Coronus

Coronus
Deus coroado do submundo.
Outro(s) nome(s)Corono
RegiãoLusitânia
ReligiõesPagã (Politeísmo)

Corono (em latim: Coronus), por vezes associado graficamente à variante Coro, é uma divindade indígena atestada no noroeste da Península Ibérica durante o período de romanização. No âmbito da religião galaico-lusitana, o teónimo é interpretado como uma entidade ligada ao submundo, à guerra e à morte. Em ensaios contemporâneos de mitologia comparada e movimentos reconstrucionistas, Corono é descrito como o deus cornudo coroado das profundezas subterrâneas, atuando como o consorte da deusa Nabia e cultuado primariamente pelos antigos Galaicos e Lusitanos.

Evidência Epigráfica

A comprovação histórica do culto a Corono provém de achados arqueológicos na antiga região da Gallaecia meridional. O principal testemunho material é uma ara romana descoberta no antigo "Lugar do Crasto", na freguesia de Cerzedelo, concelho de Guimarães, em Portugal.

A inscrição, registada no Corpus Inscriptionum Latinarum sob o código CIL II 5562, apresenta a seguinte leitura votiva dedicada pelo devoto Paternus Flavus::

Corono Paternus Flav(i) aram posuit exs voto merit(o) ani(mo) vole(ns)

Atribuições Mitológicas e Interpretações

Natureza Marcial e Raiz Linguística

Estudos de linguística histórica associam o teónimo Coronus a étimos indo-europeus ligados à atividade militar. O termo tem sido aproximado da raiz céltica *korio-nos ("chefe do exército" ou "líder da assembleia de guerreiros"), derivada de *korios ("grupo de guerreiros" ou "tropa"). Esta etimologia sugere que a divindade exercia funções de patrono das forças armadas tribais na Hispânia pré-romana, assemelhando-se ao papel sincrético do deus britânico Corotiacus, mais tarde assimilado ao Marte romano devido ao seu forte pendor bélico.

O Consórcio Divino com Nabia

Investigações no campo da religião paleohispânica propõem uma estreita ligação teológica entre Corono e Nabia (Navia), uma das deusas mais disseminadas no noroeste peninsular. Esta hipótese baseia-se na existência documentada do epíteto Nabia Corona (presente na ara de Marecos, Penafiel). De acordo com o modelo de interpretação mitológica, o casal representaria o equilíbrio cósmico local: enquanto Nabia governava as águas superficiais, os vales e o fluxo da vida, Corono detinha a coroa ctónica do mundo subterrâneo e dos mortos.

Simbolismo Celta e Reconstrucionismo

Na análise comparativa das religiões de matriz céltica, Corono partilha atributos com o deus pan-céltico Cernunnos, caracterizando-se como uma entidade cornuda associada aos ciclos de regeneração, à fauna e às profundezas da terra. Sob a perspetiva do reconstrucionismo pagão contemporâneo, Corono é frequentemente interpretado como a "face noturna" ou o alter-ego ctónico de Quangeio (o deus associado à virilidade, aos bosques e ao Sol diurno), assumindo o controlo das almas durante a noite e após a morte. Adicionalmente, o cavalo surge associado ao seu culto como um elemento psicopompo, responsável por guiar os guerreiros caídos em combate rumo ao além-túmulo.

Ver também

Referências

  1. 1 2 3 VASCONCELOS, José Leite de (1905). Religiões da Lusitânia. Volume II. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 343-344.
  2. 1 2 Teixeira, Monteiro (2014). Cultos e Deuses da Lusitânia Pré-Romana. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
  3. 1 2 3 Associação Tradicional Céltica (2018). Panteão Céltico Lusitano: Atribuições e Teónimos. ATD.
  4. ↑ Corpus Inscriptionum Latinarum (CIL), II 5562 (Cerzedelo, Guimarães). "Corono Paternus Flav(i) aram posuit exs voto merit(o) ani(mo) vole(ns)".
  5. ↑ GONZÁLEZ CORDERO, A. et al. (2013). Cuatro altares de La Vera, Cáceres. Archivo Español de Arqueología, 86, p. 121.
  6. ↑ BLÁZQUEZ MARTÍNEZ, José María (2006). Religiões da Antiga Hispânia. Nova Acrópole Portugal. p. 112.
  7. 1 2 3 OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos (2002). Los dioses de la Hispania céltica. Alicante: Universitat d'Alacant. p. 238.
  8. ↑ Fora Deste Mundo (2021). Nabia, a fonte da vida - Deuses Lusitanos.