| Martinho Lutero | |
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| Martin Luther | |
O barrete de doutor associa Lutero à sua atuação como teólogo e professor. Retrato de 1528, da oficina de Lucas Cranach, o Velho, no Lutherhaus. | |
| Conhecido(a) por | Reforma Protestante e Bíblia de Lutero |
| Nascimento | |
| Morte | Eisleben, Condado de Mansfeld |
| Local de sepultamento | Igreja do Castelo de Vitemberga |
| Progenitores | Mãe: Margarethe Lindemann Pai: Hans Luder |
| Cônjuge | Catarina de Bora |
| Filho(a)(s) | Seis |
| Alma mater | Universidade de Erfurt e Universidade de Wittenberg |
| Ocupação | Teólogo, professor, tradutor da Bíblia e reformador |
| Empregador(a) | Universidade de Wittenberg |
| Assinatura | |
Martinho Lutero (Eisleben, 10 de novembro de 1483 – 18 de fevereiro de 1546) foi um frade agostiniano e professor de teologia alemão cuja crítica às indulgências ajudou a desencadear a Reforma Protestante. Em 1517, suas 95 Teses abriram uma controvérsia sobre o perdão dos pecados e a autoridade da Igreja. O debate se espalhou entre governantes e fiéis e contribuiu para romper a unidade do cristianismo ocidental.
Lutero ensinava que a salvação é um dom de Deus, recebido pela fé em Jesus Cristo, e que a Bíblia deveria orientar a vida cristã. Sua recusa a retirar suas ideias levou à excomunhão e à proscrição no Sacro Império Romano-Germânico. Protegido por governantes da Saxônia, continuou a escrever, pregar e orientar comunidades que adotaram a Reforma.
Ao traduzir a Bíblia para o alemão, procurou tornar seu texto compreensível a um público mais amplo. Seus catecismos e hinos levaram seus ensinamentos das universidades às casas e aos cultos. Sua escrita marcou a formação do alemão moderno, enquanto as comunidades surgidas da Reforma se espalharam para além dos territórios alemães.
Lutero apoiou a repressão da revolta camponesa de 1524 e 1525 e, em seus últimos anos, publicou ataques aos judeus que defendiam medidas violentas contra eles. Seu legado reúne profundas mudanças religiosas e culturais e conflitos que continuam a suscitar estudo e debate.

Lutero era o filho mais velho do mestre de fundição Hans Luder (1459–1530) e de Margarethe Lindemann (1459–1531). Seus pais se casaram por volta de 1479 e se mudaram para Eisleben, onde Hans arrendou uma fundição. A família usava diferentes formas do sobrenome. Em português, Lutero também é chamado Martim Lutero. Lutero escolheu a forma pela qual ficou conhecido por volta de 1512 ou de 1517. Derivou-a do nome do duque Leutário II ou do adjetivo grego eleutheros, "livre", e usou por algum tempo a forma Eleutherios, "o livre".
Segundo as lembranças de sua mãe, recolhidas por Filipe Melâncton depois da morte de Lutero, ele nasceu na noite de 10 de novembro e foi batizado no dia seguinte com o nome do santo do dia, Martinho de Tours. Seu irmão Jakob afirmava que a família situava o nascimento em 1483, mas o próprio Lutero mencionou 1482 e 1484. A favor de 1482 está sua declaração de que tinha 22 anos ao prestar o exame de mestre em 1505. Se tivesse nascido em 1484, o local de nascimento seria Mansfeld, para onde a família se mudou no verão daquele ano.
Em Mansfeld, a família começou morando em uma casa sublocada, mas logo passou para uma residência imponente em frente ao castelo. Ali Martinho cresceu com seu irmão mais novo, Jacob, que viveu de 1490 a 1571, e três irmãs. Provavelmente também aprendeu o dialeto baixo-alemão falado na cidade, ao qual faria referência nas suas Conversas à mesa. Na escola de latim de Mansfeld, entre 1490 e 1497, estudou sobretudo gramática, além de um pouco de lógica, retórica e música. Seu pai, que tinha uma situação econômica relativamente confortável, entrou para o conselho municipal em 1491.
A partir da primavera de 1497, Martinho frequentou por cerca de um ano a escola da catedral de Magdeburgo. Os Irmãos da Vida Comum o alojaram na Casa de São Jerônimo. Ele também frequentava a casa de Paul Moßhauer, integrante de outra família de empresários da mineração de Mansfeld e oficial eclesiástico do arcebispo Ernesto II da Saxônia.

Para se preparar para a universidade, Lutero foi morar com parentes de sua mãe em Eisenach, uma pequena cidade que tinha três igrejas paroquiais e mosteiros, com uma proporção elevada de clérigos entre seus cerca de 4.000 habitantes. Na escola paroquial de São Jorge, entre 1498 e 1501, aprendeu a falar e escrever latim com fluência. Manteve contato com o professor Wigand Güldenapf, a quem dizia dever muito. De início, precisou se sustentar cantando em um coro de estudantes. Depois foi acolhido em uma casa das famílias Cotta e Schalbe, provavelmente a atual Casa de Lutero em Eisenach. Assim conheceu o Collegium Schalbense, um grupo de oração e leitura de religiosos e moradores da cidade, orientado pela Ordem Franciscana. Participava também de encontros na casa do sacerdote e vigário colegial Johannes Braun, onde se fazia música, se rezava e se conversava sobre textos religiosos e humanistas. Nesse círculo, havia também devoção a Santa Ana.

No semestre de verão de 1501, "Martinus Ludher ex Mansfeldt" se matriculou na faculdade de artes da Universidade de Erfurt. Como foi classificado como estudante de posses, pagou a taxa integral de matrícula. Não se sabe se, durante os estudos de artes, viveu na residência estudantil de São Jorge ou no Collegium Porta Coeli. Nessas residências, os estudantes seguiam regras rigorosas, em uma rotina que lembrava a de um convento. Em 29 de setembro de 1502, prestou o exame de bacharelado na primeira data em que podia fazê-lo e passou em trigésimo lugar entre 57 formandos.
Em 1503 ou 1504, um ferimento na coxa, causado pela espada que levava como estudante, obrigou-o a ficar de cama. Nesse período, aprendeu a tocar alaúde. A epidemia de peste que atingiu Erfurt e seus arredores em 1504 e 1505 matou colegas e professores seus e o lançou em uma crise. Em 6 de janeiro de 1505, concluiu a formação universitária inicial com o título de Mestre em artes, em segundo lugar entre 17 candidatos. Lutero dizia ter como professores universitários Jodocus Trutfetter, de Eisenach, e Bartholomaeus Arnoldi, de Usingen, com os quais mantinha contato próximo. Sua formação filosófica até então consistira no estudo de Aristóteles pela interpretação escolástica medieval. Aristóteles explicara o conceito de habitus com o exemplo do tocador de cítara, que, pela prática, se tornava um virtuose capaz de agir "com facilidade, segurança, prazer e perfeição". A escolástica aplicava essa ideia à vida cristã, na qual o cristão virtuoso faria com facilidade, espontaneidade e alegria o que Deus exigia.
Por desejo de seu pai, Lutero começou a estudar direito em Erfurt no semestre de verão de 1505, para depois ingressar na administração do condado e dirigir os negócios da família. Em 2 de julho de 1505, ao voltar de uma visita aos pais em Mansfeld, foi surpreendido por uma forte tempestade perto de Stotternheim. Com medo de morrer, prometeu a Santa Ana que se tornaria monge se ela o salvasse.
A decisão de entrar no convento depois do voto feito na tempestade recebeu interpretações diferentes: Martin Brecht a entendeu como uma tentativa de superar uma crise pessoal, ligada também aos estudos jurídicos. Para Thomas Kaufmann, Lutero se sentia oprimido pelo curso de direito e, possivelmente, pelos planos dos pais de casá-lo por interesse econômico. A peste em Erfurt e a tempestade teriam exposto sua vulnerabilidade e sua sujeição a Deus, às quais a entrega à vida religiosa lhe parecia uma resposta adequada. Dietrich Emme, por sua vez, atribui a decisão repentina à tentativa de escapar da justiça secular depois de matar um colega em uma discussão. Em 17 de julho de 1505, Lutero pediu ingresso no convento dos eremitas agostinianos de Erfurt.

Lutero foi inicialmente recebido como hóspede no convento agostiniano de Erfurt e fez sua primeira confissão geral ao prior Winand von Diedenhofen. Provavelmente já no outono de 1505 foi admitido como noviço e confiado por um ano de experiência ao mestre de noviços Johannes von Paltz, que o apresentou ao modo de vida da comunidade. Em uma visita ao convento, em 3 de abril de 1506, o vigário-geral dos eremitas agostinianos, Johann von Staupitz, conheceu Lutero e se tornou seu confessor e orientador espiritual. Os superiores confiavam em seu desenvolvimento e esperavam muito dele, enquanto o próprio Lutero se sentia insuficiente.
Com a profissão religiosa, em setembro de 1506, foi admitido definitivamente na ordem. Seus superiores o destinaram ao sacerdócio e aos estudos de teologia. Lutero estudou a interpretação do cânon da missa de Gabriel Biel. Em 4 de abril de 1507, o bispo auxiliar Johannes Bonemilch o ordenou sacerdote na Catedral de Erfurt. Para sua primeira missa, celebrada em 2 de maio de 1507 na igreja do convento, convidou os parentes de Mansfeld e os amigos de Eisenach.

Nos estudos de teologia, Lutero tomou como principal manual o comentário às Sentenças, o Collectorium de Gabriel Biel, que conciliava o pensamento de Guilherme de Ockham com outras doutrinas escolásticas e defendia uma concepção pelagiana do livre-arbítrio. Para Johannes Wallmann, essa concepção contrariava Tomás de Aquino e o posterior Concílio de Trento. A teologia reformadora que Lutero desenvolveria se opunha ao ockhamismo de Biel.
Por recomendação de Johann von Staupitz, a congregação alemã, reunida em Munique, transferiu Lutero para Wittenberg em 18 de outubro de 1508. Ele deveria substituir temporariamente outro frade e ensinar filosofia moral na faculdade de artes. Na organização universitária da época, podia ensinar enquanto prosseguia seus próprios estudos. Em março de 1509, obteve o grau de Baccalareus biblicus. Depois de mais um semestre, participou da disputa necessária para o grau de Baccalaureus sententiarius. Antes de dar a aula inaugural, porém, seu convento o chamou de volta de maneira inesperada, sem consultar Staupitz. Talvez os agostinianos de Erfurt estivessem protestando contra a eleição de Staupitz como provincial da Saxônia e da Turíngia. Lutero voltou a Erfurt ainda em 1509.
Uma anotação sua em uma edição impressa das obras de Agostinho de Hipona, pertencente à biblioteca do convento, comprova que as lia desde esse ano. Entre elas estavam Sobre a Trindade e De Civitate Dei, mas ainda não os textos contra os pelagianos. No outono de 1509, deu suas aulas sobre as Sentenças no Auditorium Coelicum, junto à Catedral de Erfurt, e recebeu o título de Baccalaureus sententiarius. Ensinou como sentenciário em Erfurt do semestre de inverno de 1510 ao semestre de verão de 1511. Depois do período em que ensinou como sentenciário em Erfurt, mudou-se definitivamente para Wittenberg.
Em 1506, atraído pelo estudo humanista das línguas bíblicas, Lutero comprou De rudimentis hebraicis, de Johann Reuchlin, e começou a aprender hebraico por conta própria. Em 1512, adquiriu também a edição de Reuchlin dos sete salmos penitenciais, Septem psalmi poenitentiales, com texto hebraico, tradução latina e explicações gramaticais. Manteve contato com os humanistas de Erfurt Crotus Rubeanus, Mutianus Rufus, desde 1515, e Johann Lange, mas não fazia parte do grupo. Interessava-se pelos autores da Antiguidade e adquiriu cedo o Novo Testamento grego de Erasmo.

Por incumbência de sua ordem e acompanhado de outro frade, Lutero viajou a Roma no fim de 1510 ou mais tarde. A data e o objetivo exato da viagem são incertos. Heinrich Böhmer, em Martin Luthers Romfahrt, de 1914, e Heinz Schilling, em Martin Luther: Rebell in einer Zeit des Umbruchs, de 2013, entendem que os dois frades de Erfurt foram protestar em Roma contra a união, determinada pela direção alemã da Ordem de Santo Agostinho, dos conventos de observância rigorosa com os mais liberais da província religiosa da Saxônia. Hans Schneider e, seguindo sua interpretação, Thomas Kaufmann, Bernd Moeller, Volker Leppin e Ulrich Köpf situam a viagem em 1511 e 1512. Nesse caso, Lutero teria partido de Wittenberg, e não de Erfurt, e provavelmente apoiaria os planos de união de seu confessor, Staupitz. Até então, Lutero nunca saíra de sua região de origem e, depois de Roma, não voltaria a percorrer uma distância tão longa. Aproveitou as cerca de quatro semanas em Roma para fazer sua terceira confissão geral e visitar muitos locais de devoção.
Na interpretação de Johannes Wallmann, ele não questionava a penitência e as indulgências romanas, nem deixava passar as abundantes oportunidades de obtê-las, mas se horrorizava com a falta de seriedade e a decadência moral que observava, sem que isso abalasse sua fé na Igreja. Para Volker Leppin, os primeiros testemunhos de Lutero ainda não trazem essas observações. Só as Conversas à mesa, mais tardias, insistem na decadência de Roma, que ele também poderia conhecer por outras fontes. Em 1519, Roma ainda era para ele a Igreja de São Pedro, de São Paulo e de tantos mártires, à qual Deus dedicara especial atenção. Como depois mencionava apenas suas impressões pessoais da viagem, ela talvez tenha sido uma peregrinação, e não uma missão oficial.
Por iniciativa de Staupitz, Lutero se mudou de Erfurt para Wittenberg em setembro de 1511 e se candidatou ao doutorado em teologia. A cidade tinha então, no máximo, 2.500 habitantes. A Leucorea ainda estava sendo organizada, e o edifício do convento agostiniano também não estava concluído. Wittenberg, porém, era a capital do Eleitorado da Saxônia, e Lutero passou a viver em um centro político que teria peso em sua trajetória. No capítulo da ordem dos eremitas agostinianos, em Colônia, em 5 de maio de 1512, Lutero provavelmente apoiou Staupitz nos conflitos internos. O capítulo o nomeou subprior, diretor de estudos e pregador do convento de Wittenberg. Deveria assumir por toda a vida a cátedra de interpretação bíblica que Staupitz ocupara, e Frederico, o Sábio, se dispôs por isso a pagar os custos do doutorado.

Como o território do Eleitorado da Saxônia se dividia entre dioceses, o soberano de Lutero tinha uma posição forte na política eclesiástica. A colegiada de Todos os Santos de Wittenberg, com a igreja municipal a ela incorporada, estava diretamente subordinada ao papa. O chantre da colegiada, Ulrich von Dinstedt, não cumpria suas funções de pregador na igreja municipal, e Lutero recebeu essa incumbência. Durante muito tempo, ela lhe trouxe sua única renda pessoal, oito florins e doze groschen por ano. Os primeiros sermões de Lutero com data segura são de 1514.
No capítulo da congregação, realizado em Gotha em 1.º de maio de 1515, Lutero foi nomeado vigário provincial. Além de ensinar em Wittenberg, assumiu funções de direção na ordem que exigiam muitas visitas de inspeção e viagens. Como vigário, tinha dez conventos sob sua autoridade, entre eles o de Erfurt, onde havia ingressado na ordem. Em 1516, nomeou Johann Lange prior desse convento. Em Wittenberg, era subprior, o segundo na hierarquia do convento, e, ao mesmo tempo, como vigário, superior do prior.

Em outubro de 1512, Lutero recebeu de Andreas Karlstadt o título de Doutor em Teologia na Leucorea. O juramento de doutorado o comprometia com as Sagradas Escrituras, isto é, a Bíblia, e com a interpretação teológica de seu conteúdo. Lutero recorreria a esse compromisso no conflito com a Igreja papal.
Em Wittenberg, oferecia a cada semestre um curso com duas horas de aula. Restaram anotações de estudantes e textos de trabalho de alguns desses cursos, entre eles o Saltério de Wolfenbüttel, seu exemplar pessoal das primeiras aulas sobre os salmos, Dictata super Psalterium, dadas entre 1513 e 1515. Lutero ainda interpretava o texto latino da Vulgata pelo método tradicional dos quatro sentidos das Escrituras, mas já insistia em uma ideia que lhe seria característica, a de que todos os salmos falavam de Jesus Cristo. Como haviam sido escritos antes da vida terrena de Jesus de Nazaré, fariam isso em sentido literal, mas profético, o sensus litteralis propheticus. Essa abordagem hermenêutica vinha de seu mentor, Staupitz.
Ao preparar suas aulas sobre a Epístola aos Romanos, dadas em 1515 e 1516, Lutero já usava o Novo Testamento grego, embora ainda tomasse o texto latino como base para os estudantes. Recorreu frequentemente aos quatro sentidos das Escrituras, mas se afastou aos poucos desse método e citou Agostinho muitas vezes. Provavelmente consultou, na preparação do curso, o oitavo volume de uma edição das obras de Agostinho publicada em Basileia em 1506. Os escritos antipelagianos ali reunidos, como De spiritu et littera, também lhe deram apoio teológico sistemático para compreender a Epístola aos Romanos e a teologia paulina em geral.
No semestre de inverno de 1516 e 1517, Lutero ensinou sobre a Epístola aos Gálatas. Depois, durante a controvérsia das indulgências, dedicou dois semestres à Epístola aos Hebreus. Com interrupções apenas por acontecimentos decisivos de sua vida, Lutero ensinou regularmente sobre um livro bíblico, lectura in biblia, até novembro de 1545. Escolhia com frequência temas do Antigo Testamento, provavelmente por julgar seu conhecimento do hebraico superior ao do grego. Dos 32 anos em que ensinou interpretação bíblica, dedicou apenas quatro a livros do Novo Testamento.
Em agosto de 1518, a Universidade de Wittenberg nomeou Filipe Melâncton para a recém-criada cátedra de grego antigo. Ele se tornou o colaborador mais próximo de Lutero.

O momento em que Lutero formulou pela primeira vez a justiça de Deus como um dom gratuito, recebido apenas pela graça, Sola gratia, é um dos pontos mais discutidos nos estudos sobre ele. Em um relato posterior, apresentou essa mudança como uma iluminação inesperada em seu gabinete na torre sul do convento agostiniano de Wittenberg. Alguns situam essa "experiência da torre" entre 1511 e 1513, outros por volta de 1515 ou de 1518, e outros entendem que a mudança ocorreu aos poucos. A data escolhida também muda o modo de entender o que aconteceu. Em 1545, Lutero recordou a experiência como uma grande libertação ocorrida durante a preparação de suas segundas aulas sobre os salmos, entre a primavera e o outono de 1518.
Em uma carta a Staupitz, Lutero expôs as dificuldades com o sacramento da penitência que provocavam sua tensão interior. Apesar da vida irrepreensível como religioso, sentia-se pecador diante de Deus e incapaz de amar um Deus que punia.

Durante uma meditação solitária sobre Romanos 1:17, Lutero teria encontrado de repente o que procurava havia uma década:
Na recordação de Lutero, esse versículo lhe abriu uma nova compreensão das Escrituras: a justiça eterna de Deus seria um dom gratuito, recebido apenas pela fé em Jesus Cristo. Nenhum esforço próprio poderia obtê-lo, e a própria fé, a aceitação da graça concedida, não seria uma obra ao alcance humano. Na interpretação protestante habitual, essa descoberta rompeu para Lutero toda a teologia medieval. Volker Leppin entende, porém, que seu desenvolvimento não ocorreu por ruptura, mas retomou a piedade do fim da Idade Média presente nos sermões de Johann Tauler.
O jovem Lutero usava com frequência o guia de meditação Rosetum, de 1494, compilado por Johannes Mauburnus no ambiente da Devotio Moderna. Conhecia também os escritos de Bernardo de Claraval, Pseudo-Dionísio, o Areopagita, e Jean Gerson. Em Bernardo, que Lutero estimava especialmente, a humanitas, a vida terrena de Jesus, ocupa o centro da reflexão. A meditação sobre a Paixão deveria levar a pessoa a sofrer com Cristo. Como orientador espiritual e confessor, Staupitz transmitiu a Lutero essa tradição mística do fim da Idade Média. A mística cristã contribuiu para a formação de sua teologia da graça. Ao lidar com a teologia católica, procurou tanto reformá-la em continuidade com a tradição quanto romper com ela.
Em 1516, Lutero publicou a Teologia alemã, de um místico desconhecido que ele julgava ser Johannes Tauler. A obra fortaleceu sua crescente rejeição aos ritos exteriores da Igreja. Sua leitura também afetou Karlstadt e Thomas Müntzer. Por meio de Johann Arndt, foi recebida pelo pietismo, de modo que a recomendação de Lutero transmitiu ao protestantismo tradições místicas medievais.
Durante a elaboração de sua teologia da cruz, Lutero também estudou intensamente a literatura mística. Sua ideia de que Deus só pode ser verdadeiramente conhecido pelo caminho da cruz, que ele próprio percorreu em seu Filho encarnado, pode ter vindo da mística da cruz de Tauler. Para Tauler, a purificação do pecado que precedia a iluminação na experiência mística era a tribulação interior, a ser suportada com humildade e serenidade. Lutero, porém, rejeitou pressupostos da mística. Negou a participação humana na salvação sola gratia e, por fim, a possibilidade de a pessoa unir-se a Deus ou de sua vontade unir-se à vontade divina nesta vida, a unio mystica. De modo geral, contestou a concepção medieval de que justificação e santificação estavam unidas no processo de salvação.
A bula de indulgências do papa Leão X, datada de 31 de março de 1515, destinava-se a financiar a reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma, e a permitir que o arcebispo de Mogúncia, Alberto de Brandemburgo, pagasse suas dívidas com a casa bancária dos Fugger (família). A indulgência plenária concedia aos compradores da carta de indulgência, mediante confissão imediata e na hora da morte, a remissão das penas temporais do purgatório por quase todos os pecados. Também permitia comutar e quitar quase todos os votos, exceto os religiosos. A venda deveria durar oito anos nas províncias eclesiásticas de Mogúncia, Magdeburgo e Brandemburgo. O príncipe-eleitor Frederico III se opunha firmemente à divulgação dessa indulgência perto das fronteiras de seu território, pois via nela uma concorrência prejudicial ao seu centro de peregrinação, a coleção de relíquias de Wittenberg.
A partir de 22 de janeiro de 1517, o dominicano Johann Tetzel, subcomissário-geral da campanha, mandou imprimir uma versão simplificada e grosseira das instruções sobre indulgências para aumentar a arrecadação. Recebia por esse trabalho oitenta florins por mês e outras vantagens. Não podia atuar no Eleitorado da Saxônia, mas muitos moradores de Wittenberg compravam as cartas em Jüterbog, a 35 km de distância, ou em Zerbst. Cidadãos e comerciantes pagavam três florins por pessoa, artesãos pagavam um, e os pobres deveriam jejuar e rezar. Lutero leu as instruções de Tetzel no fim do verão de 1517.
Ao estudar as indulgências, Lutero passou a questionar também o sacramento da penitência, que havia muito o inquietava; a discussão o levou a conflitos crescentes com as autoridades eclesiásticas e deu visibilidade às suas ideias. Por volta de 1514, nas primeiras aulas sobre os salmos, já criticara a Igreja por tornar fácil o caminho para o céu por meio das indulgências, exigir tão pouco que um suspiro bastava e baratear a graça. Críticas semelhantes estão nas aulas sobre Romanos e nos sermões.
No verão de 1517, os estudos sobre as indulgências provavelmente levaram Lutero a escrever o Tratado sobre as indulgências, no qual ainda aceitava parte daquela prática. Ao mesmo tempo, voltou-se contra a escolástica: em 4 de setembro, apresentou 97 teses para estimular uma disputa entre os colegas sobre essa teologia. Na interpretação de Ockham que lhe fora ensinada, a salvação podia ser obtida por boas obras. Com a Disputatio contra scholasticam theologiam, Lutero contestou pela primeira vez de maneira extensa a teologia escolástica dominante, fundada na filosofia de Aristóteles.

Em 31 de outubro de 1517, Lutero escreveu diretamente ao arcebispo de Mogúncia, no tom respeitoso de um frade de uma ordem mendicante. Como responsável pelo cuidado espiritual dos fiéis, expressou preocupação com os mal-entendidos sobre as indulgências. Supunha que as instruções de Tetzel haviam sido redigidas sem o conhecimento e a aprovação de Alberto. Não mencionou que o papa estava por trás da campanha. Assinou como doutor em teologia e anexou suas 95 Teses. Parece ter enviado outras cartas aos bispos de Brandemburgo e Merseburgo e, talvez, aos de Zeitz, Lebus e Meissen. Também mandou as teses a estudiosos e pediu suas opiniões para iniciar uma discussão universitária, como fez na carta a Johann Lange em Erfurt, de 11.º de novembro de 1517. Protestava sobretudo contra a concepção equivocada de penitência expressa nas indulgências, mais do que contra as práticas financeiras da Igreja romana, rejeitadas por muitos príncipes e cidadãos. Ainda não atacava diretamente Leão X e, pelo menos no plano retórico, supunha que o papa estava de seu lado. Limitava, porém, sua função à intercessão pelos fiéis, negando-lhe o poder das chaves para suprimir as penas do pecado no além, que a doutrina escolástica das indulgências lhe atribuía.

As teses circularam em manuscritos e foram impressas em dezembro de 1517 em Nuremberg, Leipzig e Basileia. Ulrich von Dinstedt, cônego de Wittenberg, enviou o texto a Christoph Scheurl, de Nuremberg, que o distribuiu entre seus conhecidos. O conselheiro municipal Caspar Nützel o traduziu para o alemão. Albrecht Dürer leu essa versão e enviou um presente a Lutero como agradecimento. Em 5 de março de 1518, Erasmo de Roterdã mandou as teses a Thomas More, na Inglaterra.
Melâncton afirmou que Lutero pregou as teses na porta principal da Igreja do Castelo de Wittenberg em 31 de outubro. A narrativa é debatida porque o próprio Lutero não mencionou a afixação e Melâncton chegou a Wittenberg apenas em 1518. Uma anotação de Georg Rörer, descoberta em 2006, trouxe outro testemunho à discussão, mas os historiadores ainda divergem sobre se as teses foram afixadas e, em caso positivo, em quais portas. Outros pesquisadores entendem que Lutero enviou suas Propositiones aos colegas da universidade na condição de presidente de uma disputa, praeses. Como as teses já circulavam, sua possível afixação não teria iniciado o debate sobre as indulgências.
Em fevereiro de 1518, Lutero, ainda pouco familiarizado com o alcance dos impressos, viu a grande repercussão pública das teses como um milagre. Um parecer da Universidade de Mogúncia, solicitado pelo arcebispo Alberto e datado de 17 de dezembro de 1517, recomendou submetê-las à Cúria, pois pareciam limitar o poder papal de conceder indulgências e, assim, contrariar o ensinamento da Igreja. Alberto já havia informado Roma antes desse parecer. As 95 Teses também chegaram a Tetzel. Ele respondeu no âmbito universitário, sem recorrer à justiça, e participou de uma disputa sobre as indulgências na Universidade de Frankfurt an der Oder, em Brandemburgo, em 20 de janeiro de 1518. Suas contrateses, redigidas por Konrad Wimpina, combatiam as de Lutero como erros, entendiam a penitência estritamente como sacramento e reafirmavam a prática habitual das indulgências e sua eclesiologia.
Como apenas os especialistas compreendiam o debate, Lutero escreveu em alemão, no início de março de 1518, o Sermão sobre a indulgência e a graça, destinado ao público em geral. Passou a dizer que as indulgências eram para cristãos preguiçosos, que seria melhor ajudar os pobres e doar voluntariamente para a construção de São Pedro. O benefício das indulgências para os mortos era incerto, e Lutero recomendava a intercessão por eles. O bispo de Brandemburgo, Hieronymus Schulz, aconselhara-o a ficar em silêncio por algum tempo, para que os ânimos se acalmassem. Lutero concordou, mas o sermão já estava sendo impresso e se tornou seu primeiro grande sucesso editorial. No início de abril, pediu e obteve dispensa da promessa de silêncio. Em Ingolstadt, João Maier, um adversário hábil na escrita e na teologia, já havia se manifestado. Os dois passaram a trocar ataques polêmicos, enquanto Christoph Scheurl tentava mediar o conflito.
Em 25 de abril de 1518, Lutero compareceu como vigário distrital ao capítulo geral da congregação reformada saxônica dos eremitas agostinianos, em Heidelberg. Staupitz foi reeleito vigário, e Lange sucedeu Lutero como vigário distrital. No dia seguinte, houve uma disputa pública no convento agostiniano de Heidelberg, que não teve as indulgências como tema. Lutero a presidiu e conquistou seguidores entre os jovens teólogos presentes que depois se tornariam reformadores, como Martin Bucer, Erhard Schnepf, Martin Frecht, Theobald Billicanus e Johannes Brenz.
Lutero mandou então imprimir as Resolutiones, comentários às teses, e enviou exemplares a Leão X e ao bispo de Brandemburgo. Explicou que as 95 Teses não eram simplesmente a expressão de suas opiniões, mas deveriam estimular o debate, e desenvolveu sua reflexão sobre o purgatório. Não via sentido em Deus punir os mortos, pois, se seus pecados estivessem perdoados, estariam em comunhão com Deus, e, se não estivessem, estariam no inferno.
| Papa | Início | Fim |
|---|---|---|
| Júlio II | 1.º de novembro de 1503 | 21 de fevereiro de 1513 |
| Leão X | 11 de março de 1513 | 1.º de dezembro de 1521 |
| Adriano VI | 9 de janeiro de 1522 | 14 de setembro de 1523 |
| Clemente VII | 18 de novembro de 1523 | 25 de setembro de 1534 |
| Paulo III | 13 de outubro de 1534 | 10 de novembro de 1549 |

O arcebispo e cardeal Alberto de Brandemburgo encaminhou as teses à corte papal em 13 de dezembro. Sua reação ficou entre a expectativa de que o episódio não teria grandes consequências e a preocupação com a ordem. A carta provavelmente chegou a Roma em janeiro de 1518, quando o caso, Causa lutheri, passou a constar dos registros da Cúria. Em um breve de 3 de fevereiro de 1518, Leão X pediu ao protomestre e prior-geral dos eremitas agostinianos, Gabriel della Volta, chamado Gabriel Venetus, que viveu aproximadamente de 1468 a 1537, que interviesse junto ao sacerdote de sua ordem para que ele não anunciasse novas doutrinas ao povo.
Em março de 1518, Lutero contava com o apoio de quase todos os eremitas agostinianos da Saxônia, mas os dominicanos saxônicos o acusaram de heresia em Roma. O papa encarregou então o teólogo da corte Silvestro Mazzolini, chamado Prierias, de emitir um parecer sobre as teses. Em In praesumptuosas Martini Lutheri conclusiones de potestate papae dialogus, Prierias expôs a questão central, a autoridade da Igreja e do papa. Levou seu argumento ao ponto de declarar infalíveis os ensinamentos e a própria prática da Igreja, afirmando que quem dissesse que a Igreja romana não podia fazer, em matéria de indulgências, o que de fato fazia era um herege. Leão X também encarregou da Causa lutheri o procurador fiscal papal Mario de Perusco, que ocupava um dos cargos jurídicos mais elevados da Cúria, e o bispo Girolamo Ghinucci, depois núncio, responsável por examinar os processos como auditor generalis. Ghinucci foi decisivo para a abertura do processo canônico contra Lutero.
Em julho de 1518, a Cúria romana abriu um procedimento contra Lutero e, no mês seguinte, enviou-lhe uma convocação, citatio, que chegou em 7 de agosto e lhe dava sessenta dias para comparecer a Roma e se defender da acusação de heresia. Seu soberano, Frederico, o Sábio, conseguiu que a Cúria autorizasse o interrogatório na Dieta de Augsburgo.
Após a chegada das Resolutiones a Roma, um breve papal de 23 de agosto de 1518 declarou notória, isto é, manifesta, a heresia atribuída a Lutero, de modo que a apuração dos fatos já estava em grande parte concluída. O cardeal Thomas de Vio, chamado Caetano, legado papal na Dieta de Augsburgo, recebeu a ordem de colocar Lutero sob sua autoridade. A Cúria procurou prendê-lo também por outros meios. Em 25 de agosto, o protomestre dos eremitas agostinianos escreveu ao provincial saxônico Gerhard Hecker, ordenando que prendesse Lutero por autoridade apostólica, com o apoio dos membros da congregação reformada. Como protomestre, podia impor o interdito a quem o ajudasse.
Entre 12 e 14 de outubro de 1518, Lutero se reuniu com Caetano no palácio urbano dos Fugger, onde o cardeal estava hospedado durante a Dieta. Lutero ficou no convento carmelita de Augsburgo, cujo prior, Johannes Frosch, era licenciado em Wittenberg. Em troca da hospedagem, o príncipe-eleitor prometeu custear o doutorado que Frosch estava prestes a fazer. Caetano se dispunha a acolher paternalmente uma retratação, mas Lutero queria debater. No terceiro e último dia do interrogatório, apresentou um texto escrito no qual insistia na necessidade de certeza da fé ao receber os sacramentos e explicava sua nova compreensão de Romanos 1:17.
Depois do interrogatório, Lutero esperou alguns dias sem saber o que aconteceria. Como nada ocorreu, despediu-se de Caetano em uma carta de 18 de outubro. Escreveu que, por não querer se retratar, não podia voltar à presença do cardeal e deixaria Augsburgo para ir a outro lugar. Na noite de 20 de outubro, quando os portões da cidade já estavam fechados, amigos o ajudaram a sair por uma pequena porta ao norte. O prior de Ramsau, Martin Glaser, deixou um cavalo à sua disposição, e Lutero cavalgou durante a noite até Monheim. Passando por Nuremberg, chegou de volta a Wittenberg em 31 de outubro.
Em Augsburgo, Caetano percebeu que a bula Unigenitus, de 1343, não dava sustentação dogmática suficiente à doutrina das indulgências, o que abrira espaço para os argumentos de Lutero. Em 9 de novembro de 1518, veio uma definição dogmática da qual Caetano participou. Na decretal Cum postquam, Leão X estabeleceu que, pelo poder das chaves, o papa podia remitir as penas do pecado distribuindo o tesouro dos méritos de Cristo e dos santos, e que a indulgência pelos mortos operava por intercessão. Não houve fundamentação com citações bíblicas ou dos Padres da Igreja. Essa precisão posterior permitia classificar a posição de Lutero como herética.
Frederico, o Sábio, recebeu uma carta de Caetano na qual o cardeal dizia ter agido com bondade paternal, enquanto Lutero se recusara obstinadamente a abandonar suas opiniões errôneas. Caberia ao príncipe-eleitor entregá-lo a Roma ou expulsá-lo do Eleitorado da Saxônia. Preocupado com a proteção de Lutero e com a reputação da Universidade de Wittenberg, Frederico respondeu em 7 de dezembro que os estudiosos ainda não haviam discutido suficientemente o caso. Até que isso ocorresse, Lutero não seria considerado herege na Saxônia e permaneceria no território. Roma deveria ter respondido com sua excomunhão, mas razões políticas impediram essa decisão.

Em 12 de janeiro de 1519, o imperador Maximiliano I morreu no castelo de Wels. Escolhera como sucessor seu neto Carlos I, rei da Espanha. Como Carlos também governava os reinos de Nápoles e da Sicília, os Estados Pontifícios corriam o risco de ficar cercados por seus domínios. Frederico III, integrante do colégio dos príncipes-eleitores, passou a ter peso nessa disputa. Leão X suspendeu então o processo de Lutero e encarregou Karl von Miltitz de convencer o príncipe-eleitor a buscar uma solução pacífica para a questão religiosa.
Os acordos alcançados perderam efeito com a controvérsia entre Karlstadt e Eck, na qual Lutero logo se envolveu. Ela foi levada a um público universitário na Disputa de Leipzig, de 4 a 14 de julho de 1519. Karlstadt tomara a iniciativa ao desafiar Eck. Enquanto ainda se discutia se Lutero poderia participar como outro debatedor no encontro da Universidade de Leipzig, ele publicou suas teses contra Eck. Na última, formulada sem ressalvas, dizia que a superioridade da Igreja romana sobre as demais se apoiava nos frios decretos dos papas dos últimos quatrocentos anos, contrariados por 1.100 anos de história reconhecida, pelo texto das Escrituras e pelo decreto do Concílio de Niceia, respeitado por todos, que estabelecera a igualdade entre os patriarcados da Igreja antiga. Essa posição o isolou também entre os colegas. Lutero aprofundou os estudos de direito canônico e de história da Igreja para responder aos ataques de Eck, e suas posições se radicalizaram. Ainda podia reconhecer o papado como instituição terrena, mas sem a condição de fundação e vocação divinas. Os papas podiam errar e não tinham o monopólio da interpretação correta da Bíblia. Lutero começou também a se perguntar se o papa poderia ser o Anticristo.

Ao discutir o primado papal, Lutero defendeu a igualdade entre os patriarcados da Igreja antiga, e Eck o acusou de seguir Jan Hus, que defendera essa posição e fora queimado como herege. Ao invocar a autoridade do Concílio de Constança, que condenara Hus, Eck o colocou em dificuldade. Lutero procurava manter a autoridade das decisões consensuais dos bispos reunidos, mas teve de admitir que os concílios também podiam errar. Para Eck, essa declaração o colocava fora da comunhão da Igreja.
Depois da eleição de Carlos como imperador, em 28 de junho de 1519, a Cúria retomou o processo de heresia na primavera de 1520. Após outro interrogatório inconclusivo diante de Caetano, o papa publicou, em 15 de junho de 1520, a bula Exsurge Domine, que ameaçava Lutero com a excomunhão. Condenava 41 proposições, todas citações literais de seus escritos, exceto uma formulada por paráfrase. Os temas eram penitência, indulgências, purgatório, papado e antropologia. A bula não refutava as proposições com argumentos e concedia a Lutero e seus seguidores sessenta dias para abandonar os erros. Johannes Eck, na Saxônia, no Eleitorado da Saxônia e no sul da Alemanha, e o humanista Girolamo Aleandro, nos Países Baixos e no oeste da Alemanha, foram nomeados núncios para divulgá-la.
Quando Lutero e Caetano se confrontaram abertamente em Augsburgo, em 1518, Staupitz, que viajara para acompanhar seu protegido, o dispensou da obrigação de obediência à Ordem de Santo Agostinho. Essa medida provavelmente visava protegê-lo. Já a renúncia de Staupitz a seus cargos na ordem, em 1520, pode ser entendida como um afastamento da radicalização da Reforma.

Em outubro de 1520, Lutero dedicou a Leão X o escrito Da liberdade do cristão e apelou a um novo concílio. Em 10 de dezembro, houve uma queima de livros no local de descarte de carcaças diante da Porta de Elster, no local hoje assinalado pelo Carvalho de Lutero, em Wittenberg, para a qual Melâncton convidou os membros da universidade. Johannes Agricola organizou a ação e lançou ao fogo volumes de direito canônico, o manual de confissão Summa angelica de casibus conscientiae, publicado em Speyer em 1488 por Angelo Carletti di Chivasso, e escritos de Eck e Emser. Pediu também a Suma de Tomás de Aquino e o comentário às Sentenças de Duns Scotus, mas os teólogos de Wittenberg não os entregaram. Lutero se aproximou e atirou às chamas um exemplar da bula que o ameaçava com a excomunhão.
Em 3 de janeiro de 1521, Lutero foi excomungado pela bula de excomunhão Decet Romanum Pontificem. A excomunhão e a circulação de seus principais escritos reformadores o tornaram conhecido em todo o Império. A imprensa, o descontentamento social e a disposição para reformas políticas lhe deram um sucesso editorial excepcional. Até o fim do ano, haviam sido publicados 81 escritos e coletâneas de sua autoria, frequentemente traduzidos para outras línguas, em um total de 653 edições. Em países diversos, surgiram movimentos semelhantes de reforma, condicionados pelas tensões políticas entre principados e poderes centrais.
Frederico, o Sábio, negociou para que Lutero pudesse voltar a explicar e defender sua posição na próxima Dieta.

Em 2 de abril de 1521, Lutero e seus companheiros partiram para Worms. A cidade de Wittenberg lhe deu dinheiro para a viagem e uma carroça coberta. Como os religiosos tradicionalmente viajavam em duplas, acompanhou-o o frade Johann Petzensteiner. Também faziam parte do grupo Nicolaus von Amsdorf, o nobre pomerano Peter von Suaven e, a partir de Erfurt, Justus Jonas.
Em 17 de abril, Lutero compareceu diante de Carlos V e da Dieta de Worms. Foi interrogado perante os príncipes e os estados imperiais reunidos no palácio episcopal e recebeu pela última vez a exigência de retratação. Depois de um dia para pensar, sabendo que a recusa poderia custar sua vida, respondeu:
Na manhã de 19 de abril, o imperador discutiu com os estados imperiais os passos seguintes, e eles pediram tempo para deliberar. Carlos mandou apresentar sua posição. Consciente da tradição de sua dinastia, via-se como protetor da fé católica e entendia que um único religioso certamente estava errado quando sua opinião contrariava a de toda a cristandade. Faria tudo ao seu alcance contra aquele herege notório e esperava o mesmo dos estados. Em 20 de abril, estes ainda procuraram uma conciliação. Uma nova conversa com estudiosos deveria convencer Lutero de seus erros. Em 22 de abril, o imperador concedeu três dias para isso, após os quais seria decretada imediatamente a proscrição. Uma comissão dos estados imperiais tentou persuadi-lo a ceder em nome da unidade da Igreja. Dois humanistas, Hieronymus Vehus, chanceler dos margraves de Baden, e Conrad Peutinger, representante de Augsburgo, ofereceram amplas concessões como negociadores. As conversas, porém, não deram resultado. Na noite de 25 de abril, um conselheiro imperial comunicou oficialmente a Lutero que deveria partir. Lutero já sabia que seu soberano o colocaria em segurança. Em 28 de abril, escreveu abertamente a Lucas Cranach que se deixaria recolher e esconder, embora ainda não soubesse onde.
O grupo deixou Worms na sexta-feira, 26 de abril de 1521, rumo a Wittenberg. Passou por Frankfurt am Main, Friedberg, Grünberg e Hersfeld, chegando a Eisenach em 2 de maio. Lutero deixou Hieronymus Schurff, Jonas e Suaven seguirem sozinhos, pois queria visitar parentes em Möhra. Ficou apenas com Petzensteiner e Amsdorf, que conhecia o plano. Em 4 de maio, cavaleiros armados com bestas encenaram um ataque à carroça em um caminho rebaixado perto do Castelo de Altenstein. Petzensteiner fugiu, Amsdorf protestou em voz alta, e os homens levaram Lutero por caminhos indiretos até Castelo de Wartburg, onde chegou tarde da noite.
Em 26 de maio de 1521, a Dieta promulgou contra ele o Édito de Worms, assinado pelo imperador e retrodatado para 8 de maio. Com base na bula de excomunhão, proibia em todo o Império ajudar ou abrigar Lutero, ler ou imprimir seus escritos e ordenava sua prisão e entrega ao imperador. Por mais de uma década, o édito foi um instrumento eficaz de repressão à Reforma. Embora a documentação sobre o acordo seja escassa, as atas das dietas imperiais, série mais recente, DRTA.Jr, permitem concluir que, na quinta-feira, 23 de maio, pouco antes de partir, Frederico, o Sábio, acertara com Carlos V a aplicação da proscrição em seu território. O Eleitorado da Saxônia não recebeu o mandado de proscrição. O imperador evitou entrar em conflito com um poderoso príncipe imperial, e essa situação salvou Lutero. Durante anos, o príncipe-eleitor saxônico pôde agir como se o Édito de Worms não existisse para ele.

Lutero permaneceu de 4 de maio de 1521 a 1 de março de 1522 no castelo de Wartburg, que tinha alojamentos para prisioneiros nobres, com sala e quarto. Ficou sob a supervisão do comandante do castelo, Hans von Berlepsch. Abandonou os sinais exteriores de religioso, o hábito e a tonsura, e adotou roupas, cabelo e barba de cavaleiro, sob o nome de "Junker Jörg". Todos os contatos externos passavam por Georg Spalatin, que encaminhava ou retinha os escritos recebidos e enviados em função da política do Eleitorado da Saxônia. Lutero escreveu intensamente e procurou intervir nas mudanças sociais e litúrgicas que a Reforma provocava em Wittenberg, o movimento de Wittenberg. Karlstadt, pregador na igreja municipal, e Gabriel Zwilling, pregador no convento agostiniano, conduziam essas mudanças. Melâncton, por ser leigo, não era aceito nessa função. Lutero tentou obter para ele uma autorização de pregação, mas a colegiada de Todos os Santos recusou. As mudanças avançavam depressa. No Natal de 1521, Karlstadt celebrou a Ceia de forma simples. Entre os muitos participantes havia representantes da cidade e da universidade. Receberam pão e vinho sem confissão nem jejum e tomaram o cálice com as próprias mãos. No Ano-Novo, no domingo seguinte e na Epifania, mais de mil pessoas participaram, em cada celebração, dessa nova forma da Ceia, diferente da missa.

Em maio de 1521, os primeiros sacerdotes se casaram, seguindo a crítica de Lutero ao celibato, e sofreram medidas disciplinares dos bispos. Muitos clérigos seguiram seu exemplo em 1521 e 1522. Outros religiosos deixaram os conventos, ampliando a discussão sobre a validade de seus votos. O próprio convento de Lutero entrou em grave crise. Wenzeslaus Linck convocou um capítulo extraordinário em Wittenberg para 6 de janeiro de 1522. Nessa situação, Lutero escreveu em novembro de 1521 um parecer sobre os votos, De votis monasticis… iudicium. Encontrou a solução na liberdade do Evangelho. Um voto contrário a essa liberdade seria nulo se tivesse sido feito sob a suposição de que a vida religiosa era necessária para alcançar a justiça e a salvação. Spalatin reteve esse escrito delicado até fevereiro de 1522.

No início de dezembro de 1521, Lutero foi a cavalo a Wittenberg para observar a situação incógnito e ficou na casa de Melâncton. Em carta a Spalatin, expressou satisfação com as mudanças. Nesse encontro, Melâncton sugeriu traduzir o Novo Testamento para o alemão, tarefa à qual Lutero dedicou o restante da estadia em Wartburg. Usou como base a segunda edição do texto grego preparada por Erasmo, que também trazia sua tradução latina e notas explicativas. Lutero recorreu com frequência a essas notas, embora a pressa o impedisse de aproveitá-las por inteiro. Concluiu o trabalho em apenas onze semanas.
Na passagem de 1521 para 1522, chegaram a Wittenberg os chamados profetas de Zwickau. A exegese bíblica de Markus Thomae, chamado Stübner, ex-estudante de Wittenberg, impressionou especialmente Melâncton e Amsdorf, que julgavam possível que os visitantes fossem inspirados pelo Espírito Santo. Stübner criticava o batismo infantil. No Ano-Novo, o príncipe-eleitor consultou Amsdorf e Melâncton em Prettin. Não considerou necessário chamar Lutero de volta, como Melâncton desejava. Os visitantes deveriam receber instrução bíblica, mas não um espaço para disputar. A gravidade da questão do batismo infantil ainda não era percebida, nem por Lutero, que se manifestou por carta. Ele criticou a aparente ausência de provações espirituais entre os profetas de Zwickau, pois as considerava parte de uma experiência autêntica de Deus. Apenas Stübner permaneceu mais tempo em Wittenberg e conquistou alguns seguidores.
Em 24 de janeiro, o conselho municipal de Wittenberg aprovou uma ordem eclesiástica, com a participação consultiva dos professores. Além da retirada de altares e imagens de santos e da reforma do culto, previa mudanças sociais. Com as receitas eclesiásticas, criou-se a "caixa comum", um fundo de auxílio direto ou de empréstimos aos pobres. A mendicância foi proibida. Seguiram-se consequências inesperadas, uma violenta destruição de imagens e a saída de estudantes de Wittenberg, alguns chamados de volta por suas famílias, outros privados da mendicância de que dependiam para viver. Em 13 de fevereiro, o governo do Eleitorado proibiu todas as inovações e impediu Karlstadt e Zwilling, responsabilizados pelos tumultos, de continuar pregando. Em 9 de fevereiro, o conselho municipal havia iniciado um novo mandato, agora com Lucas Cranach e Christian Döring, amigos próximos de Lutero. Eles defenderam sua volta. O príncipe-eleitor hesitava diante dos riscos políticos, mas Lutero já desejava voltar havia algum tempo. Sentia falta da troca com os colegas, necessária para sua escrita, sobretudo a tradução bíblica. Por incumbência do príncipe-eleitor, o jurista Hieronymus Schurff o ajudou a redigir uma carta com as razões da volta, o cuidado da comunidade e a prevenção de uma revolta popular. Esperava-se assim responder a futuros problemas com o direito imperial causados por sua presença em Wittenberg.

Entre 1522 e 1524, Lutero via-se sobretudo como pregador da igreja municipal de Wittenberg. Proscrito, não voltou de imediato à universidade. Ao retornar de Wartburg, apareceu em público com hábito e tonsura recém-cortada. A partir do domingo Invocavit, 9 de março de 1522, pregou por oito dias seguidos nos Sermões de Invocavit, examinando as reformas feitas em Wittenberg, a abolição da missa e da confissão, o casamento de sacerdotes, o fim dos jejuns obrigatórios, a retirada de imagens religiosas e a comunhão sob as duas espécies. Lutero julgava corretas as propostas dos reformadores e as reconhecia como fruto de suas próprias ideias. Criticava a maneira como haviam sido executadas, sem considerar os fiéis mais frágeis, ainda presos aos costumes anteriores. Voltou a morar no convento agostiniano, com os poucos frades restantes. Com a perda de receitas, o convento atravessou dificuldades financeiras, até que apenas o prior Eberhard Brisger e Lutero viviam no grande edifício. Em 9 de outubro de 1524, Lutero apareceu pela primeira vez em público com roupas seculares.
Em março de 1522, as mudanças na missa foram inteiramente revogadas, salvo a possibilidade de receber a comunhão sob as duas espécies por vontade própria. Nos sermões, porém, Lutero continuou a criticar a prática vigente. Conseguiu, por exemplo, que o sacramento deixasse de ser levado na procissão de Corpus Christi. Em 1524, a festa já não era celebrada em Wittenberg, mas ainda o era na vizinha Kemberg. No início de 1523, Lutero considerou a comunidade suficientemente preparada para receber a comunhão sob as duas espécies, e quem se opunha passou a ser julgado obstinado. Na colegiada de Todos os Santos, o rito antigo resistiu de início sob a proteção do príncipe-eleitor. No fim de 1524, apenas três cônegos ainda o defendiam, e cederam a um ultimato do conselho municipal e da universidade.
Lutero recebeu convites para pregar em outras cidades e, em abril e maio de 1522, viajou a Borna, Altemburgo, Zwickau e Torgau. Considerava a escolha do pregador um direito da comunidade e apoiou Gabriel Zwilling, eleito em Altenburg. A corte recusou a nomeação por causa da atuação de Zwilling em Wittenberg, e Wenzeslaus Linck assumiu o posto. Em Wittenberg, o conselho municipal escolheu Johannes Bugenhagen como pregador da igreja municipal. Lutero ganhou outro colaborador próximo, além de Melâncton, e seu próprio orientador espiritual.
No fim de maio de 1522, foi publicado o Pequeno livro de oração, Betbüchlein, que teve grande sucesso. Houve cerca de 35 edições durante a vida de Lutero. Trazia interpretações dos Dez Mandamentos, do Credo Apostólico, do Pai-Nosso e da Ave-maria, para substituir os populares guias de exame de consciência e livros devocionais. O Pequeno livro do batismo, Taufbüchlein, publicado aproximadamente no mesmo período, era uma tradução muito conservadora do formulário latino provavelmente usado em Wittenberg, com exorcismo, entrega de sal, abertura dos ouvidos, unção, veste batismal e vela do batismo. Uma versão revista saiu em 1526.
Em 1524, Lutero publicou Aos conselheiros de todas as cidades da Alemanha, para que criem e mantenham escolas cristãs, um panfleto que influenciou as escolas evangélicas e municipais e a formação do conceito humanista de educação.
Nos escritos de 1524 e na prédica de 1530 sobre o envio dos filhos à escola, Lutero defendeu que as autoridades seculares financiassem e mantivessem o ensino e que as famílias assegurassem a frequência escolar. Propôs a educação de meninos e meninas, embora com programas e tempos de estudo diferentes, e valorizou a formação de professores. Sua defesa da responsabilidade pública pela escolarização contribuiu para a reorganização das escolas nas regiões que adotaram a Reforma.

Lutero criou termos depreciativos para seus adversários que foram adotados sem crítica pela historiografia confessional e, em parte, continuam em uso. Chamava de Schwärmer, "entusiastas", os cristãos que provocavam algum tipo de agitação, evocando a imagem de um enxame de abelhas. Quem retirava imagens religiosas das igrejas era um Bilderstürmer, "destruidor de imagens", e quem se reunia em grupos separados era um Rottengeist, "espírito faccioso". Os dois últimos termos traziam a ideia de ilegitimidade e violência.
Durante a Guerra dos Camponeses, que se estendeu de 1524 a 1526 pelos territórios alemães, grupos mais pobres das cidades também se revoltaram contra os patrícios governantes e o clero. Os Doze Artigos deram objetivos comuns aos rebeldes, desde a restauração de direitos costumeiros até a abolição da servidão, a escolha dos párocos pelas comunidades e limites aos tributos, às corveias e às exigências dos senhores. Invocavam o "direito divino" e o princípio de Lutero sola scriptura. Como ele, aceitavam abandonar suas exigências se a Bíblia provasse que estavam errados. Essa postura deu pela primeira vez força às suas esperanças de libertação social, que já tinham fundamentação religiosa.
Lutero rejeitou os Doze Artigos por considerar equivocada sua invocação da Bíblia. No panfleto Exortação à paz em resposta aos Doze Artigos do campesinato da Suábia, provavelmente impresso antes de 6 de maio, acolheu reivindicações que considerava legítimas, embora já chamasse os camponeses de "espíritos facciosos e assassinos", e repreendeu os camponeses e os príncipes. O texto teve dezenove impressões em 1525 e ampla circulação, mas chegou tarde demais para alterar os acontecimentos. Em uma viagem a Eisleben no início de maio, Lutero pregou sobre a disposição cristã para sofrer e encontrou ouvintes hostis. Os camponeses locais estavam sob o efeito da doutrina de Thomas Müntzer sobre a igualdade de todas as pessoas.
Logo depois de voltar a Wittenberg, em 6 de maio, escreveu Contra as hordas salteadoras e assassinas dos camponeses. Condenou as revoltas como obra do diabo e pediu a todos os príncipes, qualquer que fosse sua confissão, que esmagassem os camponeses com toda a violência necessária. Chamou Müntzer de "arquidiabo de Mühlhausen" e escreveu: "Por isso, quem puder deve esmagar, estrangular e apunhalar aqui, em segredo ou em público, pois o rebelde é como um cão raivoso que se deve matar. Se você não o matar, ele matará você e um país inteiro com você". Em 15 de maio, Filipe de Hesse, Jorge da Saxônia, Henrique de Brunsvique e Alberto e Ernesto de Mansfeld derrotaram decisivamente os camponeses da Turíngia na Batalha de Frankenhausen. Müntzer foi capturado e decapitado dias depois. Nos sermões posteriores e sobretudo nas Conversas à mesa, Lutero recorria a Müntzer como seu maior adversário teológico e dizia: "Eu matei Müntzer, a morte recai sobre mim. Mas fiz isso porque ele queria matar meu Cristo". Os escritos de propaganda de pessoas próximas de Lutero, como Ein nützlicher Dialog zwischen einem müntzerischen Schwärmer und einem evangelischen Bauern, de Johannes Agricola, e Historie Thomas Müntzers, de Melâncton, moldaram fortemente a imagem de Müntzer na historiografia.

No fim de maio ou início de junho, Wittenberg soube que Lutero pretendia se casar com Catarina de Bora, uma das onze monjas cistercienses que haviam fugido do Convento de Marienthron para a cidade em 1523. Ela fora acolhida na casa de Lucas Cranach. Os amigos se opunham unanimemente ao casamento. Para evitar novas críticas, os passos seguintes foram rápidos. Na noite de 13 de junho, o noivado ocorreu no convento agostiniano, que foi usado como casa do casamento. Bugenhagen, Justus Jonas, Johann Apel e o casal Cranach foram testemunhas. Bugenhagen celebrou o casamento imediatamente depois. Entre as famílias burguesas, era habitual casar em casa. As testemunhas acompanharam os recém-casados ao quarto, onde se deitaram no leito conjugal. No dia seguinte, o casal lhes ofereceu uma pequena refeição, e a notícia se espalhou pela cidade. Melâncton não fora incluído nos preparativos e criticou a decisão em uma carta a Joachim Camerarius, o Velho, escrita em grego por discrição. Reprovou o momento, em plena Guerra dos Camponeses, e a escolha de uma ex-monja como esposa. A festa com os convidados de outras cidades foi marcada para 27 de junho. A cidade presenteou Lutero com vinte florins de prata e um barril de cerveja de Einbeck.
O casal quase não tinha recursos, mas os presentes de casamento permitiram montar a casa. Até Alberto de Brandemburgo deu vinte florins. O príncipe-eleitor João, o Constante, cedeu o antigo convento agostiniano como residência e fixou para Lutero um salário de professor de duzentos florins. Como era comum nas casas de professores, Catarina mantinha uma pensão de estudantes, que trazia uma renda adicional.
Martinho e Catarina tiveram três filhas e três filhos, todos nascidos em Wittenberg:
No antigo convento, que se tornou residência e local de trabalho, Catarina administrava os recursos domésticos e recebia estudantes, colegas e visitantes. A partir de 1531, alguns dos convidados anotaram falas de Lutero; Johannes Aurifaber publicou uma coletânea em 1566. Como as anotações e a edição passaram por diferentes mãos, nem toda frase das Conversas à mesa pode ser tomada como transcrição literal de suas palavras.

Embora a Guerra dos Camponeses e o casamento de Lutero retardassem a controvérsia com Erasmo, ela remontava à divulgação das 95 Teses, nas quais Erasmo via a possibilidade de uma reforma da Igreja como a que desejava. Acompanhava a atividade de Lutero em sua correspondência, sem se tornar seu partidário. Para evitar envolvimento no processo, a partir de 1521 insistiu cada vez mais em seu distanciamento, que Lutero interpretou como hostilidade. Nenhum dos dois queria um confronto público e, por algum tempo, limitaram-se a advertências que chegavam ao outro por indiscrições.
Em 1 de setembro de 1524, saiu o escrito de Erasmo De libero arbitrio, "Discussão ou comparação sobre o livre-arbítrio". Estava pronto havia tempo e, quando começaram a circular rumores de sua existência, Erasmo já não pôde ou não quis retê-lo. Defendia um cristianismo simples e voltado para a ação. Admitia alguma capacidade de livre-arbítrio e entendia que o cristão deveria seguir as orientações para uma boa vida presentes na Bíblia e na tradição, atribuir à bondade divina todo o bem resultante e evitar especulações desnecessárias. Passagens obscuras da Bíblia exigiam a tradição interpretativa da Igreja. O texto tinha o tom de uma proposta conciliadora, sem polêmica.
De libero arbitrio chegou a Wittenberg no fim de setembro. Lutero reagiu no prefácio ao Eclesiastes, escrito nesse período. Entendia que todo o livro bíblico combatia o livre-arbítrio, uma leitura que orientaria sua recepção no luteranismo. Lutero recebeu pressões para refutar Erasmo, pois a Reforma perdia seguidores entre os humanistas, mas demorou a concluir a resposta. Em 31 de dezembro de 1525, publicou De servo arbitrio, "Da vontade cativa", título tomado de Agostinho. Criticou Erasmo por aceitar e se submeter às definições da Bíblia e da tradição eclesiástica, apesar de seu ceticismo. Para Lutero, a Bíblia era um livro claro, compreensível a partir de seu centro, Jesus Cristo, e suas passagens obscuras podiam ser esclarecidas por outras claras.
Ao defender a claritas scripturae, a clareza das Escrituras, Lutero mudou o modo de fazer exegese e hermenêutica na teologia reformadora. Sola scriptura significa dar prioridade a uma interpretação adequada da Bíblia sobre a tradição eclesiástica e outras possíveis fontes de juízo e doutrina teológicos. Na convicção de Lutero, a Bíblia podia cumprir sozinha essa tarefa porque era suficientemente clara em si mesma. Para Lutero, havia uma dupla clareza: a do próprio texto e a que o Espírito Santo produzia no coração de quem o ouvia ou lia. A Bíblia adquiria a clareza necessária ao interpretar a si mesma, sacra scriptura sui ipsius interpres, sendo sua própria intérprete. As Escrituras se interpretariam por serem abertas pelo Espírito de Deus, pela palavra interior, verbum internum, do Espírito Santo, que se juntava como verbum externum. Nisso também estariam sua inspiração e sua atividade reveladora. O leitor só poderia interpretá-las e compreendê-las adequadamente ao se colocar diante de suas palavras, claritas externa, e ser tomado por seu conteúdo, claritas interna.
Erasmo respondeu aos ataques de Lutero contra ele e sua fé com uma defesa escrita, Hyperaspites, "portador do escudo", mas Lutero não se interessou em prosseguir, e a controvérsia cessou. Para Martin Brecht, os contemporâneos não entenderam De servo arbitrio como uma rejeição geral do humanismo, que continuou a existir nos espaços que os reformadores ou os defensores da fé antiga lhe concediam.

Frederico, o Sábio, morreu durante a Guerra dos Camponeses. Seu sucessor, João, o Constante, era favorável à Reforma. Até então, Lutero se comunicava com o soberano apenas por meio de Spalatin, e a corte frequentemente freava as mudanças e esperava antes de agir. João passou a manter contato direto com Lutero e se encontrou com ele repetidas vezes. Os sete anos de seu governo permitiram criar novas formas de organização eclesiástica no Eleitorado da Saxônia.

Depois que cidades começaram a celebrar a missa em alemão em 1522, Lutero iniciou, em 1525, a elaboração de uma liturgia alemã. Recebeu conselhos de Johann Walter e do mestre de capela do príncipe-eleitor, Konrad Ruppsch. Em 29 de outubro, a proposta foi apresentada à comunidade de Wittenberg, com Georg Rörer como celebrante. A Missa alemã foi introduzida no Natal e impressa no fim do ano. Destinava-se aos fiéis que não sabiam latim, para ampliar sua participação. As missas latinas deveriam continuar para quem dominava a língua, permitindo-lhes também participar de cultos em outros países. Lutero propôs ainda uma terceira forma de celebração da Ceia para aqueles que quisessem ser cristãos com seriedade e confessar o Evangelho com atos e palavras. Provavelmente pensava em um núcleo de fiéis reunido em casas particulares. Essa forma de culto não chegou a ser realizada em sua vida. A ideia talvez tenha vindo de Kaspar Schwenckfeld, que o visitou em dezembro de 1525. Lutero insistia em que suas ordens litúrgicas não fossem obrigatórias para todos, mas exemplos de culto conforme o Evangelho. Em janeiro de 1526, Matthäus Alber lhe apresentou a liturgia de Reutlingen, um culto centrado na pregação do sul da Alemanha, que ele aprovou. A recepção da Missa alemã em Wittenberg o decepcionou. Um ano depois, a comunidade ainda não conhecia as novas melodias e, dois anos depois, ainda não dominava os cânticos.

A partir de 1526, Lutero e outros visitaram as paróquias por incumbência do príncipe-eleitor para prover pregadores e professores adequados e organizar seu sustento após o colapso da antiga organização católica. Nas Instruções dos visitadores aos párocos do Eleitorado da Saxônia, de 1528, Lutero e Melâncton concebiam uma ação única de reorganização reformadora, com ajuda das autoridades. A reorganização adotou um sistema de supervisão de cima para baixo, derivado do ofício episcopal, em lugar da representação presbiterial e sinodal das comunidades.

Ao visitar as paróquias, os reformadores encontraram fiéis com pouco conhecimento religioso e pastores que tinham dificuldades para ensinar. Lutero respondeu, em 1529, com o Catecismo Menor e o Catecismo Maior. O primeiro apresentava uma instrução breve, destinada também ao ensino doméstico pelas famílias; o segundo desenvolvia os mesmos assuntos com explicações mais extensas, especialmente para pregadores e responsáveis pela instrução cristã.
Em perguntas e respostas, o Catecismo Menor ensina os Dez Mandamentos, o Credo dos Apóstolos, o Pai-nosso, o batismo, a confissão e a Ceia do Senhor. Inclui ainda orações e orientações para a vida cotidiana. O propósito era permitir que o conteúdo fosse aprendido e explicado de modo simples, ligando a doutrina à prática da fé.

Em 1527, a validade e o sentido da lei, a Torá, sobretudo dos Dez Mandamentos, na vida cristã, começaram a dividir os reformadores. Desse debate nasceu a controvérsia antinomista, que a partir de 1537 oporia diretamente Lutero e Agricola.
Nas visitações, Lutero e Melâncton perceberam que a pregação do Evangelho era feita de modo leviano em algumas comunidades e levava a uma liberdade sem limites. Melâncton passou a defender uma pregação mais enfática da lei, os mandamentos de Deus. Em 1527, escreveu Articuli de quibus egerunt per visitatores, com prefácio de Lutero. Defendia que a pregação cristã deveria anunciar o arrependimento e o perdão dos pecados, e que a pregação do arrependimento pressupunha a lei. Johannes Agricola, então reitor em Eisleben, discordou. Para ele, apenas o Evangelho, e não a observância dos mandamentos do Antigo Testamento, era necessário para despertar o arrependimento cristão. No Colóquio de Torgau, de 26 a 29 de novembro de 1527, Lutero mediou um acordo provisório, sem resolver a divergência. Agricola se afastou dos teólogos de Wittenberg. Como Agricola e Melâncton mantiveram suas posições, o acordo não encerrou a controvérsia.

Em 1523, Ulrico Zuínglio ainda afirmava concordar com a doutrina eucarística de Lutero. Depois conheceu a interpretação simbólica das palavras da Ceia proposta por Cornelis Henricxzoen Hoen, que ajudou a orientar sua compreensão e a de Ecolampádio. Passou a ver a Ceia como celebração de agradecimento e confissão de fé da comunidade. Os reformadores de Estrasburgo Martin Bucer e Wolfgang Capito se interessaram por essa concepção e pediram a opinião de Lutero em dezembro de 1524. Por outro lado, em outubro de 1525, catorze reformadores da Suábia aderiram à concepção de Lutero no Syngramma Suevicum. Os dois lados esperavam dele um amplo escrito sobre a Ceia, mas ele não o preparou. O breve Sermão sobre o sacramento do corpo e sangue de Cristo contra os entusiastas provavelmente saiu sem sua participação e pouco ajudou no debate teológico com Zuínglio.
Zuínglio dedicou grande parte de seu tempo à questão e examinou os escritos de Lutero. Pelo título, a Amica exegesis prometia uma discussão amistosa, mas criticava duramente as teses de Lutero, nenhuma das quais atendia às exigências científicas de Zuínglio. Em 1 de abril de 1527, enviou-lhe a obra, que provocou uma reação amarga. Quase ao mesmo tempo, Lutero publicou Que estas palavras de Cristo, "Isto é o meu corpo", etc., permanecem firmes contra os entusiastas, ligado à doutrina da ubiquidade. Os dois textos não se referiam um ao outro, mas provocaram respostas. Lutero publicou Da Ceia de Cristo. Confissão em março de 1528. Os suíços rejeitaram sua argumentação emotiva e polêmica.
Por razões políticas, o landegrave Filipe de Hesse procurou superar o conflito teológico. Depois da Protestação de Speyer, uma aliança defensiva protestante parecia o passo seguinte. Os teólogos de Wittenberg esperavam pouco do encontro religioso para o qual Filipe convidou os dois lados a Marburgo em junho de 1529, mas aceitaram depois de sua pressão por meio do príncipe-eleitor. Por iniciativa do margrave Jorge de Brandemburgo-Ansbach, Lutero e Melâncton redigiram os Artigos de Schwabach como base de fé comum para uma futura aliança militar. A delegação de Wittenberg levou esse texto, formulado para se diferenciar dos suíços, como base de negociação. Viajaram Lutero, Melâncton, Jonas, Cruciger e Rörer. Friedrich Myconius se juntou a eles em Gotha, e Justus Menius, em Eisenach. Chegaram em 30 de setembro. Os suíços Zuínglio, Ecolampádio, Bucer e Hedio já estavam lá. Osiander, Brenz e Stephan Agricola, de Augsburgo, chegaram em 2 de outubro. Todos ficaram no Castelo de Marburgo. O primeiro contato foi cordial, com Zuínglio mais reservado.
Depois de conversas preliminares separadas, reuniram-se em uma sala do castelo no sábado, 2 de outubro. Lutero insistiu que as palavras da instituição, "Isto é o meu corpo", só podiam ser entendidas literalmente e pediu que o refutassem pela Bíblia. Ecolampádio citou João 6 para defender que o corpo de Cristo devia ser comido espiritualmente. Lutero admitiu essa forma espiritual de comer, mas manteve a leitura literal das palavras da instituição. Cristo estaria invisivelmente presente na Ceia. Na rodada seguinte, Ecolampádio argumentou que Cristo fora elevado à presença de Deus Pai depois da ressurreição e não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Zuínglio acrescentou que Cristo tinha então forma divina, e não humana, citando Filipenses 2:6 e seguintes. Lutero retirou a toalha de veludo da mesa e mostrou as palavras Hoc est corpus meum, que escrevera antes com giz no tampo. O gesto não impressionou Zuínglio, que não compreendia a insistência dos teólogos de Wittenberg nesse artigo de fé.
No domingo, como as conversas continuavam sem resultado, o chanceler de Hesse, Johann Feige, pediu aos dois lados que buscassem um acordo. Como havia uma epidemia de suor inglês, procurava-se abreviar o encontro. Na segunda-feira, o landegrave pediu a Lutero que redigisse os pontos de acordo e desacordo, os Artigos de Marburgo. Ele usou sobretudo os Artigos de Schwabach como base. Os participantes aceitaram concessões em muitos pontos. Restou apenas a divergência sobre a presença do corpo e do sangue de Cristo na Ceia. O landegrave procurou um encerramento conciliador, pelo qual todos demonstrariam amor cristão uns aos outros e pediriam a Deus a compreensão correta. A delegação de Wittenberg partiu em 5 de outubro.

Na Dieta de Augsburgo de 1530, Carlos V procurou voltar aos assuntos do Império depois de nove anos de ausência e superar a divisão religiosa para reunir as forças militares contra os turcos, após o primeiro cerco de Viena, de 1529. A convocação tinha, por isso, tom conciliador. João, o Constante, viajou até Coburgo com sua comitiva, que incluía Lutero, Melâncton e outros teólogos. Na noite de 23 para 24 de abril, Lutero foi levado à fortaleza acima da cidade, onde ficou até 4 de outubro, enquanto os demais seguiram para Augsburgo. Veit Dietrich trabalhou como uma espécie de secretário e intermediário. A estadia não era muito secreta, e Lutero recebeu visitantes, pelos quais também soube da morte de seu pai. Escreveu textos ocasionais em Coburgo, entre eles traduções de fábulas de Esopo. Só pôde participar da Dieta indiretamente, pelas cartas com Melâncton, que lhe dava poucas informações porque seguia outra estratégia. Melâncton temia que, em uma guerra, Filipe de Hesse se unisse aos suíços e aos reformadores de Estrasburgo e procurava um acordo com o imperador e os defensores da fé antiga, sobretudo Alberto de Mogúncia. Sua proposta mínima era restaurar a autoridade eclesiástica dos bispos, desde que se permitissem aos evangélicos a comunhão dos leigos sob as duas espécies, o casamento dos sacerdotes e a missa evangélica. A Confissão de Augsburgo, escrita por Melâncton com base nos Artigos de Schwabach e de Torgau, recebeu, pelo prefácio do chanceler saxônico Gregor Brück, a condição de confissão dos príncipes e estados luteranos. O chanceler Christian Beyer a leu e entregou à Dieta em 25 de junho de 1530. Lutero aceitou o texto, mas criticou a ausência dos temas do purgatório e do primado papal.

Martin Bucer tomou a iniciativa de buscar um acordo sobre a Ceia entre Lutero e os reformadores do sul da Alemanha, com o apoio de Filipe de Hesse, que convidou Melâncton e Bucer para Kassel no Natal de 1534. Lutero deu a Melâncton instruções duras, insistindo em que o corpo de Cristo era verdadeiramente comido com o pão ou no pão, e que seu recebimento não podia ser separado do recebimento do pão.
No fim de dezembro, em Kassel, Melâncton e Bucer concordaram com a fórmula de que o corpo de Cristo era recebido de modo substancial e verdadeiro com o pão. Em janeiro de 1535, Lutero concordou em princípio, mas quis esperar as reações das cidades do sul da Alemanha, que ainda precisavam provar sua confiabilidade. Um sinal foi a nomeação de Johann Forster como pregador em Augsburgo. Lutero propôs então uma reunião em uma cidade do Eleitorado da Saxônia para concluir a concórdia. O príncipe-eleitor João Frederico convidou os participantes a Eisenach. De abril a junho, Lutero sofreu pela primeira vez uma crise aguda de cálculos urinários. A reunião acabou ocorrendo em sua casa em Wittenberg, de 21 a 28 de maio de 1536.
A reimpressão do escrito Fidei christianae expositio, de Zuínglio, em Zurique nesse momento foi recebida por Lutero como provocação. Logo no início, exigiu de Bucer e dos representantes das cidades do sul uma retratação expressa, de maneira inesperadamente áspera e intimidatória. Sua fraqueza interrompeu as negociações. Os convidados ficaram chocados e pensaram em partir. Ao meio-dia de 23 de maio, Bucer expôs sua posição e reconheceu que até então não havia compreendido nem ensinado tudo corretamente. Os outros teólogos do sul declararam concordar com ele. Lutero conseguiu impor amplamente sua posição. O ambiente se tornou mais tranquilo, os visitantes conheceram a Missa alemã na festa da Ascensão e foram convidados por Lutero e Lucas Cranach para refeições festivas.

Em 2 de junho de 1536, o papa Paulo III convocou um concílio em Mântua. Nas consultas preparatórias, o núncio Pietro Paolo Vergerio se encontrara com Lutero no Castelo de Wittenberg, em 7 de novembro de 1535, e ele se dispusera a participar. Como sua saúde era uma questão política, preparou-se para parecer ágil diante do núncio e conseguiu. No fim de 1536, porém, estava tão doente que o príncipe-eleitor lhe pediu um testamento teológico, com artigos de fé fundamentados na Bíblia. Lutero escreveu uma confissão voltada sobretudo à diferenciação da fé antiga. No centro estava a justificação, "o artigo com o qual a Igreja permanece ou cai". Quanto ao sacrifício da missa, entendia que a separação era eterna, pois esse sacrifício concorria com a morte expiatória de Cristo. O papa não podia ser chefe da cristandade por direito divino, e tampouco era aconselhável aceitá-lo como chefe por uma ordem terrena. O trabalho havia chegado a esse ponto quando Lutero sofreu um ou mais ataques cardíacos em 18 e 19 de dezembro. Ditou então a segunda parte de forma resumida.
Em uma reunião com os outros teólogos de Wittenberg, Agricola, Spalatin e Amsdorf, foi acrescentado um artigo contra a invocação dos santos. Lutero não acolheu as alterações pedidas por Melâncton. Os presentes assinaram com observações pessoais. Em 3 de janeiro de 1537, Lutero enviou o documento ao príncipe-eleitor, deixando-o livre para decidir seu uso. João Frederico I pretendia apresentá-lo como confissão do Eleitorado na assembleia da Liga de Esmalcalda. Prevista para 7 de fevereiro, a reunião se atrasou pela chegada de muitas delegações. Além dos teólogos de Wittenberg, vieram Urbanus Rhegius, de Lüneburg, Erhard Schnepf e Ambrosius Blarer, de Württemberg, Johann Lange, de Erfurt, Johannes Aepinus, de Hamburgo, Andreas Osiander, o Velho, de Nuremberg, Brenz, de Schwäbisch Hall, e Bucer, de Estrasburgo.
Lutero ainda defendia a participação protestante no Concílio de Mântua, mas os membros da Liga recusaram, por não ser o concílio cristão livre que exigiam. Seus Artigos de Esmalcalda traziam tantas possibilidades de conflito que não foram usados como base das deliberações teológicas, que se apoiaram na Confissão de Augsburgo e na Concórdia de Wittenberg. Melâncton escreveu um complemento sobre o primado papal e a jurisdição episcopal, anexado à Confissão de Augsburgo. Lutero participou apenas ocasionalmente da assembleia, pois os cálculos urinários voltaram a lhe causar dores intensas. Um tratamento errado pelo médico do landegrave o deixou tão debilitado que se esperava sua morte. Como queria morrer na Saxônia, prepararam uma carroça para levá-lo. O legado papal presente em Esmalcalda suspeitou que pretendiam retirar seu cadáver. O transporte acabou salvando sua vida, porque os solavancos aliviaram a retenção urinária. Em 14 de março, estava de volta a Wittenberg, onde se recuperou aos poucos.

Apesar de uma doença cardíaca antiga, Lutero, aos 62 anos, viajou a Eisleben em janeiro de 1546 para ajudar a resolver disputas jurídicas e de herança entre os condes de Mansfeld. A viagem de inverno o enfraqueceu, e até 16 de fevereiro participou das conversas por pouco mais de uma hora a cada vez. Um bilhete desse dia, copiado por Johannes Aurifaber, é seu último escrito: "Ninguém pode compreender Virgílio nas Bucólicas e nas Geórgicas sem ter sido pastor ou agricultor por cinco anos. Ninguém, a meu ver, compreende as cartas de Cícero sem ter atuado por vinte anos em um Estado de relevo. Ninguém pense ter saboreado suficientemente as Sagradas Escrituras sem ter dirigido comunidades por cem anos com os profetas". É possível que tenha mencionado também João Batista, Cristo e os apóstolos junto aos profetas, mas essas menções talvez pertençam à frase seguinte, uma citação de Estácio originalmente dirigida a Virgílio: "Não tente alcançar esta divina Eneida, mas adore humildemente suas pegadas!" Na frase final de Lutero, as três primeiras palavras foram escritas em alemão: "Somos mendigos, isso é verdade".
Na madrugada de 18 de fevereiro de 1546, Lutero acordou com uma crise de dor. Esperava morrer, recebeu os últimos cuidados médicos e foi cercado no quarto pelo anfitrião, pelo escrivão municipal e sua esposa, pelos dois médicos da cidade e pelo conde Alberto e sua esposa. Justus Jonas e Michael Caelius perguntaram se confessava sua doutrina até a morte, e ele respondeu que sim. Depois deixou de reagir e morreu às três da manhã. Foi sepultado em 22 de fevereiro na Igreja do Castelo de Wittenberg, sob o púlpito.
Na teologia reformadora, somente Deus pode aceitar e justificar o ser humano; a justificação é um ato divino realizado apenas pela graça, Sola gratia. Nenhuma obra ou boa ação humana pode produzi-la. Esse ato da graça se fundamenta na eleição da pessoa por Deus em Jesus Cristo, na morte de Cristo na cruz e na redenção realizada por ela.
Na leitura do Salmo 51, "Deus, tem misericórdia de mim segundo a tua bondade" (Salmos 51:3, na numeração usada por ele), Lutero expôs com especial clareza a relação entre o Deus que justifica e o ser humano pecador. Para Lutero, o salmo reunia os pontos centrais de sua religião, a verdade sobre o pecado, o arrependimento, a graça e a justificação. Não se limitava a Davi e à sua relação pecaminosa com Bate-Seba, mas chegava à "raiz da impiedade", à compreensão do pecado e da graça.
O verdadeiro arrependimento exigia:
O conhecimento do pecado e da graça, assim como o temor de Deus e a confiança em sua misericórdia, precisavam ser renovados continuamente pela palavra divina, mesmo entre pessoas iluminadas pelo Espírito Santo. A questão ultrapassava as faltas isoladas e exigia pensar na natureza, na fonte e na origem do pecado. Ele estava nos pensamentos, nas palavras e nas obras, mas também em toda a vida recebida dos pais, o pecado original, de que nasciam as transgressões particulares. A constituição natural humana não estava íntegra no âmbito civil nem no espiritual. Por causa do pecado, as pessoas se afastavam de Deus e buscavam a própria glória. O fiel sentia a ira de Deus e experimentava sensivelmente sua graça ao reconhecer com alegria que, embora não pudesse sustentar-se por si mesmo, era justificado e feito justo em Cristo, que era justo e justificava. Cristo era, por isso, o conteúdo central e o critério decisivo das Escrituras. Sem ele, nada essencial restaria, pois todas as Escrituras falavam de Cristo em toda parte.
Lutero defendia uma teologia da cruz que unia a cruz de Cristo, a de cada cristão e a de toda a Igreja. O caminho do fiel não estava em uma Theologia gloriae, teologia da glória, voltada apenas à grandeza e ao poder de Deus. A teologia da cruz levava do reconhecimento do pecado à aceitação da graça redentora de Cristo. A cruz não era uma ideia a ser apreendida abstratamente. Só quem se envolvesse com ela poderia compreendê-la. Por isso, na teologia cristã, a cruz era o tema por excelência, e não apenas um entre outros.
Lutero leu Paulo e Agostinho enquanto observava escrupulosamente a própria vida e, ao aprofundar sua compreensão do pecado, afastou-se da doutrina de que as pessoas podiam cumprir os mandamentos divinos com suas capacidades naturais e questionou a distinção tradicional entre pecado mortal e pecado venial.

Na teologia escolástica, era inconcebível que pecado e graça determinassem uma pessoa ao mesmo tempo, ainda que por um instante. Ela estaria inteiramente em estado de pecado ou de graça. A tese de Lutero de que a pessoa é justa e pecadora ao mesmo tempo, simul iustus et peccator, fica mais compreensível por seu pensamento em termos de relações. O pecado era a relação de hostilidade, resistência e desprezo por Deus iniciada pelo ser humano. A graça e a justiça eram a relação que Deus renovava com a pessoa apesar de seus pecados e contra eles.

Ao repensar a salvação em 1518, Lutero enfrentou uma dúvida que a tradição teológica ocidental mantinha em aberto: ninguém podia ter certeza de estar em "estado de graça", porque Deus era livre para conceder a graça como quisesse e porque a certeza desse estado tornaria a pessoa leviana e presunçosa. Lutero chamou de "monstro", "inferno" e "peste" a incerteza e o medo que acompanhavam por toda a vida a piedade sob o papado. Sua certeza da salvação, porém, não autorizava a indiferença à conduta nem a liberdade de fazer qualquer coisa. A fé e a sensação pessoal de consolo não eram posses permanentes, pois estavam ameaçadas e podiam ser perdidas. O cristão tampouco deveria especular sobre os planos de Deus para as pessoas, a predestinação. Para Lutero, ter certeza da salvação significava reconhecer pela fé a comunhão oferecida por Deus, mesmo quando faltava a sensação de consolo.

Ao interpretar Hebreus 5:1 em suas aulas, Lutero deu à questão dos sacramentos um peso que ajuda a entender sua mudança teológica. Sua concepção dos sacramentos foi exposta plenamente em Do cativeiro babilônico da Igreja, de 1520. A argumentação partia da prática sacramental de sua época. Entre os sete sacramentos, a penitência tinha um peso extraordinário para os leigos. Ao seu redor, havia se formado uma ampla oferta de orientação espiritual, apoiada na ideia de que o sacramento operava por sua realização, ex opere operato, desde que fosse acolhido de fato, e não apenas na aparência, non ponit obicem. A atenção recaía, assim, nas condições a cumprir para que o sacramento tivesse efeito.
Em outra tradição de pensamento, retomada por Tomás de Aquino, os sacramentos eram vistos como sinais do ato salvador de Cristo: recordava-se esse ato, celebrava-se e distribuía-se sua eficácia presente, e antecipava-se como penhor a consumação eterna. A palavra, especificamente a palavra de instituição no Novo Testamento, transformava o ato sacramental ambíguo em um sinal inequívoco. Lutero apreciava e citava frequentemente a formulação de Agostinho, Accedit verbum ad elementum et fit sacramentum, "a palavra se une ao elemento e se faz o sacramento". Essa reflexão teológica pouco chegava às comunidades e tampouco era compreendida por muitos clérigos. Lutero procurou enraizar na devoção de cada cristão a relação entre palavra, fé e sacramento, recorrendo a novas formulações. Em um exemplo, afirmava que Deus estava em todas as criaturas, na pedra, no fogo, na água e na corda, mas não queria que o procurassem ali sem a palavra, nem que se lançassem ao fogo ou à água ou se enforcassem. Embora estivesse em toda parte, deveria ser procurado onde estava a palavra, pois ali seria alcançado corretamente.

Ao perguntar como uma pessoa que se reconhece pecadora podia ser considerada justa diante de Deus, Lutero pôs a justiça recebida pela fé no lugar da justiça pelas obras, fazendo dessa questão o centro de sua doutrina da justificação. De início, Lutero entendia a justiça divina como punitiva, pela qual Deus julgava as pessoas como um juiz justo. Essa concepção alimentou suas dúvidas sobre si mesmo e um medo profundo de Deus, até seu estudo intenso da Epístola aos Romanos. Concluiu que a justiça diante de Deus, na justificação, diferia radicalmente da justiça punitiva e de todas as formas de justiça entre pessoas. Deus declarava justo o fiel por misericórdia, sem lhe imputar a culpa, perdoada pela graça. Deus a concedia gratuitamente; as obras humanas não podiam merecê-la. Na teologia da cruz de Lutero, a redenção abrangente realizada por Jesus Cristo não podia ser diminuída e desvalorizada por uma participação humana. Apenas pela fé na salvação pelo sacrifício de Jesus na cruz os pecadores recebiam de Deus justificação e redenção pela graça.
Na tese 62 das 95 Teses, Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum, de 1517, o verdadeiro tesouro da Igreja era o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus. A tese contrariava a concepção católica do tesouro de méritos, Thesaurus meritorum ou Thesaurus ecclesiae. A glória e a graça divinas estavam exclusivamente no Evangelho, o verdadeiro tesouro da Igreja, e não nos méritos dos santos.
Quatro fórmulas com "somente", solus ou sola ajudam a organizar os temas de sua teologia:

Em Da liberdade do cristão, de 1520, Lutero declarou supérfluas muitas atividades devocionais de sua época. Deus não as ordenara, e nelas cada pessoa procurava apenas a própria salvação. As obras verdadeiramente boas eram as que beneficiavam o próximo.
Lutero negava que o livre-arbítrio humano pudesse alcançar a salvação; já na Disputa de Heidelberg, dizia que, depois da queda, ele era apenas um nome, res de solo titulo. Em resposta a Erasmo, em 1525, reafirmou essa tese como o eixo da questão, cardo rerum. Não defendia, porém, o determinismo, mas negava que a pessoa pudesse colocar-se por si mesma na relação correta com Deus. Era uma consequência da justificação, diante da qual o ser humano permanecia passivo. Para Lutero, as pessoas eram livres para decidir suas ações cotidianas, e a experiência dessa liberdade não era ilusória. Podiam responder livremente ao Deus que as justificava por suas ações e participar voluntariamente da construção do Reino de Deus no mundo.

A organização em estados sociais estruturava a Europa da época, embora as formas de governo e de participação no poder variassem muito entre regiões. A participação de cada grupo nas decisões políticas também era desigual. O alto clero católico e a nobreza podiam, em princípio, participar das instituições e decisões de governo nas assembleias territoriais e dos estados, enquanto camponeses, artesãos e cidadãos quase não podiam. As fronteiras sociais eram difíceis de atravessar, e as pessoas geralmente nasciam e morriam no mesmo estado. Essa ordem era tida como divina, fundada na criação. No topo estavam imperador e papa, a alta nobreza, os príncipes e reis governantes e o alto clero, bispos, abades e prelados, recrutado sobretudo entre os nobres.
Em Da liberdade do cristão, Lutero limitava a liberdade à relação da pessoa com Deus. Na vida terrena, todos deveriam permanecer sem revolta em seu lugar na ordem social. Havia dois governos conduzidos e desejados por Deus. O governo secular, civitas terrena, era exercido pelas instituições e administrações, responsáveis pela lei e pela ordem. O governo espiritual, civitas dei, era conduzido pela palavra divina. Lutero partia da teologia de Agostinho, que distinguia o Reino de Deus do reino terreno. Os dois governos não deviam se misturar, nem seus representantes intervir no outro reino.
Na doutrina dos três estados, Lutero modificou o esquema social habitual ao definir a casa, governada pelo chefe da família, como o terceiro estado. A separação rigorosa entre reino espiritual e secular, a doutrina dos dois reinos, resolvia em favor do imperador e dos príncipes a antiga disputa sobre a supremacia secular entre imperador e papa. Lutero e seus seguidores deslocaram as relações de subordinação entre os três estados para o interior de cada um:
O casamento dos clérigos protestantes também os integrava ao estado doméstico. Todas as pessoas pertenciam simultaneamente aos três estados, chamados por isso genera vitae, âmbitos da vida. Em teoria, eles ficavam lado a lado, sem hierarquia entre si. Na realidade, as relações de dominação não mudaram, e o terceiro estado continuou também a ser o dos súditos, contrariando o modelo teórico.

No comentário ao Magnificat, escrito em 1521, Lutero interpretou o cântico de Maria a partir da ação gratuita de Deus. Reconheceu o título de mãe de Deus e apresentou Maria como exemplo de fé e de louvor, cuja bem-aventurança decorria da escolha divina, e não de méritos próprios. Ao mesmo tempo, criticou práticas de devoção que, a seu ver, atribuíam a Maria o auxílio e a confiança devidos a Deus. O comentário conserva elementos da tradição e questiona outros; sua posição sobre Maria ainda mudaria ao longo da vida.

Para Lutero, a palavra divina já agira na pregação dos apóstolos: por meio dela, o Evangelho se espalhara pelo mundo e edificara o Reino de Cristo em todos os lugares sob o céu. Sua propagação continuava depois dos apóstolos, reunindo pessoas no Reino de Cristo em todo o mundo até o Juízo Final.
Uma missão organizada já não seria necessária, sobretudo porque o apostolado e sua vocação para a missão mundial, de Mateus 28:18 a 20, haviam cessado. Quando as circunstâncias exigissem, porém, todo cristão deveria dar testemunho missionário. Lutero dizia que os cristãos deveriam produzir muitos frutos pela palavra entre os pagãos, converter e salvar muitos, espalhando-se ao redor como fogo.
Nos textos alemães, Lutero usava o alemão da chancelaria de Meissen, com vocabulário alto-alemão médio em sua língua escrita, ligado ao grupo de dialetos da Turíngia e da Alta Saxônia. O estudo e a interpretação do Antigo e do Novo Testamento ocupam a maior parte de sua obra completa e ajudam a entender a trajetória do exegeta e da Reforma. A crítica das indulgências e o confronto com o papado vieram em seguida.
Nas anotações marginais a Agostinho e Pedro Lombardo, de 1509 e 1510, Lutero já insistia, contra a escolástica, mas ainda com o ockhamismo, na oposição entre fé e conhecimento e na autoridade da Bíblia sobre a tradição eclesiástica. Diferenciava a fé de um habitus humano e a unia à esperança e ao amor, de modo que ela não podia coexistir com a ação injusta, o pecado.
Ao radicalizar a resposta humana à palavra de Deus, Lutero passou a problematizar a própria justiça divina. Embora conhecesse bem as escolas teológicas de sua época, interpretou a Bíblia nas primeiras aulas sobre os salmos, de 1512 e 1513, quase sem conceitos escolásticos, separando seu texto das interpretações tradicionais, sobretudo aristotélicas. Entendia o sentido literal imediatamente como referência a Cristo, que era o intérprete dos salmos, o espírito em todas as letras e o texto fundamental que comunicava a si mesmo e criava a fé nele. A pessoa só podia compreender sua existência pela lei ou pela fé, pelo visível ou pelo invisível, pela percepção sensível ou pelo fato de ser conhecida por Deus. Aquilo que as pessoas julgavam o ser supremo e divino a partir do mundo perceptível só podia ser, diante de Jesus Cristo, o auge de sua justiça própria e hipocrisia. Não havia conciliação possível. A theologia crucis, o juízo presente de Deus no Crucificado, e a theologia gloriae, o conceito divino da metafísica aristotélica elaborado para glorificar a capacidade humana de conhecer, excluíam-se inteiramente nas aulas sobre Romanos, de 1515, e na Disputa de Heidelberg, de 1518. A expressão theologia crucis surgiu em 1517. Nas cartas a Christoph Scheurl, significava a rejeição da escolástica e do humanismo de Erasmo.

Em À nobreza cristã da nação alemã, acerca da melhoria do estado cristão, escrito em alemão, Lutero convocou os príncipes a realizar a Reforma porque os bispos haviam falhado. Os "romanistas" colocavam a autoridade eclesiástica acima da secular e alegavam que apenas o papa podia interpretar a Bíblia e convocar um concílio. A educação deveria ser acessível a todos, além do clero. O celibato e os Estados Pontifícios deveriam ser abolidos, a cobrança de juros limitada e a mendicância proibida em favor de uma assistência organizada aos pobres.
Lutero rejeitou o papado, o episcopado católico e o sacramento da ordenação sacerdotal, porque o Novo Testamento ensinava o sacerdócio de todos os crentes. Os clérigos deveriam apenas dirigir a comunidade, sobretudo no culto, no ensino e na orientação espiritual. Cada comunidade podia escolher e, se necessário, destituir seus pastores, como expôs em Que uma assembleia ou comunidade cristã tem o direito e o poder de julgar toda doutrina e de chamar, nomear e destituir mestres, de 1523. Esse princípio deixou de ser seguido depois da Guerra de Cleves, de 1543, e da Guerra de Esmalcalda, de 1546 e 1547, que Lutero não viveu para ver. O governo eclesiástico pelo soberano territorial, concebido inicialmente como provisório e abrangendo a nomeação e a destituição de "bispos de emergência", permaneceu até 1918. Ainda assim, o próprio Lutero ordenou Nicolaus von Amsdorf bispo de Naumburg, em 1542, e realizou outra ordenação episcopal em 1544 para instituir bispos de caráter evangélico.

Do cativeiro babilônico da Igreja, de 1520, reduz os sete sacramentos católicos aos três que Jesus teria instituído no Novo Testamento, batismo, Ceia e penitência, ou confissão. Lutero destacou como elementos fundamentais o sinal, o significado e a fé. Deu o maior peso à fé, retirando o valor do conceito católico Ex opere operato e insistindo no fiel como sujeito, no opus operantis. Sua fundamentação teológica estava na transmissão da salvação pela própria palavra pregada de Jesus. Os sacramentos tornavam visível sua promessa e davam certeza dela, mas nada lhe acrescentavam.
Da liberdade do cristão, de 1520, resume dialeticamente a liberdade evangélica em duas frases inspiradas em Paulo: "O cristão é senhor livre de todas as coisas e não está sujeito a ninguém, pela fé. O cristão é servo de todos e está sujeito a todos, pelo amor".
Em De servo arbitrio, de 1525, Lutero combateu a doutrina de Erasmo sobre a predestinação à salvação e a vontade de fazer o bem. Dava grande valor a esse escrito, pois entendia que Erasmo havia chegado ao cardo rerum, o eixo da teologia. Para Klaus Schwarzwäller, a justificação somente por Cristo e pela graça não pode ser concebida sem a ausência de liberdade da vontade humana para alcançar a salvação.

A primeira edição de sua tradução do Novo Testamento foi publicada em setembro de 1522, para a Feira do Livro de Leipzig, com uma tiragem de aproximadamente três mil exemplares. A edição se esgotou em cerca de três meses e foi seguida, em dezembro, por uma versão revista. A tradução completa da Bíblia foi publicada em 1534.
A tradução do Antigo Testamento e as revisões posteriores envolveram uma equipe de estudiosos, entre eles Filipe Melâncton, Matthäus Aurogallus, Caspar Cruciger, o Velho, Justus Jonas, o Velho e Johannes Bugenhagen. Georg Rörer registrou parte das discussões sobre o sentido dos textos e a escolha das palavras. O trabalho continuou depois da primeira edição completa, com uma revisão ampla entre 1539 e 1541.
A edição de 1534 incluiu os livros que Lutero denominou apócrifos, reunidos em uma seção própria entre o Antigo e o Novo Testamento. Na apresentação dessa seção, ele os distinguia dos livros considerados Escritura Sagrada, mas recomendava sua leitura como boa e útil. A edição também trazia xilogravuras produzidas pela oficina de Lucas Cranach.
No Novo Testamento, Lutero manteve Hebreus, Tiago, Judas e o Apocalipse, mas os colocou ao final do volume para indicar que lhes atribuía uma posição secundária. Sua tradução de Romanos 3:28 também provocou controvérsia, por acrescentar allein, "somente", à afirmação sobre a justificação pela fé, embora a palavra não estivesse no texto grego nem no latino. Na Carta sobre a tradução, de 1530, Lutero defendeu essa escolha tanto pela construção idiomática do alemão quanto por sua interpretação do argumento de Paulo, segundo o qual a justificação não dependia das obras da lei.

Depois da morte de Jorge da Saxônia, o duque Henrique II de Brunsvique-Wolfenbüttel esteve entre os príncipes mais ativos na defesa da fé antiga. Seu confronto com os reformadores também se deu por escrito: na Duplik, de 1540, dirigida contra João Frederico I, chamou o príncipe-eleitor de "bêbado da Saxônia" e alegou que Lutero o chamava de seu querido e devoto Hans Wurst. Lutero respondeu com Contra Hans Worst, de 1541, cuja agressividade e grosseria se destacam até entre seus escritos polêmicos, mas que também expõe sua eclesiologia.
Nos últimos anos, Lutero esperava o fim do mundo e estudou mais o Apocalipse de João, que considerara problemático na juventude. Identificou o papa como o Anticristo depois que ele ordenou queimar seus escritos. Os turcos e o papado eram as duas forças que ameaçavam a cristandade em seus últimos dias. Ficou abalado pelo acordo de paz do imperador e do papa com os turcos em 1544, que julgou criminoso e insensato. Os judeus completavam o grupo de supostos inimigos de Cristo atacados em suas últimas polêmicas. Sobre os judeus e suas mentiras, publicada em 1543, nasceu de sua recusa em aceitar a tolerância aos judeus em territórios protestantes. Como seus outros escritos antijudaicos, recebeu pouco interesse do público. O decreto saxônico contra os judeus de 6 de maio de 1543, porém, invocou expressamente a obra, e Lutero estava hospedado com o príncipe-eleitor no dia de sua publicação.
Entre 1498 e 1501, em Eisenach, o jovem Lutero complementava o sustento cantando em um coro de estudantes e cantava no Chorus musicus da Igreja de São Jorge. O estudo das sete artes liberais, Septem artes liberales, em Erfurt o levou também à teoria musical. Em 1503 ou 1504, um ferimento provocado pela espada que carregava, perto de Erfurt, causou forte sangramento e o obrigou a um repouso prolongado. Nesse período, aprendeu e aperfeiçoou o alaúde, com aulas de estudantes de Erfurt. Dedicou-se também à escrita musical, como a intabulação, procedimento então habitual de transpor partes de música vocal para instrumentos, e aprendeu a compor no estilo polifônico da época. Apreciava especialmente as composições de Josquin des Prez e Ludwig Senfl, com quem se correspondia por volta de 1520. Na viagem a Roma, em 1511 e 1512, conheceu na Itália as mudanças na música sacra. As obras de Josquin o comoveram e orientaram suas ideias sobre uma música eclesiástica reformadora.
Johann Walter ingressou como cantor e compositor na capela de Frederico, o Sábio, em Torgau, possivelmente em 1523 ou 1524; a data de sua entrada não é certa. Após a morte de Frederico, em 1525, João, o Constante, assumiu o Eleitorado e não dava valor à música polifônica e dissolveu o coro da corte em 1526, depois de Walter colaborar com Lutero na reforma da Missa alemã em Wittenberg no outono de 1525. O canto congregacional, até então incomum na missa católica, tornou-se um elemento central do culto reformador. Desde a Idade Média, a Igreja latina dispunha de livros de canto litúrgico, como o gradual e o antifonário, mas eles não eram destinados à comunidade. Reuniam cantos gregorianos em latim para o coro ou a escola de canto.
Lutero atribuía à música, assim como à teologia, um grande valor para a salvação: acreditava que ela contrariava os demônios e trazia tranquilidade e alegria ao espírito. Era cantor experiente, tocava alaúde, compunha hinos e conhecia obras de Josquin, Senfl, Pierre de la Rue e Heinrich Finck.

Lutero dava à musica practica mais valor do que à teoria e à filosofia da música, a musica speculativa, afastando-se da concepção medieval. No prefácio aos bons hinários, de 1538, louvou a "Senhora Música" em versos que diziam não haver mau ânimo onde companheiros cantassem bem, nem ira, briga, ódio ou inveja. A dor, a avareza, a preocupação e a tristeza desapareceriam, e a música destruiria a obra do diabo e impediria muitos assassinatos. Friedrich Schorlemmer interpreta esses versos como uma reunião das funções terapêuticas, catárticas, de sublimação e de pacificação da música.
Na formação escolar e universitária, Lutero queria que todo mestre soubesse cantar e que o futuro pastor estudasse música na teoria e na prática. Em uma das Conversas à mesa, disse que reis, príncipes e senhores deveriam manter a música, pois cabia aos governantes proteger as boas artes liberais e as leis. Insistia em sua presença nas escolas e em acostumar os jovens a essa arte, que formava pessoas habilidosas.

Lutero se opôs às tendências da Reforma que abandonavam a arte e a música em favor de uma fé puramente interior e espiritual. Escreveu: "Também não penso que o Evangelho deva derrubar e destruir todas as artes, como alguns excessivamente espirituais alegam. Gostaria de ver todas as artes, especialmente a música, a serviço daquele que as deu e criou".
Desde o início das liturgias reformadoras, o canto da comunidade integrou o culto, e Lutero defendeu cânticos alemães em momentos determinados da celebração para ampliar a participação dos fiéis. Em Deutsche Messe und Ordnung Gottesdiensts, de 1526, os cânticos congregacionais em alemão, chamados cânticos do ordinário, deveriam substituir ou complementar as partes latinas da missa. Procurava traduzir os textos e adaptar a melodia às exigências da língua alemã. Escreveu: "Texto e notas, acento, melodia e gesto devem vir da verdadeira língua materna e da voz, do contrário tudo é imitação como a dos macacos".
Chegaram até nós 36 hinos de Lutero, embora ele provavelmente tenha escrito cerca de 45 hinos e cânticos e composto a melodia de pelo menos vinte. Em alguns, recebeu ajuda do mestre de canto Konrad Rupff e do cantor Johann Walter. Usou tradução, ampliação e contrafação, além de criar livremente novos textos e hinos. Traduziu hinos gregorianos latinos tradicionais e, quando necessário, alterou a melodia para acompanhar o ritmo da língua alemã. Julgava sua própria poesia com severidade, chegando a chamá-la de "poesia feia e desprezível". Também usou melodias de canções populares, natalinas, estudantis e religiosas, às vezes com pequenas alterações. Com novos textos, pretendia dar aos poucos uso religioso às canções seculares populares. Queria modificar canções de rua, de cavaleiros e de mineiros de maneira cristã e moral, para que as melodias ofensivas e os textos inúteis e vergonhosos cantados nas ruas, nos campos e nas casas fossem abandonados em favor de palavras cristãs, boas e úteis.
Os hinos de Lutero são divididos em gêneros:
Os corais de Lutero saíram pela primeira vez em 1523 e 1524 no Primeiro Hinário Luterano e, em 1524, em um hinário evangélico de Wittenberg. Tornaram-se uma base do culto reformador e deixaram efeitos duradouros na história do canto sacro na Europa.

Em Que Jesus Cristo nasceu judeu, de 1523, criticou o tratamento hostil dado aos judeus pelos cristãos e se opôs à sua expulsão, na expectativa de que uma apresentação renovada do cristianismo favorecesse sua conversão. Essa disposição não implicava reconhecer o judaísmo como uma alternativa religiosa de igual valor: seu objetivo permanecia a conversão dos judeus à fé cristã.
Nos escritos tardios, especialmente em Sobre os judeus e suas mentiras, de 1543, a polêmica assumiu uma linguagem violentamente hostil. Lutero recomendou incendiar sinagogas e escolas judaicas, destruir casas, confiscar livros de oração e escritos talmúdicos, proibir o ensino dos rabinos, retirar a proteção de viagem, proibir os empréstimos a juros e tomar dinheiro e objetos de valor. Propôs ainda impor trabalho manual aos judeus e expulsá-los dos territórios cristãos.
Durante o nazismo, trechos de Sobre os judeus e suas mentiras e de Do nome inefável e da linhagem de Cristo foram republicados e usados na propaganda antissemita e em comícios. Em 18 de abril de 1994, a Igreja Evangélica Luterana na América repudiou as invectivas e as recomendações violentas de Lutero contra os judeus, lamentou seus efeitos nas gerações seguintes e condenou a apropriação de suas palavras pelo antissemitismo moderno. A igreja reafirmou essa posição em uma revisão da declaração aprovada em 2021.

Em 1524, Lutero escreveu que os hereges deveriam ser enfrentados com as Escrituras, e não com o fogo, defendendo então a tolerância de posições religiosas divergentes. Em Sobre o rebatismo, a dois párocos, escrito no fim de 1527, rejeitou a exigência do movimento anabatista de batizar apenas mediante confissão de fé, mas criticou a perseguição que já atingia o novo movimento. Dizia lamentar que essas pobres pessoas fossem assassinadas e queimadas tão cruelmente. Cada um deveria ser livre para acreditar no que quisesse, pois uma crença errada já teria castigo suficiente no fogo eterno. Apenas os dirigentes anabatistas deveriam ser expulsos do território.
A partir de 1530, Lutero deixou de excluir a pena de morte para os anabatistas. Essa mudança talvez se devesse a Melâncton e ao mandato contra os anabatistas aprovado pela Dieta no ano anterior. Em 1531, assinou com Melâncton um parecer expressamente favorável à pena de morte. Passou a vê-los sobretudo como agentes de revolta e blasfêmia. As autoridades deveriam persegui-los principalmente pela rebelião que incitavam, e não pela diferença de fé. Para Lutero, eram movidos por um espírito assassino, revoltoso e vingativo, cujo hálito cheirava a espada. As reuniões secretas que faziam diante da crescente perseguição eram para ele um sinal certo do diabo. Lutero sempre os chamava de "rebatizadores" com intenção hostil.

Nas guerras contra os turcos, entre 1521 e 1543, Lutero inicialmente usou a ameaça da expansão otomana para seus objetivos eclesiásticos. Dizia ser preciso derrotar primeiro o "turco interior", o papa, antes de enfrentar o grande turco de Istambul, pois julgava os dois encarnações do Anticristo. Quando o cerco de Viena pelo sultão Solimão I, em 1529, ameaçou também a Europa Central, sua posição ganhou distinções. Em Sobre a guerra contra os turcos, escreveu que o papa usara essas guerras como pretexto para arrecadar dinheiro com indulgências. Explicou o fracasso em conter a expansão otomana pela doutrina dos dois reinos. Não cabia à Igreja convocar ou conduzir guerras, em alusão ao bispo húngaro Pál Tomori, um dos comandantes responsáveis pela derrota devastadora na Batalha de Mohács, de 1526. A defesa cabia apenas às autoridades seculares, às quais todos deviam obediência, e nada tinha a ver com a fé. Essa argumentação excluía uma cruzada contra os otomanos. Lutero justificava o confronto como guerra defensiva e pedia uma ação conjunta.
Poucos meses depois, abandonou a separação rigorosa dessas competências. No Sermão ao exército contra os turcos, do outono de 1529, apresentou-os como inimigos de Cristo e sinais escatológicos do Juízo Final, atribuindo precisamente aos cristãos o dever de atacá-los com confiança. Com esse tom, procurava afastar a acusação de que, ao destruir a unidade cristã, se tornara um auxiliar dos turcos.
Seu conhecimento do Alcorão vinha principalmente da obra de Ricoldo da Monte di Croce, do convento florentino de Santa Maria Novella. A refutação Contra legem Sarracenorum, "Contra a lei dos sarracenos", escrita em 1300 para sua missão no Oriente e dirigida ao Alcorão, teve ampla circulação e traduções, entre elas a versão alemã de Lutero, de 1542, Verlegung des Alcoran.
Em 1543, Lutero apoiou a publicação da edição latina do Alcorão preparada por Theodor Bibliander, baseada em uma tradução medieval. Interveio em favor do projeto diante da oposição das autoridades de Basileia e escreveu um prefácio para a obra. Seu apoio se inseria no propósito de conhecer o texto e as doutrinas islâmicas para refutá-los, dentro de sua polêmica religiosa contra o islã.

Lutero compartilhava a crença de sua época na feitiçaria e na atuação do Diabo, interpretando as práticas mágicas como parte do conflito entre forças demoníacas e Cristo. Suas manifestações contra as pessoas acusadas de feitiçaria tornaram-se mais agressivas a partir do fim da década de 1530, mas variavam: em algumas ocasiões pediu sua punição pelo fogo; em outras, insistiu na advertência e na conversão. Essa oscilação coexistia com sua aceitação da repressão à magia considerada prejudicial.

Ainda no século XVI, escritos e imagens de Lutero circularam para além da Saxônia e influenciaram territórios alemães, a Escandinávia, a região báltica e partes da Europa Central, onde a Contrarreforma reduziria mais tarde seu alcance. No Sacro Império Romano-Germânico, a Paz de Augsburgo, de 1555, assegurou aos estados católicos e aos adeptos da Confissão de Augsburgo a coexistência legal. O direito de determinar a confissão do território cabia em geral aos governantes, e as demais confissões ficaram excluídas do acordo.

Lutero escrevia no alemão centro-oriental de sua região, em que os dialetos do norte e do sul já se haviam fundido em parte, permitindo ampla circulação de seus escritos. Sua língua também seguia a tradição escrita predominante do Eleitorado da Saxônia em Wittenberg. A tradução bíblica de Lutero deu ao dialeto alto-saxão de Meissen o impulso para tornar-se um alto-alemão protomoderno de uso geral na Alemanha, sobretudo nas regiões de baixo-alemão e depois também nas de alemão superior. Besch julga o alemão dessa Bíblia provavelmente o fator orientador mais forte da história recente da língua.
Com a colaboração de Melâncton e de outros teólogos e sob a revisão final de Lutero, a tradução da Bíblia feita em Wittenberg alcançou um grande público e ficou conhecida como Bíblia de Lutero. Antes dela, haviam sido impressas catorze edições de Bíblias alemãs em alto-alemão e quatro em baixo-alemão. Na Carta sobre a tradução, de 1530, Lutero explicou seus princípios e os defendeu da acusação católica de adulterar o texto.
Lutero procurava transmitir o sentido das afirmações bíblicas em alemão, sensus literalis, sem uma tradução palavra por palavra. Interpretava a Bíblia a partir do que "promove Cristo", tomando a graça divina em Cristo como objetivo e centro de todas as Escrituras. Entendia o Evangelho mais como mensagem oral do que como texto literário, e sua tradução ganhou características da fala e da escuta. Sua escrita orientou o estilo e a formação da língua até o presente. Sua tradução ajudou a difundir no alemão escrito palavras como Sündenbock, "bode expiatório", Lückenbüßer, "substituto para preencher uma lacuna", Lockvogel, "chamariz", e Dachrinne, "calha". Expressões idiomáticas derivadas de imagens bíblicas, como "lançar pérolas aos porcos", também se popularizaram por meio de sua obra. Ao mesmo tempo, manteve formas históricas da morfologia que a apócope já havia em grande parte eliminado, como o e luterano. Na ortografia, a tradução ajudou a manter o uso de iniciais maiúsculas nos substantivos. A Bíblia de Lutero também é julgada uma realização poética por seu cuidado até com o ritmo silábico, a prosódia.

Desde o século XIX, as leituras da teologia de Lutero acompanharam as questões de cada época; os estudos sistemáticos ganharam força por volta de 1900. Entre os pesquisadores estão Theodosius Harnack, no ambiente da restauração confessional prussiana e conservadora, Albrecht Ritschl e Wilhelm Herrmann, no individualismo neokantiano, e Karl Holl e Erich Seeberg, na renascença luterana. Entre seus intérpretes estão Friedrich Gogarten, Rudolf Karl Bultmann e Gerhard Ebeling, pela interpretação existencial, e Walther von Loewenich, Ernst Wolf e Hans Joachim Iwand, pelo luteranismo de crítica social depois de 1945.
A edição crítica das obras completas de Weimar começou em 1883. Até 1920, foram encontrados muitos manuscritos, como aulas de 1509 a 1518, anotações de sermões e atas de disputas de 1522 a 1546. A Sociedade Lutero, fundada em 1918 para estudar sua vida e obra, publica a revista Luther e os Lutherjahrbücher. Desde 1945, o Congresso Internacional de Estudos sobre Lutero ocorre a intervalos de alguns anos em cidades diferentes. Especialistas católicos participam desde o terceiro encontro, em Helsinque.
Durante muito tempo, os estudos evangélicos se concentraram na passagem de Lutero para a teologia reformadora; depois se ampliaram para outros períodos de sua vida e temas particulares. Novas descobertas de textos e projetos interconfessionais esclareceram aos poucos sua relação com a tradição católica. O historiador da Igreja Otto Scheel foi o primeiro a afirmar que, antes de estudar teologia, Lutero não tivera contato com as correntes heréticas, humanistas ou de crítica à Igreja de sua época. Em 1958, o psicanalista Erik Erikson procurou explicar sua teologia por deformações da sexualidade na primeira infância e por sentimentos acumulados de culpa e ódio ao pai. Nos estudos católicos mais recentes, a abordagem de Joseph Lortz tem peso, expressa na frase de que Lutero vencera em si um catolicismo que não era católico. Lortz se referia ao ockhamismo e à pouca familiaridade com Tomás de Aquino, enquanto valorizava a referência constante a Agostinho como herança católica do reformador.

Em 31 de outubro de 1999, representantes da Igreja Católica e da Federação Luterana Mundial assinaram, em Augsburgo, a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, fruto do diálogo que fizera dessa doutrina um tema central. O documento reconheceu um consenso em verdades básicas dessa doutrina e afirmou que as condenações doutrinais do século XVI não se aplicavam ao ensino da outra parte tal como exposto na declaração. Também reconheceu diferenças de formulação e questões que ainda exigiam diálogo.
Em 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Munib Younan, então presidente da Federação Luterana Mundial, participaram de uma celebração ecumênica em Lund, na Suécia, que abriu as comemorações conjuntas dos quinhentos anos da Reforma. A declaração assinada na ocasião reconheceu as contribuições da Reforma, lamentou os conflitos e a divisão da Igreja e reafirmou o compromisso com o diálogo e o serviço conjunto.

Durante a vida de Lutero, a oficina de Cranach produziu cerca de quinhentas imagens suas, das quais pelo menos 306 eram retratos. Ele se tornou uma das pessoas mais retratadas da história alemã. Muitos se baseiam em onze retratos para os quais Lutero posou, pintados por Lucas Cranach, o Velho, e seus filhos como artistas da corte saxônica. Lukas Furtenagel fez o retrato depois de sua morte. Quase todos os artistas de relevo da época também pintaram imagens sem autorização pessoal de Lutero. Por razões desconhecidas, a exceção foi Albrecht Dürer, que aderira aos ensinamentos luteranos desde 1520 e desejava retratá-lo. Supõe-se ainda que muitas imagens de Lutero tenham se perdido.
Os artistas usavam detalhes do vestuário e da aparência para evocar diferentes fases de sua vida: como religioso, Lutero aparece com tonsura e hábito; como teólogo, com barrete de doutor. Como Junker Jörg, com barba cheia. Como marido, com Catarina de Bora. Como pregador ou padre da Igreja, com roupa preta e livro ou rolo de pergaminho. Como professor, com manto e gola de pele.

Ao longo dos séculos, artistas copiaram e reinterpretaram os tipos criados por Cranach para afirmar ou criticar posições de sua própria época. Albrecht Geck entende que a história de uma nação se torna reconhecível na história dos retratos de uma pessoa. Gottfried August Gründler, que viveu de 1710 a 1775, pintou um Lutero pietista, com um sorriso suave. Johann Martin Preissler, de 1715 a 1794, mostrou-o como iluminista. Emil Ludwig Grimm, de 1790 a 1863, como gênio romântico. Karl Bauer, de 1868 a 1942, como visionário do Império Alemão. Otto von Kursell, de 1884 a 1967, como "nacional-socialista". Imagens da Alemanha Oriental o mostraram como partidário dos governantes. Trabalhos mais recentes o usaram em publicidade, no jornal Bild, ou como tema de arte digital, por Martin Missfeldt.
A exposição Lutherbilder aus sechs Jahrhunderten, organizada em Berlim em 2021 pela Associação de Arquivos Eclesiásticos, dirigida por Henning Pahl, apresentou as mudanças nas imagens de Lutero desde o século XVI. Começava com o primeiro retrato de Cranach, de 1520, e incluía as comemorações de 1883, 1917 e 2017.

Em uma carta de 8 de julho de 1530 a Lazarus Spengler, Lutero explicou o significado de seu selo, conhecido como Rosa de Lutero. A cruz negra em um coração vermelho representava a fé em Cristo crucificado; a rosa branca, a alegria, o consolo e a paz dessa fé. O campo azul indicava a esperança da alegria celestial, e o anel dourado simbolizava sua duração eterna. A imagem sintetizava sua compreensão da relação entre a cruz, a fé e a salvação.

A frase "Aqui estou, não posso agir de outra maneira", dada como encerramento do discurso na Dieta de Worms, não consta das atas e provavelmente não foi pronunciada naquela ocasião. Uma versão alemã do discurso, impressa pouco depois em Wittenberg por Johann Rhau-Grunenberg, incluiu a formulação "Não posso agir de outra maneira, aqui estou, que Deus me ajude, amém". O historiador da Igreja Thomas Kaufmann considera provável que Lutero a tenha acrescentado ao texto preparado para publicação, talvez em resposta à última conversa com Johann von der Eck, em 25 de abril de 1521. Para Kaufmann, ela expressava a situação incerta de Lutero como defensor do Evangelho. Sua presença no impresso mostra que a frase circulou cedo, mas não comprova que tenha sido dita diante da Dieta. Outra frase atribuída por muito tempo a Lutero não veio dele, a da macieira: "Se eu soubesse que o mundo acabaria amanhã, ainda hoje plantaria uma macieira".

Em 1996, a UNESCO inscreveu na lista do Patrimônio Mundial os memoriais de Lutero em Eisleben e Wittenberg. O conjunto compreende seis locais: em Eisleben, os memoriais dedicados ao seu nascimento e à sua morte; em Wittenberg, o Lutherhaus, a casa de Melâncton, a igreja municipal de Santa Maria e a Igreja do Castelo. O Castelo de Wartburg, associado à sua tradução do Novo Testamento, recebeu o mesmo reconhecimento em 1999.
Em 2015, um conjunto de catorze documentos ligados aos primeiros anos da Reforma, entre eles uma primeira edição de Da liberdade cristã, de 1520, foi incluído no Registro da Memória do Mundo da UNESCO.

No 450.º aniversário da Reforma, Lutero foi retratado com barrete de doutor nos selos de 1967 da Alemanha Oriental. No quinto centenário de seu nascimento, em 1983, a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental cunharam moedas comemorativas de prata. Em 1982, a Alemanha Oriental o homenageou em selos e em uma pequena folha; no ano seguinte, em novos selos e em um bloco de 18 de outubro. A Alemanha Ocidental também emitiu selos em 1983. Lutero já aparecera em 1961 no selo de 0,15 marco alemão da série regular Alemães de destaque.
Uma placa de bronze concebida para o túmulo de Lutero em Wittenberg foi doada à universidade de Jena em 1571 e está na Igreja de São Miguel daquela cidade; ele permanece sepultado na Igreja do Castelo de Wittenberg. Seu nome também aparece em igrejas, como a Igreja Martim Lutero de Cachoeira do Sul, no Brasil. Pelo Livro de Perícopes de 2018, a Igreja Evangélica na Alemanha comemora a Confissão de Augsburgo em 25 de junho e a Reforma em 31 de outubro. O calendário evangélico de nomes também prevê uma comemoração de Lutero em 18 de fevereiro. Entre as igrejas da Comunhão Anglicana, a Igreja da Inglaterra assinala Lutero em 31 de outubro como reformador em seu calendário litúrgico. Na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, o calendário do Livro de Oração Comum inclui a comemoração de Lutero em 18 de fevereiro.
Em 5 de dezembro de 1914, estreou no Teatro dos Artistas Alemães, em Berlim, a peça Luther. Deutsche Historie mit einem Vorspiel und 13 Bildern, de August Strindberg. Entre os atores estavam Kurt Vespermann, como Lutero jovem no prólogo, Friedrich Kayßler, como doutor Martinho Lutero, Emil Jannings e Rudolf Schildkraut.
Em 21 de setembro de 2008, a Igreja Evangélica na Alemanha inaugurou em Wittenberg a Década de Lutero, para preparar o quinto centenário da Reforma e divulgar sua dimensão mundial. A Federação Luterana Mundial promoveu o Jardim de Lutero em Wittenberg como parte das comemorações internacionais; o primeiro plantio de árvores ocorreu em 2009.
O nome botânico Luthera Sch.Bip., atribuído a um gênero da família Asteraceae, também foi uma homenagem a Lutero. Esse nome é considerado sinônimo de Krigia.
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Fontes
Lutero e os judeus
Lutero e o Antigo Testamento
Lutero e a perseguição às bruxas
Lutero e seus testamentos, de 1537 e 1542
Teologia e filosofia
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