Luz

 Nota: Para outros significados, veja Luz (desambiguação).
Um prisma triangular dispersa um feixe de luz branca, separando os comprimentos de onda mais longos, em vermelho, dos mais curtos, em verde e azul.

Luz, luz visível ou radiação visível é a radiação eletromagnética que pode ser percebida pelo olho humano. A luz visível abrange o espectro visível e costuma ser definida pela faixa de comprimentos de onda de 400 a 700 nanômetros, ou nm, que corresponde a frequências de 430 a 750 terahertz. Essa faixa fica entre o infravermelho, com comprimentos de onda mais longos e frequências mais baixas, e o ultravioleta, com comprimentos de onda mais curtos e frequências mais altas. Essas três faixas formam a chamada radiação óptica.

Na física, o termo "luz" também pode abranger a radiação eletromagnética de qualquer comprimento de onda, visível ou não. Nesse sentido, raios gama, raios X, micro-ondas e ondas de rádio também são luz. Por isso, é comum chamar a radiação visível de luz visível.

As principais propriedades da luz são a intensidade, a direção de propagação, o espectro de frequências ou comprimentos de onda e a polarização. Sua velocidade no vácuo, de 299.792.458 m/s, é uma das constantes fundamentais da natureza. Toda radiação eletromagnética apresenta propriedades de partículas e de ondas. As partículas elementares de luz, sem massa, chamadas de fótons ou quanta, podem ser detectadas individualmente com equipamentos especializados. Fenômenos como a interferência são explicados pelo comportamento ondulatório. A óptica geométrica permite compreender a maior parte das interações com a luz que ocorrem no dia a dia. A óptica quântica é uma das áreas de pesquisa da física moderna.

A principal fonte de luz natural da Terra é o Sol. O fogo também foi uma fonte de luz muito usada pelos seres humanos, das antigas fogueiras às lâmpadas de querosene. Com o desenvolvimento das lâmpadas elétricas e dos sistemas de distribuição de energia, a iluminação elétrica substituiu em grande parte a luz do fogo.

Espectro eletromagnético e luz visível

O espectro eletromagnético, com a faixa visível em destaque. O gráfico inferior apresenta os comprimentos de onda do espectro visível em nanômetros, ou nm.

A radiação eletromagnética costuma ser classificada pelo comprimento de onda em ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho, espectro visível, que percebemos como luz, ultravioleta, raios X e raios gama. O termo "radiação" exclui os campos elétricos estáticos, os campos magnéticos estáticos e os campos próximos.

O comportamento da radiação eletromagnética depende de seu comprimento de onda. Frequências mais altas correspondem a comprimentos de onda mais curtos, e frequências mais baixas, a comprimentos de onda mais longos. Quando a radiação interage com átomos e moléculas individuais, seu comportamento depende da energia que cada quantum transporta.

Na faixa da luz visível, os quanta de radiação eletromagnética, chamados de fótons, têm energias próximas ao limite inferior necessário para excitar elétrons nas moléculas. Essa excitação provoca mudanças nas ligações ou no comportamento químico da molécula. Em condições usuais, os fótons infravermelhos têm energia insuficiente para provocar a mudança na conformação do retinal, a molécula da retina humana cuja alteração desencadeia a sensação visual.

Algumas serpentes detectam o infravermelho por meio de órgãos sensoriais especializados, como a fosseta loreal. A radiação aquece a membrana desses órgãos e ativa canais iônicos sensíveis à temperatura. Essa forma de visão térmica permite localizar presas e predadores pelo calor que emitem.

Grande parte da radiação ultravioleta é absorvida pela córnea e pelo cristalino antes de chegar à retina, onde ficam os bastonetes e cones. Essa filtragem varia com o comprimento de onda e com a idade, e pequenas quantidades de ultravioleta podem chegar à retina de pessoas jovens. Muitos animais, como insetos e camarões, detectam o ultravioleta por mecanismos quânticos de absorção de fótons, em um processo químico semelhante ao da percepção humana da luz visível.

A definição dos limites da luz visível varia de uma faixa mais estreita, de 420 a 680 nm, a uma mais ampla, de 380 a 800 nm. Em condições ideais de laboratório, as pessoas podem enxergar radiação infravermelha com comprimentos de onda de pelo menos 1.050 nm. Com pulsos de laser no infravermelho próximo, a absorção de dois fótons pode provocar a isomerização dos pigmentos visuais e produzir uma sensação luminosa. Crianças e adultos jovens podem perceber radiação ultravioleta com comprimentos de onda de até cerca de 310 a 313 nm.

O espectro de cores da luz também afeta o crescimento das plantas, em um processo chamado fotomorfogênese.

Velocidade da luz

Feixe de luz solar no interior da cavidade de Rocca ill'Abissu, em Fondachelli-Fantina, na Sicília.

A velocidade da luz no vácuo é definida como exatamente 299.792.458 m/s. Esse valor fixo nas unidades do Sistema Internacional decorre da definição do metro a partir da velocidade da luz. Todas as formas de radiação eletromagnética se propagam no vácuo com essa mesma velocidade.

Os físicos tentam medir a velocidade da luz há séculos. Galileu Galilei fez uma tentativa no século XVII. Em 1676, o físico dinamarquês Ole Rømer realizou um dos primeiros experimentos para medi-la. Com um telescópio, observou os movimentos de Júpiter e de Io, um de seus satélites naturais. Ao notar discrepâncias no período aparente da órbita de Io, calculou que a luz levava cerca de 22 minutos para percorrer o diâmetro da órbita terrestre. Esse diâmetro ainda não era conhecido. Se Rømer soubesse seu valor, teria calculado uma velocidade de 227.000.000 m/s.

Em 1849, Hippolyte Fizeau fez uma medição mais precisa na Europa. Ele dirigiu um feixe de luz a um espelho a quilômetros de distância. Uma roda dentada em rotação foi colocada no caminho do feixe, que ia da fonte ao espelho e voltava ao ponto de partida. Fizeau constatou que, em determinada velocidade de rotação, o feixe passava por um vão entre os dentes na ida e atingia um dente na volta. A distância até o espelho, o número de dentes e a velocidade de rotação permitiram calcular a velocidade da luz em 313.000.000 m/s.

Em 1862, Léon Foucault obteve o valor de 298.000.000 m/s em um experimento com espelhos giratórios. Albert A. Michelson realizou experimentos para medir a velocidade da luz de 1877 até sua morte, em 1931. Em 1926, aperfeiçoou os métodos de Foucault com espelhos giratórios aprimorados para medir o tempo que a luz levava para ir do monte Wilson ao monte San Antonio, na Califórnia, e voltar. As medições precisas resultaram em uma velocidade de 299.796.000 m/s.

A velocidade efetiva da luz em substâncias transparentes compostas de matéria comum é menor que no vácuo. Na água, por exemplo, ela é cerca de três quartos da velocidade no vácuo.

Em 2001, duas equipes independentes de físicos anunciaram ter feito a luz "parar" e voltar a se propagar. Uma equipe, da Universidade Harvard e do Instituto Rowland de Ciência, usou átomos de sódio ultrafrios. A outra, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, usou vapor de rubídio em uma mistura com hélio. Nos experimentos, a informação de um pulso luminoso foi armazenada em estados dos átomos e recuperada com um segundo feixe de laser. Durante o armazenamento, não havia um feixe de luz imóvel dentro do material.

Óptica

O estudo da luz e de sua interação com a matéria chama-se óptica. Cada ramo da óptica se aplica a determinadas situações. A óptica geométrica permite compreender o funcionamento de olhos, lentes, câmeras, fibras ópticas e espelhos. Ela funciona bem quando o comprimento de onda da luz é pequeno em comparação com os objetos com que interage. A óptica ondulatória incorpora as propriedades das ondas e é necessária para compreender a difração e a interferência. A óptica quântica estuda a interação de fótons individuais com a matéria.

Espalhamento nas superfícies

Um objeto transparente permite que a luz o atravesse, ou seja, que seja transmitida. Um objeto opaco impede essa passagem e reflete ou absorve a luz que recebe. A maioria dos objetos não reflete nem transmite a luz de forma inteiramente especular, mas espalha parte da luz incidente, o que determina seu brilho superficial. O espalhamento na superfície decorre da rugosidade das superfícies refletoras. No interior do objeto, ele decorre da diferença entre os índices de refração das partículas e do meio em que elas se encontram. Assim como os objetos transparentes, os translúcidos deixam a luz passar, mas também espalham internamente determinados comprimentos de onda.

Refração

Por causa da refração, o canudo mergulhado na água parece dobrado, e a escala da régua parece comprimida quando vista de um ângulo próximo à superfície.

A refração é o desvio dos raios de luz ao atravessar a superfície que separa dois materiais transparentes. A lei de Snell expressa essa relação:

Nessa expressão, é o ângulo entre o raio e a normal à superfície no primeiro meio, e é o ângulo entre o raio e a normal no segundo meio. As grandezas e são os índices de refração, com no vácuo e em uma substância transparente.

Quando um feixe de luz atravessa a fronteira entre o vácuo e outro meio, ou entre dois meios diferentes, seu comprimento de onda muda, mas sua frequência permanece constante. Se o feixe não for perpendicular à fronteira, ou seja, se não seguir a direção da normal, a mudança de comprimento de onda altera sua direção de propagação. Essa mudança de direção chama-se refração.

A capacidade das lentes de refratar a luz é usada com frequência para alterar o tamanho aparente das imagens. Lupas, óculos, lentes de contato, microscópios e telescópios refratores são exemplos desse uso.

Fontes de luz

Há muitas fontes de luz. Um corpo a determinada temperatura emite um espectro característico de radiação de corpo negro. Um exemplo simples de fonte térmica é a luz solar, cuja maior parte da emissão visível vem da fotosfera do Sol, a cerca de 6.000 K. A radiação solar atinge seu máximo na região visível do espectro eletromagnético quando é apresentada em função do comprimento de onda. Cerca de 44% da energia irradiada pelo Sol está na faixa visível. Outro exemplo são as lâmpadas incandescentes, que emitem apenas cerca de 10% de sua energia como luz visível e o restante como infravermelho. As partículas sólidas incandescentes nas chamas foram uma fonte térmica de luz muito usada, mas também emitem a maior parte da radiação no infravermelho e apenas uma fração no espectro visível.

Em objetos relativamente frios, como os seres humanos, o pico do espectro de corpo negro fica no infravermelho distante, em um comprimento de onda de cerca de 10 micrômetros. À medida que a temperatura aumenta, o pico se desloca para comprimentos de onda mais curtos. O brilho passa primeiro pelo vermelho, depois pelo branco e por fim pelo branco azulado, à medida que o pico sai da faixa visível e entra no ultravioleta. Essas cores podem ser vistas quando um metal é aquecido até ficar "rubro" ou "branco de tão quente". A emissão térmica branco-azulada é pouco comum fora das estrelas. O azul puro que se vê com frequência em uma chama de gás ou em um maçarico de soldagem resulta da emissão molecular, sobretudo de radicais CH, que emitem em uma faixa em torno de 425 nm. Essa cor não ocorre nas estrelas nem na radiação puramente térmica.

Os átomos emitem e absorvem luz em energias características, produzindo "linhas de emissão" no espectro de cada átomo. A emissão pode ser espontânea, como nos diodos emissores de luz, nas lâmpadas de descarga em gases, entre elas as lâmpadas de néon, os letreiros de néon e as lâmpadas de vapor de mercúrio, e nas chamas. Nesse último caso, a luz vem do próprio gás quente. O sódio em uma chama de gás, por exemplo, emite uma luz amarela característica. A emissão também pode ser estimulada, como em um laser ou em um maser, que emite micro-ondas.

A desaceleração de uma partícula livre com carga elétrica, como um elétron, pode produzir radiação visível. São exemplos a radiação ciclotrônica, a radiação síncrotron e a radiação de frenagem, ou bremsstrahlung. Partículas que se movem em um meio a uma velocidade maior que a da luz nesse meio podem produzir radiação Cherenkov visível. Certas substâncias químicas produzem radiação visível por quimioluminescência. Nos seres vivos, esse processo chama-se bioluminescência. Os vaga-lumes, por exemplo, produzem luz dessa forma. Barcos em movimento também podem agitar o plâncton da água e deixar um rastro luminoso.

Certas substâncias produzem luz quando são iluminadas por radiação mais energética, em um processo chamado fluorescência. Outras emitem luz lentamente após essa excitação, fenômeno chamado fosforescência. Materiais fosforescentes também podem ser excitados pelo bombardeamento com partículas subatômicas. Um exemplo é a catodoluminescência, mecanismo usado em televisores e monitores de computador com tubos de raios catódicos.

Hong Kong sob iluminação artificial colorida.

Outros mecanismos de produção de luz são:

Quando o conceito de luz abrange os fótons de energia muito alta, como os raios gama, também entram entre os mecanismos de emissão:

Medição

A luz pode ser medida por dois conjuntos principais de unidades. A radiometria mede sua potência em todos os comprimentos de onda. A fotometria pondera cada comprimento de onda com base em um modelo padronizado da percepção humana do brilho. A fotometria é útil, por exemplo, para quantificar a iluminação destinada ao uso humano.

As unidades fotométricas diferem da maioria das unidades físicas porque levam em conta a resposta do olho humano à luz. Há três tipos de cones no olho humano, com respostas diferentes ao longo do espectro visível. Em condições de boa iluminação, a função padronizada de sensibilidade luminosa atinge o máximo em um comprimento de onda de cerca de 555 nm. Duas fontes que produzem a mesma potência radiante por unidade de área, medida em W/m², não precisam parecer igualmente brilhantes. As unidades fotométricas levam isso em conta e expressam melhor o brilho percebido do que a intensidade isolada. Elas se relacionam com a potência por meio de uma grandeza chamada eficácia luminosa e permitem determinar, por exemplo, a iluminação necessária para executar tarefas em ambientes internos e externos. A iluminação medida por uma célula fotoelétrica não corresponde necessariamente à que o olho humano percebe. Sem filtros, que podem ser caros, as células fotoelétricas e os dispositivos de carga acoplada, ou CCDs, tendem a responder também a parte do infravermelho, do ultravioleta ou de ambas as faixas.

As grandezas fotométricas distinguem a quantidade de luz emitida, sua distribuição por direção e a luz que chega a uma superfície.

Grandezas fotométricas e suas unidades no Sistema Internacional
GrandezaO que medeUnidade
Fluxo luminosoPotência radiante ponderada pela sensibilidade visualLúmen, lm
Intensidade luminosaFluxo luminoso por unidade de ângulo sólido em uma direçãoCandela, cd
IluminânciaFluxo luminoso incidente por unidade de áreaLux, lx, equivalente a lm/m²
LuminânciaIntensidade luminosa por unidade de área projetada em uma direçãoCandela por metro quadrado, cd/m²

Pressão da luz

A luz exerce pressão sobre os objetos em seu caminho. Esse fenômeno pode ser deduzido das equações de Maxwell, mas é mais fácil compreendê-lo pela natureza corpuscular da luz. Os fótons atingem os objetos e transferem seu momento linear. Quando toda a luz incidente é absorvida, a força exercida é igual à potência do feixe dividida por c, a velocidade da luz. Como c é muito grande, o efeito dessa pressão é desprezível nos objetos de uso comum. Um apontador laser de um miliwatt, por exemplo, exerce uma força de cerca de 3,3 piconewtons sobre o objeto iluminado. Seria possível erguer uma moeda de um centavo de dólar com apontadores laser, mas seriam necessários bilhões de aparelhos de 1 mW. Em sistemas nanoeletromecânicos, ou NEMS, as forças ópticas podem movimentar componentes de massa muito pequena. Circuitos fotônicos integrados usam, por exemplo, forças de gradiente óptico para acionar ressonadores e controlar o movimento de guias de onda. Em escalas maiores, a pressão da luz pode acelerar a rotação dos asteroides, ao agir sobre suas formas irregulares como o vento sobre as pás de um moinho. A pressão da luz também é usada na propulsão por velas solares, já demonstrada em voo.

O movimento do radiômetro de Crookes foi atribuído inicialmente à pressão da luz, mas essa interpretação estava errada. Sua rotação característica resulta das condições de vácuo parcial. No radiômetro de Nichols, a pressão da luz provoca uma pequena deflexão dos espelhos suspensos em uma balança de torção.

Em 1909, Einstein previu que a pressão da luz produziria um "atrito de radiação" que se oporia ao movimento da matéria. Ele escreveu:

"A radiação exercerá pressão sobre os dois lados da placa. As forças de pressão exercidas em cada lado serão iguais se a placa estiver em repouso. Se ela estiver em movimento, porém, mais radiação será refletida na superfície que avança, a superfície dianteira, do que na superfície traseira. A força de pressão dirigida para trás e exercida na superfície dianteira será maior que a força de pressão que atua na superfície traseira. A resultante das duas forças será uma força que se opõe ao movimento da placa e aumenta com sua velocidade. Chamaremos essa resultante, de forma abreviada, de 'atrito de radiação'."

Em geral, o momento linear da luz tem a mesma direção de seu movimento. Nas ondas evanescentes, porém, pode haver momento transversal à direção de propagação.

Teorias sobre a luz em ordem cronológica

Grécia clássica e período helenístico

No século V a.C., Empédocles propôs que tudo era composto de quatro elementos, fogo, ar, terra e água. Ele acreditava que a deusa Afrodite havia criado o olho humano a partir desses elementos e acendido nele um fogo, cuja luz saía do olho e tornava a visão possível. Se isso fosse verdade, seria possível enxergar à noite tão bem quanto de dia. Empédocles propôs, então, uma interação entre os raios emitidos pelos olhos e os de uma fonte como o Sol.

Por volta de 300 a.C., Euclides escreveu Optica, obra em que estudou as propriedades da luz. Ele postulou que a luz se propagava em linha reta e formulou as leis da reflexão, que estudou matematicamente. Questionou a ideia de que a visão resultava de um raio emitido pelo olho, perguntando como alguém conseguia ver as estrelas imediatamente ao fechar e abrir os olhos à noite. Essa dificuldade desapareceria se o raio emitido pelo olho tivesse velocidade infinita.

Em 55 a.C., o romano Lucrécio, que deu continuidade às ideias dos atomistas gregos, escreveu em Da natureza do universo: "A luz e o calor do Sol são compostos de átomos minúsculos que, quando lançados, atravessam sem demora o espaço de ar na direção do impulso recebido". Embora semelhantes às teorias corpusculares posteriores, suas ideias não foram amplamente aceitas. Ptolomeu, que viveu por volta do século II, escreveu sobre a refração da luz em sua obra Óptica.

Índia clássica

Na Índia antiga, a escola hindu sânquia distinguia cinco elementos sutis, chamados de tanmatra, dos quais se formavam os elementos materiais. Cada elemento sutil correspondia a uma qualidade sensível, entre elas a visibilidade. A escola vaisesica recorria ao atomismo e atribuía a cor aos átomos do elemento fogo. O Vishnu Purana menciona sete raios do Sol em sua narrativa da dissolução do mundo.

No budismo, as escolas vaibhāṣika e sautrāntika desenvolveram concepções atomistas em que os constituintes materiais eram imperceptíveis e momentâneos. A cor figurava entre as qualidades consideradas nessa análise da matéria.

Descartes

René Descartes, que viveu de 1596 a 1650, defendia que a luz era uma propriedade mecânica do corpo luminoso. Rejeitava as "formas" de Ibn al-Haytham e Witelo, assim como as "espécies" de Roger Bacon, Robert Grosseteste e Johannes Kepler. Em 1637, publicou uma teoria da refração que supunha, incorretamente, que a luz se propagava mais depressa em um meio mais denso do que em um menos denso. A hipótese era compatível com a analogia feita com o som, que se propaga mais depressa na água do que no ar. Embora estivesse errado sobre as velocidades relativas, Descartes relacionou a refração à propagação da luz em meios diferentes.

Descartes não foi o primeiro a recorrer a analogias mecânicas. A afirmação explícita de que a luz era apenas uma propriedade mecânica do corpo luminoso e do meio de transmissão, porém, fez com que sua teoria fosse tomada como o início da óptica física moderna.

Teoria corpuscular

Pierre Gassendi.

Pierre Gassendi, que viveu de 1592 a 1655 e defendia o atomismo, propôs uma teoria corpuscular da luz publicada após sua morte, na década de 1660. Isaac Newton estudou seus trabalhos ainda jovem e preferiu suas ideias à teoria cartesiana do plenum. Em Hypothesis of Light, de 1675, apresentou uma hipótese mecânica que admitia corpúsculos capazes de provocar vibrações no éter. Newton, porém, evitou fixar uma definição da natureza da luz e distinguiu suas conclusões experimentais das hipóteses usadas para explicá-las. Um de seus argumentos contra a natureza ondulatória da luz era que as ondas contornavam obstáculos, enquanto a luz se propagava apenas em linha reta. Ainda assim, explicou a difração da luz, observada por Francesco Grimaldi, admitindo que uma partícula de luz poderia criar uma onda localizada no éter.

No artigo "Nova teoria sobre luz e cores", publicado em 1672, Newton havia defendido que a luz branca era uma mistura de raios de cores diferentes e que o prisma separava esses componentes. A proposta recebeu críticas de Robert Hooke, Christiaan Huygens e Ignace-Gaston Pardies, que questionaram os experimentos e sua interpretação.

A teoria de Newton permitia prever a reflexão, mas só explicava a refração com a suposição incorreta de que a luz acelerava ao entrar em um meio mais denso porque a atração gravitacional era maior. Newton publicou a versão final de sua teoria em Opticks, de 1704. Seu prestígio ajudou a teoria corpuscular da luz a predominar no século XVIII. Essa teoria levou Pierre-Simon de Laplace a defender que um corpo poderia ter massa suficiente para impedir a fuga da luz, tornando-se o que se chama de buraco negro. Laplace retirou sua proposta depois que a teoria ondulatória se estabeleceu como explicação da luz, embora nenhuma das duas teorias, isoladamente, seja inteiramente correta. O livro The Large Scale Structure of Space-Time, de Stephen Hawking e George Ellis, contém uma tradução do ensaio de Laplace sobre esse tema.

Newton foi o primeiro a explicar qualitativamente a polarização da luz com a teoria corpuscular. Em 1810, Étienne-Louis Malus criou uma teoria matemática corpuscular da polarização. Em 1812, Jean-Baptiste Biot mostrou que ela explicava todos os fenômenos de polarização da luz conhecidos. Naquele momento, a polarização era vista como uma comprovação da teoria corpuscular.

Teoria ondulatória

Para explicar a origem das cores, Robert Hooke, que viveu de 1635 a 1703, desenvolveu uma "teoria de pulsos". Na "Observação IX" de Micrographia, de 1665, comparou a propagação da luz à das ondas na água. Em 1672, propôs que as vibrações da luz poderiam ser perpendiculares à direção de propagação. Christiaan Huygens, que viveu de 1629 a 1695, formulou uma teoria matemática ondulatória da luz em 1678 e a publicou em Tratado sobre a luz, de 1690. Ele propôs que a luz era emitida em todas as direções como uma sequência de ondas em um meio chamado éter luminífero. Como se supunha que a gravidade não afetava as ondas, esperava-se que elas desacelerassem ao entrar em um meio mais denso. Outro defensor da teoria ondulatória foi Leonhard Euler, que argumentou em Nova Theoria lucis et colorum, de 1746, que a difração seria mais fácil de explicar por uma teoria de ondas.

Christiaan Huygens.
Desenho de ondas na água feito por Thomas Young para mostrar a difração.

A teoria ondulatória previa que as ondas luminosas poderiam interferir umas com as outras, assim como as ondas sonoras, como observou Thomas Young por volta de 1800. Young realizou muitos experimentos de difração que mostraram o comportamento ondulatório da luz. Em janeiro de 1802, apresentou publicamente sua "lei geral" da interferência no livro A Syllabus of a Course of Lectures on Natural and Experimental Philosophy:

Mas a lei geral que rege todos esses fenômenos pode ser deduzida com muita facilidade da interferência de duas ondulações coincidentes, que se reforçam ou se destroem mutuamente, da mesma maneira que duas notas musicais produzem aumentos e diminuições alternados de intensidade nos batimentos de um uníssono imperfeito.

Young também propôs que as diferentes cores resultavam de diferentes comprimentos de onda da luz e explicou a visão em cores pela existência de receptores sensíveis a três cores no olho.

Em 1816, André-Marie Ampère apresentou a Augustin Jean Fresnel a ideia de que a teoria ondulatória poderia explicar a polarização caso a luz fosse uma onda transversal. Fresnel desenvolveu de forma independente sua própria teoria ondulatória. Apresentou seus primeiros trabalhos sobre difração à Academia de Ciências da França em 1815 e os aperfeiçoou para concorrer ao prêmio proposto em 1817. Siméon Denis Poisson contestou o modelo, pois ele previa um ponto luminoso no centro da sombra de um obstáculo circular, o que parecia contrariar o senso comum. François Arago montou um experimento que mostrou esse ponto luminoso. A objeção de Poisson acabou fornecendo uma nova confirmação experimental da teoria ondulatória. Em 1817, Young escreveu a Arago propondo que a luz consistia em ondas transversais, e não longitudinais como as do som. Fresnel adotou a ideia e mostrou matematicamente que uma teoria de ondas transversais, sem vibração longitudinal, explicava a polarização da luz.

A dificuldade da teoria ondulatória era a necessidade de um meio de transmissão para as ondas luminosas, assim como para as sonoras. A existência do éter luminífero, substância hipotética proposta por Huygens em 1678, foi posta em dúvida no fim do século XIX pela experiência de Michelson-Morley.

A teoria corpuscular de Newton previa que a luz se propagaria mais depressa em um meio mais denso, enquanto a teoria ondulatória de Huygens e de outros físicos previa o contrário. As medições da velocidade da luz ainda não eram precisas o suficiente para decidir qual teoria estava correta. Léon Foucault foi o primeiro a fazer uma medição com a precisão necessária, em 1850. O resultado favoreceu a teoria ondulatória, e a teoria corpuscular clássica foi abandonada. Parte da ideia corpuscular retornaria no século XX, com os fótons da teoria quântica.

Teoria eletromagnética

Uma onda eletromagnética com polarização linear se propaga ao longo do eixo z. E é o campo elétrico, e B é o campo magnético, perpendicular a ele.

Em 1845, Michael Faraday descobriu que o plano de polarização da luz linearmente polarizada gira quando os raios luminosos atravessam um dielétrico transparente na direção de um campo magnético. Esse fenômeno recebeu o nome de efeito Faraday. Foi a primeira demonstração de uma relação entre a luz e o eletromagnetismo. Em 1846, Faraday propôs que a luz poderia ser uma perturbação que se propagava ao longo das linhas do campo magnético. Em 1847, sugeriu que ela era uma vibração eletromagnética de alta frequência, capaz de se propagar mesmo sem um meio como o éter.

O trabalho de Faraday levou James Clerk Maxwell a estudar a radiação eletromagnética e a luz. Maxwell descobriu que ondas eletromagnéticas capazes de se propagar por si mesmas viajariam pelo espaço a uma velocidade constante, igual à velocidade da luz já medida. Concluiu que a luz era uma forma de radiação eletromagnética e apresentou esse resultado em 1862, em On Physical Lines of Force. Em 1873, publicou Tratado sobre Electricidade e Magnetismo, com uma formulação matemática completa do comportamento dos campos elétricos e magnéticos, expressa nas equações de Maxwell. Pouco depois, Heinrich Hertz confirmou experimentalmente a teoria ao gerar e detectar ondas de rádio em laboratório e mostrar que elas apresentavam as mesmas propriedades da luz visível, como reflexão, refração, difração e interferência. A teoria de Maxwell e os experimentos de Hertz levaram diretamente ao desenvolvimento do rádio, do radar, da televisão, da obtenção de imagens por radiação eletromagnética e das comunicações sem fio.

Na teoria quântica, os fótons são compreendidos como pacotes das ondas da teoria clássica de Maxwell. A teoria quântica foi necessária para explicar fenômenos que a teoria clássica não conseguia explicar, mesmo na faixa visível, como as linhas espectrais.

Teoria quântica

Em 1900, ao tentar explicar a radiação de corpo negro, Max Planck propôs que, embora a luz fosse uma onda, ela só poderia ganhar ou perder energia em quantidades finitas relacionadas à sua frequência. Ele chamou essas porções de energia luminosa de "quanta", palavra derivada do latim para "quanto". Em 1905, Albert Einstein usou a ideia dos quanta de luz para explicar o efeito fotoelétrico e propôs que eles tinham existência "real". Em 1923, Arthur Holly Compton mostrou que a mudança de comprimento de onda observada no espalhamento de raios X de baixa intensidade por elétrons, o chamado espalhamento Compton, podia ser explicada por uma teoria corpuscular dos raios X, mas não por uma teoria ondulatória. Em 1926, Gilbert Newton Lewis deu a essas partículas de luz o nome de fótons.

A mecânica quântica passou a conceber a luz, em certo sentido, como partícula e onda e, em outro, como um fenômeno que não corresponde a nenhuma dessas categorias. Partículas e ondas são, na verdade, conceitos macroscópicos, como bolas de beisebol e ondas do mar. Sob determinadas aproximações, a luz pode ser representada pela matemática adequada à analogia com partículas e, em outras, pela matemática da analogia com ondas.

Como ocorre com as ondas de rádio e com os raios X envolvidos no espalhamento Compton, a radiação eletromagnética tende a se comportar mais como uma onda clássica nas frequências baixas e mais como uma partícula clássica nas frequências altas, sem perder inteiramente as propriedades de nenhum dos dois modelos. A luz visível ocupa uma faixa intermediária de frequências. Em experimentos, é fácil mostrar que seu comportamento pode ser explicado por um modelo ondulatório, corpuscular ou, em certos casos, pelos dois.

Em 1924 e 1925, Satyendra Nath Bose mostrou que a luz obedecia a uma estatística diferente da das partículas clássicas. Com Einstein, generalizou esse resultado para um conjunto de partículas de spin inteiro, chamadas de bósons em sua homenagem, que obedecem à estatística de Bose-Einstein. O fóton é um bóson sem massa e de spin 1.

Em 1927, Paul Dirac quantizou o campo eletromagnético. Pascual Jordan e Vladimir Fock generalizaram esse processo para representar sistemas de muitos corpos como excitações de campos quânticos, procedimento que recebeu o nome pouco adequado de segunda quantização. No fim da década de 1940, uma teoria completa da eletrodinâmica quântica foi desenvolvida com campos quânticos a partir dos trabalhos de Julian Schwinger, Richard Feynman, Freeman Dyson e Shinichiro Tomonaga.

Óptica quântica

John Klauder, George Sudarshan, Roy J. Glauber e Leonard Mandel aplicaram a teoria quântica ao campo eletromagnético nas décadas de 1950 e 1960 para compreender melhor a fotodetecção e a estatística da luz, incluindo seu grau de coerência. Desse trabalho surgiu o conceito de estado coerente, que permitiu abordar as diferenças entre a luz laser, a luz térmica e estados incomuns, como os estados comprimidos. Ficou claro que não bastava recorrer aos campos eletromagnéticos da formulação clássica das ondas para explicar completamente a luz. Em 1977, H. Jeff Kimble, M. Dagenais e Leonard Mandel observaram o antiagrupamento de fótons na fluorescência de átomos de sódio, um comportamento que exige a quantização do campo eletromagnético. Depois foram descobertos estados quânticos da luz até então desconhecidos, com propriedades diferentes das dos estados clássicos, como a luz comprimida.

O desenvolvimento de pulsos de laser curtos e ultracurtos, produzidos por técnicas de comutação do fator de qualidade e travamento de modos, abriu caminho para o estudo dos processos ultrarrápidos. Surgiram aplicações na pesquisa do estado sólido, como a espectroscopia Raman, e foram estudadas as forças mecânicas da luz sobre a matéria. Essas forças permitiram suspender e posicionar nuvens de átomos ou pequenas amostras biológicas com um feixe de laser, por meio de uma armadilha óptica ou pinça óptica. Técnicas como o resfriamento Doppler e o resfriamento Sísifo permitem reduzir a temperatura dos átomos com luz laser. A combinação de resfriamento a laser, aprisionamento magnético e resfriamento evaporativo permitiu obter os primeiros condensados de Bose-Einstein em gases atômicos diluídos.

Outros resultados foram a demonstração do emaranhamento quântico, o teletransporte quântico e as portas lógicas quânticas. Essas portas despertam interesse na ciência da informação quântica, área que surgiu em parte da óptica quântica e em parte da ciência da computação teórica.

Uso da luz na Terra

A luz solar fornece a energia que as plantas verdes usam para produzir açúcares, armazenados principalmente na forma de amido, que libera energia para os seres vivos que o digerem. Esse processo, a fotossíntese, fornece praticamente toda a energia usada pelos seres vivos. Algumas espécies animais produzem sua própria luz por bioluminescência. Os vaga-lumes, por exemplo, usam a luz para encontrar parceiros, e as lulas-vampiro, para confundir predadores.

A luz também sincroniza o relógio biológico dos seres humanos com o ciclo de dia e noite. Células ganglionares da retina que contêm melanopsina participam dessa resposta, que regula o ciclo de sono e vigília e a secreção hormonal. Seus efeitos dependem do horário, da intensidade e da composição espectral da luz, além da exposição luminosa anterior.

A iluminação artificial noturna pode alterar esses ciclos e o comportamento de animais, incluindo sua orientação e alimentação. A poluição luminosa também clareia o céu e dificulta a observação das estrelas.

Ver também

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