Sima Qian

Neste nome chinês, o sobrenome é Sima.
Sima Qian
司馬遷
Representação de Sima Qian com túnica azul e gorro preto, diante de um fundo amarelo.
Autor do Shiji, modelo das histórias dinásticas chinesas.
Outros nomesZǐzhǎng (nome de cortesia)
Conhecido(a) porShiji
Nascimentocerca de 145 ou 135 a.C.
Longmen, Dinastia Han, na região de Hancheng, Shaanxi
Mortecerca de 86 a.C.
ProgenitoresPai: Sima Tan
FilhosUma filha documentada; dois filhos mencionados em tradição local
Ocupaçãohistoriador
astrônomo
astrólogo
poeta
CargoTaishi e zhongshuling na corte Han
Nome chinês e transcrições
Chinês tradicional 司馬遷
Chinês simplificado 司马迁
Mandarim padrão
Pinyin Sīmǎ Qiān
Wade–Giles Ssŭ1-ma3 Ch'ien1
AFI [sɹ̩́.mà tɕʰjɛ́n]
Bopomofo ㄙ ㄇㄚˇ ㄑㄧㄢ
Cantonês
Jyutping Si1 maa5 Cin1
Yale Sī-máh Chīn
AFI [si˥.ma˩˧ tsʰin˥]
Dialeto xangainês
Romanização Sy-ma Tshie
Hokkien
Tâi-lô Su-má Tshian
Pe̍h-ōe-jī Su-má Chhian
Chinês médio Sɨ-mæX Tshjen
Chinês antigo, Baxter-Sagart *s-lə mˤraʔ [tsʰ]ar
Nome de cortesia
Chinês tradicional 子長
Chinês simplificado 子长
Mandarim padrão
Pinyin Zǐzhǎng
Wade-Giles Tzu3-chang3
AFI [tsɹ̩̀.ʈʂàŋ]
Bopomofo ㄗˇ ㄓㄤˇ
Cantonês
Jyutping Zi2 zoeng2
Yale Jí-jéung
AFI [tsi˧˥.tsœŋ˧˥]
Dialeto xangainês
Romanização Tsy-tsan
Hokkien
Pe̍h-ōe-jī Tzú-tiúnn
Chinês médio TsɨX-drɨang
Chinês antigo, Baxter-Sagart *tsəʔ Cə-[N]-traŋ

Sima Qian, que viveu de cerca de 145 a.C. a cerca de 86 a.C., foi um historiador chinês do início da dinastia Han. É chamado de pai da historiografia chinesa por seu Shiji, cujo título também é traduzido como Registros do Grande Historiador, uma história geral da China que abrange mais de dois mil anos, desde a ascensão do lendário Imperador Amarelo e a formação do primeiro Estado chinês até o reinado de imperador Wu de Han, durante o qual Sima escreveu. Primeira história universal do mundo tal como os chineses antigos o conheciam, o Shiji tornou-se o modelo das histórias oficiais das dinastias seguintes em toda a esfera cultural chinesa até o século XX.

Seu pai, Sima Tan, concebeu o projeto ambicioso de escrever uma história completa da China, mas havia terminado apenas alguns esboços preparatórios quando morreu. Ao herdar o cargo do pai como historiador da corte imperial, Sima Qian decidiu cumprir seu último desejo e concluir essa extensa obra histórica.

Em 99 a.C., envolveu-se no caso Li Ling ao defender o general, responsabilizado por uma campanha malsucedida contra os xiongnu. Diante da escolha entre a execução e a castração, optou pela segunda para terminar sua obra histórica. Embora seja lembrado sobretudo pelos Registros, os outros escritos que chegaram até nós também mostram seu talento como poeta e prosador. Sima participou da criação do calendário Taichu, promulgado oficialmente em 104 a.C.

Sima tinha plena consciência do valor de sua obra para a posteridade e de sua relação com o próprio sofrimento. No posfácio dos Registros, comparou implicitamente sua história universal da China aos clássicos de sua época, o Guoyu, de Zuo Qiuming, o "Li Sao", de Qu Yuan, e A Arte da Guerra, de Sun Bin, observando que seus autores haviam sofrido grandes infortúnios pessoais antes de concluir as obras pelas quais seriam lembrados. Sima Qian também foi retratado no Wu Shuang Pu, de Jin Guliang.

Primeiros anos e educação

Salão do templo de Confúcio em Qufu, com telhados sobrepostos e um pátio diante da entrada.
O templo atual de Confúcio em Qufu. Sima Qian visitou a cidade natal do filósofo e ali estudou os ritos e outras matérias tradicionais.

Sima Qian nasceu em Xiayang, em Zuopingyi, perto de Hancheng, em Shaanxi. Provavelmente nasceu por volta de 145 a.C., embora também haja indicações de que teria nascido por volta de 135 a.C. Por volta de 136 a.C., seu pai, Sima Tan, foi nomeado "grande historiador", tàishǐ, 太史, cargo também traduzido como "grande escriba" ou "grande astrólogo", na corte imperial. Era um funcionário de posição relativamente baixa, cuja principal tarefa consistia em elaborar o calendário anual, determinar os dias ritualmente auspiciosos ou inauspiciosos e apresentá-lo ao imperador antes do ano-novo. Também acompanhava o imperador em viagens para cerimônias de maior relevo e anotava os acontecimentos cotidianos da corte e do país. Em seu próprio relato, Sima afirmou que, aos dez anos, já conseguia "ler os escritos antigos", e era visto como um estudioso promissor. Cresceu em um ambiente confucionista e sempre entendeu seu trabalho histórico como um ato de piedade filial confucionista.

O Livro de Han registra que Sima Qian consultou Kong Anguo sobre a versão em escrita antiga do Livro dos Documentos e utilizou esse material em sua obra. Também cita Dong Zhongshu ao explicar sua interpretação dos Anais de Primavera e Outono.

Representação de Ban Gu, de barba e vestes longas, segurando um objeto nas mãos.
A biografia escrita por Ban Gu preservou a Carta a Ren An, uma das fontes para a vida de Sima Qian.

Em 126 a.C., por volta dos vinte anos, Sima Qian iniciou uma longa viagem pela China da dinastia Han. Partiu da capital imperial, Chang'an, na região da atual Xi'an, e seguiu para o sul, atravessando o Yangtzé até o Reino de Changsha, no território de Hunan. Ali visitou o local no rio Miluo onde, pela tradição, o poeta Qu Yuan, do período dos Reinos Combatentes, teria se afogado. Depois procurou os túmulos dos soberanos lendários Yu, o Grande, no monte Kuaiji, e Shun, nas montanhas Jiuyi, na região do condado de Ningyuan, em Hunan. Seguiu então para o norte, até Huaiyin, onde fica Huai'an, em Jiangsu, para conhecer o túmulo da mãe do general Han Han Xin. Prosseguiu até Qufu, cidade natal de Confúcio, onde estudou os ritos e outras matérias tradicionais.

Funcionário da corte Han

Representação do imperador Wu de Han, de pé, com vestes longas e um objeto nas mãos.
Sima Qian serviu na corte do imperador Wu, onde participou da reforma do calendário e teve acesso aos arquivos imperiais.

Depois das viagens, Sima foi escolhido como assistente do palácio, cargo em que acompanhou o imperador Wu em inspeções a diferentes regiões do país em 122 a.C. Casou-se jovem e teve uma filha. Em 110 a.C., por volta dos 35 anos, foi enviado para o sudoeste em uma expedição militar contra tribos "bárbaras". Seu pai adoeceu naquele ano, angustiado por não ter podido participar do sacrifício imperial Feng. Quando Sima Qian voltou da missão, encontrou o pai agonizante, que lhe pediu que assumisse o trabalho histórico já iniciado. Sima Tan queria seguir os Anais de Primavera e Outono, uma das crônicas fundamentais da literatura chinesa.

Sima Tan parece ter conseguido elaborar apenas um esboço da obra antes de morrer. O posfácio do Shiji contém um breve ensaio sobre as seis escolas filosóficas expressamente atribuído a ele. Fora esse texto, há apenas fragmentos cuja autoria se supõe ser de Sima Tan ou que teriam sido escritos a partir de suas anotações. Inspirado pelo pai, Sima Qian dedicou grande parte dos anos seguintes à redação e compilação do Shiji, também traduzido como Registros do Grande Historiador, cuja conclusão é geralmente situada por volta de 90 a.C. Três anos depois da morte do pai, assumiu seu antigo cargo de taishi. O posto lhe permitiu consultar os registros e livros dos arquivos imperiais. Em 105 a.C., participou dos preparativos da reforma do calendário, promulgada no ano seguinte. Como funcionário imperial, também podia apresentar pareceres ao imperador sobre assuntos do Estado.

Caso Li Ling

Ilustração antiga de Li Ling, com barba longa e vestes cerimoniais.
A defesa de Li Ling, que se rendeu aos xiongnu após uma derrota, levou à condenação de Sima Qian.

Em 99 a.C., Sima se envolveu no caso Li Ling, depois que o general Li Ling foi derrotado e se rendeu aos xiongnu em uma campanha no norte. O imperador Wu responsabilizou Li Ling pela derrota, e todos os funcionários do governo o condenaram. Sima foi o único a defendê-lo, embora nunca tivesse sido seu amigo, por respeitá-lo. O imperador interpretou a defesa como um ataque a seu cunhado Li Guangli, que também havia combatido os xiongnu com pouco sucesso, e condenou Sima à morte. A execução podia ser comutada mediante pagamento ou castração. Como Sima não tinha dinheiro suficiente para expiar seu "crime", escolheu a castração e foi preso por três anos. Escreveu sobre sua dor: "Ao ver o carcereiro, você encosta a testa no chão, humilhado. A simples visão de seus subordinados o enche de terror... Essa ignomínia nunca pode ser apagada". Chamou a castração de "o pior de todos os castigos".

Ao sair da prisão, por volta de 97 ou 96 a.C., Sima escolheu viver como eunuco no palácio para concluir sua obra histórica, em vez de cometer suicídio, como se esperava de um homem culto da elite que tivesse sofrido a desonra da castração. Na Carta a Ren An, contou que não tinha recursos para pagar pela comutação da pena e que nenhum amigo ou colega intercedera por ele. Explicou sua escolha na mesma carta:

Retrato em preto e branco de Sima Qian, com um gorro e vestes longas.
Decidido a terminar o Shiji, Sima Qian sobreviveu à castração e à prisão. Retrato do período da dinastia Ming (1368–1644).

且夫臧獲婢妾猶能引決,況若僕之不得已乎。所以隱忍苟活,函糞土之中而不辭者,恨私心有所不盡,鄙沒世而文采不表於後也。古者富貴而名摩滅,不可勝記,唯俶儻非常之人稱焉。

Se até o mais humilde escravo e a criada da cozinha conseguem se matar, por que alguém como eu não seria capaz de fazer o que precisa ser feito? Mas a razão pela qual não me recusei a suportar esses males e continuei a viver, imerso na vileza e na desonra, sem me despedir da vida, é que me aflige ter no coração coisas que ainda não consegui expressar por inteiro, e me envergonha pensar que, depois de minha morte, meus escritos não serão conhecidos pela posteridade. São tantos os homens da Antiguidade que foram ricos e nobres, mas cujos nomes desapareceram, que seria impossível enumerá-los. Só os homens capazes e resolutos, verdadeiramente extraordinários, ainda são lembrados.

僕竊不遜,近自託於無能之辭,網羅天下放失舊聞,考之行事,綜其終始,稽其成敗興壞之理 ... 凡百三十篇,亦欲以究天人之際,通古今之變,成一家之言。草創未就,適會此禍,惜其不成,是以就極刑而無慍色。僕誠已著此書,藏諸名山,傳之其人通邑大都,則僕償前辱之責,雖萬被戮,豈有悔哉!

Também ousei deixar a modéstia de lado e me entregar a meus escritos inúteis. Reuni as antigas tradições do mundo que estavam dispersas e esquecidas. Examinei os atos e acontecimentos do passado e investiguei os princípios de seus êxitos e fracassos, de sua ascensão e queda [...] em cento e trinta capítulos. Quis examinar tudo o que diz respeito ao Céu e ao homem, compreender as mudanças do passado e do presente e concluir tudo como obra de uma única família. Mas, antes de terminar o rascunho de meu manuscrito, sofri essa calamidade. Foi por lamentar que ele estivesse inacabado que me submeti à pena extrema, sem rancor. Quando tiver de fato concluído a obra, vou guardá-la na Montanha Famosa. Se ela puder chegar a homens que a apreciem e alcançar as aldeias e as grandes cidades, mesmo que eu sofresse mil mutilações, que motivo teria para me arrepender?

Sima Qian, "Carta a Ren An", em tradução para o português a partir da versão de Burton Watson.

Últimos anos e morte

Pintura de Sima Qian sentado, com gorro escuro, acompanhada de uma inscrição em chinês.
A carta atribuída a Sima Qian preserva seu relato da punição e da escrita do Shiji; sua data de morte permanece incerta. Retrato conservado no Museu Nacional do Palácio.

Depois de sair da prisão, em 97 ou 96 a.C., Sima Qian continuou na corte Han como zhongshuling, 中書令, cargo de secretário do palácio reservado a eunucos. O Livro de Han informa que nesse posto desfrutou de grande prestígio e favor imperial.

A Carta a Ren An, atribuída a Sima Qian e preservada em sua biografia no Livro de Han, responde a uma mensagem perdida de Ren An. Sua data é discutida: uma interpretação a situa em 91 a.C., depois do envolvimento de Ren An na rebelião do príncipe herdeiro Liu Ju, enquanto outra propõe 93 a.C., quando ele teria sido acusado de um delito anterior. Na interpretação que a associa à rebelião, Ren An talvez pedisse a Sima Qian que intercedesse em seu favor, pois estava prestes a ser executado sob a acusação de oportunismo e de ter demonstrado lealdade ambígua ao imperador. Não há, porém, evidência suficiente para confirmar que sua mensagem continha esse pedido. Na resposta, Sima Qian afirmou ser um homem mutilado, sem poder na corte. Relatos posteriores associaram Sima Qian à rebelião por sua amizade com Ren An e à execução no expurgo dos partidários do príncipe herdeiro na corte. Essa hipótese não permite estabelecer com segurança as circunstâncias de sua morte. Também se propôs que Sima Qian teria relutado em prestar ajuda efetiva a Ren An, devido ao que sofrera por apoiar o general Li Ling e à falta de auxílio de amigos e colegas naquele caso, mencionada em sua carta. Há muitas teorias sobre a data exata, a natureza e a finalidade da Carta a Ren An. Sua autenticidade também é discutida: alguns estudiosos questionam se o texto foi escrito por Sima Qian ou se constitui uma recriação literária posterior de sua voz. Uma interpretação recorrente é que ela expressava, em parte e de forma tácita, a recusa de Sima Qian em agir para reduzir a pena de Ren An.

Wang Guowei, estudioso do início do século XX, afirmou que os registros disponíveis não permitem determinar quando Sima Qian morreu. Em seu estudo cronológico, considerou plausível que a morte tivesse ocorrido por volta do fim do reinado de Wu, sem apresentar essa hipótese como uma data comprovada.

Shiji

Formato

Primeira página do Shiji, com grandes caracteres chineses dispostos em colunas verticais.
O Shiji organiza a história em anais, tabelas, tratados, crônicas de casas e biografias, reunidos em 130 capítulos.

O Shiji tem mais de 500.000 caracteres, organizados em 130 capítulos. Embora o estilo e a forma da historiografia chinesa tenham mudado, a obra estabeleceu um padrão de qualidade e de escrita para os estudiosos posteriores. Antes de Sima, muitas narrativas históricas se concentravam em acontecimentos particulares ou nos assuntos de uma região. Sua ideia de uma história geral orientou historiadores como Sima Guang e Zheng Qiao, 鄭樵, autores do Zizhi Tongjian, de 1084, e do Tongzhi, de 1161, respectivamente. Ban Gu adaptou mais tarde esse modelo para a história de uma única dinastia no Livro de Han, concluído por Ban Zhao em 111 d.C. Esse formato passou a orientar as histórias oficiais posteriores.

O formato jizhuanti, 紀傳體, divide a obra em diferentes tipos de capítulos, sobretudo "anais básicos", 本紀, benji, e "biografias ordenadas", 列傳, liezhuan. Os benji contêm as biografias dos soberanos, em ordem cronológica e agrupadas por dinastia. Os liezhuan contêm biografias de pessoas de diferentes posições sociais, às vezes dedicadas a um único indivíduo, mas frequentemente a duas ou mais pessoas cujos papéis Sima julgava de peso comparável. Também incluem relatos sobre povos e regiões vizinhos. Há ainda as "tabelas", 表, biao, que reúnem cronologias gráficas da realeza e da nobreza, e os "tratados", 書, shu, com exposições históricas sobre temas como música, ritos e economia. As "crônicas das casas", 世家, shijia, registram os principais acontecimentos do reinado de cada governante dos Estados da dinastia Zhou, além das histórias das casas nobres estabelecidas durante a dinastia Han.

O Shiji reúne 12 anais básicos, 10 tabelas, 8 tratados, 30 crônicas das casas e 70 biografias ordenadas. A última biografia é o posfácio, que detalha as circunstâncias da redação e compilação da obra e apresenta breves justificativas para a escolha de seus temas, acontecimentos e personagens. Ao contar esses antecedentes, o posfácio traz um esboço da história do clã Sima, desde os tempos lendários até Sima Tan. Também relata as últimas palavras do pai, que, em lágrimas, exortou o autor a escrever a obra, e contém um esboço autobiográfico de Sima Qian. Termina com uma descrição de si próprio como o septuagésimo e último capítulo das Biografias Ordenadas.

Divisões do Shiji
DivisãoNome chinêsCapítulosQuantidade
Anais básicos本紀, benji1–1212
Tabelas cronológicas表, biao13–2210
Tratados書, shu23–308
Crônicas das casas世家, shijia31–6030
Biografias ordenadas列傳, liezhuan61–13070
Total 130

Transmissão do texto

Página de uma edição impressa do Shiji, em papel amarelado, com texto em colunas verticais.
Edição impressa de 1598. O texto transmitido do Shiji inclui acréscimos posteriores à morte de Sima Qian.

O texto recebido do Shiji contém acréscimos posteriores à morte de Sima Qian. Entre seus autores está Chu Shaosun, cujas intervenções são identificadas por seu nome. Ban Gu registrou que dez capítulos estavam ausentes, restando apenas seus títulos. Não há evidências suficientes para decidir entre as diferentes explicações dessa lacuna, inclusive a hipótese de que esses capítulos não tivessem sido concluídos ou a de que fossem suprimidos posteriormente. Há também substituições de capítulos e revisões cuja autoria é discutida. Por isso, o texto recebido não pode ser atribuído integralmente, em todos os seus detalhes, a Sima Qian.

Modelos e repercussão

Retrato de Confúcio, de barba longa, com as mãos unidas à frente do corpo.
Os Anais de Primavera e Outono, associados a Confúcio, inspiraram a concepção de Sima Qian da história como tarefa moral.

Sima se inspirou intensamente nos Anais de Primavera e Outono, de Confúcio, que, à primeira vista, são uma cronologia sucinta dos acontecimentos dos reinados de doze duques de Lu, de 722 a 481 a.C. Muitos estudiosos chineses, do passado e do presente, tomam a organização dessa cronologia como exemplo ideal da escrita da história, sobretudo pelas escolhas do que incluir ou excluir e pelas palavras usadas para exprimir juízos morais. Nessa leitura, os Anais de Primavera e Outono são um guia moral para a conduta correta. Sima também adotou essa leitura, como explicou:

夫春秋 ... 別嫌疑,明是非,定猶豫,善善惡惡,賢賢賤不肖,存亡國,繼絕世,補敝起廢。

Ele [os Anais de Primavera e Outono] distingue o que é suspeito e duvidoso, esclarece o certo e o errado e resolve as questões incertas. Chama o bem de bem e o mal de mal, honra os dignos e condena os indignos. Preserva os Estados perdidos e restaura as famílias em vias de desaparecer. Traz à luz o que foi negligenciado e recupera o que foi abandonado.

Sima entendia que o Shiji seguia essa mesma tradição e explicou sua posição na introdução do capítulo 61:

或曰:天道無親,常與善人。若伯夷、叔齊,可謂善人者非邪。積仁絜行如此而餓死。... 盜蹠日殺不辜,肝人之肉 ... 竟以壽終。是遵何德哉。 ... 余甚惑焉,儻所謂天道,是邪非邪。

Há quem diga: "O caminho do Céu, sem distinguir pessoas, é sempre amparar os bons". Podemos então dizer que Boyi e Shuqi eram bons homens ou não? Apegaram-se à retidão e foram puros em seus atos, mas morreram de fome... O bandido Zhi matava inocentes todos os dias e picava sua carne... Mas, no fim, viveu até uma idade muito avançada. Por qual virtude mereceu isso?... Fico profundamente perplexo. Esse chamado "Caminho do Céu" é certo ou errado?

Para resolver esse problema de teodiceia, Sima sustentava que, embora os maus possam prosperar e os bons sofrer enquanto vivem, cabe ao historiador assegurar que o bem triunfe no fim. Para ele, escrever história ia além do interesse pelas coisas antigas. Era uma tarefa moral indispensável, pois o historiador deveria "preservar a memória" e garantir a vitória final do bem sobre o mal. Sima escreveu:

蘇秦兄弟三人,皆游說諸侯以顯名,其術長於權變。而蘇秦被反閒以死,天下共笑之,諱學其術。 ... 夫蘇秦起閭閻,連六國從親,此其智有過人者。吾故列其行事,次其時序,毋令獨蒙惡聲焉。

Su Qin e seus dois irmãos alcançaram fama entre os senhores feudais como estrategistas itinerantes. Suas políticas davam grande peso aos estratagemas e às mudanças de poder. Mas, como Su Qin morreu como traidor, todos se uniram para zombar dele e passaram a rejeitar o estudo de suas políticas... Su Qin veio das origens mais humildes para conduzir os Seis Estados na Aliança Vertical, o que prova que sua inteligência superava a das pessoas comuns. Por isso apresentei seus feitos, organizados na devida ordem cronológica, para que ele não carregue para sempre uma má reputação e seja lembrado apenas por ela.

Essa abordagem moralizante, em que o historiador julgava o bem e o mal para oferecer lições ao presente, podia atrair a ira do Estado, como ocorreu com o próprio Sima. O historiador precisava agir com cautela e muitas vezes exprimia seus juízos de maneira indireta para enganar o censor.

Na conclusão do capítulo 110, Sima afirmou que escrevia nessa tradição:

孔氏著春秋,隱桓之閒則章,至定哀之際則微,為其切當世之文而罔褒,忌諱之辭也。

Quando Confúcio escreveu os Anais de Primavera e Outono, falou abertamente dos reinados de Yin e Huan, os primeiros duques de Lu. Mas, ao chegar aos reinados posteriores dos duques Ding e Ai, sua escrita tornou-se muito mais velada. Como nesse último caso escrevia sobre a própria época, não expôs seus juízos com franqueza e usou uma linguagem sutil e cautelosa.

Isso não significa que tudo o que Sima escreveu deva ser entendido como uma lição moral. Alguns historiadores, porém, propuseram que certas passagens do Shiji possam exprimir sua desaprovação da política externa do imperador Wu, como a discussão sobre a crítica indireta de Confúcio, inserida na parte da obra dedicada aos "bárbaros" xiongnu.

Duas páginas de um livro: à esquerda, texto em chinês; à direita, uma paisagem rural ilustrada.
Edição ilustrada posterior do Clássico da Poesia. Sima Qian comparava os relatos históricos com os clássicos confucionistas e outros documentos.

Ao escrever o Shiji, Sima iniciou um estilo de escrita que apresentava a história por meio de biografias. Os 130 capítulos não seguem uma sequência histórica única. Estão divididos por assuntos, com anais, crônicas, tratados sobre música, cerimônias, calendários, religião e economia, além de biografias extensas. Sua escrita também orientou obras históricas fora da China, como o Samguk Sagi, da Coreia. Sima adotou uma nova maneira de organizar os dados históricos e de escrever sobre o passado. No início do Shiji, declarou seguir a orientação de Confúcio nos Analectos: "ouvir muito, mas deixar de lado o que é duvidoso, e falar com a devida cautela sobre o restante". Esse rigor também o levou a afirmar que não apresentaria relatos detalhados de períodos para os quais faltasse documentação suficiente. Escreveu que "as épocas anteriores à dinastia Ch'in estão distantes demais e o material sobre elas é escasso demais para permitir aqui uma exposição detalhada". Da mesma forma, descartou relatos tradicionais que julgava "ridículos", como a alegação de que o príncipe Tan podia, por magia, fazer as nuvens choverem grãos e os cavalos criarem chifres. Comparava continuamente os relatos dos manuscritos com obras que julgava confiáveis, entre elas os clássicos confucionistas Clássico da Poesia, Livro dos Documentos, Livro dos Ritos, Clássico da Música, I Ching e Anais de Primavera e Outono. Quando não podia conferir uma narrativa nesses clássicos, comparava sistematicamente as informações com outros documentos. Mencionou pelo menos 75 livros usados nessas comparações. Também interrogava pessoas sobre acontecimentos históricos que haviam vivido. Depois de uma de suas viagens pela China, escreveu: "Quando tive a oportunidade de passar por Feng e Pei, fiz perguntas aos idosos do lugar, visitei as antigas casas de Xiao He, Cao Can, Fan Kuai e Xiahou Ying e aprendi muito sobre os primeiros tempos. Como era diferente das histórias que se ouvem!" Pela reverência chinesa à velhice, Sima preferia entrevistar idosos, pois acreditava que teriam mais condições de lhe fornecer informações corretas e verdadeiras sobre o passado. Em uma dessas viagens, contou que se emocionou ao ver a carruagem de Confúcio, suas roupas e outros objetos pessoais.

Inovações e particularidades

Tiras estreitas de bambu com escrita chinesa, expostas separadamente em uma vitrine.
Escrita em tiras de bambu da dinastia Han Ocidental. Sima Qian combinou a consulta a documentos com viagens e entrevistas.

Embora devesse muito à tradição confucionista, Sima inovou de quatro maneiras, a começar por escrever sobre a história do mundo conhecido. Muitas narrativas históricas anteriores se concentravam em um Estado ou em conjuntos mais limitados de acontecimentos. Seus 130 capítulos começavam com o lendário Imperador Amarelo e chegavam à sua própria época, abrangendo a China e países vizinhos, como Coreia e Vietnã. Em certas passagens, Sima apresentou os povos ao norte da Grande Muralha, como os xiongnu, como seres humanos implicitamente iguais aos habitantes do Império do Meio. Outros relatos os apresentavam como selvagens de aparência humana e mente animal. Em seus comentários sobre os xiongnu, Sima evitou as alegações de superioridade moral inata dos Han sobre os "bárbaros do norte", presentes em historiadores posteriores, como Ban Gu e Fan Ye. No capítulo dedicado aos xiongnu, condenou os conselheiros que buscavam a "conveniência do momento", oferecendo argumentos bajuladores em busca de vantagens pessoais e benefícios imediatos, em vez de resultados duradouros. Comentaristas posteriores interpretaram essa passagem como uma crítica indireta à escolha dos conselheiros e à política de agressão de Wu contra os xiongnu.

Sima também inovou ao diversificar suas fontes, entrevistar testemunhas, visitar os lugares dos acontecimentos e examinar documentos de regiões e épocas diferentes. O recurso a depoimentos e à observação dos lugares complementou as fontes escritas utilizadas nas histórias de corte. O Shiji também trouxe uma novidade à historiografia chinesa ao investigar acontecimentos fora das cortes, ampliando o alcance das histórias tradicionais, centradas no palácio. Por fim, Sima rompeu com a estrutura cronológica tradicional e dividiu a obra em cinco partes: os anais básicos, com os primeiros 12 capítulos, as tabelas cronológicas, com os 10 seguintes, os tratados sobre temas específicos, com 8, as histórias das famílias governantes, com 30, e as biografias de pessoas de destaque, nos últimos 70 capítulos. Os anais seguem o padrão chinês tradicional das histórias de corte sobre os imperadores e suas famílias. As tabelas cronológicas apresentam graficamente a história política da China. Os tratados são ensaios sobre temas como astronomia, música, religião, engenharia hidráulica e economia. As biografias abrangem indivíduos que Sima julgava terem alterado o curso da história, fossem de origem nobre ou humilde, nascidos nos Estados centrais, nas regiões periféricas ou em terras "bárbaras". Ao escrever sobre mulheres e homens que eram poetas, burocratas, comerciantes, comediantes ou bufões, assassinos e filósofos, foi além das histórias tradicionais centradas nos homens e na nobreza. Os tratados, as biografias e os anais da dinastia Qin despertaram o maior interesse dos historiadores. Havia mais liberdade para escrever sobre uma dinastia anterior, como a Qin, do que sobre a dinastia Han, ainda no poder. Segundo Jennifer Jay, em 1999, as traduções para o inglês abrangiam cerca de 40% do Shiji e se concentravam nessas partes.

Desenhos de moedas chinesas de formatos quadrados, retangulares e circulares, com inscrições e orifícios centrais.
Ilustração de moedas em uma tradução francesa do Shiji. Os tratados ampliaram o alcance da obra para temas como a economia, além da história dos soberanos.

A posição dada a cada personagem na obra muitas vezes permitia a Sima exprimir indiretamente um juízo moral. A imperatriz Lü e Xiang Yu governaram de fato a China durante os reinados de Hui de Han e Yi de Chu, respectivamente, e suas vidas foram incluídas nos anais básicos. Confúcio foi colocado na quarta parte, em vez da quinta, à qual caberia pertencer, como forma de honrar sua virtude excepcional. A estrutura do Shiji permitia contar as mesmas histórias de maneiras diferentes e, assim, emitir juízos morais. Nos anais básicos, por exemplo, imperador Gaozu é apresentado como um bom governante, mas, na parte dedicada a seu rival Xiang Yu, aparece sob uma luz desfavorável. Da mesma forma, o capítulo sobre Xiang Yu lhe é favorável, enquanto o capítulo sobre Gaozu o apresenta de maneira mais sombria. Ao fim de muitos capítulos, Sima acrescentava comentários sobre a conduta dos personagens, a confiabilidade dos relatos ou suas próprias experiências. Neles, também discutia valores tradicionais chineses, como piedade filial, humildade, disciplina pessoal, trabalho árduo e cuidado com os menos afortunados.

O Livro de Han foi escrito sob a supervisão da dinastia imperial, mas o Shiji nasceu como um projeto de iniciativa privada de Sima Tan, continuado por Sima Qian. Seu alcance ultrapassa as pessoas de posição elevada e inclui indivíduos das camadas mais baixas. Na época de Sima, literatura e história não eram disciplinas separadas como são no presente. Ele escreveu sua obra principal em um estilo muito literário, com uso frequente de ironia, sarcasmo, justaposição de acontecimentos, caracterização, discurso direto e falas inventadas. A historiadora Jennifer Jay observou que partes do Shiji se leem mais como um romance histórico do que como uma obra de história. Um exemplo é a história do eunuco chinês Zhonghang Yue, que se tornou conselheiro dos reis xiongnu. Sima apresenta um longo diálogo entre Zhonghang e um enviado do imperador Wen. O enviado critica os costumes dos xiongnu, enquanto Zhonghang os defende como justificados e moralmente iguais aos chineses, às vezes até superiores. Contrapõe as sangrentas disputas sucessórias chinesas, nas quais familiares matavam uns aos outros para chegar ao trono, à sucessão mais ordenada dos reis xiongnu. A historiadora Tamara Chin interpreta o diálogo como um recurso literário de crítica aos relatos chineses sobre os povos vizinhos. Na leitura de Chin, a imagem favorável de Zhonghang, que passou para os xiongnu e contesta o enviado imperial em um debate etnográfico sobre qual povo é moralmente superior, questiona a autoridade dos enviados e dos conselheiros que distorciam os relatos sobre os xiongnu em benefício próprio. Essa leitura ganha força pela semelhança entre a linguagem de Zhonghang e a de um funcionário confucionista ideal, enquanto Zhonghang desqualifica a fala do enviado imperial como "mero chilrear e tagarelice". Em outras partes do Shiji, os xiongnu são apresentados de forma menos favorável. Para Chin, o diálogo se dirige mais à crítica da corte chinesa do que a um elogio irrestrito dos xiongnu.

Sima foi frequentemente criticado por "historicizar" mitos e lendas, atribuindo datas a personagens míticos e lendários da China antiga e apresentando genealogias de famílias de destaque ao longo de milênios com uma precisão suspeita. A genealogia de sua própria família, por exemplo, remonta a imperadores lendários de um passado distante. A arqueologia corroborou algumas informações do Shiji, mas também mostrou limites e divergências. As inscrições em ossos oraculares apresentam boa correspondência com parte da genealogia dos reis Shang registrada na obra; algumas durações de reinados e identificações de soberanos, porém, são questionadas, e a atribuição de túmulos a reis específicos permanece sujeita à interpretação. O estudo do manuscrito de bambu Xinian, adquirido pela Universidade Tsinghua em 2008, também permitiu corrigir e complementar passagens do Shiji sobre a história Zhou.

Escritor

Desenho de Sima Qian sentado em uma cadeira, com uma longa túnica.
O Shiji tornou-se um modelo de prosa e de caracterização de personagens. Sima Qian em uma edição de 1921 do Wanxiaotang Huazhuan.

O Shiji é uma referência da literatura biográfica, admirado por seu valor literário e usado como texto de estudo do chinês clássico. Os escritos de Sima orientaram a prosa chinesa e foram tomados como modelos de diferentes gêneros no movimento neoclássico de "retorno à Antiguidade", 复古, dos períodos Tang e Song. Seu uso da caracterização e da construção do enredo também repercutiu na ficção, dos contos clássicos do período medieval médio e tardio, entre as dinastias Tang e Ming, aos romances em língua vernácula do fim do período imperial. Sima teve enorme repercussão na historiografia da China, do Japão e da Coreia. Durante séculos, o Shiji foi um dos principais modelos da escrita histórica da Ásia Oriental. A circulação de sua obra em inglês dependeu por muito tempo de traduções parciais.

Essa repercussão veio sobretudo de sua habilidade para retratar personagens históricos com detalhes de suas falas, conversas e ações, do uso inovador de uma linguagem informal, bem-humorada e diversificada e da simplicidade e concisão de seu estilo. O crítico literário Lu Xun, do século XX, chamou o Shiji de "o canto mais perfeito dos historiadores, um 'Li Sao' sem rima", 史家之絶唱,無韻之離騷, em seu Esboço da história literária chinesa, 漢文學史綱要.

Encostas do monte Tai vistas de um edifício com terraço, sob um céu azul.
Na Carta a Ren An, Sima Qian contrapõe o peso do monte Tai à leveza de uma pena para discutir os diferentes sentidos da morte.

A carta a seu amigo Ren An, sobre o sofrimento no caso Li Ling e a perseverança na escrita do Shiji, é muito admirada como exemplo de prosa literária e amplamente estudada na China. A Carta a Ren An contém a frase: "Os homens sempre tiveram uma única morte. Para uns, ela pesa tanto quanto o monte Tai. Para outros, é tão leve quanto a penugem de um ganso. A diferença está no fim ao qual a dedicam", 人固有一死,或重于泰山,或輕于鴻毛,用之所趨異也。. A frase tornou-se conhecida na literatura chinesa. Mao a parafraseou em um discurso de 1944 em homenagem a Zhang Side, soldado do Regimento de Guardas do Comitê Central do Partido Comunista Chinês, uma das forças que antecederam o Exército de Libertação Popular.

O tratado bibliográfico do Livro de Han atribui a Sima Qian oito rapsódias, fu. Apenas a "Rapsódia em lamento pelos homens de valor que não encontram sua época", 士不遇賦, chegou até nós, mas sua autenticidade é discutida.

Traduções do Shiji

Folha de rosto em francês, com o título Les Mémoires historiques de Se-ma Ts'ien e o nome do tradutor Édouard Chavannes.
Folha de rosto da tradução francesa de Édouard Chavannes. Seu trabalho foi incorporado à edição integral publicada em 2015.

Uma tradução francesa integral foi publicada em 2015 pela editora You Feng, em nove volumes, reunindo o trabalho de Édouard Chavannes e de tradutores posteriores, entre eles Jacques Pimpaneau. A editora Luni publicou uma tradução italiana integral em quatro volumes, preparada por Vincenzo Cannata.

O projeto de tradução integral para o inglês dirigido por William H. Nienhauser Jr. teve início na década de 1990. Em agosto de 2025, a equipe de tradutores, que incluía Weiguo Cao, ainda trabalhava nos volumes finais. Em agosto de 2026, a Indiana University Press publicou a segunda parte do volume V de The Grand Scribe's Records, com sete novas traduções das crônicas das casas.

Recepção em língua portuguesa

Biblioteca da Universidade de Macau, com uma fonte e uma inscrição em português e chinês na fachada.
Giorgio Sinedino, da Universidade de Macau, analisa o Shiji ao discutir a tradução da literatura clássica chinesa para o português.

Em português, a biografia de Confúcio escrita por Sima Qian foi publicada em 2012 no volume Introdução a Confúcio, da Contraponto, traduzido por Vitoria Davies e Verrah Chamma. A edição de Dao De Jing traduzida por Giorgio Sinedino e publicada pela Editora Unesp em 2016 também inclui notas biográficas de Sima Qian.

Em um estudo publicado em 2023, Sinedino discute o Shiji ao examinar a autoria difusa e as dificuldades da tradução da literatura clássica chinesa para o português.

Na historiografia acadêmica em português, Otávio Luiz Vieira Pinto examinou, em 2024, o papel da ideia de Céu na organização das narrativas históricas chinesas. Seu estudo aborda a relação entre os acontecimentos humanos e a ordem celeste na obra de Sima Qian, bem como a união das funções de historiador, escriba e astrólogo em seu cargo na corte.

Página em chinês, em colunas verticais, com um registro histórico de um cometa.
Registro de um cometa no Shiji. A observação dos fenômenos celestes e a elaboração do calendário integravam as atribuições do historiador da corte.

Sima e seu pai exerceram o cargo de taishi, 太史, durante a dinastia Han Ocidental. Suas atribuições reuniam as de historiador, escriba da corte, especialista em calendários e astrônomo ou astrólogo da corte. O astrólogo tinha então a responsabilidade de interpretar e prever o rumo do governo a partir dos efeitos do Sol, da Lua e das estrelas, assim como de fenômenos astronômicos e geológicos, como eclipses solares e terremotos. Esse trabalho dependia da revisão e manutenção de um calendário preciso.

A reforma que instituiu o calendário Taichu transferiu o início do ano civil do décimo mês, usado no calendário Qin, para o primeiro mês da primavera. O sistema Taichu adotou um mês lunar médio de 29 e 43/81 dias, aproximadamente 29,5309 dias. Com o esquema de intercalação de 19 anos, essa duração correspondia a um ano médio de 365 e 385/1.539 dias, aproximadamente 365,2502 dias.

Família

Escadaria e portal do complexo dedicado a Sima Qian em Hancheng, entre árvores.
Templo dedicado a Sima Qian em Hancheng. No posfácio do Shiji, o autor recorda sua linhagem e o pedido do pai para que concluísse a obra.

Sima Qian era filho do astrólogo da corte, 太史令, Sima Tan. No posfácio do Shiji, apresentou sua família como descendente do general Sima Cuo, 司馬錯, que comandou o exército de Qin na conquista de Ba e Shu.

Os registros históricos mencionam uma filha de Sima Qian, mas não documentam filhos homens; os dois filhos citados em tradições locais pertencem a relatos posteriores. Sua filha se casou com Yang Chang, 楊敞, do clã Yang de Hongnong, e teve Yang Zhong, 楊忠, e Yang Yun, 楊惲, cuja execução é situada em 55 ou 54 a.C., conforme a cronologia adotada Yang Yun contribuiu para a divulgação da obra de seu avô durante o reinado de imperador Xuan.

Descendentes sem comprovação

Ilustração antiga de Wang Mang, com barba longa e vestes cerimoniais, acompanhada de texto chinês.
Wang Mang mandou procurar um descendente de Sima Qian pela linhagem masculina para lhe conceder um título de nobreza.

Uma lenda local conta que Sima Qian teve dois filhos, o mais velho chamado Sima Lin, 司馬臨, e o mais novo Sima Guan, 司馬觀. Durante o caso Li Ling, eles teriam fugido da capital por medo de sofrer a execução de toda a família. A tradição é associada à aldeia de Xu, 徐村, em Hancheng, na província de Shaanxi. Teriam mudado seus sobrenomes para Tong, 同, formado por 丨 + 司, e Feng, 馮, formado por 仌 + 馬, respectivamente. Teriam ocultado suas origens, mas continuado a oferecer sacrifícios aos antepassados Sima em segredo. Uma descrição publicada em 2018 registra a proibição de casamentos entre moradores da aldeia com os sobrenomes Feng e Tong, pois a união era entendida como incestuosa.

O Livro de Han relata que Wang Mang enviou uma expedição para procurar um descendente de Sima Qian pela linhagem masculina e lhe conceder o título de 史通子, "Visconde do Domínio da História", mas não informa quem o recebeu. Uma inscrição em estela da dinastia Qing, intitulada Registros da renovação do templo do grande historiador, 重修太史廟記, transcreve a tradição de que o título foi dado ao neto de Sima Lin. O próprio texto, porém, ressalva que não encontrou comprovação nos registros históricos para as genealogias relatadas.

Fontes biográficas

Portal coberto por um telhado, com uma inscrição em chinês e uma escadaria de pedra.
Portal do memorial em Hancheng. O conjunto preserva a memória de Sima Qian, mas a identificação de seu túmulo original não foi comprovada arqueologicamente.

As principais fontes antigas para a vida de Sima Qian são o posfácio autobiográfico do Shiji, que constitui seu capítulo 130, e a biografia do capítulo 62 do Livro de Han, de Ban Gu. A segunda reproduz o posfácio e acrescenta a Carta a Ren An, algumas informações biográficas e uma avaliação da obra.

Memória e homenagens

Memorial e culto local

Túmulo circular de tijolos atribuído a Sima Qian, cercado por grades e visitado por pessoas.
O túmulo de Hancheng é um lugar de homenagem ao historiador. A construção visível é posterior à época Han, e sua identificação como sepultamento original permanece sem comprovação arqueológica.

O túmulo tradicionalmente atribuído a Sima Qian e o templo dedicado a ele ficam em Zhichuan, cerca de 10 km ao sul de Hancheng. O conjunto foi incluído na lista nacional chinesa de monumentos protegidos em 1982. Uma inscrição de 1126 registra uma renovação realizada no ano anterior. O túmulo circular de tijolos visível no local é uma construção posterior à época Han, e a estela diante dele foi erguida em 1776 por Bi Yuan. A identificação do local como o sepultamento original de Sima Qian não está comprovada arqueologicamente.

A memória de Sima Qian também é preservada em cerimônias da aldeia de Xu, em Hancheng. As famílias Feng e Tong, que se apresentam como seus descendentes, compartilham um santuário e o homenageiam como antepassado. Durante o festival Qingming, participam de ritos com oferendas, música e apresentações teatrais.

As cerimônias populares dedicadas a Sima Qian são reconhecidas como patrimônio cultural imaterial da província de Shaanxi. Na véspera de Qingming, a cerimônia acontece junto ao túmulo que a tradição local considera autêntico. Em determinado momento, os atores descem do palco sem retirar a maquiagem e seguem com músicos e moradores para o templo Jiulang, onde a apresentação é retomada.

Estátua de Sima Qian de pé, com uma túnica longa, segurando uma peça retangular diante do corpo.
A memória de Sima Qian também é preservada em esculturas modernas. Estátua na filial da Rota da Seda do Sul do Museu Nacional de Crônicas Locais, em Yunnan.

Representações e outras homenagens

Sima Qian foi incluído na coletânea ilustrada Wu Shuang Pu, de Jin Guliang. Também aparece no álbum Retratos de sábios e homens virtuosos de diferentes épocas, conservado no Museu Nacional do Palácio.

Em 2015, o Teatro de Arte Popular de Pequim encenou Sima Qian, peça de Xiong Zhaozheng, com Feng Yuanzheng no papel principal. A montagem, em cinco atos, estreou no Teatro da Capital, em Pequim, em 15 de setembro de 2015, e dramatizou sua trajetória, a punição e a escrita da obra histórica. Em 2021, um episódio do programa Dianji li de Zhongguo, da Televisão Central da China, apresentou dramatizações de sua vida e da elaboração do Shiji.

No Japão, o romancista Ryōtarō Shiba escolheu seu pseudônimo em homenagem a Sima Qian. A explicação do nome expressa sua admiração pelo historiador e a ideia de que não alcançava seu talento.

Em 1986, a China emitiu uma moeda comemorativa de prata de 5 yuans com sua imagem no reverso. O planeta menor 12620 Simaqian recebeu seu nome em homenagem a ele.

Ver também

Notas

  1. ↑ O cargo reunia tarefas hoje distribuídas entre profissões diferentes: registrar acontecimentos, cuidar do calendário e observar o céu. Por isso, nenhuma das traduções do título, sozinha, explica todas as suas atribuições. Otávio Luiz Vieira Pinto (2024). «Narrar tudo aquilo que está abaixo do Céu: a ideia de tiān 天 (Céu) na estruturação da historiografia chinesa pré-Moderna». História da Historiografia. 17: 11–12. doi:10.15848/hh.v17.2260
  2. ↑ A corte reunia o imperador e as pessoas que o serviam no palácio, entre elas os funcionários que participavam do governo.
  3. ↑ Eram dias considerados favoráveis ou desfavoráveis para realizar determinadas cerimônias. Escolher a data fazia parte da preparação dos ritos. Knechtges 2014, p. 960.
  4. ↑ A expressão se refere à escrita em que uma versão do clássico havia sido transmitida. Não é a divisão atual entre caracteres chineses tradicionais e simplificados. Watson 1958, p. 207.
  5. ↑ Autores chineses usavam esse rótulo para povos cujos costumes consideravam diferentes dos seus. A palavra carrega o julgamento de quem a usa. Chin 2010, pp. 318–320.
  6. ↑ O posfácio é um texto colocado no fim de um livro. Aqui, Sima Qian também conta sua trajetória e explica como escreveu a obra.
  7. ↑ Uma escola filosófica é uma corrente de pensamento: um conjunto de ideias e modos de discutir questões como a conduta humana e o governo. O ensaio de Sima Tan trata de seis: a escola yin-yang, o confucionismo, o moísmo, a escola dos nomes, o legalismo e o taoísmo. Watson 1958, pp. 43–47.
  8. ↑ Os arquivos guardavam documentos e livros vinculados ao governo. Ter acesso a esse material permitia consultar registros que não estavam disponíveis a qualquer leitor. Watson 1958, p. 50.
  9. ↑ Trata-se de um homem cuja posição social estava ligada ao conhecimento dos textos e dos costumes valorizados pela corte. A expectativa mencionada na passagem diz respeito à honra dessa condição, não a uma obrigação imposta a todas as pessoas. Watson 1958, pp. 58–64.
  10. ↑ "Céu" traduz aqui a palavra chinesa tiān. Além do céu visível, ela pode indicar a ordem do universo e uma referência moral para a vida humana e o governo. A relação entre Céu e humanidade ajudava a dar sentido aos acontecimentos históricos. Otávio Luiz Vieira Pinto (2024). «Narrar tudo aquilo que está abaixo do Céu: a ideia de tiān 天 (Céu) na estruturação da historiografia chinesa pré-Moderna». História da Historiografia. 17: 11–12. doi:10.15848/hh.v17.2260
  11. ↑ A palavra chinesa jia pode significar tanto "família" como "escola de pensamento". A expressão também pode indicar uma interpretação própria da história, além do trabalho que Sima Qian herdou do pai. Giorgio Sinedino (2023). «Um texto, muitas vozes: "autoria difusa" e a tradução de literatura clássica chinesa para o português». Cadernos de Tradução. 43 (esp. 3): 47–76. doi:10.5007/2175-7968.2023.e97197
  12. ↑ Os comentaristas interpretaram a expressão de maneiras diferentes. Para alguns, era uma designação dos arquivos imperiais; para outros, indicava um lugar afastado onde uma cópia da obra ficaria protegida. A passagem não permite identificar uma montanha específica. Watson 1958, p. 214.
  13. ↑ Um expurgo político é a retirada de pessoas vistas como adversárias ou desleais. Pode envolver perda do cargo, prisão ou execução; nesta passagem, trata-se da execução dos partidários do príncipe.
  14. ↑ Wang Guowei: "絕不可考......然視為與武帝相終始,當無大誤。", ou seja, "É absolutamente impossível determinar [quando Sima Qian morreu]... Mas não deve ser um grande erro entender que a vida de Sima Qian começou e terminou junto com a do imperador Wu [de Han]".
  15. ↑ "Casa" significa aqui uma família governante ao longo de suas gerações, como na expressão "casa real". Essas crônicas acompanham a trajetória dessas famílias.
  16. ↑ Esse formato combina a história dos governantes com as trajetórias de outras pessoas. Um mesmo acontecimento pode aparecer em vários capítulos, visto a partir de personagens diferentes. Hughes-Warrington 2000, p. 295.
  17. ↑ "Texto recebido" é a versão que chegou até nós depois de séculos de cópias e transmissão. Ela pode reunir o texto do autor e intervenções feitas por outras pessoas. Watson 1958, pp. 226–227.
  18. ↑ São avaliações sobre o que é certo ou errado e sobre como as pessoas deveriam agir. Para Sima Qian, a maneira de contar o passado também podia orientar a conduta de quem o lia. Hughes-Warrington 2000, p. 292.
  19. ↑ A expressão se refere aqui aos governantes dos Estados da China antiga. Eram eles que os estrategistas procuravam convencer a adotar alianças e outras medidas políticas.
  20. ↑ São planos ou manobras usados para obter uma vantagem, muitas vezes surpreendendo ou enganando um adversário. Na passagem, fazem parte da disputa política entre os Estados.
  21. ↑ Na passagem citada, a "Aliança Vertical" é a união de seis Estados para enfrentar Qin. Watson 1958, p. 191.
  22. ↑ Ch'in é outra forma de escrever Qin com letras latinas. A citação conserva essa grafia mais antiga; as duas formas designam a mesma dinastia.
  23. ↑ "Império do Meio" é uma designação tradicional da China. Nesta passagem, a expressão se refere à sociedade chinesa em comparação com os povos vizinhos. Chin 2010, pp. 318–320.
  24. ↑ Os bufões divertiam outras pessoas com brincadeiras, imitações ou comentários. A palavra se refere aqui a uma atividade de entretenimento.
  25. ↑ Aqui, a expressão indica um projeto assumido pelo autor e sua família, embora ambos trabalhassem para a corte. Não significa uma empresa ou uma atividade comercial. Giorgio Sinedino (2023). «Um texto, muitas vozes: "autoria difusa" e a tradução de literatura clássica chinesa para o português». Cadernos de Tradução. 43 (esp. 3): 47–76. doi:10.5007/2175-7968.2023.e97197
  26. ↑ A justaposição coloca acontecimentos lado a lado para que o leitor perceba relações ou contrastes entre eles. O discurso direto apresenta as palavras de uma personagem como uma fala. No Shiji, esses recursos ajudam a construir as cenas e a retratar as pessoas.
  27. ↑ O debate compara os costumes e os modos de viver dos dois povos. É nesse sentido que a passagem usa "etnográfico". Chin 2010, pp. 333–334.
  28. ↑ Nesse contexto, "historicizar" é apresentar personagens de mitos ou lendas como pessoas que viveram em datas determinadas e pertenciam a uma linhagem conhecida. Esse modo de narrar, por si só, não comprova que os acontecimentos ocorreram.
  29. ↑ O retorno mencionado aqui é aos modelos antigos da própria literatura chinesa. A expressão não se refere ao Renascimento europeu nem ao neoclassicismo das artes europeias.
  30. ↑ É a língua mais próxima da fala cotidiana. Na literatura chinesa, a expressão distingue essa escrita da tradição em chinês clássico.
  31. ↑ Um texto pode receber contribuições de diferentes pessoas e gerações.Giorgio Sinedino (2023). «Um texto, muitas vozes: "autoria difusa" e a tradução de literatura clássica chinesa para o português». Cadernos de Tradução. 43 (esp. 3): 47–76. doi:10.5007/2175-7968.2023.e97197
  32. ↑ Nessa prática, os fenômenos do céu podiam ser interpretados como sinais sobre o governo. Observar os astros e atribuir a eles um sentido político faziam parte do mesmo ofício; não eram campos separados como a astronomia e a astrologia atuais. Otávio Luiz Vieira Pinto (2024). «Narrar tudo aquilo que está abaixo do Céu: a ideia de tiān 天 (Céu) na estruturação da historiografia chinesa pré-Moderna». História da Historiografia. 17: 11–12. doi:10.15848/hh.v17.2260
  33. ↑ Os meses pertencem ao calendário chinês mencionado na passagem. "Décimo mês" e "primeiro mês" não correspondem automaticamente a outubro e janeiro no calendário usado hoje no Brasil. Watson 1958, pp. 209–210.
  34. ↑ O mês lunar acompanha o intervalo entre duas luas novas. A média permite fazer os cálculos do calendário; cada mês contado em dias inteiros tem 29 ou 30 dias. «The Chinese Agricultural Calendar (Nongli)» (em inglês). Hong Kong Observatory. Consultado em 30 de setembro de 2026
  35. ↑ Intercalar é acrescentar um mês em alguns anos. Isso compensa a diferença entre doze meses lunares e o ciclo das estações, mantendo o calendário próximo desse ciclo. «The Chinese Agricultural Calendar (Nongli)» (em inglês). Hong Kong Observatory. Consultado em 30 de setembro de 2026
  36. ↑ É um valor usado nos cálculos para representar a duração média do ano. Não significa que cada ano do calendário tivesse uma fração de dia: os dias eram inteiros, e os meses adicionais ajustavam a contagem ao longo do tempo.
  37. ↑ É uma linha de descendência que passa de pai para filho. Por esse critério, um neto por parte de uma filha pertence a outra linha familiar, mesmo sendo descendente da mesma pessoa.
  38. ↑ Nesta tradição, "sacrifícios" são homenagens com oferendas e cerimônias aos antepassados. A descrição dos ritos locais menciona mesas de oferendas e apresentações musicais e teatrais; não se trata de sacrifício humano. «司马迁民间祭祀» (em chinês). Comissão de Inspeção Disciplinar de Hancheng. 21 de maio de 2018. Consultado em 30 de setembro de 2026
  39. ↑ Uma estela é uma peça de pedra erguida para registrar uma inscrição, homenagear alguém ou marcar um acontecimento. A inscrição permite conhecer o que se quis deixar registrado.
  40. ↑ A proteção oficial reconhece o valor histórico do conjunto e estabelece sua preservação. Ela não comprova, por si só, a atribuição do túmulo à pessoa homenageada.
  41. ↑ Nesse caso, o patrimônio são práticas transmitidas entre gerações, como os ritos, a música e as apresentações. "Imaterial" distingue essas tradições dos edifícios e objetos que também podem ser preservados.

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Fontes

Leitura adicional

Ligações externas

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