Com a expansão da FTX, tornou-se bilionário e passou a financiar campanhas políticas e projetos de filantropia. Defendia o altruísmo eficaz e dizia buscar uma fortuna que pudesse doar a causas escolhidas por sua capacidade de ajudar outras pessoas.
Em novembro de 2022, a FTX não conseguiu devolver o dinheiro dos clientes durante uma corrida de saques e pediu falência. A corretora havia repassado depósitos à Alameda Research, que usou esses recursos em investimentos e pagamentos. Bankman-Fried foi preso nas Bahamas em dezembro daquele ano e extraditado para os Estados Unidos.
Em novembro de 2023, um júri o declarou culpado de sete acusações de fraude e conspiração. Em março de 2024, recebeu uma pena de 25 anos de prisão, mantida pelo tribunal de apelações em junho de 2026.
Seu irmão mais novo, Gabriel, nascido em 1995, trabalhou como assessor parlamentar e operador financeiro em Wall Street antes de dirigir a organização sem fins lucrativos Guarding Against Pandemics e seu comitê de ação política. Investigadores federais passaram a examinar a origem do dinheiro recebido pela organização. As estimativas apresentadas por procuradores e em processos de falência situavam as doações de Sam entre US$ 17,5 milhões e US$ 35 milhões, dos quais pelo menos US$ 10 milhões vieram de contas da Alameda Research que reuniam dinheiro de clientes e outros recursos.
A nova administração da FTX processou os pais de Bankman-Fried em setembro de 2023 para recuperar dinheiro e bens que teriam recebido indevidamente. A ação cobrava a devolução de um presente de US$ 10 milhões e de uma casa nas Bahamas comprada por US$ 16,4 milhões, além de questionar mais de US$ 5,5 milhões em doações à Universidade Stanford. O casal negou as acusações. Em 24 de fevereiro de 2025, as partes concordaram em encerrar a ação, sem impedir que ela fosse apresentada novamente.
Em 2014, formou-se em física pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, com uma formação complementar em matemática. Durante a graduação, morou na Epsilon Theta, uma residência estudantil compartilhada por homens e mulheres.
Carreira
No verão de 2013, Bankman-Fried estagiou na Jane Street Capital, uma empresa que negociava ativos com capital próprio, onde comprava e vendia fundos negociados em bolsa de outros países. Depois de se formar no MIT, voltou à empresa como funcionário em tempo integral. Em setembro de 2017, deixou a Jane Street e mudou-se para Berkeley, na Califórnia. Entre outubro e novembro daquele ano, trabalhou como diretor de desenvolvimento no Centro para o Altruísmo Eficaz.
Em novembro de 2017, Bankman-Fried e Tara Mac Aulay, que havia trabalhado no Centro para o Altruísmo Eficaz, fundaram a empresa de negociação quantitativa Alameda Research. Nos primeiros meses, a empresa recebeu financiamento do programador bilionário Jaan Tallinn e do investidor Luke Ding. Em 2021, Bankman-Fried possuía cerca de 90% da Alameda. Em janeiro de 2018, organizou operações de arbitragem que movimentavam até US$ 25 milhões por dia, aproveitando a diferença entre o preço mais alto do bitcoin no Japão e o preço nos Estados Unidos. No fim de 2018, depois de participar de uma conferência sobre criptomoedas em Macau, mudou-se para Hong Kong.
FTX
Bankman-Fried fundou a FTX, uma corretora de derivativos de criptomoedas, em abril de 2019. A plataforma começou a operar no mês seguinte. O grupo reuniu mais de 130 empresas em países diferentes. Bankman-Fried recebeu o apelido de "rei das criptomoedas" e chegou ao 41.º lugar entre os americanos mais ricos da lista Forbes 400. Em setembro de 2021, ele e a direção da empresa se mudaram de Hong Kong para as Bahamas. Seu nome integrou a lista Forbes 30 Under 30 de 2021. Em 2023, a revista o incluiu em sua "Hall of Shame", uma lista de dez escolhas anteriores que afirmou lamentar.
Em 8 de dezembro de 2021, Bankman-Fried depôs perante a Comissão de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, junto de outros executivos do setor, sobre a regulamentação das criptomoedas. Em 12 de maio de 2022, tornou-se pública a compra de 7,6% das ações da Robinhood Markets pela Emergent Fidelity Technologies Ltd., empresa da qual ele era o acionista majoritário. Em uma declaração sob juramento apresentada em novembro de 2022 à Suprema Corte do Caribe Oriental, antes de sua prisão, Bankman-Fried afirmou que ele e Gary Wang, cofundador da FTX, haviam tomado emprestados mais de US$ 546 milhões da Alameda Research para financiar a compra dessas ações.
Em setembro de 2022, vieram a público propostas feitas por assessores de Bankman-Fried para que ele ajudasse a financiar a compra do Twitter por Elon Musk. Nas mensagens divulgadas no processo entre Musk e o Twitter, o banqueiro Michael Grimes afirmou, em 25 de abril daquele ano, que Bankman-Fried poderia investir até US$ 5 bilhões. Musk afirmou que Bankman-Fried não investiu na compra concluída. Por meio de seus negócios, Bankman-Fried investiu US$ 500 milhões na Anthropic e mais de US$ 500 milhões em empresas de capital de risco. Desse valor, US$ 200 milhões foram para a Sequoia Capital, que também era investidora da FTX. A Sequoia publicou um perfil elogioso de Bankman-Fried e o retirou de seu site depois que a FTX entrou em crise.
Em julho de 2023, uma ação da nova administração da FTX contra Bankman-Fried e outros ex-executivos tornou pública uma proposta para comprar Nauru e construir um abrigo para uma catástrofe mundial. A acusação citava um memorando enviado entre Gabriel Bankman-Fried e um funcionário da FTX Foundation, dentro de projetos que qualificou como "equivocados e por vezes distópicos".
Ele integrou a Giving What We Can e doava cerca de metade de seu salário na Jane Street para instituições de caridade. Em junho de 2022, assinou o Giving Pledge. Seu nome foi retirado do site da iniciativa em dezembro daquele ano, depois de sua prisão. Bankman-Fried criou o Future Fund, cuja equipe tinha entre seus integrantes o filósofo escocês William MacAskill, um dos fundadores do movimento de altruísmo eficaz. Todos os membros da equipe renunciaram depois da quebra da FTX. Em 1.º de setembro de 2022, o fundo havia anunciado compromissos de cerca de US$ 160 milhões para 110 organizações sem fins lucrativos. A FTX também havia fechado um contrato de US$ 135 milhões, previsto para 19 anos, pelos direitos de dar nome à arena de basquete do Miami Heat. O custo de um único anúncio da empresa no Super Bowl foi estimado em US$ 30 milhões.
Bankman-Fried justificou a transferência da FTX para as Bahamas pelas regras favoráveis do país às empresas de criptomoedas e chegou a discutir publicamente a possibilidade de pagar sua dívida nacional de US$ 9 bilhões. Em novembro de 2022, conversou por mensagens privadas no Twitter com Kelsey Piper, do site Vox. Disse que a defesa da regulamentação feita por ele e pela empresa não era sincera, mas "só relações públicas", e afirmou que os órgãos reguladores pioravam as coisas e não protegiam os clientes. Ao falar de suas declarações sobre ética, concordou que eram "quase sempre uma fachada". Para ele, os ocidentais que se apresentavam como woke participavam de um jogo tolo, repetindo as palavras esperadas pelo grupo para obter aprovação. Depois, afirmou que suas críticas se dirigiam aos critérios ambientais, sociais e de governança, à responsabilidade social empresarial e ao greenwashing. Excluiu delas o altruísmo eficaz, os mosquiteiros contra a malária e a prevenção de pandemias.
Falência da FTX
Em novembro de 2022, o diretor executivo da Binance, Changpeng Zhao, anunciou no Twitter que venderia os FTT que a empresa possuía, o token emitido pela FTX. Os pedidos de saque aumentaram e a corretora não conseguiu atendê-los, em um movimento semelhante a uma corrida bancária. A Binance havia recebido os tokens ao vender sua participação na FTX, em 2021. Em novembro de 2022, esse saldo de FTT valia cerca de US$ 529 milhões. O anúncio de Zhao veio depois de uma reportagem do CoinDesk sobre a presença de FTT entre os ativos da Alameda Research. A Bloomberg e o TechCrunch alertaram que uma venda da Binance poderia derrubar o preço do token, cujo volume de negociação era baixo. O anúncio e as discussões entre Zhao e Bankman-Fried no Twitter foram acompanhados por quedas no FTT e em outras criptomoedas. Pouco antes, Zhao havia criticado a atuação de Bankman-Fried junto a legisladores e reguladores.
Em 8 de novembro, Zhao anunciou um acordo sem compromisso obrigatório para a compra da FTX pela Binance, diante da crise de liquidez da corretora. Afirmou que a Binance examinaria as contas da empresa e que as corretoras de criptomoedas deveriam evitar aceitar seus próprios tokens como garantia. Também disse esperar grandes oscilações no preço do FTT nos dias seguintes. Naquele dia, o token perdeu 80% de seu valor. Em 9 de novembro, a Binance desistiu da compra. A empresa justificou a decisão com as notícias sobre o uso indevido de dinheiro de clientes e as investigações da FTX. Durante a crise, Bankman-Fried deixou de ser bilionário no Bloomberg Billionaires Index. Em 9 de novembro, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos e a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities investigavam a FTX e suas relações com os outros negócios de Bankman-Fried.
Em 11 de novembro de 2022, a FTX, a Alameda Research e cerca de 130 empresas do grupo entraram com pedidos de falência. Fontes anônimas ouvidas pela Reuters afirmaram que, meses antes, Bankman-Fried havia transferido pelo menos US$ 4 bilhões da FTX para a Alameda, sem informar outros executivos nem o público. O dinheiro incluía depósitos de clientes e teria como garantia tokens FTT e ações da Robinhood. Uma pessoa ouvida pelo Wall Street Journal afirmou que Bankman-Fried havia comunicado a investidores uma dívida de cerca de US$ 10 bilhões da Alameda com a FTX, coberta com depósitos de clientes. A corretora tinha cerca de US$ 16 bilhões desses depósitos. Fontes anônimas também disseram ao jornal que Caroline Ellison, diretora executiva da Alameda, havia informado aos funcionários que Bankman-Fried sabia dos empréstimos de dinheiro de clientes da FTX para pagar as dívidas da Alameda.
Bankman-Fried renunciou ao cargo de diretor executivo da FTX em 11 de novembro de 2022. Seu substituto foi John J. Ray III, que, entre 2004 e 2009, havia dirigido a recuperação de ativos da Enron para seus credores, com ações contra bancos no processo de falência da empresa. Os pedidos de falência da FTX e das empresas do grupo foram apresentados no estado de Delaware naquele mesmo dia.
Em 12 de novembro, um dia depois do pedido de falência, Bankman-Fried foi interrogado pela Polícia Real das Bahamas. Em uma declaração sob juramento apresentada ao tribunal em 17 de novembro, Ray informou que os dados da empresa apontavam um empréstimo de US$ 1 bilhão da Alameda Research a Bankman-Fried. Ray disse que nunca havia encontrado, em sua carreira, tamanha ausência de controles internos e de informações financeiras confiáveis.
No depoimento que preparou para apresentar em dezembro de 2022 à Comissão de Serviços Financeiros da Câmara, Bankman-Fried afirmou que a FTX.US tinha recursos para pagar suas obrigações. Acusou Ryne Miller, diretor jurídico da FTX.US e ex-sócio do escritório de advocaciaSullivan & Cromwell, de pressioná-lo a pedir falência. Também alegou que os administradores e os advogados do processo repetiam procedimentos usados na falência da Enron para cobrar honorários excessivos. Sua prisão o impediu de comparecer à audiência, na qual John J. Ray III depôs.
Depois de passar cerca de dez dias na prisão de Fox Hill, em Nassau, Bankman-Fried concordou com a extradição. Nos Estados Unidos, recebeu liberdade provisória mediante uma garantia de US$ 250 milhões, valor que a acusação apresentou como o maior já fixado para uma soltura antes do julgamento no país. Uma das condições exigia que ele morasse na casa dos pais, na Califórnia.
Em 3 de janeiro de 2023, Bankman-Fried declarou-se inocente das acusações. Em 1.º de fevereiro, o juiz Lewis Kaplan endureceu as condições da liberdade provisória e o proibiu de procurar funcionários e ex-funcionários da FTX sem a presença de advogados. Kaplan entendeu que uma mensagem enviada pelo réu a uma possível testemunha criava um risco concreto de contato indevido com outras pessoas que poderiam depor. Em uma audiência posterior, questionou se Bankman-Fried deveria aguardar o julgamento preso.
Em 23 de fevereiro de 2023, Bankman-Fried passou a responder a quatro novas acusações criminais e detalhou mais de 300 doações políticas ilegais. Em março, outra denúncia acusou Bankman-Fried e outros envolvidos de ordenar e realizar a transferência de pelo menos US$ 40 milhões em criptomoedas a autoridades chinesas para desbloquear contas da Alameda Research. Em julho, os procuradores retiraram uma acusação de violação das regras de financiamento eleitoral por causa das condições do tratado de extradição com as Bahamas. Uma nova denúncia, apresentada em agosto, afirmou que ele havia usado US$ 100 milhões de clientes da FTX em doações para as eleições norte-americanas de 2022. O uso desse dinheiro passou a integrar as acusações de fraude, sem restabelecer uma acusação autônoma de financiamento eleitoral.
Julgamento
O julgamento começou em 3 de outubro de 2023, no Fórum Federal Daniel Patrick Moynihan, em Manhattan, sob a presidência de Lewis Kaplan. Bankman-Fried respondia a sete acusações de fraude e conspiração. O The Guardian apresentou a disputa entre acusação e defesa como a escolha entre um mentor de crimes com criptomoedas e um "nerd da matemática" sem sorte. Os procuradores afirmaram que ele havia desviado bilhões de dólares de milhares de clientes da FTX para a Alameda, de onde o dinheiro saiu para investimentos, pagamento de empréstimos, compra de imóveis e doações políticas. A defesa sustentou que ele era um jovem empresário que havia assumido mais responsabilidades do que conseguia administrar. Seus advogados disseram que trabalhava de 12 a 22 horas por dia, não bebia nem frequentava festas e queria financiar a prevenção de pandemias. Atribuíram a falência aos erros dele e de uma equipe sem experiência, à queda do mercado e às ações de terceiros contra as empresas. Negaram que houvesse intenção de fraudar.
Mais de uma dezena de testemunhas depôs pela acusação. Entre elas estavam Caroline Ellison, Gary Wang e Nishad Singh, ex-dirigentes que haviam firmado acordos com os procuradores. Wang afirmou que alterações no código da plataforma permitiam à Alameda retirar até US$ 65 bilhões de contas de clientes da FTX e admitiu ter mentido ao público sobre esse acesso. O valor era o limite permitido pelo sistema, não a quantia efetivamente retirada. A defesa se apoiou sobretudo no depoimento do próprio Bankman-Fried, com depoimentos mais breves de um especialista em gestão de riscos e de um advogado das Bahamas.
Fórum Federal Daniel Patrick Moynihan
A linha de crédito que a Alameda mantinha na FTX era uma das formas de acesso aos recursos de clientes da corretora. Esse tipo de empréstimo facilitava suas operações como formadora de mercado, e clientes da FTX que negociavam com margem podiam tomar recursos emprestados de outros clientes e decidir como usá-los. A linha concedida à Alameda era, porém, "praticamente ilimitada", e a empresa não precisava oferecer os bens exigidos de outros clientes como garantia. Engenheiros da FTX afirmaram que haviam criado essas permissões a pedido de Bankman-Fried. Ele declarou que havia solicitado apenas uma forma de impedir a liquidação indevida de posições. Disse não conhecer a solução adotada pelos engenheiros, embora soubesse que a Alameda havia tomado cerca de US$ 2 bilhões emprestados dessa maneira.
Antes de ter uma conta bancária, a FTX usava a Alameda e outros processadores de pagamentos para receber depósitos de moeda fiduciária feitos por seus clientes. Bankman-Fried afirmou que acreditava que esse dinheiro ficava guardado em uma conta bancária ou era transferido à FTX. Disse ter presumido que qualquer gasto da Alameda com esses recursos seria lançado como empréstimo na conta principal da empresa dentro da corretora. Em seu depoimento, afirmou que só em outubro ou novembro de 2022 confirmou que essa conta não acompanhava tais operações e que a Alameda havia retirado US$ 8 bilhões. Outros dirigentes admitiram que ele poderia não conhecer exatamente o funcionamento desses lançamentos. A dívida era acompanhada pelo sistema da FTX, mas não era exibida no painel do administrador. Ressaltaram, porém, que Bankman-Fried tinha a última palavra nas duas empresas.
Em 7 de novembro de 2022, quando os clientes tentavam retirar seus depósitos, Bankman-Fried publicou no Twitter que a FTX e seus ativos estavam bem. Durante o julgamento, Wang afirmou que essa mensagem era falsa. A defesa o confrontou com uma declaração anterior aos procuradores, na qual ele havia chamado a mensagem de verdadeira, embora enganosa, porque se referia à solvência da empresa e não à sua capacidade de atender aos saques. Bankman-Fried também afirmou que nunca havia dito que a Alameda seguia as mesmas regras dos demais clientes em todos os aspectos. Disse ter negado apenas que ela praticasse front-running, antecipando-se às ordens de outros clientes. Declarou ainda que havia lido apenas por alto os balanços "desonestos" enviados por Ellison aos credores. A defesa tentou comprovar que ela tomava decisões por conta própria e citou sua recusa em seguir a recomendação de Bankman-Fried de fazer operações de proteção contra uma queda do mercado.
Veredito e sentença
Em 2 de novembro de 2023, o júri declarou Bankman-Fried culpado das sete acusações, e Kaplan marcou a audiência de sentença para 28 de março de 2024. Antes da sentença, especialistas em direito penal discutiram quanto tempo de prisão ele poderia receber. Ex-procuradores federais ouvidos pela Bloomberg Law previram uma pena de pelo menos 20 anos. As diretrizes federais poderiam levar a uma pena equivalente à prisão perpétua, mas Kaplan havia criticado essas recomendações e aplicado penas mais brandas em outros processos. Na data marcada, o juiz fixou a pena em 25 anos de prisão. As regras da lei federal First Step Act permitem que presos elegíveis obtenham redução do tempo passado na prisão por boa conduta e por participação em programas de reabilitação. O tempo efetivo depende do cumprimento dessas condições e dos cálculos da administração penitenciária. A sentença também determinou o confisco de US$ 11,02 bilhões pelos crimes contra clientes e investidores. Bankman-Fried contratou Sam Mangel, um consultor que orienta pessoas prestes a entrar na prisão, para ajudá-lo a se preparar para o encarceramento.
Um segundo julgamento, previsto para o início de março de 2024, abrangeria cinco acusações que envolviam fraude bancária e suborno. Os procuradores haviam apresentado essas acusações depois da extradição de Bankman-Fried, em dezembro de 2022. A defesa pediu que fossem retiradas por não integrarem o acordo com as autoridades das Bahamas ou, se fossem mantidas, que fossem julgadas separadamente.
Em 29 de dezembro de 2023, os procuradores comunicaram que não levariam adiante o segundo julgamento. Afirmaram que o interesse público em concluir o processo rapidamente, inclusive para permitir o confisco de bens e a compensação das vítimas, pesava mais que os benefícios de um novo julgamento. Acrescentaram que novas condenações não alterariam a faixa de pena recomendada pelas diretrizes federais.
Recursos
Em 11 de abril de 2024, Bankman-Fried recorreu da condenação e da pena de 25 anos. A defesa alegou que Kaplan havia cometido erros que prejudicaram seu direito de defesa e impediram um julgamento justo. A tramitação dos recursos se estendeu pelos anos seguintes. Em 13 de setembro, seus advogados pediram um novo julgamento e acusaram Kaplan de parcialidade. Disseram que ele havia ridicularizado a defesa e criticado suas perguntas diante do júri. Afirmaram também que a oferta de refeições e transporte no primeiro dia de deliberação havia pressionado os jurados a decidir depressa.
Em 4 de novembro de 2025, o tribunal federal de apelações de Nova York ouviu a defesa sustentar que Bankman-Fried havia sido "presumido culpado" durante o julgamento. Em 12 de junho de 2026, o Tribunal de Apelações dos Estados Unidos para o Segundo Circuito manteve a condenação, a pena de 25 anos e a ordem de confisco de cerca de US$ 11 bilhões.
Em 10 de setembro de 2026, Bankman-Fried pediu à Suprema Corte dos Estados Unidos que examinasse o caso e determinasse um novo julgamento. Alegou que Kaplan havia restringido indevidamente provas sobre a capacidade da FTX e da Alameda de devolver o dinheiro dos clientes. Contestou ainda o confisco com base na Oitava Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que proíbe multas excessivas. Em 30 de outubro, o governo norte-americano pediu mais prazo para responder. A Suprema Corte ainda não havia decidido se examinaria o recurso.
Cumprimento da pena e pedido de perdão
Até 11 de agosto de 2023, Bankman-Fried morava com os pais e seguia as restrições impostas para sua liberdade provisória. Em 26 de julho, os procuradores o acusaram de interferir em testemunhas ao entregar a um jornalista escritos pessoais de Caroline Ellison, ex-diretora da Alameda Research. Em 11 de agosto, Kaplan concluiu que havia razões para acreditar que essa interferência ocorrera e revogou a liberdade provisória. Bankman-Fried saiu algemado do tribunal e ficou em prisão preventiva no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn.
Em 22 de agosto de 2023, seus advogados reclamaram que a prisão não lhe oferecia uma dieta vegana e que seus medicamentos para transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e depressão estavam acabando. A defesa afirmou que ele não conseguiria se preparar para o julgamento alimentando-se de pão, água e pasta de amendoim. Em novembro, ele já recebia alimentação vegetariana e medicamentos. Na prisão, comprava pacotes de cavala na cantina e os trocava por serviços de outros presos, como cortes de cabelo, na chamada "economia da cavala". Seu número no sistema penitenciário federal é 37244-510. Depois da sentença, pediu para permanecer no Brooklyn enquanto recorria. No fim de setembro de 2024, dividia uma cela coletiva com Sean Combs.
Em março de 2025, Bankman-Fried deu uma entrevista a Tucker Carlson na prisão e mencionou suas doações a causas republicanas, em uma tentativa de obter o perdão do presidente Donald Trump. Seus pais procuraram advogados com acesso ao presidente para explorar essa possibilidade de clemência. Bankman-Fried atribuiu a condenação à "máquina de guerra jurídica" do governo Biden. A entrevista não havia sido autorizada pela prisão, e ele foi colocado em isolamento. Depois de passar por outras unidades, chegou em abril de 2025 à Instituição Correcional Federal de Terminal Island, uma prisão federal de baixa segurança em Los Angeles. Em 30 de outubro de 2026, cumpria a pena na Instituição Correcional Federal de Lompoc I, na Califórnia.
Publicações em sua conta no X elogiaram as políticas do governo Trump para os preços de medicamentos, a economia, as criptomoedas e outros setores. As mensagens também criticaram o governo Biden e acompanharam seus esforços para conseguir o perdão presidencial.
Bankman-Fried fez doações aos partidos Democrata e Republicano e afirmou ter destinado aproximadamente a mesma quantia a cada um. Entre os beneficiários democratas estava o Protect Our Future, um comitê de ação política que recebeu US$ 27 milhões. Nas doações divulgadas publicamente para o ciclo de 2021–2022, os valores destinados a candidatos passavam de US$ 990 mil, enquanto outros US$ 38,8 milhões foram para grupos que faziam gastos eleitorais independentes.
As doações declaradas a campanhas do Partido Republicano no ciclo de 2021–2022 somavam US$ 262,2 mil. Entre os destinatários estavam os senadores Susan Collins, do Maine, Mitt Romney, de Utah, Lisa Murkowski, do Alasca, e Ben Sasse, de Nebraska. O jornalista Matthew Kassel observou que Bankman-Fried doava com frequência a políticos que defendiam boas relações entre os Estados Unidos e Israel, mas não pôde determinar se isso era coincidência ou se havia algum interesse pessoal dele na política para o Oriente Médio. Bankman-Fried afirmou que também enviara dinheiro aos republicanos por canais de dark money, sem divulgação pública dos doadores. Disse que preferira manter essas doações em segredo porque a imprensa era, em suas palavras, "superliberal".
Eleições de meio de mandato de 2022
Nas eleições de 2022 nos Estados Unidos, Bankman-Fried foi o segundo maior doador individual para causas democratas, atrás de George Soros, com cerca de US$ 39,8 milhões. Desse total, US$ 27 milhões foram para o Protect Our Future. Ele também doou ao The Next 50 PAC, ao Guarding Against Pandemics PAC e ao comitê de liderança política do deputado Brendan Boyle. Em fevereiro de 2022, afirmou que as doações não tinham o objetivo de favorecer suas propostas para o setor de criptomoedas, embora a FTX já distribuísse sugestões a parlamentares e outros responsáveis pela elaboração de políticas públicas. Defendia que a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities assumisse mais responsabilidades na regulação do setor. Para David Yaffe-Bellany, do The New York Times, a agência favorecia regras menos rigorosas do que as de outros órgãos, como a Comissão de Valores Mobiliários.
Bankman-Fried pressionou o Congresso pela aprovação do Digital Commodities Consumer Protection Act, projeto de lei conhecido pela sigla DCCPA. Os analistas Gautam Chhugani e Manas Agrawal, da Bernstein, criticaram a pressa em aprovar uma proposta que, na avaliação deles, favoreceria a FTX e prejudicaria seus concorrentes em finanças descentralizadas. Em maio de 2022, disse que pretendia gastar mais de US$ 100 milhões nas eleições presidenciais de 2024, com um limite aproximado de US$ 1 bilhão. Em outubro, recuou e chamou a própria declaração de "idiota". No livro Going Infinite, Michael Lewis afirmou que Bankman-Fried chegou a investigar se seria legal pagar a Donald Trump para que não disputasse a Presidência em 2024. Lewis contou que Bankman-Fried recebeu uma estimativa de US$ 5 bilhões, sem ter certeza de que ela partira de Trump.
Depois da quebra da FTX, políticos que haviam recebido doações de Bankman-Fried e de outros executivos da empresa destinaram quantias equivalentes a instituições beneficentes. Entre eles estavam a senadora Kirsten Gillibrand e os deputados Chuy García e Kevin Hern. Um porta-voz da campanha de Beto O'Rourke ao governo do Texas afirmou que a equipe havia recebido US$ 1 milhão de Bankman-Fried em outubro de 2022, mas devolvera o dinheiro no início de novembro, antes da eleição.
Prevenção de pandemias
Bankman-Fried e seu irmão mais novo, Gabriel, financiaram iniciativas de prevenção de pandemias. Entre os destinatários estava o comitê de ação política Guarding Against Pandemics, fundado por Gabriel. Em 16 de maio de 2022, a FTX Foundation anunciou compromissos de financiamento e de compras superiores a US$ 18 milhões para ampliar o TOGETHER Trial, um consórcio internacional de pesquisa que testava medicamentos existentes contra doenças como a COVID-19.
Em 20 de julho de 2023, a FTX Trading Ltd., a Alameda Research LLC, a Alameda Research Ltd., a North Dimension Inc., a Cottonwood Grove Ltd. e a West Realm Shires, Inc. ajuizaram uma ação contra Bankman-Fried e três ex-executivos da FTX e da Alameda para recuperar centenas de milhões de dólares que teriam sido desviados. A ação alegava que ele havia direcionado pelo menos US$ 35 milhões à Guarding Against Pandemics entre outubro de 2021 e maio de 2022, em sua maior parte provenientes de contas da Alameda que misturavam dinheiro de clientes e outros recursos. Os autores acusavam a organização e seu comitê de ação política de financiar projetos pessoais dos irmãos que "nada fizeram para prevenir pandemias".
Recuperação das doações
Em dezembro de 2022, a nova administração da FTX começou a cobrar a devolução de pagamentos feitos a políticos, celebridades e instituições beneficentes, como parte do processo de falência. A empresa anunciou que pediria a restituição com juros a partir da abertura de cada ação. Alex Hern, do The Guardian, avaliou que essas cobranças estariam entre as etapas mais simples da recuperação dos valores. A legislação dos Estados Unidos permite contestar pagamentos preferenciais feitos nos 90 dias anteriores ao pedido de falência quando, entre outras condições, um credor recebe mais do que receberia na liquidação. Se a transferência for anulada, a administração da falência pode buscar a devolução do bem ou do valor transferido, respeitadas as exceções legais.
Em abril de 2023, a FTX havia recuperado US$ 7,3 bilhões em dinheiro e outros ativos líquidos. As estimativas do déficit nas contas dos clientes chegavam a US$ 8 bilhões. Um interessado em adquirir os investimentos restantes, cujo nome não foi divulgado, estimou seu valor em pelo menos US$ 2 bilhões. O colunista Matt Levine, da Bloomberg, advertiu que recuperar dinheiro suficiente para pagar os clientes não constituía uma defesa contra a acusação de fraude. Em outubro de 2023, a FTX e suas empresas devedoras anunciaram uma proposta de acordo sobre a propriedade dos ativos dos clientes, que ainda seria submetida ao tribunal de falências. Somadas as parcelas prioritárias e não prioritárias dos créditos, a estimativa era que os clientes da FTX.com e da FTX.US recebessem, em conjunto, mais de 90% do valor disponível para distribuição no mundo.
Em 7 de outubro de 2024, o tribunal aprovou o plano de reorganização da FTX, que previa o pagamento integral, com juros, dos créditos reconhecidos de credores não governamentais. Os primeiros pagamentos começaram em 18 de fevereiro de 2025 para os credores da categoria de créditos menores que haviam cumprido as exigências do plano.
Vida pessoal
Bankman-Fried cresceu em uma família judaica e é vegano. Antes da falência da FTX, morava nas Bahamas em uma cobertura de cinco quartos, comprada por Ryan Salame, codiretor executivo da subsidiária bahamense da FTX. Ele dividia a residência com colegas, em um grupo de cerca de dez pessoas. Depois da quebra, o imóvel foi anunciado por quase US$ 40 milhões.
Bankman-Fried namorou Caroline Ellison, diretora executiva da Alameda Research, por cerca de seis meses. A relação terminou em 15 de abril de 2022. Ao depor contra ele em outubro de 2023, Ellison afirmou que o cabelo e as roupas faziam parte de uma imagem planejada. Disse que ele acreditava ter recebido bônus maiores na Jane Street por causa do cabelo e que via a própria aparência como parte da imagem pública da FTX. No julgamento, Bankman-Fried se apresentou de terno cinza e com o cabelo cortado.
Durante uma chamada com a Sequoia Capital para conseguir um investimento, Bankman-Fried jogava League of Legends enquanto explicava seu plano de transformar a FTX em um "superaplicativo". Os investidores disseram ter ficado "incrivelmente impressionados", e um deles disse que a conversa o deixara de queixo caído. A Sequoia investiu mais de US$ 200 milhões na FTX. O Financial Times avaliou depois que as taxas de vitória de Bankman-Fried no jogo iam de medianas a ruins.
Em uma carta de dezembro de 2022, perto da data da prisão, os pais de Bankman-Fried lhe escreveram: "Você é inocente". Em mensagem à revista The New Yorker, Barbara Fried chamou as ações da promotoria e da equipe que administrava a falência de "macartistas" e de uma "busca implacável pela destruição total", favorecida, em sua avaliação, por "um público crédulo". Depois da prisão preventiva, os pais passaram a se revezar em viagens da Califórnia ao Brooklyn, às terças-feiras, para visitá-lo enquanto aguardava o julgamento. Em fevereiro de 2024, Barbara escreveu ao juiz pedindo uma pena mais branda. Alegou que seu filho correria "perigo extremo" na prisão por ter dificuldade para reagir de maneira adequada a sinais sociais.
Ver também
FTX, corretora fundada e dirigida por Bankman-Fried
Caroline Ellison, ex-diretora da Alameda Research que depôs no julgamento
Changpeng Zhao, fundador da Binance, que negociou a compra da FTX durante a crise de 2022
Altruísmo eficaz, movimento ao qual Bankman-Fried destinou parte de suas doações
Escândalo da Enron, caso de fraude empresarial citado nas discussões sobre a falência da FTX
Notas
↑A Encyclopædia Britannica e o perfil de Roger Parloff publicado no Yahoo Finance dão a data de 6 de março de 1992.
↑Nas universidades dos Estados Unidos, essa formação complementar recebe o nome de minor. O aluno cursa um conjunto de disciplinas de outra área, além da área principal de seu diploma.
↑Um compromisso de financiamento é uma promessa de destinar dinheiro a um projeto. O anúncio, por si só, não significa que todo o valor já tenha sido transferido.
↑Uma empresa é solvente quando o valor de seus bens e direitos é suficiente para cobrir suas dívidas. Isso não significa que todo esse patrimônio esteja disponível em dinheiro para pagamentos imediatos.
↑A garantia era um compromisso financeiro para assegurar o cumprimento das condições impostas pela Justiça. Não significava que Bankman-Fried havia depositado US$ 250 milhões em dinheiro para sair da prisão.
↑O confisco obriga o condenado a entregar ao governo bens ou valores provenientes do crime. A ordem judicial não quer dizer que essa quantia já tenha sido recuperada. Neste caso, a Justiça autorizou o uso do dinheiro recuperado para compensar as vítimas.
↑A ideia era reunir no mesmo aplicativo a negociação de criptomoedas, as transferências e os pagamentos de compras.
↑Alameda Research LLC e outras (18 de setembro de 2023). «Complaint»(PDF). Alameda Research LLC v. Bankman, processo 23-50584-JTD, documento 1 (em inglês). Tribunal de Falências dos Estados Unidos para o Distrito de Delaware. pp.24–32. Consultado em 30 de outubro de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 3 de agosto de 2024
↑FTX Recovery Trust, Allan Joseph Bankman e Barbara Fried (24 de fevereiro de 2025). «Stipulation of Dismissal». FTX Recovery Trust v. Bankman, processo 23-50584-JTD, documento 50 (em inglês). Tribunal de Falências dos Estados Unidos para o Distrito de Delaware. p.1. Consultado em 30 de outubro de 2026. Cópia arquivada em 29 de março de 2025