Aca Inene

Aca Inene
Aqua Inene (forma documental); Aqualtune, Acotirene e Arotirene (formas historiográficas)
Residênciamocambo de Aca Inene, Palmares (década de 1670)

Aca Inene (também registrada como Aqua Inene, e conhecida na historiografia e na memória posterior pelas formas Aqualtune, Acotirene e Arotirene) foi uma mulher documentada nos Palmares na década de 1670. A Relação da ruína dos Palmares, redigida em 1678, identifica-a como a "mãe do rei" Gana Zumba e informa que residia em um mocambo fortificado associado ao seu nome. Em 4 de outubro de 1677, as forças de Fernão Carrilho atacaram a cerca de Aca Inene, sem que ela fosse encontrada, viva ou morta, após a investida.

As formas pelas quais seu nome se tornou conhecido resultam em parte da transmissão textual da documentação sobre Palmares. A base Documenta Palmares adota Aca Inene, registra Aca Inene e Aqua Inene nas fontes e relaciona Acotirene, Arotirene e Aqualtune entre as formas difundidas pela historiografia. A comparação das versões seiscentistas e das cópias posteriores revelou alterações especialmente significativas nos nomes africanos presentes no texto.

A personagem posteriormente conhecida como Aqualtune, à qual foram atribuídas uma origem principesca no Reino do Congo, participação na Batalha de Ambuíla e uma genealogia que a liga a Zumbi dos Palmares, pertence a uma tradição historiográfica e cultural posterior. Silvia Hunold Lara observa que Aqualtune não aparece com essa identidade nas fontes seiscentistas conhecidas, ao contrário de Aca Inene.

Documentação seiscentista

A Relação de 1678

A principal fonte sobre Aca Inene é o texto atualmente editado sob o título Relação da ruína dos Palmares, escrito em 1678 e atribuído por Silvia Hunold Lara e Phablo Roberto Marchis Fachin ao padre Antonio da Silva. O relato chegou ao presente em duas versões seiscentistas, conservadas na Biblioteca Pública de Évora e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Uma versão do texto foi publicada em 1859 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e tornando-se uma das principais fontes da historiografia posterior sobre Palmares. A colação dos testemunhos realizada por Lara e Fachin mostrou, porém, que a transmissão do texto acumulou substituições de palavras, mudanças de pontuação e alterações em nomes próprios, sobretudo em antropônimos africanos.

Essas diferenças não se limitam ao nome de Aca Inene. A revisão paleográfica alterou a leitura de diversos nomes de pessoas e mocambos, levando à reavaliação de identidades que haviam sido tratadas separadamente pela historiografia.

Mocambo de Aca Inene

As duas versões seiscentistas concordam em identificar Aca Inene como a mãe do rei e em associá-la a um mocambo fortificado situado a noroeste de Porto Calvo, embora divirjam quanto à distância indicada: uma registra trinta léguas e a outra vinte e cinco.

A campanha comandada por Fernão Carrilho chegou à cerca em 4 de outubro de 1677. Segundo o relato, os habitantes tiveram notícia da aproximação das tropas e abandonaram a fortificação. No ataque, vários foram mortos e nove ou dez pessoas foram capturadas. Aca Inene não foi encontrada, segundo a fórmula do próprio documento, "nem viva nem morta".

O relato registra ainda que, alguns dias depois, foi encontrada morta uma mulher que acompanhava Aca Inene, sem fornecer qualquer informação sobre o seu destino após a campanha.

A documentação também não informa sua data ou local de nascimento, sua trajetória anterior à vida em Palmares ou as circunstâncias pelas quais passou a ocupar aquela posição. A associação documental segura limita-se à sua identificação como mãe de Gana Zumba e à sua ligação com o mocambo fortificado que levava seu nome.

Nome e transmissão historiográfica

A variação do nome de Aca Inene é parte de um problema mais amplo de transmissão dos nomes centro-africanos presentes nas fontes sobre Palmares. O texto foi copiado e publicado diversas vezes, com formas transmitidas por essas versões acabando tratadas pela historiografia como nomes distintos.

A Documenta Palmares, projeto do IFCH e do CECULT da Universidade Estadual de Campinas, normaliza a personagem como Aca Inene. A base registra Aca Inene e Aqua Inene como grafias encontradas nas fontes e relaciona Acotirene, Arotirene e Aqualtune como formas comuns na historiografia.

A revisão dos manuscritos contribuiu para desfazer a interpretação segundo a qual esses nomes necessariamente designariam diferentes personagens. A forma Acotirene, em particular, chegou a adquirir uma biografia autônoma na produção historiográfica e cultural, apesar da leitura crítica contemporânea remontar essas variantes ao mesmo núcleo documental.

Essa revisão também modificou a forma como a presença feminina nos Palmares é estudada. Lara observa que personagens muito presentes na memória contemporânea, como "Aqualtune" e Dandara, não aparecem com essas identidades na documentação seiscentista conhecida, enquanto mulheres como Aca Inene e Maria Moreira são efetivamente mencionadas pelas fontes.

Aqualtune na tradição posterior

Uma narrativa difundida posteriormente apresenta Aqualtune como uma princesa guerreira do Reino do Congo que teria participado da Batalha de Ambuíla, em 1665, sido capturada e escravizada no Brasil, fugido para Palmares e se tornado antepassada de Zumbi. Esses elementos não constam da documentação seiscentista conhecida sobre Aca Inene. A distinção não implica que a personagem Aqualtune seja irrelevante para a história de Palmares. Lara propõe tratar separadamente a história documentada dos acontecimentos seiscentistas e a história posterior da memória dos Palmares, investigando quando figuras como Aqualtune e Dandara passaram a integrar essas narrativas.

Na literatura contemporânea, a narrativa da princesa guerreira foi retomada por Jarid Arraes em Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. O cordel dedicado a Aqualtune constitui um exemplo da permanência e reelaboração dessa personagem na memória cultural brasileira.

Acotirene no cinema

A forma Acotirene também adquiriu uma trajetória cultural própria. No filme Quilombo (1984), de Cacá Diegues, Acotirene aparece como uma anciã ligada às origens de Palmares e dotada de autoridade espiritual sobre a comunidade.

Em entrevista a Coco Fusco publicada em 1986, Diegues explicou que, diante da escassez de documentação sobre as origens dos quilombos, imaginou Acotirene como uma espécie de "Grande Mãe", quase divina, caracteridando a personagem como matriarca primordial e antecessora de Ganga Zumba.

Limites da documentação

Apesar da abundância de narrativas posteriores, os dados biográficos seguros sobre Aca Inene são reduzidos. A documentação permite situá-la nos Palmares na década de 1670, identificá-la como mãe de Gana Zumba e associá-la a um mocambo fortificado atacado em 1677. Não permite estabelecer com segurança sua procedência africana específica, data de nascimento, eventual condição anterior de escravidão, participação em guerras africanas, outros filhos ou relação genealógica direta com Zumbi.

Referências

Bibliografia