| Camuanga | |
|---|---|
| Morte | 1703 |
| Ocupação | chefe militar |
| Cargo(s) | chefe de mocambo |
Camuanga, registrado também como Camoanga, foi uma liderança de Palmares, documentada durante o ataque à Cerca do Barriga em 1694 e nas primeiras décadas posteriores à morte de Zumbi. Durante a campanha de 1694, comandou uma tropa palmarina empregada numa tentativa de ataque contra as forças paulistas. Nos anos seguintes, tornou-se uma das principais lideranças dos grupos que continuaram a resistência nos antigos territórios de Palmares.
Uma consulta do Conselho Ultramarino de 1707 registra que um oficial colonial o identificava como "sucessor de Zumbi". A expressão não corresponde necessariamente à sucessão num cargo monárquico: a historiografia recente descreve o período posterior a 1695 como marcado pela dispersão dos mocambos e pela transformação da organização política e militar de Palmares.
Camuanga aparece individualmente na Rellação verdadeyra da guerra que se fez aos negros levantados do Palmar, narrativa da campanha que culminou na destruição da Cerca do Barriga em 1694. Durante as operações que antecederam o cerco, Zumbi colocou uma tropa sob as ordens de Camuanga, descrito pela fonte como um homem "valente e grão-corsário". Segundo a narrativa, Camuanga deveria atacar os paulistas por um dos lados, atraindo parte das tropas coloniais, enquanto Zumbi investiria por outro com o grosso de suas forças. O plano não chegou a produzir o resultado pretendido e as tropas palmarinas se retiraram.
A historiadora Silvia Hunold Lara identifica Camuanga entre aqueles que sobreviveram à destruição da Cerca do Barriga, observando que havia comandado diversos ataques contra as forças paulistas durante a batalha de 1694, reaparecendo posteriormente na documentação como liderança de um novo mocambo.
A morte de Zumbi, em novembro de 1695, não encerrou a existência dos mocambos ligados a Palmares. Nas décadas seguintes, grupos menores e mais dispersos continuaram ativos em diferentes regiões de Pernambuco. Lara identifica, entre esses assentamentos posteriores, os comandados por Camuanga, João Martins e Mouza, destruídos aproximadamente em 1704, 1705 e 1714, respectivamente.
Camuanga aparece nesse contexto como uma das principais lideranças da resistência posterior. Uma consulta do Conselho Ultramarino de 18 de janeiro de 1707 registra que um capitão do terço de Domingos Jorge Velho o identificava como o "sucessor de Zumbi". Marc A. Hertzman também o caracteriza como uma liderança palmarina surgida com destaque nos documentos depois da morte de Zumbi.
A utilização da palavra "sucessor" pelas fontes não demonstra, contudo, a continuidade de uma monarquia ou de uma estrutura política idêntica à existente na década de 1670. Lara destaca que os mocambos posteriores a 1695 eram menores e territorialmente dispersos, num contexto de reorganização política e militar.
O Mocambo do Camuanga localizava-se nas cabeceiras de Porto Calvo, próximo do arraial de São Caetano, nas margens do rio Jacuípe, e a cerca de quarenta léguas do outeiro do Barriga. Hertzman situa a atividade desse mocambo entre aproximadamente 1699 e 1704.
Em 1699, uma ofensiva colonial contra Camuanga fez vários prisioneiros, entre os quais sua mulher e um de seus filhos. Em 1704, outro filho de Camuanga foi capturado e levado para o Recife, onde ficou preso numa fortificação enquanto as autoridades preparavam sua transferência para Lisboa. O prisioneiro conseguiu fugir antes do embarque.
As autoridades procuraram também negociar com Camuanga. Hertzman registra que o governador de Pernambuco relatou uma tentativa de um bispo de encontrar-se com a liderança palmarina em dia e local previamente combinados. As constantes incursões das tropas paulistas, porém, impediam Camuanga de permanecer por muito tempo num mesmo lugar e dificultaram a negociação.
Flávio dos Santos Gomes e Roquinaldo Ferreira incluem Camoanga, juntamente com Mouza, entre as lideranças palmarinas que demonstram a continuidade da resistência depois de 1695, num quadro de dispersão dos remanescentes por Pernambuco e pelas capitanias vizinhas.
A Enciclopédia Negra situa a morte de Camoanga em 1703, afirmando que ele foi morto pelas tropas coloniais que continuavam a atuar contra os mocambos de Palmares.
A reconstrução de Lara, baseada em documentação administrativa, situa a destruição do mocambo comandado por Camuanga aproximadamente em 1704. Hertzman emprega igualmente o intervalo de 1699 a 1704 para a atividade daquele assentamento.
O projeto Documenta Palmares, da Universidade Estadual de Campinas, adota Camuanga como forma normalizada do nome e registra Camoanga como variante encontrada nas fontes.
Uma tradição historiográfica posterior atribuiu a Camuanga parentesco com Zumbi. Domingos do Loreto Couto, ao escrever no século XVIII, chamou-o de irmão de Zumbi. Hertzman observa, porém, que não é possível determinar a origem dessa informação e que a documentação conhecida não estabelece esse parentesco.
Camuanga foi representado no filme Quilombo, dirigido por Cacá Diegues e lançado em 1984. No longa-metragem, a personagem foi interpretada pelo ator Eduardo Silva. No final da narrativa, Camuanga aparece como continuidade da resistência depois da morte de Zumbi. O intertítulo que encerra o filme apresenta-o como líder da resistência de Palmares até 1704. O especialista em estudos brasileiros Richard A. Gordon interpreta essa passagem como parte da representação de Palmares no filme como uma comunidade cuja resistência sobrevive à sucessão e à morte de suas lideranças.
Em 2020, o quadrinista e artista Marcelo D'Salete criou Camoanga e Mouza (Camoanga Outros Palmares), representação artística das duas lideranças palmarinas. A obra, realizada em nanquim, pintura digital e impressão digital sobre papel fotográfico, integrou o projeto Enciclopédia Negra.
O projeto da Enciclopédia Negra reuniu artistas contemporâneos para produzir representações de personalidades negras cujas imagens não haviam sido registradas ou haviam sido historicamente apagadas. As 103 obras produzidas para o projeto foram apresentadas numa exposição da Pinacoteca de São Paulo em 2021 e doadas ao museu para integrar sua coleção.
A memória de Camuanga também está presente no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga. No espaço denominado Muxima de Palmares, a Fundação Cultural Palmares inclui Camoanga e Mouza entre as lideranças homenageadas pela continuidade da resistência depois da morte de Zumbi.
O nome de Camuanga também foi incorporado à cultura da capoeira angola. Em Campo Grande, o capoeirista José Leandro Leite, conhecido como Mestre Pequeno, criou o grupo Camuanga de Angola. Em entrevista ao Campo Grande News, afirmou ter escolhido o nome como homenagem a Camuanga e à continuidade da resistência de Palmares após Zumbi.