar três candidatos para cada ofício, cabendo aos monarcas escolher um deles. No plano económico, receberia um décimo do valor líquido das mercadorias obtidas nos territórios abrangidos pelo seu almirantado, depois de deduzidas as despesas. Poderia ainda contribuir com um oitavo dos custos de futuras expedições comerciais e receber a oitava parte dos respectivos lucros. Foram-lhe reconhecidas também determinadas competências judiciais em litígios comerciais, condicionadas à jurisdição tradicional do almirantado e à justiça da pretensão.

Primeira viagem

Mapa com as quatro viagens de Colombo

Colombo partiu de Palos de la Frontera a 3 de agosto de 1492, à frente de três embarcações. A caravela Pinta pertencia então a Cristóbal Quintero, de Palos, sendo comandada por Martín Alonso Pinzón; a Niña, cujo nome oficial era Santa Clara, fora construída em Moguer, pertencia a Juan Niño e era comandada por Vicente Yáñez Pinzón, irmão de Martín Alonso. A nau Santa María, também denominada La Gallega, pertencia ao basco Juan de la Cosa, domiciliado em El Puerto de Santa María; Colombo fretou-a ao proprietário, seguindo nela como capitão-mor, enquanto Juan de la Cosa exercia as funções de mestre e Pedro Niño as de piloto. Os habitantes de Palos estavam obrigados a fornecer duas das caravelas para a expedição.

Poucos dias depois da partida ocorreu uma avaria no leme da Pinta. Colombo suspeitou que a ocorrência tivesse sido provocada deliberadamente pelo proprietário Cristóbal Quintero e por Gómez Rascón, embora não dispusesse de prova dessa suspeita. A frota demorou-se por isso quase um mês nas Canárias, onde a caravela foi reparada; o seu aparelho foi também alterado, substituindo-se no traquete a vela latina por uma vela redonda. Depois de completar os reparos e o reabastecimento, os três navios deixaram La Gomera em 6 de setembro e seguiram para oeste através do Atlântico.

Na madrugada de 12 de outubro foi avistada uma ilha do Arquipélago das Lucaias, conhecida pelos seus habitantes como Guanahani. O primeiro marinheiro a dar o sinal de terra foi Juan Rodríguez Bermejo, conhecido como Rodrigo de Triana, que seguia na Pinta. Colombo sustentou posteriormente que, cerca das dez horas da noite anterior, já observara ao longe uma luz intermitente e, com base nessa alegação, recebeu a pensão de 10 000 maravedis prometida pelos monarcas a quem primeiro avistasse terra. Colombo viria a consignar essa renda a Beatriz Enríquez de Arana.

Ilustração do desembarque de Colombo em São Salvador nas Bahamas

À ilha, Colombo deu o nome de San Salvador. Depois de desembarcar, tomou formalmente posse da terra em nome dos Reis Católicos, desfraldando o estandarte régio enquanto o escrivão da armada, Rodrigo de Escobedo, registava o acto. A identificação de Guanahani com uma localidade moderna continua discutida, tendo diferentes ilhas das Bahamas e das Turcas e Caicos sido propostas pela historiografia. Os habitantes que Colombo encontrou eram lucaios, população de língua arauaque integrada no mundo cultural taíno das Bahamas.

Nos primeiros contactos, os espanhóis trocaram pequenos objectos, como barretes, contas de vidro e guizos, por papagaios, fio de algodão, azagaias e outros produtos. Colombo registou que os habitantes não utilizavam ferro nas suas armas e observou que alguns, ao manusearem espadas europeias, se cortavam por desconhecerem o fio metálico. No mesmo relato avaliou-os simultaneamente como possíveis convertidos ao cristianismo e como pessoas que poderiam ser utilizadas como servidores. Fez ainda capturar seis indígenas para que aprendessem castelhano, servissem de intérpretes durante a viagem e fossem posteriormente apresentados aos monarcas.

A procura de ouro tornou-se desde cedo uma preocupação central. Colombo reparou nos pequenos ornamentos de ouro usados por alguns habitantes e procurou obter informações sobre a sua proveniência; em 13 de outubro registou igualmente uma troca de grande quantidade de algodão fiado por moedas de reduzido valor. Colombo interpretou estas informações à luz do seu objectivo de alcançar Cipango, o Japão descrito por Marco Polo.

As Antilhas no mapa elaborado por Juan de la Cosa em 1500.

Depois de explorar várias ilhas das Lucaias, Colombo dirigiu-se para a grande ilha a que os seus informadores chamavam Cuba, que julgou inicialmente poder corresponder a Cipango. Alcançou a costa norte de Cuba em 28 de outubro, prosseguindo para oeste-noroeste, explorando sucessivamente enseadas e rios. À medida que avançava, passou a considerar a possibilidade de Cuba não ser uma ilha, mas parte da costa do Catai, ou seja, da China de Marco Polo. Convencido de que se encontrava próximo dos domínios do grão-cã, Colombo enviou do chamado Rio de Mares dois homens para o interior: Luís de Torres, que conhecia hebraico, caldeu e árabe e fora escolhido como intérprete, e Rodrigo de Xerez, acompanhados por dois indígenas, esperando que localizassem a corte do soberano asiático. Os enviados regressaram quatro dias depois, em 5 de novembro, tendo encontrado apenas uma grande povoação local e o respectivo chefe, mas não qualquer corte asiática.

A 5 de dezembro, abandonando a tentativa de alcançar a ilha de Baneque, Colombo rumou para sueste em direcção a uma grande ilha a que os indígenas chamavam Bohío. No dia seguinte fundeou no primeiro porto da ilha, ao qual deu o nome de São Nicolau, a actual Môle-Saint-Nicolas, no Haiti. Impressionado pela semelhança que julgou encontrar entre as montanhas, vales e vegetação locais e as paisagens de Castela, em 9 de dezembro passou a designar a ilha por La Española, origem do nome Hispaniola.

Mapa de Hispaniola atribuído a Colombo, com indicação do forte de La Navidad e do Cibao.

Na noite de 24 para 25 de dezembro, a Santa María encalhou num recife ao largo da costa norte de Hispaniola. O cacique Guacanagarí e os habitantes da sua povoação ajudaram a recuperar pessoas, carga e materiais da embarcação. Colombo decidiu então aproveitar o madeiramento da nau para construir uma pequena fortificação, denominada La Navidad em referência ao dia do naufrágio. Trinta e nove homens permaneceram no assentamento. Colombo procurou deixar entre eles alguns ofícios considerados necessários à manutenção da colónia, incluindo um carpinteiro naval, um calafate, um bombardeiro, um tanoeiro, um físico e um alfaiate. O comando foi confiado a Diego de Arana, tendo Pedro Gutiérrez e Rodrigo de Escobedo como adjuntos. O sítio arqueológico de En Bas Saline, no actual Haiti, é considerado um forte candidato à localização da povoação de Guacanagarí e La Navidad, embora a identificação arqueológica exacta da fortificação ainda apresente problemas.

Na madrugada de 16 de janeiro de 1493, Colombo deixou Hispaniola com a Niña e a Pinta, levando consigo vários indígenas capturados ou retirados das ilhas durante a viagem. Tentou inicialmente rumar para uma ilha situada a sudeste, que os indígenas que o acompanhavam associavam aos caribes, mas o aumento do vento, as infiltrações de água nas caravelas e a inquietação da tripulação levaram-no a desistir e a pôr rumo à Europa. Seguiu para nordeste, procurando atingir as latitudes onde poderia aproveitar os ventos gerais de oeste no regresso à Península Ibérica, segundo a prática atlântica posteriormente conhecida como volta do mar.

Réplica de uma das embarcações da frota de Colombo

A 14 de fevereiro de 1493, entre as Antilhas e os Açores, uma violenta tempestade ameaçou destruir as duas embarcações e separou definitivamente a Pinta da Niña. Temendo morrer sem que a notícia da viagem chegasse aos monarcas, Colombo escreveu num pergaminho um relato do que descobrira, envolveu-o em pano encerado, colocou-o num barril e lançou-o ao mar, pedindo a quem o encontrasse que o fizesse chegar aos Reis Católicos. A Pinta, comandada por Martín Alonso Pinzón, acabou por aportar separadamente em Baiona, na Galiza. Durante a mesma tempestade, os tripulantes da Niña fizeram votos religiosos caso sobrevivessem. Por sorteio, coube ao próprio Colombo realizar uma peregrinação ao Mosteiro Real de Santa Maria de Guadalupe, transportando um círio de cinco libras. Segundo a tradição registada, foi na sequência desse voto que prometeu dar o nome de Guadalupe a uma das ilhas que encontrasse numa viagem posterior.

A 18 de fevereiro, depois de trinta e três dias de travessia, a Niña avistou Santa Maria, a mais meridional das ilhas dos Açores. Alguns tripulantes que desembarcaram para cumprir uma das promessas feitas durante a tempestade foram detidos pelas autoridades locais. O episódio originou um confronto entre Colombo e o capitão da ilha, referido nas cópias do diário como Juan de Castañeda e identificado na tradição açoriana como João da Castanheira, que alegou agir por ordem régia. Após negociações e ameaças de parte a parte, os tripulantes foram libertados e a caravela pôde prosseguir.

Novos temporais impediram Colombo de seguir directamente para Castela. Na noite de 4 de março, a violência do vento obrigou a Niña a procurar abrigo no rio Tejo; depois de reconhecer a Serra de Sintra, passou por Cascais e fundeou no Restelo, em Lisboa. A arribada não passou despercebida: D. João II, que se encontrava em Val do Paraíso, junto ao mosteiro de Santa Maria das Virtudes, perto da Azambuja, mandou chamar Colombo à sua presença. O êxito da viagem reabriu imediatamente a questão dos direitos portugueses e castelhanos no Atlântico; poucos meses depois iniciaram-se negociações que viriam a culminar no Tratado de Tordesilhas de 1494.

Colombo deixou Lisboa a 13 de março, chegando a Palos dois dias depois, sete meses e onze dias após a partida. A população recebeu-o em procissão. Por coincidência, Martín Alonso Pinzón chegou também naquele dia depois do seu regresso separado pela Galiza; os monarcas haviam-lhe ordenado que não se apresentasse na corte antes de Colombo, e Pinzón morreu pouco depois em Palos. Colombo seguiu por terra para Sevilha e daí para Barcelona, onde, em meados de abril, foi publicamente recebido por Isabel e Fernando.

Segunda viagem

Rota da segunda viagem de Colombo, entre 1493 e 1496

A segunda viagem teve já um carácter marcadamente colonizador. Colombo partiu de Cádis em 25 de setembro de 1493 à frente de uma frota de dezassete navios. As fontes divergem quanto à classificação das embarcações, pelo que a composição exacta entre naus e caravelas não é segura. Segundo a reconstrução de Luís Filipe Thomaz, seguiam cerca de 1 500 pessoas, entre tripulantes e futuros colonos, incluindo numerosos soldados e mestres de diversos ofícios. A armada transportava ainda 24 cavalos, dez éguas, três mulas, gado destinado à reprodução, sementes de trigo e cevada, mudas de árvores de fruto e cana-de-açúcar, material destinado à implantação de uma povoação permanente.

Depois de uma escala nas Canárias, a travessia atlântica foi bastante mais rápida que a da primeira viagem. Em 3 de novembro, a frota avistou a Dominica, seguindo depois por Marie-Galante e Guadalupe antes de alcançar Porto Rico.

Chegou a Hispaniola a 28 de novembro, onde encontrou o forte de La Navidad em ruínas, e sem encontrar sobreviventes entre os homens deixados no forte no ano anterior. A explicação recolhida pelos espanhóis atribuiu a destruição de La Navidad a conflitos entre os próprios colonos e a confrontos com comunidades indígenas, em particular com forças associadas ao cacique Caonabó. Colombo decidiu não reconstruir o estabelecimento naquele local e, em 7 de dezembro, a frota iniciou uma difícil navegação para leste ao longo da costa norte de Hispaniola, procurando um lugar mais adequado à colónia.

Vestígios das fundações do Armazém Real de La Isabela, no actual Parque Histórico e Arqueológico Nacional de La Isabela.

Os ventos contrários fizeram com que fossem necessários cerca de vinte e cinco dias para percorrer pouco mais de 160 quilómetros. No início de janeiro de 1494, a frota fundeou no local onde foi estabelecida La Isabela, assim denominada em homenagem à rainha Isabel I de Castela. O assentamento foi concebido como uma factoría régia e centro de administração e comércio, destinado a servir de base à colonização e à exploração dos recursos de Hispaniola, sobretudo do ouro.

Quase imediatamente começaram as explorações do interior da ilha em busca de ouro. A partir de 6 de janeiro de 1494, destacamentos espanhóis percorreram caminhos indígenas em direcção ao vale do Cibao, atravessando a Cordilheira Setentrional e recolhendo informações sobre as jazidas auríferas da região. Em 2 de fevereiro, Colombo enviou para Castela amostras de ouro do Cibao e outros produtos recolhidos em Hispaniola. A 12 de março, Colombo partiu pessoalmente de La Isabela para o Cibao à frente de cerca de quatrocentos homens e cavalaria. A expedição aproveitou e alargou caminhos indígenas através das montanhas, culminando na construção do Forte de Santo Tomás, destinado a apoiar a exploração do ouro e a controlar o acesso ao interior. Em abril, uma nova força foi enviada para Santo Tomás com instruções para explorar outras regiões da ilha, impor a autoridade castelhana e manter a ligação entre o interior e La Isabela.

Em 24 de abril de 1494, partiu de La Isabela para explorar Cuba, chegando à Jamaica a 5 de maio, onde encontrou resistência ao tentar fundear e estabelecer contacto com os habitantes. Depois de abandonar o primeiro ancoradouro, seguiu para oeste e entrou num porto a que chamou Santa Glória, passando depois a outro que denominou Puerto Bueno. A necessidade de obter água e lenha levou os espanhóis a tentar desembarcar apesar da oposição local, seguindo-se um confronto em que foram utilizadas bestas e bombardas; as fontes da época divergem quanto ao número de indígenas mortos ou feridos. Foi também nesse recontro que os espanhóis utilizaram um cão contra os habitantes da ilha.

Colombo regressou em seguida à costa meridional de Cuba, que continuava a interpretar dentro da geografia asiática. A partir de 19 de maio, os navios penetraram num extenso arquipélago de pequenos caios e ilhas a que Colombo deu o nome colectivo de Jardines de la Reina, designação que se conservou. A navegação fez-se por águas pouco profundas, entre recifes, canais estreitos e bancos de areia, obrigando frequentemente a manobras cuidadosas.

Prosseguindo para oeste, a expedição entrou no golfo de Batabanó, onde os navios tiveram de avançar entre caios, baixios e mangais, chegando em alguns trechos a ser safados com âncoras e cabrestantes. Colombo procurava simultaneamente o extremo ocidental de Cuba e informações sobre um soberano a quem os seus informadores chamavam Santo. Ao cabo de vários dias alcançou um promontório a que chamou Quersoneso de São João Evangelista, mas não encontrou nem o fim da terra nem o soberano procurado.

A 12 de junho de 1494, ainda sem ter alcançado o extremo ocidental de Cuba, Colombo mandou o escrivão Fernán Pérez de Luna tomar depoimento aos oficiais e tripulantes das três caravelas acerca da natureza da terra explorada. O auto deveria certificar que Cuba não era uma ilha, mas «terra firme», entendida no quadro geográfico de Colombo como parte do continente asiático ou do Catai. O procedimento incluía uma forte medida coerciva: os depoentes foram avisados de que, se posteriormente contradissessem a declaração, poderiam incorrer numa multa de 10 000 maravedis e no corte da língua; aos grumetes e outros tripulantes de condição inferior acrescentava-se a ameaça de cem açoites. Todos declararam que Cuba era terra firme. O documento foi posteriormente passado a limpo e registado em La Isabela em 14 de janeiro de 1495. Segundo Thomaz, a própria necessidade de impor tais sanções já revela dúvidas de Colombo quanto à identificação de Cuba como parte do continente asiático.

Durante a viagem de regresso, Colombo voltou a costear a Jamaica e a parte meridional de Hispaniola. A sua saúde deteriorou-se gravemente durante a navegação, levando a tripulação a abandonar um projecto de prosseguir para as ilhas dos caribes. A expedição regressou a La Isabela em 29 de setembro de 1494, encontrando Colombo ainda seriamente doente.

Durante a ausência de Colombo na exploração de Cuba e da Jamaica, chegou a Hispaniola o seu irmão Bartolomeu Colombo. As fontes divergem quanto à data exacta: Fernando Colombo situa a sua chegada em 14 de abril de 1494, enquanto Gonzalo Fernández de Oviedo situa-a em 28 de julho; Luís Filipe Thomaz considera esta última data mais compatível com a cronologia conhecida, uma vez que Colombo apenas deixara La Isabela em 24 de abril. Bartolomeu encontrou o governo entregue ao irmão mais novo, Diogo, e três navios que os Reis Católicos lhe haviam concedido para se juntar à expedição. Em 15 de outubro, pouco depois do seu regresso, Colombo nomeou Bartolomeu adelantado das Índias.

A enfermidade que acometera Colombo no final da viagem de exploração prolongou-se durante vários meses. Segundo o próprio, chegou a perder parcial ou totalmente a visão durante alguns períodos, e só em fevereiro de 1495 se encontrou novamente em condições de retomar plenamente a actividade.

Em março de 1495, Colombo voltou ao interior de Hispaniola, dirigindo-se à Vega Real e ao forte de Santo Tomás. Procurou estabelecer uma aliança com Guarionex, cacique de Maguá e adversário de Caonabó, num momento em que a escassez de alimentos se agravava em várias regiões da ilha. As fontes posteriores confundiram parcialmente os acontecimentos que se seguiram. Na reconstrução de Thomaz, a expedição de Colombo à Vega Real não resultou na grande batalha tradicionalmente descrita por alguns cronistas: as forças indígenas dispersaram-se e registaram-se sobretudo escaramuças. Uma batalha mais extensa ocorreu posteriormente na Maguana, onde uma força comandada por Alonso de Ojeda combateu partidários de Caonabó. Caonabó, a quem os espanhóis responsabilizavam pela destruição de La Navidad, foi entretanto capturado por Alonso de Ojeda. Os relatos acerca das circunstâncias da captura divergem; Bartolomé de las Casas, apoiando-se em testemunhos recolhidos em Hispaniola poucos anos depois, rejeitou versões que a apresentavam simplesmente como resultado de combate aberto. Caonabó permaneceu prisioneiro dos espanhóis e Colombo decidiu posteriormente enviá-lo a Castela.

Entretanto, as dificuldades da colónia e as queixas contra a administração de Colombo chegaram à corte dos Reis Católicos, que confiaram a Juan Aguado, antigo membro da segunda expedição e homem da confiança da rainha, uma missão de inspecção em Hispaniola. Aguado recebeu credenciais régias em abril de 1495 e partiu meses depois à frente de quatro caravelas, levando também uma grande quantidade de trigo, cevada, vinho, azeite, carne salgada, queijo, sementes, gado e medicamentos destinados a aliviar a crise de abastecimento da colónia. Aguado chegou a La Isabela em outubro de 1495, quando Colombo se encontrava novamente no interior da ilha. A extensão exacta dos seus poderes não é inteiramente clara nas credenciais conservadas, mas a sua presença agravou as tensões políticas existentes entre os colonos e a administração dos irmãos Colombo. Após o regresso de Colombo a La Isabela, os dois entraram em conflito acerca das respectivas competências. Colombo acabou por decidir regressar pessoalmente a Castela para apresentar a sua posição aos monarcas; ao contrário de relatos posteriores, não foi nessa ocasião enviado preso por Aguado.

Em 17 de fevereiro de 1496, Colombo passou procuração a Bartolomeu para exercer os seus poderes durante a sua ausência, recomendando-lhe que procurasse um local mais saudável para uma nova capital, em substituição de La Isabela. Em 10 de março partiu com Aguado nas duas caravelas disponíveis, a Niña, entretanto reparada, e a Santa Cruz, construída em Hispaniola. Levava consigo cerca de 225 espanhóis e trinta indígenas; depois de uma escala em Puerto de la Plata, deixou definitivamente Hispaniola em 22 de março.

A travessia de regresso foi excepcionalmente demorada. Depois de escalas nas Pequenas Antilhas, os navios enfrentaram durante semanas ventos contrários e falta de mantimentos, chegando parte da tripulação a propor que fossem lançados ao mar alguns dos indígenas transportados para reduzir o número de pessoas a alimentar. Em 8 de junho avistaram finalmente a costa portuguesa, que Colombo identificou com a região de Odemira, e em 11 de junho de 1496, depois de cerca de três meses de viagem, chegaram a Cádis.

Terceira viagem

Rota da terceira viagem de Colombo

Colombo iniciou a terceira viagem a 30 de maio de 1498, partindo de Sanlúcar de Barrameda com seis navios. Como circulava a notícia de que uma armada francesa o aguardava nas proximidades do Cabo de São Vicente, desviou-se da rota habitual e dirigiu-se ao arquipélago da Madeira. Chegou ao Porto Santo a 7 de junho, tomando aí lenha, água e mantimentos, e ouvindo missa. A população encontrava-se alarmada, por recear que a frota fosse francesa, tendo retirado bens móveis e gado para locais mais seguros. Colombo deixou a ilha nessa mesma noite, chegando ao Funchal a 10 de junho. Foi recebido com manifestações de festa, sendo, segundo Bartolomé de las Casas, bem conhecido na vila por ali ter vivido anteriormente. Fernando Colombo acrescenta que Colombo recebeu grande acolhimento do capitão da ilha, permanecendo com ele alguns dias enquanto se abastecia do necessário à continuação da viagem. Permaneceu ao todo seis dias na Madeira, abastecendo os navios de água, lenha e outros víveres necessários à viagem, partindo a 16 de junho.

A 19 de junho chegou a La Gomera, onde encontrou um corsário francês que havia apresado dois navios castelhanos. Aí dividiu a frota: três embarcações seguiram directamente para Hispaniola, transportando reforços e mantimentos, enquanto Colombo prosseguiu com as restantes três em direcção às ilhas de Cabo Verde, procurando terras mais a sul das Antilhas e as riquezas que acreditava concentrarem-se nas regiões próximas do Equador. A pequena frota deixou Santiago a 4 de julho. Cerca de uma semana depois entrou na zona de calmarias equatoriais, onde o calor e a humidade deterioraram parte dos mantimentos e danificaram algumas pipas. Receando prolongar a permanência naquela região, Colombo abandonou a intenção de avançar mais para sul e pôs rumo a oeste.

Mapa do golfo de Paria, entre Trinidad e a costa da actual Venezuela.

A 31 de julho, após vinte e sete dias desde a partida de Cabo Verde, avistou uma ilha a que deu o nome de Trinidad. Colombo associou o nome à sua devoção à Santíssima Trindade, e ao facto de o vigia ter distinguido três elevações na ilha. Ao contornar o extremo meridional de Trinidad, os navios encontraram fortes correntes e um fenómeno de macaréu, produzido pelo encontro da água doce proveniente do rio Orinoco com a maré oceânica. Colombo, que desconhecia a natureza do fenómeno, descreveu com temor a sucessão de vagas e correntes que ameaçou as embarcações. Ao estreito por onde penetrou no golfo deu o nome de Boca de la Sierpe («Boca da Serpente»); à passagem setentrional, utilizada posteriormente para sair, chamou Boca del Dragón («Boca do Dragão»). Dentro do Golfo de Paria, surpreendeu-o a baixa salinidade da água, consequência do enorme volume de água doce descarregado pelo Orinoco, chegando o golfo a aparecer em cartografia posterior como Mar Dulce por essa razão. Colombo acabou por compreender correctamente que a corrente resultava do confronto entre a água doce do grande rio e a água salgada do mar, embora interpretasse o fenómeno dentro de uma cosmografia muito diferente da actual.

A costa continental situada a oeste e sul do golfo recebeu de Colombo o nome de Terra de Gracia. A questão de saber se desembarcou pessoalmente no continente é incerta: a maioria dos testemunhos recolhidos posteriormente nos Pleitos Colombinos afirma que permaneceu a bordo e enviou homens a terra, entre eles Hernando Pacheco, para tomarem formalmente posse da região em nome dos Reis Católicos; outros testemunhos não são inteiramente concordantes.

Em diferentes pontos da costa os espanhóis estabeleceram contactos com habitantes locais. Numa das aproximações, capturaram quatro indígenas com o objectivo de obter informações, mas a diferença linguística dificultou a comunicação. Mais a oeste encontraram comunidades que possuíam ouro e pérolas; os habitantes indicaram que estas últimas provinham de regiões situadas mais a norte, próximas de Cubágua e da costa de Cumaná.

A grande quantidade de água doce, a amenidade do clima e outros fenómenos que observou em Paria levaram Colombo a desenvolver uma interpretação cosmográfica singular. Embora continuasse a aceitar a esfericidade geral da Terra, passou a imaginar o hemisfério ocidental como elevado numa protuberância semelhante ao pedúnculo de uma pera, em cuja região superior se encontraria o Paraíso Terrestre. Na sua relação da viagem explicou que o mundo não seria perfeitamente esférico, mas apresentaria naquela região uma elevação em direcção ao céu. Esta interpretação não o levou a reconhecer a América do Sul como um continente separado da Ásia. Colombo continuou a enquadrar as terras encontradas no extremo oriental da geografia asiática que procurava alcançar, associando simultaneamente a região de Paria ao Paraíso descrito pelas tradições bíblicas e medievais.

Depois de sair do golfo pela Boca do Dragão, Colombo prosseguiu brevemente ao longo da costa e avistou a ilha de Margarita. A escassez de mantimentos, o estado das embarcações e a deterioração da sua própria saúde levaram-no a interromper a exploração. Em 15 de agosto pôs rumo a Hispaniola; quatro dias depois alcançou a ilha a que chamou Madame Beata, junto à costa meridional de Hispaniola, chegando a Santo Domingo nos últimos dias do mês.

Colombo encontrou a colónia profundamente dividida pela rebelião de Francisco Roldán, que se iniciara durante a sua ausência. Roldán exercia o cargo de alcalde-mor de La Isabela e de toda Hispaniola, provavelmente desde o início de março de 1496. O cargo compreendia importantes funções judiciais, simbolizadas pela «vara da justiça» que Colombo lhe confiara antes de regressar a Castela. O levantamento desenvolveu-se num contexto de escassez de alimentos, doenças, trabalho nas obras públicas, progressivo despovoamento de La Isabela e atraso no pagamento dos salários, a que se somaram conflitos entre Roldán e a administração dos irmãos Colombo. Em maio de 1497, Diogo Colombo enviou Roldán à frente de cerca de quarenta homens para Concepción de la Vega, onde circulavam rumores de uma revolta de comunidades indígenas sujeitas ao tributo. Durante a deslocação, Roldán passou a opor-se abertamente aos irmãos Colombo, reunindo apoiantes nas proximidades da povoação indígena de Marque. As fontes divergem quanto à ordem exacta dos acontecimentos seguintes, mas concordam que as negociações com Bartolomeu Colombo fracassaram e que Roldán acabou destituído do cargo de alcalde-mor. Os insurgentes dirigiram-se então a La Isabela, passando por posições espanholas do interior. Saquearam os armazéns da povoação, apoderando-se de alimentos, tecidos, armas e munições, além de gado e animais de carga. Diogo Colombo, em inferioridade numérica, refugiou-se com alguns criados na casa fortificada do almirante. A pilhagem permitiu aos rebeldes aumentar o contingente para cerca de setenta e cinco homens. Depois de novas movimentações pelo Cibao, Santiago e Concepción de la Vega, a facção retirou-se para a região ocidental de Jaraguá, afastada dos principais núcleos espanhóis. A presença dos roldanistas nessa região interrompeu a cobrança do tributo de algodão e casabe acordado anteriormente entre Bartolomeu Colombo e o cacique Behechio.

A posição de Roldán fortaleceu-se no verão de 1498, quando três caravelas que Colombo enviara directamente para Santo Domingo foram desviadas pelas correntes para a costa ocidental de Hispaniola, próximo da região ocupada pelos rebeldes. Parte dos homens desembarcados aderiu à revolta; trinta e três juntaram-se à facção de Roldán, que passou a contar com cerca de uma centena de espanhóis. Alonso Sánchez de Carvajal, capitão de uma das caravelas, permaneceu algum tempo com os insurgentes tentando persuadi-los, tornando-se depois um dos principais mediadores das negociações. Após regressar a Santo Domingo em 24 de agosto de 1498, Colombo reabriu o processo contra os rebeldes, procurando simultaneamente uma solução negociada, oferecendo-lhes um perdão geral. Roldán e outros dirigentes deslocaram-se a Bonao, onde as conversações prosseguiram através de intermediários. A 6 de novembro apresentaram uma proposta de concórdia e, em 16 de novembro, foi formalizado em Concepción de la Vega um primeiro acordo, ratificado por Colombo em Santo Domingo cinco dias depois. O acordo previa, entre outras condições, dois navios abastecidos para os roldanistas que quisessem regressar a Castela, o pagamento dos salários em atraso, salvaguardas para a viagem, compensação de bens confiscados e várias concessões aos membros da facção. Os navios destinados ao regresso, porém, sofreram atrasos no abastecimento e, depois de uma tempestade, permaneceram durante meses em Puerto Hermoso. Roldán recusou-os por considerar que já não estavam em condições de atravessar o Atlântico; as duas caravelas regressaram a Santo Domingo em 25 de abril de 1499.

As negociações foram retomadas no verão de 1499. Colombo deslocou-se com duas caravelas ao porto de Azúa, mais próximo da zona controlada pelos rebeldes. Roldán acrescentou às condições anteriores a concessão de casas e terras aos que permanecessem na ilha, a declaração de que o conflito resultara de falsos testemunhos e a sua própria restituição como alcalde-mor. Colombo aceitou as condições, e o acordo foi proclamado em 28 de setembro de 1499. Roldán foi restituído no cargo e os seus partidários receberam autorizações de residência, terras e repartimentos. Posteriormente, Roldán entregou uma relação com 102 membros da sua facção, documento que não se conservou. O desfecho mostrou os limites da autoridade de Colombo sobre os colonos, com consequências na distribuição de terras e de trabalho indígena em Hispaniola.

A Coroa já decidira, entretanto, intervir directamente na governação de Hispaniola. A 21 de março de 1499, os Reis Católicos nomearam Francisco de Bobadilla, comendador da Ordem de Calatrava, juiz pesquisidor, encarregando-o inicialmente de investigar os levantamentos ocorridos na ilha. Dois meses depois, em 21 de maio, ampliaram consideravelmente os seus poderes: uma nova provisão nomeou-o governador das Índias, enquanto outra ordenou a Colombo, aos seus irmãos e às restantes autoridades que lhe entregassem fortalezas, casas, navios, armas, cavalos e outros bens ligados à administração régia; Bobadilla ficou ainda autorizado a mandar regressar a Castela as pessoas cuja permanência nas Índias considerasse incompatível com o serviço da Coroa. Uma cédula posterior, de 30 de maio de 1500, incumbiu-o também de verificar as contas e assegurar o pagamento dos salários em atraso.

Bobadilla chegou a Santo Domingo a 23 de agosto de 1500, a bordo de dois navios, a Gorda e a Antigua. Cristóvão Colombo encontrava-se no interior da ilha, tal como Bartolomeu, ficando Diogo Colombo na cidade em representação dos irmãos. Nos dias seguintes, Bobadilla fez publicar as provisões régias, exigindo a entrega de vários presos que se encontravam na fortaleza. Diogo e outros oficiais recusaram inicialmente reconhecer a sua autoridade para esse efeito. Depois de novas intimações, Bobadilla tomou a fortaleza, cujo alcaide acabou por não oferecer resistência efectiva, e libertou os prisioneiros. À chegada, Bobadilla pôde observar junto ao rio cadáveres de espanhóis recentemente enforcados, enquanto outros homens permaneciam presos à espera de julgamento ou execução, condicionando as suas primeiras intervenções.

Relevo de Randolph Rogers, realizado em 1855–1861, representando Colombo agrilhoado após a intervenção de Francisco de Bobadilla em 1500.

Colombo entrou em Santo Domingo a 15 de setembro. Os relatos acerca da sua recepção por Bobadilla não coincidem inteiramente: Colombo e Bartolomé de las Casas apresentaram posteriormente a prisão como praticamente imediata, enquanto a cópia conservada da pesquisa mostra que Bobadilla se encontrou com o almirante e o interrogou nesse mesmo dia. Entre as questões discutidas encontravam-se os motivos da prisão de Fernando de Guevara, Pedro Riquelme e outros homens, a existência ou não dos respectivos processos e as contas e salários ainda por liquidar. Colombo só jurou formalmente as suas declarações a 23 de setembro; Bartolomeu prestou juramento nesse mesmo dia, provavelmente pouco depois de chegar a Santo Domingo, estando os três irmãos já detidos. Bobadilla ordenou então ao seu escrivão a abertura de uma informação testemunhal sobre a administração colombina.

A investigação de Bobadilla não constituiu, segundo Consuelo Varela, um juízo de residência formal, nem pela sua forma nem pelo seu conteúdo. A documentação conservada é uma cópia incompleta de uma pesquisa ou probanza, destinada a recolher testemunhos sobre questões determinadas. Os três grandes temas do interrogatório foram a alegada preparação de resistência armada à autoridade de Bobadilla, a acusação de que os irmãos Colombo dificultavam o baptismo dos indígenas para poderem escravizá-los e a forma como a justiça fora administrada durante o governo colombino. Foram chamadas a depor vinte e duas testemunhas. Entre elas encontravam-se Ramón Pané e vários homens que viviam em Hispaniola desde as primeiras expedições colombinas, com pelo menos treze dos declarantes estantes na ilha havia cerca de sete anos. Os depoimentos constituem uma fonte excepcional para o conhecimento dos primeiros anos da colónia, embora produzidos no contexto da deposição dos irmãos Colombo, incluindo acusações, memórias pessoais e versões por vezes contraditórias dos acontecimentos.

Bobadilla decidiu enviar os três irmãos a Castela, fazendo uso da autorização régia que lhe permitia retirar das Índias as pessoas que considerasse necessário apresentar à Corte. Colombo foi mantido agrilhoado. Os navios partiram de Santo Domingo no início de outubro, sob o comando do capitão Alonso de Vallejo e do piloto Andrés Martín. Durante a travessia, ambos trataram os irmãos com consideração e ofereceram-se para retirar os ferros a Colombo, que recusou e decidiu conservá-los até que os próprios monarcas ordenassem a sua libertação. Os irmãos Colombo chegaram a Cádis a 20 de novembro de 1500. Varela observa que não é possível reconstruir com segurança o que lhes aconteceu imediatamente após o desembarque, embora cerca de 17 de dezembro Cristóvão Colombo tenha sido recebido por Isabel e Fernando em Granada. Os monarcas manifestaram desagrado pelo tratamento que recebera e permitiram-lhe posteriormente realizar uma nova viagem, embora Colombo não voltasse a exercer o governo efectivo das Índias.

Governo de Hispaniola

Maquete da casa de Colombo em La Isabela
Vestígios da casa de Colombo em La Isabela
Maquete da casa de Colombo em La Isabela, um dos primeiros núcleos da colonização espanhola em Hispaniola, e o que resta da estrutura tradicionalmente identificada como a casa.

Administração e povoamento

A administração inicialmente estabelecida por Colombo em Hispaniola baseava-se no modelo de uma factoría régia, combinando funções comerciais, militares e de povoamento. Os poderes concedidos a Colombo permitiam-lhe nomear juízes e outros oficiais públicos nas povoações criadas nas Índias, além de exercer autoridade sobre os navios e respectivos capitães. A maior parte dos mais de mil participantes da segunda expedição era remunerada pela Coroa, sendo concebida inicialmente como pessoal ao serviço da empresa régia, embora muitos colonos esperassem adquirir riqueza, terras e posição social. Na prática, Colombo exerceu frequentemente a governação através de delegados, devido às explorações no interior e às suas ausências de Hispaniola. Antes de regressar a Castela em março de 1496, nomeou o irmão Bartolomeu governador e capitão-geral da ilha durante a sua ausência, designando Francisco Roldán alcalde-mor, responsável pela magistratura superior. Diogo Colombo permaneceu por diversas vezes encarregado de La Isabela quando Bartolomeu se deslocava a outras regiões da ilha.

O controlo espanhol não se limitava à povoação principal. Durante a década de 1490 foram mantidas guarnições e fortalezas no interior, entre elas Concepción, Bonao e Magdalena, associadas às vias de acesso às regiões auríferas e à cobrança dos tributos. Em 1496, soldados espanhóis encontravam-se distribuídos por essas posições e dependiam em grande medida dos alimentos obtidos das comunidades indígenas vizinhas.

A deterioração de La Isabela, a escassez de alimentos e a descoberta de jazidas auríferas no sul da ilha levaram Colombo a preparar a transferência do principal núcleo administrativo. Em julho de 1496 chegaram instruções suas, com aprovação régia, para que Bartolomeu procurasse na costa meridional um novo porto e transferisse progressivamente para ali a população e os recursos de La Isabela. Bartolomeu estabeleceu uma fortaleza junto ao rio Ozama, origem de Santo Domingo. A mudança realizou-se gradualmente durante a segunda metade de 1496; La Isabela ainda continuava parcialmente ocupada em 1497, encontrando-se praticamente abandonada no ano seguinte.

Tributo, escravização e trabalho

Após os conflitos entre os colonos e diversas comunidades indígenas de Hispaniola, a administração de Colombo estabeleceu em 1495 um sistema regular de tributo. Nas regiões próximas das explorações auríferas exigia-se sobretudo ouro; alimentos e, progressivamente, algodão foram também utilizados como formas de pagamento. As medidas coercivas associadas ao sistema estiveram em vigor sobretudo entre 1495 e 1497, embora alguns caciques conseguissem negociar a natureza ou a quantidade dos tributos exigidos. Em Jaraguá, por exemplo, Bartolomeu Colombo aceitou que o cacique Behechio fornecesse o tributo em algodão, casabe, peixe e outros produtos, em vez de ouro.

Ruínas do forte de Concepción de la Vega, um dos principais núcleos espanhóis do interior de Hispaniola.

A escravização de indígenas tornou-se igualmente uma componente da política colonial. No início de 1495, na sequência dos confrontos em Hispaniola, Colombo seleccionou quinhentos cativos para serem enviados para Castela; cerca de duzentos morreram durante a travessia. Isabel I de Castela suspendeu inicialmente a venda dos sobreviventes enquanto procurava determinar a legalidade do seu cativeiro, embora pelo menos parte deles tenha acabado por ser vendida. Em 1498, durante novos confrontos envolvendo os caciques Guarionex e Mayobanex, cinco navios transportaram para Castela cerca de oitocentos cativos taínos e macorixes classificados pelos espanhóis como escravos capturados em «guerra justa». Numa carta enviada nessa ocasião, Colombo defendeu a ampliação do tráfico de indígenas como fonte de rendimento para a empresa colonial.

A política de povoamento passou também a incluir concessões de terras. Uma provisão régia de 22 de julho de 1497 autorizava Colombo a distribuir terras, montes e águas aos habitantes de Hispaniola. Esta faculdade adquiriu particular importância depois da revolta de Francisco Roldán. No acordo de Azúa de setembro de 1499, os insurgentes que permanecessem na ilha receberam, entre outras compensações, casas e terras e puderam estabelecer-se em Bonao, Concepción de la Vega e Santiago, embora Colombo recusasse a sua instalação em Jaraguá por recear uma nova revolta. Essas concessões não abrangiam apenas a terra. Foram também distribuídas comunidades e trabalhadores indígenas por meio de licenças que associavam aos colonos um chefe local, utilizado como intermediário, e um certo número de indígenas destinados ao trabalho nos conucos durante períodos que podiam ser renovados. Os repartos individuais, em que um único espanhol recebia directamente um chefe local, parecem ter sido excepcionais; era mais comum que vários colonos partilhassem a mão-de-obra vinculada a uma mesma chefia indígena. O próprio Roldán beneficiou amplamente desse sistema. A 29 de outubro de 1499, Colombo restituiu-lhe as terras de Ababruco, próximas de La Isabela, onde mantinha uma residência e um conuco de mandioca. Recebeu ainda uma propriedade agropecuária denominada Esperanza, terras em Jaraguá, gado e indígenas destinados ao cultivo de mandioca e a outras actividades agrícolas.

A transformação ocorrida no final do governo de Colombo representou, assim, uma passagem parcial de um sistema centrado sobretudo no tributo para formas de exploração baseadas também na atribuição directa de trabalho indígena aos colonos. Pauline Kulstad-González identifica em Concepción uma transição, em torno de 1499–1500, do modelo inicial de factoría para formas de organização inspiradas nas práticas da Reconquista, nas quais trabalhadores indígenas eram distribuídos para servir os colonizadores. Estas primeiras distribuições de terra e trabalho indígena não devem, contudo, ser confundidas com a encomienda na forma em que esta viria a ser institucionalizada. Segundo Erin Woodruff Stone, a organização formal da encomienda em Hispaniola ocorreu somente em 1503, durante o governo de Nicolás de Ovando, já depois da deposição de Colombo.

Representação de 1594, por Theodor de Bry, de Colombo a ordenar o castigo de colonos espanhóis amotinados em Hispaniola.

Justiça e coerção

A principal fonte conservada sobre a administração da justiça durante o governo dos irmãos Colombo é a pesquisa realizada por Francisco de Bobadilla em 1500. Dezassete testemunhas responderam especificamente à questão «sobre lo de la justicia». A documentação exige, contudo, cuidado. Consuelo Varela observa que, nesta parte da pesquisa, parecem ter sido ouvidos sobretudo adversários de Colombo e que alguns depoentes atribuíram a Cristóvão actos praticados pelo irmão Bartolomeu ou por Diogo. A pesquisa mostra que foram realizados processos, informações e pesquisas judiciais durante a administração colombina. O próprio Colombo afirmou ter levado consigo para Castela, em 1496, processos respeitantes a casos já julgados, e diferentes escrivães declararam ter participado em procedimentos contra vários acusados. Conservavam-se também no arquivo dos Colombo cópias de pesquisas relativas às revoltas de Francisco Roldán e de outros colonos. Ao mesmo tempo, alguns testemunhos acusaram Colombo de ordenar execuções sem processo prévio em situações que considerava urgentes. Varela conclui que os procedimentos formais eram utilizados em diversos casos, embora não de forma uniforme.

A repressão da revolta associada a Adrián de Múxica em 1500 produziu algumas das execuções mais próximas da chegada de Bobadilla. Segundo o testemunho de Rodrigo Pérez, Múxica, Cristóbal Moyano e Pedro de Alarcón foram executados em Concepción de la Vega cerca de quinze dias antes da chegada do novo governador, enquanto Cristóbal de Madrigal e Gonzalo Rodríguez foram enforcados em Santo Domingo poucos dias depois. A documentação não permite reconstruir de forma uniforme o procedimento seguido em cada caso. Para alguns dos acusados são referidos processos ou declarações formais, enquanto que, para outros, testemunhas afirmaram que a execução ocorreu sem processo.

Quando se soube da chegada de Bobadilla, Bartolomeu Colombo mantinha ainda presos vários participantes na revolta. Rodrigo Pérez declarou que doze deles estavam preparados para ser executados, mas Cristóvão enviou ordem para suspender as execuções e conservá-los presos em virtude da chegada do pesquisidor régio. Os depoimentos recolhidos por Bobadilla descrevem também castigos corporais severos aplicados por delitos de pequena dimensão. Um dos casos mais citados é o de um jovem chamado Lucas ou «Luquitas», acusado de furtar trigo durante um período de fome. Segundo vários testemunhos, Colombo condenou-o inicialmente à morte, mas, após pedidos de clemência, a pena foi comutada em açoites, mutilação das orelhas e do nariz, colocação de um ferro no pé e desterro perpétuo da ilha. Um dos depoentes afirmou ainda que permaneceu durante cerca de dois anos como escravo régio, trabalhando num forno de pão.

La Isabela e Santo Domingo dispunham de cárceres, enquanto nas regiões afastadas foram utilizados recintos improvisados para a detenção de acusados. As penas públicas eram habitualmente anunciadas por pregão, podendo o próprio condenado ser obrigado a proclamar a causa do castigo. As fontes mencionam açoites, mutilações, exposição pública e pena de morte, embora Varela considere impossível determinar com segurança o número total de pessoas executadas durante o governo dos irmãos Colombo, uma vez que a pesquisa é incompleta e os testemunhos seleccionaram sobretudo casos recentes ou considerados injustos.

Quarta viagem

Rota da quarta viagem de Colombo, entre 1502 e 1504

Na quarta e última viagem, Colombo partiu de Cádis a 9 de maio de 1502, com quatro navios de 50 a 70 tonéis e cerca de cento e quarenta homens. As embarcações eram a Gracia de Dios, que servia de capitânia, a Santiago, também chamada Bermuda, a Vizcaína e a Gallega. Acompanhavam-no o irmão Bartolomeu e o filho Fernando, enquanto o filho mais velho, Diogo Colombo, permaneceu em Castela. O objectivo continuou a ser encontrar uma passagem marítima que conduzisse às regiões asiáticas das especiarias. A persistência dessa interpretação geográfica é visível no facto de Colombo ter solicitado aos monarcas três intérpretes de árabe para a expedição. As instruções régias de 14 de março determinavam também que não se detivesse em Hispaniola na viagem de ida, embora pudesse aí fazer escala no regresso.

Após uma breve escala em Arzila, praça portuguesa no Norte de África, onde o cerco de que Colombo tivera notícia já terminara, a frota dirigiu-se às Canárias. Em Arzila, Bartolomeu Colombo e Fernando visitaram o capitão português João de Meneses, que fora ferido durante os combates. Após cinco dias de abastecimento na Grã Canária, a frota partiu a 25 de maio, alcançando as Antilhas a 15 de junho, avistando a Martinica, segundo Fernando Colombo e Las Casas.

A 29 de junho, Colombo fundeou diante de Santo Domingo. Uma das suas embarcações encontrava-se em más condições e, além disso, Colombo julgou reconhecer sinais de que se aproximava um furacão. Pediu ao governador Nicolás de Ovando autorização para entrar no porto, recomendando-lhe que impedisse durante alguns dias a partida da frota que se preparava para regressar a Castela. Ovando recusou-lhe a entrada, de acordo com as instruções régias que restringiam a sua passagem por Hispaniola, e não reteve a frota. Colombo procurou abrigo com os seus quatro navios em Puerto Hermoso, a oeste de Santo Domingo. O furacão atingiu pouco depois a frota que partira para Castela, provocando a perda da maior parte das embarcações e centenas de mortos. Entre os que morreram encontravam-se Francisco de Bobadilla, Francisco Roldán, Antonio de Torres e o cacique Guarionex, que seguia prisioneiro. Os quatro navios de Colombo sobreviveram à tempestade.

Após reparar os navios, Colombo deixou Hispaniola a 14 de julho e passou ao largo da Jamaica e dos Jardines de la Reina, seguindo para oeste. A 31 de julho, a frota alcançou a costa das actuais Honduras, diante das Ilhas da Baía, chegando à região de Guanaja. Ali, os homens de Colombo encontraram uma grande canoa comercial procedente da região do Iucatão, transportando, entre outros produtos, tecidos de algodão, cerâmica, objectos de cobre e cacau, episódio associado às redes comerciais do mundo maia. A expedição alcançou depois Punta Caxinas, na costa continental das Honduras. Em agosto, Colombo tomou formalmente posse da região em nome dos Reis Católicos, prosseguindo ao longo das costas das actuais Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá, procurando o estreito que acreditava permitir o acesso ao oceano Índico. Passou pelo Cabo Gracias a Dios, alcançando em outubro a região da actual baía do Almirante, onde explorou canais e lagunas na esperança de finalmente ter encontrado a passagem procurada.

A 6 de janeiro de 1503, depois de várias semanas de mau tempo ao longo da costa que Colombo denominou «Costa dos Contrastes», a expedição conseguiu finalmente fundear na foz de um rio a que Colombo deu o nome de Belén, por ter chegado em Dia de Reis. O rio de Verágua ficava uma ou duas léguas mais a ocidente, mas oferecia menor profundidade. A capitânia e a Vizcaína entraram no rio Belén a 9 de janeiro, seguindo-se no dia seguinte as outras duas caravelas. As chuvas intensas mantiveram a frota praticamente imobilizada até meados de fevereiro. Durante essa permanência, Bartolomeu Colombo foi enviado ao interior com cerca de setenta homens para procurar as minas de ouro de que os habitantes da região haviam falado. A expedição regressou com pequenas quantidades de ouro e confirmou a existência de explorações indígenas. Colombo decidiu então estabelecer uma povoação permanente junto ao rio Belén, a que chamaram Santa María de Belén, destinada a assegurar uma presença castelhana permanente na região aurífera de Verágua. Cerca de oitenta homens ofereceram-se para permanecer ali, sob o comando de Bartolomeu, enquanto Colombo regressaria a Castela em busca de reforços e mantimentos.

A perspectiva de uma ocupação permanente alterou, porém, as relações com as populações locais. O chefe da região, designado nas fontes espanholas como quivián, havia inicialmente recebido os espanhóis, mas opôs-se à sua fixação definitiva. Colombo interpretou determinados preparativos militares indígenas como intenção de atacar e destruir a nova povoação. Diego Méndez de Segura, escrivão-mor da armada e homem de confiança de Colombo, realizou então várias missões de reconhecimento na região, concluindo que se preparava uma concentração de guerreiros. Após visitar a residência do quivián, recomendou a Colombo que o capturasse. A 30 de março de 1503, Bartolomeu Colombo dirigiu-se à povoação do chefe com setenta e quatro homens. O quivián e vários membros da sua família foram presos. Durante o transporte para os navios, o chefe conseguiu libertar-se e lançou-se ao rio, desaparecendo dos seus captores. Poucos dias depois, quando parte da frota conseguira atravessar a barra do rio, cerca de quatrocentos guerreiros atacaram o grupo de espanhóis que permanecia em terra com Diego Méndez. O combate prolongou-se por cerca de três horas; segundo a reconstrução de Thomaz, morreram sete espanhóis e nove ou dez indígenas. Outra embarcação enviada posteriormente rio acima foi cercada por canoas indígenas, morrendo todos os seus tripulantes excepto um homem, Juan de Noya, que conseguiu alcançar a margem a nado. Sem embarcações que lhes permitissem regressar aos navios, os colonos improvisaram uma posição defensiva em terra com tonéis e artilharia. Entretanto, vários dos parentes do quivián que permaneciam prisioneiros conseguiram fugir; outros morreram por suicídio a bordo. A manutenção do estabelecimento tornou-se progressivamente insustentável.

Quando o estado do mar permitiu restabelecer contacto com os homens em terra, decidiu-se abandonar Santa María de Belén. A Gallega, já fortemente danificada pelo gusano — moluscos xilófagos que perfuravam os cascos de madeira —, não pôde ser retirada do rio e foi abandonada. Diego Méndez improvisou um catamarã unindo duas canoas, com o qual foram transportados para os outros navios os homens e tudo o que foi possível salvar. A frota deixou definitivamente a região em abril de 1503, pondo termo à tentativa de colonização de Verágua. Investigações arqueológicas identificaram o actual rio Belén, no Panamá, como a localização mais provável de Santa María de Belén. A pesquisa incluiu igualmente tentativas de localizar os restos da Gallega.

Após abandonar Verágua, Colombo procurou ganhar longitude para leste antes de atravessar o mar das Caraíbas em direcção a Hispaniola. A deterioração das embarcações, porém, continuou. Numa nova escala em Belporto foi necessário abandonar a Vizcaína, cujo casco se encontrava igualmente destruído pelos moluscos xilófagos. Restaram assim apenas dois navios em condições, ainda que precárias, de continuar a viagem.

Representação oitocentista dos navios de Colombo imobilizados na Jamaica durante a quarta viagem.

A 1 de maio de 1503, a expedição deixou definitivamente a costa centro-americana e rumou para norte. A 10 de maio alcançou as ilhas que Colombo denominou Las Tortugas, correspondentes às actuais Ilhas Caimão, voltando dois dias depois aos Jardines de la Reina, ao sul de Cuba. Apesar de continuar a interpretar aquela geografia no quadro asiático, Colombo conhecia já suficientemente aquelas águas para tentar regressar a Hispaniola. No entanto, a tentativa de atravessar directamente para Hispaniola fracassou devido aos ventos e a sucessivos temporais. Durante uma das tempestades, a Bermuda abalroou a capitânia, deixando ambas ainda mais danificadas. Depois de vários dias de espera e novas tentativas de navegação, Colombo conseguiu alcançar o porto de Macaca, próximo do Cabo Cruz, em Cuba. Como os ventos continuavam desfavoráveis à travessia para Hispaniola, decidiu procurar abrigo na Jamaica. Os dois navios chegaram à Jamaica em 24 de junho de 1503, dia de São João, com os cascos tão perfurados que a água chegava quase às cobertas apesar do funcionamento contínuo das bombas e do uso de recipientes para a retirar. Sem possibilidade de prosseguir viagem, Colombo decidiu encalhá-los deliberadamente.

Inicialmente os espanhóis procuraram estabelecer-se em Puerto Bueno, mas a falta de água potável e de alimentos levou-os a deslocar-se um pouco para leste, para um local a que chamaram Santa Glória, posteriormente conhecido como baía de Santa Ana. Os dois navios foram encalhados lado a lado, a curta distância da costa, escorados e ligados entre si. Como se encontravam alagados até às cobertas, construíram-se alojamentos sobre os castelos da proa e da popa, transformando os cascos numa espécie de posição fortificada. As comunidades indígenas locais começaram a fornecer alimentos aos náufragos mediante troca. Diego Méndez de Segura percorreu parte da ilha para negociar directamente com os caciques um abastecimento regular e adquiriu uma canoa, regressando depois ao acampamento com mantimentos. Colombo nomeou dois responsáveis para organizar as trocas e repartir os respectivos custos entre os homens. Para evitar que o abastecimento fosse interrompido por conflitos com os habitantes da ilha, Colombo proibiu os homens de desembarcarem sem autorização expressa, receando que saqueassem as povoações ou cometessem abusos contra as mulheres indígenas. Os nomes dos que recebiam licença para ir a terra deveriam ser registados. A medida ajudava a preservar as relações de troca, mas agravou o descontentamento de homens que permaneciam confinados nos navios encalhados.

Ao fim de cerca de dez dias, concluiu-se que seria necessário pedir auxílio a Nicolás de Ovando em Hispaniola e contactar o feitor de Colombo para que adquirisse um navio capaz de resgatar os náufragos. Colombo procurou então um voluntário para atravessar o mar numa canoa indígena. Segundo o relato posteriormente deixado pelo próprio Méndez, perante a ausência de outros voluntários ofereceu-se para realizar a missão. Méndez adaptou a canoa para a viagem, acrescentando-lhe uma quilha improvisada, mastro e vela e calafetando-a com breu e sebo. Numa primeira tentativa seguiu acompanhado por seis indígenas e um espanhol, mas, ainda no extremo oriental da Jamaica, foi surpreendido por um grupo indígena que se apoderou temporariamente da embarcação. Méndez conseguiu escapar e regressar ao acampamento.

Na segunda tentativa, uma escolta de cerca de setenta homens acompanhou Méndez por terra até ao extremo oriental da Jamaica. Juntou-se-lhe numa segunda canoa o genovês Bartolomeu Fieschi, antigo capitão da Vizcaína. A participação de Fieschi é relatada por Fernando Colombo e Las Casas e confirmada por uma carta que Colombo enviou posteriormente a Ovando, embora Méndez não o mencione na sua própria relação. A travessia foi feita sobretudo a remos, contra ventos e correntes. As duas canoas passaram pela pequena Ilha Navassa, onde os homens puderam descansar e recolher água da chuva. Pelo menos um dos remadores indígenas morreu de sede durante a viagem e outros adoeceram. Após cinco dias e quatro noites alcançaram finalmente o extremo sudoeste de Hispaniola, na região de Xaraguá. Após dois dias de repouso, Méndez prosseguiu em direcção a Santo Domingo para procurar auxílio junto de Ovando. Fieschi pretendia regressar à Jamaica para comunicar o sucesso da travessia, mas não encontrou homens dispostos a acompanhá-lo; as fontes não permitem determinar com segurança se chegou posteriormente a efectuar essa viagem.

A prolongada ausência de notícias de Méndez e Fieschi agravou o descontentamento dos homens que permaneciam na Jamaica. O motim acabou por ser encabeçado pelos irmãos Diego de Porras, contador da armada, e Francisco de Porras, capitão da Bermuda. Na manhã de 2 de janeiro de 1504, acompanhados por quarenta e oito homens, confrontaram Colombo e exigiram que abandonasse a ilha. O almirante, então muito debilitado por dores articulares, respondeu que não dispunham de embarcações capazes de efectuar a travessia. Os revoltosos apoderaram-se de dez canoas e dirigiram-se para o extremo oriental da Jamaica, pretendendo alcançar Hispaniola por conta própria. Durante o percurso saquearam comunidades indígenas e requisitaram alimentos, atribuindo a Colombo a responsabilidade pelo respectivo pagamento. Na primeira tentativa de travessia, o agravamento do estado do mar e a entrada de água nas canoas levaram-nos a procurar aliviá-las. Segundo os relatos utilizados por Thomaz, dezoito remadores indígenas foram lançados ao mar e alguns dos que tentaram agarrar-se às embarcações foram feridos para os impedir de regressar a bordo. Incapazes de prosseguir, os revoltosos regressaram à Jamaica e instalaram-se em Aomaquique, onde permaneceram por mais de um mês.

Representação de 1881, por Camille Flammarion, do episódio do eclipse lunar de 29 de fevereiro de 1504 na Jamaica.

Em Santa Glória, entretanto, a situação alimentar deteriorou-se. A aldeia Maima, situada a cerca de um quarto de légua dos navios, tinha desempenhado um papel central no fornecimento de alimentos aos espanhóis durante a estadia na Jamaica. Com o prolongamento da permanência dos náufragos, os abusos cometidos pelos revoltosos e a diminuição dos excedentes disponíveis, as comunidades locais reduziram ou interromperam o abastecimento. Colombo recorreu então a uma previsão astronómica. Um almanaque que levava consigo indicava a ocorrência, na noite de 29 de fevereiro de 1504, de um eclipse lunar. Por intermédio de um intérprete indígena de Hispaniola, convocou os principais chefes da região e declarou-lhes que o Deus dos cristãos estava descontente por deixarem de fornecer mantimentos e manifestaria a sua cólera escurecendo a Lua. Quando a Lua nasceu já parcialmente eclipsada e foi adquirindo uma tonalidade avermelhada, os habitantes levaram alimentos aos navios e pediram a Colombo que intercedesse por eles. Colombo retirou-se durante parte do eclipse e reapareceu quando o fenómeno começava a diminuir, anunciando que Deus os havia perdoado. Segundo as fontes colombinas, o abastecimento regular foi então retomado. Colombo aproveitou igualmente o eclipse para tentar determinar a longitude. Calculou uma diferença de sete horas e quinze minutos relativamente a Cádis, equivalente a cerca de 120 graus, quando a diferença real é de aproximadamente 71 graus. Em contrapartida, durante a permanência na Jamaica obteve uma determinação da latitude próxima dos 18° N, praticamente correcta.

Gravura de Theodor de Bry, publicada em 1594, representando o combate entre os partidários de Colombo e os revoltosos de Francisco de Porras na Jamaica.

Oito meses após a partida de Méndez e Fieschi, continuavam a não ter notícias directas deles em Santa Glória. Chegou a formar-se entre os homens que permaneciam com Colombo uma segunda conspiração, encabeçada por um boticário valenciano chamado Bernal. Nesse momento surgiu diante do assentamento um pequeno navio enviado por Nicolás de Ovando e comandado por Diego de Escobar, antigo partidário da revolta de Roldán. Escobar levou como oferta do governador um pipo de vinho e metade de um porco salgado, mas não recebeu os náufragos a bordo e regressou a Santo Domingo na mesma noite. A sua chegada demonstrou, contudo, que a missão de Méndez e Fieschi alcançara Hispaniola e contribuiu para acalmar temporariamente os homens de Colombo.

Os homens de Porras acabaram por regressar às proximidades de Santa Glória. Colombo procurou ainda negociar com eles, mas Francisco de Porras exigiu liberdade de movimentos na ilha e a atribuição de parte dos navios que eventualmente chegassem para efectuar o resgate. Rejeitadas essas condições, os revoltosos avançaram contra o acampamento. Em 19 de maio de 1504, Bartolomeu Colombo saiu ao seu encontro e derrotou-os num combate travado nas proximidades de Maima, capturando Francisco de Porras. No dia seguinte, os restantes revoltosos pediram clemência. Colombo concedeu-lhes perdão, mantendo apenas Francisco de Porras sob prisão.

Chegaram, entretanto, a Hispaniola três navios procedentes de Castela. Diego Méndez adquiriu um deles para resgatar Colombo e os seus homens, enquanto ele próprio seguiu para a Península noutro dos navios, levando notícias e uma carta do almirante aos Reis Católicos. O navio adquirido por Méndez chegou a Santa Glória em junho, e os náufragos embarcaram a 28 de junho de 1504, pouco mais de um ano depois de terem ficado imobilizados na Jamaica. Os ventos e correntes retardaram fortemente a passagem para Hispaniola, obrigando-os a deter-se junto da Ilha Beata. Apenas a 13 de agosto chegaram a Santo Domingo. Ovando recebeu Colombo com honras e alojou-o na sua residência, mas libertou imediatamente Francisco de Porras e chegou a ameaçar proceder contra aqueles que o haviam detido; o anunciado processo não teve seguimento.

Colombo conseguiu fretar em Santo Domingo outro navio, iniciando o regresso a Castela em 12 de setembro. A travessia voltou a ser marcada por temporais: o mastro grande de um dos navios partiu-se em quatro partes e teve de ser substituído improvisadamente com madeira retirada do castelo da popa e uma antena reforçada por enxárcias; outra tempestade danificou ainda a contramezena. Apesar disso, a expedição alcançou Sanlúcar de Barrameda a 7 de novembro de 1504.

Últimos anos

Santa María, o navio-almirante de Colombo na sua primeira viagem, na sua casa de Valhadolid
Túmulo de Colombo na Catedral de Sevilha. Os restos mortais são carregados pelos reis de Castela, Leão, Aragão e Navarra

Colombo regressou a Castela em novembro de 1504, fisicamente debilitado depois da sua quarta viagem. A sua principal protectora na corte, Isabel I de Castela, morreu a 26 de novembro. Nos meses seguintes, Colombo continuou a reclamar junto de Fernando II de Aragão o reconhecimento das prerrogativas que considerava decorrentes das Capitulações de Santa Fé e de concessões régias posteriores, em particular os direitos que pretendia transmitir aos seus herdeiros, não voltando, contudo, a exercer o governo ou o vice-reinado das Índias.

Em janeiro de 1505, o filho Diogo, que se encontrava junto da corte, apresentou ao rei um memorial solicitando a restituição dos cargos e privilégios do pai. Impedido pela doença de viajar a cavalo, Colombo obtivera, a 23 de fevereiro, uma licença régia para se deslocar montado numa mula; deixou Sevilha a 3 de maio e foi recebido por Fernando II de Aragão em Segóvia. Segundo a biografia escrita por Fernando Colombo, o rei propôs-lhe a troca do vice-reinado das Índias pelo senhorio de Carrión de los Condes, solução que Colombo recusou e que o filho também viria a rejeitar. Em junho de 1505, Colombo voltou a dirigir-se ao rei, pedindo-lhe que Diogo fosse colocado no seu lugar no governo das Índias.

Durante o inverno de 1505–1506, Colombo dirigiu a Fernando II dois novos memoriais relativos ao cumprimento dos privilégios concedidos pela Coroa, conhecidos através de cópias redigidas na terceira pessoa. Neles reclamou o exercício dos cargos de almirante, vice-rei e governador-geral das Índias e a sua transmissão aos herdeiros, bem como a décima parte das mercadorias obtidas no seu almirantado, a faculdade de participar com um oitavo nas despesas das armadas e receber a correspondente proporção dos benefícios, e uma terça parte nas transacções de mercadorias, por equiparação com as prerrogativas do almirante de Castela. Colombo fundamentou os pedidos nas capitulações, privilégios e confirmações régias que apresentou, solicitando uma decisão sem demora, em atenção ao agravamento da sua saúde e ao risco que o frio do inverno lhe representava. No verso de uma das cópias encontra-se uma anotação intitulada «Respuesta que se dio en la çibdad de Salamanca», que documenta a tramitação do pedido, mas não uma decisão sobre o mérito das reivindicações.

Estas reivindicações não significam que Colombo tivesse terminado a vida na pobreza. A partir da documentação contabilística conservada, Juan Gil demonstrou que desde 1497 recebeu rendimentos provenientes, entre outras fontes, da sua participação nas mercadorias e das décimas do pau-brasil e do ouro. Segundo Consuelo Varela, estes pagamentos rondavam os oito mil pesos anuais; Colombo morreu, assim, como um homem rico, embora com rendimentos bastante inferiores aos de alguns membros da alta nobreza castelhana.

Morreu em Valladolid a 20 de maio de 1506, aos 54 anos. O seu filho Diogo herdou as suas pretensões aos cargos, rendimentos e privilégios concedidos pela Coroa. A partir de 1508, essas reivindicações deram origem a uma prolongada disputa judicial com a Coroa de Castela, conhecida como pleitos colombinos.

Durante os últimos anos, Colombo sofreu episódios recorrentes de dores articulares que chegaram a deixá-lo incapacitado, acompanhados em diferentes ocasiões por febre e problemas oculares. Estudos médicos que interpretaram os relatos históricos retrospectivamente propuseram que o quadro seria compatível com artrite reactiva, em vez da «gota» referida nas fontes da época.

Restos mortais

Os restos mortais de Colombo foram inicialmente sepultados no Convento de São Francisco em Valladolid, que já não existe. Actualmente, o sítio é uma zona comercial na rua da Constitución, perto do Plaza Mayor. Depois foram transladados para o Mosteiro da Cartuxa, em Sevilha.

Em 1542, por desejo expresso pelo seu filho Diogo, que fora governador de Hispaniola, os restos mortais foram transferidos para Santo Domingo, na atual República Dominicana, onde foram depositados na catedral da cidade. Em 1795, quando a França obteve o controlo de toda a ilha de Hispaniola, os restos mortais de Colombo foram transladados para Havana, Cuba, e após a independência cubana, na sequência da Guerra Hispano-Americana de 1898, novamente transferidos para Espanha, para a Catedral de Sevilha, onde se encontram sobre um sumptuoso catafalco.

Farol de Colombo na República Dominicana

Em 2003 foram exumados e analisados os restos atribuídos a Colombo conservados na Catedral de Sevilha, juntamente com restos atribuídos ao seu irmão Diogo e os restos do seu filho Fernando. Os materiais atribuídos a Colombo encontravam-se muito incompletos e degradados; segundo a equipa responsável pelos estudos genéticos, representariam apenas cerca de 20 a 30% de um esqueleto.

A análise então publicada encontrou sequências de ADN mitocondrial coincidentes nos restos atribuídos a Colombo e a Diogo, resultado compatível com uma relação pela mesma linha materna. Em conjunto com a análise antropológica, a equipa interpretou estes resultados como apoio à identificação dos restos conservados em Sevilha como pertencentes a Cristóvão Colombo. O próprio estudo salientava, contudo, que o ADN mitocondrial tem capacidade de identificação limitada, por ser partilhado por diferentes indivíduos pertencentes à mesma linhagem materna.

A questão dos restos conservados na República Dominicana permaneceu em aberto. Em 1877, durante obras na Catedral de Santo Domingo, foi encontrada uma caixa de chumbo com inscrições que a identificavam como contendo restos de Colombo, dando origem à hipótese de que a trasladação efectuada em 1795 teria levado para Havana restos pertencentes a outra pessoa. Os investigadores espanhóis não puderam comparar geneticamente os restos dominicanos com os de Sevilha, pelo que não foi estabelecido se estes constituem parte do mesmo indivíduo ou pertencem a outra pessoa.

Em outubro de 2024, a equipa dirigida por José Antonio Lorente anunciou num documentário televisivo novos resultados que considerava confirmarem a identificação dos restos de Sevilha e sustentarem conclusões sobre a ascendência e origem geográfica de Colombo. Os dados, métodos e resultados completos não foram, porém, publicados numa revista científica sujeita a revisão por pares, circunstância criticada por vários especialistas em ADN antigo e genética forense.

Obra

Uma parte importante dos escritos associados a Colombo não se conserva nos seus manuscritos originais, mas através de cópias, resumos e compilações posteriores. O original do diário da primeira viagem, entregue aos Reis Católicos, perdeu-se, assim como uma cópia integral posteriormente realizada. O principal testemunho conservado é uma transcrição elaborada por Bartolomé de las Casas na década de 1530, que combina passagens copiadas literalmente com resumos do texto anterior.

Entre os conjuntos documentais organizados pelo próprio Colombo encontra-se o Libro de los privilegios. Em 1502, antes da quarta viagem, mandou autenticar em Sevilha cópias dos documentos régios e pontifícios que fundamentavam os títulos, rendimentos, poderes e privilégios concedidos a si e aos seus descendentes. O conjunto reunia trinta e seis documentos, dos quais foram preparadas quatro cópias naquele ano.

Nos últimos anos da sua vida, Colombo organizou também o chamado Libro de las profecías, com a colaboração do monge cartuxo Gaspar Gorricio. A maior parte da compilação foi preparada entre 1501 e 1502, embora tenham sido feitas adições posteriores. Reúne passagens bíblicas, patrísticas e medievais que Colombo relacionava com as suas viagens e com uma interpretação providencial da história, na qual a conversão dos povos encontrados e a recuperação de Jerusalém desempenhavam um papel central.

Armas originais

Existe alguma controvérsia em torno das armas originais que Colombo teria usado antes de junho de 1493. Em 2007, foi publicada em Madrid a Provisão Real com estas armas assinadas pelos Reis Católicos.

Legado e recepção

A imagem de Cristóvão Colombo foi sucessivamente reinterpretada desde a sua morte. Durante os séculos XVIII e XIX, tornou-se uma figura simbólica particularmente importante nas Américas. Nos Estados Unidos, o seu nome e a forma feminina Columbia foram adoptados para lugares, instituições e representações da nova nação; na América espanhola, o nome de Colombo foi igualmente apropriado pelos movimentos independentistas, estando na origem, entre outros exemplos, do nome da Colômbia. Elise Bartosik-Vélez interpreta estas apropriações como parte da utilização de Colombo enquanto símbolo de império e de legitimação das novas comunidades políticas americanas.

A partir do final do século XX, a memória pública de Colombo tornou-se crescentemente controversa, à medida que a historiografia e o debate público passaram a dar maior atenção às consequências da colonização para os povos indígenas. A escravização, o trabalho coercivo e a violência estiveram presentes desde as primeiras expedições colonizadoras das Caraíbas. Jeffrey Ostler observa, por exemplo, que durante a segunda viagem de Colombo a violência foi utilizada para capturar e manter indígenas como escravos e para impor a submissão das comunidades locais; ao mesmo tempo, a mortalidade indígena resultou de uma combinação de violência, doenças, fome e desestruturação social.

A aplicação do conceito de genocídio à conquista e colonização das Américas é objecto de debate historiográfico. David Stannard caracterizou a destruição das populações indígenas que se seguiu à chegada europeia como um processo genocida, iniciando a sua análise nas Caraíbas colombinas. Outros historiadores têm salientado que a utilização do termo depende da definição de genocídio adoptada e da consideração da intenção, das causas da mortalidade e das diferentes políticas seguidas em épocas e regiões distintas. Ostler considera, por isso, inadequado procurar uma resposta única para mais de cinco séculos de história colonial, embora sublinhe o carácter profundamente destrutivo da violência, escravização, perda de terras e outras formas de coerção sobre as sociedades indígenas.

Notas

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Bibliografia

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