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Nordestern, também chamado de faroeste nordestino, western cangaceiro, western macaxeira ou farnordeste, é um gênero de ficção que transpõe convenções narrativas, visuais e temáticas do western para o sertão e para o imaginário histórico e cultural da Região Nordeste do Brasil. Seus enredos são frequentemente construídos em torno do cangaço, das forças volantes, do coronelismo, dos conflitos de terra, da vingança, do banditismo rural, da violência política e da disputa por justiça em territórios onde a autoridade estatal é ausente, limitada ou subordinada aos poderes locais.
O termo é um neologismo formado pela junção de Nordeste e western. Sua criação é atribuída ao crítico de cinema potiguar Salvyano Cavalcanti de Paiva que o empregou nos anos 60 e 70 nas páginas jornal Correio da Manhã, para designar os filmes brasileiros inspirados no faroeste e protagonizados por cangaceiros, volantes, jagunços e outros personagens do sertão.
Em sentido estrito, nordestern designa principalmente o ciclo de filmes de aventura sobre o cangaço desenvolvido a partir da década de 1950, fortemente estruturado segundo os códigos do western clássico. Em sentido amplo, a denominação também é aplicada a documentários, comédias, paródias, obras do Cinema Novo, produções da Boca do Lixo, filmes experimentais e releituras contemporâneas que utilizam a paisagem, os mitos e os conflitos do sertão.
Embora o gênero matriz, o Western – seja tradicionalmente ambientado no Velho Oeste (Old West) ou Oeste Selvagem (Wild West) dos Estados Unidos, entre a Corrida do Ouro da Califórnia (1849) e o fechamento da fronteira em 1890, o Nordestern opera em um recorte cronológico distinto. As histórias do cangaço, que inspiram grande parte do gênero, situam-se entre o fim do século XIX e meados do século XX, com seu período áureo nas décadas de 1920 e 1930, época de Lampião e Maria Bonita. Assim, muitas das narrativas nordestern, quando ambientadas no século XX, já seriam, em essência, "westerns contemporâneos", histórias que coexistem com a modernidade do rádio, do avião e do automóvel.
O faroeste brasileiro vai além do Nordeste. Termos mais abrangentes como western feijoada e faroeste caboclo designam produções ambientadas em outras regiões e contextos culturais do país, como o interior de São Paulo ou Pampa gaúcho. Enquanto o nordestern é uma vertente regional e tematicamente delimitada (muitas vezes associada ao cangaço e ao sertão semiárido), esses outros termos funcionam como categorias mais amplas que reconhecem a apropriação do gênero pelo imaginário brasileiro em suas múltiplas manifestações geográficas e históricas.
O Nordestern se manifesta em diversas mídias. No cinema, teve seu marco inicial com O Cangaceiro, dirigido por Lima Barreto e lançado em 1953 pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. O filme recebeu no Festival de Cannes o Prêmio Internacional de Filme de Aventura e alcançou ampla circulação internacional.
É importante destacar que, embora o cangaço seja um tema recorrente, nem toda história sobre o cangaço é necessariamente um nordestern. A distinção fundamental reside na transposição consciente das convenções do western, como o confronto entre lei e banditismo, a paisagem árida como personagem, o duelo e a busca por justiça em uma terra sem lei, para o contexto sertanejo.
Nos quadrinhos, a influência do gênero é notável em artistas que transitam entre o faroeste tradicional e cenários brasileiros, como Julio Shimamoto (conhecido por obras como O Gaúcho e Sertão Vermelho) e Flavio Colin (autor de histórias brasileiras do cowboy Cavaleiro Negro, personagem da Marvel, histórias para a revista Sertão & Pampas da Grafipar e ilustrou o romance gráfico Mulher-Diaba no Rastro de Lampião, escrito por Ataíde Braz), por exemplo, produziram faroestes para a revista Histórias do Faroeste, publicada pela editora Vecchi entre 1979 e 1982. Ambos são exemplos de como o western, em suas múltiplas vertentes, encontrou no Brasil um terreno fértil para reinvenção.
A expressão nordestern corresponde a uma adaptação linguística e cultural da palavra inglesa western. A associação decorre da semelhança entre o espaço dramático do Velho Oeste norte-americano e a construção cinematográfica do sertão brasileiro: grandes áreas abertas, comunidades isoladas, grupos armados, perseguições, emboscadas, conflitos de honra, violência privada e instituições incapazes de exercer plenamente a autoridade.
O pesquisador Marcelo Dídimo utiliza a expressão mais ampla filmes de cangaço para reunir as diferentes formas pelas quais o fenômeno histórico foi representado no cinema. Dentro desse conjunto, o nordestern corresponde especialmente ao momento em que a produção passou a apresentar personagens, conflitos, estruturas narrativas e códigos visuais repetidos de filme para filme, formando um gênero reconhecível pelo público.
A Cinemateca Brasileira adota uma concepção abrangente. Na mostra Nordestern: bangue-bangue à brasileira, realizada em 2023, a instituição reuniu filmes de aventura, documentários, produções do Cinema Novo, obras da retomada e releituras contemporâneas como Bacurau e Sertânia.
O termo farnordeste também aparece em pesquisas acadêmicas para identificar a apropriação do modelo estético do faroeste pelo cinema ambientado no sertão brasileiro.
O termo western macaxeira é uma alusão ao western spaghetti italiano, utilizando o nome da mandioca, tubérculo conhecido como macaxeira no Norte e Nordeste do Brasil no lugar do ingrediente italiano.
Nem todo western brasileiro é necessariamente um nordestern, existem termos mais abrangentes, como western feijoada e faroeste caboclo que abarcam produções ambientadas em outras regiões do país. Filmes ambientados em outras regiões do país, relacionados a garimpo, disputas agrárias, fronteiras, roubo de gado ou pistoleiros urbanos, podem ser classificados como faroestes brasileiros sem ligação direta com o cangaço ou com o sertão nordestino. Da mesma forma, nem toda produção sobre o Nordeste utiliza convenções do western.
Um exemplo de obra de western fora do cenário nordestino é a telenovela Irmãos Coragem (1970), ambientada em Goiás. Esse diálogo cultural com o imaginário do Velho Oeste se manifesta de maneira particular na música sertaneja. Por intermédio das transformações da música sertaneja moderna, que absorveu influências do country estadunidense, elementos da estética e do estilo de vida do cowboy foram importados e integrados à cultura caipira, notadamente nas regiões do interior de São Paulo e do Grande Goiás. Essa fusão se refletiu em adereços como o chapéu e as botas, e em práticas como o rodeio, que se popularizaram no Brasil.

O cangaço foi uma manifestação de banditismo rural desenvolvida no Nordeste brasileiro, especialmente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Seus grupos armados percorriam áreas do sertão e mantinham relações variáveis com proprietários rurais, autoridades, comerciantes, coiteiros e populações locais. Entre os fatores históricos associados ao fenômeno encontram-se a concentração de terras, o coronelismo, as disputas familiares, a violência privada, a pobreza, as secas, as vinganças e a limitada presença do Estado em extensas áreas rurais. Normalmente os filmes se enquandaram como western contemporâneo por seem ambientados no século XX.
A figura do cangaceiro foi transformada em personagem cultural antes mesmo da consolidação do cinema sonoro. Jornais, relatos orais, cantorias, fotografias, literatura regionalista e cordel contribuíram para construir imagens contraditórias do cangaço, apresentando os cangaceiros como criminosos, vingadores, rebeldes, justiceiros, heróis populares, vítimas do coronelismo ou agentes da própria violência que combatiam. Essa mesma ambiguidade foi assimilada por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que, ao transportar para o forró a figura do vaqueiro e do cangaceiro. Seguido por outros artistas do forró, Gonzaga consolidou a imagem do cangaceiro no imaginário popular.
Nesse processo, o cangaço e o faroeste tiveram caminhos similares no desenvolvimento da literatura popular barata. O Oeste americano foi amplamente retratado em dime novels e revistas pulp, publicações de baixo custo que popularizaram narrativas de cowboys, índios e pistoleiros para um público massivo. No Brasil, o cangaço encontrou suas primeiras representações na literatura tradicional, como o romance O Cabeleira (1876), do cearense Franklin Távora. Contudo, o equivalente mais próximo à literatura barata do hemisfério norte, em termos de circulação popular e linguagem acessível, foram os folhetos de poesia de cordel.
Assim como os fora-da-lei do Velho Oeste foram romantizados pela literatura e pelo cinema como símbolos de liberdade, os cangaceiros, especialmente Lampião, tiveram suas imagens construídas não apenas como criminosos, mas como vingadores do povo nordestino, dinâmica que o historiador Eric Hobsbawm classificou como banditismo social, na qual a violência do bandido é ressignificada como resistência contra a opressão dos poderosos. Esse fenômeno é antigo: Robin Hood, o célebre fora-da-lei inglês, já era celebrado em baladas e poemas medievais como um justiceiro que roubava dos ricos para dar aos pobres, numa dinâmica muito similar à dos folhetos de cordel. O cordel, aliás, deriva da poesia medieval europeia, transportando suas narrativas para o cenário do sertão brasileiro e forjando a imagem do cangaceiro como herói popular.
O nordestern herdou essas representações e as combinou com convenções internacionais de gênero. A imagem do cangaceiro no nordestern não corresponde, portanto, a uma reprodução neutra do personagem histórico, mas a uma construção elaborada por diferentes mídias, tradições narrativas e interesses políticos.
No Brasil, a influência dos westerns começa ainda no cinema mudo com o filme Dioguinho de 1917, baseado em um bandido de mesmo nome. A presença do cangaço no cinema brasileiro antecede o aparecimento do nordestern como gênero organizado. Uma exibição realizada no Recife em 1917 apresentou imagens de Antônio Silvino preso na Casa de Detenção e manejando um rifle. O registro não constituía ainda uma narrativa ficcional, mas representa uma das primeiras aparições conhecidas de um cangaceiro nas telas.
Os primeiros filmes de ficção conhecidos a introduzir cangaceiros em suas narrativas foram realizados em Pernambuco e na Bahia durante o período silencioso. Entre eles encontram-se:
Nenhuma dessas obras sobreviveu integralmente. A Cinemateca Brasileira reconhece esses títulos como os primórdios da representação cinematográfica do cangaço.
Em 1931, foi lançado o filme alagoado Um Bravo do Nordeste, inspirado nos faroestes e também considerado um filme perdido.
Entre 1936 e 1937, o fotógrafo e cinegrafista Benjamin Abrahão Botto registrou Lampião, Maria Bonita, Corisco, Dadá e outros integrantes dos bandos de cangaceiros. Com equipamentos fornecidos pela Aba Film, de Fortaleza, Abrahão realizou fotografias e imagens em movimento do cotidiano do grupo, incluindo deslocamentos, danças, refeições, poses armadas e atividades no acampamento.
O material foi apreendido durante o Estado Novo, sob a alegação de que sua exibição prejudicaria a imagem do país e das forças responsáveis pela repressão ao cangaço. Fragmentos posteriormente preservados tornaram-se documentos fundamentais para a iconografia do gênero.
Os registros de Abrahão ajudaram a fixar elementos visuais que seriam reproduzidos em filmes posteriores:
Décadas depois, a trajetória de Benjamin Abrahão foi dramatizada em Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira.
A consolidação do nordestern ocorreu com O Cangaceiro, lançado em 1953. Produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, o filme foi dirigido por Lima Barreto e protagonizado por Alberto Ruschel, Marisa Prado, Milton Ribeiro e Vanja Orico.
Seu roteiro foi escrito pelo próprio Barreto, com diálogos da escritora cearense Rachel de Queiroz. No mesmo ano, Queiroz também escreveu a peça Lampião, inspirada na temática do cangaço. A autora voltaria a abordar esse universo em seu último romance, Memorial de Maria Moura, publicado em 1992.
A narrativa acompanha o bando do capitão Galdino, que invade um povoado e sequestra a professora Olívia. Teodoro, integrante do grupo, apaixona-se pela prisioneira, rompe com o chefe e tenta ajudá-la a escapar. A trama combina aventura, romance, sequestro, perseguição, conflito interno, violência e sacrifício individual.

O filme foi rodado principalmente no interior do estado de São Paulo, embora representasse o sertão nordestino. Essa circunstância tornou-se uma referência frequente nos debates sobre a representação do Nordeste por produtoras estabelecidas no Sudeste.
Sua circulação internacional foi favorecida pela distribuição da Columbia Pictures. No Festival de Cannes de 1953, recebeu o Prêmio Internacional de Filme de Aventura. O prêmio é por vezes confundido com a Palma de Ouro, mas a relação oficial do festival registra uma categoria específica de filme de aventura.
O sucesso comercial e internacional estimulou a produção seriada de aventuras de cangaço nas décadas seguintes. A oposição entre o cangaceiro cruel e o integrante do bando que rompe com o grupo, a mulher sequestrada, a perseguição pela caatinga e o confronto final seriam retomados em diversas obras.
Nas décadas de 1950 e 1960, produtoras brasileiras passaram a explorar comercialmente o cangaço como gênero de aventura. Os filmes apresentavam títulos, cartazes, personagens e situações que permitiam ao público reconhecer de imediato o universo narrativo.
Entre os principais realizadores do ciclo encontra-se Carlos Coimbra, diretor de A Morte Comanda o Cangaço, Lampião, o Rei do Cangaço, Cangaceiros de Lampião e Corisco, o Diabo Loiro. Outros diretores associados à produção incluem Aurélio Teixeira, Milton Amaral, Miguel Borges e Fernando de Barros.
A recorrência de atores também contribuiu para a identidade do gênero. Milton Ribeiro, Alberto Ruschel, Vanja Orico, Maurício do Valle, Leonardo Villar, Antônio Pitanga, Jofre Soares e Geraldo Del Rey participaram de diferentes filmes relacionados ao sertão, ao cangaço e ao Cinema Novo.
Mineiro, Milton Ribeiro consolidou-se como o grande antagonista dos faroestes brasileiros, enquanto o gaúcho Alberto Ruschel, intérprete do cangaceiro Teodoro em O Cangaceiro, passou os onze anos seguintes encarnando heróis nos cenários áridos do Nordeste, no interior paulista e nos pampas gaúchos. Além do papel em O Cangaceiro, Ribeiro protagonizou outros títulos importantes do cinema de cangaço, como Arara Vermelha (no papel de Camura), A Morte Comanda o Cangaço (Capitão Silvério), O Cabeleira, Lampião, o Rei do Cangaço e Corisco, o Diabo Loiro, no qual interpretou Lampião.
A Morte Comanda o Cangaço, dirigido por Carlos Coimbra e lançado em 1960, é um dos exemplos centrais da fase clássica. Sua narrativa acompanha uma vingança contra um cangaceiro protegido por um coronel e culmina num confronto armado destinado a restaurar a ordem local.
Embora os filmes apresentem diferenças históricas e estilísticas, o nordestern clássico desenvolveu um conjunto recorrente de elementos.
O sertão é construído como espaço de perigo, isolamento e disputa. A paisagem pode assumir função dramática, influenciando deslocamentos, perseguições, escassez de água, sobrevivência e organização social.
Entre os cenários recorrentes encontram-se:
O espaço aberto desempenha função semelhante à pradaria, ao deserto e às cidades fronteiriças do western norte-americano.
Os tipos recorrentes incluem:
A oposição entre cangaceiros e volantes constitui uma das estruturas mais características. Entretanto, as narrativas nem sempre apresentam uma divisão moral simples. Policiais, coronéis e autoridades podem ser representados como tão violentos quanto os grupos perseguidos.
Entre os conflitos mais comuns estão:
A iconografia do nordestern combina elementos históricos e estilizações cinematográficas:
Nem todos esses elementos correspondem rigorosamente à realidade histórica. Muitos foram reorganizados para facilitar a identificação visual do gênero.
A música regional, a cantoria, o aboio, o repente e o cordel aparecem com frequência nas trilhas e na organização narrativa. O cordel participa da construção de heróis, vilões, profecias, histórias de vingança e representações míticas de Lampião e de outros cangaceiros.
Em filmes do Cinema Novo, a oralidade também pode assumir função épica ou alegórica, transformando personagens históricos em símbolos de conflitos políticos e sociais.
O nordestern clássico corresponde principalmente aos filmes de aventura produzidos entre as décadas de 1950 e 1970. Essas obras utilizavam estruturas do cinema comercial e apresentavam perseguições, romances, vinganças, ataques a povoados e confrontos armados.
O gênero tornou-se reconhecível por meio da repetição de códigos e pela presença de diretores, atores, produtores e distribuidores recorrentes.
O cangaço também foi incorporado pela comédia brasileira. Filmes como O Primo do Cangaceiro, Os Três Cangaceiros, O Lamparina e O Cangaceiro Trapalhão parodiaram os códigos de violência, honra e valentia do gênero.
Em algumas dessas obras, personagens covardes ou urbanos são confundidos com cangaceiros ou obrigados a assumir identidades heroicas. As comédias também aproximaram o nordestern da chanchada, do circo, do rádio e da televisão.
A Cinemateca Brasileira registra O Primo do Cangaceiro, de 1955, como uma comédia em que um homem comum é incorporado ao universo dos bandoleiros e altera seus métodos de ação.
A produção documental constitui uma vertente própria do cinema de cangaço. Os documentários recorreram aos filmes de Benjamin Abrahão, a fotografias, gravuras de cordel, depoimentos de sobreviventes e reconstituições dramáticas.
Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, utiliza imagens documentais, fotografias, versos e depoimentos para examinar o fenômeno histórico.
O Último Dia de Lampião e A Mulher no Cangaço aproximam-se do docudrama, combinando informação histórica, entrevistas e reconstituições.
A Musa do Cangaço, dirigido por José Umberto Dias em 1982, apresenta o testemunho de Dadá e aborda a vida interna dos bandos, os códigos de honra, as táticas de sobrevivência e a participação feminina.
Os Últimos Cangaceiros, de Wolney Oliveira, lançado em 2012, registra a história de Moreno e Durvinha, integrantes do cangaço que viveram durante décadas sob novas identidades.

O Cinema Novo reelaborou o cangaço por meio de uma linguagem política, alegórica e experimental. Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, lançado em 1964, relaciona seca, exploração, messianismo, violência, cangaço e revolução. Glauber Rocha foi influenciado por John Ford, diretor de Rastros de Ódio (The Searchers). Segundo Rocha:
Da mesma maneira pode-se fazer um filme de western ou de cangaço tomando lições de Hawks ou de Ford mas invertendo o conteúdo e forma: isto é a antropofagia estética.
Deus e o Diabo na Terra do Sol, digamos que foi um filme provocado pela impossibilidade de fazer um grande western, como poderia fazer, por exemplo, o John Ford. Ao mesmo tempo, havia um caminho de inspiração eisensteiniana, de Linha geral e de Encouraçado Potemkin, e ainda as influências de Visconti e de Rosselini, do Kurosawa, do Bufluel. Então, Deus o Diabo foi feito essa luta entre Ford e Eisenstein, e a anarquia buñueliana, a força selvagem da loucura.
Em vez de reproduzir simplesmente a aventura comercial, Glauber utilizou personagens e situações do sertão para discutir a estrutura social brasileira. O cangaceiro Corisco assume uma dimensão simbólica, enquanto Antônio das Mortes construído como matador a serviço dos poderes dominantes, um caçador de recompensas contratado para eliminar cangaceiros.
O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, lançado em 1969, retoma Antônio das Mortes e o coloca diante de um novo cangaceiro, de beatos, coronéis e sertanejos. O filme combina western, cordel, teatro, música, alegoria religiosa e reflexão política.
Parte da historiografia distingue essas obras do nordestern comercial, classificando-as como uma vertente singular do cinema de cangaço. A Cinemateca, entretanto, inclui os filmes de Glauber em sua abordagem ampliada do gênero.
O pesquisador Rodrigo Pereira sustenta que Deus e o Diabo na Terra do Sol não se enquadraria propriamente como western, pois sua estrutura narrativa é dramática e não coloca o protagonista em um conflito claro entre Bem e Mal, ao contrário de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, classificado por ele como faroeste rural.
Durante as décadas de 1970 e 1980, produtoras ligadas à Boca do Lixo incorporaram o cangaço à pornochanchada, à comédia erótica e ao cinema de ação de baixo orçamento.
Filmes como As Cangaceiras Eróticas, A Ilha das Cangaceiras Virgens e Kung Fu contra as Bonecas combinaram iconografia sertaneja, erotismo, humor, artes marciais e aventura. Essas obras mantiveram chapéus, armas, bandos e paisagens associadas ao gênero, mas apresentaram pouca preocupação com reconstrução histórica.
Na década de 1990, o cangaço voltou a ocupar posição de destaque no contexto da Retomada do Cinema Brasileiro.
Corisco & Dadá, dirigido por Rosemberg Cariry e lançado em 1996, reconstrói a relação entre Corisco e Dadá e desloca parte da narrativa para a experiência da personagem feminina.
Baile Perfumado, também de 1996, acompanha Benjamin Abrahão em sua tentativa de filmar Lampião. A obra incorporou fragmentos das imagens documentais de 1936, elementos da cultura pernambucana contemporânea e uma trilha relacionada ao manguebeat.
Em 1997, Aníbal Massaini Neto dirigiu uma nova versão de O Cangaceiro, com Paulo Gorgulho, Luiza Thomé, Ingra Liberato, Jece Valadão e Othon Bastos.
As produções da retomada apresentaram maior participação de realizadores, equipes e produtoras sediadas no próprio Nordeste, alterando o ponto de vista regional predominante em parte do ciclo clássico.
As mulheres estiveram presentes tanto no cangaço histórico quanto em suas representações cinematográficas. Maria Bonita, Dadá, Sila, Durvinha e outras cangaceiras foram retratadas em ficções, documentários e séries.
Durante grande parte do ciclo clássico, as personagens femininas foram frequentemente apresentadas como:
Produções posteriores ampliaram essas representações. A Mulher no Cangaço reúne depoimentos de Dadá, Sila e Adília e registra questões relacionadas ao sequestro, à vida nos bandos e à experiência feminina.
O livro E as Cangaceiras? As representações sociais e o imaginário do feminino cangaço no cinema, de Caroline de Araújo Lima, examina as imagens das mulheres desde o nordestern clássico até as pornochanchadas e as releituras contemporâneas.
Corisco & Dadá, Entre Irmãs, Como Vivem os Bravos, Cangaço Novo e a série Maria e o Cangaço encontram-se entre as produções que ampliaram a presença de protagonistas femininas.
Em Como Vivem os Bravos, o universo ficcional apresenta uma transformação gradual na qual mulheres passam a comandar grupos de cangaceiros.
A série Maria e o Cangaço, lançada em 2025, deslocou o foco narrativo de Lampião para Maria Bonita e abordou maternidade, violência, perda de filhos e as condições enfrentadas pelas mulheres que integraram os bandos.
O nordestern contemporâneo passou a combinar o imaginário sertanejo com ficção científica, distopia, suspense, crime, motocicletas, armas modernas e estruturas narrativas do cinema de ação.
Reza a Lenda, dirigido por Homero Olivetto e lançado em 2016, substitui os cavalos por motocicletas e apresenta um bando armado perseguido por um poderoso proprietário local. A obra foi definida como um nordestern influenciado por Mad Max, Easy Rider e pelos épicos de Sergio Leone.
O filme preserva elementos tradicionais do gênero, como território sem lei, perseguição, coronelismo, bando armado, sequestro e busca por justiça, mas os reorganiza numa aventura contemporânea.
O Matador, de Marcelo Galvão, lançado em 2017, foi anunciado como um faroeste situado entre as décadas de 1910 e 1940. A narrativa acompanha Cabeleira, criado por um cangaceiro e transformado em pistoleiro no sertão pernambucano.
Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, lançado em 2019, combina western, ficção científica, ação e resistência comunitária. Embora não represente diretamente o cangaço histórico, utiliza códigos relacionados ao nordestern:
A Cinemateca Brasileira incluiu o filme na mostra Nordestern: bangue-bangue à brasileira e promoveu um debate dedicado à relação da obra com o gênero.
Sertânia, dirigido por Geraldo Sarno e produzido em 2019, utiliza preto e branco, delírio, memória, cordel, jagunços e cangaceiros. A obra foi associada a um nordestern metafísico e experimental e integrou a mostra da Cinemateca Brasileira.
O cineasta cearense Daniell Abrew desenvolveu uma trilogia de longas-metragens nordestern formada por:
O conjunto foi inicialmente divulgado como Trilogia dos Bravos e posteriormente como Trilogia do Silêncio, devido à ausência de diálogos nos filmes.
Onde Nascem os Bravos foi filmado em 2015, na Fazenda Pinhão, em Quixeramobim, e lançado em 2017. A narrativa acompanha o ex-soldado da volante Mumbaca e o cangaceiro Alfinete, cujos destinos se cruzam depois de uma tragédia.
Como Vivem os Bravos, lançado em 2020 e filmado em Palmácia, foi classificado pela Secretaria da Cultura do Ceará como um longa-metragem do gênero nordestern ou faroeste brasileiro. Cerca de 150 moradores participaram da produção, do elenco, da figuração e do apoio às filmagens.
A trilogia foi concebida como homenagem aos westerns de baixo orçamento e desenvolve uma realidade fantástica do cangaço, sem utilizar diretamente personagens históricos como Lampião, Maria Bonita, Corisco ou Dadá.
Quando Morrem os Bravos, filmado em Caridade, permanece em fase de finalização e sem data definitiva de lançamento.
As convenções do gênero foram incorporadas por séries televisivas e produções destinadas a plataformas digitais.
A primeira minissérie da televisão brasileira foi Lampião e Maria Bonita (1982) escrita por Aguinaldo Silva com Doc Comparato, exibida pela TV Globo.
O Cangaceiro do Futuro, série de comédia lançada em 2022, apresenta um homem contemporâneo transportado para 1927 e confundido com Lampião. A produção combina viagem no tempo, humor e elementos tradicionais do cangaço.
Cangaço Novo, lançada em 2023 pelo Prime Video, atualiza o imaginário dos bandos armados por meio de uma narrativa sobre assaltos a bancos, crime organizado, política local e violência no interior do Nordeste.
A imprensa classificou a série como uma transposição do nordestern para o streaming.
Os diretores Aly Muritiba e Fábio Mendonça declararam que a obra dialogava com matrizes europeias, hispano-americanas e com o nordestern brasileiro. Os trechos em preto e branco foram relacionados ao filme Sertânia.
A série substitui os antigos ataques de bandos a fazendas e povoados por invasões de cidades, explosões e roubos bancários, associando o cangaço histórico ao fenômeno criminal contemporâneo conhecido como novo cangaço.
Uma das críticas dirigidas ao ciclo clássico relaciona-se ao fato de diversas obras terem sido produzidas no Sudeste e filmadas em regiões que representavam artificialmente o sertão. A paisagem nordestina era, em alguns casos, reconstruída por meio de locações paulistas, figurinos estilizados e sotaques pouco relacionados às comunidades retratadas.
As produções realizadas a partir da década de 1990 ampliaram a participação de cineastas, técnicos, atores e produtoras do próprio Nordeste. Pernambuco, Ceará, Bahia, Paraíba e outros estados tornaram-se centros de criação de novas representações do sertão.
Essa transformação permitiu:
Baile Perfumado, Corisco & Dadá, Onde Nascem os Bravos, Como Vivem os Bravos, Bacurau, Sertânia e Cangaço Novo representam diferentes formas dessa descentralização.
O nordestern é objeto de debates relacionados à história, à identidade regional e à representação da violência.
Alguns filmes apresentam o cangaceiro como herói popular, justiceiro ou rebelde contra os coronéis. Outros enfatizam saques, assassinatos, sequestros e práticas violentas. A oscilação entre condenação e romantização acompanha a própria construção cultural do cangaço.
A caracterização de Lampião como bandido social é igualmente controversa. Estudos históricos observam que as relações entre bandos, coronéis, comerciantes, autoridades e populações locais eram complexas e não podem ser reduzidas a uma oposição simples entre ricos e pobres.
A repetição de seca, miséria, fanatismo, violência e atraso contribuiu para fixar uma imagem limitada do Nordeste. Ao mesmo tempo, cineastas utilizaram o sertão como espaço simbólico para discutir desigualdade, resistência, identidade nacional e conflito político.
O Cinema Novo transformou essas imagens em instrumento de crítica social. Produções contemporâneas passaram a combinar a paisagem sertaneja com tecnologia, cultura urbana, ficção científica, ação e problemas políticos atuais.
O nordestern não é necessariamente um gênero de reconstrução histórica. Filmes podem combinar personagens reais e fictícios, alterar cronologias, simplificar disputas políticas ou criar universos inteiramente imaginários.
A fidelidade histórica varia entre:
A filmografia a seguir reúne antecedentes, filmes centrais do ciclo clássico, comédias, documentários, obras do Cinema Novo, produções da retomada e releituras contemporâneas. A inclusão de uma obra não significa que todas as fontes a classifiquem estritamente como nordestern. Algumas pertencem ao campo mais amplo do cinema de cangaço ou dialogam com os códigos do gênero.
| Ano | Título | Direção | Formato ou vertente | Observações |
|---|---|---|---|---|
| 1925 | Filho sem Mãe | Tancredo Seabra | Filme silencioso | Primeiro filme de ficção conhecido a inserir cangaceiros numa narrativa; obra perdida |
| 1926-1927 | Sangue de Irmão | Jota Soares | Filme silencioso | Produção pernambucana perdida |
| 1930 | Lampião, a Fera do Nordeste | Guilherme Gáudio | Filme silencioso | Produção perdida |
| 1953 | O Cangaceiro | Lima Barreto | Nordestern clássico | Marco de consolidação do gênero; premiado em Cannes |
| 1955 | O Primo do Cangaceiro | Mario Brasini | Comédia | Paródia dos códigos do cangaço |
| 1960 | A Morte Comanda o Cangaço | Carlos Coimbra | Nordestern clássico | Narrativa de vingança contra cangaceiro protegido por coronel |
| 1961 | Os Três Cangaceiros | Víctor Lima | Comédia | Aproximação entre cangaço e chanchada |
| 1962 | Três Cabras de Lampião | Aurélio Teixeira | Aventura | Perseguição de cangaceiros por uma volante |
| 1962 | Nordeste Sangrento | Wilson Silva | Aventura | Produção do ciclo clássico |
| 1963 | Lampião, o Rei do Cangaço | Carlos Coimbra | Drama histórico e aventura | Releitura da trajetória de Lampião |
| 1963 | O Cabeleira | Milton Amaral | Aventura | Inspirado no banditismo rural nordestino |
| 1963 | O Lamparina | Glauco Mirko Laurelli | Comédia | Paródia protagonizada por Mazzaropi |
| 1964 | Deus e o Diabo na Terra do Sol | Glauber Rocha | Cinema Novo | Alegoria sobre messianismo, exploração, violência e cangaço |
| 1965 | Entre o Amor e o Cangaço | Aurélio Teixeira | Nordestern clássico | Combina romance e aventura |
| 1966 | Riacho do Sangue | Fernando de Barros | Aventura | Produção do ciclo clássico |
| 1967 | Cangaceiros de Lampião' | Carlos Coimbra | Aventura | Continuidade da produção de Coimbra sobre o cangaço |
| 1968 | Maria Bonita, Rainha do Cangaço | Miguel Borges | Drama histórico | Centraliza Maria Bonita |
| 1969 | Corisco, o Diabo Loiro | Carlos Coimbra | Drama e aventura | Narrativa sobre Corisco e Dadá |
| 1969 | O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro | Glauber Rocha | Cinema Novo | Retoma Antônio das Mortes e os conflitos entre cangaço, coronelismo e religiosidade. |
| 1969
Quelé do Pajeú |
Anselmo Duarte | Drama | Baseado em uma história do cineasta Lima Barreto. | |
| 1969 | O' Cangaceiro | Viva Cangaceiro | Spaghetti western | Filme italiano-espanhol gravado na Bahia, foi lançado no Brasil como Rebelião dos Brutos. |
| 1971 | Faustão | Eduardo Coutinho | Drama | Releitura sertaneja de Henrique IV, de Shakespeare |
| 1972 | Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro | William Cobbett | Drama histórico | Inspirado no cangaceiro Jesuíno Brilhante |
| 1974 | As Cangaceiras Eróticas | Roberto Mauro | Pornochanchada | Combina erotismo, aventura e iconografia cangaceira |
| 1977 | Kung Fu Contra as Bonecas | Adriano Stuart | Comédia de ação | Mistura cangaço, humor e artes marciais |
| 1978 | O Cangaceiro Trapalhão | Daniel Filho | Comédia | Paródia com Os Trapalhões |
| 1980 | O Cangaceiro do Diabo | Tião Valadares | Aventura | Produção tardia do ciclo popular |
| 1996 | Corisco & Dadá | Rosemberg Cariry | Retomada | Releitura da história de Corisco e Dadá |
| 1996 | Baile Perfumado | Paulo Caldas e Lírio Ferreira | Retomada | Dramatiza a trajetória de Benjamin Abrahão |
| 1997 | O Cangaceiro | Aníbal Massaini Neto | Releitura | Nova versão do filme de 1953 |
| 2006 | Canta Maria | Francisco Ramalho Jr. | Drama histórico | Incluído pela Cinemateca em mostra dedicada ao nordestern |
| 2014 | Aos Ventos que Virão | Hermano Penna | Drama, nordestern | |
| 2016 | Reza a Lenda | Homero Olivetto | Nordestern contemporâneo | Motocicletas substituem cavalos; mistura western e ação |
| 2017 | Onde Nascem os Bravos | Daniell Abrew | Nordestern contemporâneo | Primeiro capítulo da Trilogia dos Bravos ou Trilogia do Silêncio |
| 2017 | O Matador | Marcelo Galvão | Faroeste sertanejo | Produção da Netflix ambientada em Pernambuco |
| 2017 | Entre Irmãs | Breno Silveira | Drama de cangaço | Duas irmãs seguem destinos distintos, uma delas junto a um bando |
| 2019 | Bacurau | Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles | Nordestern em sentido amplo | Western distópico sobre resistência comunitária |
| 2019 | Sertânia | Geraldo Sarno | Nordestern experimental | Combina memória, delírio, cordel e cangaço |
| 2020 | Como Vivem os Bravos | Daniell Abrew | Nordestern contemporâneo | Segundo capítulo da Trilogia do Silêncio |
| Ano | Título | Direção ou autoria | Formato | Observações |
|---|---|---|---|---|
| 1936 | Lampeão | Benjamin Abrahão | Registro documental | Imagens de Lampião, Maria Bonita e integrantes dos bandos |
| 1964 | Memória do Cangaço | Paulo Gil Soares | Documentário | Utiliza arquivos, fotografias, cordel e depoimentos |
| 1975 | O Último Dia de Lampião | Maurice Capovilla | Docudrama | Reconstituição das últimas horas do bando |
| 1976 | A Mulher no Cangaço | Hermano Penna | Documentário e docudrama | Depoimentos de antigas cangaceiras |
| 1982 | A Musa do Cangaço | José Umberto Dias | Curta-metragem documental | Testemunho de Dadá |
| 2012 | Os Últimos Cangaceiros | Wolney Oliveira | Documentário | História de Moreno e Durvinha |
| Ano | Título | Criação ou direção | Vertente | Observações |
|---|---|---|---|---|
| 2022 | O Cangaceiro do Futuro | Halder Gomes e Vitor Brandt | Comédia | Viagem no tempo e paródia do cangaço |
| 2023 | Cangaço Novo | Mariana Bardan e Eduardo Melo | Nordestern contemporâneo | Atualiza o gênero por meio de assaltos a bancos e crime organizado |
| 2025 | Maria e o Cangaço | Sérgio Machado | Drama histórico | Centraliza Maria Bonita, a maternidade e a experiência feminina |
Em 1938, Euclides Santos publicara a tira Vida de Lampeão na revista A Noite Ilustrada, mas esse trabalho tinha caráter jornalístico e biográfico, configurando-se como um dos primeiros exemplos do chamado jornalismo em quadrinhos no Brasil. No mesmo ano, cangaceiros do bando de Lampião figuraram como vilões no álbum João Tymbira Em Redor do Brasil, de Francisco Acquarone, publicado como edição extraordinária do jornal Correio Universal.
A influência do western nos quadrinhos brasileiros se consolidou a partir da década de 1950, ao longo das décadas, autores como Gedeone Malagola, Edmundo Rodrigues, Eugênio Colonnese, Julio Shimamoto, Flavio Colin, Wilson Vieira Rodolfo Zalla e Pedro Mauro produziram histórias ambientadas tanto no Velho Oeste norte-americano quanto em cenários brasileiros, como o sertão e o cangaço. Diferentemente do cinema, as histórias em quadrinhos permitiam aos autores representar livremente paisagens e contextos estrangeiros, sem as limitações de produção e orçamento inerentes às filmagens.
Seguindo uma prática comum nos Estados Unidos, onde atores de filmes e seriados de faroeste frequentemente eram transformados em protagonistas de revistas em quadrinhos, Gedeone Malagola criou uma série de histórias estreladas pelo ator Milton Ribeiro. Ainda em 1953, no mesmo ano do lançamento de O Cangaceiro, o personagem estreou na revista Aventuras no Sertão, publicada pela Editora Júpiter e posteriormente na revista Vida Juvenil, da editora Vida Doméstica. Nos quadrinhos, Ribeiro era retratado como um cangaceiro heroico, em contraste com sua atuação no filme, em que interpretou o antagonista Galdino.
No mesmo ano, José Lanzellotti lançou Raimundo, o Cangaceiro, publicado inicialmente na revista Aliança Juvenil, da Editora Aliança, e posteriormente em título próprio pela Pan Juvenil. Tal qual, Mlton Ribeiro, o personagem figura entre os primeiros cangaceiros retratados como protagonista heroico nos quadrinhos brasileiros.
Ainda em 1953, surgiu no rádio Jerônimo, o Herói do Sertão, criado por Moysés Weltman. Na década seuinte, ao lado de Juvêncio, o justiceiro do sertão, o personagem consolidou um modelo de narrativa que transpunha para o sertão brasileiro as convenções do western norte-americano. Diferentemente do cangaceiro heroico retratado nas histórias de Milton Ribeiro, criadas por Gedeone Malagola, e de Raimundo, criado por José Lanzellotti, em Jerônimo e Juvêncio os cangaceiros eram representados predominantemente como antagonistas, desempenhando papel equivalente ao dos bandoleiros e fora da lei dos westerns tradicionais.

Ambos ganharam adaptações para os quadrinhos. Jerônimo foi publicado em 1957 pela Rio Gráfica Editora, com textos do criador Moysés Weltman e desenhos de Edmundo Rodrigues, Walmir Amaral, Juarez Odilon e Flavio Colin. No final da década de 1970, uma nova revista foi lançada pela Bloch Editores, com apenas três edições publicadas em formatinho, que republicaram as primeiras histórias desenhadas por Edmundo Rodrigues. É importante notar, porém, que a ambientação do personagem variou conforme o veículo de comunicação.Originário da fictícia Serro Bravo,
Jerônimo teve sua geografia reimaginada em cada mídia: enquanto nos quadrinhos as aventuras de Jerônimo se passavam no Nordeste brasileiro, nas duas telenovelas exibidas na TV, uma pela TV Tupi em 1972 e outra pelo SBT em 1984, Serro Bravo fica localizada no interior paulista. Uma matéria sobre a radionovela publicada na revista Radiolândia em 1956, anterior portanto ao lançamento do gibi, já observava que, o programa não deixava claro em que região do país se localizava a trama.
Juvêncio, um herói mascarado na linha do Zorro e o Cavaleiro Solitário, teve suas revistas lançadas entre 1968 e 1969 pela Editora Prelúdio, fundada na década de 1950 e originalmente dedicada à publicação de literatura de cordel. Na década de 1960, a editora passou a investir também em histórias em quadrinhos, recorrendo a artistas como Sérgio Lima e Eugênio Colonnese, que, além de ilustrarem revistas em quadrinhos, também produziram capas e ilustrações para seus folhetos de cordel. A Prelúdio já havia modernizado suas publicações ao substituir o tradicional formato de 11 × 16 cm por 13,5 × 18 cm e as capas em xilogravura por capas impressas em policromia. com desenhos de quadrinistas como Sérgio Lima e Eugênio Colonnese. Os quadrinhos de Juvêncio tiveram roteiros de Gedeone Malagola, R. F. Lucchetti, Helena Fonseca e Fred Jorge, e desenhos de Sérgio Lima, Rodolfo Zalla, Eugênio Colonnese e Mário Cafiero. Além de Juvêncio, a editora publicou adaptações de cordéis em quadrinhos, entre elas O Romance do Pavão Misterioso, de José Camelo de Melo Rezende e A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco, ambas com desenhos de Sérgio Lima. Em 1974, sua sucessora, a Luzeiro, publicou o folheto de cordel Jerônimo, o Grande Herói do Sertão, de Caetano Cosme da Silva.
Em 1963, Mauricio de Sousa, então responsável pelo suplemento infantojuvenil da Folha de S. Paulo, pediu a Julio Shimamoto que criasse uma tira de aventura para a publicação. O artista apresentou dois projetos: um ambientado no cangaço e outro centrado na figura do gaúcho, Optou por desenvolver O Gaúcho, decisão atribuída tanto à familiaridade que possuía com a cultura sul-rio-grandense quanto ao fato de que, em que, apesar de já existirem exceções, a representação predominante dos cangaceiros na cultura popular ainda era a de antagonistas, o que pode ter influenciado sua escolha. Shimamoto conhecia o Rio Grande do Sul em razão de pesquisas realizadas durante seu trabalho naCooperativa Editora de Trabalhos de Porto Alegre (CETPA), onde ilustrou A história do Rio Grande do Sul. Sua formação também foi influenciada pela literatura regionalista, especialmente pelas obras O Tempo e o Vento, Ana Terra, Um Certo Capitão Rodrigo, O Ataque (Érico Veríssimo); Os Guaxos (Barbosa Lessa), No Galpão (Darcy Azambuja); Contos Gauchescos, Casos do Romualdo, Lendas do Sul, Terra Gaúcha (João Simões Lopes Neto), Os Farrapos (Walter Spalding).
Embora tenha deixado de lado o projeto sobre o cangaço naquele momento, Shimamoto abordaria a temática em diferentes fases de sua carreira, produzindo posteriormente histórias ambientadas no sertão e inspiradas no universo dos cangaceiros.

Entre 1974 e 1978, Franco de Rosa] e Sebastião Seabra produziram Capitão Caatinga, uma tira publicado no extinto jornal Notícias Populares.
Nos anos 1950, Flávio Colin ilustrou histórias do Cavaleiro Negro, cowboy da Marvel, para a Rio Gráfica Editora. Em 1994, ele ilustrou a romance gráfico Mulher-Diaba no Rastro de Lampião, escrita pelo pernambucano Ataíde Braz e publicada pela Nova Sampa.
A presença do cangaço nos quadrinhos também se deu em publicações estrangeiras. Na série Zagor, faroeste publicada pela italiana Sergio Bonelli Editore, o personagem encontrou cangaceiros em duas edições: Zagor nº 452, de março de 2002, e Zagor nº 573, de abril de 2013. A mesma editora já havia abordado o tema em Mister No,embora não seja um western. a série é protagonizada por um piloto americano cujas histórias se passavam no Brasil;, o personagem encontrou cangaceiros nas edições 3, 4 e 5, publicadas em 1975.
Após trabalhar na Itália em títulos como La Furia del West, Davy Crockett, Pecos Bill e Il Piccolo Ranger, Wilson Vieira retornou ao Brasil e passou a roteirizar obras de western e cangaço. Entre seus trabalhos, destacam-se os álbuns Cangaceiros - Homens de Couro (2004), ilustrado por Eugênio Colonnese e Gringo – O Escolhido, ilustrado por Aloísio de Castro.
Em 2010, o quadrinista Danilo Beyruth lançou a graphic novel Bando de Dois, uma obra de forte influência do western spaghetti, sobretudo do cineasta Sergio Leone.
Em junho de 2018, o jornalista Francisco Ucha lançou uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse para publicar o álbum O Judoka por FHAF com as cinco histórias do herói O Judoka da EBAL produzidas pelo veterano Floriano Hermeto de Almeida Filho nos anos 70, além de uma entrevista com o autor, um panorama histórico e cultural da época e 15 páginas inéditas, incluindo seis páginas do Judoka, uma histórias do Lone Ranger e uma sobre o cangaço ue seriam publicadas pela editora. Em novembro do mesmo ano, o livro foi publicado pela Avec Editora. Anos antes, em 1954, o haitiano André LeBlanc adaptou o romance Os Cangaceiros de José Lins do Rego para a revista Edição Maravilhosa, também da EBAL.
Em março de 2025, a editora Trem Fantasma lançou no Catarse a graphic novel A Cangaceira, baseada em um roteiro de filme de Luiz Chiaradia, Mans Reimer e Matheus Ronn, que ganhou uma nova versão adaptada por Chiaradia para os quadrinhos. A obra conta com a quadrinização de Pedro Mauro e seu irmão Jairo Mauro. Esta é a primeira HQ sobre cangaço de Pedro Mauro, quadrinista desde os anos 1970, que já publicou histórias de western tanto no Brasil quanto na Itália, inclusive pela já mencionada editora Bonelli.