| Nicolau Maquiavel | |
|---|---|
| Nome completo | Niccolò di Bernardo dei Machiavelli |
| Nascimento | 3 de maio de 1469 Florença, República de Florença |
| Morte | 21 de junho de 1527 Florença, República de Florença |
| Obra filosófica | |
| Era | Renascimento italiano |
| Principais interesses | Ética, política, história |
| Ideias notáveis | Fortuna e virtù, conservação do poder, realismo clássico, razão de Estado, republicanismo |
| Trabalhos notáveis | O Príncipe Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio A Arte da Guerra |
| Influências | Aristóteles, Xenofonte, Tucídides, Tito Lívio, Plutarco, Tácito, César Bórgia, Lucrécio |
| Influenciados | A filosofia política posterior |
| Assinatura | |
Nicolau Maquiavel (em italiano, Niccolò di Bernardo dei Machiavelli; Florença, 3 de maio de 1469 – 21 de junho de 1527) foi um humanista florentino do Renascimento italiano.
Escreveu sobre política, história e guerra, além de poesia e teatro. Durante catorze anos, trabalhou para a República de Florença e cumpriu missões diplomáticas junto ao papado e à corte francesa. A experiência lhe permitiu observar de perto as disputas pelo poder. Ao lado de Tucídides, é situado entre os precursores do realismo nas relações internacionais. Suas obras mais conhecidas são O Príncipe e os Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio.
Seus escritos tiveram influência sobre pensadores do Estado como Jean Bodin, Thomas Hobbes e John Locke, além de renovar o interesse pela conscrição, presente na República Romana. As interpretações de Maquiavel divergem sobretudo na relação entre política e moral. Para Leo Strauss, essa separação marca a passagem da filosofia política clássica à moderna. Seguindo o huguenote Innocent Gentillet, Strauss leu Maquiavel como um "mestre do mal", numa interpretação do maquiavelismo ligada à fraude, ao cinismo e ao imoralismo. Benedetto Croce, por sua vez, viu nele um realista que distinguia os fatos políticos dos valores morais. Nessa leitura, a ação política enfrenta o conflito entre a ética da responsabilidade e a ética da convicção formulado por Max Weber. Maquiavel também foi visto como precursor de Francis Bacon, do empirismo e de uma ciência baseada na observação dos fatos.
Em sua obra, a política envolve mudanças, conflitos e rupturas violentas. O uso da força é uma possibilidade, mas convencer os outros também exige retórica. Aos governantes cabe exercer a virtù, conceito que reúne habilidade, iniciativa e percepção das oportunidades para enfrentar as circunstâncias adversas. Alguns intérpretes, como Friedrich Nietzsche, ressaltam o caráter aristocrático do governante descrito por Maquiavel. Outros observam que, numa república aberta à participação política, muitas pessoas podem desenvolver a virtù necessária para enfrentar esses desafios.
Nos Discursos, Maquiavel expõe suas ideias republicanas, que influenciaram as revoluções inglesas do século XVII e correntes republicanas posteriores à Revolução Americana e à Revolução Francesa. Jean-Jacques Rousseau leu O Príncipe como uma sátira da tirania, não como um modelo de governo. A interpretação republicana voltou a ganhar força no fim do século XX com os estudos de J. G. A. Pocock e Quentin Skinner. Outros autores relacionaram o pensamento de Maquiavel às guerras mundiais e à ascensão dos totalitarismos. Charles Benoist atribuiu a diversidade dessas leituras à distância entre o pensamento de Maquiavel, o de seus discípulos, o de seus adversários e o de quem nunca o leu.

Nicolau Maquiavel nasceu em 3 de maio de 1469, em Florença, numa família antiga, mas sem fortuna nem posição política. Era o terceiro filho de Bernardo Machiavelli, jurista, e Bartolomea di Stefano Nelli, de outra família florentina. Embora a família passasse por dificuldades financeiras, recebeu uma formação humanista e tornou-se um leitor assíduo. Não há prova de que lesse grego antigo; conheceu em versões latinas obras de Aristóteles, Platão, Plutarco, Políbio e Tucídides. Leu também Cícero, Sêneca, Júlio César, Tito Lívio, Tácito, Salústio, Ovídio, Virgílio, Plauto e Terêncio. Copiou o De rerum natura de Lucrécio em 1497, obra que marcou sua maneira de pensar a religião.

Pouco se sabe de sua vida entre 1489 e 1498. Nesse intervalo ocorreram a Primeira Guerra Italiana, a separação de Pisa do domínio florentino em 1494 e a instalação, em Florença, de um governo teocrático sob Girolamo Savonarola. Pisa havia servido até então como porto de Florença. Uma carta sua a Ricciardo Becchi, de 9 de março de 1498, revela oposição a Savonarola antes de Maquiavel ingressar na chancelaria.
Maquiavel começou a estudar gramática latina com o mestre Matteo em 6 de maio de 1476. Estudou o donatello, uma versão abreviada da gramática de Élio Donato, autor latino do século IV.

Em 19 de junho de 1498, o Grande Conselho nomeou Maquiavel chefe da Segunda Chancelaria de Florença. Em 14 de julho, ele passou a exercer também a secretaria dos Dez da Liberdade e da Paz. Em 24 de março de 1499, uma de suas primeiras missões consistiu em convencer um condottiero a aceitar a remuneração acertada. Em maio, escreveu o Discurso sobre os assuntos de Pisa. Entre 12 e 24 de julho, foi enviado a Forlì para negociar a renovação do contrato militar de Ottaviano Riario, filho de Catarina Sforza, senhora da cidade. Primeiro cuidou dos territórios florentinos na Toscana, depois trabalhou na repartição de assuntos externos e passou a atuar como enviado especial. Nunca recebeu o título de embaixador, reservado aos membros das famílias de maior projeção. Cabiam-lhe missões que exigiam discrição para colher informações e entender as intenções dos governantes com quem tratava. Em 1500, viajou à França e conheceu o cardeal Georges d'Amboise, ministro de Luís XII de França. Quando o cardeal afirmou que os italianos nada entendiam de guerra, Maquiavel respondeu que os franceses nada entendiam do Estado, pois, se entendessem, não teriam permitido que a Igreja adquirisse tanto poder. Entre junho e julho, participou do cerco de Pisa e precisou lidar com o pagamento dos mercenários cedidos pelo rei francês. Da segunda metade de julho de 1500 a janeiro de 1501, esteve na corte da França para defender a posição florentina nesse assunto e negociar os pagamentos futuros.

Em 1501, casou-se com Marietta Corsini. O casal teve ao menos sete filhos conhecidos: Primerana, Bernardo, Ludovico, Guido, Piero, Baccina (Bartolomea) e Totto. Primerana morreu ainda criança; quatro filhos e Baccina chegaram à idade adulta. Em 2 de fevereiro daquele ano, Maquiavel foi a Pistoia, então submetida a Florença, para tentar apaziguar duas facções rivais. Voltou à cidade em julho, em outubro e no ano seguinte. Em 18 de agosto, também foi enviado a Siena para contrariar as manobras de César Bórgia e Pandolfo Petrucci, senhor de Siena. Em junho de 1502, Maquiavel acompanhou Francesco Soderini numa missão a César Bórgia, duque de Valentinois, então em expansão pela Itália central. Em 26 de junho, voltou a Florença para informar o governo das exigências do duque. A eleição de Piero Soderini como gonfaloneiro de Florença, em setembro, fortaleceu a posição de Maquiavel. Numa segunda missão junto a Bórgia, entre outubro de 1502 e janeiro de 1503, observou sua combinação de audácia e prudência, o emprego calculado da crueldade e da fraude, a confiança em si mesmo, a recusa das meias medidas, o uso de tropas locais e a administração dos territórios conquistados. Mais tarde, em O Príncipe, recomendaria seu modo de conquistar províncias, formar um Estado a partir de territórios dispersos e lidar com aliados incertos e falsos amigos.
Entre os planos para conquistar Pisa, Leonardo da Vinci propôs desviar o curso do rio Arno e cortar o acesso da cidade ao mar, com o apoio de Maquiavel. O projeto, concebido por volta de 1503–1504, não foi concluído.

Entre 1505 e 1506, depois que os mercenários contratados para recuperar Pisa se mostraram caros e pouco eficazes, o governo encarregou Maquiavel de levantar tropas por conscrição. Em 1506, ele conheceu o papa Júlio II. No ano seguinte, Soderini quis enviá-lo para negociar com o imperador Maximiliano I, mas os aristocratas impediram a nomeação por considerá-lo favorável à França. Maquiavel ficou decepcionado com Soderini. Florença reconquistou Pisa em junho de 1509, em parte com o exército que ele havia organizado. Seu êxito veio acompanhado de crescente isolamento na chancelaria. Biagio Buonaccorsi avisou-o em mensagem cifrada que poucas pessoas ali queriam ajudá-lo. Buonaccorsi e Agostino Vespucci, porém, continuaram seus amigos.
Em 1511, Júlio II promoveu a formação da Liga Santa contra a França, em oposição à política de Soderini e de Florença, aliados dos franceses. Com a derrota destes em 1512, o papa permitiu que tropas espanholas recolocassem os Médici no poder. A república caiu, as tropas de Maquiavel foram derrotadas em Prato e Soderini partiu para o exílio. Maquiavel tentou manter seu cargo numa carta a Juliano de Médici, em que se apresentava como defensor dos assuntos públicos e lhe pedia moderação na restituição de bens confiscados. Não conseguiu. No início de novembro de 1512, foi afastado da secretaria da chancelaria e obrigado a prestar contas de sua gestão e depositar uma caução elevada.
Em janeiro de 1513, Maquiavel foi suspeito de participar de uma conspiração organizada por Pietro Paolo Boscoli. Preso em fevereiro, foi encarcerado e torturado. Recuperou a liberdade em março, graças à anistia concedida quando o cardeal Giovanni de Médici assumiu o papado como Leão X. Retirou-se para sua propriedade em Sant'Andrea in Percussina, localidade de San Casciano in Val di Pesa. No ano seguinte, interrompeu a redação dos Discursos para trabalhar em O Príncipe. Nas cartas enviadas a Francesco Vettori por volta de 1513, aparecem o desalento com a situação italiana e as primeiras formulações de sua ideia de um príncipe dotado de virtù, capaz de unir os italianos. Também se percebe sua convicção de que a história e a política podem ser compreendidas. Dedicou O Príncipe a Lourenço II de Médici na esperança de voltar à política florentina. Na dedicatória, ofereceu-lhe o que julgava possuir de mais valioso, o conhecimento das ações dos grandes homens adquirido pela experiência e pela leitura dos antigos:
Quem deseja conquistar a simpatia de um príncipe costuma apresentar-lhe aquilo que tem de mais valioso. [...] Desejando, por minha parte, oferecer a Vossa Magnificência uma prova da minha devoção, não encontrei entre meus bens nada que mais estime do que o conhecimento das ações dos grandes homens, adquirido pela longa experiência das coisas modernas e pela leitura constante das antigas.
Durante o afastamento, escreveu outras duas obras nascidas das conversas com os amigos nos jardins da família Rucellai, os Orti Oricellari: os Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio e A Arte da Guerra. Em O Príncipe, apresentou-se como conselheiro; nos Discursos, como alguém que ensina aos mais jovens. Recorreu com frequência à obra de Tito Lívio para interpretar acontecimentos políticos.
Também escreveu para divertir esse círculo de amigos. Por volta de 1519 ou 1520, compôs o conto Belfagor arcidiavolo, supostamente retirado de uma antiga crônica de Florença. Na história, Plutão ouve, no inferno, tantos homens culparem as esposas por seus pecados que manda o demônio Belfagor à Terra para casar-se e verificar a acusação. Foi o único conto de Maquiavel e só saiu em 1545.

Sua primeira peça foi L'Andrienne, tradução fiel de Andria, comédia de Terêncio que teve pouca repercussão. A Mandrágora, em cinco atos, recebeu acolhida melhor. Nela, o jovem Callimaco tenta seduzir Lucrezia, casada com o idoso Nicia, que lamenta não ter filhos. Callimaco se apresenta como médico e promete resolver o problema com uma poção de mandrágora. A peça, de tom anticlerical, foi escrita provavelmente em 1519 ou no início de 1520. A suposta estreia nos festejos do casamento de Lourenço II de Médici com Madalena de La Tour de Auvérnia, em 1518, não tem comprovação; os primeiros indícios de uma encenação datam de 1520.
Em 1517, Maquiavel escreveu o poema alegórico L'asino d'oro, em que transparece sua tristeza, e outros poemas e sátiras marcados pela indignação, pelo desejo amoroso e pelas queixas sobre a própria sorte. Numa carta de 25 de janeiro de 1518 a Giovanni Vernacci, lamentou que o destino o tivesse reduzido a uma condição em que pouco podia fazer por si e ainda menos pelos outros.

A pedido do cardeal Giulio de Médici, futuro Clemente VII, Maquiavel começou em 1520 as Histórias florentinas, apresentadas a ele em 1525. Escreveu também o Discurso sobre a reforma do Estado de Florença, encomendado em segredo por Leão X. Em 1521, Florença o enviou ao capítulo geral dos franciscanos em Carpi, e a corporação dos trabalhadores da lã lhe pediu que encontrasse um pregador para o ano seguinte. Seu amigo Francesco Guicciardini comentou ironicamente essas incumbências, pois conhecia suas opiniões religiosas. Mais tarde, Guicciardini escreveria as Considerazioni sui Discorsi del Machiavelli. Em 1525, os amigos brincavam com seu relacionamento com Barbara Salutati, cantora de A Mandrágora. A relação inspirou Clizia, comédia baseada na Casina de Plauto, na qual o velho Nicomaco se apaixona pela jovem Clizia. A peça teve sucesso para além da Toscana e da Lombardia. A Mandrágora voltou aos palcos em Veneza, em 1526, com acolhida entusiasmada.
A partir de 1525, Maquiavel pressentiu que a península Itálica se tornaria campo de batalha entre Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico e Francisco I de França. Florença lhe pediu, em 1526, conselhos para reforçar suas fortificações e organizar um exército. Em 1527, tropas imperiais mal pagas avançaram pela península Itálica em direção a Roma. Maquiavel voltou a trabalhar com Guicciardini, então comandante das forças papais, na tentativa de organizar a defesa. O exército imperial chegou primeiro e realizou o saque de Roma em 6 de maio. Uma revolta contra os Médici levou à instalação de outra república florentina. Poucas semanas depois, Maquiavel morreu em Florença, após um período de doença, em 21 de junho de 1527.
Foi sepultado na Basílica de Santa Cruz, no jazigo da família Machiavelli. No fim do século XVIII, por iniciativa de lorde Nassau Clavering, ergueu-se ali um monumento em sua homenagem, próximo ao túmulo de Michelangelo. Sobre o monumento está uma alegoria de Clio, musa da história, e a inscrição latina Tanto nomini nullum par elogium, "Nenhum elogio está à altura de um nome tão grande".

As circunstâncias em que Maquiavel escreveu O Príncipe são conhecidas por uma carta enviada a Francesco Vettori em 10 de dezembro de 1513. Ele conta que reuniu suas reflexões sobre os autores antigos num pequeno tratado chamado De principatibus, dedicado ao que são os principados, às suas espécies e à maneira de conquistá-los, conservá-los e perdê-los. O título inicial era, portanto, Dos principados. Para Alexis-François Artaud de Montor, essa escolha situa a obra num enquadramento diferente daquele sugerido por O Príncipe.
O livro tem 26 capítulos curtos. Nos onze primeiros, Maquiavel examina os principais tipos de principado e as formas de governá-los e conservá-los. Os três seguintes tratam das forças militares na defesa e no ataque. Nove capítulos discutem as relações do príncipe com seus auxiliares e súditos e as qualidades de que necessita. Os três últimos abordam os infortúnios da Itália, a necessidade de libertá-la dos estrangeiros e a relação entre virtù e fortuna.

Augustin Renaudet chamou O Príncipe de "breviário do absolutismo", por vê-lo como uma análise dos meios pelos quais um homem ambicioso pode chegar ao poder. Jacob Burckhardt sustentou uma leitura próxima. Wayne A. Rebhorn, em sentido diverso, compara o príncipe a um arquiteto e a um construtor que planejam e edificam uma cidade ou um Estado. Maquiavel emprega "nascer" 27 vezes e "crescer" e "aumentar" seis vezes cada. Duas passagens dizem que o príncipe cria o Estado ao introduzir forma na matéria, mas Rebhorn observa que esse crescimento, ao contrário do pensamento aristotélico e escolástico, diz respeito sobretudo aos fundamentos racionais do Estado, não a um processo orgânico. Sua leitura aproxima o príncipe de Eneias, herói da Eneida de Virgílio, sempre ocupado em fundar ou conservar seu Estado. Nessa tradição épica, a virtù reúne coragem, astúcia, talento e força de caráter.
Para Leo Strauss, o assunto principal do livro é o fundador de um Estado inteiramente novo. Em sua interpretação, Maquiavel inverte a relação clássica entre justiça e poder: a injustiça estaria na origem da justiça, a ruptura com a legalidade na origem da legitimidade e a tirania na origem da liberdade. Strauss dá especial atenção ao capítulo final, em que Maquiavel pede a Lourenço de Médici que liberte a Itália, e lê nessa passagem o anúncio de um novo ensinamento político, comparando o autor a um novo Moisés, embora desarmado.

Embora O Príncipe seja sua obra mais lida, é nos Discursos que Maquiavel expõe mais claramente sua preferência pelo governo republicano. Também dedica atenção à monarquia francesa, que julga bem ordenada porque suas leis e parlamentos limitam o rei. A população vive em segurança, mas não em liberdade política: o rei desarma os súditos por desconfiar deles, emprega mercenários estrangeiros, mantém o povo afastado do governo e a nobreza dependente da Coroa. Por isso, mesmo uma "boa monarquia" como a francesa não se compara à República Romana, na qual povo e nobres participavam da política.

Strauss considera menos evidente a organização dos Discursos que a de O Príncipe. Para ele, Maquiavel procura recuperar valores antigos que o cristianismo passou a condenar como vícios. No primeiro livro, estabelece a autoridade de Roma e de Tito Lívio. No segundo, contrapõe a humildade cristã à grandeza de espírito valorizada pela religião antiga. No terceiro, sustenta que as repúblicas precisam retornar periodicamente aos seus princípios para durar. Os franciscanos e dominicanos teriam feito algo semelhante na Igreja, sem modificar sua hierarquia. Strauss entende que, para Maquiavel, tal retorno exigiria recuperar o temor presente na fundação das instituições. Pierre Manent também associa a fundação da nova ordem política a uma forma de terror.
Geerken, seguindo uma tradição interpretativa anterior, não vê grande diferença entre os dois livros. J. G. A. Pocock, Hans Baron e Quentin Skinner reconhecem temas comuns, como a tensão entre virtù e fortuna e o emprego da força diante da adversidade, mas distinguem os objetivos das obras. Para Skinner, O Príncipe privilegia a segurança necessária à conservação do Estado, enquanto os Discursos privilegiam a liberdade política. Ele rejeita a leitura de Ernst Cassirer que reduz Maquiavel a um especialista técnico da política e vê nos Discursos uma defesa persistente do governo popular. O primeiro livro narra o surgimento da liberdade republicana; o segundo, o apoio que o poder militar lhe deu; o terceiro, a ação de cidadãos livres na expansão romana.

Publicado em agosto de 1521, A Arte da Guerra nasceu em parte da experiência de Maquiavel com as forças militares de Florença. Depois que Pisa, importante porto florentino, se separou da cidade durante a Primeira Guerra Italiana, o gonfaloneiro Piero Soderini tentou recuperá-la. Os condottieros e seus mercenários custaram caro e não alcançaram o objetivo. Maquiavel recebeu então a incumbência de recrutar homens nas áreas rurais próximas. Embora os treinos ocorressem apenas nos domingos e dias de folga, organizou uma força de cerca de 2.000 homens que participou da reconquista de Pisa, cuja rendição foi assinada em 4 de junho de 1509. As mesmas tropas seriam derrotadas em 1512 pelas forças imperiais que restauraram o governo dos Médici.
Na Itália daquela época circulavam livros sobre recrutamento e organização militar. Uma coletânea de autores militares antigos saiu em 1487, e a Arte da Guerra de Vegécio e os Estratagemas de Frontino foram republicados em 1496. A invasão francesa de 1494, apoiada por infantaria suíça e gascã e por forte artilharia, havia mudado a condução dos combates: as campanhas dos condottieri, com poucas baixas, pertenciam ao passado. Os suíços empregavam uma formação próxima da falange grega. Em 1503, na Batalha de Cerignola, a infantaria espanhola superou essa tática com métodos associados às legiões romanas.
O tratado apresenta um diálogo entre três jovens aristocratas, o condottiero Fabrizio Colonna, participante da batalha de Cerignola, e o anfitrião Cosimo Rucellai, a quem o livro é dedicado. A conversa ocorre nos jardins Rucellai, os Orti Oricellari. Os jovens, simpatizantes da república, seriam exilados depois de conspirar contra os Médici. Nos sete livros, Maquiavel discute a disposição dos soldados nas companhias, as manobras e outros detalhes da organização militar. Jean-Yves Boriaud entende que ele desejava mostrar como o sistema italiano poderia recuperar sua eficácia por meio do estudo da Antiguidade.
Ao contrário de Erasmo, que via a guerra como um mal em si, Maquiavel se concentra na eficácia militar. Em O Príncipe, afirma que o governante deve dedicar sua arte à organização e à disciplina da guerra. A Arte da Guerra logo passou a ser lida por Michel de Montaigne e pelo marechal de Saxe, que a citou em suas Rêveries sur l'art de la guerre. Maquiavel também ajudou a difundir a ideia da conscrição, adotada em outros países europeus depois da Revolução Francesa.

Em 8 de novembro de 1520, o cardeal Giulio de Médici encarregou Maquiavel de escrever uma história de Florença. Trabalhou no livro nos anos seguintes e o apresentou ao papa em junho de 1525. A dedicatória dá a entender que ainda pretendia ampliá-lo. A narrativa vai das origens da cidade à morte de Lourenço de Médici, em 1492. Para Maquiavel, a investigação histórica tinha fins práticos e teóricos. As condições intelectuais, culturais, econômicas e sociais interessavam-lhe por seus efeitos políticos. Ao contrário de Leonardo Bruni e Poggio Bracciolini, autores anteriores de histórias florentinas, via nas divisões da cidade um sinal de energia política e os censurava por não lhes dar atenção. Na sua leitura, eles atribuíam peso excessivo à moral e deixavam de lado a ambição humana e o desejo de alcançar a posteridade.
O primeiro livro trata da história da península Itálica após a queda do Império Romano do Ocidente; o segundo se volta às origens de Florença. No terceiro, Maquiavel afirma que a exclusão da nobreza fez Florença perder o conhecimento das armas e a coragem política. No primeiro capítulo do quarto livro, acusa plebeus e nobres de corrupção: aqueles, pelo abuso da liberdade; estes, pela disposição de submeter os outros. Em sua interpretação, Florença havia perdido a força e se tornado corrupta no fim do século XIV.
As leituras do pensamento de Maquiavel divergem bastante. Raymond Aron o chamou de "esfinge": um diplomata florentino e patriota italiano cuja prosa parece clara em cada frase, mas deixa em aberto suas intenções quando tomada como um todo.
Para Leo Strauss, Maquiavel rompeu com a filosofia política de Platão e Aristóteles, voltada ao cultivo da virtude. Nessa tradição, a moral era entendida como uma força constitutiva da alma humana. Maquiavel passou a tratá-la separadamente da política. Strauss atribui a Thomas Hobbes, que atenuou a radicalidade florentina, a fundação propriamente dita da filosofia política moderna. Pierre Manent resumiu a diferença dizendo que Maquiavel teorizou a ação política, e Hobbes, a instituição. A própria classificação de Maquiavel como filósofo é discutida.

Em O Príncipe, Maquiavel contesta a ideia, comum em sua época, de que a legitimidade do governante decorre de suas qualidades morais. Para ele, não se decide apenas por critérios morais se o exercício do poder é legítimo. Maurizio Viroli lê as passagens mais controversas do livro como respostas diretas à teoria política de Cícero. Onde o autor romano condenava a fraude e a força como modos indignos de agir, Maquiavel admitia que o governante precisaria recorrer tanto a meios humanos quanto a meios próprios dos animais. Cícero preferia o amor ao medo para conquistar apoio; Maquiavel julgava mais seguro ser temido que amado. E, diante da condenação ciceroniana da crueldade, distinguia no capítulo VIII de O Príncipe os atos cometidos de uma só vez por necessidade de segurança daqueles que prosseguem e prejudicam os súditos.
Viroli não vê nisso uma oposição irrestrita a Cícero: os princípios do romano valeriam salvo quando a sobrevivência do Estado estivesse em jogo. Cary Nederman ressalta que, para Maquiavel, a posse efetiva do poder pesa mais que uma alegação abstrata de direito a governar. Sua análise se concentra em conservar o Estado, permanecer no governo e obter obediência. Embora considere boas leis e forças armadas sólidas os fundamentos de uma ordem política eficaz, dá primazia à força quando ela entra em conflito com a lei.
Strauss entendeu esse pensamento como uma política regida pela conveniência, disposta a empregar meios leais ou desleais, que preparou a mudança mais tarde realizada por Hobbes. Para ele, em ambos os autores o temor precede o amor como fundamento da ordem. Por isso, comparou Maquiavel a um Moisés portador de um novo decálogo político cujo resultado seria desastroso. Manent também criticou o lugar da violência e da crueldade na teoria maquiaveliana: em sua leitura, ela nasce de uma visão do indivíduo desprovida de princípios universais capazes de orientar a ação diante de acontecimentos imprevisíveis. Maurice Merleau-Ponty, em outra direção, achou Maquiavel mais atento aos desejos reais das pessoas do que os moralistas preocupados sobretudo em preservar a própria boa consciência.

Maquiavel analisa os meios de exercer o poder sem partir das virtudes pessoais de quem governa. A leitura de O Príncipe ajudou a transformar "maquiavélico" em sinônimo de fraude, despotismo e manipulação política. Strauss seguiu a tradição que o chama de "mestre do mal": o autor aconselharia governantes a deixar em segundo plano a justiça, a compaixão e o amor do povo, recorrendo à crueldade, à violência, ao medo e ao engano. Strauss também opôs essa posição aos ideais políticos dos Estados Unidos.
Francis Bacon já observava, em 1605, que Maquiavel dizia abertamente o que os governantes fazem, em vez de lhes prescrever o que deveriam fazer. Benedetto Croce o interpretou como realista ou pragmático, para quem os valores morais têm alcance limitado nas decisões dos governantes. Ernst Cassirer comparou seu modo de distinguir fatos políticos de juízos morais ao trabalho de Galileu nas ciências naturais.
Ao recusar teorias políticas construídas a partir de situações imaginárias, Maquiavel foi por vezes apresentado como precursor do cientista que formula generalizações com base na experiência e na história. Joshua Kaplan, por exemplo, sustentou que ele separou a política da teologia e da filosofia moral e procurou observar o que os governantes efetivamente faziam.

Henri Baudrillart discordou dessa classificação: para ele, Maquiavel tratou a política como arte de agir, deixando de lado a investigação filosófica dos fundamentos da sociedade e a comparação das leis que mais tarde ocupariam Montesquieu. Raymond Aron também a viu como uma técnica de ação que raciocina em termos de meios e corre o risco de confundi-los com os fins. Para Aron, daí pode resultar uma política excessivamente amoral. Ainda assim, reconheceu o método analítico de Maquiavel e o aproximou de Vilfredo Pareto. Interessou-se sobretudo pelo que o florentino poderia ensinar sobre política externa numa perspectiva próxima do realismo, embora considerasse empobrecida a imagem da vida humana produzida por esse método.
Strauss falou em uma espécie de aristotelismo reduzido: Maquiavel teria pressuposto, sem demonstrar, que uma ciência natural guiada por fins não era possível. Assim, anteciparia a ciência natural do século XVII. Os autores antigos buscavam o caso normal ou médio; Maquiavel e outros modernos examinavam com mais atenção o extremo e a exceção.
Viroli rejeita a ideia de que Maquiavel tenha fundado a ciência política. Ele não reuniu fatos de maneira sistemática como um pesquisador empírico: interpretou palavras, gestos, ações e textos para aconselhar, prever e reconstruir acontecimentos. Tampouco construiu um sistema dedutivo, como Hobbes, ou realizou experiências e generalizações do tipo associado a Galileu. Sua atenção à fortuna também afasta a imagem de um pensador que exclui por completo o sobrenatural.
Para Viroli, a capacidade de interpretar a história e persuadir os leitores pertence à arte da retórica. A política exige eloquência além de força, e os Discursos e O Príncipe podem ser lidos como convites à ação, e não como exposições de verdades científicas ou morais. Isso ajuda a entender a exortação que encerra O Príncipe, dirigida à libertação da Itália, passagem difícil de conciliar com o formato de um tratado científico. Maquiavel retoma, nessa interpretação, a scientia civilis romana, em que deliberar e persuadir são atividades políticas. Insere-se assim numa tradição de retórica política e jurídica que passa por Aristóteles, Cícero e Quintiliano e voltou a ser cultivada nas cidades italianas a partir dos séculos XII e XIII. O chanceler florentino Brunetto Latini, que Dante situou no Inferno, escreveu sobre a utilidade da eloquência nos conflitos políticos.

Para Max Weber, não há ciência inteiramente neutra nas ciências humanas, porque nelas se cruzam juízos sobre os fatos e juízos de valor. Essa distinção atraiu Aron, que não a encontrava na sociologia positivista francesa derivada de Auguste Comte. Os fins últimos de cada pessoa dependem de uma escolha de valores. Na ética da responsabilidade, deve-se prever as consequências dos próprios atos; na ética da convicção, age-se de acordo com a consciência, ainda que a ação possa fracassar. Weber encontrou essa tensão em Maquiavel e lembrou uma passagem das Histórias florentinas na qual um personagem louva os concidadãos por preferirem a grandeza da cidade à salvação da própria alma.
O governante precisa, nessa leitura, decidir entre essas duas exigências éticas. Aron entendia que Weber não via na realpolitik maquiaveliana uma caricatura da responsabilidade, mas uma tentativa de escolher entre extremos. Nesse sentido, "todo político é um pouco maquiavélico".

Em O Príncipe, a palavra stato deixa de significar apenas "condição" ou "posição" e passa a designar a aquisição e o exercício do poder coercitivo. Segundo Maurizio Viroli, na época de Maquiavel o termo evocava tanto o poder de um homem sobre a cidade quanto o conflito entre o interesse do Estado, de um lado, e a ética cristã e o direito internacional, de outro. Para Friedrich Meinecke, Maquiavel foi o primeiro a formular o conceito moderno de Estado no sentido empregado por Max Weber: um conjunto de regras impessoais que assegura o monopólio da autoridade sobre um território. Mansfield (1996), por sua vez, sustenta que o termo ainda guardava o sentido de dominium, ou domínio privado, sem o caráter impessoal e mecânico da concepção moderna de Estado. Para os Médici, de fato, "Estado" designava o poder de uma família ou de um homem sobre as instituições da cidade. A novidade em Maquiavel está na insistência de que, para um Estado ser verdadeiramente senhor de si, precisa dispor de um exército formado por seus cidadãos ou súditos.
Muitos estudiosos, seguindo Meinecke, consideram que Maquiavel contribuiu para formular a noção de razão de Estado, segundo a qual o bem do Estado deve prevalecer sobre qualquer consideração moral. Viroli observa que, no início da década de 1520, o interesse do Estado já era entendido como equivalente à razão de Estado: o conflito entre esse interesse e as razões morais e jurídicas tornava-se, portanto, um confronto entre duas razões.
Raymond Aron salienta que a concepção do Estado como "instrumento de coerção legítima" se apoia numa antropologia que vê o ser humano como naturalmente amoral. Fichte retomaria de Maquiavel essa ideia e faria dela o princípio de sua filosofia do Estado. Em perspectiva próxima, Jacques Maritain considera que o culto ao Estado iniciado por Hegel e seus discípulos seria uma sublimação metafísica dos princípios de Maquiavel. Mais pessimista, Leo Strauss vê nele um filósofo que parte do "sub-homem", e não do "super-homem", para pensar a condição humana.
Para Maquiavel, a ambição e a avareza conduzem os homens à discórdia e à guerra. No poema Canto dos espíritos felizes, ele descreve um mundo marcado pela crueldade e pela existência penosa dos mortais. Ao longo da vida, Maquiavel viveu períodos de violência, entre eles o saque de Prato em 1512. Numa carta escrita depois da tomada da cidade, relatou que mais de quatro mil pessoas teriam morrido no ataque; o número é o de seu relato, não uma contagem comprovada. Para ele, o ser humano é o animal mais infeliz e desprovido de recursos. Em O Asno de Ouro, um porco lhe diz:
A quantas enfermidades primeiro vos sujeita a natureza, e depois a Fortuna? Quanto bem esta vos promete sem jamais cumprir suas promessas!
Couberam-vos a ambição, a luxúria, o pranto e a avareza, verdadeira chaga desta vida que tanto prezais.
Não há animal de vida tão frágil, que tanto queira viver, nem tão sujeito ao medo e à cólera.
Nesse poema, Maquiavel faz por vezes referências explícitas ao De rerum natura de Lucrécio, obra que havia copiado. Ele vê o ser humano como vítima da natureza e do destino, e não como senhor do universo. Embora considere a natureza humana constante ao longo da história, o que permite generalizações a partir dos relatos históricos, entende que os acontecimentos também dependem de elementos cósmicos e de mudanças cíclicas nos costumes. Escreve:
A virtù dará tranquilidade aos Estados; a tranquilidade gera a indolência, e a indolência consome as nações e as famílias. Depois de atravessarem um período de desordem, as cidades veem renascer a virtù dentro de seus muros. Aquele que governa o universo permite essa ordem de coisas para que nada seja nem possa permanecer estável sob o sol.
O cosmos de Maquiavel compreende o céu, a fortuna, descrita em seu poema homônimo como uma deusa temida até por Júpiter, e Deus, último recurso dos infelizes. Embora Deus seja pouco mencionado em O Príncipe, seu nome aparece cinco vezes na "Exortação para libertar a Itália", passagem voltada para o futuro que encerra a obra.

Na Florença de Lourenço, o Magnífico, e logo depois, o pensamento corrente associava o determinismo astrológico a um idealismo platônico que valorizava os homens prudentes, como Lourenço. Esse quadro, compatível com o providencialismo cristão, ao mesmo tempo atraía e repelia Maquiavel. Em matéria religiosa, Lucrécio exerceu forte influência sobre ele. Virgilio Adriani, professor da Universidade de Florença e seu superior na chancelaria, afirmava que o conhecimento da natureza das coisas, tal como proposto por Lucrécio, dissipava o medo supersticioso. Segundo Adriani, os sacrifícios oferecidos para obter o favor dos deuses mantinham os homens em servidão ao alimentar seus temores. Ele ressaltava ainda a flexibilidade necessária para enfrentar as mudanças da fortuna. Maquiavel partilhava em grande medida dessa leitura, mas se afastava de Lucrécio num ponto decisivo: enquanto o romano queria libertar os homens do medo, ele pretendia utilizá-lo para fins políticos. Nos Discursos (I, 14), mostra como os romanos recorriam à religião e ao medo para obter a aceitação das leis e lhes conferir autoridade. No livro II, capítulo 2, censura o cristianismo por incentivar a passividade, em contraste com a religião romana, que estimulava uma reação vigorosa. Assim, sua política não apenas se separa da religião, como pensava Benedetto Croce; segundo Alison Brown, subordina-a e faz dela um instrumento. Nesse aspecto, segue mais Políbio do que Tito Lívio.
Nos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Maquiavel critica indiretamente o cristianismo ao comparar o apreço dos povos antigos pela liberdade com o de seus contemporâneos. Na passagem, atribui parte dessa diferença à educação religiosa:
Ao considerar por que os povos antigos prezavam mais a liberdade que os de nosso tempo, parece-me que isso se deve à mesma razão pela qual os homens de hoje são menos vigorosos: a diferença entre nossa educação e a dos antigos, tão grande quanto a diferença entre nossa religião e as religiões antigas. Nossa religião, ao mostrar-nos a verdade e o único caminho da salvação, diminuiu aos nossos olhos o valor das honras deste mundo.
Maquiavel, Discursos, II, 2.

Maquiavel retoma o tema em A Arte da Guerra. Perguntado por que a virtude militar se extinguiu, Fabrizio, seu porta-voz, atribui a mudança aos costumes introduzidos pelo cristianismo: já não existiria a mesma necessidade de resistir ao inimigo; a vida dos vencidos seria, em geral, poupada, e uma cidade poderia rebelar-se muitas vezes sem ser destruída. Gérard Colonna d'Istria e Roland Frapet veem nesses ataques dispersos uma "paixão anticristã" cuidadosamente dissimulada que desemboca numa condenação radical do cristianismo. Maquiavel atribui a fragmentação da Itália à política dos papas e critica os exemplos que, a seu ver, davam aos fiéis, e examina o uso da religião por Fernando II de Aragão para sustentar suas campanhas. No capítulo XXI de O Príncipe, Maquiavel chama de "crueldade piedosa" a expulsão dos judeus da Espanha, decretada em 1492 por Fernando e Isabel I de Castela. Segundo Giuseppe Marcocci, sua avaliação do episódio combina a atenção à eficácia política com a censura da crueldade.

Para Maquiavel, o conflito entre a nobreza e o povo favoreceu a liberdade romana ao levar à criação de leis e instituições adequadas. Ele considera o conflito inerente a toda sociedade, pois a oposição entre os grandes e o povo é estrutural. No capítulo IX de O Príncipe, escreve:
Passando ao outro caso, em que um cidadão particular se torna príncipe de sua pátria, não por crimes ou violência intolerável, mas pelo favor de seus concidadãos [...], digo que se chega a essa autoridade suprema pelo favor do povo ou pelo dos grandes. Pois em toda cidade se encontram esses dois humores: o povo deseja não ser comandado nem oprimido pelos grandes, enquanto os grandes desejam comandar e oprimir o povo. Desses apetites diversos resulta, nas cidades, uma destas três situações: principado, liberdade ou licença.
Para Claude Lefort, uma das principais contribuições de Maquiavel é reconhecer a possível fecundidade do antagonismo social. Maurice Merleau-Ponty seguiu em parte essa leitura em Humanismo e terror (1947). Ela lhes permitiu romper com a tese central da ortodoxia marxista segundo a qual o conflito político poderia ser superado definitivamente.
O conflito tira as pessoas de uma tranquilidade que, na visão de Maquiavel, leva à corrupção e à indolência e impede grandes realizações. A questão decisiva é como administrá-lo. Em Roma, as disputas políticas internas se resolviam por muito tempo pela argumentação (disputando); em Florença, pelos combates armados (combattendo). O debate pode produzir novas leis, ao passo que uma luta pelo domínio de uma facção sobre outra não produz o mesmo resultado. Essa análise leva Pierre Manent a chamar democrática a teoria maquiaveliana:
A violência e a crueldade existentes no mundo não nascem da maldade de cada indivíduo, mas da pluralidade de existências separadas. É mantendo os olhos nesse ponto que se pode compreender por que e em que medida a teoria maquiaveliana pode ser chamada de democrática. [...] A política de Maquiavel é democrática, em primeiro lugar, porque extrai as consequências da astúcia objetiva da força. Também o é num segundo sentido: ao contrário da tradição aristocrática, que encontra na cobiça do povo a causa das perturbações internas, Maquiavel a encontraria antes na avidez dos grandes.
A eloquência, porém, não basta para manter o povo unido; por vezes é necessário recorrer à força. Em O Príncipe (VI), Maquiavel observa que todos os profetas armados triunfaram, ao passo que os desarmados fracassaram. Em A Arte da Guerra, censura os príncipes italianos por confiarem demais nas palavras e pouco na força armada. Recomenda a violência apenas quando a necessidade, isto é, a sobrevivência do Estado, a exigir.

Segundo Marina Marietti, "necessidade" é uma das palavras centrais da obra de Maquiavel. São as circunstâncias externas ao indivíduo que condicionam sua ação. Para compreendê-lo, é preciso lembrar que a Itália de seu tempo era palco de confrontos entre potências estrangeiras, que obrigavam as cidades-Estado a adaptar-se a situações mutáveis. A introdução da necessidade na política desloca a ênfase da prudência para a capacidade de inovar conforme as circunstâncias. Rompe também com o pensamento de Tomás de Aquino, para quem as escolhas do governante deveriam ser guiadas apenas pelo livre-arbítrio e pela busca da justiça. Diante das mudanças da fortuna, o que conta é a virtù, que exige discernimento, coragem e firmeza para decidir, qualidades que Maquiavel julgava faltar a Maximiliano da Áustria.
A necessidade também se relaciona com o bem. Na antropologia de Maquiavel, as pessoas se cansam dele (lo stuccarsi del bene), em parte por causa da ociosidade, uma das fontes de corrupção. No prefácio dos Discursos, ele a chama de "preguiça orgulhosa". Afirma ainda que "os homens nunca fazem o bem senão por necessidade", origem da máxima "fazer da necessidade virtude".
Tucídides e Maquiavel, considerados fundadores da tradição do realismo em relações internacionais, dão prioridade à necessidade derivada tanto dos acontecimentos externos quanto de uma natureza humana que consideram estável. Para o historiador grego, porém, permanece uma tensão entre a necessidade amoral e as possibilidades éticas da política, um elemento humano que a transcende. Para Maquiavel, a necessidade externa e o realismo que ela impõe permitem salvar a comunidade.
Para Maquiavel, o tempo é linear: o fracasso pode levar a uma perda irrecuperável da existência política. Por isso, é preciso adaptar-se ao presente. Uma república pode criar instituições capazes de resistir à corrupção causada pela passagem do tempo. "Nada tornará uma república tão firme e segura", escreve, "quanto canalizar pelas leis os humores que a agitam" (Discursos, III, 7).

As mudanças do tempo podem também reconduzir uma instituição a seus princípios e renová-la. Maquiavel vê esse processo na Igreja Católica com Francisco de Assis e Domingos de Gusmão, e na monarquia francesa de sua época. Sobre a religião, escreve:
Essa renovação não é menos necessária às religiões, e a nossa própria fornece a prova. Ela teria desaparecido por completo se São Francisco e São Domingos não a tivessem reconduzido ao seu princípio. [...] As novas ordens que fundaram foram tão poderosas que impediram a religião de se perder pela licenciosidade dos bispos e dos dirigentes da Igreja.
Maquiavel, Discursos, III, 1.
[[Ficheiro:John Acton, 1st Baron Acton by Franz Seraph von Lenbach.jpg|miniatura|direita|upright=0.82|alt=Retrato pintado de Lord Acton.|Séculos depois de Maquiavel, Lord Acton formulou a máxima segundo a qual o poder tende a corromper. Retrato pintado por Franz von Lenbach.
Para Maquiavel, a corrupção política ocorre quando as pessoas deixam de colocar o bem comum da cidade acima dos interesses individuais ou de um grupo social. Segundo Viroli, também é a ausência de virtù: indolência, incapacidade para a atividade política ou falta da força moral e física necessária para resistir à tirania e impedir que os ambiciosos dominem a sociedade. Ela se manifesta quando já não se obedecem às leis nem se teme a Deus; quando um povo, habituado ao domínio prolongado de um príncipe, adquire maneiras servis e perde a capacidade de deliberar; quando as desigualdades de riqueza se tornam excessivas; e quando o poder se torna absoluto.
Crítico da corrupção da Igreja de seu tempo, Maquiavel considera que a ligação entre religião e política acaba por corromper ambas. Uma Igreja livre de corrupção seria mais respeitável, mas, segundo essa interpretação, ainda mais nociva à esfera pública em razão dos próprios preceitos cristãos. Ele opõe o cristianismo à religião da Roma antiga:
Nossa religião situa o bem supremo na humildade, na abjeção e no desprezo das coisas humanas; a outra, ao contrário, o situava na grandeza de espírito, na força do corpo e em todas as qualidades que tornam os homens temíveis. (Discursos, II, 2)
A corrupção destrói a liberdade política e submete os povos à servidão. Sair dessa condição é difícil: requer uma força, uma virtù incomum, que pode trazer a verdadeira glória. A restauração exige novas leis e um governo submetido a elas. Nessa perspectiva, a força se torna legítima quando é o único meio disponível. Para Maquiavel, admirador da República Romana descrita por Tito Lívio, essa recuperação da virtude requer um regime republicano.

Cosme de Médici consolidou o poder da família mediante a distribuição de favores e a formação de uma rede de aliados que lhe garantiu o controle das instituições de Florença. Ele e seus sucessores governaram por influência, sem se expor, alterar a constituição ou reivindicar o título de príncipe. Com o retorno dos Médici em 1512 e o fim da república, os novos governantes passaram a temer os republicanos. Tinham duas opções: usar a força, como defendia Paolo Vettori, ou restabelecer um regime semelhante ao de Cosme, como recomendava Juliano de Médici. Maquiavel julgava que superestimavam a força republicana: as pessoas cuidavam antes de seus interesses imediatos e estavam dispostas a tratar com quem governasse. Aconselhava-lhes, contudo, cautela com os nobres, que poderiam trocar de lado conforme suas ambições.
Para Maquiavel, os Médici já não podiam governar discretamente como Cosme, pois não havia garantia de que aqueles sobre quem procuravam exercer influência os seguiriam. Também recomendava abandonar a política de favores: as amizades compradas, e não conquistadas pela grandeza e nobreza de caráter, não pertencem realmente a quem as compra e falham quando necessárias. Aconselhava-os a recorrer ao temor e a transformar os súditos em partidários leais mediante seu recrutamento para um exército da cidade.
Antes de agir, o governante deve conhecer a situação, interpretar os fatos e confrontar sua análise com a de outros conhecedores da política. Isso é difícil porque os príncipes dissimulam suas intenções e encenam seus atos e palavras. Por isso, Maquiavel contrapõe aquilo que se vê àquilo que se percebe ao examinar as ações:
| Texto italiano | Tradução |
|---|---|
| E gli uomini, in universali, iudicano più agli occhi che alle mani; perché tocca a vedere a ognuno, a sentire a pochi. Ognuno vede quello che tu pari, pochi sentono quello che tu se; e quelli pochi non ardiscano apporsi alla opinione di molti che abbino la maestrà dello stato che li defenda. | "Os homens, em geral, julgam mais com os olhos do que com as mãos, pois todos podem ver, mas poucos podem tocar. Todos veem o que pareces ser, poucos sabem o que és; e esses poucos não ousam contrariar a opinião da maioria, amparada pela autoridade do Estado." |
As paixões também dificultam a interpretação. A ação política comporta, assim, uma parcela de sorte e depende da capacidade de superar circunstâncias adversas.

Há muito se discute como traduzir virtù, palavra recorrente na obra de Maquiavel. A partir da década de 1970, estudiosos como Claude Lefort (1972) e Jean-François Duvernoy (1974) passaram a manter a forma italiana. Em 1981, Quentin Skinner justificou a mesma escolha por considerar impossível encontrar, no inglês contemporâneo, uma palavra ou perífrase que traduzisse satisfatoriamente esse conceito central, derivado do latim virtus. Na tradição acadêmica francesa, conservar o termo também evita as conotações atuais da palavra "virtude", cujo sentido era mais próximo do italiano na época de Maquiavel.
O vocábulo remonta ao latim vir, que designa o homem no sentido mais nobre, aquele de caráter e com papel na vida da cidade. O governante dotado de virtù consegue adaptar-se às situações e, segundo o que a fortuna lhe impõe, passar do bem ao mal. É a qualidade de quem pode proteger o Estado e realizar grandes feitos. Para Duvernoy, a relação entre a psicologia e a virtù é antes de luta que de identificação: esta não se reduz a um traço psicológico.
Helmuth Plessner, contemporâneo de Martin Heidegger, definiu a política, de maneira próxima à de Maquiavel, como a arte de reconhecer o momento favorável, o kairós dos antigos gregos. A busca dessa ocasião ajuda a explicar a associação frequente entre fortuna e virtù. Luciani define esta última em termos de capacidade, habilidade, atividade, poder individual, sensibilidade às oportunidades e avaliação das próprias forças. Para J. G. A. Pocock, o conceito abrange tanto os instrumentos de poder, como as armas, quanto as qualidades pessoais necessárias para manejá-los.

No capítulo XXV de O Príncipe, Maquiavel compara a força cega da fortuna a um rio impetuoso que, ao transbordar, inunda as planícies, derruba árvores e edifícios e arrasta a terra de um lugar para outro: nada resiste à sua fúria. Ela costuma trazer infortúnio, sofrimento e desastre. Para contê-la é preciso uma virtù organizada (ordinata virtù). Resistir-lhe exige rápida adaptação a novas circunstâncias, mais impetuosidade e virtù do que sabedoria. Maquiavel compara a Fortuna a uma mulher que prefere os jovens, menos reservados e mais ousados.
Segundo Pocock, essas noções são centrais em O Príncipe porque o livro se ocupa sobretudo de inovadores políticos, que não dispõem da legitimidade tradicional dos herdeiros de antigas dinastias. Estes podem apoiar-se nas instituições existentes; os inovadores precisam da ocasião oferecida pela fortuna e da virtù para dar forma à constituição política. Sobre os grandes legisladores e fundadores, Maquiavel escreve:
| Texto italiano | Tradução |
|---|---|
| Ed esaminando le azioni e vita loro, non si vede che quelli avessino altro dalla fortuna che la occasione; la quale dette loro materia a potere introdurvi dentro quella forma parse loro; e sanza quella occasione la virtù della animo loro si sarebbe spenta, e senza quella virtù la occasione sarebbe venuta invano. Era dunque necessario a Moisè trovare il populo d'Isdrael, in Egitto stiavo e oppresso dagli Egizii, accio che quelli, per uscire di servitù, si disponessino a seguirlo. Conveniva che Romulo non capissi in Alba, fussi stato esposto al nascere, a volere che diventassi re di Roma e fondatore di quella patria. | "Ao examinar sua vida e suas ações, vê-se que a fortuna lhes deu apenas a ocasião, isto é, a matéria à qual puderam dar a forma que julgaram adequada. Sem essa ocasião, sua virtù teria se apagado; sem a virtù, a ocasião teria surgido em vão. Foi necessário que Moisés encontrasse no Egito o povo de Israel escravizado e oprimido, disposto a segui-lo para sair da servidão. Também foi necessário que Rômulo não permanecesse em Alba e fosse abandonado ao nascer para se tornar rei e fundador de Roma." |
| Maquiavel, O Príncipe, capítulo VI. | |
Leo Strauss observa que Maquiavel por vezes contrapõe a virtù à bondade, numa distinção que remete a Cícero. Na tradição da República de Platão, Cícero opõe a moderação e a justiça, exigidas de todos, à coragem e à sabedoria, exigidas dos governantes. Em Maquiavel há uma relação semelhante: a virtù é necessária aos dirigentes; a "bondade", entendida num sentido algo depreciativo como obediência acompanhada de temor, caracteriza a maioria da população, que não participa da política nem da guerra.

Como os humanistas e Cícero, Maquiavel considera que a glória dispensa a santificação divina. À maneira dos gregos e romanos anteriores ao cristianismo, vê a busca das honras deste mundo como um bem importante, sobretudo porque outras pessoas aspiram a seguir o exemplo de príncipes respeitados. Apesar da inconstância dos homens, a glória verdadeira pode ter algo de imortal e deve ser uma aspiração dos governantes. Tanto a glória como a infâmia sobrevivem na memória coletiva. Seus caminhos, porém, são próximos: um governante pode usar crueldade e astúcia em benefício das pessoas, mas, para alcançar a glória, deve limitar esses recursos ao estritamente necessário. Sem moderação, cai na infâmia, como Agátocles de Siracusa.
No capítulo XVIII de O Príncipe, Maquiavel sugere um emprego metódico e parcimonioso da violência. Recorda que os heróis guerreiros da Antiguidade eram educados pelo centauro Quíron, metade homem e metade animal: o príncipe precisa saber agir segundo as duas naturezas. Quando recorre à natureza animal, deve ser raposa para reconhecer as armadilhas e leão para assustar os lobos. O leão sozinho cai nas armadilhas; a raposa sozinha não se defende dos lobos.
Maquiavel distingue a fama (fama) da glória (gloria). Grandes feitos, como os de Fernando II de Aragão, podem trazer fama, mas não bastam para a glória. Esta exige excelência tanto nos objetivos quanto nos meios, qualidade que, segundo ele, faltou àquele monarca.

Na Idade Média e no Renascimento, a Itália não formava um reino como a França ou a Espanha, nem um império como os domínios dos Habsburgo: dividia-se em numerosos Estados e cidades mercantis, entre os quais os influentes Estados Pontifícios. Havia também uma tensão persistente entre a burguesia comercial e a nobreza guerreira. Duas grandes alianças se opunham: os guelfos, ligados em geral às cidades comerciais e ao papado, e os gibelinos, favoráveis à dinastia de Hohenstaufen e, mais tarde, aos espanhóis e aos Habsburgo. Segundo J. G. A. Pocock, todos os escritores florentinos, inclusive Maquiavel, eram guelfos. Com o retorno do papado de Avinhão a Roma em 1377, a ampliação dos territórios pontifícios passou a ameaçar a autonomia das cidades-Estado. Para superar conflitos de facções, estas recorriam a podestàs vindos de fora. A disputa pelo governo opunha frequentemente republicanos e príncipes.
Para Hans Baron, a concepção florentina de república começou a tomar forma na crise de 1400–1402, quando os humanistas da cidade enfrentaram os Visconti de Milão. Sua inspiração seria sobretudo a Política de Aristóteles: a liberdade residiria na participação ativa no governo. Maurizio Viroli destaca a interpretação aristotélica de Egídio Romano, segundo a qual viver politicamente é viver sob a proteção das leis e de uma boa constituição. Quentin Skinner, por sua vez, situa a origem da ideia republicana no século XIII e sobretudo nos autores latinos, especialmente Cícero e Salústio. A queda de Roma levava esses autores e seus leitores a refletir sobre o declínio, atribuído em parte ao excesso de conquistas que destruíra a virtù republicana.
Maquiavel distingue uma república expansionista, segundo o modelo romano, que requer virtù e virtudes pagãs, de outra defensiva, desarmada e orientada por virtudes cristãs. Prefere a primeira. Sua reflexão precede as guerras religiosas europeias, nas quais cristãos se mostrariam ativos e pouco pacíficos; por isso, os problemas religiosos que enfrenta diferem dos de Jean Bodin e Thomas Hobbes.

Os estudiosos costumam considerar peculiar o republicanismo de Maquiavel. Para Friedrich Meinecke, há nele uma parcela monárquica, pois uma república só poderia nascer da ação de alguns grandes homens. Harvey Mansfield e Nathan Tarcov veem uma combinação de republicanismo e tirania. Para Pocock, a república é uma estrutura de virtù assentada na virtude dos cidadãos soldados. Segundo Mark Hulliung, Maquiavel a defende porque seria mais apta que a monarquia a alcançar a glória, ampliar o Estado e exercer a força. Para Baron, trata-se de um republicanismo principesco enraizado na virtude cívica.
Viroli, por sua vez, associa esse republicanismo à busca de uma república bem ordenada, regida pelas leis e por instituições constitucionais. Maquiavel retomaria uma ideia dos juristas e humanistas cívicos dos séculos XIII e XIV: a vida civil e política requer um governo republicano ou misto, que combine qualidades da monarquia, da aristocracia e da democracia. Seguindo Cícero, Alamanno Rinuccini afirmava em 1493 que a justiça e as boas leis são a base de uma vida plenamente humana, civil e política.
Nessa interpretação, todos, inclusive o príncipe e os dirigentes, estão sujeitos às leis e aos limites institucionais. Cada parte da cidade tem lugar no regime misto, que deveria seguir o exemplo romano e evitar os conflitos intermináveis de Florença. A liberdade política inclui a participação de todos no debate público e o acesso aos cargos superiores segundo o mérito. Para os juristas italianos do século XIV, também significava que a cidade podia fazer suas próprias leis sem se submeter a um imperador. Contra a corrupção e o desrespeito à lei, os magistrados deveriam aplicá-la com rigor, sobretudo aos poderosos.
Para Maquiavel, a república permite viver tanto em segurança como em liberdade. Viver em segurança (vivere sicuro) exige uma ordem constitucional mínima, que ele reconhecia na França de seu tempo. Viver em liberdade (vivere libero) requer ainda a participação ativa da nobreza e do povo no governo e a competição entre ambos, como na República Romana. Um regime voltado apenas à segurança desconfia do povo, não o arma e recorre a mercenários, tornando-o passivo e fraco. Quando os próprios cidadãos defendem a cidade, considera Maquiavel, nem o governo nem um usurpador conseguem tiranizá-los. Roma armada teria permanecido livre por quatro séculos e Esparta por oito, ao passo que muitas cidades desarmadas não conservaram a liberdade por quarenta anos.
À objeção de que as disputas entre povo e nobreza causaram a queda de Roma, Maquiavel responde que tais tensões foram fonte de sua grandeza. Nos Discursos (I, 4), escreve:
Afirmo que aqueles que condenam os conflitos entre o Senado e o povo condenam justamente o que foi a primeira causa da liberdade de Roma; prestam mais atenção aos gritos e ao tumulto que deles nasciam na praça pública do que aos bons resultados que produziram.
A virtù não se limita a um indivíduo: está distribuída entre os cidadãos. Sua variedade permite à república encontrar pessoas aptas a enfrentar crises diferentes. Diante das primeiras vitórias de Aníbal sobre Roma, era preciso ganhar tempo para preparar as legiões, tarefa para a qual convinha a prudência de Quinto Fábio Máximo Verrugoso, o Cunctator ou "Temporizador". Quando chegou o momento de atacar, as qualidades de Cipião Africano eram mais adequadas. Maquiavel escreve:
Todos sabem com quanta prudência e cautela Fábio Máximo comandava seu exército, afastando-se da impetuosidade e da ousadia habituais dos romanos; sua fortuna fez com que essa conduta correspondesse às circunstâncias. [...] Se Fábio tivesse sido rei de Roma, talvez fosse derrotado nessa guerra, pois não saberia mudar sua maneira de conduzi-la conforme mudavam os tempos. Mas nasceu numa república com cidadãos e temperamentos diversos: assim como Roma teve Fábio, o homem certo para sustentar a guerra naquele momento, teve depois Cipião, adequado ao momento de vencer.
Maquiavel, Discursos, III, 9.

Segundo Nederman, Maquiavel considera o debate democrático a melhor maneira de resolver conflitos numa república. Como na retórica clássica e nas teorias italianas do fim da Idade Média, o discurso deve persuadir os ouvintes da solidez de uma tese e mostrar as falhas da tese oposta. Para Viroli, a importância do conflito como condição da liberdade tem, portanto, uma dimensão retórica. O povo é, de modo geral, o melhor guardião da liberdade e do bem público: a diversidade de opiniões o torna menos suscetível à manipulação. Numa monarquia, quem pretende enganar os demais enfrenta menor variedade de opiniões e pode impor as suas com mais facilidade. Nos Discursos, Maquiavel dedica um capítulo à capacidade do povo de agir e julgar.
Quanto à prudência e à constância, afirmo que um povo é mais prudente, mais constante e julga melhor do que um príncipe. Não é sem motivo que se diz que a voz do povo é a voz de Deus. A opinião pública antevê por vezes os acontecimentos de maneira tão extraordinária que parece dotada de uma faculdade oculta de prever o bem e o mal. Raramente erra ao julgar: quando ouve dois oradores igualmente eloquentes propor soluções opostas, em geral discerne e escolhe a melhor.
Maquiavel, Discursos, I, 58.
Claude Lefort identifica aí uma nova justificativa para a democracia: a desordem pode produzir ordem, e o choque entre os interesses das classes pode dar origem à cidade. Christian Nadeau também encontra em Maquiavel uma reflexão sobre as condições da liberdade política, e não apenas sobre a primazia dos meios em relação aos fins.
Em outra leitura republicana, John P. McCormick atribui aos Discursos um projeto de participação popular e de controle das elites por mecanismos além das eleições. Entre os exemplos que examina estão os tribunos da plebe, as acusações públicas e a possibilidade de o povo recorrer das decisões dos governantes.
Para Viroli, resolver conflitos sem destruir a cidade e em favor do bem comum exige dos cidadãos uma força moral que os faça reconhecer esse bem e buscá-lo mesmo quando isso contrarie interesses particulares: o amor à pátria. Nos Discursos (III, 47), Maquiavel relata o caso de Fábio, a quem coube aprovar, em plena guerra, a nomeação de um inimigo pessoal para substituir um general ferido. A pedido de dois enviados do Senado, deixou de lado o ressentimento em favor do interesse público, embora seu silêncio revelasse quanto lhe custava a decisão.
O livro O Momento Maquiaveliano: o pensamento político florentino e a tradição republicana, de J. G. A. Pocock, deu novo impulso à interpretação republicana de Maquiavel. Pocock procurou mostrar que, ao lado da tradição associada a John Locke, havia uma via florentina do republicanismo; para ele, a oposição entre liberalismo e republicanismo também permanecia atual. Ressaltou a cidadania como participação ativa na vida política e militar, contrapondo-a à "liberdade dos modernos" do liberalismo contemporâneo. Pretendia assim mostrar as limitações de uma visão exclusivamente jurídica e liberal. Concentrou-se, porém, na participação dos cidadãos e deu menor atenção à ordem institucional e jurídica em Maquiavel, tema desenvolvido por Viroli em 1998. Em Machiavelli, Hobbes and the Formation of a Liberal Republicanism in England (2004), Vickie B. Sullivan sustenta que o republicanismo maquiaveliano e o liberalismo de Locke se reconciliaram na Inglaterra do século XVII.

A obra de Maquiavel foi conhecida, estudada e discutida como poucas outras. Para Claude Lefort, a imagem de um príncipe que governa segundo a própria vontade, indiferente aos preceitos cristãos e disposto a usar os súditos para obter glória ou prazer causou escândalo porque punha em questão uma representação tradicional da sociedade, além das objeções propriamente religiosas. O Príncipe circulou primeiro em manuscrito e foi dedicado a Lourenço II de Médici. Em 1531, o papa Clemente VII concedeu ao impressor Antonio Blado o privilégio de publicar a obra, que saiu em 1532. A imprensa favoreceu sua rápida difusão: houve pelo menos quinze edições de O Príncipe, dezenove dos Discursos e 25 traduções francesas publicadas entre 1572 e 1640.
Os primeiros ataques vieram cerca de vinte anos após a publicação. O cardeal inglês Reginald Pole, em sua Apologia ao imperador Carlos V (1552), chamou o livro de obra "escrita pela mão de Satanás". O Príncipe também foi atacado pelo bispo português Jerónimo Osório e pelo italiano Ambrogio Catarino, autor de De libris a christiano detestandis (1552). Em 1559, o papa Paulo IV incluiu O Príncipe, os Discursos e as Histórias florentinas no Index Librorum Prohibitorum, interrompendo sua publicação em áreas de influência católica, com exceção da França.
As ideias de Maquiavel repercutiram entre governantes ocidentais. Thomas Cromwell estimava O Príncipe. Segundo Robert Bireley, a obra também influenciou as táticas de Henrique VIII durante a Peregrinação da Graça e seu rompimento com Roma. O imperador Carlos V possuía um exemplar. No século XVI, segundo Bireley, os católicos associavam Maquiavel aos protestantes, enquanto estes o viam como italiano e, portanto, católico; sua influência, porém, alcançou ambos os lados. Francis Bacon agradeceu aos autores que, como Maquiavel, descreviam abertamente o que os homens fazem, em vez de dizer apenas o que deveriam fazer.
A figura de Maquiavel aparece mais de quatrocentas vezes no teatro isabelino, inclusive em obras de Christopher Marlowe, William Shakespeare e Ben Jonson. Na França, Jean de La Fontaine incluiu em sua última coletânea de fábulas uma adaptação do conto Belfagor, o arquidiabo, intitulada Belphégor (1682), e transformou a peça A Mandrágora num conto em versos de mesmo nome.
A máxima "os fins justificam os meios" costuma ser atribuída a Maquiavel, mas não aparece literalmente em seus escritos. A frase simplifica debates sobre a relação entre os objetivos políticos e os meios empregados para alcançá-los. Na psicologia, o termo maquiavelismo passou a designar um traço de personalidade ligado à manipulação interpessoal. Richard Christie e Florence L. Geis desenvolveram instrumentos para estudá-lo, reunidos no livro Studies in Machiavellianism (1970).

Após uma recepção inicialmente dividida na França, o nome de Maquiavel passou a ser associado a Catarina de Médici e ao massacre da noite de São Bartolomeu.
Em 1576, quatro anos após o massacre, o huguenote Innocent Gentillet publicou em Genebra Discours sur les moyens de bien gouverner, conhecido como Discours contre Machiavel ou Anti-Machiavel, que se difundiu por toda a Europa. Na dedicatória a Francisco de França, duque de Alençon, Gentillet pedia que a doutrina de Maquiavel fosse devolvida à Itália, de onde teria vindo para desgraça dos franceses, e atribuía aos "maquiavelistas" da França a responsabilidade pelo massacre. Retratava Maquiavel como ateu e O Príncipe como o "Alcorão dos cortesãos". Seu livro contribuiu para uma incompreensão duradoura: como se, por tornar públicos os mecanismos do poder, Maquiavel fosse responsável pela corrupção e pelos meios empregados para conservá-lo. Ao expor esses mecanismos e recomendar seu uso quando a necessidade e as consequências da fraqueza dos dirigentes o exigissem, ele procurava também indicar uma saída, sem abandonar a desconfiança em relação à natureza humana. A relação entre moral e política, centro dessa controvérsia, era justamente o tema em que Gentillet insistia.

Acusações semelhantes de estratégias imorais foram frequentes no discurso político do século XVI, especialmente entre autores da Contrarreforma como Giovanni Botero, Justo Lípsio, Carlo Scribani, Adam Contzen, Pedro de Ribadeneira e Diego de Saavedra Fajardo.
Jean Bodin apreciara Maquiavel em seu Método para uma compreensão fácil da história (1566), mas o criticou severamente no prefácio de Os Seis Livros da República, publicado alguns meses depois do livro de Gentillet:
Maquiavel, que conquistou prestígio entre os cortesãos dos tiranos, jamais penetrou na ciência política, que não consiste nos estratagemas tirânicos que ele procurou por toda a Itália e destilou como um doce veneno em seu livro O Príncipe. [...] Quanto à justiça, se tivesse lançado os olhos aos bons autores, teria descoberto que Platão deu a seus livros sobre a república o título de livros sobre a justiça, um dos pilares mais sólidos de todas as repúblicas.
Bodin buscava formular uma teoria da monarquia em que a soberania do rei fosse absoluta, mas exercida em respeito às leis e aos costumes e em benefício dos governados. Apesar das críticas, muitos adversários de Maquiavel retomaram ideias suas: o príncipe deveria cuidar da reputação e por vezes recorrer à astúcia e ao engano. Como fariam depois autores modernos, davam, porém, mais importância ao crescimento econômico e aos riscos das guerras temerárias.
Para evitar a controvérsia em torno do nome de Maquiavel, alguns preferiam falar de "tacitismo", em referência a Tácito, historiador dos imperadores romanos de Tibério a Nero. Essa leitura, próxima da política maquiaveliana sem seus aspectos mais contestados, orientava conselheiros de monarcas absolutos e suas recomendações realistas. Distinguem-se um "tacitismo negro", favorável ao poder do príncipe, e um "tacitismo vermelho", favorável à república e próximo dos Discursos.

A nomeação de Alberico Gentili, jurista formado em Perúgia, para a cátedra de direito civil em Oxford em 1597 contribuiu para a reputação republicana de Maquiavel. No De legationibus (1585), Gentili tratara com apreço o autor dos Discursos. Na Inglaterra e nos Países Baixos do século XVII e na França do XVIII, Maquiavel foi frequentemente apresentado como defensor da república de Veneza e do republicanismo, em parte por influência de Gentili e da interpretação retomada por Trajano Boccalini.
Durante a Comunidade da Inglaterra e o Protetorado de Cromwell, os Discursos inspiraram republicanos como Marchamont Needham, autor de The Case of the Commonwealth of England (1650), e James Harrington, autor de Oceana (1656). John Milton, Algernon Sidney e Henry Neville adaptaram à Inglaterra as ideias maquiavelianas de virtude cívica, participação e efeitos positivos do conflito. Neville editou obras de Maquiavel em 1675 e 1680. Numa carta fictícia do florentino a Zanobius Buondelmontius, dirigida aos republicanos que frequentariam os jardins Rucellai, sugeriu que O Príncipe era uma sátira destinada a revelar a verdadeira natureza dos tiranos. Apesar de nem sempre citado por causa da controvérsia, Maquiavel também marcou o pensamento inglês de Thomas Hobbes e John Locke.
Nos Países Baixos, Johan e Pieter de la Court recorreram aos Discursos para defender que a república atendia melhor aos interesses de todos, estabelecendo um equilíbrio entre eles. Seus escritos influenciaram Baruch Espinoza, que no Tratado Teológico-Político (1670) desenvolveu uma visão realista da política inspirada no capítulo XV de O Príncipe e apresentou Maquiavel como republicano numa interpretação democrática.

Na França do início do século XVII, o cardeal de Richelieu apreciava os preceitos de O Príncipe sob uma perspectiva não republicana. Teria incentivado Louis Machon a escrever uma Apologia de Maquiavel, que permaneceu inédita em manuscrito. Montesquieu chamou Maquiavel de "grande homem", embora julgasse que fizera de César Bórgia seu ídolo. Em O Espírito das Leis (1748), afirmou de modo pragmático que se começava a superar o maquiavelismo: os antigos "golpes de Estado" seriam agora, além de horríveis, imprudentes. Ao destacar o papel das paixões e dos interesses, distinguiu a virtude moral da virtù política.
Na Prússia, onde pouco se apreciava o republicanismo de Maquiavel, o jovem rei Frederico II procurou refutar O Príncipe com a ajuda de Voltaire. Dessa colaboração nasceu Anti-Maquiavel, publicado em 1740. A edição apresentava em colunas paralelas a tradução francesa de La Houssaye e os comentários do rei, revistos e ampliados por Voltaire. No capítulo VIII, Voltaire contestava a análise histórica de Maquiavel recordando o destino desastroso de alguns tiranos. Para Alexis-François Artaud de Montor, porém, o livro era mais uma sucessão de invectivas do que uma refutação sistemática. O prefácio comparava O Príncipe na política ao livro de Espinoza sobre a fé: acusava este de solapar a religião e Maquiavel de corromper a moral da prática política.

Jean-Jacques Rousseau censurou o rei prussiano por rejeitar a virtude e por começar seu próprio maquiavelismo com uma refutação de Maquiavel. Admirava, em contrapartida, o conhecimento dos homens e a capacidade de julgamento do florentino. Em sua leitura republicana, Maquiavel teria sido um bom cidadão que, ligado aos Médici e vivendo sob a opressão da pátria, disfarçara seu amor à liberdade. A escolha de César Bórgia como herói de O Príncipe e a diferença entre esse livro, os Discursos e as Histórias florentinas revelariam, segundo Rousseau, a intenção oculta que leitores superficiais ou corruptos não percebiam.
Essa interpretação também aparece no verbete "Maquiavelismo" de Denis Diderot e em Vittorio Alfieri. Para estudiosos contemporâneos, contudo, é pouco plausível atribuir duplo sentido satírico às passagens mais chocantes de O Príncipe.
Maquiavel também inspirou Robespierre, para quem os planos da Revolução Francesa estavam em grande parte nos livros do florentino. Ao justificar o Terror como o "despotismo da liberdade contra a tirania", Robespierre por vezes se aproximava da defesa maquiaveliana da violência na fundação de uma nova ordem ou na reforma de instituições corrompidas. Ambos viam como problema central da ação política a fundação de uma esfera pública duradoura e admitiam que a violência podia ser justificada para esse fim. Para Hannah Arendt, Maquiavel foi nesse sentido um antecessor das revoluções modernas: desejava fundar uma nova ordem.
A ênfase de Maquiavel no republicanismo levou estudiosos a reconhecê-lo como fonte direta e indireta do pensamento dos Pais Fundadores dos Estados Unidos. Seu pensamento republicano influenciou Benjamin Franklin, James Madison e Thomas Jefferson na oposição a Alexander Hamilton, a quem temiam por uma possível nova aristocracia formada em torno do Partido Federalista. Hamilton aprendeu com Maquiavel a importância da política externa para a política interna, mas deu mais peso à ordem do que ao conflito de ideias dentro da república. Matthew Spalding apresenta George Washington como um contraponto à influência maquiaveliana entre os fundadores.

John Adams foi o fundador que mais estudou e apreciou Maquiavel. Comentou-o extensamente em A Defence of the Constitutions of Government of the United States of America, classificando-o, com Algernon Sidney e Montesquieu, entre os defensores do governo misto. Adams elogiava nele o retorno ao raciocínio empírico em política e concordava com sua visão da natureza humana como constante e movida pelas paixões, assim como com a ideia de ciclos de crescimento e declínio das sociedades. Julgava, porém, que faltava a Maquiavel uma compreensão clara das instituições necessárias a um bom governo.

No início do século XIX, a Revolução Francesa marcou as interpretações de Maquiavel, centradas sobretudo na relação entre moral e política. O primeiro-ministro britânico William Pitt, o Novo, associou os revolucionários franceses ao maquiavelismo e à imoralidade. Immanuel Kant respondeu que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e a constituição republicana não eram imorais; ao contrário, mostravam que não havia verdadeira política sem respeito à moral. Hegel adotou posição semelhante em sua Filosofia do direito (1821).
Em meio aos movimentos de unificação da Itália e da Alemanha, a formação do Estado e o patriotismo presentes na obra de Maquiavel atraíram vários leitores. Na Constituição da Alemanha, escrita em 1800 e publicada em 1893, Hegel traçou um paralelo entre a Itália dividida de Maquiavel e a Alemanha de seu tempo. Autores alemães do século XIX em geral destacaram o patriotismo do florentino e evitaram os aspectos mais delicados. Max Weber seguiu essa linha em A política como vocação (1919). Também evitou identificar a concepção maquiaveliana de Estado com a de Heinrich von Treitschke, que reduzia o Estado à força, à violência e ao poder. Weber citou Maquiavel poucas vezes e observou que a violência do Artaxastra de Cautília relativizava aquela atribuída a O Príncipe.

Marx fez breves referências elogiosas a Maquiavel. Leu os Discursos, mas interessou-se sobretudo pelas Histórias florentinas e pelo estudo da evolução das forças militares italianas, que lhe permitia compreender a ligação entre forças produtivas e relações sociais. Em 1897, Benedetto Croce considerou Marx um digno sucessor de Maquiavel e estranhou que nunca tivesse sido chamado de "Maquiavel do movimento operário".
Friedrich Nietzsche, num texto de 1888 publicado em 1901 sob o título A Vontade de Poder, viu no maquiavelismo puro um ideal de perfeição vigoroso, quase sobre-humano, do qual uma pessoa poderia apenas se aproximar. Um estudo monográfico de Maquiavel e sua obra foi Machiavel. Son génie et ses erreurs (1833), de Alexis-François Artaud de Montor. Em 1865, Maurice Joly publicou Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu.

O historiador alemão Friedrich Meinecke relacionou as ideias de Maquiavel às políticas de poder que, em sua interpretação, contribuíram para as guerras mundiais. Desenvolveu essa leitura em Die Idee der Staatsräson in der neueren Geschichte (1924) e Die deutsche Katastrophe (1946). No primeiro livro, responsabilizou não só o maquiavelismo e o hegelianismo, mas também, de modo mais geral, as ideias abstratas da Revolução Francesa. Via em Maquiavel o ponto de partida para o desencadeamento de políticas de poder. No segundo, segundo Barthas, adaptou a tese: a divulgação de métodos antes restritos a uma aristocracia teria possibilitado um maquiavelismo de massa e o Terceiro Reich. Os livros de Meinecke influenciaram a interpretação de Marx apresentada por Michel Foucault em seus estudos de 1978 sobre a "governamentalidade".
Nas décadas de 1920 e 1930, discutiu-se a relação entre Maquiavel e o totalitarismo, sobretudo após a publicação, por Mussolini, de Preludio al Machiavelli (1924), traduzido para o francês em 1927, no qual o Duce elogiava o florentino. Na Itália, o filósofo liberal Piero Gobetti contestou rapidamente o texto, ressaltando o republicanismo de Maquiavel e sua defesa da fecundidade do conflito; na França, a recepção foi mais favorável. Le Machiavélisme avant, pendant et après Machiavel, de Charles Benoist, tornou-se uma referência no período entre guerras e tratou com elogios o texto de Mussolini. Distinguiu, porém, quatro formas de maquiavelismo: o do próprio Maquiavel, o de seus discípulos, o de seus adversários e o de quem nunca o leu. A obra influenciou Raymond Aron e Jacques Maritain. Marcada pela ideia de que o maquiavelismo nasceu num momento histórico específico e por temas nietzschianos, integrou um debate então centrado nas elites. Aron destacou afinidades entre o pensamento de Maquiavel sobre elas e o do sociólogo Vilfredo Pareto.
O neotomista Maritain sustentou que os regimes totalitários eram herdeiros de Maquiavel. Considerava seu principal erro trazer à consciência e, com isso, desculpar práticas dos governantes de seu tempo e dos políticos de poder em geral. Aron e Élie Halévy, ao contrário, deram maior importância às mudanças provocadas pela economia de guerra na Primeira Guerra Mundial. Em suas reflexões iniciadas no fim da década de 1930, Aron situou a essência do totalitarismo na conjunção de maquiavelismo e messianismo, cinismo e fanatismo, ciência e religião pervertidas. Numa análise próxima, Ernst Cassirer associou Maquiavel ao nazismo em O Mito do Estado (1946).
Sobretudo nas universidades de língua inglesa desenvolveu-se uma alternativa à leitura de Leo Strauss. Hans Baron, Isaiah Berlin e Pocock propuseram interpretações que reinseriram o pensamento de Maquiavel nos debates políticos contemporâneos. Em "The Originality of Machiavelli" (1971), Berlin procurou resolver o conflito entre moral e política identificado por Croce e encontrou no florentino um pluralismo de valores compatível com seu liberalismo político. Na mesma época, Philip Pettit, Pocock e Quentin Skinner retomaram a leitura republicana. Seguiam Rousseau, para quem O Príncipe, ao aparentar ensinar reis, ensinava os povos e era "o livro dos republicanos". Essa leitura deu maior destaque aos Discursos do que a O Príncipe. Pocock contrapôs uma tradição republicana de origem maquiaveliana à liberal, numa análise em que as condições sociais e econômicas afetam a percepção da sociedade e seus valores. Outros filósofos políticos contemporâneos, como John Rawls e Jürgen Habermas, pouco se ocuparam de Maquiavel.
Em 2010, Pocock perguntou, com alguma ironia, se o único príncipe maquiaveliano da história europeia não teria sido Napoleão: condottiero e legislador, herói de uma república e traidor cesarista. A ideia já aparecera em 1816 num livro anônimo de Aimé Guillon, segundo o qual teria sido encontrado na carruagem de Napoleão, após Waterloo, um manuscrito encadernado de traduções de obras de Maquiavel, entre elas O Príncipe e os Discursos, com notas marginais do imperador. A história foi inventada, embora Napoleão de fato pretendesse levar os Discursos em sua biblioteca de viagem.
Em Le Travail de l'œuvre Machiavel (1972), Claude Lefort examinou oito grandes interpretações do florentino, detendo-se especialmente nas de Cassirer e Strauss. Para ele, esta última era a única que ligava o sentido do discurso maquiaveliano ao problema de sua leitura. Lefort também propôs uma leitura sistemática de O Príncipe e dos Discursos, colocando no centro da obra o conflito, a divisão social e a dinâmica do desejo. A relação que a obra estabelece entre o mal e a política explicaria parte do escândalo que provoca.

Nessa leitura, Maquiavel teria conferido à política um estatuto próprio, centrado na capacidade de conquistar ou conservar o poder e afastado dos critérios morais tradicionais. Seu exercício obedeceria a uma lógica quase autônoma. Favorável à expansão, Maquiavel propunha o exemplo da Roma aberta, e não o de Esparta, voltada para si. Era preciso equilibrar forças opostas:
Creio ser necessário imitar a constituição romana, e não a das outras repúblicas, pois não penso que seja possível escolher um meio-termo entre essas formas de governo; é preciso tolerar as rivalidades entre o povo e o Senado, vendo nelas um mal necessário para alcançar a grandeza de Roma.
Maquiavel, Discursos, I, 6.
Em Machiavel en démocratie (2006), o ex-primeiro-ministro francês Édouard Balladur escreveu que Maquiavel tivera o mérito de pôr fim à hipocrisia dos bons sentimentos ao descrever a disputa pelo poder como confronto de ambições pessoais. Convocado ao governo por Mitterrand, por vezes apelidado de "o Florentino", Balladur examinou as práticas de poder em regimes contemporâneos:
Democracia ou ditadura, o objetivo permanece o mesmo: conquistar e conservar o poder por todos os meios, durante o maior tempo possível. No uso da mentira há pouca diferença entre ambas, salvo que ela é ainda mais eficaz na democracia, pois permite captar os votos de muitos; à ditadura basta impor-se pela força, dominar em vez de convencer.

O livro aborda as relações com jornalistas, a imagem pública, as pesquisas de opinião, qualidades e defeitos como a capacidade de inspirar, a honestidade, a indiferença às críticas, a lucidez e o cinismo, além das alianças e da escolha entre ser amado e temido. Balladur recorre à própria experiência e a exemplos políticos, mas evita nomear dirigentes contemporâneos; um resenhista via a sombra de seu antigo amigo Mitterrand por trás das alusões. A publicação de um livro desse tipo por um político seria antes impensável e sugere a difusão da nova maneira de encarar a política associada a Maquiavel.


No século XX, renovou-se o interesse pela comédia de Maquiavel.