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Nigger | |
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| Caricatura contra o abolicionismo na campanha presidencial americana de 1860, com a expressão "nigger in the woodpile" | |
| Idioma | Inglês |
| Uso | Insulto racial dirigido a pessoas negras |
| Forma relacionada | Nigga |
Nigger é um insulto racial da língua inglesa dirigido a pessoas negras. No inglês americano, nigger e nigga têm a mesma origem, mas elas têm usos sociais diferentes, que não se resumem à grafia ou à pronúncia. Como insulto, nigger tem uma carga ofensiva extrema. Nigga, forma desenvolvida no inglês afro-americano, também pode expressar familiaridade ou camaradagem entre pessoas negras, com sentidos próximos de "cara", "mano" ou "amigo". Essa reapropriação não elimina os usos hostis da palavra nem torna seu emprego por pessoas de fora do grupo socialmente neutro. Muitas menções ao insulto usam o eufemismo the N-word, "a palavra com N", sobretudo quando se fala da palavra sem dirigi-la a alguém.
A proximidade de grafia e pronúncia pode fazer as duas palavras parecerem simples variantes a um leitor lusófono, embora seus usos sociais sejam diferentes. As palavras portuguesas "negro" e "preto" não têm correspondência direta com a carga ofensiva de nigger, nem reproduzem os usos de nigga entre afro-americanos. No Brasil, "preta" é uma das categorias de cor ou raça do IBGE, preenchidas por autodeclaração. Seu emprego no censo não a equipara ao insulto inglês nem determina como "preto" será recebido em cada situação de fala.
A palavra vem do adjetivo latino niger, "negro", pronunciado [ˈnɪɡɛr]. Os primeiros usos tinham sentido relativamente neutro, próximo do inglês negro, embora os exemplos do período do tráfico atlântico de escravos, entre os séculos XVI e XIX, muitas vezes trouxessem um tom paternalista. A conotação depreciativa se acentuou a partir de meados do século XVIII e se tornou um insulto explícito em meados do XIX. Alguns autores ainda a empregaram sem intenção ofensiva até a segunda metade do século XX, quando seu uso passou a causar controvérsia mesmo em citações ou sem propósito de insultar.
O emprego de nigger acompanhou agressões verbais e físicas contra pessoas negras, e a palavra perdeu espaço na cultura de massa a partir da segunda metade do século XX. Os usos entre pessoas do próprio grupo, como os da cultura hip-hop, seguiram outro caminho. O Merriam-Webster a chama de "talvez o insulto racial mais ofensivo e incendiário do inglês", e o Oxford English Dictionary a classifica como ofensiva ou tabu em quase todos os contextos, inclusive na autodenominação. No julgamento de O. J. Simpson, o promotor Christopher Darden a chamou de "a palavra mais imunda, suja e repugnante da língua inglesa".
Autores negros americanos que defendem o abandono completo da palavra, por vezes chamados de "erradicacionistas", também rejeitam nigga e veem esse uso como uma "construção de uma identidade fundada no ódio a si próprio". A presença de nigger em obras como As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, publicado em 1884, e nos filmes Pulp Fiction, de 1994, e Django Unchained, de 2012, de Quentin Tarantino, provoca debates sobre racismo, citação e liberdade artística. A palavra também foi aplicada a pessoas de baixa posição social, como na expressão white nigger, ou a comportamentos reprovados por quem a emprega. Em outros casos, seu caráter ofensivo foi usado para comparar preconceitos com aqueles sofridos pelos afro-americanos, como na canção "Woman Is the Nigger of the World", de John Lennon, de 1972.
As grafias inglesas neger e niger surgiram no século XVI a partir do francês nègre, que vinha do espanhol negro. Todas remontam ao adjetivo latino niger, "negro", pronunciado [ˈnɪɡɛr].
O termo era empregado para uma pessoa de pele escura. O exemplo impresso mais antigo é de 1574, em um texto que menciona "the Nigers of Aethiop, bearing witnes", os Nigers da Etiópia dando testemunho. Um uso pejorativo de nigger data de 1775.
Em 1619, na América colonial, John Rolfe escreveu negars ao falar dos africanos escravizados levados à colônia da Virgínia. As grafias neger e neggar eram usadas em Nova York sob domínio neerlandês, nas comunidades da Igreja Morávia na região da Filadélfia e entre os alemães da Pensilvânia. O cemitério africano de Nova York tinha o nome neerlandês Begraafplaats van de Neger, "Cemitério dos Negros". Um exemplo de neger no inglês americano é de 1625, em Rhode Island. O lexicógrafo Noah Webster propôs essa grafia no lugar de negro em seu dicionário de 1806.

No fim do século XVIII e no início do XIX, nigger também nomeava uma categoria de trabalho que trabalhadores afro-americanos adotavam para si. Brancos empregavam a mesma palavra para se distanciar deles ou depreciá-los, como se citassem sua maneira de falar. No comércio de peles do oeste dos Estados Unidos, do início do século XIX até o fim da década de 1840, a grafia niggur era frequente. George Ruxton a empregou no vocabulário dos caçadores das montanhas sem sentido pejorativo, de maneira próxima a "cara" ou "sujeito". Em Life in the Far West, um personagem fala de si próprio, "Viajante, senhora, este niggur não é viajante, sou caçador de peles, senhora, um homem das montanhas, uau!" Entre esses caçadores, a palavra podia se referir a indígenas, mexicanos, franceses ou anglo-americanos, além de pessoas negras. Seu sentido oscilava entre o insulto e a familiaridade.
Em 1859, um ataque ao abolicionista John Brown já empregava a palavra como insulto.
Em 1851, o Comitê de Vigilância de Boston, uma organização abolicionista, dirigiu seus avisos às Colored People of Boston and vicinity, "pessoas de cor de Boston e arredores". Colored e negro eram alternativas mais respeitosas a nigger. Em 1904, o jornalista Clifton Johnson escreveu que nigger era escolhido no Sul dos Estados Unidos por ser mais ofensivo do que as outras duas palavras. A Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, a NAACP, adotou colored em seu nome em 1909. Em 2008, sua diretora de comunicação, Carla Sims, afirmou que a palavra havia sido escolhida por ser a denominação mais positiva em uso na fundação da entidade. Para ela, o termo havia envelhecido, mas não era ofensivo.
Em Life on the Mississippi, de 1883, Mark Twain empregou nigger ao reproduzir falas entre aspas e negro na voz do narrador. Joseph Conrad publicou a novela The Nigger of the 'Narcissus' na Grã-Bretanha em 1897. Nos Estados Unidos, ela saiu como The Children of the Sea: A Tale of the Forecastle. Uma resenha britânica havia chamado o título original de "o mais feio que se pode conceber", enquanto resenhistas americanos atribuíram a mudança ao "refinamento" e ao "pudor" do país.
Na primeira edição de A Dictionary of Modern English Usage, de 1926, H. W. Fowler escreveu que chamar de nigger quem não tivesse ascendência africana era sentido como insulto e denunciava, se não uma insolência deliberada, "ao menos uma desumanidade muito arrogante". A segunda edição, de 1965, trazia uma formulação diferente, "o termo carrega toda a desonra, o desprezo e a rejeição que os brancos infligiram aos negros". A passagem vinha do jornalista americano Harold R. Isaacs, que a empregou em textos publicados entre 1963 e 1975. No romance Passing, de Nella Larsen, de 1929, os personagens negros se ofendem com a palavra. Um deles diz, "Não sou tão idiota a ponto de não perceber que, se um homem me chama de nigger, a culpa é dele na primeira vez, mas é minha se ele tiver a oportunidade de fazer isso de novo".
No fim da década de 1960, o movimento pelos direitos civis abriu espaço para Black, "negro", como denominação da identidade racial de americanos de ascendência africana. Thomas Jefferson já havia usado a palavra para seus escravizados em Notes on the State of Virginia, de 1785, mas seu uso se difundiu apenas na segunda metade do século XX, junto do orgulho negro. A negritude também fez parte dos movimentos anticoloniais em outros países.
Na década de 1980, African American, "afro-americano", passou a ser adotado por veículos de comunicação, à semelhança de German American, Irish American e Italian American, nomes usados para americanos de ascendência alemã, irlandesa e italiana. A palavra composta se aproxima de Afro-American, que esteve em voga no início dos anos 1970. Parte dos americanos negros emprega nigger, muitas vezes nas grafias nigga e niggah, sem ironia, para reduzir a força do insulto ou expressar solidariedade.
Em 2006, a maioria dos americanos julgava o uso da palavra errado ou inaceitável. Quase metade dos brancos e dois terços dos negros conheciam alguém que a empregava para se referir a pessoas negras. Quase um terço dos brancos e dois terços dos negros disseram tê-la usado nos cinco anos anteriores.
A palavra já foi comum em nomes de produtos, cores, plantas e lugares, além de apelidos de pessoas. Esses usos perderam aceitação a partir do século XX.

O poema "Niggers in the White House" foi escrito em reação ao jantar de outubro de 1901 na Casa Branca, no qual o presidente republicano Theodore Roosevelt recebeu Booker T. Washington, um conselheiro afro-americano. O texto voltou a circular em 1929, depois que a primeira-dama Lou Hoover, esposa do presidente Herbert Hoover, convidou Jessie De Priest, mulher do deputado negro Oscar De Priest, para um chá com esposas de congressistas na Casa Branca. O autor assinava "unchained poet", "poeta sem correntes", e seu nome não é conhecido.
Ao explicar sua recusa em ser convocado para a Guerra do Vietnã, travada entre 1955 e 1975, o boxeador Muhammad Ali teria dito, "Nenhum vietcongue jamais me chamou de nigger". Uma versão dessa frase deu título ao documentário No Vietnamese Ever Called Me Nigger, de 1968, sobre soldados negros do Exército dos Estados Unidos na frente de combate no Vietnã. O biógrafo Charles Lemert distingue essa frase daquela dita por Ali em entrevista a Robert Lipsyte em 1966, "Não tenho nenhuma briga com os vietcongues".
Em 28 de fevereiro de 2007, o Conselho Municipal de Nova York aprovou uma proibição simbólica de nigger, sem penalidade para quem a usasse. A resolução também pediu que músicas com a palavra na letra fossem excluídas das indicações ao Grammy. Ron Roecker, vice-presidente de comunicação da Academia da Gravação, duvidou que isso alterasse as indicações.
Em 2008, quando enfrentava críticas por sua conduta, o prefeito de Detroit, Kwame Kilpatrick, saiu do texto de um discurso ao conselho municipal e disse, "Nos últimos trinta dias, fui chamado de nigger mais vezes do que em toda a minha vida". Seus adversários o acusaram de usar a questão racial para se manter no cargo.
O racismo implícito na palavra fez de seu emprego um tabu. Revistas e jornais costumam substituí-la por formas censuradas, como "n*gg*r", "n**ger", "n--" ou the N-word. O eufemismo também permite discutir o termo sem pronunciá-lo.

A presença de nigger em livros antigos causa controvérsia por sua força como insulto racista. As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, foi o quinto livro que mais recebeu pedidos de retirada de bibliotecas e escolas nos anos 1990, na lista da Associação Americana de Bibliotecas. O romance, publicado nos Estados Unidos em 1885, é narrado na linguagem de um menino branco com pouca instrução que desce o rio Mississippi em uma jangada com Jim, um adulto que fugiu da escravidão. A palavra ocorre mais de duzentas vezes, quase sempre em referência a Jim. Defensores de Twain argumentam que o vocabulário reproduz a fala da época e que Jim recebe uma caracterização simpática, em vez de um estereótipo racista.
Em 2011, uma edição da NewSouth Books substituiu nigger por slave, "escravo", e retirou a palavra injun, uma designação ofensiva para indígenas. O especialista em Twain Alan Gribben propôs a mudança para combater a "censura preventiva" que afastava o livro dos currículos escolares por causa de sua linguagem. Os críticos Elon James, Alexandra Petri e Chris Meadows reagiram com indignação às alterações.
No livro de memórias All Souls, de 1999, o escritor de ascendência irlandesa Michael Patrick MacDonald conta que moradores brancos do Old Colony Housing Project, um conjunto habitacional de South Boston, usavam a palavra para rebaixar quem julgavam inferior a eles, fosse branco ou negro.
Claro que ninguém se via como um nigger. Era sempre o nome que se dava a alguém que pudesse ser considerado inferior a você. Logo descobri que algumas famílias negras moravam em Old Colony. Viviam ali havia anos, e todo mundo dizia que eram gente boa, que não eram niggers, só negras. Todos nos sentíamos bem por não sermos tão ruins quanto as pessoas sem esperança da D Street ou, Deus nos livre, as de Columbia Point, que eram negras e niggers. Mas eu já sentia inveja das crianças do conjunto Old Harbor, mais adiante na mesma rua, que parecia estar um degrau acima de Old Colony...
Em 1997, grupos da comunidade negra dos Estados Unidos fizeram uma campanha para retirar nigger dos dicionários. A editora do Merriam-Webster respondeu que o dicionário precisava registrar palavras em uso, inclusive as depreciativas.
O uso da palavra em obras literárias também levou a discussões nas salas de aula das universidades. Em 2008, Neal A. Lester, professor de inglês da Universidade Estadual do Arizona, criou uma disciplina apresentada como "a primeira matéria universitária dedicada a estudar a palavra 'nigger'". Na década seguinte, instituições de ensino enfrentaram dificuldades para abordar materiais que continham a ofensa racial. Em 2012, Lincoln Brown, professor de uma turma do sexto ano em Chicago, foi suspenso depois de repetir o conteúdo de um bilhete com teor racista que circulava entre os alunos. Brown entrou com uma ação federal por violação de direitos civis contra o diretor e a rede pública de ensino da cidade. Uma escola de ensino médio de Nova Orleans passou por uma controvérsia semelhante em 2017. Elizabeth Stordeur Pryor, filha de Richard Pryor e professora do Smith College, falou sobre o assunto em uma palestra e afirmou que a palavra provocava uma "crise social" no ensino superior.
Em 2019, o Smith College, a Universidade Emory, a Universidade Augsburg, a Universidade Estadual do Sul de Connecticut e o Simpson College suspenderam professores que haviam pronunciado "nigger" em sala de aula. Em outros dois casos, um professor da Universidade de Princeton deixou de ministrar uma disciplina sobre discurso de ódio depois de protestos dos alunos por ter pronunciado a palavra, e um professor da Universidade DePaul teve seu curso de direito cancelado depois que 80% dos alunos matriculados o abandonaram. Um estudante do College of the Desert contestou o uso da palavra por sua professora em uma apresentação em sala de aula. O vídeo da apresentação se espalhou pela internet.
Em 2018, Reed Hastings, diretor da Netflix, demitiu o diretor de comunicação Jonathan Friedland depois que ele usou a palavra duas vezes em conversas internas sobre palavras ofensivas. Hastings explicou sua decisão em um comunicado:
O uso [da palavra] em meios populares, como a música e o cinema, criou certa confusão sobre a possibilidade de haver alguma ocasião em que seja aceitável usar a N-word. Pessoas que não são negras não deveriam pronunciá-la, pois quase não há contexto em que seu uso seja apropriado ou construtivo, mesmo ao cantar uma música ou ler um roteiro. Nenhum contexto permite neutralizar a emoção e a carga histórica dessa palavra. A expressão 'N-word' foi criada como um eufemismo e se tornou a norma, com a intenção de oferecer uma substituição aceitável e afastar as pessoas do uso da palavra em si. Quando alguém rompe essa norma, provoca ressentimento, frustração intensa e uma ofensa profunda em muita gente.
Em 2019, o roteirista Walter Mosley deixou um trabalho depois que o departamento de recursos humanos o repreendeu por usar a palavra ao contar uma experiência de racismo que havia sofrido como homem negro.
Ao defender Laurie Sheck, uma professora que foi absolvida de uma acusação de infração ética por citar I Am Not Your Negro, de James Baldwin (escritor), John McWhorter escreveu que os esforços de americanos brancos para condenar a linguagem racista haviam ultrapassado seu objetivo inicial. Houve controvérsias semelhantes na Universidade de Western Ontario, no Canadá, e no campus de Madri da Universidade de Syracuse. Em junho de 2020, a apresentadora canadense Wendy Mesley foi suspensa e substituída por um convidado depois de participar de uma reunião sobre justiça racial e, ao citar um jornalista, usar "uma palavra que alguém como eu jamais deveria usar". Em agosto de 2020, a BBC News pronunciou a ofensa racial ao noticiar a agressão física e verbal contra K-Dogg, um músico negro que trabalhava no National Health Service. A vítima e sua família haviam concordado com a menção. A BBC recebeu mais de 18.600 reclamações em uma semana, o radialista negro David Whitely pediu demissão em protesto, e a emissora se desculpou.
Em 2021, em Tampa, na Flórida, um funcionário negro de 27 anos de uma loja da Dunkin' Donuts deu um soco em um cliente branco de 77 anos que o havia chamado repetidamente de nigger. O cliente caiu e bateu a cabeça. Morreu três dias depois, com uma fratura craniana e contusões cerebrais. O funcionário foi preso e acusado de homicídio culposo. Em um acordo com a promotoria, declarou-se culpado de agressão e recebeu uma pena de dois anos de prisão domiciliar. Em 2022, Grayson Kamm, porta-voz do promotor Andrew Warren, do condado de Hillsborough, explicou a ausência de uma pena de prisão: "Dois dos principais fatores foram a atitude agressiva da vítima em relação ao réu e a todos que trabalhavam com ele, e o fato de a vítima ter usado repetidamente o que talvez seja o termo mais agressivo e ofensivo da língua inglesa."
No inglês americano, nigger tem uma carga ofensiva extrema como insulto racial, enquanto nigga também é comum nos usos de familiaridade entre afro-americanos, com sentidos próximos de "cara", "mano" ou "amigo". A semelhança sonora entre as palavras pode encobrir essa diferença para quem fala português. A grafia de nigga acompanha pronúncias do inglês afro-americano, mas os sentidos de camaradagem dependem também de quem fala, de quem ouve e da relação entre eles. A mudança de terminação não garante que a palavra deixe de ser um insulto, e seu uso por uma pessoa branca pode ser recebido de maneira muito diferente do uso entre amigos negros.
Entre afro-americanos, a forma reapropriada nigga pode ter sentidos neutros ou afetuosos, ou continuar depreciando a pessoa a quem se dirige. Seu emprego por uma pessoa branca pode ser entendido de outra maneira, por causa da história de opressão racial nos Estados Unidos.
A forma nigga se difundiu com o rap e o hip-hop e entrou no vocabulário de convivência entre afro-americanos. Nesses usos, pode ter o sentido de homie, alguém do mesmo círculo, ou de "amigo", sem necessariamente depreciar a pessoa a quem se dirige.
A aceitação de nigga dentro do grupo permanece em debate, embora a palavra tenha se difundido entre as gerações mais jovens. A NAACP condena o uso de nigga e de nigger. Uma reportagem de 2001 apontava que jovens brancos também usavam o termo cada vez mais entre si, com a popularidade do rap e do hip hop. O linguista Keith Allan contesta a ideia de que nigger seja uma ofensa em qualquer situação. Para ele, a palavra também pode expressar amizade e camaradagem, de modo comparável a mate, no inglês britânico e australiano, ou buddy, no inglês americano.
Em um texto de 2006 para a revista Diverse Issues in Higher Education, Arthur K. Spears escreveu:
Em muitos bairros afro-americanos, nigga é simplesmente o termo mais comum para se referir a qualquer homem, de qualquer raça ou etnia. A palavra é aplicada cada vez mais a qualquer pessoa, homem ou mulher. A pergunta "Where y'all niggas goin?", "Aonde vocês, niggas, estão indo?", pode ser feita a um grupo de mulheres sem constrangimento nem hostilidade, apenas para obter uma informação corriqueira. O sentido de nigga, por si só, não contém um julgamento de valor. A palavra pode expressar atitudes positivas, neutras ou negativas.
No ensaio "Nigger: Language, History, and Modern Day Discourse", publicado na revista universitária Intertext, Kevin Cato escreveu:
Por exemplo, um programa da Black Entertainment Television, um canal a cabo voltado ao público negro, chamou nigger de "termo de carinho". "Na comunidade afro-americana, a palavra nigga, e não nigger, desperta sentimentos de orgulho." Davis, página 1. Aqui, a palavra traz um sentimento de comunidade e união entre pessoas negras. Muitos adolescentes que entrevistei achavam que ela não tinha poder quando usada entre amigos, mas que adquiria um sentido completamente diferente quando dita por pessoas brancas. O comediante Alex Thomas afirmou na BET: "É melhor eu não ouvir nenhum branco falar isso para mim... Se eu ouvir um branco falar isso para mim, quer dizer: 'Branco, você vai apanhar.'"
Ao falar do uso de nigger por pessoas negras, o filósofo Cornel West disse em 2007:
A palavra tem uma certa sedução rítmica. Se você precisa dizer cat, companion ou friend, "cara", "companheiro" ou "amigo", no lugar de nigger, o ritmo da frase se perde. Essa linguagem rítmica é uma forma de memória histórica para as pessoas negras... Quando Richard Pryor voltou da África e decidiu parar de usar a palavra no palco, às vezes ela lhe escapava, porque ele estava muito acostumado a falar daquele jeito. Naquele momento, era a palavra certa para manter o ritmo das frases.
Na década de 2010, afro-americanos passaram a usar nigger e suas variantes com maior frequência entre si e em suas formas de expressão. Era a palavra de baixo calão mais frequente nas letras de hip hop. Ta-Nehisi Coates afirmou que continuava sendo inaceitável que pessoas não negras a pronunciassem ao acompanhar uma música de hip hop. Para ele, essa restrição permite que americanos brancos sintam um pouco do que é não ter o direito de "fazer o que quiserem, em qualquer lugar". Uma preocupação recorrente é que a exposição frequente à palavra enfraqueça sua carga negativa entre os americanos não negros que julgam seu uso inaceitável e chocante.
Em países de língua inglesa, "niggerhead" e "nigger head" foram usados para nomear produtos comerciais, lugares, plantas e animais. Essas expressões também entraram no vocabulário técnico informal da indústria, da mineração e da navegação. O sentido de "defeito oculto" dado a nigger vem de "nigger in the woodpile", uma expressão do período da escravidão nos Estados Unidos que aludia a pessoas escravizadas em fuga, escondidas em pilhas de madeira transportadas por trem. Na década de 1840, Henry Mayhew usou "nigger" e a palavra de som parecido "niggard" para um fundo falso de grelha nas reportagens de London Labour and the London Poor, publicadas no jornal Morning Chronicle.
No inglês americano, "nigger lover" foi uma ofensa dirigida primeiro a abolicionistas e depois a pessoas brancas que simpatizavam com os afro-americanos. O cruzamento vocabular wigger, formado por white, "branco", e nigger, designa um jovem branco que adota o modo de falar, as roupas e a música de jovens negros. Norman Mailer escreveu sobre os antecedentes desse comportamento no ensaio The White Negro, de 1957.
Zigger combina a letra Z com nigger.
O promotor Christopher Darden acrescentou, com a voz trêmula, que a "N-word" era tão abjeta que ele não a pronunciaria. "É a palavra mais imunda, suja e repugnante da língua inglesa." Kenneth B. Noble, The New York Times, 14 de janeiro de 1995.
Um dos primeiros usos do eufemismo N-word, "palavra com N", por uma figura pública de grande projeção ocorreu durante o julgamento de O. J. Simpson, em 1995, que provocou intensas disputas raciais. O detetive Mark Fuhrman, do Departamento de Polícia de Los Angeles, era uma testemunha central da acusação e negou usar linguagem racista em serviço. Sua credibilidade foi abalada por gravações nas quais usava nigger repetidamente ao falar de seu trabalho policial. O promotor Christopher Darden recusou-se a pronunciar a palavra e a chamou de "a palavra mais imunda, suja e repugnante da língua inglesa". Na cobertura do depoimento de Fuhrman, jornalistas substituíram nigger por N-word.
O adjetivo latino niger, que significa "preto", está na nomenclatura científica de plantas como Hyoscyamus niger, o meimendro-negro, e de animais que nem sempre são pretos, como Esquilo-raposa. A pronúncia do latim clássico, /ˈniɡeɾ/, é próxima da pronúncia inglesa de nigger, /ˈnɪɡər/. Vendedores de sementes de níger, usadas na alimentação de aves, às vezes adotam a grafia Nyjer.
Nigra é a forma feminina de niger, usada em nomes biológicos e anatômicos como substantia nigra.
Niggardly, "avarento" ou "mesquinho", não tem parentesco etimológico com nigger. Vem de nig, "mesquinho" em nórdico antigo, e de nigon, do inglês médio. Nos Estados Unidos, a semelhança sonora já fez a palavra ser confundida com a ofensa racial. Em janeiro de 1999, David Howard, um funcionário branco do governo de Washington, D.C., foi obrigado a pedir demissão depois de usar niggardly em uma conversa sobre finanças com colegas negros, que se ofenderam. Depois de examinar o mal-entendido, o prefeito Anthony A. Williams ofereceu-lhe o cargo de volta. Howard recusou, mas aceitou outra função no governo municipal.
Em espanhol, negro, [ˈne.ɣ̞ɾo], é a palavra para a cor preta e ocorre com frequência em nomes próprios e topônimos, sobretudo no Sudoeste dos Estados Unidos.

Nigger também foi aplicado a pessoas não negras e não brancas, ou a outros grupos em desvantagem social. Há quem adote essas expressões para aproximar sua situação da opressão e da resistência dos afro-americanos. Em outros casos, são insultos raciais impostos por pessoas de fora do grupo.
No ensaio The Student as Nigger, de 1967, posteriormente reunido em livro, Jerry Farber usou a palavra como metáfora para a posição que julgava ser imposta aos estudantes. Farber havia sido preso mais de uma vez por seu ativismo pelos direitos civis, quando já trabalhava como professor de literatura.
Em sua autobiografia Nègres blancs d'Amérique, de 1968, publicada em inglês como White Niggers of America: The Precocious Autobiography of a Quebec "Terrorist", em 1971, Pierre Vallières, um dirigente da Frente de Libertação do Quebec, empregou a palavra para falar da opressão dos habitantes do Quebec na América do Norte.
Em uma entrevista à revista britânica Nova, em 1969, Yoko Ono disse "woman is the nigger of the world", "a mulher é o nigger do mundo". Três anos depois, seu marido, John Lennon, lançou a canção "Woman Is the Nigger of the World", sobre a discriminação contra as mulheres no mundo. A música provocou controvérsia social e política nos Estados Unidos.
Sand nigger, uma ofensa dirigida a árabes, e timber nigger e prairie nigger, ofensas contra povos indígenas americanos, estendem o insulto racial a outros povos não brancos.
Em 1978, Patti Smith usou a palavra na canção "Rock N Roll Nigger". Em 1979, o cantor inglês Elvis Costello empregou "white nigger" em "Oliver's Army". O uso da palavra por Costello foi questionado, sobretudo depois de ele proferir ofensas raciais em uma discussão com Stephen Stills e Bonnie Bramlett, em 1979, enquanto estava bêbado. Seu pai, Ross McManus, publicou uma carta na revista Rolling Stone para defendê-lo das acusações de racismo: "Nada poderia estar mais longe da verdade. Minha própria origem fez de mim um adversário apaixonado de qualquer preconceito baseado em religião ou raça... A mãe dele vem de uma área difícil e multirracial de Liverpool, e acho que ainda lhe daria uma bela surra se houvesse dúvidas sobre suas convicções."
O historiador Eugene Genovese, que estudou o poder, as classes e as relações entre senhores e pessoas escravizadas no Sul dos Estados Unidos sob uma perspectiva marxista, empregou a palavra em The World the Slaveholders Made, na edição de 1988:
Por razões comuns à condição de escravo, todas as classes escravizadas mostravam pouca iniciativa industrial e produziram o famoso "nigger preguiçoso", que na servidão russa e em outros lugares era branco. Nem todas as pessoas negras, mesmo sob as formas mais degradantes de escravidão, aceitaram tornar-se niggers. Da mesma forma, nem todos, nem sequer a maioria dos niggers da história, foram negros.
Oberon Zell-Ravenheart, editor da revista Green Egg, citada na Encyclopedia of American Religions como um periódico de destaque, publicou o ensaio "Niggers of the New Age". Nele, argumentou que outros participantes do movimento New age maltratavam os neopagãos.
Há palavras em outras línguas, sobretudo nas línguas românicas, que se parecem com nigger na pronúncia ou têm a mesma origem, sem necessariamente carregar o mesmo sentido. Algumas nomeiam a cor preta em geral e não se referem especificamente a pessoas negras. Quando designam pessoas, sua carga ofensiva muda de uma língua para outra. O espanhol negro pode ser neutro, enquanto o finlandês neekeri é uma ofensa racista.
No Brasil, "preta" é uma das cinco categorias de cor ou raça dos questionários do IBGE, ao lado de "branca", "parda", "amarela" e "indígena", preenchidas por autodeclaração. A categoria já constava das tabelas populacionais de 2009, e os dados históricos do instituto distinguem as classificações usadas nos censos desde o século XIX. Esse vocabulário estatístico não faz de "preto" uma tradução direta de nigger, nem decide se uma fala é afetuosa, descritiva ou ofensiva.
Na tradução inglesa dos diários de Carolina Maria de Jesus, escolhas como nigger para o português "negro" mudam a carga racial da fala. Nos diários, "preto" e "negro" não têm o mesmo peso ofensivo da palavra inglesa nos Estados Unidos. No português brasileiro, "negro" e formas como "neguinho" e "negão" podem ser afetivos entre familiares e casais ou adquirir sentido ofensivo, conforme quem fala e a relação entre as pessoas. "Crioulo" e "macaco" também podem ser empregados como insultos racistas contra pessoas negras.
Em Portugal, "preto" e "negro" carregam conotações históricas e sociais ligadas à colonização. A escolha entre elas envolve sentidos que mudam conforme a situação em que são usadas. Uma tradução pode empregar palavras diferentes para comunicar uma ofensa em determinada passagem, mas a semelhança de significado ou de origem não reproduz por si só os usos raciais e sociais do inglês americano.
A reapropriação linguística, também chamada de ressignificação linguística, é a adoção de um epíteto depreciativo por suas próprias vítimas.