Ao longo de sua obra, Hegel procurou superar dualismos que julgava insustentáveis na filosofia moderna. Desenvolveu um sistema filosófico, muitas vezes chamado de idealismo absoluto, no qual a realidade é compreendida como um todo. Nesse sistema, o "espírito" (Geist) designa, entre outras coisas, a humanidade que chega a conhecer a si mesma por um processo histórico de desenvolvimento racional. Seu modo de examinar conceitos e formas de consciência, chamado de dialético ou especulativo, parte dos critérios internos de cada um, expõe suas contradições e seus limites, e acompanha sua passagem a uma unidade que conserva e supera o momento anterior. A Fenomenologia do Espírito (1807) e A Ciência da Lógica (1812–1816) desenvolvem essa visão. Em sua filosofia política, Hegel afirmou que "a história mundial é o progresso na consciência da liberdade".
Depois de sua morte, os seguidores de Hegel passaram a ser classificados em correntes de direita, centro e esquerda. Ludwig Feuerbach e Karl Marx, associados aos hegelianos de esquerda, adaptaram sua dialética a críticas materialistas da religião e da sociedade. No século XX, a obra de Hegel foi retomada pelo hegelianismo francês e pela teoria crítica, e tornou-se uma referência para o existencialismo.
Vida
Formação
Stuttgart, Tübingen, Berna e Frankfurt (1770–1800)
Hegel nasceu em 27 de agosto de 1770 em Stuttgart, capital do Ducado de Württemberg, no Sacro Império Romano-Germânico, na região que hoje pertence ao sudoeste da Alemanha. Batizado Georg Wilhelm Friedrich, era chamado Wilhelm pela família. Seu pai, Georg Ludwig Hegel (1733–1799), trabalhava como secretário do órgão de arrecadação da corte do duque Carlos Eugênio de Württemberg. Sua mãe, Maria Magdalena Louisa Hegel, nascida Fromm (1741–1783), era filha de Ludwig Albrecht Fromm (1696–1758), advogado do tribunal superior da corte de Württemberg. Ela morreu de uma febre biliosa quando Hegel tinha treze anos. Ele e o pai também adoeceram, mas sobreviveram. Hegel tinha uma irmã, Christiane Luise (1773–1832), e um irmão, Georg Ludwig (1776–1812), que morreu como oficial na invasão francesa da Rússia de 1812. Aos três anos, Hegel começou a frequentar a escola alemã. Quando entrou na escola de latim, dois anos depois, já conhecia a primeira declinação, ensinada pela mãe. Em 1776, ingressou no Eberhard-Ludwigs-Gymnasium de Stuttgart. Entre as pessoas próximas à família que influenciaram sua formação estava o filósofo Jacob Friedrich von Abel, de quem se tornou protegido. Na adolescência, lia intensamente e copiava trechos longos das leituras em seu diário. Entre os autores estavam o poeta Friedrich Gottlieb Klopstock e escritores do Iluminismo, como Christian Garve e Gotthold Ephraim Lessing. Em 1844, seu primeiro biógrafo, Karl Rosenkranz, escreveu que ali sua educação era iluminista nos princípios e clássica no currículo. Hegel concluiu os estudos no Gymnasium com um discurso intitulado "O estado abortivo da arte e da erudição na Turquia".
No Tübinger Stift, seminário protestante de Tübingen, Hegel se aproximou de Schelling e Hölderlin.
Aos dezoito anos, Hegel ingressou no Tübinger Stift, seminário protestante ligado à Universidade de Tübingen. Entre seus colegas de quarto estavam o poeta e filósofo Friedrich Hölderlin e o futuro filósofo Friedrich Schelling. Os três se tornaram amigos próximos, unidos também pela insatisfação com o ambiente restritivo do seminário, e trocaram ideias que afetaram suas obras. Hegel provavelmente estudou ali por ser uma instituição financiada pelo Estado: não gostava da teologia ortodoxa nem desejava ser pastor. Todos admiravam a civilização grega. Hegel também leu muito Rousseau e Lessing. Acompanharam com entusiasmo a Revolução Francesa. A violência do Terror de 1793 abalou as esperanças de Hegel, mas ele continuou próximo da facção moderada dos girondinos e fiel aos princípios de 1789. Em todo 14 de julho, brindava à Queda da Bastilha. Schelling e Hölderlin mergulharam nos debates sobre a filosofia de Kant, dos quais Hegel ainda se mantinha afastado. Naquela fase, imaginava trabalhar como Popularphilosoph, um homem de letras capaz de apresentar ideias filosóficas difíceis a um público amplo. Só por volta de 1800 sentiu necessidade de enfrentar criticamente os conceitos centrais do kantismo.
Friedrich Hölderlin conviveu com Hegel no seminário e o influenciou mais tarde em Frankfurt.
Depois de obter o certificado de teologia em Tübingen, Hegel trabalhou de 1793 a 1796 como Hofmeister, preceptor dos filhos do capitão Karl Friedrich von Steiger, membro do patriciado de Berna. Passava os verões na propriedade da família em Tschugg, perto de Erlach, e podia usar sua extensa biblioteca. Ali leu obras de filosofia política e economia política, entre elas Do espírito das leis, de Montesquieu, além de textos de Grócio, Hobbes, Hume, Locke, Maquiavel, Rousseau, Espinoza, Tucídides e Voltaire. Essas leituras forneceram material para seu pensamento social e político posterior. Nesse período, escreveu o texto conhecido como Vida de Jesus e o manuscrito de extensão de livro "A positividade da religião cristã". Quando as relações com os empregadores ficaram tensas, aceitou uma proposta obtida por intermédio de Hölderlin para exercer função semelhante na família de um comerciante de vinhos em Frankfurt, em 1797. Hölderlin teve ali grande peso em suas ideias. Se em Berna Hegel havia criticado duramente o cristianismo ortodoxo, em Frankfurt, sob o efeito do primeiro romantismo, voltou-se para a experiência mística do amor como possível essência da religião. Também em 1797 foi escrito, na letra de Hegel, o manuscrito anônimo e não publicado de "O mais antigo programa de sistema do idealismo alemão". Sua autoria pode ser de Hegel, Schelling ou Hölderlin. Em Frankfurt, Hegel escreveu "Fragmentos sobre religião e amor" e, em 1799, "O espírito do cristianismo e seu destino", que só seria publicado depois de sua morte.
Carreira
Jena, Bamberg e Nuremberg (1801–1816)
Com Schelling, seu antigo colega de seminário, Hegel publicou uma revista filosófica em Jena.
Por incentivo de Schelling, então professor extraordinário da Universidade de Jena, Hegel chegou a Jena em 1801. Obteve um posto de Privatdozent, docente sem salário, depois de apresentar a dissertação inaugural De Orbitis Planetarum. Nela criticou brevemente argumentos matemáticos segundo os quais deveria existir um planeta entre Marte e Júpiter. Ainda naquele ano, concluiu "A diferença entre os sistemas filosóficos de Fichte e Schelling". Deu aulas de "Lógica e metafísica" e, com Schelling, de "Introdução à ideia e aos limites da verdadeira filosofia", além de conduzir debates filosóficos. Em 1802, os dois fundaram o Kritische Journal der Philosophie ("Revista crítica de filosofia"), para o qual escreveram até Schelling se mudar para Würzburg, em 1803. Em 1805, depois de reclamar por carta a Goethe da promoção de seu adversário filosófico Jakob Friedrich Fries, Hegel foi nomeado professor extraordinário em Jena, ainda sem salário. Tentou, sem êxito, obter com a ajuda do poeta e tradutor Johann Heinrich Voß um posto na reaberta Universidade de Heidelberg. No mesmo ano, Fries conseguiu uma cátedra remunerada. A falta de dinheiro aumentava a pressão para concluir a introdução ao seu sistema filosófico, prometida havia tempo. Hegel dava os últimos retoques à Fenomenologia do Espírito quando Napoleão enfrentou as tropas prussianas em 14 de outubro de 1806, na Batalha de Jena, nos arredores da cidade. Na véspera, Napoleão entrara em Jena. Hegel contou a impressão que teve ao amigo Friedrich Immanuel Niethammer:
Ilustração imaginária de Harper's Magazine (1895) associando Hegel a Napoleão em Jena. Numa carta, Hegel chamou o imperador de Weltseele, ou "alma do mundo".
Vi o imperador, esta alma do mundo [Weltseele], sair a cavalo da cidade para fazer um reconhecimento. É, de fato, uma sensação extraordinária ver alguém assim, concentrado num único ponto, montado a cavalo, estender-se pelo mundo e dominá-lo.
A batalha de Jena ocorreu enquanto Hegel concluía a Fenomenologia do Espírito; o mapa situa o confronto de outubro de 1806.
O biógrafo Terry Pinkard observa que a frase dita a Niethammer chama ainda mais atenção porque Hegel já havia escrito a passagem da Fenomenologia na qual a Revolução Francesa passa à Alemanha, que completaria "em pensamento" o que ela realizara apenas parcialmente na prática. Napoleão poupou a universidade de grande parte da destruição sofrida pela cidade, mas poucos alunos voltaram depois da batalha, agravando as dificuldades financeiras de Hegel. No inverno, ele foi a Bamberg para acompanhar, hospedado por Niethammer, as provas da Fenomenologia, impressa ali. Em fevereiro de 1807, nasceu Georg Ludwig Friedrich Fischer (1807–1831), filho de Hegel com sua senhoria Christiana Burkhardt, nascida Fischer. Tentou conseguir outra cátedra e escreveu até a Goethe sobre a possibilidade de substituir permanentemente um professor de botânica, sem sucesso. Em 1807, esgotados suas economias e o pagamento recebido pelo livro, mudou-se para Bamberg. Precisava também sustentar o filho Ludwig. Com a ajuda de Niethammer, tornou-se editor do jornal local Bamberger Zeitung. Ludwig Fischer e a mãe permaneceram em Jena.
Niethammer ajudou Hegel financeiramente e a obter postos de trabalho após sua saída de Jena.
O Bamberger Zeitung apoiava a França, e Hegel elogiava Napoleão em suas páginas, muitas vezes comentando criticamente os relatos prussianos sobre a guerra. Como editor, passou a frequentar a sociedade local: visitava o funcionário Johann Heinrich Liebeskind, envolvia-se nas fofocas da cidade e cultivava o gosto por cartas, boa comida e cerveja de Bamberg. Ao mesmo tempo, desprezava o que chamava de "velha Baviera", à qual se referia como "Barbária", e temia que cidades como Bamberg perdessem autonomia no novo Estado bávaro. Em setembro de 1808, o governo da Baviera investigou se o jornal violara medidas de segurança ao divulgar movimentos de tropas francesas. Hegel pediu então a Niethammer, que ocupava um alto cargo em Munique, ajuda para obter um posto de professor. Foi nomeado diretor de um Gymnasium em Nuremberg em novembro de 1808 e permaneceu no cargo até 1816. Adaptou a recém-publicada Fenomenologia do Espírito para a sala de aula. Entre suas atribuições estava ministrar uma "Introdução ao conhecimento da conexão universal das ciências". Como diretor, ensinou também filosofia, alemão, grego e matemática avançada. Ditava as aulas em parágrafos numerados e reservava boa parte do tempo para perguntas dos alunos e suas respostas. Karl Rosenkranz reuniu mais tarde esse material a partir dos cadernos dos estudantes e o publicou como Philosophische Propädeutik. Em 1811, Hegel se casou com Marie Helena Susanna von Tucher (1791–1855), filha mais velha de um senador de Nuremberg. Nesses anos saíram os três volumes de A Ciência da Lógica (1812, 1813 e 1816). A primeira filha do casal, Susanna, nasceu em 27 de junho de 1812 e morreu em 8 de agosto do mesmo ano. Depois nasceram Karl Friedrich Wilhelm (1813–1901) e Immanuel Thomas Christian (1814–1891).
Heidelberg e Berlim (1816–1831)
Na Universidade de Heidelberg, Hegel publicou a primeira Enciclopédia das ciências filosóficas, em 1817.
Convidado pelas universidades de Erlangen, Berlim e Heidelberg, Hegel escolheu a última e se mudou em 1816. Em abril de 1817, seu filho Ludwig Fischer, então com dez anos, juntou-se à família, depois de ter passado algum tempo num orfanato após a morte da mãe, Christiana Burkhardt. Em 1817, Hegel publicou a Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio como síntese de seu pensamento para os alunos de Heidelberg. Ali também deu suas primeiras aulas de filosofia da arte. Em 2022, o estudioso e biógrafo Klaus Vieweg encontrou na biblioteca da Arquidiocese de Munique e Freising mais de 4.000 páginas até então desconhecidas de transcrições dessas aulas. Escritas pelo aluno Friedrich Wilhelm Carové entre 1816 e 1818 e guardadas no espólio do teólogo Friedrich Windischmann, elas contêm uma transcrição das aulas de estética de Heidelberg que há muito se procurava, a única conhecida. Espera-se que ajudem a esclarecer dúvidas sobre a fidelidade da edição das Lições sobre estética preparada por Heinrich Gustav Hotho.
A Universidade de Berlim, em litografia de 1845, foi a instituição na qual Hegel ocupou a cátedra de filosofia a partir de 1818.
Em 1818, Hegel aceitou novo convite para ocupar a cátedra de filosofia na Universidade de Berlim, vaga desde a morte de Johann Gottlieb Fichte, em 1814. Publicou ali os Princípios da Filosofia do Direito em 1820, com a data de 1821 na folha de rosto. Passou a dedicar a maior parte do tempo às aulas sobre belas-artes, religião, história e história da filosofia, publicadas após sua morte a partir das anotações dos estudantes. Apesar da dificuldade que tinha em falar em público, suas aulas atraíam alunos de toda a Alemanha e do exterior. Hegel e discípulos como Leopold von Henning e Carové foram perseguidos e vigiados pelo ministro prussiano do Interior, o príncipe Wilhelm Ludwig Sayn-Wittgenstein, e por seu círculo conservador na corte. No restante da carreira, Hegel fez duas viagens a Weimar, onde encontrou Goethe pela última vez, e visitou Bruxelas, os Países Baixos, Leipzig, Viena, Praga e Paris.
Nos dez últimos anos de vida, Hegel não publicou outro livro, mas revisou amplamente a Enciclopédia, cuja segunda edição saiu em 1827 e a terceira em 1830. Em filosofia política, criticou a obra conservadora de Karl Ludwig von Haller, que afirmava serem desnecessárias as leis. Outras obras de filosofia da história, filosofia da religião, estética e história da filosofia foram reunidas a partir de anotações de seus alunos e publicadas após sua morte.
Hegel assumiu a reitoria da universidade em outubro de 1829 e deixou o cargo em setembro de 1830. Os protestos por reformas em Berlim naquele ano o perturbaram profundamente. Em 1831, Frederico Guilherme III da Prússia lhe concedeu a Ordem da Águia Vermelha, terceira classe, por seus serviços ao Estado prussiano. Uma epidemia de cólera, parte da pandemia de cólera de 1826–1837, chegou a Berlim em agosto de 1831. Hegel saiu da cidade e se hospedou em Kreuzberg. Com a saúde debilitada, quase não saía de casa. Voltou a Berlim no início do semestre, em outubro, acreditando erroneamente que a epidemia havia arrefecido. Morreu em 14 de novembro. Os médicos apontaram a cólera como causa, mas é possível que tivesse outra doença gastrointestinal. Heinrich Heine atribuiu-lhe as últimas palavras: "Houve apenas um homem que me compreendeu, e mesmo ele não me compreendeu". A autenticidade da frase é contestada. Hegel foi sepultado em 16 de novembro no Cemitério de Dorotheenstadt, ao lado de Fichte e Karl Wilhelm Ferdinand Solger, conforme desejava.
Seu filho Ludwig Fischer havia morrido pouco antes, quando servia no Exército neerlandês em Batávia, sem que a notícia chegasse a Hegel. No começo do ano seguinte, Christiane, irmã do filósofo, se matou por afogamento. Os outros dois filhos viveram muitos anos: Karl tornou-se historiador, e Immanuel Hegel seguiu a teologia. Eles conservaram o espólio (Nachlass), incluindo os manuscritos e as cartas do pai, e prepararam edições de suas obras.
Influências
A filosofia grega, em particular Aristóteles, permaneceu presente no pensamento de Hegel.
Como conta H. S. Harris, ao entrar no seminário de Tübingen em 1788, Hegel era um jovem formado pelo Iluminismo alemão: lia Rousseau e Lessing com entusiasmo, conhecia Kant ao menos indiretamente e talvez tivesse maior apego aos clássicos do que a qualquer autor moderno. Entre os antigos, os gregos, sobretudo Platão, vinham em primeiro lugar. Mais tarde, Hegel colocou Aristóteles acima de Platão, sem perder o interesse pela filosofia antiga que atravessa sua obra.
As leituras de Rousseau acompanharam a formação de Hegel e sua reflexão sobre vida social e liberdade.
O interesse pelas formas de unidade cultural judaica, grega, medieval e moderna, que surgiu cedo, acompanhou Hegel durante toda a carreira. Nesse aspecto, também partilhava preocupações do primeiro romantismo alemão. "Unidade da vida" era a expressão com que sua geração nomeava o bem mais alto: estar em unidade consigo mesmo, com os outros e com a natureza. A divisão (Entzweiung) ou alienação (Entfremdung) ameaçaria essa unidade.
Nesse quadro, Hegel se interessou pelo amor como uma "unidade na diferença", tanto na formulação de Platão quanto no ágape cristão, que naquele período via como fundado na razão universal. Esse interesse e sua formação teológica permaneceram em sua filosofia mesmo quando ela assumiu uma direção mais teórica e metafísica.
Para Glenn Alexander Magee, a tradição hermética, em especial a obra de Jakob Böhme, também deixou marcas no pensamento de Hegel, inclusive na estrutura tripartida de seu sistema. Já a convicção de que a filosofia deveria tomar a forma de um sistema veio sobretudo de Schelling e Hölderlin, seus companheiros de quarto em Tübingen.
Na filosofia crítica de Kant, Hegel encontrou o que considerava a formulação moderna mais nítida das divisões a superar. Isso o levou aos projetos de Fichte e Schelling, assim como a Espinoza e à controvérsia do panteísmo. A leitura de Johann Gottfried Herder, por sua vez, o levou a rejeitar parcialmente a universalidade reivindicada pelo programa kantiano, buscando uma compreensão da razão mais atenta à cultura, à língua e à história.
A Fenomenologia do Espírito foi publicada em 1807. Nela, Hegel, então com 36 anos, apresentou pela primeira vez uma abordagem própria e uma resposta reconhecivelmente hegeliana aos problemas da filosofia posterior a Kant. Seus contemporâneos, porém, compreenderam mal o livro, que recebeu resenhas em sua maioria negativas. A densidade dos conceitos e das alusões, o vocabulário peculiar e as transições difíceis continuam a desafiar os leitores. O comentário mais extenso da obra, Hegel's Ladder, de H. S. Harris, ocupa dois volumes, The Pilgrimage of Reason e The Odyssey of Spirit, e tem mais que o triplo do tamanho do livro comentado.
O quarto capítulo contém a primeira exposição da dialética do senhor e do servo, passagem que se tornou especialmente conhecida fora dos estudos especializados. No conflito descrito por Hegel, está em jogo o reconhecimento prático da condição humana universal de duas autoconsciências opostas, expresso pelos termos alemães Anerkennung e anerkennen. O leitor percebe antes delas que o reconhecimento só se realiza quando é recíproco: o reconhecimento vindo de alguém que não se admite como plenamente humano não pode valer como reconhecimento autêntico. Essa passagem também permite ler uma crítica à visão individualista da sociedade como soma de pessoas isoladas. A consciência que cada pessoa tem de si depende do reconhecimento dos outros e é afetada pela maneira como eles a veem.
Na edição de 1807 da Fenomenologia do Espírito, Hegel apresentou pela primeira vez sua abordagem filosófica própria.
Hegel chamou a Fenomenologia de "introdução" ao seu sistema e, ao mesmo tempo, de sua "primeira parte", como "ciência da experiência da consciência". A relação da obra com o sistema, em cada uma dessas duas acepções, continua debatida. O próprio Hegel mudou de posição a esse respeito durante a vida.
Apesar das dificuldades de leitura, é possível expor a estratégia básica da obra. Hegel parte das certezas mais elementares da consciência, entre elas a de que "eu" estou consciente "deste" objeto "aqui" e "agora", e procura mostrar como as certezas da consciência comum levam ao ponto de vista da lógica especulativa.
Isso não torna a Fenomenologia um Bildungsroman, romance de formação no qual o protagonista aprende com as próprias experiências. A consciência examinada não tira essa lição. Quem pode aprender com a reconstrução lógica da experiência feita por Hegel somos "nós", os observadores fenomenológicos.
A dialética que se segue é longa e difícil. Hegel a chama de "caminho do desespero": a autoconsciência descobre repetidamente que estava errada. Seu próprio conceito de si é posto à prova pela experiência e, quando se mostra insuficiente, a consciência "sofre essa violência por suas próprias mãos" e perde a satisfação que encontrava em seus limites. Hegel compara essa exigência a aprender a nadar: não há como fazê-lo sem entrar na água. Ao testar sucessivamente o que entende por conhecimento, ele procura fundamentar a metafísica pela experiência, num movimento que foi comparado a uma dedução transcendental.
No percurso do livro, Hegel pretende mostrar que, como a consciência envolve sempre autoconsciência, não há objetos simplesmente "dados" à percepção direta sem a mediação do pensamento. Uma análise da autoconsciência indica ainda que a estabilidade conceitual e social do mundo vivido depende de relações de reconhecimento recíproco. Quando esse reconhecimento falha, é preciso voltar-se ao passado para compreender o que o presente exige. Hegel chega assim a uma interpretação da religião como reflexão coletiva de uma comunidade moderna sobre aquilo que lhe importa em última instância. Para ele, o exame filosófico e histórico desse processo explica a formação de um ponto de vista propriamente moderno.
A Crítica da Razão Pura (1781) de Kant investigou as possibilidades do conhecimento; a Fenomenologia retoma a pergunta por outra via.
A Fenomenologia também retoma a investigação kantiana sobre as capacidades e os limites da razão. Sob a influência de Herder, Hegel a conduz historicamente, em vez de partir apenas de princípios a priori. Não aceita, porém, o relativismo que poderia decorrer da posição de Herder. Na leitura de J. M. Fritzman, a própria razão tem uma história: aquilo que conta como racional resulta de um desenvolvimento, ideia que Kant não havia imaginado e que Herder apenas começara a perceber.
A obra recusa a busca de um critério de verdade inteiramente exterior ao conhecimento. Para Hegel, os limites do conhecer pertencem ao próprio espírito. Teorias e concepções de si podem ser revistas, mas não por um simples exercício de imaginação: toda pretensão ao conhecimento deve provar sua adequação na experiência histórica real.
Durante os anos de Berlim, Hegel pareceu abandonar a Fenomenologia do Espírito. Antes de morrer, porém, planejava revisá-la e publicá-la novamente. H. S. Harris observa que, já sem precisar do dinheiro ou das credenciais que um livro lhe poderia trazer, Hegel devia considerar a "ciência da experiência" um projeto ainda válido por si, sem equivalente no sistema posterior. Os estudiosos não concordam sobre o lugar da Fenomenologia em relação às duas funções sistemáticas que Hegel lhe atribuíra ao publicá-la.
O sistema de Hegel se divide em três partes: a ciência da lógica, a filosofia da natureza e a filosofia do espírito. As duas últimas compõem a chamada Realphilosophie, ou filosofia do real. Sua estrutura retoma a tríade neoplatônica de Proclo — permanência, processão e retorno — e a Trindade cristã. O desenho do sistema já aparece em manuscritos de 1805, mas só chegou completo a uma obra publicada com a primeira edição da Enciclopédia, em 1817.
O historiador da filosofia Frederick C. Beiser propõe compreender a posição da lógica diante da filosofia do real a partir da distinção aristotélica entre a ordem da explicação e a ordem do ser. Nessa leitura, Hegel não toma entidades lógicas abstratas como seres separados, à maneira de um platonismo, nem coloca o particular em primeiro lugar nas duas ordens, como faria um nominalista. Seu pensamento é holista. O universal vem primeiro na explicação, mesmo que o particular venha primeiro na existência natural. No sistema, a lógica fornece esse universal.
Michael Inwood explica que a ideia lógica não ocorre no tempo e, portanto, não existe em algum momento separada de suas manifestações. Perguntar "quando" ela se divide em natureza e espírito seria como perguntar "quando" 12 se divide em 5 e 7: a pergunta toma equivocadamente por temporal uma relação que não o é. Nesse nível do sistema, a lógica formula o que Hegel chama de "identidade da identidade e da não identidade" de natureza e espírito. Ela busca superar o dualismo entre sujeito e objeto e fornecer uma base metafísica para compreender o espírito em continuidade com o mundo natural, sem confundir um com o outro.
Esquema das três partes do sistema: lógica, filosofia da natureza e filosofia do espírito.Um manuscrito do comentário de Proclo ao Timeu representa a tradição neoplatônica retomada na estrutura tripartida do sistema.
As seções finais da Enciclopédia indicam que dar prioridade isolada a qualquer uma das três partes produz uma leitura unilateral ou incompleta. Nas palavras de Hegel, "o verdadeiro é o todo".
A "lógica" de Hegel não corresponde ao uso corrente da palavra. Ele a apresenta, por exemplo, como ciência das coisas apreendidas em pensamentos que exprimem suas determinações essenciais. Michael Wolff a entende como continuação de um programa próprio da filosofia de Kant. Hegel recorre ocasionalmente à lógica aristotélica, mas ela não é o objeto de seu projeto. As lógicas formais desenvolvidas no século XX por Frege e Russell também tratam de validade formal, enquanto Hegel pretende construir uma lógica metafísica da verdade.
Há duas versões da lógica hegeliana. A Ciência da Lógica, publicada em 1812, 1813 e 1816, com o primeiro livro revisado em 1831, é por vezes chamada de "lógica maior". A outra ocupa a primeira parte da Enciclopédia e é conhecida como "lógica menor". Esta apresenta a mesma dialética de forma condensada: Hegel a escreveu para acompanhar suas aulas, sem intenção de substituir a exposição extensa do livro.
Hegel apresenta a lógica como uma ciência sem pressupostos, dedicada às determinações mais fundamentais do pensamento, as Denkbestimmungen ou categorias, e por isso como base da filosofia. Quem põe algo em questão já pressupõe a lógica. Ela precisa, assim, examinar continuamente o próprio modo de operar. A Ciência da Lógica procura satisfazer essa exigência. Para Hegel, "a lógica coincide com a metafísica". Glenn Alexander Magee a interpreta como exposição de categorias ou ideias puras, verdadeiras independentemente do tempo e constitutivas da estrutura formal da própria realidade.
Isso não significa regressar ao racionalismo de Leibniz e Wolff criticado por Kant. Hegel aceita essa crítica e rejeita a metafísica que especula sobre um mundo transcendente. Seu procedimento, inspirado na noção aristotélica de forma substancial, permanece no próprio objeto investigado. Também concorda com Kant na rejeição ao dogmatismo e na exigência de submeter qualquer metafísica futura à crítica.
Béatrice Longuenesse vê nesse projeto, por analogia com Kant, uma dedução ao mesmo tempo metafísica e transcendental das categorias da metafísica. A ideia é que os resultados da lógica não podem ser avaliados por critérios exteriores ao próprio pensamento, sem que isso os torne arbitrários ou subjetivos. O pensamento não funciona como um espelho passivo da natureza. O tradutor e estudioso George di Giovanni também entende a Lógica como uma investigação transcendental que dialoga com Kant e dele se afasta: para Hegel, suas categorias pertencem à própria vida e definem o que significa ser um objeto.
A Metafísica de Aristóteles, aqui numa edição de 1837, é um ponto de referência para a discussão hegeliana de forma e realidade.
Os dois primeiros livros da Lógica expõem as doutrinas do "Ser" e da "Essência". Juntos formam a lógica objetiva, em grande parte dedicada a superar pressupostos da metafísica tradicional. O terceiro livro, sobre o "Conceito", integra novamente as categorias da objetividade numa explicação idealista da realidade. De modo muito simplificado, a doutrina do Ser apresenta conceitos tal como aparecem, a da Essência procura explicá-los pelas relações com seus opostos, e a do Conceito explica e reúne os dois momentos por uma finalidade interna. As categorias do Ser "passam" umas às outras e inicialmente parecem ligadas apenas de fora. As da Essência "refletem" reciprocamente. No Conceito, o pensamento se volta inteiramente para si, e as categorias se desenvolvem umas a partir das outras.
No sentido técnico de Hegel, o Begriff, traduzido como "conceito" ou às vezes "noção", não é uma ideia psicológica na mente de uma pessoa. Quando Hegel fala de "o Conceito", refere-se à estrutura inteligível da realidade tal como é exposta na lógica subjetiva. No plural, "conceitos" se aproxima mais do uso comum da palavra.
A folha de rosto da Ciência da Lógica; seus três livros foram publicados entre 1812 e 1816.
Hegel procura ordenar as diferenças que surgem dentro do próprio pensamento, ou seja, as relações de implicação e dependência entre as categorias lógicas. No começo da Lógica, por exemplo, afirma que pensar o "ser puro", sem qualquer determinação adicional, não se distingue de pensar o "nada". Nesse movimento de passagem, cada um desaparece imediatamente em seu oposto. O movimento não é nem um nem outro: é a categoria do "devir". Não se trata de apontar uma diferença preexistente, mas de acompanhar a dialética que se mostra.
A última categoria da Lógica é a "ideia". Assim como "conceito", a palavra não tem aqui um sentido psicológico. Em diálogo com a Crítica da Razão Pura de Kant, Hegel retoma o eidos grego, a teoria das ideias de Platão, que concebe a forma como universal e plenamente real. A "ideia" hegeliana reúne num mesmo conjunto de conceitos questões de ontologia, epistemologia e avaliação.
A Lógica reconhece a necessidade de um domínio natural e espiritual sujeito à contingência, que não pode ser determinado antecipadamente. Para avançar, o pensamento precisa abrir-se àquilo que não é pensamento puro. A lógica se realiza no âmbito da natureza e do espírito, onde encontra sua comprovação. Por isso, A Ciência da Lógica termina com a ideia que se "libera" para a objetividade e a vida exterior, passagem sistemática à filosofia do real.
Filosofia do real
A coruja de Minerva simboliza, no prefácio à Filosofia do Direito, a compreensão que chega quando uma forma de vida já amadureceu.
Enquanto a lógica constitui a primeira parte do sistema, a filosofia do real abrange a natureza e o espírito. Seu conteúdo histórico permanece aberto a mudanças. Hegel considerava completa a estrutura básica da filosofia da natureza, mas sabia que as ciências fariam novas descobertas. A filosofia é, em sua expressão, "seu próprio tempo apreendido em pensamentos".
Ele desenvolve essa ideia na passagem:
Mais uma palavra sobre a pretensão de dar instruções a respeito de como o mundo deve ser: a filosofia chega sempre tarde demais para isso. Como pensamento do mundo, ela só aparece quando a realidade atravessou seu processo de formação e amadureceu. A história também ensina que o ideal só surge diante do real quando a realidade chega à maturidade, reconstruindo no pensamento esse mundo real apreendido em sua substância. Quando a filosofia pinta seu cinza sobre cinza, uma forma de vida envelheceu. Esse cinza não a rejuvenesce, apenas a conhece. A coruja de Minerva levanta voo somente ao cair da tarde.
A passagem tem sido lida como confissão de impotência política da filosofia e como defesa da ordem existente. Allegra de Laurentiis, porém, chama atenção para o verbo alemão sich fertig machen, que pode significar não só "concluir-se" como também "preparar-se". O segundo sentido se aproxima mais do aristotelismo e da noção de atualidade empregada por Hegel: uma atividade que se mantém em operação e nunca está definitivamente concluída.
Hegel enuncia assim a relação entre a lógica e a filosofia do real: "Se a filosofia não está acima de seu tempo quanto ao conteúdo, está quanto à forma, pois torna objeto de pensamento e conhecimento aquilo que é o espírito substancial de sua época".
Para Hegel, o caráter científico da filosofia do real reside nessa forma lógica coerente, encontrada no material natural e histórico e apresentada sistematicamente.
Filosofia da natureza
Ilustração botânica de cerca de 1800: a organização dos seres vivos é um exemplo da finalidade interna que Hegel discutiu na filosofia da natureza.
A filosofia da natureza organiza sistematicamente o material contingente das ciências naturais. Como parte da filosofia do real, ela não pretende ditar à natureza como deve ser. Ao longo do tempo, alguns intérpretes questionaram o conhecimento que Hegel tinha das ciências de sua época, mas trabalhos mais recentes contestaram muitas dessas críticas. No §246 da Enciclopédia, Hegel afirma que a filosofia deve concordar com a experiência da natureza e que a física empírica é pressuposto e condição da ciência filosófica.
Uma das poucas maneiras pelas quais a filosofia da natureza poderia corrigir as ciências naturais seria opor-se a explicações redutoras, que empregam categorias insuficientes para o fenômeno em exame. Um exemplo seria tentar explicar a vida somente por processos químicos.
A obra de Goethe sobre a metamorfose das plantas (1790) exemplifica o estudo de seres vivos na época em que se discutiam organização e finalidade na natureza.
Hegel e outros filósofos da natureza procuraram recuperar uma compreensão teleológica do mundo natural, mas sustentavam que sua ideia de finalidade era inteiramente interna à natureza e se limitava aos fins nela observáveis. Por isso, afirmavam não contrariar a crítica de Kant. Hegel e Schelling iam além: para eles, restringir a teleologia a uma função apenas reguladora prejudicava o projeto kantiano de explicar como o conhecimento é possível. Só ao pressupor a existência de um organismo seria possível compreender a interação efetiva entre sujeito e objeto, ideal e real. Nessa argumentação, o organismo precisa ter um papel constitutivo.
Ao apresentar a filosofia da natureza de Hegel aos leitores do século XXI, Dieter Wandschneider afirma que a filosofia da ciência perdeu de vista uma pergunta ontológica: o que torna a natureza regida por leis próprias? O problema de saber o que constitui uma lei natural ainda não recebeu resposta definitiva. Wandschneider sugere que os filósofos da ciência voltem à filosofia da natureza hegeliana para enfrentá-lo.
Outros pesquisadores encontram nessa abordagem recursos para pensar problemas ambientais que Hegel não poderia ter previsto. Chamam atenção para sua base metafísica e para a continuidade que estabelece entre natureza e espírito.
Filosofia do espírito
O imperativo de Delfos, "conhece-te a ti mesmo", orienta a filosofia do espírito de Hegel. Pintura de John Collier (1891).
A palavra alemã Geist admite muitos sentidos. Em seu uso hegeliano mais geral, designa a mente humana e aquilo que ela produz, em distinção da natureza e da ideia lógica. Algumas traduções antigas a vertem por "mente" em vez de "espírito".
Sobretudo na Antropologia, o espírito hegeliano retoma e transforma a noção aristotélica de energeia, atividade que se refere a si mesma. Ele não é algo colocado acima da natureza ou fora dela, mas o grau mais desenvolvido de organização de suas capacidades.
Hegel afirma que a "essência do espírito é a liberdade". A filosofia do espírito na Enciclopédia acompanha as formas cada vez mais determinadas dessa liberdade até que o espírito cumpra o imperativo de Delfos com o qual Hegel abre a exposição: "Conhece-te a ti mesmo".
Liberdade, aqui, não significa apenas poder escolher arbitrariamente. A ideia central é que uma pessoa é livre quando pode determinar-se por si, sem ser definida ou governada por algo estranho a ela. Predomina, nesse sentido, uma concepção próxima daquilo que Isaiah Berlin chamaria depois de liberdade positiva.
Espírito subjetivo
Na passagem da natureza ao espírito, a filosofia do espírito subjetivo examina as condições necessárias para as relações sociais estudadas na parte seguinte. Trata da constituição biológica e espiritual do indivíduo racional, de suas capacidades de conhecer e das condições práticas da convivência humana.
Nessa parte, sobretudo no início, há afirmações que hoje se reconhecem como racistas, entre elas alegações sem fundamento de que pessoas negras teriam menor desenvolvimento intelectual e emocional. Uma interpretação enfatiza que Hegel associava as diferenças raciais ao clima e admitia que um povo pudesse mudar suas condições ao migrar. A partir das edições críticas de transcrições de suas aulas, porém, Daniel James e Franz Knappik argumentam que ele também atribuía a certos grupos supostas deficiências mentais herdadas e inseria uma hierarquia racial em sua explicação filosófica. A relação entre essas passagens e o restante do sistema de Hegel continua a ser discutida.
Gravura sobre o magnetismo animal, fenômeno que Hegel discutiu na antropologia da Enciclopédia.
Hegel divide o espírito subjetivo em antropologia, fenomenologia e psicologia. A antropologia estuda a "alma", o espírito ainda envolvido na natureza e anterior à mente autoconsciente. A fenomenologia examina a relação entre a consciência e seu objeto, assim como o surgimento da racionalidade entre sujeitos. A psicologia trata de temas que hoje seriam em parte classificados como epistemologia, ou teoria do conhecimento: atenção, memória, imaginação e juízo, entre outros. Na seção de antropologia da Enciclopédia, Hegel também examina fenômenos então chamados de magnetismo animal, inclusive o chamado sono magnético. Esse tema ocupa o §406 da obra.
A investigação aristotélica da alma e do corpo em De anima ajuda a situar a tradição retomada na antropologia de Hegel.
Ao longo dessa exposição, em especial na antropologia, Hegel retoma a abordagem hilemórfica de Aristóteles para um problema mais tarde chamado de problema mente-corpo. A solução não consiste em imaginar que a mente cause efeitos num corpo separado, mas em compreendê-la como atividade de um sujeito vivo e corporificado. Seu desenvolvimento torna esse sujeito cada vez mais capaz de determinar a si mesmo.
A seção final, "Espírito livre", desenvolve a ideia de vontade livre que fundamenta a filosofia do direito de Hegel.
Em sentido amplo, a filosofia do espírito objetivo trata de como o espírito humano se torna objetivo nas atividades e produções da sociedade e da história. Ela examina as instituições da liberdade. Frederick C. Beiser observa que os estudiosos de Hegel, apesar de outras divergências, concordam quanto à centralidade da liberdade em sua teoria política: ela fundamenta o direito, constitui a essência do espírito e é a finalidade da história.
Hegel expôs essa filosofia na Enciclopédia de 1817, revisada em 1827 e 1830, e em Elementos da filosofia do direito, ou direito natural e ciência política em compêndio, publicado em 1820 com a data de 1821 na folha de rosto. Ambos os livros foram usados em suas aulas. A última parte, dedicada à história mundial, foi desenvolvida também nas conferências sobre o tema. A Filosofia do Direito provocou controvérsias desde a publicação. Embora por vezes tomada como defesa do Estado autocrático prussiano, ela foi lida por Allen W. Wood como defesa da Prússia que poderia resultar das reformas então propostas. O termo alemão Recht do título reúne sentidos que o inglês não exprime numa só palavra, embora tenha correspondências no latim ius e no francês droit. Michael Inwood distingue inicialmente:
um direito, reivindicação ou título;
a justiça na acepção de administrar justiça, e não como virtude;
o direito como princípio ou o conjunto das leis.
A Filosofia do Direito, lançada em 1820 com a data de 1821 na folha de rosto, expõe a análise hegeliana da propriedade, da moralidade e das instituições da vida ética.
Para Beiser, Hegel tenta recuperar a tradição do direito natural sem ignorar as críticas da escola histórica. Essa tradição seria fundamental para entender sua filosofia social e política. Adriaan Theodoor Peperzak também examina suas objeções à teoria do contrato social e insiste nos fundamentos metafísicos da filosofia do direito.
Kenneth R. Westphal organiza a Filosofia do Direito em três partes para mostrar como a autonomia política atravessa a análise de Hegel:
o "Direito abstrato" trata da propriedade, de sua transferência e das violações dos direitos de propriedade;
a "Moralidade" examina os direitos do sujeito moral, a responsabilidade pelos próprios atos e as teorias a priori do direito;
a "eticidade" (Sittlichkeit) examina princípios e instituições da vida social racional: família, sociedade civil, Estado e governo.
A declaração francesa de 1789 associa direitos à transformação das instituições políticas, tema que atravessa a filosofia do direito de Hegel.
Para Hegel, a monarquia constitucional de seu tempo podia reunir racionalmente três componentes: democracia, quando muitos participam da legislação; aristocracia, quando poucos aplicam e executam as leis; e monarquia, quando um indivíduo encabeça o poder. A combinação lembra a forma "mista" de governo de Aristóteles, que procurava reunir qualidades das três formas clássicas. A separação de poderes impediria que um deles dominasse os demais. Hegel insistia em submeter o monarca à constituição e em restringir seu papel quase à declaração formal de decisões já tomadas pelos ministros.
A relação entre a filosofia do direito de Hegel e o liberalismo moderno não cabe numa fórmula simples. Ele o via como expressão valiosa do mundo moderno, mas também acreditava que a busca de objetivos individuais, sem referência a um bem coletivo, poderia corroer os próprios valores liberais. Nessa organização mais ampla, os valores morais individuais tinham um lugar limitado. Ainda que sua defesa da liberdade positiva seja muito lembrada, Beiser ressalta que Hegel também defendeu com firmeza a liberdade negativa.
O monarca ideal de Hegel tinha menos poder do que a maioria dos soberanos de sua época. Em contrapartida, a participação democrática prevista por ele era mais restrita do que nas democracias modernas. Hegel defendia a presença do público na política, mas limitava o sufrágio e seguia o modelo bicameral inglês. Só a câmara baixa, composta por cidadãos comuns e pela burguesia, teria membros eleitos. Os nobres da câmara alta herdariam seus lugares, assim como o monarca herdava o trono.
A parte final da filosofia do espírito objetivo é a "História mundial". Nela, Hegel afirma que o princípio interno da história, o logosestoico, amplia necessariamente a capacidade humana de autodeterminação e aprofunda o conhecimento que a espécie tem de si. Em suas palavras, "a história mundial é o progresso na consciência da liberdade, progresso que devemos compreender conceitualmente".
Espírito absoluto
Hegel com seus alunos em Berlim, em desenho de Franz Theodor Kugler de 1828; as anotações dos cursos deram origem a obras póstumas.
O adjetivo "absoluto" pode causar equívocos. Derivado do latim absolutus, designa algo que não depende de outra coisa, não é condicionado ou relativo a ela, e se basta. Para Hegel, o saber absoluto diz respeito a uma relação na qual a base da experiência e quem a experimenta coincidem: o sujeito que conhece toma a si próprio como objeto. O único "algo" verdadeiramente absoluto, nessa acepção, é uma atividade que determina inteiramente a si mesma. Hegel encontra isso quando o espírito se faz seu próprio objeto. A parte final da filosofia do espírito apresenta três formas desse saber: arte, religião e filosofia.
Em A Escola de Atenas, de Rafael, a pintura apresenta filósofos por imagens; a distinção entre arte e pensamento conceitual ajuda a situar o problema de Hegel.
Hegel distingue essas formas pelas maneiras de conhecer: intuição, representação e pensamento conceitual. Frederick C. Beiser resume: arte, religião e filosofia têm o mesmo objeto, o absoluto ou a verdade, mas o apresentam de modos distintos. A arte o mostra à intuição imediata (Anschauung), a religião à representação (Vorstellung) e a filosofia ao conceito (Begriff).
Rüdiger Bubner acrescenta que a clareza conceitual crescente nessa sequência não implica uma escala de valor entre as três formas.
Embora a exposição do espírito absoluto na Enciclopédia seja breve, Hegel desenvolveu o tema extensamente em suas aulas sobre filosofia das belas-artes, filosofia da religião e história da filosofia.
A Atena Varvácio, cópia antiga da Atena Partenos, remete ao exemplo de Hegel sobre como um ateniense reconhecia sua essência racional na arte.
Na Fenomenologia e ainda na primeira edição da Enciclopédia, de 1817, Hegel trata da arte apenas no âmbito da "religião da arte" dos antigos gregos. Em 1818, começou a lecionar filosofia da arte como campo próprio, sem abandonar, contudo, a análise da religião da arte. As duas formas do espírito absoluto podem ser distinguidas conceitualmente, embora tenham se cruzado na Grécia antiga.
H. G. Hotho deu à sua edição das aulas o título Vorlesungen über die Ästhetik, ou Lições sobre estética. Hegel, no entanto, dizia que seu objeto não era todo o domínio do belo, mas a arte, em especial as belas-artes. Ele a distinguia expressamente dos projetos filosóficos mais amplos chamados de "estética" por Christian Wolff e Alexander Gottlieb Baumgarten.
Alguns críticos, entre eles Benedetto Croce em 1907, atribuíram a Hegel a tese de que a arte "morreu". Hegel não afirmou que obras de arte deixariam de existir. Para ele, a arte já não era a forma suprema de apreender a verdade na modernidade; ao discutir certas formas de humor irônico, chegou a falar do fim da arte nesse sentido específico. Uma interpretação do debate observa que a frase segundo a qual a arte "já não satisfaz nossas mais altas necessidades" chama atenção sobretudo por pressupor que ela algum dia as satisfez.
A extensão e o cuidado com que Hegel tratou sistematicamente as artes levaram o historiador Ernst Gombrich a chamá-lo de "pai da história da arte". Durante grande parte da história de sua recepção, suas aulas interessaram mais a críticos literários e historiadores da arte do que aos filósofos.
O friso do Partenon aproxima o leitor da arte grega, à qual Hegel recorre ao discutir a expressão sensível e a vida religiosa antiga.
Um problema mais preciso da filosofia da arte hegeliana é explicar e defender a autonomia da arte, de modo a compreender o caráter próprio de cada obra de valor estético.
Para Hegel, a beleza artística apresenta a verdade absoluta à percepção. As melhores obras comunicariam um conhecimento metafísico por meios sensíveis, tornando perceptível aquilo que sua filosofia considera verdadeiro sem condições. Ao mesmo tempo, Hegel entendia que um meio sensível nunca consegue exprimir adequadamente o que ultrapassa inteiramente a contingência dos sentidos. A arte é, por isso, uma entre três formas complementares do espírito absoluto.
Cristianismo
Embora suas ideias religiosas tenham mudado, Hegel se identificou como luterano durante toda a vida. Manteve apreço pela afirmação cristã do valor e da liberdade próprios de cada indivíduo.
Escritos do primeiro romantismo
Vida de Jesus, escrita por Hegel em 1795 e publicada postumamente, pertence aos seus primeiros estudos sobre o cristianismo.
Os primeiros textos de Hegel sobre o cristianismo datam de 1783 a 1800. Suas ideias ainda estavam em formação, e os escritos desse período ficaram em fragmentos ou rascunhos inacabados. Hegel criticava o dogmatismo e a "positividade" da religião cristã, contrapondo-lhes a religião espontânea que atribuía aos gregos. Em "O espírito do cristianismo", tentou aproximar a universalidade da moral kantiana à dos ensinamentos de Jesus. Parafraseando essa tentativa: o princípio moral do Evangelho é a caridade, ou amor, beleza espiritual que une a alma grega à razão moral de Kant. Hegel deixou essa formulação romântica para trás, mas a relação entre pensamento grego e cristão continuou a ocupá-lo.
Fenomenologia do Espírito
O diagrama tradicional da Trindade distingue Pai, Filho e Espírito Santo; Hegel procurou explicitar filosoficamente essa representação religiosa.
A religião atravessa a Fenomenologia do Espírito de 1807 muito antes do penúltimo capítulo, dedicado expressamente ao assunto. Ela está presente, por exemplo, na "infelicidade" metafísica da consciência de feição agostiniana no capítulo IV e na luta entre a Igreja da fé e os philosophes do Iluminismo no capítulo VI.
A apresentação mais direta do cristianismo vem na seção final da Fenomenologia, antes do capítulo conclusivo sobre o saber absoluto. Hegel a intitula "A religião manifesta" (die offenbare Religion). Ao examinar filosoficamente doutrinas como a encarnação e a ressurreição, ele pretende tornar clara a verdade conceitual do cristianismo. Assim, procura explicitar filosoficamente aquilo que na religião havia sido revelado em forma histórica (geoffenbart).
A interpretação hegeliana da Trindade ajuda a compreender esse argumento. Deus Pai dá a si mesmo existência finita como Filho humano. A morte do Filho mostra que sua essência é Espírito. Para Hegel, seu conceito filosófico de espírito torna inteligível o que a representação cristã da Trindade deixa obscuro. A verdade filosófica da religião passa então a ser conhecida.
Em estudo sobre a Fenomenologia, George di Giovanni distingue a fé racional de Kant da religião racional de Hegel. Para di Giovanni, a religião moderna, na leitura hegeliana, não deve explicar o funcionamento da realidade, mas dar expressão ao espírito e alimentá-lo em suas formas mais individuais. A fé deixa de se opor ao conhecimento e pode significar a confiança depositada em pessoas próximas, no lugar e no tempo em que se vive.
Nessa interpretação, o cristianismo não exige crer numa doutrina que a razão não possa justificar. Restaria a comunidade religiosa, livre para acolher necessidades individuais e celebrar a liberdade absoluta do espírito.
As aulas berlinenses sobre religião vieram a público em edição póstuma de 1832, organizada a partir de registros dos cursos.
A Enciclopédia contém uma exposição curta da religião revelada. Hegel voltou ao cristianismo nas aulas dadas em Berlim, chamando-o, conforme a ocasião, de religião "consumada", "absoluta" ou "manifesta", termos equivalentes nesse uso. Restaram transcrições de três dos quatro cursos, nas quais se veem mudanças de ênfase e de modo de exposição. A interpretação fundamental, porém, continua próxima da Fenomenologia. Nas aulas, Hegel pôde desenvolver com mais clareza e espaço o que antes apresentara de forma condensada.
Problemas de interpretação
A comparação com Lutero põe em questão o sentido do luteranismo declarado por Hegel.
Walter Jaeschke pergunta se Lutero reconheceria Hegel como herdeiro de seu protestantismo. Hegel aceita o sacerdócio universal dos crentes por meio de seu conceito de espírito, mas rejeita doutrinas luteranas centrais, como sola gratia e sola scriptura. Para ele, o princípio fundamental do protestantismo é a recusa de aceitar uma convicção não ratificada pelo pensamento. Frederick C. Beiser considera sincera a identificação de Hegel com o luteranismo, mas julga sua teologia quase o oposto da de Lutero.
Beiser se surpreendeu com o novo interesse por Hegel na filosofia anglo-americana do fim do século XX, num ambiente acadêmico amplamente secular. Afinal, o divino ocupa o centro da filosofia hegeliana. O Deus de Hegel difere do Deus pessoal do cristianismo ortodoxo e do Deus distante proposto por filósofos deístas do século XVIII. Ainda assim, é concebido como infinito ou absoluto, em acordo com a fórmula clássica de Anselmo de Cantuária: "aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado".
O modo de compreender esse cristianismo próprio de Hegel gerou debates intensos durante sua vida e entre seus alunos após a morte. Seu Deus não se deixa caracterizar adequadamente como teísta nem como deísta: Hegel o expõe nos termos do espírito e de sua lógica. Ainda assim, insistiu sempre em que falava do Deus cristão.
Filosofia da história
A Queda da Bastilha, em 1789, pertence ao processo revolucionário que Hegel acompanhou e relacionou à consciência da liberdade.
Beiser escreveu que a história está no centro da concepção hegeliana de filosofia: filosofar exige conhecer a origem, as circunstâncias e o desenvolvimento das próprias doutrinas. Num ensaio de 1993, chamou o historicismo de Hegel de uma revolução na história da filosofia. Num livro de 2011 sobre a tradição historicista alemã, porém, não incluiu Hegel. Entendia que este se interessava mais pela filosofia da história do que pela tentativa de provar que a história constitui uma ciência. Contra o relativismo que poderia resultar de um historicismo em sentido restrito, a metafísica do espírito fornece uma finalidade interna à história, pela qual Hegel avalia o progresso: a consciência da liberdade. Quanto mais essa consciência penetra uma cultura, mais avançada ela seria, em seus termos.
Como a liberdade é para Hegel a essência do espírito, conhecer essa liberdade gradualmente é desenvolver tanto a verdade quanto a organização política. Pensar pressupõe uma confiança espontânea na verdade. Hegel apresenta a história da filosofia como sucessão de sistemas que procuram compreender o verdadeiro.
Chamar ou não Hegel de historicista depende, portanto, do sentido dado à palavra. A presença da história em sua filosofia, de todo modo, é incontestável.
Em alemão, Historie e Geschichte podem ser traduzidas por "história". A primeira palavra se refere à organização narrativa do material empírico. A segunda abrange a lógica interna do desenvolvimento dos atos e acontecimentos. Para Hegel, só esta permite uma história filosófica e universal, e é essa a via seguida em seus escritos históricos. Os seres humanos são históricos porque não apenas vivem no tempo: incorporam o que acontece ao entendimento que têm de si. Por isso, a história da filosofia faz parte da própria filosofia. Os primeiros filósofos não podiam pensar com os recursos que seus sucessores receberam deles e puderam desenvolver. Vista de uma época posterior, por exemplo, a ideia de pessoa pode mostrar uma exigência de universalidade que torna contraditório reconhecê-la para alguns e recusá-la a outros.
A figura do faraó ilustra o primeiro estágio da divisão histórica de Hegel, que atribuía a liberdade a apenas um governante.
Na introdução às Lições sobre a filosofia da história mundial, Hegel resume a história humana em três épocas. No mundo que chamou de "oriental", apenas uma pessoa, o faraó ou imperador, seria livre. No greco-romano, algumas pessoas, os cidadãos com bens, seriam livres. No mundo "germânico", isto é, na cristandade europeia, todas seriam livres.
Ao falar do mundo antigo, Hegel ofereceu uma defesa condicionada da escravidão. Escreveu que ela ocorria numa fase de transição entre a existência humana natural e uma condição verdadeiramente ética, num mundo onde um erro ainda tinha validade. Ao mesmo tempo, declarou a escravidão injusta em si e incompatível com a liberdade essencial de cada pessoa. Isso não o impediu, em aulas sobre a história mundial, de defender que a emancipação dos africanos escravizados fosse gradual e de atribuir ao cativeiro colonial uma suposta função disciplinadora. Pesquisas recentes examinam a tensão entre essas posições e sua concepção universal de liberdade.
A Pnice, lugar das assembleias de Atenas, aproxima o leitor do mundo greco-romano no qual Hegel via liberdade reservada a alguns cidadãos.
Alexandre Kojève e Francis Fukuyama, entre outros, entenderam Hegel como se dissesse que a história chegara ao fim quando a liberdade adquirisse uma formulação universal. Essa leitura pode ser contestada. A liberdade ainda pode ampliar-se quanto às pessoas que abrange e quanto ao que garante. Depois de Hegel, sua abrangência passou a incluir de modo expresso mulheres, pessoas escravizadas ou colonizadas, pessoas com transtornos mentais e aquelas cuja orientação sexual ou identidade de gênero não corresponde às normas conservadoras. A Carta Internacional dos Direitos Humanos, por sua vez, dá ao conteúdo da liberdade uma extensão não formulada pelo próprio Hegel. Embora as histórias filosóficas de Hegel avancem do Oriente ao Ocidente, J. M. Fritzman considera que esse viés não é indispensável à sua posição filosófica. Ele propõe que, diante da democracia da Índia e dos esforços da África do Sul para superar o apartheid, a expansão da liberdade talvez possa percorrer também o caminho de volta ao Oriente.
Dialética, especulação e idealismo
Primeira edição da Enciclopédia das ciências filosóficas (1817), na qual Hegel apresentou uma versão condensada de seu sistema.
É comum falar de um "método dialético" de Hegel. Ele próprio, porém, chamava sua filosofia mais frequentemente de "especulativa" (spekulativ) e usava "dialética" relativamente poucas vezes. Dialektik pode designar todo o movimento pelo qual o pensamento desenvolve suas determinações, mas se refere mais precisamente à negação interna das determinações fixas do entendimento, quando examinadas em suas oposições.
A revista fundada por Hegel e Schelling em 1802 situa as discussões do idealismo alemão em que ambos participaram.
Hegel distinguia três momentos do pensar correto:
(a) o abstrato, próprio do entendimento (verständig);
(b) o dialético, ou racional negativo (negativvernünftig);
(c) o especulativo, ou racional positivo (positivvernünftig).
Eles não constituem uma receita a ser aplicada de fora. O entendimento delimita um conceito, a dialética acompanha as dificuldades que surgem dessa delimitação, e o pensamento especulativo procura apreender a unidade que permite compreendê-las.
Narciso olha sua imagem na água. A cena ajuda a distinguir um reflexo visível da autoconsciência que Hegel investiga, na qual o pensamento se toma como objeto.
A autoconsciência, por exemplo, é o conceito que a consciência tem de si. O conceito e seu referente coincidem, pois a mente é sujeito e objeto do mesmo ato de conhecer, ao mesmo tempo e no mesmo aspecto. Hegel a trata, por isso, como conceito especulativo.
Para Beiser, se existe uma metodologia hegeliana, ela é antes uma "antimetodologia" que suspende métodos impostos ao objeto. A dialética acompanha o conceito daquilo que investiga e procura captar sua organização própria, sua necessidade interna e seu movimento. Hegel rejeita um procedimento exterior que se pudesse aplicar indiscriminadamente a qualquer assunto.
Uma cópia medieval do Parmênides de Platão recorda que o exame de hipóteses e oposições antecede Hegel, embora a investigação hegeliana tenha seu próprio percurso.
Esse caráter dialético costuma dificultar a classificação da posição de Hegel em debates particulares. Em vez de escolher uma resposta entre duas alternativas, ele muitas vezes questiona a oposição que as separa e mostra como algo de verdadeiro em cada uma pode ser integrado. Hegel chama de suprassunção o processo especulativo que conserva aquilo que havia de verdadeiro em teorias aparentemente contrárias.
O verbo alemão aufheben reúne três sentidos:
levantar ou elevar;
anular, abolir, cancelar ou suspender;
guardar, salvar ou conservar.
Hegel costuma empregá-lo com os três sentidos, dando especial peso à anulação e à conservação simultâneas de posições que pareciam incompatíveis. Chama de "momento" (das Moment) aquilo que é suprassumido: um aspecto essencial de um todo, quando este é pensado como estrutura, ou uma fase essencial, quando é pensado como processo. Ao dizer que algo é "contraditório", Hegel quer dizer que ele não se sustenta isoladamente nos próprios termos e precisa ser compreendido como momento de um todo maior.
Berkeley oferece um ponto de contraste: Hegel não reduz o ideal ao conteúdo de uma mente individual.
Pensar o finito como momento de um todo, em vez de tomá-lo como algo inteiramente autossuficiente, é compreendê-lo como ideal (das Ideelle). Nesse sentido, o idealismo sustenta que as coisas finitas não têm em si mesmas a base de sua existência: dependem de uma totalidade maior que se mantém por si.
"Momento", "suprassumir" e "idealizar" ajudam a acompanhar o idealismo de Hegel. Um objeto pode surgir no pensamento primeiro apenas esboçado, depois em suas condições internas e externas e, por fim, em sua determinação própria. Essa análise fenomenológica e conceitual distingue Hegel do idealismo transcendental de Kant e do idealismo centrado na mente de Berkeley. Ela pode coexistir com uma forma de realismo filosófico e de naturalismo que não reduz tudo a mecanismos. Hegel rejeita o empirismo quando este se apresenta como explicação a priori de todo conhecimento, sem negar a legitimidade filosófica do saber empírico. Sua tese idealista é que o próprio ser é racional.
O nome "idealismo absoluto" esteve mais ligado a Schelling; Hegel o empregou raramente para caracterizar a própria filosofia.
Chamar a filosofia de Hegel de "idealismo absoluto" não é errado, mas a expressão estava então mais ligada a Schelling. Só há três ocorrências documentadas em que Hegel a usou para sua própria filosofia.
Hegel afirmou que "toda filosofia é essencialmente idealismo". Para ele, a atividade conceitual está presente em todos os níveis do conhecer. Negá-la por completo destruiria também a confiança nas capacidades necessárias ao conhecimento objetivo e levaria ao ceticismo total. Robert Stern interpreta, por isso, o idealismo hegeliano como uma forma de "realismo conceitual": os conceitos participam da estrutura da realidade.
Tese, antítese e síntese
O esquema "tese, antítese e síntese" foi associado à obra de Fichte antes de ser atribuído a Hegel.
O esquema "tese, antítese e síntese", desenvolvido em grande parte antes por Fichte, foi difundido como descrição da filosofia hegeliana por Heinrich Moritz Chalybäus. Essa apresentação perdeu crédito entre os estudiosos. Walter Kaufmann escreveu:
Fichte introduziu na filosofia alemã a sequência de três passos, tese, antítese e síntese, usando essas palavras. Schelling adotou essa terminologia. Hegel não. Em nenhum de seus livros ele empregou as três palavras juntas para nomear três fases de um argumento ou de uma exposição. Elas não ajudam a compreender sua Fenomenologia, sua Lógica ou sua filosofia da história; atrapalham uma leitura aberta ao impor à obra um esquema que ele conhecia e rejeitou deliberadamente.
Uma avaliação menos categórica afirma que o esquema capta apenas parte do processo e precisa ser corrigido. Ele acerta ao reconhecer que, para Hegel, a verdade pode surgir do erro no desenvolvimento histórico e que as verdades parciais são revistas dentro de uma totalidade. Mas essa descrição só pode ser feita depois de acompanhar o processo. Tese e antítese não são elementos estranhos um ao outro, e nenhum "método dialético" poderia ser aplicado de fora a um tema.
Stephen Houlgate também sustenta que, na medida em que se possa falar de um método em Hegel, ele é estritamente imanente: surge do exame atento do próprio assunto. Se o exame se torna dialético, é porque há uma contradição no objeto, não porque um procedimento externo a produziu.
Karl Marx (1818–1883) desenvolveu uma crítica da sociedade que dialogava com a filosofia de Hegel.
É comum dividir os primeiros seguidores alemães de Hegel em dois campos, direita e esquerda. Os hegelianos de direita, tidos como discípulos mais diretos de suas aulas em Berlim, defenderam a ortodoxia protestante e o conservadorismo político da Restauração posterior a Napoleão. Os hegelianos de esquerda, ou jovens hegelianos, leram sua filosofia em sentido revolucionário, defendendo o ateísmo em religião e a democracia liberal em política. A classificação formulada em 1837 por David Friedrich Strauss, porém, incluía também um centro; resumi-la a apenas dois campos simplifica a história da escola hegeliana.
Os hegelianos de direita perderam espaço e passaram a interessar sobretudo a especialistas. Os de esquerda incluíram alguns dos pensadores mais lidos de sua época e, pela ênfase na ação, continuaram a ser estudados especialmente na tradição marxista.
Entre os primeiros a criticar expressamente o sistema de Hegel estavam os jovens hegelianos do século XIX, como Feuerbach, Marx, Engels e seus seguidores. Um resumo conhecido dessa crítica está na décima primeira das "Teses sobre Feuerbach", escritas por Marx em 1845 e publicadas pela primeira vez, em versão editada por Engels, em 1888: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; trata-se, porém, de transformá-lo".
História e consciência de classe (1923), de György Lukács, ajudou a recolocar Hegel no repertório marxista. A reavaliação de sua obra como possível origem filosófica de aspectos do marxismo renovou o interesse por sua dialética e por sua compreensão histórica. Autores da teoria crítica da Escola de Frankfurt desenvolveram outras leituras hegelianas de Marx.
Na França
As aulas de Kojève influenciaram uma leitura francesa de Hegel centrada no reconhecimento e na história.
É frequente identificar o "Hegel francês" com as aulas de Alexandre Kojève, centradas na dialética do senhor e do servo (Herrschaft und Knechtschaft), que ele verteu como dialética do senhor e do escravo (maître et esclave), e na filosofia hegeliana da história. Essa imagem deixa de lado mais de sessenta anos de textos franceses que haviam tomado como referência o "sistema" da Enciclopédia. A leitura posterior, fundada na Fenomenologia do Espírito, reagiu em muitos aspectos à anterior. Depois de 1945, seu interesse pelo devir histórico por meio do conflito aproximou certas interpretações do existencialismo e do marxismo.
Ao concentrar a dialética na história, Jean Wahl, Kojève e Jean Hyppolite apresentaram Hegel sobretudo como autor de uma antropologia filosófica, e não de uma metafísica geral. O desejo tornou-se um tema central. Uma ideia recorrente era a de que uma razão que pretende abarcar tudo falseia a realidade ao suprimir aquilo que lhe é "outro". Ainda que não venha apenas de Kojève, essa leitura afetou autores como Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Claude Lévi-Strauss, Jacques Lacan e Georges Bataille.
Simone de Beauvoir retomou leituras de Hegel ligadas ao conflito e ao reconhecimento em sua reflexão feminista.
A versão de Kojève da "dialética do senhor e do escravo" como modelo do desenvolvimento histórico também teve repercussão no feminismo de Simone de Beauvoir e na obra antirracista e anticolonial de Frantz Fanon.
Pragmatismo norte-americano
Richard J. Bernstein (1932–2022) estudou a relação entre Hegel e o pragmatismo norte-americano.
Dewey recordou que havia também motivos "subjetivos" para o interesse que sentia por Hegel: sua filosofia respondia a um desejo intenso de unidade, ao mesmo tempo emocional e intelectual. Dewey aceitou muito da análise hegeliana da história e da sociedade, mas rejeitou a concepção de saber absoluto.
John Dewey acolheu aspectos do pensamento de Hegel sobre história e vida social, mas se afastou de sua ideia de saber absoluto.
Para Bernstein, John McDowell e Robert Brandom, às vezes chamados de "hegelianos de Pittsburgh", compõem o terceiro momento. Ambos reconhecem a dívida com Hegel, sem afirmar que expõem seu pensamento exatamente como ele o entendia. Também foram influenciados por Wilfrid Sellars. McDowell procura desfazer o "mito do dado", a separação entre conceito e intuição. Brandom se ocupa sobretudo da dimensão social de oferecer razões e das implicações normativas que daí decorrem. Essas leituras estão entre as interpretações chamadas de "não metafísicas".
No Brasil
No Brasil, Gérard Lebrun, que lecionou na Universidade de São Paulo, publicou estudos sobre Hegel, entre eles A paciência do conceito, editado em português em 2006. Paulo Eduardo Arantes comparou as diferentes leituras de Hegel em duas obras de Lebrun no artigo "Hegel, frente e verso", publicado na revista Discurso em 1993.
Memória e homenagens
A placa na rua Am Kupfergraben, em Berlim, é uma das marcas da memória pública de Hegel na cidade.
A casa onde Hegel nasceu, em Stuttgart, abriga o Museu Hegel-Haus, dedicado à sua vida e obra. A cidade instituiu o Prêmio Hegel em 1967; concedido pela primeira vez em 1970, o prêmio é entregue a cada três anos por contribuições às humanidades.
Em Berlim, a praça Hegelplatz, perto da universidade onde lecionou, recebeu seu nome. Um grande busto de bronze do filósofo, criado pelo escultor Gustav Bläser em 1872, está no local.
A República Democrática Alemã cunhou em 1981 uma moeda comemorativa de 10 marcos pelo 150.º aniversário de sua morte, com seu retrato de perfil. Em 6 de agosto de 2020, o governo federal alemão lançou um selo postal por seu 250.º aniversário de nascimento.
Anotações de David Friedrich Strauss das últimas aulas de Hegel, em novembro de 1831: os registros de alunos também preservaram cursos publicados depois de sua morte.
Na lista a seguir, os títulos de artigos aparecem entre aspas e os de livros em itálico.
Berna, 1793–1796
1793–1794: "Fragmentos sobre religião popular e cristianismo".
1796–1797: "O mais antigo programa de sistema do idealismo alemão", de autoria discutida.
Frankfurt am Main, 1797–1800
1797–1798: "Esboços sobre religião e amor".
1798: Cartas confidenciais sobre as antigas relações constitucionais do País de Vaud com a cidade de Berna. Uma exposição completa da anterior oligarquia dos estamentos de Berna. Tradução do francês de um suíço falecido [Jean Jacques Cart], com comentários. Frankfurt am Main, Jäger. A tradução de Hegel saiu anonimamente.
1798–1800: "O espírito do cristianismo e seu destino".
1800–1802: "A constituição da Alemanha", rascunho.
Jena, 1801–1807
1801: De Orbitis Planetarum; "A diferença entre os sistemas filosóficos de Fichte e Schelling".
1802: "Sobre a essência da crítica filosófica em geral e sua relação com o estado atual da filosofia em particular", introdução à revista editada por Schelling e Hegel.
1802: "Como o senso comum toma a filosofia, explicado pelas obras do sr. Krug".
1802: "A relação do ceticismo com a filosofia: exposição de suas formas e comparação da mais recente com a antiga".
1802: "Fé e saber, ou a filosofia reflexiva da subjetividade na completude de suas formas como filosofia kantiana, jacobiana e fichtiana".
1802–1803: "Sistema da vida ética".
1803: "Sobre as abordagens científicas do direito natural, seu lugar na filosofia prática e sua relação com as ciências positivas do direito".
1803–1804: "Primeira filosofia do espírito", terceira parte do Sistema de filosofia especulativa.
1807: Fenomenologia do Espírito.
Bamberg, 1807–1808
1807: "Prefácio: sobre o conhecimento científico", prefácio ao sistema filosófico, publicado com a Fenomenologia.
Nuremberg, 1808–1816
1808–1816: "Propedêutica filosófica".
1812–1813: Ciência da Lógica, primeira parte, livros I e II.
1816: Ciência da Lógica, segunda parte, livro III.
Heidelberg, 1816–1818
1817: "Resenha das obras de Friedrich Heinrich Jacobi, volume III".
1817: "Avaliação das atas da assembleia dos estamentos do Ducado de Württemberg em 1815 e 1816".
1817: Enciclopédia das ciências filosóficas, primeira edição.
Berlim, 1818–1831
1820: Elementos da filosofia do direito, ou direito natural e ciência política em compêndio.
1827: Enciclopédia das ciências filosóficas, segunda edição revista.
1830: Enciclopédia das ciências filosóficas, terceira edição revista.
1831: revisão do primeiro livro de Ciência da Lógica, publicada postumamente em 1832.
Cursos ministrados em Berlim
Lógica: todos os anos de 1818 a 1831.
Filosofia da natureza: 1819–1820, 1821–1822, 1823–1824, 1825–1826, 1828 e 1830.
Filosofia do espírito subjetivo: 1820, 1822, 1825, 1827–1828 e 1829–1830.
Filosofia do direito: 1818–1819, 1819–1820, 1821–1822, 1822–1823, 1824–1825 e 1831.
Filosofia da história mundial: 1822–1823, 1824–1825, 1826–1827, 1828–1829 e 1830–1831.
Filosofia da arte: 1820–1821, 1823, 1826 e 1828–1829.
Filosofia da religião: 1821, 1824, 1827 e 1831.
História da filosofia: 1819, 1820–1821, 1823–1824, 1825–1826, 1827–1828, 1829–1830 e 1831.
Ver também
Hegelianismo, corrente formada em torno da filosofia de Hegel.
Idealismo alemão, ambiente filosófico de Hegel, Fichte e Schelling.
Dialética, modo de desenvolvimento dos conceitos associado a Hegel.
↑O Gymnasium é uma escola secundária alemã que prepara os alunos para a universidade. O nome não se refere a uma academia de ginástica.
↑Entre esses princípios estavam a liberdade política e a igualdade de direitos proclamadas no início da Revolução Francesa. O brinde de Hegel à Bastilha recordava essa fase inicial, mesmo depois de sua decepção com o Terror.
↑Nesse projeto de juventude, Hegel imaginava escrever para leitores fora da universidade, sem se limitar às disputas entre especialistas.
↑Em Berna, o patriciado era formado por famílias que concentravam cargos públicos e influência política.
↑Nas universidades alemãs da época, o título indicava um posto diferente da cátedra ordinária. Não se deve entendê-lo como um elogio ao talento do professor.
↑Sem que Hegel soubesse, Giuseppe Piazzi havia descoberto Ceres nessa região entre Marte e Júpiter em 1.º de janeiro de 1801. Kaufmann (1959), p. 53.
↑As provas são páginas já preparadas pela gráfica. Antes da impressão final, o autor pode lê-las para corrigir erros.
↑Propedêutica é uma preparação para estudos posteriores. O título se refere ao material introdutório de filosofia elaborado para as aulas do colégio.
↑Hegel examinava como cada uma dessas formas de vida mantinha juntos costumes, ideias e relações humanas. Isso não significa que as considerasse iguais entre si.
↑A ideia é que duas pessoas possam formar uma relação sem se tornarem iguais nem perderem sua individualidade.
↑Mesmo ao apresentar sua obra de lógica mais técnica, Hegel escreveu que seu conteúdo poderia ser visto como "a exposição de Deus tal como ele é em sua essência eterna antes da criação da natureza e do espírito finito". A religião continuou presente em seus escritos e aulas posteriores, como se vê na seção "Cristianismo". Hegel (2010b), p. 29.
↑A divisão em três partes reaparece na exposição madura do sistema: lógica, natureza e espírito. A sequência não é uma lista de três assuntos sem relação.
↑Herrschaft und Knechtschaft pode ser traduzido como 'senhorio e servidão' ou 'senhor e servo'. Knecht era um servo, criado ou trabalhador sujeito a uma obrigação; Hegel não escreveu Sklave, que significa 'escravo'. A versão 'senhor e escravo' ganhou força, ao que parece, com Alexandre Kojève. A escolha das palavras importa porque Hegel retoma uma relação estudada por Aristóteles na Política (1253a24–1256b39) e na Econômica. Peperzak destaca a ligação e o benefício mútuo entre o senhor livre e quem o serve; Harris chama um de agente racional e o outro de instrumento racional. Peperzak (2001), p. 155; Harris (1997), vol. 1, p. 377, n. 25.
↑Reconhecer alguém, aqui, não é apenas perceber que a pessoa existe. É tratá-la nas relações reais como alguém capaz de agir e de ser reconhecido por outros.
↑Cada uma sabe de si e quer ser reconhecida pela outra. O conflito surge porque ambas procuram essa confirmação, mas a relação inicial é desigual.
↑O primeiro termo é o substantivo "reconhecimento"; o segundo é o verbo "reconhecer". Para Hegel, cada lado precisa tratar o outro como alguém capaz de agir e decidir.
↑Hegel não diz que a relação entre senhor e servo seja o centro da Fenomenologia. Ele atribui à "consciência infeliz", apresentada mais adiante no mesmo capítulo, o nascimento do espírito que se torna autoconsciente. Harris também situa aí o surgimento efetivo do conceito de espírito absoluto, quando a autoconsciência atinge o ponto mais alto de sua oposição à natureza. Hegel (2018), ¶754; Harris (1997), vol. 2, p. 527; maiúsculas alteradas.
↑Aqui, "ciência" significa uma investigação organizada. O livro acompanha o que acontece quando a consciência põe suas certezas à prova.
↑Ver, por exemplo, o capítulo 10 de Harris (1995) ou a introdução de Harris (1997), pp. 1–29. As notas finais deste último trazem outras referências. Harris (1995), cap. 10; Harris (1997), pp. 1–29.
↑"Especulativa" não quer dizer que Hegel esteja adivinhando. Ele usa a palavra para um pensamento que examina ideias opostas e procura entendê-las juntas.
↑São os leitores que acompanham as etapas descritas no livro. Eles podem perceber mudanças que a consciência estudada por Hegel ainda não percebe.
↑O nome se refere à perda sucessiva de certezas pela consciência. Não é um diagnóstico de tristeza ou de doença mental.
↑Para Hegel, experiência não é só aquilo que os sentidos percebem. Também é o que se aprende ao viver, investigar e tentar de novo depois de um erro. A palavra alemã Erfahrung lembra uma viagem (fahren) que chega a algum resultado. Na Fenomenologia, a consciência percorre esse caminho e muda com o que descobre. Beiser observa que Hegel recupera um sentido corrente da palavra, em vez de criar um termo artificial. Beiser (2005), p. 160.
↑Um objeto "dado" seria conhecido tal como aparece, antes de qualquer interpretação. Hegel pergunta se isso é possível, já que reconhecer algo envolve ideias que trazemos conosco.
↑Em vez de examinar a razão apenas como uma capacidade fixa, ele acompanha formas de pensar e de viver que surgiram em situações históricas diferentes.
↑Sobre o debate, compare o capítulo 10 de Harris (1995) com o capítulo 7 de Houlgate (2006) e com Collins (2013). Harris (1995), cap. 10; Houlgate (2006), cap. 7; Collins (2013).
↑Robert Stern observa que a Fenomenologia é um ponto de mudança na carreira de Hegel, mas que certas afirmações do próprio filósofo dificultam encaixá-la sem resíduos em seu sistema final. Alguns intérpretes criticam o sistema posterior por conter elementos que não estavam no livro de 1807. Outros consideram a Fenomenologia um guia enganoso para a posição madura de Hegel. Stern (2002), p. 9.
↑Uma tríade reúne três momentos ligados. Aqui, permanecer, sair e retornar descrevem relações filosóficas, não três acontecimentos com datas.
↑Hegel se afasta dos neoplatônicos porque seu Uno original (to Hen) é imanente ao universo do ser e do pensamento. Ao contrário de Plotino e Proclo, ele não admite um infinito separado. Peperzak (2001), p. 88.
↑O que vem primeiro para entender uma coisa pode ser diferente do que encontramos primeiro no mundo. Para explicar um carvalho, usamos a ideia geral de árvore, embora vejamos árvores concretas antes de formular essa ideia.
↑Para explicar por que coisas diferentes pertencem a um mesmo tipo, usamos algo que elas compartilham. É nesse sentido que o geral pode vir antes na explicação, mesmo quando encontramos primeiro casos particulares.
↑Beiser remete ao livro V, 11, 1018b30–36, e ao livro IX, 8, 1050a3–20 da Metafísica de Aristóteles. Beiser (2005), p. 317, n.4.
↑A fórmula tenta pensar em conjunto o que natureza e espírito têm em comum e aquilo em que diferem. Unir os termos não exige fingir que sejam a mesma coisa.
↑Um argumento pode ser formalmente válido quando a conclusão decorre das premissas, ainda que alguma premissa não seja verdadeira. Hegel investiga uma questão mais ampla: o conteúdo e a verdade dos próprios conceitos.
↑A seção inicial da lógica da Enciclopédia, "Conceito preliminar", percorre historicamente diferentes "posições diante da objetividade". É uma introdução à lógica muito diferente daquela oferecida antes na Fenomenologia. Ainda se discute se Hegel passou a preferir essa via à do livro de 1807. Collins (2013), p. 556.
↑Hegel pretende começar sem aceitar de antemão uma teoria sobre o mundo. Se um passo depender de uma suposição escondida, ela também terá de ser examinada.
↑Literalmente, "determinações do pensamento": formas básicas de pensar algo, como ser, diferença ou causa. Hegel investiga como elas se ligam.
↑Para a questão de como a lógica pode começar sem pressupostos, ver sobretudo a primeira parte de Houlgate (2006) e Hentrup (2019). Houlgate (2006), parte I; Hentrup (2019).
↑Em vez de aplicar uma receita pronta, a análise procura descobrir quais relações e dificuldades surgem daquilo que está sendo examinado.
↑A pergunta é se uma ideia se sustenta ao ser desenvolvida e confrontada com suas próprias consequências, sem recorrer a uma regra imposta de fora.
↑A "dedução metafísica" de Kant extrai as categorias da tabela aristotélica das doze formas lógicas de juízo. A "dedução transcendental" procura mostrar algo mais: que essas categorias a priori se aplicam necessária e universalmente aos objetos da experiência. Guyer e Wood (1998), pp. 8–9.
↑Esse é o nome das partes sobre o ser e a essência. "Objetiva" não quer dizer aqui "livre de opiniões pessoais"; aponta para as determinações com que pensamos os objetos.
↑Uma finalidade é interna quando a direção do desenvolvimento é procurada nas relações do próprio objeto, e não num objetivo acrescentado por um observador.
↑Na doutrina do Conceito, o pensamento se volta pela primeira vez de forma consciente e expressa para si mesmo. As categorias anteriores passam a ser compreendidas pelo pensamento autoconsciente. Hegel fala do retorno do conceito a si (Zurückgekehrtsein in sich selbst) e de seu ser consigo mesmo (Beisichsein). O desenvolvimento da Lógica mostra a passagem das categorias do ser e da essência às do conceito e, por esse caminho, a unidade fundamental das duas primeiras doutrinas. Hegel (1991b), §83; Magee (2011), pp. 58–59, maiúsculas alteradas.
↑O nome indica que o pensamento passa a examinar seus próprios conceitos. Não significa que a verdade dependa do gosto de cada pessoa.
↑Di Giovanni prefere traduzir Begriff por 'conceito' porque 'noção' pode soar vago ou sugerir uma ideia apenas pessoal. A palavra alemã se relaciona a greifen, 'agarrar' ou 'apreender'; 'conceito' se aproxima de 'conceber'. O tradutor B. C. Burt já fizera escolha semelhante em 1896, ao traduzir uma obra de Johann Eduard Erdmann. A tradução também permite falar em 'conceitual' e 'apreender conceitualmente'. di Giovanni (2010), pp. lxvii–lxviii.
↑Imagine dizer apenas "é", sem acrescentar o que existe ou como é. Hegel chama essa ideia ainda sem características de "ser puro".
↑A palavra grega pode significar "forma". Na filosofia de Platão, aponta para aquilo que torna uma coisa inteligível, não apenas para seu contorno visível.
↑Algo é contingente quando poderia acontecer de outro modo. Uma mudança concreta na natureza, por exemplo, não pode ser conhecida apenas pela definição de uma palavra.
↑Hegel diz que a ideia que pensa a si mesma é a verdade conhecida. O lógico, ao chegar ao conteúdo concreto, mostra-se como universalidade "comprovada" (bewährte) na realidade. Hegel (2010a), §574.
↑A frase liga a filosofia aos problemas e instituições da época em que ela é formulada. Para Hegel, pensar não acontece fora da história.
↑Se a observação científica revela um fenômeno novo, a filosofia precisa levá-lo em conta. Ela não substitui a investigação da natureza por uma dedução feita à mesa.
↑Uma explicação é redutora quando trata um fenômeno complexo como se uma só parte bastasse para entendê-lo. Conhecer as substâncias de um organismo não explica, por si só, como ele vive.
↑A ideia é procurar a finalidade nas atividades do próprio ser vivo, como crescer e conservar-se, sem supor que um plano exterior tenha de ser observado diretamente.
↑Uma ideia reguladora serve para orientar a busca de respostas, sem afirmar que aquilo que ela descreve já foi demonstrado como parte da realidade.
↑Chamar algo de constitutivo é dizer que ele faz parte da própria explicação, em vez de servir apenas como pista para uma pesquisa.
↑Ver a entrada "Spirit" de Inwood (1992), pp. 274–277, para os sentidos de Geist. Inwood (1992), pp. 274–77, "Spirit".
↑Inwood prefere "espírito" porque Geist pode designar não apenas a mente individual, mas também a dimensão compartilhada de um grupo. Na Fenomenologia, Hegel a exprime como "eu que sou nós e nós que somos eu". A palavra remete ainda ao Espírito Santo da Trindade, associação religiosa que permanece próxima do uso hegeliano. Inwood (2018), p. vii.
↑Nessa leitura, pensar e agir são capacidades de seres vivos. O espírito desenvolve possibilidades da natureza, em vez de aparecer como uma coisa separada dela.
↑Isso não significa viver sem outras pessoas. A questão é participar da formação da própria vida e das regras comuns, em vez de ser conduzido apenas por forças alheias.
↑Para outra análise das afirmações raciais de Hegel na Antropologia à luz dos escritos do século XIX que conhecia, ver de Laurentiis (2021), capítulo 4. de Laurentiis (2021).
↑"Alma" designa aqui a vida humana antes da consciência reflexiva plenamente desenvolvida. Não é necessário imaginá-la como uma entidade que existe fora do corpo.
↑Não se trata apenas do raciocínio de uma pessoa sozinha: outras pessoas podem responder, discordar e pedir razões para o que ela diz.
↑Era o nome dado a um estado parecido com transe que praticantes do chamado magnetismo animal diziam provocar. Não se tratava simplesmente de dormir.
↑A pessoa que pensa também percebe, se move e age com um corpo. Separar essas atividades em duas coisas independentes apagaria essa unidade concreta.
↑A liberdade ganha forma em práticas compartilhadas, como direitos, família e organização política. Hegel examina como essas relações tornam possíveis certas escolhas e responsabilidades.
↑'Direito natural' (Naturrecht) pode querer dizer um direito dado diretamente pela natureza ou um direito que corresponde à natureza de uma coisa, isto é, ao seu conceito. Hegel escolhe o segundo sentido: o direito se apoia na pessoa livre e em sua capacidade de se determinar. Ele explicou essa diferença nas aulas de Heidelberg de 1817–1818 e, depois, passou a falar em 'direito' sem esse qualificativo ou com os termos próprios de sua filosofia. Hegel (2010a), §502, observação; Pöggeler (2012), §II; Hegel (2012), §§1–10.
↑Alguns comentadores rejeitam o modo como Hegel compreendia a base metafísica do próprio projeto. Allen W. Wood, por exemplo, considera ultrapassado o pensamento especulativo, mas não toda a obra de Hegel. Para Wood, as realizações mais úteis do filósofo não estão onde ele próprio as situava. Uma leitura de Hegel sobretudo como teórico social se afasta em parte de sua autocompreensão, mas Wood a julga a via pela qual muitos leitores ainda podem levá-lo a sério. Wood (1990), pp. 4–8.
↑"Abstrato" indica um primeiro exame, limitado às relações jurídicas mais básicas. A análise ainda não abrange a intenção moral e a vida social concreta.
↑Aqui entram as intenções, os motivos e a responsabilidade de quem age. Hegel distingue esse exame da parte seguinte, voltada às instituições em que as pessoas vivem juntas.
↑"Mista" significa que a organização do poder reúne elementos de formas de governo diferentes, como a participação de muitos, de poucos e de um governante.
↑"Baixa" é o nome de uma das duas casas legislativas, não um juízo sobre o valor de seus integrantes. No modelo descrito, era a casa com representantes eleitos.
↑"Absoluto" não quer dizer saber todos os fatos do universo. Refere-se ao momento em que o espírito consegue compreender a própria atividade de conhecer.
↑Walter Jaeschke, editor da edição crítica Gesammelte Werke, explica que nessa esfera o espírito produz uma imagem de si e se relaciona com ela pela intuição na arte, pela representação na religião e pelo pensamento conceitual na filosofia. Ao conhecer a si mesmo nessas formas, o espírito se relaciona consigo, é livre e completa seu conceito como relação pensante consigo mesmo. Jaeschke (2013), p. 179.
↑Hegel usa a palavra para ideias apresentadas por imagens e narrativas. Uma história religiosa, por exemplo, pode comunicar algo sem formulá-lo ainda como conceito filosófico.
↑Para Beiser (2005), a exposição mais clara de Hegel sobre essa distinção está, curiosamente, no primeiro volume das Lições sobre a filosofia da religião, a partir da p. 234. Beiser (2005), p. 288.
↑Estátuas, templos e rituais reuniam criação artística e culto religioso entre os gregos antigos. É essa união que Hegel examina.
↑Hegel não abandona a "religião da arte": ela também aparece nas Lições sobre a filosofia da religião do mesmo período. Arte e religião são conceitualmente distintas, mas se cruzam na história da Grécia antiga.
↑Sobre a distinção entre a filosofia da arte de Hegel e a estética em sentido amplo, ver Pippin (2008a), pp. 394–418. Pippin (2008a), pp. 394–418.
↑Para duas análises diferentes do debate, ver Henrich (1979), pp. 107–133, e Houlgate (2007), pp. xxii–xxvi. Henrich (1979), pp. 107–33; Houlgate (2007), pp. xxii–xxvi.
↑A obra de arte pode ser estudada por suas qualidades próprias. Não precisa valer apenas como instrumento de ensino moral, propaganda ou decoração.
↑Uma pintura se oferece ao olhar, uma música à audição e uma escultura à visão e ao tato. É por essas formas materiais que a arte comunica algo.
↑Ver acima a seção "Espírito absoluto" para a relação entre as três formas de conhecimento.
↑Esses escritos da juventude, publicados depois da morte de Hegel, foram reunidos em inglês na tradução de T. M. Knox intitulada Early Theological Writings (1971).
↑Ao falar da "positividade" do cristianismo, Hegel se refere a elementos formados historicamente, muitas vezes autoritários, que não considera essenciais à religião. Eles poderiam encobrir ou ocupar o lugar de sua mensagem moral, voltada à liberdade. Ele tomou a oposição entre "positivo" e "natural" da teoria do direito: o direito positivo é escrito por pessoas e está sujeito a imperfeições; o natural era pensado como originário e dado por Deus. Wicks (2020), cap. 3.
↑Di Giovanni (2009), pp. 226–245, acompanha a presença da religião ao longo da Fenomenologia. di Giovanni (2009), pp. 226–45.
↑Harris (1997) examina a identificação histórica dessas formas de espírito com a consciência agostiniana e o conflito entre fé e Iluminismo. Ainda se discute se essas identificações são necessárias para que o argumento da Fenomenologia funcione. Harris (1997).
↑Hegel empregou duas palavras próximas. Offenbar sugere algo que se torna manifesto; geoffenbart, algo que já foi revelado num momento da história. Ele usou a primeira na Fenomenologia, a segunda na Enciclopédia e voltou à primeira nas aulas sobre religião. Em inglês, Hodgson distingue os termos por 'revelatory' e 'revealed'; em certos trechos, traduz offenbar por 'manifest'. Harris (1995); Harris (1997); Hodgson (1985), p. 3.
↑Para Kant, a razão não pode provar a existência de Deus, a liberdade e a imortalidade tratando essas ideias como objetos que se experimentam. Ele limita o alcance desse tipo de conhecimento para conservar um lugar para a fé e para o uso prático da razão. É nesse sentido que escreve: 'Tive de negar o saber para abrir espaço à fé'. Kant (1998), pp. Bxxix–xxx.
↑São registros de aulas, ligados ao que Hegel falou e ao que seus alunos anotaram. Por isso, os estudiosos precisam considerar a transmissão do texto ao comparar as versões.
↑As mudanças entre os cursos de Berlim são examinadas nas introduções à tradução, em três volumes, da edição crítica das Lições organizada por Peter C. Hodgson e publicada pela University of California Press.
↑Para análises mais detalhadas do desenvolvimento dessas ideias, ver o capítulo 5 de Fackenheim (1967) e os capítulos 2 e 3 de Jaeschke (1990). Fackenheim (1967), cap. 5; Jaeschke (1990), cap. 2–3.
↑O objetivo não é apenas reunir datas e acontecimentos. Hegel procura entender que relações entre eles permitiriam contar uma história do desenvolvimento humano.
↑"Oriental" reúne sob um mesmo rótulo sociedades muito diferentes. É uma divisão usada por Hegel, marcada pela perspectiva europeia de sua época, e não uma descrição neutra da história.
↑Nessa leitura, "fim" não quer dizer que nada mais aconteceria, mas que a liberdade já teria encontrado sua forma decisiva. O alcance dessa interpretação é debatido.
↑São duas perguntas diferentes: quem é reconhecido como livre e quais direitos ou possibilidades concretas essa liberdade inclui.
↑Uma definição pode parecer estável até mostrar um limite ao tentar explicar o próprio assunto. A dificuldade surge do que ela afirma, não de uma objeção escolhida ao acaso.
↑Hegel costuma usar 'dialética' para o momento em que uma ideia fixa mostra seus limites. Chama de 'especulativo' o movimento mais amplo, que também procura compreender o que essas ideias permitem pensar juntas. Essa diferença ajuda a evitar uma leitura que pare na oposição entre ideia e natureza ou entre sujeito e objeto. Hegel trata do método no fim da Lógica e, nas aulas sobre o direito, diz que o finito encontra seu limite em si mesmo. Hegel (1991b), §79 e nota; Hegel (2010b), pp. 736–753; Peperzak (2001), pp. 57–58.
↑Aqui, "abstrato" é o primeiro recorte de um conceito: útil para distinguir algo, mas ainda insuficiente para compreender suas relações com o restante.
↑"Negativo" não significa mau ou inútil. É o momento em que uma definição mostra seus limites e exige que o pensamento vá além dela.
↑"Positivo" nomeia o passo que compreende uma relação mais ampla depois de examinar os limites de uma oposição. Não é um juízo de aprovação moral.
↑Hegel segue Kant e, em parte, Platão ao chamar de entendimento (Verstand) o pensamento dirigido àquilo que parece distinto de si, e de razão (Vernunft) o pensamento que examina sua própria atividade. A razão é especulativa. Como a especulação suprassume a oposição entre sujeito e objeto, Hegel insiste que ela não é simplesmente subjetiva. Inwood (2013b); Inwood (1992), p. 272, caixa alta removida dos termos remetidos.
↑Essas operações também aparecem em outros filósofos. O entendimento separa e define conceitos; em diálogos de Platão, examinar uma definição pode levar a um resultado oposto ao esperado. Carnap e Ryle observaram que negar uma palavra às vezes nos leva a seu contrário dentro de um mesmo assunto. Construir uma teoria ajuda a lidar com contradições e fatos inesperados. Para Hegel, os três movimentos precisam trabalhar juntos: sozinha, a análise para cedo demais, e uma teoria desligada dela perde contato com o assunto. Burbidge (1993), p. 91.
↑O referente é aquilo a que um conceito se aplica. Na autoconsciência, quem conhece e aquilo que é conhecido são a mesma consciência, considerada em duas posições.
↑"Sujeito" é quem conhece; "objeto" é aquilo que se procura conhecer. A mesma pessoa pode perguntar a si própria o que pensa ou deseja.
↑A palavra não dispensa rigor. Beiser quer dizer que não se começa com uma sequência fixa de passos para impor ao tema; é preciso acompanhar o que o tema exige.
↑A expressão indica as relações que tornam um passo compreensível a partir do anterior. Não quer dizer que se possa prever qualquer acontecimento histórico.
↑Duas respostas podem parecer incompatíveis porque compartilham uma suposição não examinada. Questionar essa suposição muda o problema que ambas tentavam resolver.
↑Conservar não é repetir cada posição sem mudanças nem fazer uma média entre elas. Algo permanece, mas recebe um lugar diferente numa explicação mais ampla.
↑Embora apareça muitas vezes como termo técnico de Hegel, Aufhebung é uma palavra comum do alemão, empregada para guardar algo, falar de processos físicos ou realizar operações lógicas. "Suprassumir" tenta reunir esses sentidos. "Suspender" também se aproxima, desde que não se entenda uma interrupção necessariamente temporária. de Laurentiis (2021), p.194, n.2; Hegel (1991b), pp. xxxv–xxxvi, introdução dos organizadores.
↑Uma explicação pode deixar de valer como resposta completa e ainda guardar uma parte necessária da resposta seguinte. É nesse sentido que se fala em negar e conservar.
↑"Momento" não precisa ser um instante no relógio. Pode ser uma parte indispensável de uma estrutura, mesmo quando todas as partes são pensadas juntas.
↑Hegel não pede que se aceite sem mais duas afirmações incompatíveis. Ele examina por que uma posição, tomada isoladamente, não consegue sustentar tudo o que pretende explicar.
↑"Finito" não se refere apenas a algo que um dia termina. Nesse argumento, aponta para aquilo que não tem em si, isoladamente, todas as condições de sua existência.
↑"Ideal" não significa imaginário nesse uso. Significa que uma coisa finita só pode ser compreendida por suas relações com um todo mais amplo.
↑Esse "todo" não é simplesmente uma pilha de todas as coisas. O que importa são as relações pelas quais cada parte se torna inteligível.
↑A análise fenomenológica acompanha formas de experiência e consciência; a conceitual examina as relações entre as ideias usadas para entendê-las.
↑Contar usos de uma expressão ajuda a distinguir o vocabulário do próprio autor dos nomes dados mais tarde à sua obra. Isso, por si só, não decide qual interpretação é correta.
↑A afirmação diz respeito ao papel dos conceitos no conhecimento. Não significa que todos os filósofos tenham chamado suas doutrinas de idealistas.
↑Numa oposição examinada por Hegel, cada lado já se define em relação ao outro. Tratá-los como duas peças escolhidas arbitrariamente perde esse vínculo.
↑"Imanente" quer dizer que o exame segue as relações do próprio assunto. Não significa que tudo esteja apenas dentro da mente de quem pensa.
↑A expressão nomeia certas leituras produzidas na França; não sugere que Hegel tenha pertencido à filosofia francesa nem que todos os autores franceses o tenham lido da mesma maneira.
↑Nessa leitura, o ponto de partida são as experiências, os desejos e as relações humanas, em vez de uma teoria sobre toda a realidade.
↑Essas leituras aproveitam ideias de Hegel sobre a razão e a vida social sem aceitar necessariamente sua explicação geral da estrutura da realidade.
↑Na introdução a A Spirit of Trust, Brandom chama sua leitura de "incomum" e reconhece que ela contém um anacronismo deliberado. Também diz que seu procedimento não é o de Hegel. Brandom (2019), pp. 4,8.
↑Kenneth R. Westphal preparou originalmente essa lista para The Bloomsbury Companion to Hegel, pp. 341–343. A lista foi depois modificada para o artigo da Wikipédia.
12James, Daniel; Knappik, Franz (2023). «Exploring the Metaphysics of Hegel's Racism: The Teleology of the 'Concept' and the Taxonomy of Races». Hegel Bulletin (em inglês). 44 (S1): 99–126. doi:10.1017/hgl.2022.38
↑James, Daniel; Knappik, Franz (2024). «Introduction to Part 2 of the Themed Issue, 'Racism and Colonialism in Hegel's Philosophy': Common Objections and Questions for Future Research». Hegel Bulletin (em inglês). 45 (2): 181–184. doi:10.1017/hgl.2024.38
Os títulos e dados editoriais a seguir identificam as edições citadas nas referências, que em muitos casos são traduções inglesas.
Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1970). Hegel's Philosophy of Nature. Organização de Michael John Petry; Tradução de Michael John Petry. [S.l.]: Allen & Unwin
1975a. Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1975). Aesthetics: Lectures on Fine Art. Tradução de T. M. Knox. [S.l.]: Oxford University Press
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