
Fu (賦, simplificado 赋, fù), traduzido como "rapsódia" ou "exposição poética", é um gênero poético chinês que combina passagens rimadas e prosa e predominou na literatura chinesa durante a dinastia Han, de 206 a.C. a 220 d.C. Entre poesia e prosa, desenvolve um lugar, objeto, sentimento ou outro tema com minúcia e sob diferentes perspectivas. Era recitado ou entoado, em vez de cantado como uma canção. Alterna rima e prosa, versos de comprimentos diferentes, aliteração, onomatopeia, paralelismos flexíveis e longas enumerações. Seus autores clássicos empregavam vocabulário extenso, incluindo palavras e caracteres raros.
Com antecedentes nos Reinos Combatentes, o gênero se consolidou nos Han e continuou a ser composto nos Song e nas dinastias seguintes. Podia elogiar cortes, palácios e cidades ou explorar objetos e sentimentos nos "fu sobre coisas". Obras do gênero foram preservadas no Wen Xuan, "Seleções de literatura refinada", e nas histórias dinásticas, como o Livro de Han.
A tradução do nome por "rapsódia" aproxima seu caráter recitativo, mas não transmite todas as características do gênero chinês. No século XX, o gênero foi desvalorizado como literatura aristocrática distante dos interesses populares, e também criticado como forma artificial inadequada à expressão de sentimentos pessoais. Seu estudo se renovou a partir da década de 1960, com trabalhos de Gong Kechang, Ma Jigao e Chien Tsung-wu, entre outros.
| Sistema ou variedade | Leitura |
|---|---|
| Chinês tradicional | 賦 |
| Chinês simplificado | 赋 |
| Pinyin | fù ⓘ |
| Wu, Xangai, AFI | fu³⁵ |
| Cantonês, Yale | fu |
| Cantonês, Jyutping | fu³ |
| Cantonês, AFI | fu³³ |
| Taiwanês, Tâi-lô | hù |
| Hakka, Meixian, AFI | fu⁵³ |
| Chinês médio, Baxter–Sagart | pjuH |
| Chinês antigo, Baxter–Sagart | *p(r)a-s |
| Chinês Han tardio, Schuessler 2024 | *puɑᶜ |
O r entre parênteses na reconstrução de Baxter e Sagart indica incerteza sobre a presença dessa consoante.
O termo chinês fu aparece na literatura Zhou, de cerca de 1046 a 221 a.C., com sentido de "apresentar", como numa recitação poética. Também nomeava um dos três procedimentos literários tradicionalmente atribuídos às canções do Clássico da Poesia, o Shijing. No fim do primeiro milênio a.C., passou a designar exposições poéticas compostas e apresentadas como rapsódias. Ban Gu definiu-o na "Monografia das artes e letras" como "recitar sem cantar", bù gē ér sòng (不歌而誦).
O gênero se relaciona aos Cantos de Chu, Chu Ci, e à retórica de persuasão política do fim dos Reinos Combatentes. Do reinado de Wu ao fim dos Han Ocidentais, três dos principais autores — Sima Xiangru, Wang Bao e Yang Xiong — vieram de Shu, atual Sichuan. O capítulo de adivinhas do Xunzi foi associado às origens do gênero; o mais antigo texto Han conhecido com o nome de fu é o "Fu sobre a coruja" (鵩鳥賦, Fúniǎo fù), de Jia Yi, de cerca de 170 a.C.. Jia também escreveu no exílio em Changsha o "Fu de lamento por Qu Yuan" (弔屈原賦), no qual relaciona sua própria condição à do poeta de Chu.
O "Fu sobre a coruja" foi composto no terceiro ano do exílio de Jia Yi em Changsha e emprega a forma do sao, associada aos Cantos de Chu. Distingue-se pela longa reflexão filosófica sobre a situação do autor. O reinado de Wu, de 141 a 87 a.C., marcou o auge do "grande fu", dàfù (大賦). O imperador convocava autores a Chang'an para compor e recitar diante da corte. Um dos primeiros exemplos preservados do grande fu, "Sete estímulos" (七發, Qī fā), é de Mei Sheng (枚乘), morto em 140 a.C.. Um visitante de Wu, à maneira dos persuasores dos Reinos Combatentes, tenta curar um príncipe de Chu adoecido por prazeres sensuais excessivos, levando os sentidos ao limite por exposições poéticas.
| Original chinês | Tradução portuguesa |
|---|---|
純馳浩蜺,前後駱驛。 |
Rodando e correndo, um halo cintilante, |
Sima Xiangru figura entre os principais autores do grande fu. A tradição afirma que Wu o convocou após ler o "Fu do Senhor Vazio" (子虛賦, Zǐxū fù), embora a história provavelmente tenha sido acrescentada depois. Por volta de 136 a.C., Sima chegou à capital. O "Fu do Senhor Vazio" e o "Fu sobre o parque imperial" (上林賦, Shànglín fù) compunham uma única obra, depois dividida em duas partes no Wen Xuan. Também conhecida como "Fu sobre a excursão de caça do Filho do Céu" (天子遊獵賦), a obra celebra o parque de caça do imperador, a oeste de Chang'an, e emprega numerosos termos raros. As notas de Guo Pu permitem compreender grande parte desse vocabulário. As listas de minerais, pedras, plantas e animais mostram a extensão dessas enumerações:
| Original chinês | Tradução portuguesa |
|---|---|
其土則 |
No solo: |
Os grandes fu combinavam prazer poético, entretenimento e advertência moral. Depois de Wu, criticou-se a atenção à grandiloquência em prejuízo da moderação. Yang Xiong, inicialmente admirador e imitador de Sima, passou a rejeitar o grande fu. Para Yang, a função era "advertir indiretamente", fèng (諷), mas a retórica extensa e o vocabulário difícil desviavam a atenção da moral para a beleza. O Clássico da Poesia fornecia padrões, enquanto os Han "levavam ao excesso". Seus próprios fu insistiam na observância de valores morais.
| Original chinês | Tradução portuguesa |
|---|---|
皇家赫而天居兮,萬方徂而並集。 |
A casa augusta resplandece, como se morasse no Céu; |
Zhang Heng e Cai Yong escreveram extensamente no gênero. Zhang foi o primeiro autor de fu a produzir grande número de peças breves, e seu primeiro exemplo conhecido, "Fu sobre as fontes termais" (溫泉賦, Wēnquán fù), trata das fontes do monte Li, onde depois ficaria o Palácio Huaqing dos Tang. No "Fu sobre as duas metrópoles" (二京賦, Èr jīng fù), para o qual reuniu material por mais de dez anos, comparou Luoyang e Chang'an em resposta à obra de Ban Gu. A obra satiriza os Han Ocidentais, inclusive Wu, e retrata detalhadamente as capitais e seus divertimentos.
Cai Yong também se dedicava à matemática, astronomia e música. Convocado a Luoyang em 159 para tocar guqin, alegou doença antes de chegar e voltou para casa. No "Fu que relata uma viagem" (述行賦, Shù xíng fù), evocou governantes e funcionários traiçoeiros da história para censurar os eunucos da capital por crimes semelhantes.
Autores do fim do século II e início do III abordaram a desordem e a destruição da queda Han. Wang Can, refugiado em Jingzhou após a morte de Dong Zhuo em 192, escreveu "Fu sobre subir à torre" (登樓賦, Dènglóu fù), no qual contempla o norte, em direção à terra natal, a partir da região de Jiangling. Em "Fu sobre o papagaio" (鸚鵡賦, Yīngwǔ fù), Mi Heng usa a ave enjaulada para expressar sua própria frustração e os perigos da fala indiscreta. No fim dos Han e no início dos Três Reinos, Cao Cao e seus filhos Cao Pi e Cao Zhi mantiveram uma corte literária da qual restaram vários fu.
| Original chinês | Tradução portuguesa |
|---|---|
惟西域之靈鳥兮,挺自然之奇姿。 |
Uma ave maravilhosa das Regiões Ocidentais |
Nos séculos das Seis Dinastias, o fu continuou a ser escrito ao lado da poesia shi. Havia peças líricas mais breves e composições sobre objetos, que permaneceram em uso depois dos Han. Nos Jin Ocidentais, os fu sobre objetos eram mais frequentes que os grandes elogios descritivos, e Fu Xuan e Fu Xian figuram entre seus autores mais prolíficos.
Xie Lingyun, contemporâneo mais novo de Tao Yuanming, empregava linguagem difícil, alusões densas e paralelismos. Seu "Fu sobre morar nas montanhas" (山居賦, Shān jū fù) retoma o parque imperial de Sima para retratar sua propriedade e inclui anotações do próprio autor.
Sob os Liang, de 502 a 557, os fu breves e líricos incorporaram versos de cinco e sete sílabas. O "Fu sobre morar nos subúrbios" (郊居賦, Jiāo jū fù), de Shen Yue, ainda seguia Xie Lingyun. O "Fu sobre colher lótus" (採蓮賦, Cǎi lián fù), de Xiao Gang, futuro imperador Jianwen, apresentava o sul como terra de prazer sensual. A colheita, geralmente realizada por mulheres, tornou-se tema frequente de poesia e fu no fim do século V.
O "Fu de lamento pelo sul" (哀江南賦, Āi Jiāngnán fù), de Yu Xin, figura entre os últimos grandes fu das Dinastias do Sul. Como Yan Zhitui, Yu Xin nasceu no sul e foi obrigado a viver no norte após a derrota meridional. Na obra, relaciona sua experiência à perda da cultura e das formas de vida do sul.
Nos Tang, de 618 a 907, o "fu regulado", lǜfù (律賦), impôs regras estritas de forma, expressão e rima, com exemplos já na segunda metade do século VII. A atenção aos tons na poesia se desenvolvera anteriormente, sob possível influência da métrica sânscrita conhecida pelas traduções budistas. Esse fu era exigido nos exames imperiais. Os autores empregavam temas morais e cenas da Antiguidade. O "fu paralelo", piánfù (駢賦), era uma forma de retórica elaborada em prosa paralela.
Provavelmente em 826, Du Mu escreveu o "Fu sobre o Palácio Epang" (阿房宫賦), precursor do "fu em prosa", wénfù (文賦), de rima livre. Essa forma ganhou destaque nos Song, de 960 a 1279. Nos séculos IX e X, a composição de fu continuava importante nos exames e contava com tratados de ensino, como o Fupu.
Entre 130 e 100 a.C., as campanhas de Wu ampliaram o território na Ásia Central, norte do Vietnã e Coreia, trazendo plantas, animais e raridades estrangeiras a Chang'an. Funcionários e poetas compunham os yǒngwù fù (詠物賦), longas exposições sobre esses objetos, que se tornaram um ramo do gênero e abrangiam instrumentos, fenômenos e bens de toda espécie.
| Original chinês | Tradução portuguesa |
|---|---|
若迺玄律窮,嚴氣升。 |
Quando a estação escura chega ao auge e o ar severo se ergue, |
Por volta de 101, Ban Zhao escreveu o "Fu sobre a grande ave" (大雀賦, Dà què fù), provavelmente um avestruz da Pártia levado à corte por seu irmão Ban Chao, vindo da Ásia Central. Ma Rong escreveu sobre os jogos chupu (樗蒲), cuja invenção era atribuída a Lao Zi após partir para o oeste, e weiqi (圍棋), um dos primeiros retratos conhecidos do Go. Wang Yi, autor do comentário que chegou à versão recebida dos Cantos de Chu, escreveu peças sobre objetos no início do século II, entre elas o "Fu sobre a lichia" (荔枝賦), a primeira exposição poética conhecida da fruta.
Na corte dos Cao, escritores como os Sete Mestres de Jian'an compunham versões de um mesmo tema. Cao Pi possuía rédeas ornamentadas com ágata e pediu a Chen Lin e Wang Can que compusessem com ele o "Fu sobre a rédea de ágata" (瑪瑙勒賦, Mǎnǎo lè fù). Outro exemplo é o "Fu sobre a tigela de juqu" (車渠椀賦, Jūqú wǎn fù), cujo material Cao Pi descreveu como uma espécie de jade das Regiões Ocidentais; sua identificação como pedra preciosa ou concha permanece incerta.
O "Fu sobre massas" (餅賦, Bǐng fù), de Shu Xi (束皙), dos Jin Ocidentais, enumera macarrão, pães cozidos no vapor e bolinhos. Fu Xian, também dos Jin Ocidentais, escreveu um "Fu sobre o papel" (紙賦).
O estudioso que não encontra reconhecimento em seu tempo, inclusive o ministro leal exilado, é um tema recorrente do fu. O Li Sao, atribuído a Qu Yuan nos Cantos de Chu, é um antecedente da forma e da crítica política poética. Jia Yi retomou a experiência do exílio ao lamentar Qu Yuan, relacionando sua própria condição à do poeta de Chu.
Hellmut Wilhelm interpretou o fu Han como uma forma literária particularmente voltada à política, centrada na posição do estudioso no governo e em sua relação com o soberano. A censura podia assumir forma indireta, por alusões e expressões ambíguas que respeitavam exteriormente as convenções de deferência aos superiores. A eficácia desse recurso dependia de o público reconhecer as alusões e as convenções literárias.
O fu é a primeira categoria principal do Wen Xuan, antologia dos Liang compilada no século VI. Reúne obras desde os Han e tornou-se uma base tradicional de estudo do gênero. Outra antologia importante do período, Novas canções do terraço de jade, concentra-se na poesia shi, sobretudo em versos de cinco sílabas. Sob o imperador Kangxi, Chen Yuanlong e outros compilaram em 1706 a Coletânea de fu através das eras (歷代賦彙, Lìdài fù huì), que reúne mais de 4 mil peças de períodos anteriores aos Qing.