Aristóteles

Aristóteles
Busto romano de mármore de Aristóteles, baseado em um original grego perdido.
Nascimento384 a.C.
Estagira, Calcídica
Morte322 a.C. (61 ou 62 anos)
Cálcis, Eubeia
Alma materAcademia de Platão
Obra filosófica
EraFilosofia da Grécia Antiga
EscolaEscola peripatética
Principais interessesLógica, filosofia natural, metafísica, ética, política, retórica e Poética
Ideias notáveisSilogismo, quatro causas, hilemorfismo, substância, potência e ato, motor imóvel, doutrina do meio-termo e mimese
Trabalhos notáveisOrganon, Física, Metafísica, Ética a Nicômaco, Política, Retórica e Poética

Aristóteles (em grego antigo: Ἀριστοτέλης, Aristotélēs; 384–322 a.C.) foi um filósofo e polímata da Grécia Antiga. Seus escritos abrangem as ciências naturais, a filosofia, a linguística, a economia, a política, a psicologia e as artes. Fundou a escola peripatética no Liceu de Atenas, dando início à tradição do aristotelismo, que esteve na origem de parte do desenvolvimento posterior das ciências.

Pouco se sabe sobre a vida de Aristóteles. Ele nasceu na cidade de Estagira em Calcídica (norte da Grécia) durante o período clássico. Seu pai, Nicômaco, morreu quando Aristóteles era criança, e ele foi criado por um tutor. Por volta dos dezoito anos, ele ingressou na Academia de Platão em Atenas e lá permaneceu até os trinta e sete anos (por volta de 347 a.C.). Pouco depois da morte de Platão, Aristóteles deixou Atenas e, a pedido de Filipe II da Macedônia, foi tutor de seu filho Alexandre, o Grande a partir de 343 a.C. No Liceu, reuniu uma biblioteca e empreendeu pesquisas em diversas áreas.

Aristóteles escreveu tratados e diálogos destinados à circulação pública. Grande parte de sua produção original perdeu-se: os diálogos sobrevivem sobretudo em fragmentos, enquanto o conjunto de obras conservadas consiste principalmente em tratados técnicos que inicialmente circularam entre seus colegas e alunos. Aristóteles forneceu uma síntese complexa das várias filosofias existentes antes dele. Os seus ensinamentos e métodos de investigação tiveram um impacto significativo em todo o mundo e continuam a ser objeto de discussão filosófica contemporânea.

As opiniões de Aristóteles moldaram profundamente a erudição medieval. A influência de sua física estendeu-se desde a Antiguidade tardia e o Alta Idade Média até o Renascimento, e só começou a ser sistematicamente substituída com o Iluminismo e o desenvolvimento de teorias como a mecânica clássica. Ele influenciou as filosofias judaicas e islâmicas durante a Idade Média, bem como a teologia cristã, especialmente o neoplatonismo da Igreja Primitiva e a tradição escolástica da Igreja Católica. Aristóteles foi reverenciado entre os estudiosos muçulmanos medievais como "O Primeiro Professor", e entre os cristãos medievais como Tomás de Aquino simplesmente como "O Filósofo". Ele foi referido como o primeiro cientista. Suas obras contêm o primeiro estudo sistemático conhecido da lógica e foram estudadas por estudiosos medievais como Pedro Abelardo e Jean Buridan. Sua influência na lógica continuou até o século XIX. Além disso, sua ética, embora sempre influente, ganhou interesse renovado com o advento moderno da ética da virtude.

Vida

Em geral, os detalhes da vida de Aristóteles não estão bem estabelecidos. As biografias escritas nos tempos antigos são frequentemente especulativas e os historiadores concordam apenas em alguns pontos importantes.

Infância e formação em Atenas

Muros e vestígios arqueológicos da antiga Estagira à beira-mar.
As ruínas da antiga Estagira lembram que a cidade natal de Aristóteles era distinta da vila moderna de mesmo nome.

Aristóteles nasceu em 384 a.C. em Estagira, Calcídica, cerca de 55 km a leste da atual Salônica. Ele era filho de Nicômaco, o médico pessoal de Rei Amintas da Macedônia, e Féstis, originária de Cálcis, Eubeia. Diz-se que Nicômaco pertencia à guilda médica de asclepíades e provavelmente foi responsável pelo interesse inicial de Aristóteles pela biologia e medicina. A tradição antiga afirmava que a família de Aristóteles descendia do lendário médico Asclépio e de seu filho Macaão. Ambos os pais de Aristóteles morreram quando ele ainda era jovem e Proxeno de Atarneu tornou-se seu guardião. Embora pouca informação sobre a infância de Aristóteles tenha sobrevivido, ele provavelmente passou algum tempo na capital da Macedônia, Pela, fazendo suas primeiras conexões com a monarquia macedônia.

Aos dezessete ou dezoito anos, Aristóteles mudou-se para Atenas para continuar seus estudos na Academia de Platão. Destacou-se como pesquisador e conferencista; uma tradição posterior lhe atribui o apelido de "mente da escola" dado por Platão. Um fragmento atribuído a Aristóteles apresenta a participação nos Mistérios de Elêusis como uma experiência a ser vivida, e não como uma lição a ser aprendida; o fragmento não comprova que ele próprio tenha sido iniciado. Aristóteles permaneceu em Atenas por quase vinte anos antes de partir em 348/47 a.C. após a morte de Platão. A história tradicional sobre a sua partida registra que ele ficou desapontado com a direção da academia depois que o controle passou para o sobrinho de Platão Espeusipo, embora seja possível que os sentimentos anti-macedônios em Atenas também possam ter influenciado sua decisão.

Assos, Lesbos e a educação de Alexandre

Aristóteles partiu com Xenócrates para Assos na Ásia Menor, onde foi convidado por seu ex-colega Hérmias de Atarneu; ele ficou lá por alguns anos, saindo na época da morte de Hérmias. Enquanto estava em Assos, Aristóteles e seu colega Teofrasto fizeram extensas pesquisas em botânica e biologia marinha, que mais tarde continuaram na ilha próxima de Lesbos. Durante esse período, Aristóteles casou-se com Pítias, filha adotiva e sobrinha de Hérmias, e teve uma filha a quem também chamaram de Pítias. Em Lesbos, onde Teofrasto nascera, os dois prosseguiram as investigações filosóficas e a observação de animais marinhos por aproximadamente dois anos. Os registros não permitem reconstituir em detalhe esse período.

Ruínas do ninfeu de Mieza, local associado ao ensino de Aristóteles a Alexandre.
O ninfeu de Mieza, na Macedônia, é associado às aulas que Aristóteles deu ao jovem Alexandre.

Em 343/42 a.C., Aristóteles foi convidado para Pela por Filipe II da Macedônia para se tornar o tutor de seu filho de treze anos Alexandre; uma escolha talvez influenciada pela relação da família de Aristóteles com a dinastia macedónia. Aristóteles ensinou Alexandre na escola particular de Mieza, nos jardins das Ninfas, a propriedade real perto de Pela. A educação de Alexandre provavelmente incluiu temas como ética e política, além de textos literários padrão, como Eurípides e Homero. É provável que durante o tempo de Aristóteles na corte macedónia, outros nobres proeminentes, como Ptolomeu e Cassandro, tivessem ocasionalmente assistido às suas palestras.

Segundo Plutarco, Aristóteles aconselhou Alexandre a tratar os gregos como seu líder e os demais povos como seu senhor. O biógrafo afirma que Alexandre não seguiu esse conselho, que distinguia os gregos dos chamados "bárbaros". A distinção expressa uma visão etnocêntrica da época. A educação de Alexandre sob a tutela de Aristóteles provavelmente durou apenas alguns anos, pois por volta dos dezesseis anos ele retornou a Pela e foi nomeado regente da Macedônia por seu pai, Filipe. Segundo Plutarco, Alexandre levava consigo uma versão da Ilíada revista por Aristóteles e a guardava junto à adaga sob o travesseiro; o relato não afirma que Aristóteles lhe tenha dado o exemplar. Os estudiosos especulam que duas das obras agora perdidas de Aristóteles, "Sobre a realeza" e "Em nome das Colônias", foram compostas pelo filósofo para o jovem príncipe. Entre o fim provável das aulas a Alexandre e seu regresso a Atenas, por volta de 335 a.C., os movimentos de Aristóteles são pouco conhecidos. Há hipóteses de que tenha permanecido em Estagira ou na Macedônia, mas não é possível acompanhar ano a ano esse período.

O Liceu e os últimos anos

Vestígios de fundações de pedra do antigo Liceu em Atenas.
Os vestígios do Liceu em Atenas situam o lugar onde Aristóteles reuniu seus colaboradores e conduziu pesquisas.

Como meteco, Aristóteles não dispunha dos mesmos direitos de propriedade dos cidadãos atenienses. Ele estabeleceu sua escola no Liceu, uma área pública de exercícios dedicada a Apolo Lício. A designação Peripatética provavelmente se relaciona à existência de uma passagem para caminhadas (peripatos) nas dependências da escola. Aristóteles conduziu cursos e pesquisas na escola durante os doze anos seguintes. Ele frequentemente dava palestras para pequenos grupos de estudantes ilustres e, junto com alguns deles, como Teofrasto, Eudemo e Aristoxeno, Aristóteles construiu uma grande biblioteca que incluía manuscritos, mapas e objetos de museu.

O trabalho no Liceu envolvia colaboradores e abrangia temas tão diversos quanto biologia, astronomia, lógica e história das formas de governo. Aristóteles e sua escola reuniram descrições das constituições de mais de uma centena de comunidades políticas. Quase toda essa coleção se perdeu: a Constituição dos Atenienses é a principal exceção preservada em extensão considerável.

Enquanto estava em Atenas, sua esposa Pítias morreu e Aristóteles estabeleceu uma relação com Herpílis, cuja origem e condição social são discutidas pelos estudiosos. Eles tiveram um filho a quem Aristóteles deu o nome de seu pai, Nicômaco. Foi neste período em Atenas, entre 335 e 323 a.C., que se crê que Aristóteles compôs muitas das suas obras filosóficas. Escreveu muitos diálogos, dos quais apenas sobreviveram fragmentos. As obras que sobreviveram estão na forma de tratado e não foram, em sua maioria, destinadas à publicação generalizada; geralmente são considerados auxiliares de aula para seus alunos. Seus tratados mais importantes incluem Física, Metafísica, Ética a Nicômaco, Política, Da Alma e Poética. Aristóteles estudou e fez contribuições significativas para "lógica, metafísica, matemática, física, biologia, botânica, ética, política, agricultura, medicina, dança e teatro".

A relação entre Aristóteles e Alexandre depois do período de ensino é pouco documentada. Alguns autores sugerem que os dois se distanciaram por divergências sobre a administração das cidades-estado, o tratamento dos povos conquistados, como os persas, e questões filosóficas, como a definição de coragem. Uma especulação generalizada na antiguidade sugeria que Aristóteles desempenhou um papel na morte de Alexandre, mas a única evidência disso é uma afirmação improvável de Hagnothemis feita cerca de seis anos após a morte.

Após a morte de Alexandre, em 323 a.C., o sentimento antimacedônio em Atenas reacendeu-se. Nesse contexto, Demófilo e Eurimedonte, o Hierofante teriam denunciado Aristóteles por impiedade, e ele deixou Atenas em 323 a.C. rumo a Cálcis, na Eubeia, ocasião em que teria declarado "Não permitirei que os atenienses pequem duas vezes contra a filosofia" - uma referência ao julgamento e à execução de Sócrates. Ele morreu em Cálcis, Eubeia de causas naturais em 322 a.C. O testamento preservado por Diógenes Laércio designa Antípatro, seu amigo e regente macedônio, executor geral e pede que os ossos de sua esposa sejam colocados onde o próprio Aristóteles viesse a ser sepultado. O mesmo documento dispõe sobre o sustento de Herpílis e o futuro de seus dois filhos. Menciona pessoas escravizadas que integravam a casa e prevê a libertação de algumas delas, em determinados momentos ou condições. Aristóteles deixou as suas obras a Teofrasto, seu sucessor como chefe do Liceu, que por sua vez as transmitiu a Neleu de Escépsis na Ásia Menor. Segundo um relato antigo, parte dos papéis foi escondida pelos herdeiros de Neleu antes de chegar às mãos do colecionador Apelicão; a ideia de que essa teria sido a única cópia dos tratados é contestada pela pesquisa sobre sua transmissão. Nesse ínterim, muitas cópias das principais obras de Aristóteles já haviam começado a circular e a ser usadas no Liceu de Atenas, Alexandria, e mais tarde em Roma.

Filosofia teórica

Lógica

Detalhe da Escola de Atenas com Platão apontando para cima e Aristóteles indicando a terra.
Platão (à esquerda) e Aristóteles no afresco de Rafael de 1509, A Escola de Atenas. Aristóteles segura sua Ética a Nicômaco e gesticula para a terra, representando sua visão no realismo imanente, enquanto Platão gesticula para os céus, indicando sua Teoria das Formas, e segura sua Timeu.

Com os Analíticos anteriores, Aristóteles é creditado com o primeiro estudo sistemático da lógica, e sua concepção dela foi a forma dominante da lógica ocidental até os avanços do século XIX na lógica matemática. Kant chegou a afirmar na Crítica da Razão Pura que com Aristóteles a lógica atingiu sua conclusão.

Órganon

Os tratados preservados resultam de um longo processo de revisão e transmissão, no qual o próprio Aristóteles, seus colegas e seus alunos podem ter trabalhado em diferentes etapas. A tradição posterior reuniu seis obras lógicas sob o nome de Órganon ("instrumento"); o título coletivo não foi dado por Aristóteles. Andrônico de Rodes, ativo no século I a.C., teve papel importante na organização de seus escritos, mas a data exata e o alcance de sua edição são discutidos. Os seis tratados tradicionalmente reunidos são:

  1. Categorias
  2. Da Interpretação
  3. Analíticos anteriores
  4. Analíticos posteriores
  5. Tópicos
  6. Refutações sofísticas

A sequência tradicional organiza os tratados para o estudo, sem estabelecer a ordem em que Aristóteles os escreveu. Ela vai da análise de termos simples nas Categorias e das proposições em Da Interpretação à investigação de silogismos e demonstrações nos Analíticos, e da dialética nos Tópicos e nas Refutações Sofísticas. A Retórica fica fora desse conjunto, embora o próprio texto se relacione com os Tópicos.

Silogismo

Um dos tipos de silogismo
Em palavrasEm
termos
Nas equações
Todos os homens são mortais.

Todos os gregos são homens.

∴ Todos os gregos são mortais.
M a P

S a M

S a P
Fórmulas da inferência silogística Barbara.

O que hoje é chamado de lógica aristotélica com seus tipos de silogismo (métodos de argumento lógico), o próprio Aristóteles teria rotulado de "analítica". O termo "lógica" ele reservou para significar "dialética".

Demonstração

A Análise Posterior de Aristóteles apresenta seu relato da demonstração, ou conhecimento demonstrativo. O tema hoje seria estudado também pela epistemologia, mas, para Aristóteles, está estreitamente ligado ao silogismo. Na demonstração científica, a conclusão deve decorrer necessariamente dos princípios e tornar conhecida a causa do fato investigado.

Metafísica

Fólio manuscrito grego com o texto da Metafísica de Aristóteles.
Um fólio grego da Metafísica, obra em que Aristóteles investiga os princípios mais gerais do ser.

A palavra "metafísica" vem do título de uma coleção de obras de Aristóteles com esse título. No entanto, o próprio Aristóteles não usou esse termo, o que se deve a um compilador posterior, mas em vez disso o chamou de "filosofia primeira" ou Teologia. Ele distinguiu isso como "o estudo do ser enquanto ser" que, ao contrário de outros estudos do ser, como a matemática e as ciências naturais, estuda aquilo que é eterno, imutável e imaterial. Na Metafísica (1026a16), escreveu:

Se não existissem outras coisas independentes além das naturais compostas, o estudo da natureza seria o tipo primário de conhecimento; mas se existe alguma coisa imóvel e independente, o conhecimento desta a precede e é filosofia primeira, e é universal "exatamente desta maneira", porque é primeira. E pertence a este tipo de filosofia estudar o ser como ser, tanto o que é como o que lhe pertence apenas em virtude de ser.

Aristóteles discute na Metafísica conceitos de causa primária e arché, Deus e divindades, comparando e analisando relatos dos anteriores fisiólogos gregos e dos chamados theologoi (teólogos). Uma postulação que considerou necessária foi a de Motor Imóvel. Seu pensamento influenciou toda a filosofia medieval posterior na teologia das religiões abraâmicas, mas principalmente nas ciências, pela chamada filosofia natural.

Substância

Aristóteles examina os conceitos de substância (ousia) e essência (to ti ên einai, literalmente "o que era ser") na Metafísica (livro VII). Sua investigação da substância particular relaciona matéria e forma na teoria chamada hilemorfismo.No livro VIII, ele distingue a matéria da substância como substrato, ou o material de que é composta. Para ele, a matéria propriamente dita é chamada prima materia, sem qualidades, que receberá as formas. Por exemplo, a matéria de uma casa são os tijolos, as pedras, as madeiras etc., ou o que quer que constitua a casa em potencial, enquanto a forma da substância é a casa real, ou seja, "abrangendo corpos e bens imóveis" ou qualquer outra diferença que permita nós definirmos algo como uma casa. A fórmula que fornece os componentes é o relato da matéria, e a fórmula que fornece a diferenciação é o relato da forma.

Realismo imanente

Como seu professor Platão, a filosofia de Aristóteles visa o universal. A ontologia de Aristóteles enfatizava o universal (katholou) nos particulares (kath 'hekaston), coisas no mundo. Platão enfocava no universal enquanto forma existente separadamente, o qual as coisas reais imitam. Para Aristóteles, a "forma" ainda é a base dos fenômenos, mas é "instanciada" em uma substância específica. Uma substância primária é vista como possuindo a forma imanente na matéria. Sua sustentação da metafísica com pés firmes no empirismo postulou que os fenômenos devem ser observados para se definir quais são suas causas, por exemplo o movimento eterno dos astros na esfera celeste, e avançou defesas pela experiência, em continuidade ao que já aparecia nos pré-socráticos e às propostas socráticas nos diálogos platônicos, de que se deveria proceder induzindo para a verificação dos universais. Segundo Lambertus Marie de Rijk: "Ele toma seu ponto de partida da ousia sensível. Sua expressão desse objetivo é acompanhada de uma elaboração da ideia mencionada anteriormente (1029a32) de que, embora as condições ônticas primárias ou os primeiros princípios das coisas não sejam o que é familiar imediatamente, todo aprendizado deve proceder por indução daquilo que nos é familiar e daquilo que é inteligível em si." Esse projeto aristotélico foi traduzido em relatos antigos até a ciência da modernidade com a asserção de se "resgatar as aparências" (em grego, σῴζειν τὰ φαινόμενα, sôzein ta phainomena; "salvar os fenômenos") — fenômenos sendo os dados da sensopercepção psíquica que aparecem na mente, qualias como som, cor, sentido de palavras etc., observados e inteligíveis, em um estado de conhecimento pré-demonstrativo, que podem ser coligidos em faculdades cognitivas tais como endoxa (formação de opinião) e empeiria (experiência).

Platão argumentou que todas as coisas têm uma forma universal, que pode ser uma propriedade ou uma relação com outras coisas. Quando olhamos para algo de cor vermelha, por exemplo, vemos um vermelho e também podemos analisar a forma do vermelho. Nesta distinção, há um vermelho específico e uma forma universal do vermelho (da qual todas as outras coisas vermelhas também participam). Além disso, podemos colocar uma coisa vermelha ao lado de um objeto azul, de modo que possamos falar de vermelho e azul como próximos um do outro. Platão argumentou que há uma distinção que separa o ser de uma coisa particular da verdadeira essência ôntica da Forma Ideal, transcendente — um vermelho imanente em uma instância não é o Vermelho real em si. Por conta dessa separação, Platão argumentou que existem algumas formas universais que podem não estar fazendo parte de coisas particulares. Por exemplo, é possível que não exista um bem particular, mas a Ideia do Bem ainda assim é uma forma universal adequada. Aristóteles discordou de Platão neste ponto, argumentando que todos os universais são instanciados em algum período de tempo. Aristóteles enfatizava que é possível obter verdadeiro conhecimento a partir das substâncias dos objetos sensíveis, o que Platão também concordava, mas considerando como conhecimento maior e mais real aquele das Ideias.

Além disso, Aristóteles discordou de Platão sobre a localização dos universais. Onde Platão falava do Mundo das Ideias transcendente, um lugar em que todas as formas universais subsistem, Aristóteles sustentava que os universais existem dentro de uma coisa subsistente (hypokeimenon) que contém as formas, expressando-as enquanto causa formal. Para ele, nada do que é universal é uma entidade subsistente. Portanto, de acordo com Aristóteles, a forma do vermelho existe dentro dos compostos forma-matéria com capacidade de serem coisas vermelhas.

"Segue-se claramente que nada universalmente atribuível existe além dos particulares. Mas aqueles que acreditam nas Formas, embora tenham razão em separá-las — desde que sejam entidades subsistentes — assumem erroneamente que o 'um sobre muitos' é uma forma. A causa do seu erro é a sua incapacidade de nos dizer quais são as ousiai (substâncias) desse tipo, aquelas ousiai imperecíveis que existem sobre e além dos sensíveis particulares. Eles os tornam, então, iguais em espécie aos sensíveis, pois esse tipo de ousia é familiar para nós, acrescentando o epíteto 'em si', como em 'Homem-em-si' e 'Cavalo-em-si'" –Metafísica 1040b

Apesar dessa reformulação crítica do que seria propriamente uma forma e a análise da substância e suas categorias visíveis, alguns estudiosos consideram que Aristóteles não abandonou em absoluto a teoria das Ideias transcendentes de Platão, pois ao longo de suas obras descreveu características que não estão manifestas em um objeto atual, por exemplo em sua teleologia ou implícito na sua teoria de Deus como um intelecto pensante.

Potência e ato

Ao tratar da mudança (kínēsis) e de suas causas na Física e em Sobre a geração e a corrupção (319b–320a), Aristóteles distingue o vir-a-ser (gênese, também traduzido como "geração") de:

  1. crescimento e diminuição, que é mudança na quantidade;
  2. locomoção, que é mudança no espaço; e
  3. alteração, que é mudança de qualidade.
Detalhe de vaso grego com uma pessoa tocando flauta.
Aristóteles argumentou que uma capacidade como tocar flauta poderia ser adquirida — o potencial tornado real — através da aprendizagem.

O vir-a-ser é uma mudança onde o próprio substrato da coisa que sofreu a mudança mudou. Nessa mudança particular ele introduz o conceito de potencialidade (dynamis) e atualidade (entelecheia) em associação com a matéria e a forma. Referindo-se à potencialidade, isto é o que uma coisa é capaz de fazer ou de sofrer ação se as condições forem adequadas e não for impedida por outra coisa. Por exemplo, a semente de uma planta no solo é potencialmente ("dynamei") uma planta, e se não for impedida por alguma coisa, se tornará uma planta. Potencialmente, os seres podem 'agir' (poiein) ou 'receber a ação' (paschein), o que pode ser inato ou aprendido. Por exemplo, os olhos possuem a potencialidade da visão (inata – receber ação), enquanto a capacidade de tocar flauta pode ser adquirida através da aprendizagem (exercício – atuação). A atualidade é a realização do fim da potencialidade. Porque o fim (telos) é o princípio de toda mudança, e a potencialidade existe em prol do fim, a atualidade, portanto, é o fim. Referindo-nos então ao exemplo anterior, pode-se dizer que há atualidade quando uma planta realiza uma das atividades que as plantas realizam.

Aquilo em vista do qual uma coisa existe é seu princípio, e o vir-a-ser ocorre em vista do fim; o ato é o fim, e é em vista dele que se adquire a potência. Pois os animais não veem para adquirir visão, mas possuem visão para ver.

Em resumo, a matéria utilizada para fazer uma casa tem potencial para ser uma casa e tanto a atividade de construção como a forma da casa final são atualidades, o que é também uma causa final ou fim. Então Aristóteles prossegue e conclui que a atualidade é anterior à potencialidade na fórmula, no tempo e na substancialidade. Com esta definição da substância particular (isto é, matéria e forma), Aristóteles tenta resolver o problema da unidade dos seres, por exemplo, "o que é que torna o homem um"? Visto que, segundo Platão existem duas Ideias: animal e bípede, como então o homem é uma unidade? Porém, segundo Aristóteles, o ser potencial (matéria) e o ser real (forma) são um e o mesmo.

Motor imóvel

Na Física VIII, Aristóteles argumenta que o movimento eterno exige uma causa primeira que mova sem ser movida. Na Metafísica XII, descreve esse motor imóvel como uma substância separada, eterna e em ato, que move como objeto do desejo e do pensamento, isto é, como fim. Sua atividade é a contemplação de si mesmo, expressa pela fórmula "pensamento do pensamento". A relação precisa entre esse princípio e os movimentos dos corpos celestes é objeto de discussão entre intérpretes.

Filosofia natural

Diagrama de uma tora em chamas identificando fogo, ar, água e terra.
Os quatro elementos clássicos (fogo, ar, água e terra) de Empédocles e Aristóteles, ilustrados por uma tora em chamas. A tora libera os quatro elementos ao se consumir.

A filosofia natural de Aristóteles investiga os seres e os processos da natureza, em assuntos hoje estudados pela física e pela biologia. Ele distingue os saberes teóricos, voltados ao conhecimento (como a física, a matemática e a filosofia primeira), dos práticos, voltados à ação (como a ética e a política), e dos produtivos, voltados à elaboração de algo (como discursos e obras poéticas). Essa classificação antiga não corresponde à divisão atual das ciências.

Matemática e infinito

Para Aristóteles, os objetos matemáticos podem ser estudados mediante a abstração de propriedades dos corpos sensíveis, como sua matéria e seu movimento, sem que por isso precisem existir separados deles. Ele distingue o infinito potencial, presente na possibilidade de continuar uma divisão ou uma contagem, de um infinito completo e existente em ato, cuja realidade rejeita nesse contexto.

Física

Cinco elementos

Em Sobre a geração e a corrupção, Aristóteles relacionou cada um dos quatro elementos propostos anteriormente por Empédocles, terra, água, ar e fogo, a duas das quatro qualidades sensíveis, quente, frio, úmido e seco. No esquema de Empédocles, toda a matéria era composta pelos quatro elementos, em proporções diferentes. O esquema de Aristóteles adicionou o éter celestial, a substância divina das esferas celestes, estrelas e planetas.

Elementos de Aristóteles
ElementoQuente/FrioÚmido/SecoMovimento natural
TerraFrioSecoPara baixo
ÁguaFrioÚmidoPara baixo
ArQuenteÚmidoPara cima
FogoQuenteSecoPara cima
Éter(substância
divina)
NenhumCircular
(nos céus)

Esses elementos eram categorias da filosofia natural antiga; não correspondem aos estados físicos da matéria definidos pela ciência moderna.

Movimento

Aristóteles descreve dois tipos de movimento: "movimento violento" ou "movimento não natural", como o de uma pedra atirada, na Física (254b10), e "movimento natural", como o de um objeto em queda, em Sobre o Céu (300a20). Para que o movimento violento continue, a ação de um agente precisa continuar, ainda que Aristóteles atribua ao meio circundante um papel na propagação do movimento após o contato inicial. Essa descrição difere da primeira lei de Newton, segundo a qual um corpo mantém sua velocidade na ausência de força resultante. Em uma apresentação simplificada da ideia aristotélica, objetos mais pesados exigem maior força para serem movidos, enquanto uma força maior acompanha uma velocidade maior. Essa simplificação costuma ser expressa como

F=mv,

o que não é uma lei geral da física moderna.

O movimento natural depende do elemento em questão: o éter se move naturalmente em um círculo ao redor dos céus, enquanto os quatro elementos de Empédocles se movem verticalmente para cima (como o fogo, como é observado) ou para baixo (como a terra) em direção aos seus locais de repouso naturais.

Diagrama das trajetórias e velocidades naturais de corpos segundo a física aristotélica.
As leis do movimento de Aristóteles. Em Física ele afirma que os objetos caem a uma velocidade proporcional ao seu peso e inversamente proporcional à densidade do fluido em que estão imersos. Rovelli defende que parte dessa descrição aproxima o movimento de corpos em fluidos em condições delimitadas, como a queda após atingir velocidade terminal.

Em Física (215a25), uma leitura quantitativa da passagem representa esquematicamente a velocidade v de um corpo em queda como proporcional ao seu peso W e inversamente proporcional à densidade, ρ, do fluido pelo qual cai; a constante c nessa expressão moderna depende de outras condições, como a forma do corpo:

v=cWρ

Aristóteles implica que em um vácuo a velocidade de queda se tornaria infinita, e conclui desse aparente absurdo que um vácuo não é possível. As opiniões variam sobre se Aristóteles pretendia estabelecer leis quantitativas. Henri Carteron sustentou a "visão extrema" de que o conceito de força de Aristóteles era basicamente qualitativo, mas outros autores rejeitam isso.

Arquimedes corrigiu a teoria de Aristóteles de que os corpos se movem em direção aos seus locais de repouso naturais; barcos de metal podem flutuar se deslocarem água suficiente; a flutuação depende, no esquema de Arquimedes, da massa e do volume do objeto, e não, como pensava Aristóteles, de sua composição elementar.

Os escritos de Aristóteles sobre o movimento permaneceram influentes até o início da Idade Moderna. Diz-se que João Filopono (na Antiguidade tardia) e Galileu (no início do período moderno) mostraram por experimento que a afirmação de Aristóteles de que um objeto mais pesado cai mais rápido do que um objeto mais leve está incorreta. Carlo Rovelli argumenta que certos resultados de Aristóteles aproximam a descrição moderna da queda após se alcançar uma velocidade constante em um fluido, dentro de um domínio de validade, que envolve corpos no campo gravitacional da Terra imersos em um fluido como o ar ou a água. Para objetos comparáveis em forma e tamanho, a resistência do fluido pode fazer os mais pesados atingirem uma velocidade terminal maior; a queda também depende das propriedades do meio.

O movimento "forçado" de Isaac Newton corresponde ao movimento "violento" de Aristóteles com seu agente externo, mas a suposição de Aristóteles de que o efeito do agente para imediatamente quando ele para de agir (por exemplo, a bola sai da mão do lançador) tem consequências estranhas: ele tem que supor que o fluido circundante ajuda a empurrar a bola para fazê-la continuar a subir, mesmo que a mão não esteja mais agindo sobre ela, resultando na teoria do ímpeto medieval.

Quatro causas

Diagrama de uma mesa que identifica matéria, forma, agente e finalidade.
Aristóteles argumentou, por analogia com a marcenaria, que uma coisa toma sua forma a partir de Quatro causas: no caso de uma mesa, a madeira usada (causa material), seu design (causa formal), as ferramentas e técnicas usadas (causa eficiente) e sua finalidade decorativa ou prática (causa final).

Aristóteles distinguiu entre quatro "causas" diferentes (em grego clássico: αἰτία, aitia) ou explicações sobre por que um objeto existe ou muda:

  • A causa material descreve o material do qual algo é composto. Assim, a causa material de uma mesa de madeira é a madeira de que ela é feita.
  • A causa formal é a sua forma, ou seja, a disposição daquela matéria, o desenho da mesa independente do material específico de que é feita.
  • A causa eficiente é "a fonte primária", a definição moderna de "causa" como o agente ou agência de eventos ou estados de coisas particulares. No caso de dois dominós, quando o primeiro é derrubado, "faz" com que o segundo caia. No caso de um animal, esta agência é uma combinação de como ele se desenvolve a partir do ovo e como seu corpo funciona.
  • A causa final (telos) é o seu propósito, a razão pela qual existe ou é feito, ou função que algo deve servir. No caso dos seres vivos, implica adaptação a um determinado modo de vida.

Óptica

Aristóteles conhecia a óptica pitagórica. Utilizou a óptica na sua Meteorologia, tratando-a como uma ciência. Ele via a óptica como uma afirmação das leis da visão, combinando assim o que hoje é tratado como física e biologia. O processo de ver envolvia o movimento de uma forma visível desde a coisa vista através do ar (ou outro meio) até o olho, onde a forma repousa. Aristóteles não analisa a natureza deste movimento; ele não antecipa Óptica geométrica.

Acaso e espontaneidade

Segundo Aristóteles, a espontaneidade e o acaso explicam alguns acontecimentos que não se dão por necessidade nem para um fim pretendido. O acaso envolve uma causa incidental: uma ação realizada com certo propósito pode produzir por coincidência outro resultado. Um caso mais específico, que ele chama de "sorte", diz respeito a acontecimentos fortuitos na esfera das ações humanas deliberadas.

Astronomia

Diagrama antigo do cosmos geocêntrico com a Terra no centro das esferas celestes.
Representação posterior do cosmos geocêntrico e das esferas celestes discutidas na tradição aristotélica.

Em astronomia, Aristóteles refutou a afirmação de Demócrito de que a Via Láctea era composta "daquelas estrelas que são protegidas pela terra dos raios do sol", apontando parcialmente corretamente que se "o tamanho do sol é maior que o da terra e a distância das estrelas da terra muitas vezes maior que a do sol, então... o sol brilha sobre todas as estrelas e a terra não protege nenhuma delas." Ele também escreveu descrições de cometas, incluindo o Grande Cometa de 371 a.C..

Geologia e ciências naturais

Aristóteles foi uma das primeiras pessoas a registrar quaisquer observações geológicas. Ele afirmou que mudança geológica era muito lenta para ser observada durante a vida de uma pessoa.

Vista aérea da ilha vulcânica de Stromboli no mar Tirreno.
Aristóteles observou que o nível do solo das ilhas Eólias mudou antes de uma erupção vulcânica.

O geólogo Charles Lyell observou que Aristóteles descreveu tal mudança, incluindo "lagos que secaram" e "desertos que foram irrigados por rios", dando como exemplos o crescimento do Delta do Nilo desde a época de Homero, e "a reviravolta de uma das ilhas Eólias, anterior a uma erupção vulcânica."

Meteorologia empresta seu nome ao estudo moderno da meteorologia, mas seu uso moderno diverge do conteúdo do antigo tratado de Aristóteles sobre meteoros. Os antigos gregos usavam o termo para uma série de fenômenos atmosféricos, mas também para terremotos e erupções vulcânicas. Aristóteles propôs que a causa dos terremotos era um gás ou vapor (anathymiaseis) que ficou preso dentro da terra e tentou escapar, seguindo outros autores gregos Anaxágoras, Empédocles e Demócrito.

Aristóteles também tratou do ciclo da água. Na Meteorologia, afirmou ter observado por experiência que a evaporação da água salgada produz vapor que, ao se condensar, forma água doce; descreveu ainda a chuva como parte do retorno dessa água ao mar.

Biologia

Pesquisa empírica

Vista aérea do golfo de Kalloni, na ilha de Lesbos.
O golfo de Kalloni, em Lesbos, está ligado às observações de animais marinhos descritas por Aristóteles.

Aristóteles foi a primeira pessoa a estudar biologia sistematicamente, e a biologia constitui uma grande parte de seus escritos. Ele passou dois anos observando e descrevendo a zoologia de Lesbos e dos mares circundantes, incluindo em particular a lagoa Pirra no centro de Lesbos. Seus dados em História dos Animais, Geração de Animais, Movimento dos Animais e Partes dos Animais são de suas próprias observações, declarações de pessoas conhecedoras, como apicultores e pescadores, e relatos de viajantes. A sua aparente ênfase nos animais em vez das plantas é um acidente histórico: os seus trabalhos sobre botânica foram perdidos, mas dois livros sobre plantas do seu aluno Teofrasto sobreviveram.

Polvo com um braço especializado na reprodução.
A observação do braço hectocótilo dos cefalópodes ilustra a atenção de Aristóteles às formas de reprodução dos animais marinhos.

Aristóteles relata a vida marinha a partir da observação de Lesbos e das capturas dos pescadores. Ele descreve o bagre, raia elétrica e peixe-sapo, bem como Cefalópodes, como o Polvo e o nautilus de papel. Sua descrição do braço hectocótilo dos cefalópodes, usado na reprodução sexuada, foi amplamente desacreditada até o século XIX. Ele dá descrições precisas dos estômagos de quatro câmaras de Ruminantes, e do desenvolvimento embriológico ovovivíparo do tubarão-cão.

Ele observa que a estrutura de um animal é bem adaptada para funcionar, de modo que a garça tem um pescoço longo, pernas longas e um bico afiado em forma de lança, enquanto os patos têm pernas curtas e pés palmados. Darwin, também notou tais diferenças, mas ao contrário de Aristóteles usou os dados para chegar à teoria da Evolução. Os escritos de Aristóteles podem parecer implicar evolução, mas Aristóteles via mutações ou hibridizações como acidentes raros, distintos de causas naturais. Ele criticou, portanto, a teoria de Empédocles de uma origem da "sobrevivência dos mais aptos" dos seres vivos e de seus órgãos, e ridicularizou a ideia de que acidentes poderiam levar a resultados ordenados. Em termos modernos, ele em nenhum lugar diz que espécies diferentes podem ter um ancestral comum, que uma espécie pode transformar-se em outra, ou que espécies podem se tornar extintas.

Reprodução e desenvolvimento

Embrião de galinha visível dentro de um ovo aberto.
Ao acompanhar o desenvolvimento em ovos de galinha, Aristóteles descreveu o coração do embrião em formação.

Em Geração de Animais, Aristóteles procura explicar a formação dos animais a partir das contribuições de ambos os progenitores. Em sua teoria, a fêmea fornece a matéria do embrião e o macho fornece o princípio do movimento e da forma que organiza seu desenvolvimento. Trata-se de uma explicação histórica da geração animal, diferente dos conhecimentos atuais sobre reprodução e hereditariedade.

Método de investigação

Aristóteles não fez experimentos no sentido moderno. Fez observações ou, quando muito, procedimentos de investigação como a dissecação. Na História dos Animais (VI, 3), descreve o desenvolvimento do embrião de galinha observado ao abrir ovos incubados e o movimento de seu coração.

Dois gráficos de relações entre massa corporal, tamanho da ninhada e duração da gestação.
Aristóteles inferiu leis de crescimento a partir de suas observações sobre animais, incluindo que o tamanho da ninhada diminui com a massa corporal, enquanto o período de Gestação aumenta.

Em vez disso, ele reuniu dados sistematicamente, descobrindo padrões comuns a grupos inteiros de animais e inferindo possíveis explicações causais a partir deles. Este estilo é comum na biologia moderna quando grandes quantidades de dados se tornam disponíveis em um novo campo, como genômica. Isso estabelece hipóteses testáveis ​​e constrói uma explicação narrativa do que é observado. Nesse sentido, a biologia de Aristóteles é científica.

A partir de seus dados, Aristóteles inferiu regras relacionando as características da história de vida dos tetrápodes vivos (mamíferos placentários terrestres) que ele estudou. Ele previu corretamente que o tamanho da ninhada diminui com a massa corporal; que a vida útil aumenta com o período de gestação e com a massa corporal; e que a fecundidade diminui com a expectativa de vida.

Classificação dos seres vivos

Desenho de um embrião de cação unido ao saco vitelino por um cordão.
Aristóteles registrou que o embrião de um cação estava preso por um cordão ao saco vitelino, estrutura comparada a uma placenta; a observação mostra por que seus grupos de animais não se deixam dispor numa escala rígida.

Aristóteles distinguiu cerca de 500 espécies animais, e as comparou segundo características como a reprodução. Essas comparações costumam ser apresentadas como uma escala de perfeição não religiosa, com o homem no topo. Trata-se de uma representação didática: Aristóteles empregou diferentes ordenações conforme a questão investigada, sem fixar todos os animais em uma única classificação linear. Numa ordenação ligada à reprodução, os grupos superiores davam à luz filhotes vivos, enquanto outros depositavam ovos. Ele agrupou o que um zoólogo chamaria de vertebrados como "animais com sangue" e invertebrados como "animais sem sangue". Aqueles com sangue foram divididos em reprodutores vivos (mamíferos) e poedeiros (aves, répteis, peixes). Aqueles sem sangue eram insetos, crustáceos e moluscos de casca dura. Ele reconheceu que os animais não cabiam exatamente em uma escala e notou exceções, como o fato de os tubarões terem uma placenta. Para um biólogo, a explicação é evolução convergente. Os filósofos da ciência concluíram que Aristóteles não estava interessado em taxonomia, mas os zoólogos pensam o contrário.

Representação didática da scala naturae associada a Aristóteles (do mais alto ao mais baixo)
GrupoExemplos
(dados por Aristóteles)
SanguePernasAlmas
(Racional,
Sensível,
Vegetativa)
Qualidades
(Quente–Frio,
Úmido–Seco)
HomemHomemcom sangue2 pernasR, S, VQuente, úmido
tetrápodes vivíparosGato, Lebrecom sangue4 pernasS, VQuente, úmido
CetáceosGolfinho, baleiacom sanguenenhumS, VQuente, úmido
avesAbelharuco, Noitibócom sangue2 pernasS, VQuente, úmido, exceto ovos secos
Tetrápodes que põem ovoscamaleão, Crocodilocom sangue4 pernasS, VFrio, úmido, exceto escamas, ovos
CobrasCobra d'água, víbora-otomanacom sanguenenhumS, VFrio, úmido, exceto escamas, ovos
peixes ovíparosrobalo, peixe-papagaiocom sanguenenhumS, VFrio, úmido, incluindo ovos
(Entre os peixes que põem ovos):
placentários seláquios
Tubarão, raiacom sanguenenhumS, VFrio, úmido, mas Placenta como tetrápodes
CrustáceosCamarão, caranguejosemmuitas pernasS, VFrio, úmido, exceto casca
CefalópodesLula, PolvosemtentáculosS, VFrio, úmido
Animais de casca duraBerbigão, caracol trompetesemnenhumS, VFrio, Seco (casca mineral)
Insetos portadores de larvasFormiga, Cigarrasem6 pernasS, VFrio, Seco
Geração espontâneaEsponjas, vermessemnenhumS, VFrio, úmido ou seco, da terra
PlantasfigueirasemnenhumVFrio, Seco
MineraisFerrosemnenhumnenhumFrio, Seco

Psicologia

Alma

Diagrama em três níveis das capacidades vegetativa, sensitiva e racional.
Aristóteles propôs uma estrutura da alma de três partes de plantas, animais e humanos, tornando os humanos únicos por terem todos os três tipos de alma.

A psicologia de Aristóteles, em seu tratado Da Alma (peri psychēs), postula três tipos de alma (psyches): o vegetativo, o sensível e o racional. Os humanos têm todos os três. A alma vegetativa está preocupada com o crescimento e a nutrição. A alma sensível experimenta sensações e movimentos. A alma exclusivamente humana e racional recebe formas de coisas e as compara usando o nous (intelecto) e logos (razão).

Para Aristóteles, a alma é a forma de um ser vivo. Como todos os seres são compostos de forma e matéria, a forma dos seres vivos é aquela que lhes confere o que é específico dos seres vivos, por exemplo, a capacidade de iniciar o movimento. Ao contrário dos filósofos anteriores, mas de acordo com os egípcios, ele colocou a alma racional no coração. Aristóteles distinguiu sensação e pensamento, ao contrário dos filósofos anteriores, exceto Alcmaeon.

Em Da Alma, Aristóteles critica a teoria da alma de Platão e desenvolve a sua própria em resposta. Primeiro, ele critica o Timeu de Platão, que afirma que a alma ocupa espaço e pode entrar em contato físico com os corpos. Os estudiosos do século XX sustentavam que Aristóteles havia aqui interpretado mal Platão. Aristóteles também argumentou que a visão de Platão sobre a reencarnação implica que uma alma e seu corpo podem ser incompatíveis; em princípio, alega Aristóteles, qualquer alma pode acompanhar qualquer corpo, de acordo com a teoria de Platão.

Memória

No tratado Sobre a memória e a reminiscência, distinto de Da Alma, Aristóteles afirma que a memória diz respeito ao passado: percebemos o presente, esperamos o futuro e lembramos algo que já ocorreu. Para explicar como se pode recordar um objeto ausente, ele compara a imagem mental (phantasma) à marca deixada por um selo na cera. Em sua teoria, essa impressão envolve uma parte do corpo ligada à percepção; trata-se de um modelo antigo, e não de uma descrição da memória segundo a neurociência atual.

Para Aristóteles, lembrar inclui reconhecer uma imagem mental como imagem de algo percebido ou pensado anteriormente. Ele compara esse reconhecimento ao ato de ver um retrato como representação de uma pessoa ausente. Uma imagem tomada apenas por si mesma pode aparecer como pensamento ou fantasia; percebida como vestígio de uma experiência passada, ela participa da memória.

A reminiscência, ou busca deliberada de uma lembrança, é diferente da simples conservação de uma experiência. Quem tenta recordar parte de algo que conhece e segue uma sequência de ideias até alcançar o que procura. O tratado menciona percursos por semelhança, oposição ou proximidade entre as experiências; Aristóteles também associa a memória à percepção do tempo e admite que outros animais possam lembrar, ao passo que atribui aos seres humanos a busca deliberada de recordações.

Fluxograma de percepção, memória, sonho e ação no esquema aristotélico.
Sentidos, percepção, memória, sonhos e ação na psicologia de Aristóteles. As impressões são armazenadas no sensório (o coração), ligadas por suas leis de associação (similaridade, contraste e contiguidade).

Aristóteles descreve a busca de uma recordação como uma passagem entre imagens ou ideias ligadas por semelhança, oposição ou proximidade. A prática e a ordem em que se aprenderam as coisas podem facilitar esse percurso; ele exemplifica a sequência com uma pessoa que parte de "leite", chega a "branco", passa por "névoa" e então lembra uma estação do ano.

Sonhos

Aristóteles examina o sono em Sobre o sono e a vigília. Ele o relaciona ao funcionamento dos sentidos e a processos corporais que incluem a digestão, dentro de sua fisiologia antiga. Em Sobre os sonhos, distingue o sonho da percepção ordinária e observa que, durante o sono, uma pessoa pode ter pensamentos e até perceber fracamente sons ou luzes, embora isso não torne toda impressão noturna um sonho.

Segundo Sobre os sonhos, estímulos percebidos antes de dormir podem deixar movimentos residuais nos órgãos dos sentidos. Aristóteles compara esse efeito à impressão que persiste depois que se desvia o olhar de uma superfície em movimento. Durante o sono, tais impressões podem aparecer como imagens, e a pessoa adormecida pode confundi-las com objetos reais; às vezes, porém, percebe que está sonhando. Para ele, sonhar envolve a faculdade da imaginação, ou phantasia, discutida também em Da Alma.

Em Sobre a adivinhação pelos sonhos, Aristóteles rejeita a ideia de que os sonhos sejam enviados pelos deuses para anunciar o futuro. Ele admite que algumas imagens noturnas possam refletir pequenas alterações do corpo ou influenciar ações posteriores; considera coincidências a maior parte dos sonhos tidos como proféticos, sobretudo os que parecem anunciar acontecimentos distantes sem relação com quem sonha.

Filosofia prática

A filosofia prática de Aristóteles trata da ação humana, especialmente da ética e da política; as discussões econômicas aparecem em obras como a Política. Ele classifica a retórica entre os saberes voltados à produção de discursos.

Disposições discutidas na Ética a Nicômaco II, 7, entre falta, medida adequada e excesso
DeficiênciaMeio-termo virtuosoExcesso
Humildade indevidaMagnanimidadeVanglória
Falta de ambiçãoMedida adequada na busca de honrasAmbição excessiva
Falta de reação à iraBom temperamentoIrascibilidade
RispidezAfabilidadeObsequiosidade
CovardiaCoragemTemeridade
InsensibilidadeTemperançaIntemperança
Falsa modéstiaSinceridadeJactância
BoçalidadeEspirituosidadeBufonaria
Malícia diante da boa fortuna alheiaJusta indignaçãoInveja
Mesquinhez nos grandes gastosMagnificênciaOstentação vulgar
AvarezaLiberalidadeProdigalidade

Ética

Página manuscrita iluminada do livro VI da Ética a Nicômaco.
O livro VI da Ética a Nicômaco, aqui em uma cópia manuscrita posterior, trata das virtudes intelectuais e da sabedoria prática.

Aristóteles era um eticista da virtude que considerava a ética um estudo prático e não teórico, ou seja, um estudo que visa tornar-se bom e fazer o bem, em vez de saber por si só. Ele escreveu vários tratados sobre ética, principalmente incluindo a Ética a Nicômaco.

Aristóteles ensinou que a virtude tem a ver com a função adequada (ergon) de uma coisa. Um olho só é um olho bom na medida em que pode ver, porque a função adequada de um olho é a visão. Aristóteles argumentou que os humanos devem ter uma função específica dos humanos, e que esta função deve ser uma atividade da psychē (alma) de acordo com a razão (logos). Aristóteles identificou tal atividade ótima (o meio-termo virtuoso, entre os vícios acompanhantes de excesso ou deficiência) da alma como o objetivo de toda ação deliberada humana, eudaimonia, geralmente traduzida como "felicidade" ou às vezes "bem-estar". Ter o potencial de ser feliz desta forma requer necessariamente um bom caráter (ēthikē aretē), muitas vezes traduzido como virtude ou excelência moral ou ética.

Aristóteles ensinou que para alcançar um caráter virtuoso e potencialmente feliz é necessário um primeiro estágio de ter a sorte de ser habituado, não deliberadamente, mas por professores e experiência, levando a um estágio posterior em que alguém escolhe conscientemente fazer as melhores coisas, tornando-se o "phronimos" ou homem virtuoso. Quando as melhores pessoas passam a viver a vida desta forma, a sua sabedoria prática (phronesis) e o seu intelecto (nous) podem desenvolver-se entre si em direção à mais alta virtude humana possível, a sabedoria de um pensador teórico ou especulativo talentoso, ou em outras palavras, um filósofo.

Amizade

Os livros VIII e IX da Ética a Nicômaco examinam a filia (philia), termo que abrange relações de amizade e afeto. Aristóteles distingue amizades fundadas na utilidade, no prazer e no caráter virtuoso dos amigos. As duas primeiras dependem da vantagem ou do prazer que cada pessoa encontra na relação e podem terminar quando isso desaparece; na amizade entre pessoas virtuosas, cada uma estima a outra pelo que ela é. Ele relaciona a amizade à vida virtuosa e à felicidade.

Política

Diagrama da classificação aristotélica de constituições políticas.
Aristóteles classificou as constituições políticas conforme o número de governantes e a finalidade do governo.

Além de suas obras sobre ética, que abordam o indivíduo, Aristóteles abordou a cidade em sua obra intitulada Política. Aristóteles considerava a cidade uma comunidade natural. Além disso, considerava que a cidade era anterior em importância à família, que por sua vez é anterior ao indivíduo, "pois o todo deve necessariamente ser anterior à parte". Ele afirmou a famosa afirmação de que "o homem é por natureza um animal político" e argumentou que o fator definidor da humanidade, entre outros no reino animal, é a sua racionalidade. Aristóteles concebeu a política como sendo mais como um organismo do que como uma máquina, e como uma coleção de partes, nenhuma das quais pode existir sem as outras. A concepção de cidade de Aristóteles é orgânica e ele é considerado um dos primeiros a conceber a cidade dessa maneira.

A comunidade política que Aristóteles analisa é a cidade (pólis), e não o Estado moderno. Para ele, a associação política não se forma apenas para evitar injustiças ou facilitar trocas econômicas: seu fim é possibilitar uma vida boa e ações nobres. Na Política (1280b–1281a), sustenta que uma cidade não se reduz ao convívio ou à proteção mútua de seus habitantes. A concepção difere de teorias posteriores do contrato social, que explicam a formação do Estado pela saída dos indivíduos do estado de natureza.

Em Protréptico, o personagem "Aristóteles" afirma:

Pois todos concordamos que o homem mais excelente deve governar, isto é, o supremo por natureza, e que a lei governa e é a única que tem autoridade; mas a lei é uma espécie de inteligência, isto é, um discurso baseado na inteligência. E ainda, que padrão temos, que critério das coisas boas, que é mais preciso do que o homem inteligente? Por tudo o que este homem escolherá, se a escolha for baseada em seu conhecimento, são coisas boas e seus contrários são ruins. E como todos escolhem acima de tudo o que está de acordo com as suas próprias disposições (um homem justo que escolhe viver com justiça, um homem com coragem para viver com coragem, da mesma forma um homem com autocontrole que vive com autocontrole), é claro que o homem inteligente escolherá acima de tudo ser inteligente; pois esta é a função dessa capacidade. Portanto, é evidente que, de acordo com o julgamento mais autorizado, a inteligência é suprema entre os bens.

Como discípulo de Platão, Aristóteles era bastante crítico em relação à democracia e, seguindo o esboço de certas ideias do Político de Platão, ele desenvolveu uma teoria coerente de integração de várias formas de poder em um chamado estado misto:

Um modo de combinar as constituições é tomar da oligarquia o preenchimento dos cargos por eleição e da democracia a ausência de um requisito de patrimônio. O sinal de uma boa mistura de democracia e oligarquia é a possibilidade de chamar a mesma constituição tanto de democracia como de oligarquia.|Aristóteles, Política, IV, 9, 1294b10–18

Mulheres, escravidão e educação

No livro I da Política, Aristóteles sustenta que a autoridade do homem sobre a mulher e a do senhor sobre a pessoa escravizada são relações diferentes. Afirma que a mulher tem capacidade de deliberação, mas que esta carece de autoridade, e defende a escravidão natural, afirmando que algumas pessoas seriam escravas "por natureza". Ao discutir a escravização por conquista, contudo, reconhece a objeção de que a vitória na guerra não demonstra que o vencido deva ser escravizado. Suas teses sobre mulheres e escravidão são hoje examinadas criticamente na história da filosofia política.

No livro VIII da mesma obra, Aristóteles atribui à música um lugar na formação dos cidadãos: examina seu valor para a educação do caráter, o lazer e o prazer, e distingue a aprendizagem musical destinada à formação pessoal do treinamento de executantes profissionais.

Economia

Tetradracma de prata ateniense, com a coruja no reverso.
Moedas como este tetradracma ateniense exemplificam o meio de troca que Aristóteles discutiu ao tratar do comércio e do valor dos bens.

Aristóteles fez contribuições substanciais ao pensamento econômico, especialmente ao pensamento da Idade Média. Em Política, Aristóteles aborda a cidade, propriedade e comércio. Sua resposta às críticas à propriedade privada, na opinião de Lionel Robbins, antecipou os proponentes posteriores da propriedade privada entre filósofos e economistas, no que se refere à utilidade geral dos arranjos sociais. Aristóteles acreditava que embora os arranjos comunitários possam parecer benéficos para a sociedade, e que embora a propriedade privada seja frequentemente responsabilizada pelos conflitos sociais, tais males na verdade vêm da natureza humana. Em Política, Aristóteles oferece um dos primeiros relatos da origem do dinheiro. O dinheiro passou a ser usado porque as pessoas se tornaram dependentes umas das outras, importando o que necessitavam e exportando o excedente. Por uma questão de conveniência, as pessoas concordaram então em negociar com algo que fosse intrinsecamente útil e facilmente aplicável, como ferro ou prata.

As discussões de Aristóteles sobre comércio varejista e juros foram uma grande influência no pensamento econômico na Idade Média. Ele tinha uma opinião negativa sobre o varejo, acreditando que, ao contrário de usar o dinheiro para adquirir coisas necessárias para administrar a casa, o comércio varejista busca obter um lucro. Assim, utiliza os bens como um meio para atingir um fim, e não como um fim em si mesmo. Ele acreditava que o comércio varejista não era natural dessa forma. Da mesma forma, Aristóteles considerava antinatural obter lucro por meio de juros, pois obtém lucro com o próprio dinheiro, e não com seu uso.

Aristóteles fez um resumo da função do dinheiro que talvez fosse notavelmente precoce para sua época. Ele escreveu que, como é impossível determinar o valor de cada bem através da contagem do número de outros bens que vale, surge a necessidade de um único padrão universal de medição. O dinheiro permite assim a associação de diferentes bens e torna-os "comensuráveis". Ele prossegue afirmando que o dinheiro também é útil para trocas futuras, tornando-o uma espécie de segurança. Isto é, "se não quisermos algo agora, seremos capazes de obtê-lo quando quisermos".

Retórica

Esquema triangular com os termos gregos ethos, logos e pathos.
Os três modos de persuasão tratados na Retórica: caráter do orador (ethos), raciocínio (logos) e emoções do público (pathos).

A Retórica de Aristóteles propõe que um orador pode recorrer a três tipos básicos de apelo para persuadir o público: ethos (apelo ao caráter do orador), pathos (apelo às emoções da audiência) e logos (apelo ao raciocínio lógico). O filósofo também divide a retórica em três gêneros: epidíctico (discursos cerimoniais de louvor ou censura), forense (discursos judiciais sobre culpa ou inocência) e deliberativo (discursos que pedem uma decisão sobre alguma questão). Aristóteles distingue ainda dois tipos de prova retórica: o entimema (prova por silogismo) e o paradeigma (prova por exemplo).

Poética

Aristóteles escreve em sua Poética que poesia épica, tragédia, comédia, poesia ditirâmbica, pintura, escultura, música e dança são todos fundamentalmente atos de mimese ("imitação"), cada um variando em imitação por meio, objeto e maneira. Ele aplica o termo "mimese" tanto como uma propriedade de uma obra de arte quanto como o produto da intenção do artista e afirma que a realização da "mimese" pelo público é vital para a compreensão da própria obra. Aristóteles afirma que a mimesis é um instinto natural da humanidade que separa os humanos dos animais e que toda arte humana "segue o padrão da natureza". Por causa disso, Aristóteles acreditava que cada uma das artes miméticas possui o que Stephen Halliwell chama de "procedimentos altamente estruturados para a realização de seus propósitos". Por exemplo, a música imita com os meios do ritmo e da harmonia, enquanto a dança imita apenas com o ritmo e a poesia com a linguagem. As formas também diferem no objeto de imitação. A comédia, por exemplo, é uma imitação dramática de homens piores que a média; enquanto a tragédia imita os homens um pouco melhor que a média. Por último, as formas diferem na sua forma de imitação – através de narrativa ou personagem, através de mudança ou não mudança, e através de drama ou não drama.

Pintura do Édipo cego junto de seus filhos.
O Édipo Cego Entregando seus Filhos aos Deuses (1784) por Bénigne Gagneraux. Em sua Poética, Aristóteles usa a tragédia Édipo Rei de Sófocles como um exemplo de como a tragédia perfeita deve ser estruturada, com um protagonista geralmente bom que começa a peça próspero, mas perde tudo por alguma hamartia (falha).

Embora se acredite que a Poética de Aristóteles originalmente compreendia dois livros - um sobre comédia e outro sobre tragédia - apenas a parte que enfoca a tragédia sobreviveu. Aristóteles ensinou que a tragédia é composta de seis elementos: estrutura do enredo, personagem, estilo, pensamento, espetáculo e poesia lírica. Os personagens de uma tragédia são apenas um meio de conduzir a história; e o enredo, e não os personagens, é o foco principal da tragédia. A tragédia é a imitação de uma ação que desperta piedade e medo, e tem como objetivo efetuar a Catarse dessas mesmas emoções. Aristóteles conclui Poética com uma discussão sobre qual delas é superior: mimese épica ou trágica. Ele sugere que, como a tragédia possui todos os atributos de um épico, possivelmente possui atributos adicionais, como espetáculo e música, é mais unificada e atinge o objetivo de sua mimese em um escopo mais curto, ela pode ser considerada superior à épica. Aristóteles era um perspicaz colecionador sistemático de enigmas, folclore e provérbios; ele e sua escola tinham um interesse especial nos enigmas do Oráculo de Delfos e estudaram as fábulas de Esopo.

Obras e transmissão dos textos

O corpus aristotélico reúne os tratados preservados sob o nome de Aristóteles, mas sua composição e ordenação mudaram ao longo dos séculos. Os diálogos destinados a um público mais amplo sobreviveram principalmente por citações de outros autores; entre os tratados transmitidos, alguns são considerados de autoria duvidosa ou posterior. A edição grega organizada por August Immanuel Bekker em 1831 estabeleceu a paginação, com indicação de coluna e linha, ainda usada para localizar passagens das obras aristotélicas.

Fragmentos de papiro da Constituição dos Atenienses.
Papiro com a Constituição dos Atenienses, escrito por volta de 100 d.C. O exemplar da Biblioteca Britânica é o único testemunho quase completo do texto.

A Constituição dos Atenienses, atribuída a Aristóteles ou a integrantes de sua escola, exemplifica uma via de preservação distinta da tradição medieval dos tratados: seu texto quase integral é conhecido sobretudo por um papiro redigido no Egito por volta de 100 d.C. e publicado em 1891.

Recepção

Mais de 2.300 anos após sua morte, Aristóteles continua sendo uma das pessoas mais influentes que já existiram. Ele contribuiu para quase todos os campos do conhecimento humano então existentes e foi o fundador de muitos novos campos. Segundo o filósofo Bryan Magee, "é duvidoso que algum ser humano tenha conhecido tanto quanto ele". Aristóteles foi considerado o primeiro cientista.

Aristóteles foi o fundador da lógica do termo, foi o pioneiro no estudo da zoologia e beneficiou futuros cientistas e filósofos por meio de suas contribuições ao método científico. Taneli Kukkonen, observa que sua conquista na fundação de duas ciências é incomparável, e seu alcance em influenciar "todos os ramos do empreendimento intelectual", incluindo a teoria ética e política ocidental, teologia, retórica e análise literária, é igualmente longo. Como resultado, argumenta Kukkonen, qualquer análise da realidade hoje "quase certamente carregará conotações aristotélicas... evidência de uma mente excepcionalmente enérgica". Kukkonen escreve que "nos melhores estudos do século XX, Aristóteles ganha vida como um pensador que luta com todo o peso da tradição filosófica grega". Jonathan Barnes escreveu que "um relato da vida intelectual de Aristóteles seria pouco menos do que uma história do pensamento europeu".

A tradição posterior atribuiu a Aristóteles papel fundador no estudo sistemático da lógica e pioneirismo na investigação dos animais. Expressões honoríficas como "pai da biologia" aparecem em estudos de sua recepção, mas não designam uma prioridade exclusiva em todos esses campos.

As seções seguintes acompanham a transmissão de seus escritos e a recepção de suas ideias em épocas diferentes.

Antiguidade

Período helenístico

Frontispício impresso da História das Plantas de Teofrasto.
Frontispício de uma versão de 1644 da Historia Plantarum de Teofrasto, escrita originalmente em c. 300 a.C.

A influência imediata do trabalho de Aristóteles foi sentida à medida que o Liceu se transformou na Escola peripatética. Os alunos de Aristóteles incluíam Aristoxeno, Dicearco, Demétrio de Faleros, Eudemo de Rodes, Hárpalo, Heféstio, Mnáson de Fócida, Nicômaco e Teofrasto.

O aluno e sucessor de Aristóteles, Teofrasto, escreveu a História das Plantas, um trabalho pioneiro em botânica. Alguns de seus termos técnicos permanecem em uso, como carpelo de carpos, fruta, e pericarpo, de pericarpion, câmara de sementes. Teofrasto estava muito menos preocupado com as causas formais do que Aristóteles, em vez disso descrevendo pragmaticamente como as plantas funcionavam.

Sob os Ptolomeus, na escola médica de Alexandria, Herófilo de Calcedônia, o primeiro professor de medicina da cidade, corrigiu Aristóteles, situando a inteligência no cérebro e relacionando o sistema nervoso com o movimento e a sensação. Herófilo também distinguiu veias de artérias, observando que as artérias apresentam pulso, enquanto as veias não.

Início do Império Romano

Página de uma edição impressa do comentário de Alexandre de Afrodísias à Metafísica.
Edição impressa do comentário de Alexandre de Afrodísias à Metafísica, testemunho da tradição de interpretação das obras de Aristóteles.

Na Antiguidade, distinguiam-se as obras "exotéricas", dirigidas a um público mais amplo, e os tratados de circulação interna relacionados ao Liceu. Os textos preservados principalmente por manuscritos medievais são, em grande parte, esses tratados técnicos. Andrônico de Rodes organizou escritos por assunto no século I a.C.; a extensão de sua intervenção nos textos hoje conhecidos permanece discutida.

A principal forma pela qual os antigos filósofos do Império Romano se envolveram com o trabalho técnico de Aristóteles foi por meio de comentário filosófico; interpretação e explicação do texto de Aristóteles, juntamente com suas próprias sínteses e pontos de vista sobre os temas discutidos por Aristóteles. A tradição de comentários peripatéticos começou com Boeto de Sídon no século I a.C. e atingiu seu auge no final do século II d.C. com Alexandre de Afrodísias, que foi nomeado para a cadeira imperial oficial da filosofia aristotélica estabelecida por Marco Aurélio, muitos de cujos comentários ainda sobrevivem.

Antiguidade Tardia

Página inicial de um manuscrito grego medieval da Isagoge de Porfírio.
A Isagoge de Porfírio, preservada em manuscritos medievais, introduzia o estudo das Categorias de Aristóteles.

No século III, o neoplatonismo emergiu como a escola filosófica dominante. Os neoplatônicos viam todos os sistemas filosóficos posteriores a Platão, incluindo o de Aristóteles, como desenvolvimentos da filosofia de Platão, e procuravam explicar como Platão e Aristóteles estavam de acordo, mesmo em assuntos em que pareciam discordar, e incluíram as obras lógicas e físicas de Aristóteles em seu currículo escolar como obras introdutórias que precisavam ser dominadas antes do estudo do próprio Platão. Este programa de estudo começou com as Categorias, para as quais o filósofo neoplatonista Porfírio de Tiro escreveu uma introdução, chamada Isagoge, que influenciou a filosofia subsequente na antiguidade tardia e no período medieval. Neoplatônicos posteriores em Atenas e Alexandria, incluindo Siriano, Amônio, Olimpiodoro, o Jovem e Simplício da Cilícia escreveram mais comentários sobre Aristóteles de uma perspectiva platônica que ainda existem, com Simplício compilando muitas das obras perdidas de seus antecessores em comentários massivos que examinam toda a tradição neoplatônica.

Com a ascensão do Cristianismo e o fechamento das escolas pagãs por ordem de Justiniano em 529, o estudo de Aristóteles e outros filósofos no restante do período bizantino foi principalmente de uma perspectiva cristã. Os primeiros cristãos bizantinos a comentar extensivamente sobre Aristóteles foram Filopono, que foi aluno de Amônio, e Elias e Davi, alunos de Olimpiodoro, junto com Estêvão de Alexandria no início do século VII, que trouxe o estudo de Platão e Aristóteles de Alexandria para Constantinopla. João Filopono se destaca por ter tentado uma crítica fundamental das visões de Aristóteles sobre a Eternidade do mundo, movimento e outros elementos do pensamento aristotélico. Filopono questionou o ensino de física de Aristóteles, notando suas falhas e introduzindo a Teoria do ímpeto para explicar suas observações.

Idade Média

Império Bizantino medieval

Duas páginas abertas de um manuscrito grego medieval de textos de Aristóteles.
Manuscrito grego do século XII com uma passagem de Sobre o sentido e o sensível, exemplo da transmissão bizantina dos textos aristotélicos.

Após um hiato de vários séculos, os comentários formais de Eustrácio e Miguel de Éfeso reapareceram no final do século XI e início do século XII, aparentemente patrocinados por Ana Comnena. Os filósofos bizantinos também preencheram as lacunas dos comentários que sobreviveram até ao seu tempo; O comentário de Alexandre de Afrodísias sobre a Metafísica, do qual apenas os primeiros cinco livros sobreviveram, foi completado por Miguel de Éfeso, que também escreveu um comentário sobre as Refutações Sofísticas, a única obra do Organon que não tem um comentário, e Miguel de Éfeso e Eustrácio compilaram uma série de comentários fragmentários sobre a Ética a Nicômaco, que complementaram com suas próprias interpretações. Miguel de Éfeso escreveu comentários sobre as obras de biologia animal e política de Aristóteles, completando a série de comentários sobre as obras existentes de Aristóteles.

Mundo islâmico medieval

Miniatura árabe medieval de um estudante sentado diante de Aristóteles.
Representação islâmica de Aristóteles (à direita) no Kitāb naʿt al-ḥayawān, por volta de 1220.

Nos séculos do Califado Abássida, um amplo movimento de tradução pôs em circulação árabe obras gregas de filosofia e ciência, inclusive textos atribuídos a Aristóteles. A lógica, a filosofia natural e outros escritos aristotélicos foram estudados por autores que também recorreram a comentários gregos e a outras tradições. Alquindi, Alfarábi, Avicena e Averróis desenvolveram interpretações diferentes, por vezes críticas, dos textos recebidos. Parte desse trabalho foi posteriormente traduzida para o latim e influiu em pensadores da Europa medieval, entre eles Tomás de Aquino. Nos escritos árabes, Aristóteles recebeu o título de "Primeiro Mestre".

Judaísmo medieval

Maimônides estudou a tradição aristotélica transmitida em árabe e dialogou com ela em seu Guia dos Perplexos, sem simplesmente aceitar todas as teses de Aristóteles: a criação do mundo, por exemplo, é um ponto central de sua discussão. Em carta ao tradutor Samuel ibn Tibbon, recomendou o estudo das obras de Aristóteles com os comentários de Alexandre de Afrodísias, Temístio e Averróis.

Europa ocidental medieval

Página de uma edição bilíngue, grega e latina, da Ética a Nicômaco.
Edição greco-latina de 1566 da Ética a Nicômaco, testemunho da circulação das obras aristotélicas na Europa ocidental.

Entre cerca de 600 e 1100, no Ocidente latino medieval, o acesso direto às obras de Aristóteles foi limitado: circulavam sobretudo alguns tratados lógicos traduzidos por Boécio. Nos séculos XII e XIII, traduções ampliaram esse conjunto. Gerardo de Cremona verteu textos a partir do árabe, ao passo que Tiago de Veneza e Guilherme de Moerbeke trabalharam com manuscritos gregos. A circulação desses textos transformou o ensino nas universidades medievais.

No século XIII, Tomás de Aquino utilizou traduções de Aristóteles, incluindo as de Guilherme de Moerbeke, e frequentemente chamou o filósofo grego de "O Filósofo". O estudo de Aristóteles continuou na escolástica e recebeu novo impulso com a circulação de manuscritos gregos no Renascimento. Boécio, Pedro Abelardo e Jean Buridan pertencem a momentos diferentes da longa tradição de estudo da lógica aristotélica.

Segundo o estudioso Roger Theodore Lafferty, Dante construiu a filosofia da Comédia com base em Aristóteles, assim como os escolásticos usaram Aristóteles como base para seu pensamento. Dante conheceu Aristóteles diretamente pelas traduções latinas de suas obras e indiretamente por meio de citações nas obras de Albert Magnus. Dante reconhece explicitamente a influência de Aristóteles no poema, quando Virgílio justifica a estrutura do Inferno citando a Ética a Nicômaco. Dante refere-se a ele como "aquele/que é reconhecido Mestre dos que sabem".

Era moderna

Renascimento e continuidade do ensino

Página manuscrita do prefácio de uma tradução latina da Física de Aristóteles.
As novas traduções de João Argirópulo integram a releitura das obras gregas de Aristóteles durante o Renascimento.

Os estudiosos renascentistas voltaram aos manuscritos gregos e produziram novas traduções de Aristóteles. Leonardo Bruni traduziu textos de filosofia moral para o latim e escreveu uma biografia do filósofo. Em Veneza, Aldo Manúcio publicou, entre 1495 e 1498, a primeira edição impressa do conjunto das obras aristotélicas em grego, distribuída em cinco volumes. A coleção incluía também textos então atribuídos a Aristóteles cuja autoria hoje é questionada.

Traduções em línguas europeias ampliaram os modos de leitura de Aristóteles, enquanto comentários e cursos universitários continuaram a discuti-lo. Sua lógica, filosofia natural e ética permaneceram no ensino de universidades católicas e protestantes durante o século XVI. Esses leitores não formavam uma escola uniforme: discordavam entre si, relacionavam seus textos a outras tradições e também os criticavam.

Ciência no início da era moderna

Ilustração impressa das veias do braço em uma obra de William Harvey.
Ilustração de De Motu Cordis (1628): Harvey demonstrou a circulação do sangue, contrariando explicações antigas sobre a função do coração.

No início da Idade Moderna, cientistas como William Harvey na Inglaterra e Galileu Galilei na Itália reagiram contra as teorias de Aristóteles e outros pensadores da era clássica como Galeno, estabelecendo novas teorias baseadas, até certo ponto, na observação e na experimentação. Harvey demonstrou a circulação do sangue, estabelecendo que o coração funcionava como uma bomba e não como a sede da alma e o controlador do calor do corpo, como pensava Aristóteles. Galileu formulou uma descrição matemática da aceleração da queda e usou argumentos e experimentos para contestar a proporcionalidade direta entre o peso e a velocidade de queda atribuída a Aristóteles. Sem a resistência do ar, corpos em queda livre têm a mesma aceleração, independentemente de sua massa.

As observações astronômicas de Galileu também atingiram a separação aristotélica entre uma região terrestre sujeita a mudanças e céus considerados incorruptíveis: ele descreveu montanhas na Lua e satélites em torno de Júpiter. Mais tarde, a física de Isaac Newton, exposta nos Principia (1687), reuniu movimentos terrestres e celestes num mesmo quadro matemático. Sua primeira lei afirma que o movimento retilíneo uniforme persiste na ausência de forças que o alterem, em vez de exigir uma ação contínua para manter um corpo em movimento.

Lógica, biologia e edição dos textos no século XIX

Folha de rosto impressa de The Laws of Thought, de George Boole.
Folha de rosto de The Laws of Thought (1854), obra em que George Boole propôs uma lógica algébrica para além da silogística aristotélica.

O matemático inglês George Boole aceitou totalmente a lógica de Aristóteles, mas decidiu "ir abaixo, acima e além" dela com seu sistema de lógica algébrica em seu livro de 1854 The Laws of Thought. Isso dá à lógica uma base matemática com equações, permite-lhe resolver equações, bem como verificar validade, e permite-lhe lidar com uma classe mais ampla de problemas, expandindo proposições de qualquer número de termos, não apenas dois.

Após receber uma tradução de Partes dos Animais, Charles Darwin escreveu a William Ogle, em 22 de fevereiro de 1882, que Lineu e Cuvier, antes seus grandes modelos, pareciam "meros estudantes diante do velho Aristóteles". Na carta, Darwin esclareceu que ainda havia lido apenas parte da obra e mencionou erros que encontrou nela. Em edições posteriores de A Origem das Espécies, Darwin mencionou ideias antigas sobre a origem dos seres vivos; a passagem de Aristóteles que citou resume uma proposta do filósofo grego Empédocles.

A edição crítica do texto grego organizada por August Immanuel Bekker em 1831 marcou outra etapa na recepção de Aristóteles. Ao comparar manuscritos medievais, o editor registrou variantes textuais e estabeleceu a paginação ainda usada para indicar com precisão cada passagem; a obra hoje lida resulta, portanto, tanto da transmissão antiga quanto da pesquisa editorial moderna.

Filosofia contemporânea

Na segunda metade do século XX, a ética das virtudes voltou a receber atenção na filosofia de língua inglesa. O artigo "Modern Moral Philosophy", publicado por Elizabeth Anscombe em 1958, impulsionou debates sobre virtudes, caráter e a pergunta sobre como viver. Autores como Philippa Foot e Alasdair MacIntyre desenvolveram abordagens próprias em diálogo com a tradição aristotélica; as versões atuais da ética das virtudes não precisam, porém, concordar com todas as teses de Aristóteles.

Ciência recente

Diagrama de quatro perguntas sobre o comportamento animal, divididas entre mecanismo, desenvolvimento, função e evolução.
As quatro perguntas de Tinbergen sobre comportamento animal — mecanismo, desenvolvimento, função e evolução — foram comparadas às causas aristotélicas.

O filósofo Bertrand Russell afirmou que "quase todo avanço intelectual sério teve que começar com um ataque a alguma doutrina aristotélica". Russell chamou a ética de Aristóteles de "repulsiva" e rotulou sua lógica de "tão definitivamente antiquada quanto a astronomia ptolomaica". Russell afirmou que estes erros tornam difícil fazer justiça histórica a Aristóteles, até que nos lembremos do avanço que ele fez sobre todos os seus antecessores.

O historiador da ciência holandês Eduard Jan Dijksterhuis escreve que Aristóteles e seus predecessores mostraram a dificuldade da ciência ao "proceder tão prontamente a enquadrar uma teoria de caráter tão geral" com base em evidências limitadas de seus sentidos. Em 1985, o biólogo Peter Medawar ainda podia afirmar em tons de "puro século XVII" que Aristóteles havia reunido "uma mistura estranha e, de modo geral, um tanto cansativa de boatos, observação imperfeita, ilusões e credulidade que equivalem à credulidade absoluta".

Os zoólogos zombaram frequentemente de Aristóteles por erros e relatórios de segunda mão não verificados. Contudo, a observação moderna confirmou várias das suas afirmações mais surpreendentes. O trabalho de Aristóteles permanece em grande parte desconhecido dos cientistas modernos, embora os zoólogos às vezes o mencionem como o pai da biologia ou em particular da biologia marinha. É pouco provável que os zoólogos praticantes adiram à cadeia do ser de Aristóteles, mas a sua influência ainda é perceptível no uso dos termos "inferior" e "superior" para designar táxons como grupos de plantas. O biólogo evolutivo Armand Marie Leroi reconstruiu a biologia de Aristóteles, enquanto as quatro perguntas de Niko Tinbergen, que alguns pesquisadores compararam às quatro causas aristotélicas sem estabelecer uma derivação histórica direta, são usadas para analisar comportamento animal; eles examinam função, filogenia, mecanismo e Ontogenia. Comparações de partes semelhantes entre animais, presentes na obra de Aristóteles, são antecedentes históricos do conceito de homologia; o biólogo evolucionário do desenvolvimento Lewis I. Held comentou que estaria interessado no conceito de Homologia profunda. Também na sistemática estudos recentes consideram que Aristóteles fez contribuições importantes para a taxonomia e a nomenclatura biológica.

Memória pública

Lugares e monumentos

Estátua de Aristóteles em um parque arborizado na vila moderna de Estagira.
O Bosque de Aristóteles, na Estagira moderna, aproxima os visitantes de temas de sua Física por meio de instrumentos interativos.

Além das obras e tradições intelectuais que levam seu nome, lugares associados à vida de Aristóteles são preservados e apresentados ao público. Em Atenas, o sítio arqueológico do Liceu conserva vestígios do ginásio onde sua escola se estabeleceu. Na vila moderna de Estagira, distinta do sítio da cidade antiga onde nasceu, o Bosque de Aristóteles reúne uma estátua do filósofo e instrumentos interativos que demonstram fenômenos naturais abordados em sua Física; os instrumentos foram instalados em 2003.

Em Salônica, a Praça Aristotélica recebeu seu nome em homenagem ao filósofo. Desde 1990, abriga uma estátua de bronze de Aristóteles sentado, esculpida por Georgios Georgiadis.

Instituições e comemorações

Vista de edifícios e área aberta do campus da Universidade Aristóteles de Salonica.
A universidade de Salônica adotou o nome de Aristóteles em 1954; seu centro interdisciplinar promove estudos sobre a obra do filósofo.

A Universidade Aristóteles de Salonica foi fundada em 1925 como Universidade de Salonica e recebeu o nome atual em 1954. Em 2011, criou o Centro Interdisciplinar de Estudos Aristotélicos, voltado à pesquisa e à divulgação de sua obra em diferentes áreas do conhecimento. A Sociedade Aristotélica, fundada em Londres em 1880, também leva seu nome, embora desde o início tenha se dedicado ao debate entre diversas correntes filosóficas, sem se vincular exclusivamente à escola de Aristóteles.

Em 2016, a UNESCO proclamou um ano comemorativo de Aristóteles pelos 2.400 anos de seu nascimento. A universidade organizou um congresso em Salônica, na antiga Estagira e em Mieza.

Moedas e selos

Retrato de Aristóteles no reverso de uma moeda grega de cinco dracmas datada de 1976.
O retrato de Aristóteles nas moedas gregas de cinco dracmas postas em circulação em 1976 levou sua imagem ao cotidiano.

Após a restauração da democracia na Grécia, uma nova série de moedas entrou em circulação em 1976. A peça de cinco dracmas trazia o retrato de Aristóteles; as de dez e vinte dracmas apresentavam, respectivamente, Demócrito e Péricles.

Os correios gregos lançaram três selos em homenagem aos 2.400 anos do nascimento do filósofo, comemorados em 2016. Eles mostram Aristóteles sozinho, com Alexandre e com Platão, respectivamente, conforme o exemplar de primeiro dia de circulação preservado pelo Museu Filatélico e Postal da Grécia. A emissão também consta do levantamento da Sociedade Filatélica Helênica.

Representações na arte

Pinturas

Aristóteles foi retratado ao longo dos séculos por artistas como Lucas Cranach, o Velho, Justus van Gent, Rafael, Paolo Veronese, José de Ribera, Rembrandt e Francesco Hayez. Entre as representações mais conhecidas está o afresco A Escola de Atenas, de Rafael, no Palácio Apostólico do Vaticano. Platão e Aristóteles ocupam o centro da composição, junto ao ponto de fuga da arquitetura, refletindo sua importância. Também é célebre Aristóteles com um Busto de Homero, de Rembrandt, que mostra o filósofo diante de um busto do poeta Homero. O crítico de arte Jonathan Jones descreveu a pintura como uma das maiores e mais enigmáticas do mundo, evocando nela o conhecimento do tempo.

Esculturas

Literatura e cinema

No romance O Nome da Rosa (1980), de Umberto Eco, a trama gira em torno de um suposto manuscrito da parte perdida da Poética dedicada à comédia. O manuscrito que aparece no romance é uma criação ficcional, distinta da questão histórica sobre a possível existência de um segundo livro da obra.

Em filmes sobre Alexandre, o Grande, Aristóteles aparece como tutor do futuro rei. Barry Jones interpretou o filósofo em Alexandre Magno (1956), dirigido por Robert Rossen. Em Alexandre (2004), dirigido por Oliver Stone, o papel coube a Christopher Plummer.

Epônimos

Animação de duas circunferências concêntricas que se deslocam juntas; a menor desliza em relação à linha paralela abaixo dela.
O paradoxo da roda de Aristóteles compara as distâncias percorridas por duas circunferências concêntricas presas à mesma roda.

As Montanhas de Aristóteles, na Antártica, receberam seu nome em homenagem ao filósofo. Em Meteorologia, ele descreveu uma região habitável no hemisfério sul correspondente à habitada no norte e empregou a expressão "região antártica"; o texto não identifica o continente antártico tal como hoje é conhecido. Aristóteles é uma cratera na Lua que carrega a forma clássica do nome de Aristóteles. (6123) Aristoteles, um asteroide no cinturão principal de asteroides, também carrega a forma clássica de seu nome.

Na zoologia, a lanterna de Aristóteles é o nome dado ao aparelho mastigador dos ouriços-do-mar, animais que ele descreveu. A denominação se difundiu a partir de uma passagem em que Aristóteles comparou o animal a uma lanterna; pesquisadores discutem se a comparação original dizia respeito à boca ou ao corpo inteiro do ouriço.

Na história da mecânica, o paradoxo da roda de Aristóteles recebeu seu nome por constar nos Problemas mecânicos, texto transmitido sob a autoria de Aristóteles, mas cuja atribuição ao filósofo é contestada. Duas circunferências concêntricas de tamanhos diferentes giram juntas e parecem percorrer a mesma distância; a circunferência menor, porém, desliza em relação ao percurso que lhe corresponderia.

Seu nome também está ligado à chamada ilusão de Aristóteles: quando uma pequena esfera toca simultaneamente as pontas de dois dedos cruzados, pode parecer que há duas esferas. A ilusão é usada em estudos sobre a percepção tátil.

Ver também

Notas e referências

Notas

  1. ↑ Ver Shields 2012, pp. 3–16. Blits 1999, p. 58 observa que boa parte das informações sobre a vida de Aristóteles provém de Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, de Diógenes Laércio, que recorre a fontes anteriores hoje em grande parte perdidas. Düring 1957 reúne as biografias antigas de Aristóteles.
  2. ↑ A precisão dessas datas, o primeiro semestre do ano olímpico 384/383 a.C. e o ano 322 a.C., pouco antes da morte de Demóstenes, foi defendida por August Boeckh em Kleine Schriften, VI, p. 195. Ver também Felix Jacoby em FGrHist 244 F 38 e Ingemar Düring, Aristotle in the Ancient Biographical Tradition, Gotemburgo, 1957, p. 253.
  3. ↑ A Macedônia vinha ampliando sua influência sobre as cidades gregas. Em Atenas, os vínculos de Aristóteles com a corte macedônia podiam despertar desconfiança.
  4. ↑ Nussbaum & Osborne 2014, p. 73 datam a morte de Hérmias em 345 a.C. Hazel 2013, p. 37 a situa em 342 a.C., ano do retorno de Aristóteles à Macedônia. Nawotka 2009, p. 40 afirma que Hérmias foi preso em 341 a.C.
  5. ↑ Muitos gregos chamavam de "bárbaros" os povos que não falavam grego. A palavra não tinha exatamente o mesmo sentido que costuma ter hoje.
  6. ↑ Um regente governa temporariamente em nome do rei, por exemplo quando ele está ausente.
  7. ↑ Aristóteles vivia em Atenas como estrangeiro residente. Nessa condição, tinha deveres na cidade, mas não todos os direitos de um cidadão ateniense.
  8. ↑ Manuscritos são textos copiados à mão; uma biblioteca antiga não era um conjunto de livros impressos.
  9. ↑ Um texto de apoio pode registrar argumentos e esquemas sem ter o acabamento de um livro preparado para leitores externos.
  10. ↑ Uma cidade-Estado possuía instituições políticas próprias; não era apenas uma cidade dentro de um país unificado.
  11. ↑ Na Atenas antiga, uma acusação de impiedade podia envolver ofensas aos deuses ou às práticas religiosas reconhecidas pela cidade.
  12. ↑ É a pessoa encarregada de cumprir as disposições de um testamento.
  13. ↑ A história dos papéis guardados não prova que ninguém mais tivesse cópias dos tratados.
  14. ↑ "Sistemático" quer dizer que ele organizou tipos de argumento e regras; não que tenha sido o primeiro a raciocinar.
  15. ↑ Os textos passaram por cópias e reorganizações ao longo de séculos; não dispomos de manuscritos escritos pela mão de Aristóteles.
  16. ↑ Uma proposição é uma afirmação que pode ser julgada verdadeira ou falsa, como "todos os gregos são mortais".
  17. ↑ Aqui, dialética é o exame de argumentos a partir de premissas aceitas, inclusive para testar objeções.
  18. ↑ Este silogismo, com os três termos em 'a', recebe no mnemônico medieval o nome de Barbara. Lagerlund 2016
  19. ↑ M designa o termo médio, aqui 'homens'; S, o sujeito, 'gregos'; e P, o predicado, 'mortais'. Lagerlund 2016
  20. ↑ A primeira fórmula diz que não existe nenhum x que seja homem e não seja mortal. Predicate Logic
  21. ↑ Nesse uso, analisar é separar um argumento em partes para entender como a conclusão decorre das premissas.
  22. ↑ Trata-se de chegar a uma conclusão por um raciocínio cujas premissas e etapas possam ser justificadas.
  23. ↑ Princípios são os pontos de partida da demonstração. Uma conclusão depende deles e da forma do raciocínio.
  24. ↑ "Primeira" indica a busca dos princípios mais fundamentais, não a primeira matéria que Aristóteles estudou.
  25. ↑ A pergunta é o que pertence a algo pelo simples fato de existir, antes de perguntar se é um animal, um número ou outra coisa.
  26. ↑ "Imaterial" indica, aqui, aquilo que não é feito de matéria como uma pedra ou uma casa.
  27. ↑ Palavra grega que, conforme a passagem e a interpretação, pode ser traduzida como "substância" ou "essência".
  28. ↑ A expressão procura indicar aquilo que faz uma coisa ser exatamente o que ela é.
  29. ↑ "Particular" é um indivíduo determinado, como esta casa, e não a ideia geral de casa.
  30. ↑ Neste contexto, significa o surgimento de algo, e não apenas uma mudança de lugar, tamanho ou cor.
  31. ↑ "Locomoção" abrange qualquer mudança de lugar, não apenas o ato de caminhar.
  32. ↑ Ato, nesse vocabulário, é uma capacidade realizada; não precisa ser uma ação voluntária, como levantar a mão.
  33. ↑ Uma meta pode orientar o que fazemos sem nos empurrar fisicamente. É nesse sentido que o motor é apresentado como um fim.
  34. ↑ Nessa descrição, o próprio pensar é o objeto da atividade do motor imóvel.
  35. ↑ O saber teórico busca compreender; o prático ajuda a decidir como agir. São objetivos diferentes de uma investigação.
  36. ↑ "Produtivo" aqui se refere a fazer ou criar algo; não se limita à escrita de poemas.
  37. ↑ Por exemplo, é possível estudar a forma de um círculo sem levar em conta se ele foi desenhado na areia ou no papel.
  38. ↑ Poder continuar contando números é diferente de ter uma coleção infinita já pronta. Aristóteles aceitava a primeira possibilidade.
  39. ↑ São características percebidas pelos sentidos, como sentir algo quente ou frio; não são elementos químicos.
  40. ↑ Nesse modelo, a região celeste seguia princípios diferentes dos atribuídos aos corpos terrestres.
  41. ↑ "Violento" é um termo técnico nessa classificação: basta haver uma ação externa, como a mão que lança uma pedra.
  42. ↑ Uma pedra lançada pode continuar avançando depois que a mão deixa de tocá-la. Para explicar esse caso, Aristóteles considerou a ação do ar ao redor.
  43. ↑ Na mecânica de Newton, para uma massa constante, a força resultante está ligada à aceleração, ou seja, à mudança de velocidade: F = ma.
  44. ↑ Para astros como o Sol, a Lua e as estrelas, os movimentos observados são, em boa aproximação, circulares em torno do centro da Terra. Isso inclui a rotação aparente do céu, causada pela rotação terrestre, e a órbita da Lua em torno da Terra. Rovelli 2015, pp. 23–40
  45. ↑ Drabkin reúne passagens da Física e de Sobre o Céu que expõem as leis do movimento propostas por Aristóteles. Drabkin 1938, pp. 60–84
  46. ↑ Drabkin concorda que a densidade recebe tratamento quantitativo nessa passagem, embora não haja uma definição precisa de densidade como peso por unidade de volume. Drabkin 1938, pp. 60–84
  47. ↑ A letra c reúne condições deixadas fora da comparação entre peso e densidade. A fórmula é uma reconstrução moderna, não uma equação escrita por Aristóteles.
  48. ↑ É o conjunto de situações em que um modelo descreve bem o que se observa. Uma aproximação pode funcionar em certas condições e falhar em outras.
  49. ↑ Velocidade terminal é a rapidez que deixa de aumentar quando a resistência do meio equilibra a força da gravidade.
  50. ↑ Filopono e Galileu tinham razão ao objetar que a lei não se aplica à fase transitória, quando a velocidade ainda aumenta e os corpos caem por uma distância curta. Galileu usou esferas em um pequeno plano inclinado para mostrar isso. Rovelli observa que duas esferas de mesmo formato e pesos diferentes, lançadas de um avião, caem com velocidades diferentes, o que confirma a teoria de Aristóteles nessa situação. Rovelli 2015, pp. 23–40
  51. ↑ "Causa" aqui também quer dizer "tipo de explicação". Por isso, o material e a finalidade de uma mesa contam como causas, além de quem a constrói.
  52. ↑ "Eficiente" significa, aqui, aquilo que dá início a uma mudança; não quer dizer que trabalhe com pouco desperdício.
  53. ↑ "Forma" não é uma cópia material viajando pelo ar; é a maneira como Aristóteles descreve aquilo que torna o objeto perceptível.
  54. ↑ Algo é incidental quando acontece junto com uma ação, sem ter sido o objetivo dela.
  55. ↑ Ele contestou a ideia de que a sombra da Terra ocultasse essas estrelas. Isso não tornava correta toda a sua própria explicação da Via Láctea.
  56. ↑ Um lugar pode parecer estável durante décadas e ainda mudar bastante ao longo de muitos séculos.
  57. ↑ A palavra grega se aproxima de "exalações". Era uma tentativa antiga de explicar os terremotos, anterior ao conhecimento das placas tectônicas.
  58. ↑ Ao evaporar, a água se separa de grande parte do sal dissolvido; por isso a condensação do vapor pode produzir água doce.
  59. ↑ Ele aproveitava a experiência de quem lidava diariamente com animais, embora nem todos esses relatos fossem observações suas.
  60. ↑ Ruminantes, como as vacas, passam o alimento por compartimentos do estômago durante a digestão.
  61. ↑ A membrana entre os dedos ajuda o pato a empurrar a água durante o nado.
  62. ↑ Hereditariedade é a transmissão de características entre gerações. Os mecanismos genéticos conhecidos hoje não faziam parte da explicação de Aristóteles.
  63. ↑ Hoje, em geral, um experimento organiza condições e comparações para testar uma hipótese. Aristóteles se apoiava sobretudo em observações e procedimentos de investigação.
  64. ↑ Dissecar é abrir um organismo para examinar suas partes internas.
  65. ↑ Uma hipótese é testável quando novas observações podem apoiá-la ou mostrar que precisa ser revista.
  66. ↑ A escala é uma maneira de mostrar uma gradação entre grupos, não uma árvore de parentesco evolutivo.
  67. ↑ Isso não significa que esses animais não tenham fluidos circulando no corpo; trata-se de uma distinção feita com os recursos de observação da época.
  68. ↑ Nem todos os animais se ajustavam a uma única fila do "mais simples" ao "mais complexo". Aristóteles percebeu exceções, como a dos tubarões.
  69. ↑ "Alma" aqui nomeia as capacidades de um ser vivo. Plantas crescem e se nutrem; animais também percebem; humanos, na classificação de Aristóteles, também raciocinam.
  70. ↑ Essa era uma proposta antiga sobre o corpo. Hoje, o cérebro é reconhecido como central para o pensamento.
  71. ↑ É a imagem que permanece na mente depois da percepção e pode voltar quando lembramos algo.
  72. ↑ O selo oferece uma comparação concreta para uma experiência que deixa um traço reconhecível depois.
  73. ↑ Aristóteles imaginava que uma impressão pudesse persistir por algum tempo depois de o estímulo desaparecer.
  74. ↑ Neste uso, é a capacidade de formar e conservar imagens mentais, inclusive quando o objeto já não está diante dos olhos.
  75. ↑ O meio-termo não é sempre a média aritmética. A coragem, por exemplo, depende do que a situação pede, entre fugir de tudo e assumir qualquer risco.
  76. ↑ Em grego, "ergon" é a tarefa ou atividade característica de algo. A comparação com o olho ajuda Aristóteles a perguntar qual seria a atividade própria de uma pessoa.
  77. ↑ A felicidade nesse argumento não é uma alegria passageira; diz respeito a viver bem ao longo da vida.
  78. ↑ A prática orientada desde cedo ajuda a formar disposições; para Aristóteles, conhecer uma regra não basta para agir bem.
  79. ↑ É a pessoa capaz de deliberar bem sobre o que fazer em situações concretas, e não alguém que apenas decorou regras.
  80. ↑ Uma parceria que traz vantagens ilustra o primeiro caso; a companhia de alguém com quem se gosta de passar o tempo ilustra o segundo.
  81. ↑ A prioridade é explicativa: Aristóteles não está dizendo que as cidades surgiram antes das famílias na história.
  82. ↑ "Político" se refere à vida na pólis, em que as pessoas convivem, discutem e tomam decisões sobre assuntos comuns.
  83. ↑ Para outra interpretação dos processos sociais e econômicos na Ética a Nicômaco e na Política, ver Karl Polanyi, "Aristotle Discovers the Economy" (1957), em Primitive, Archaic and Modern Economies, org. G. Dalton, Boston, 1971, pp. 78–115.
  84. ↑ É uma constituição que combina procedimentos associados a diferentes regimes, como a eleição de cargos e a participação de cidadãos sem requisito de riqueza.
  85. ↑ Deliberar é pesar opções e consequências antes de decidir o que fazer.
  86. ↑ Na Atenas antiga, nem todos os moradores eram cidadãos com direitos políticos: mulheres, pessoas escravizadas e muitos estrangeiros ficavam de fora.
  87. ↑ Aqui, importar e exportar significam trazer ou levar bens entre comunidades; não exigem a existência de países modernos.
  88. ↑ "Antinatural" expressa o juízo de Aristóteles sobre o fim apropriado do dinheiro; não é uma afirmação sobre leis atuais ou danos ambientais.
  89. ↑ Dois bens tornam-se comensuráveis quando podem ser comparados por uma medida comum, mesmo que sejam muito diferentes.
  90. ↑ O discurso pode convencer mais quando o público considera confiável a pessoa que fala.
  91. ↑ Um caso conhecido pode ajudar o público a pensar sobre outro caso parecido.
  92. ↑ "Imitação" aqui inclui representar ações e personagens; não exige fazer uma cópia fiel de algo já existente.
  93. ↑ Meio é o recurso empregado, como palavras ou ritmo; objeto é aquilo que se representa; maneira é como a representação se apresenta.
  94. ↑ "Catarse" também é traduzida por "purificação"; estudiosos divergem sobre o que exatamente acontece com a piedade e o medo do público.
  95. ↑ Um escrito transmitido sob o nome de Aristóteles pode ter sido feito por alguém de sua escola ou incorporado à coleção depois.
  96. ↑ Uma referência como 1025b25 aponta para a página 1025, coluna b, linha 25 da edição de Bekker. Isso permite localizar a passagem em traduções diferentes.
  97. ↑ Esse título é uma avaliação retrospectiva; não significa que ele trabalhasse com os laboratórios e instrumentos de hoje.
  98. ↑ Hoje, "carpelo" nomeia uma unidade reprodutiva da flor, e "pericarpo" designa a parede do fruto.
  99. ↑ "Interna" aqui significa destinada sobretudo aos integrantes da escola; não indica ensinamentos ocultistas.
  100. ↑ Era um posto de ensino sustentado pelo poder imperial, semelhante a uma cátedra, e não um móvel.
  101. ↑ A sequência era didática: aprender os conceitos básicos antes de passar a obras consideradas mais difíceis.
  102. ↑ Comentadores podiam usar ferramentas de Aristóteles e, ao mesmo tempo, discordar dele em questões religiosas.
  103. ↑ A pausa diz respeito aos comentários formais preservados; não significa que ninguém lesse Aristóteles nesse intervalo.
  104. ↑ Traduzir as obras também permitiu discuti-las, ensiná-las e responder a elas em árabe.
  105. ↑ A questão é se o mundo teve um começo ou se existe desde sempre; a resposta tinha consequências para o diálogo entre filosofia e religião.
  106. ↑ A limitação descrita aqui era do Ocidente latino; no mundo bizantino, obras gregas continuavam a ser lidas.
  107. ↑ O apelido mostra a autoridade especial que Aristóteles recebeu nesse meio intelectual, sem significar que fosse o único filósofo estudado.
  108. ↑ "Queda livre" deixa de lado a resistência do ar. Na atmosfera, uma folha e uma pedra não caem da mesma maneira.
  109. ↑ Boole passou a representar relações lógicas por símbolos e operações, de modo que também pudesse calculá-las.
  110. ↑ Esses rótulos podem sugerir uma escala de valor; na evolução, os grupos atuais não são degraus de uma fila rumo aos seres humanos.
  111. ↑ Encontrar semelhanças entre duas listas de perguntas não demonstra que Tinbergen tenha copiado a sua de Aristóteles.
  112. ↑ Na perspectiva da pintura, certas linhas parecem se encontrar em um ponto. A posição dos filósofos ali conduz o olhar para eles.
  113. ↑ Compare com o relato medieval de Fílis e Aristóteles, reproduzido acima.
  114. ↑ Um epônimo é um nome dado a um lugar, objeto ou descoberta a partir do nome de uma pessoa.

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Bibliografia

Leitura adicional

A bibliografia sobre Aristóteles é vasta. A seleção a seguir reúne estudos e edições de suas obras.

Ligações externas

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