Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 28 de junho de 1712 – Ermenonville, 2 de julho de 1778) foi escritor, filósofo e músico. Sua mãe morreu poucos dias depois de seu nascimento, e ele cresceu entre a casa do pai relojoeiro e a de parentes, antes de sair de Genebra ainda adolescente. Os livros lhe deram projeção por toda a Europa, mas também o puseram em conflito com autoridades religiosas e civis na França e em Genebra. As mudanças frequentes de residência vieram acompanhadas de uma desconfiança cada vez mais intensa em relação às pessoas à sua volta.
Rousseau procurou primeiro abrir caminho na música. Compôs a ópera Le Devin du village (1752) e, a convite do amigo Denis Diderot, escreveu os verbetes musicais da Enciclopédia. Embora participasse do meio intelectual do Iluminismo, afastou-se do materialismo ateu de Diderot e deu ao sentimento e à consciência moral um lugar que o distinguia de Voltaire. Afirmou a existência de Deus a partir da experiência da natureza e do senso íntimo do bem e do mal, expondo sua crença na Profissão de fé do vigário saboiano, incorporada ao Emílio.
O Discurso sobre as Ciências e as Artes, premiado em 1750 e publicado em 1751, trouxe-lhe fama. No Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755), elaborou uma história hipotética de como as relações sociais poderiam gerar desigualdade e corromper a bondade natural do ser humano. Em Do Contrato Social (1762), examinou as condições de uma comunidade justa, regida por leis nascidas da vontade geral do povo e adequadas à história e aos costumes de cada corpo político. Atribuiu a soberania ao povo e defendeu sua participação direta na legislação, embora preferisse um governo executivo exercido por uma aristocracia eleita, sem caráter hereditário. Leu autores antigos, sobretudo Plutarco, e dialogou com filósofos e juristas de seu tempo. Criticou em especial os sistemas de Thomas Hobbes e John Locke que, a seu ver, assentavam a política no interesse e na dependência econômica.
O romance epistolar Júlia ou A Nova Heloísa (1761) levou a um público amplo o conflito entre o amor e as diferenças de condição social. Convencido de que as pessoas podem se aperfeiçoar, Rousseau apresentou em Emílio, ou Da Educação (1762) um programa que acompanha a criança do berço à idade adulta. Seus adversários lhe cobraram então a decisão de entregar aos Enfants-Trouvés os cinco filhos que, segundo seu próprio relato, teve com Thérèse Levasseur, com quem conviveu por mais de trinta anos e cuja união reconheceu publicamente em 1768. Condenado pelas autoridades francesas e impedido de permanecer em Genebra e em Berna, refugiou-se na Inglaterra em 1766. Lá trabalhou em As Confissões, publicado depois de sua morte, no qual procurou contar sua formação intelectual e afetiva, inclusive episódios de que se envergonhava. Nos últimos anos, voltou-se à observação de seus sentimentos e ao prazer de caminhar pela natureza em Os Devaneios do Caminhante Solitário.
Seu túmulo em Ermenonville atraiu visitantes franceses, prussianos e ingleses logo depois de sua morte. Durante a Revolução Francesa, suas ideias sobre a soberania popular, as leis e os vínculos entre os cidadãos foram retomadas em debates políticos. Seus restos mortais foram levados ao Panteão de Paris em 1794. Sua escrita e suas reflexões sobre política, educação e a passagem da natureza à cultura alcançaram leitores como Immanuel Kant e, mais tarde, estudiosos da antropologia.

A família de Rousseau era originária de Montlhéry, perto de Étampes, ao sul de Paris. Seu tetravô Didier Rousseau (1530–1580/84) deixou a cidade para escapar à perseguição dos protestantes. Estabeleceu-se em Genebra em 1549 e abriu uma hospedaria. O neto de Didier, Jean Rousseau, e o filho deste, David Rousseau (1641–1738), avô do filósofo, foram relojoeiros, profissão então respeitada e lucrativa.

Jean-Jacques Rousseau nasceu em 28 de junho de 1712, na casa dos pais, na Grande-Rue de la Boulangerie, na cidade alta de Genebra. Era filho do relojoeiro Isaac Rousseau (1672–1747) e de Suzanne Bernard (1673–1712), filha do relojoeiro Jacques Bernard e sobrinha — não filha, como dizem As Confissões — de um pastor genebrino que a adotou e lhe legou sua fortuna. Isaac e Suzanne casaram-se em 1704. As famílias já se haviam unido em 1699, quando Gabriel Bernard, irmão de Suzanne, se casara com Théodora Rousseau, irmã de Isaac. O primeiro filho do casal, François, nasceu em 15 de março de 1705. Isaac deixou a mulher e o recém-nascido em Genebra para trabalhar como relojoeiro em Constantinopla; voltou seis anos depois, em 1711. Suzanne morreu de febre puerperal em 7 de julho de 1712, nove dias após o nascimento de Jean-Jacques.

Jean-Jacques foi criado inicialmente pelo pai e pela tia Suzon na casa onde nasceu. Ainda durante a infância do menino, Isaac vendeu a residência na cidade alta e se mudou para Saint-Gervais, bairro popular da cidade baixa que tinha uma tradição de reivindicações sociais apoiada também em leituras de história e política. A partir dos sete anos, Jean-Jacques lia para o pai livros da biblioteca familiar, entre eles obras de Tácito, Plutarco e Hugo Grócio.
Naquela época, uma pequena elite aristocrática governava Genebra e procurava ampliar seu poder, explorando as divisões entre os artesãos com estatuto de «cidadãos» e os «simples habitantes», que se tornavam maioria. Rousseau reivindicaria com orgulho o título de cidadão e sua ligação com os artesãos. Após uma altercação, Isaac Rousseau refugiou-se em Nyon, no cantão de Vaud, em 11 de outubro de 1722, para escapar à justiça. Não voltou a Genebra, mas manteve contato com os filhos; Jean-Jacques visitava-o em Nyon e compartilhava com ele o gosto pelos livros. Isaac confiou os filhos ao cunhado Gabriel Bernard, funcionário das fortificações que também morava em Saint-Gervais.
Gabriel Bernard enviou Jean-Jacques e seu primo Abraham Bernard para morar com o pastor Lambercier em Bossey, ao pé do Salève, ao sul de Genebra. Rousseau passou ali dois anos (1722–1724). Em As Confissões, ele associa o despertar de sua sexualidade a uma surra que recebeu da irmã do pastor, episódio depois interpretado por estudiosos à luz do sadomasoquismo. O período, de que guardava boas lembranças, terminou quando foi acusado de quebrar um pente e mandado de volta ao tio; permaneceu convencido de que fora acusado injustamente.
O tio primeiro o pôs como aprendiz de um escrivão. Diante do desinteresse do menino, enviou-o ao gravador Abel Ducommun, com quem assinou um contrato de aprendizagem de cinco anos em 26 de abril de 1725. Rousseau descreveu o mestre como tirânico e a disciplina como severa. Passou a cometer pequenos furtos com colegas, justificando-os como uma forma de «compensação», e a gravar medalhas para o grupo; sobretudo, lia sempre que o mestre se ausentava. Em 14 de março de 1728, depois de três anos de aprendizagem, voltou tarde de um passeio e encontrou fechados os portões de Genebra. Receando outra surra, decidiu fugir, após se despedir do primo Abraham. Ainda não tinha dezesseis anos.

Após alguns dias de caminhada, Rousseau procurou o padre Benoît de Pontverre, de Confignon, porque precisava de alimento. O padre o encaminhou à baronesa Françoise-Louise de Warens, natural de Vevey, que tinha 28 anos, era divorciada, havia se convertido ao catolicismo e acolhia candidatos à conversão. Rousseau afeiçoou-se a ela, que se tornaria sua protetora. A baronesa o enviou a Turim, ao hospício dos catecúmenos de Spirito Santo, onde chegou em 12 de abril de 1728. Embora afirmasse nas Confissões ter resistido à conversão, parece ter se adaptado rapidamente e foi batizado em 23 de abril. Passou alguns meses em Turim, vivendo de trabalhos ocasionais como criado e secretário, além da ajuda de aristocratas e religiosos. Quando trabalhava para a condessa de Vercellis, roubou uma fita pertencente à sobrinha dela e culpou a jovem cozinheira Marion, que perdeu o emprego.
Sem perspectiva de melhorar sua condição em Turim, Rousseau deixou os protetores e voltou a Annecy em junho de 1729 para reencontrar Madame de Warens. Tímido e sensível, encontrou nela a afeição que procurava: ela o chamava de «meu pequeno»; ele a chamava de «Maman» («Mamãe») e passou a ajudá-la em tarefas variadas. Nas Confissões, afirmou que então não sentia desejo sexual por ela, embora praticasse a masturbação. Como se interessava por música, Madame de Warens incentivou-o a estudar com o mestre de capela Le Maître em outubro de 1729. Numa viagem a Lyon, Rousseau abandonou-o, assustado, durante uma crise de epilepsia. Sem encontrar Madame de Warens, passou cerca de um ano percorrendo a Suíça e começou a ensinar música em Neuchâtel em novembro de 1730. Em abril de 1731, em Boudry, tornou-se intérprete de um falso arquimandrita, logo desmascarado.

Em setembro de 1731, Rousseau voltou para Madame de Warens, que então morava em Chambéry. Ali conheceu Claude Anet, uma espécie de criado e secretário, que também era amante dela. Madame de Warens teve papel decisivo em sua formação afetiva e amorosa. A convivência dos três prosseguiu, com dificuldades, até Anet morrer de pneumonia, em 13 de março de 1734. No verão e no outono, Rousseau e aquela a quem chamava de «Maman» instalaram-se em Les Charmettes. Nos anos felizes e despreocupados que recorda em As Confissões, dedicou-se à leitura da extensa biblioteca de Joseph-François de Conzié, com a qual formou seu «depósito de ideias». Gostava de longas caminhadas e descreveu o prazer de estar na natureza, passear sem rumo e devanear, a ponto de ser qualificado de dromômano. Trabalhou no serviço administrativo do cadastro do Ducado de Saboia e ensinou música a jovens da burguesia e da nobreza de Chambéry. Sua saúde, porém, era frágil. Em setembro de 1737, Madame de Warens enviou-o a Montpellier para consultar o médico Antoine Fizes sobre um suposto pólipo no coração; Fizes considerou que se tratava de hipocondria. Nessa viagem conheceu Madame de Larnage, vinte anos mais velha e mãe de dez filhos, com quem teve sua primeira experiência de amor físico. Quarenta anos depois, ainda recordava a relação com emoção.
Ao voltar a Chambéry em fevereiro de 1738, Rousseau encontrou junto de Madame de Warens outro amante, Jean Samuel Rodolphe Wintzenried, de 22 anos. Em julho daquele ano, publicou no Mercure de France um estudo sobre as diferenças de longitude no cálculo dos meridianos, intitulado Si le monde que nous habitons est une sphère? Résolution géométrique et astronomique. Escreveu em seguida seu primeiro conjunto de poemas, Le Verger de Madame la baronne de Warens, publicado em 1739 em Lyon ou Grenoble. Inquieto com sua situação, disse à protetora que estava entediado; ela conseguiu para ele uma vaga de preceptor na casa de Mably, em Lyon, aonde chegou em 1.º de maio de 1740.

Como preceptor dos dois filhos do preboste-geral de Lyon, Rousseau conheceu a família de dois futuros nomes do Iluminismo: o empregador era irmão de Gabriel Bonnot de Mably e de Étienne Bonnot de Condillac. Sem experiência no ensino, escreveu o Mémoire présenté à M. de Mably sur l'éducation de Monsieur son fils, que já esboçava ideias desenvolvidas mais tarde em Emílio. Na sociedade de Lyon, fez amizade com Charles Borde, que o apresentaria a pessoas em Paris. Visitou Madame de Warens em Chambéry, mas a relação entre eles já era menos próxima. Após um ano difícil com os alunos, encerrou o contrato com Mably e voltou a Chambéry em maio de 1741. Poucos meses depois, retornou a Lyon, onde conheceu o intendente Bertrand René Pallu e foi apresentado ao duque de Richelieu, que o incentivou a tentar a vida em Paris.

Rousseau voltou a Chambéry em janeiro de 1742 e preparou sua ida a Paris trabalhando num projeto de notação musical e na comédia Narcisse. Chegou à capital em julho com uma carta de apresentação para Claude Gros de Boze, que o levou a conhecer Réaumur. Com sua ajuda, submeteu à Academia de Ciências da França uma proposta de substituir a pauta musical por sinais numéricos. Os acadêmicos não se convenceram: consideraram que soluções semelhantes já haviam sido apresentadas, entre elas a do padre Jean-Jacques Souhaitty. Rousseau aperfeiçoou a proposta e a publicou por conta própria em 1743, como Dissertation sur la musique moderne, mas não obteve o sucesso esperado.
Rousseau tornou-se amigo de Denis Diderot, que conheceu em setembro de 1742. Compartilhavam o interesse por música, teatro e literatura, conversavam longamente e jogavam xadrez, partidas que Rousseau dizia vencer. A amizade, importante para a formação intelectual dos dois, durou cerca de quinze anos.
Depois que o padre Castel lhe disse que «em Paris tudo se faz por intermédio das mulheres», Rousseau passou a frequentar os salões de Madame de Besenval, mãe da marquesa de Broglie e de Pierre-Victor de Besenval, e de Louise Dupin. Tentou sem sucesso seduzir esta última, que lhe confiou por uma semana a educação do filho de treze anos, Jacques-Armand Dupin de Chenonceaux, uma experiência difícil para o preceptor.
Em maio de 1743, Rousseau começou a compor o balé heroico Les Muses galantes, do qual apresentou trechos em Veneza em 1744.

Em julho de 1743, Rousseau foi contratado como secretário de Pierre-François, conde de Montaigu, recém-nomeado embaixador francês na República de Veneza. Seu conhecimento do italiano e sua dedicação eram úteis a Montaigu, que não falava italiano nem vêneto e tinha dificuldade com a correspondência escrita, essencial à diplomacia veneziana. Rousseau apreciava o teatro, a música italiana e a vida da cidade, mas os conflitos com o embaixador levaram à sua demissão depois de um ano. Voltou a Paris em 10 de outubro de 1744, sentindo-se humilhado. A experiência permitiu-lhe observar as instituições venezianas e despertou seu interesse pela política. Concebeu então um projeto intitulado Les Institutions politiques, no qual trabalhou intermitentemente por anos e de que resultaria Do Contrato Social; a vivência da subordinação também alimentou suas ideias para o Discurso sobre a desigualdade.
Em 1745, Rousseau apresentou Condillac a Diderot, e os três passaram a almoçar juntos semanalmente.
Em 1745, Rousseau instalou-se no hotel Saint-Quentin, na rua dos Cordiers, e iniciou uma relação com a trabalhadora de lavanderia Thérèse Levasseur, com quem realizaria uma cerimônia de união em 1768. A relação lhe trouxe a afeição que procurava, mas também o encargo de ajudar a família dela. Segundo o próprio relato de Rousseau, Thérèse teve cinco filhos, que ele entregou ao hospital dos Enfants-Trouvés logo após o nascimento. A decisão foi depois usada contra ele por Voltaire, sobretudo diante das posições pedagógicas expostas em Emílio, ou Da Educação. Rousseau alegou falta de recursos e, em As Confissões, apresentou outras justificativas; em 1761, procurou obter ajuda para localizar as crianças.

Para celebrar a vitória de Fontenoy, em maio de 1745, Rousseau foi convidado a colaborar na comédia-balé Les Fêtes de Ramire, de Jean-Philippe Rameau, baseada em La Princesse de Navarre, de Voltaire. Sua contribuição acabou ignorada. Entre 1745 e 1751, trabalhou como secretário e preceptor para a família Dupin de Francueil. Ajudou o marido a reunir material para uma obra de química e uma crítica de Montesquieu; para Louise Dupin, pesquisou história, etnografia e política enquanto ela preparava textos sobre a condição das mulheres. Passou a frequentar Louise d'Épinay e seu círculo em Paris, D'Alembert e Grimm. Em 1748, escreveu a comédia em três atos L'engagement téméraire para os hóspedes do Castelo de Chenonceau.
Em 1747, Rousseau e Diderot planejaram publicar o periódico satírico Le Persifleur, para o qual escreveriam alternadamente resenhas críticas de livros recentes. O projeto foi abandonado depois que Diderot e d'Alembert foram convidados a colaborar na Enciclopédia, da qual se tornaram codiretores em outubro daquele ano.
Sua situação financeira melhorou um pouco, e ele se mudou com Thérèse para o hotel do Languedoc, na rua de Grenelle-Saint-Honoré.

Em 1749, Rousseau apresentou o Discurso sobre as Ciências e as Artes a um concurso da Academia de Dijon. O ensaio venceu em 1750, foi publicado em janeiro de 1751 e lhe trouxe fama. Ele deixou então os trabalhos de secretário e preceptor e passou a viver principalmente da cópia de partituras, atividade que já exercia. Adotou roupas mais simples, condizentes com as ideias defendidas no Discurso. No campo intelectual, distanciou-se da literatura voltada a agradar aos poderosos, embora preservasse a amizade de Diderot. Para Michel Launay, passou a ver na literatura política, ligada ao compromisso pessoal do escritor, sua principal vocação.
Em 18 de outubro de 1752, seu intermédio em um ato, Le Devin du village, composto em seis dias, foi apresentado em Fontainebleau diante de Luís XV e de Madame de Pompadour. A obra fez sucesso, mas Rousseau não compareceu à apresentação ao rei no dia seguinte e recusou a pensão que lhe seria concedida. Diderot reprovou a decisão. A discussão levou Rousseau a explicitar os motivos de sua crítica aos ricos.

Logo depois, Rousseau levou ao palco sua peça Narcisse, à qual Marivaux fizera alguns ajustes. Segundo Michel Launay, o prefácio antecipava um tema central de sua filosofia política. Além de Diderot, frequentava Condillac, Grimm, Raynal, d'Alembert, d'Holbach e Louise d'Épinay. Na Querela dos Bufões, iniciada em 1752, alinhou-se aos enciclopedistas e escreveu a Lettre sur la musique française, defendendo a música italiana e a primazia da melodia sobre a harmonia, enquanto criticava Jean-Philippe Rameau.
Em novembro de 1753, a Academia de Dijon abriu outro concurso, desta vez sobre a origem da desigualdade. Rousseau escreveu o Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, conhecido como Discurso sobre a desigualdade ou «Segundo Discurso». Nele, sustenta que a bondade natural do ser humano é corrompida no desenvolvimento da sociedade.
Assim como o primeiro Discurso, o segundo provocou críticas e debates com autores como Voltaire, Charles Bonnet, Louis Bertrand Castel e Élie Fréron. Rousseau passou a se afastar dos enciclopedistas que defendiam o progresso e o ateísmo, contrapondo-lhes a virtude e o amor à natureza.
Antes de sair o resultado do concurso, Rousseau decidiu voltar a Genebra, de onde partira 26 anos antes. No caminho, passou por Chambéry para visitar Madame de Warens, empobrecida por investimentos malsucedidos, e lhe prestou alguma ajuda. Datou de Chambéry, em 12 de junho de 1754, a dedicatória do Discurso sobre a desigualdade à República de Genebra e o envio da obra ao concurso. Segundo Trousson, pareceu-lhe prudente datá-los de um lugar que não fosse nem a França nem Genebra.
Para recuperar plenamente a cidadania genebrina, Rousseau voltou ao protestantismo com o apoio do pastor de Cologny. Apresentou Thérèse como sua enfermeira e distinguiu interiormente a aceitação da religião oficial de suas próprias convicções. Nas Confissões, explicou: «Se eu quisesse ser cidadão, tinha de ser protestante». Durante os quatro meses em Genebra, conviveu com Jean Jallabert, Jacob Vernet, Jacob Vernes, Firmin Abauzit e Paul Moultou. Trabalhou numa tradução das Histórias, de Tácito, esboçou a tragédia em prosa Lucrèce e pensou no projeto de suas Institutions politiques. Sem conseguir ali o sustento que obtinha em Paris e receando a censura política e religiosa, deixou Genebra com Thérèse em 10 de outubro de 1754. Cinco dias depois, estavam de volta a Paris.
Rousseau soubera em 18 de agosto que o júri de Dijon não premiara seu Discurso sobre a desigualdade. Já havia procurado o impressor Marc-Michel Rey, estabelecido em Amsterdã, para publicá-lo. Rey atrasou a impressão, mas os exemplares ficaram prontos em maio de 1755.

Rousseau passou a dirigir-se a leitores além da elite dos salões literários. O segundo Discurso provocou menos respostas imediatas do que o primeiro. Com o tempo, a celebridade que buscara como forma de intervenção pública tornou-se, segundo suas palavras, «funesta»: retratos seus circulavam e desconhecidos queriam vê-lo e encontrá-lo, o que intensificou seus sentimentos de perseguição.
Na mesma época em que a comédia Le Cercle ou Les Originaux (1755), de Charles Palissot de Montenoy, ridicularizava os enciclopedistas, Rousseau decidiu reorganizar a própria vida conforme o lema latino vitam impendere vero («dedicar a vida à verdade»). Abandonou as roupas luxuosas, a espada e o relógio. Deixou Paris para morar no campo, primeiro no Ermitage, na floresta de Montmorency, depois no Petit Mont-Louis. Recusou empregos e pensões que lhe ofereciam e sustentou-se copiando partituras, para preservar sua independência. Nesse período, rompeu também a amizade que mantinha com Diderot desde 1742.
Para Jean Starobinski, a austeridade ostensiva de Rousseau servia tanto como demonstração de virtude, ao modo estoico ou cínico, para chamar a atenção à desigualdade social, quanto como expressão de fidelidade à sua origem. O crítico relaciona essa escolha a uma carta que Rousseau escreveu ao pai aos dezenove anos: «Prefiro uma liberdade obscura a uma escravidão brilhante».
A mudança no modo de vestir é vista por alguns estudos sobre a história da moda como um exemplo inicial da chamada Grande Renúncia Masculina.

Em abril de 1756, Madame d'Épinay pôs à disposição de Rousseau o Ermitage, pequena casa à margem da floresta de Montmorency. Ele se mudou para lá com Thérèse e a mãe dela e começou a escrever Júlia ou A Nova Heloísa e seu Dictionnaire de musique. A pedido de Louise Dupin, organizou também manuscritos políticos do abade de Saint-Pierre. No início de 1757, Diderot lhe enviou o drama Le Fils naturel, no qual um personagem sustenta que o homem bom vive em sociedade e só o mau se isola. Rousseau entendeu a frase como crítica à sua escolha de vida, e os amigos tiveram uma primeira discussão.
Naquele verão, Diderot enfrentava dificuldades para continuar a publicar a Encyclopédie em Paris. Grimm e Saint-Lambert, mobilizados pela Guerra dos Sete Anos, confiaram a Rousseau a companhia de suas respectivas companheiras, Madame d'Épinay e Sophie d'Houdetot. Rousseau apaixonou-se por esta última, em quem via traços da heroína de A Nova Heloísa; a relação foi intensa, embora provavelmente platônica. Rumores chegaram a Saint-Lambert, e Rousseau responsabilizou Diderot, Grimm e d'Épinay por indiscrições. As amizades se desfizeram. Madame d'Épinay pediu-lhe que deixasse o Ermitage, o que ele fez em 15 de dezembro de 1757.

Em dezembro de 1757, Rousseau instalou-se no Petit Mont-Louis, em Montmorency, na casa hoje integrada ao Museu Jean-Jacques Rousseau. O primeiro museu dedicado a ele na cidade foi criado em 1898, em outro edifício; a sede atual foi inaugurada em 1952. Afligido por cálculos urinários e cada vez mais cioso da própria independência, tornou-se retraído e recusou ofertas de ajuda. Contou, porém, com a amizade e a proteção do marechal de Luxemburgo e de sua segunda esposa. Prosseguiu o trabalho literário e a cópia de partituras; em maio de 1758, recebeu a visita de Giacomo Casanova, acompanhado de Madame d'Urfé.
Em 1759, Rousseau tratou com o editor Marc-Michel Rey da publicação de Júlia ou A Nova Heloísa. As primeiras provas chegaram a Montmorency em abril de 1760, e o autor supervisionou doze gravuras destinadas a ilustrar o romance. Publicado em fevereiro de 1761, o livro tornou-se um grande sucesso editorial: segundo Raymond Trousson, teve 72 edições até 1800.
Em março de 1761, Rousseau publicou o Projet de paix perpétuelle. Em maio, sofreu intensamente com cálculos urinários e temeu morrer. Organizou então a edição de suas obras completas e procurou assegurar o sustento de Thérèse. Depois de uma sondagem em 18 de junho, recuperou-se aos poucos.
Rousseau entregou Do Contrato Social ao livreiro Marc-Michel Rey e, no outono de 1761, confiou Emílio, ou Da Educação aos livreiros Duchesne, de Paris, e Néaulne, de Amsterdã. Ambos os livros saíram em 1762 com a tolerância de Malesherbes, então responsável pela censura dos livros. Na Profissão de fé do vigário saboiano, incluída no livro IV de Emílio, Rousseau contestou tanto o ateísmo e o materialismo de enciclopedistas quanto a intolerância religiosa dos devotos. Em Do Contrato Social, situou o fundamento da comunidade política na soberania popular e na igualdade dos cidadãos perante as leis, expressões da vontade geral. A obra influenciaria debates que antecederam a Revolução Francesa. As duas publicações, contudo, expuseram Rousseau à condenação das autoridades de Paris e Genebra.
Em 9 de junho de 1762, o Parlamento de Paris determinou a apreensão e a queima de Emílio e ordenou a prisão de Rousseau, criticando especialmente a religião natural defendida na obra. Com a ajuda do marechal de Luxemburgo, Rousseau fugiu da França e se refugiou em Yverdon, na casa de Daniel Roguin. Em Genebra, o Pequeno Conselho condenou Emílio e Do Contrato Social a serem rasgados e queimados, respectivamente por suas posições religiosas e políticas; decretou ainda que Rousseau fosse preso caso entrasse no território genebrino. Durante a fuga, escreveu Le Lévite d'Éphraïm.
Após um decreto de expulsão de Berna, Rousseau deixou Yverdon e foi para Môtiers, no principado de Neuchâtel, onde se hospedou com Madame Boy de la Tour. A região estava sob a autoridade do rei Frederico II da Prússia, a quem Rousseau pediu asilo. O rei o acolheu sob a condição de que não escrevesse sobre temas delicados e sugeriu ao governador George Keith que lhe concedesse cem escudos. Rousseau recusou a oferta, declarando que preferia alimentar-se de ervas e raízes a aceitar o pão do rei.
Em carta de agosto de 1762 ao pastor Frédéric-Guillaume de Montmollin, de Môtiers, Rousseau reafirmou sua ligação com a religião reformada, para desagrado das autoridades genebrinas e dos filósofos que continuavam a atacá-lo, entre eles Voltaire e d'Alembert. Continuava a sofrer com cálculos urinários e precisava submeter-se a sondagens. Adotou então uma longa túnica armênia, mais confortável para lidar com a doença. Escreveu Pygmalion, peça em um ato considerada um dos primeiros melodramas musicais, sobre a relação do artista com sua criação. Começou ainda Émile et Sophie, ou les Solitaires, continuação romanceada de Emílio que deixou inacabada.
Emílio foi incluído no Índice dos Livros Proibidos em setembro de 1762. Christophe de Beaumont, arcebispo de Paris, condenou as ideias da Profissão de fé do vigário saboiano, parte da obra. Rousseau respondeu na Lettre à Christophe de Beaumont, publicada em março de 1763, com críticas à Igreja Católica. Seu tom contrário ao papado não satisfez o Pequeno Conselho de Genebra, que exigia uma retratação pública. Rousseau renunciou à cidadania genebrina em 12 de maio de 1763. Nesse período, interessou-se cada vez mais por botânica e entregou a um editor o Dictionnaire de musique, fruto de dezesseis anos de trabalho.

O conflito com Genebra se intensificou quando Jean Robert Tronchin, procurador-geral do Pequeno Conselho, publicou Lettres écrites de la campagne em outubro de 1763 para defender o poder dos patrícios. Incentivado por representantes genebrinos que contestavam a legalidade de sua condenação, Rousseau escreveu as Lettres écrites de la montagne. Nelas defendeu as ideias religiosas do vigário saboiano e retomou o argumento de Do Contrato Social de que os governos tendem a se afastar de seus princípios. Apoiou o Conselho Geral, expressão do povo soberano, contra o direito de veto do Pequeno Conselho. Escritas em segredo entre outubro de 1763 e maio de 1764, as nove cartas foram publicadas por Marc-Michel Rey em Amsterdã, em dezembro de 1764. Foram queimadas em Haia e Paris e proibidas em Berna no início de 1765.
Foi nessa ocasião que Voltaire, em meio à disputa com Rousseau, publicou anonimamente, em 31 de dezembro de 1764, Le Sentiment des citoyens, um panfleto que insultava Rousseau, revelou o destino de seus filhos e sugeriu que ele merecia a pena de morte. Montmollin, pastor de Môtiers que o recebera, tentou excomungá-lo, sem sucesso. Protegido por um decreto de Frederico II da Prússia, Rousseau dedicou-se à botânica e trabalhou no Projeto de constituição para a Córsega. Montmollin passou a chamá-lo de Anticristo, e moradores chegaram a atirar pedras contra ele. Em 10 de setembro de 1765, Rousseau refugiou-se na ilha de São Pedro, no Lago de Bienna. O governo bernês o expulsou em 24 de outubro. Antes de partir, entregou ao amigo Du Peyrou uma mala com seus manuscritos, rascunhos e cartas.
Convencido de que havia uma conspiração contra si, Rousseau começou a escrever As Confissões para se justificar. Esteve em Paris em novembro e dezembro de 1765 e hospedou-se no Temple sob a proteção do príncipe de Conti. Ali gozava de um privilégio de extraterritorialidade. O príncipe pediu que não escrevesse, mas permitiu que recebesse visitantes, sobretudo mulheres da sociedade, das nove horas ao meio-dia e das seis às nove da noite. Sua popularidade continuava grande.

A convite de David Hume, ligado à embaixada britânica em Paris, Rousseau chegou à Inglaterra em 10 de janeiro de 1766. Thérèse o acompanhou um mês depois, escoltada por James Boswell. Em Londres, despertou curiosidade e foi retratado por Allan Ramsay em suas roupas armênias. Richard Davenport hospedou-o em Wootton Hall, a cerca de 200 km de Londres, de 22 de março de 1766 até o início de maio de 1767. Ali trabalhou nos primeiros capítulos de As Confissões. Suas suspeitas aumentaram, e ele se convenceu de que Hume participava de uma conspiração contra ele.
Em março de 1766, Rousseau tomou conhecimento de uma falsa carta atribuída ao rei da Prússia que circulava havia meses nos salões parisienses. O texto o ridicularizava; a princípio, ele parece ter acreditado em sua autenticidade, pois entre seus papéis se encontrou um esboço de resposta. Depois suspeitou de d'Alembert e de Hume. O autor era, porém, Horace Walpole, que escrevera a sátira após uma reunião na casa de Madame Geoffrin e a fizera circular como uma brincadeira. A divulgação indignou admiradoras de Rousseau, entre elas Madame de Boufflers. O Saint James's Chronicle reproduziu a carta e outros textos satíricos, incluindo a Lettre au docteur Jean-Jacques Pansophe, de Voltaire.

Desconfiado, Rousseau passou a acreditar que Hume participava de uma perseguição organizada contra ele, mesmo enquanto o escocês negociava uma pensão real em seu favor. Cerca de seis meses após sua chegada à Inglaterra, a relação entre os dois estava rompida. Em 10 de julho de 1766, Rousseau escreveu uma Lettre à David Hume, cuja circulação provocou escândalo nas cortes europeias e levantou questões sobre a posição pública dos escritores. Voltaire e outros adversários de Rousseau comemoraram a ruptura; amigos que haviam recomendado a hospitalidade de Hume ficaram consternados. Receando que as Confissões prejudicassem sua reputação, Hume publicou em outubro o Exposé succinct de la contestation qui s'est élevée entre M. Hume et M. Rousseau, avec les pièces justificatives, com a correspondência entre os dois. Enquanto alguns filósofos censuravam Rousseau, outros panfletos o defenderam, entre eles um livro de Johann Heinrich Füssli.

Em janeiro de 1767, Rousseau recusou as pensões que lhe propunham Catarina II da Rússia, em São Petersburgo, e Victor Riqueti de Mirabeau, na França. Acreditando estar prestes a ser alcançado por seus perseguidores, deixou apressadamente a casa de Davenport em 30 de abril. Após alguns dias de deslocamentos, partiu da Inglaterra em 21 de maio.

Em maio de 1767, ainda ameaçado por uma ordem de prisão do Parlamento de Paris, Rousseau regressou à França. Hospedou-se inicialmente com Mirabeau em Fleury-sous-Meudon e, em junho, aceitou a hospitalidade do príncipe de Conti no castelo de Trye, perto de Gisors, no departamento de Oise. Usou o nome Jean-Joseph Renou, adotando o sobrenome de solteira da mãe de Thérèse. Muito abalado, não queria ler nem escrever e passou a desconfiar até de amigos próximos, como DuPeyrou, que o visitou em novembro.
Em janeiro de 1768, o Pequeno Conselho de Genebra pediu a Rousseau que ajudasse a apaziguar o conflito com os representantes do povo no Conselho Geral. Ele aconselhou moderação, e em 11 de março as partes chegaram a um acordo, após cinco anos de agitação. Em 14 de junho, deixou Trye e seguiu para a região de Grenoble, onde coletou plantas na companhia de Michel Servan. Sua presença tornou-se conhecida e atraiu multidões pelo caminho.
Thérèse reencontrou Rousseau em Bourgoin no fim de agosto de 1768. Em 30 de agosto, após mais de duas décadas de convivência, declararam-se casados numa cerimônia simbólica diante de testemunhas. A união não tinha validade jurídica ou religiosa na França da época. Ele voltou a usar seu nome e, em janeiro de 1769, mudou-se para a fazenda de Monquin, em Maubec. Ali retomou a escrita de As Confissões e continuou a coletar plantas.

Rousseau deixou o Delfinado em 10 de abril de 1770, passou algumas semanas em Lyon e chegou a Paris em 24 de junho. Instalou-se no quinto andar do hotel Saint-Esprit, na rua Plâtrière. Mantinha-se copiando partituras. A fama atraía visitantes, entre eles o príncipe de Ligne, o duque de Alba, o duque de Croÿ e o conde de Crillon.
Em sessões que chegavam a durar 17 ou 18 horas, Rousseau lia nos salões a primeira parte das Confissões, sobre os anos de 1712 a 1740. Começou no salão da condessa de Egmont, diante de um público que permaneceu constrangido e em silêncio. Receosa das revelações sobre antigos amigos, Madame d'Épinay conseguiu que Antoine de Sartine, então chefe da polícia parisiense, proibisse as leituras.
Na política, Rousseau continuou a rejeitar o governo da nobreza sobre o povo. Assim como contrariara as expectativas do conde de Buttafoco em seu Projet de constitution pour la Corse (1765), recusou o plano de restauração monárquica apresentado pelo jovem rei Gustavo III da Suécia em fevereiro de 1771. Nas Considérations sur le gouvernement de Pologne, entregues a Michał Wielhorski em junho daquele ano, condenou a política russa de desmembramento da Polônia. Alfred Dufour contrapõe sua posição à imagem de uma Polônia anárquica, feudal e atrasada difundida por defensores do Iluminismo e dos monarcas esclarecidos. Diferentemente da posição de Do Contrato Social, Rousseau admitiu então a representação política, mas recomendou uma economia mais próxima da antiga Esparta do que das nações modernas.
Convencido de que seus inimigos conspiravam contra ele, Rousseau se afastou dos amigos e recusou mesmo as tentativas de explicação daqueles que lhe eram mais próximos. Continuou a coletar plantas nos parques e no Bosque de Bolonha, às vezes com Malesherbes ou Bernardin de Saint-Pierre. Escreveu para Madame Delessert uma série de cartas com lições de botânica destinadas à filha dela, Madelon, as Lettres sur la botanique, e preparou um Dictionnaire des termes d'usage en botanique.
A partir de 1774, Rousseau esboçou uma ópera intitulada Daphnis et Chloé e musicou cerca de cem canções, publicadas depois de sua morte como Consolations des misères de ma vie. No ano seguinte, aproximou-se de Christoph Willibald Gluck, admirador de Le Devin du village. Comentou as óperas Orphée e Alceste, mas rompeu com o compositor poucos meses depois por suspeitar que também participasse da suposta conspiração.

Enquanto completava as Confissões, sobre os anos de 1741 a 1765, Rousseau escreveu secretamente Dialogues ou Rousseau juge de Jean-Jacques (1772–1775). Na obra, ele conversa com um francês imaginário sobre o escritor que todos comentam e que se considera vítima de uma conspiração dirigida por Grimm e Diderot. Descreve-o como alguém que, em público, seria cercado e tratado como um doente contagioso. Em fevereiro de 1776, tentou depositar o manuscrito no altar da catedral de Notre-Dame, confiando-o à Providência, mas encontrou a entrada fechada. Entregou-o então a Condillac, que o recebeu como texto literário e não percebeu o pedido de ajuda. Rousseau escreveu ainda um apelo intitulado À tout Français aimant encore la justice et la vérité e tentou distribuí-lo aos passantes, sem resultado. Um desentendimento encerrou sua amizade de 25 anos com Madame de Créqui e aumentou seu desespero.
Em 24 de outubro de 1776, um cão que corria à frente de uma carruagem derrubou Rousseau, que sofreu um ferimento na cabeça. Enquanto se recuperava, jornais chegaram a anunciar erroneamente sua morte. Ele continuou a escrever Os Devaneios do Caminhante Solitário, obra que deixaria inacabada. Em 20 de maio de 1778, aceitou o convite do marquês de Girardin e instalou-se em um pavilhão em Ermenonville, onde passou as últimas seis semanas de vida. Os jardins da propriedade haviam sido inspirados por Júlia ou A Nova Heloísa.

Em 2 de julho de 1778, depois do passeio matinal, Rousseau passou mal e morreu em seu pavilhão em Ermenonville. O relato citado por Raymond Trousson menciona dores no peito e uma forte dor de cabeça e considera possível um acidente vascular cerebral; o diagnóstico retrospectivo permanece incerto.
No dia seguinte à morte de Rousseau, Jean-Antoine Houdon moldou sua máscara mortuária. O marquês de Girardin mandou embalsamar o corpo, que foi colocado em um caixão de chumbo e sepultado em 4 de julho na ilha dos Choupos, em sua propriedade. A hipótese de suicídio divulgada por Olivier de Corancez deu origem a uma controvérsia sem base conclusiva. O relatório da autópsia publicado no Journal de Paris em 20 de julho não encerrou os rumores. Girardin apresentou uma versão idealizada dos últimos momentos de Rousseau na Lettre à Sophie, publicada em 1779.

A memória de Rousseau logo se tornou objeto de um verdadeiro culto, e relatos hagiográficos se multiplicaram. O túmulo erguido às pressas por Girardin foi substituído em 1780 por um monumento desenhado por Hubert Robert e executado por Jacques-Philippe Le Sueur. Os baixos-relevos do sarcófago mostram uma mulher amamentando e lendo Emílio, além de alegorias da liberdade, da música, da eloquência, da natureza e da verdade. No frontão figura seu lema latino, vitam impendere vero ('dedicar a vida à verdade'); na face norte lê-se 'Aqui repousa o homem da Natureza e da Verdade'. Em junho de 1780, Maria Antonieta visitou o túmulo com príncipes e princesas; visitantes franceses, prussianos e ingleses também passaram a frequentá-lo. Surgiram rituais em torno do monumento, venerado como um lugar sagrado e visitado ao luar.
A publicação de Rousseau juge de Jean-Jacques em 1780 expôs ao público suas ideias de perseguição. A primeira parte das Confissões, publicada em 1782, também recebeu críticas. Isso não impediu o crescimento do culto à sua memória nem a ampla circulação de seus retratos, comparável à dos retratos de Voltaire, morto cinco semanas antes dele.
A sensibilidade de Rousseau marcou sua obra e, em parte, seus conflitos pessoais. David Hume afirmou que ele sentia tudo com intensidade incomum, sofria mais agudamente do que desfrutava e se assemelhava a um homem privado não só das roupas, mas também da pele, exposto às adversidades. Para Bertrand Russell, tratava-se do retrato mais favorável de seu caráter que ainda podia ser considerado próximo da verdade.

Rousseau não teve formação escolar em filosofia. Segundo Bertrand Russell, não era filósofo no sentido profissional atual, mas exerceu forte influência na filosofia, na literatura, no gosto e na política. Formou-se por leituras, entre elas as obras de René Descartes, John Locke, Nicolas Malebranche, Gottfried Wilhelm Leibniz, a Lógica de Port-Royal e os autores do direito natural. Já no Discurso sobre as Ciências e as Artes, que o tornou conhecido, afirmou não ser filósofo de profissão e demonstrou desconfiança de alguns autores que adotavam esse título. Escreveu: "Há em todos os tempos homens criados para ser subjugados pelas opiniões de seu século, de seu país, de sua sociedade: tal faz hoje o espírito forte e o filósofo, que, pela mesma razão, teria sido apenas um fanático do tempo da Liga. Não se deve escrever para tais leitores, quando se quer viver além de seu século".
Três aspectos do pensamento de Rousseau são particularmente importantes:
Em seus escritos políticos, Rousseau deu continuidade a questões tratadas por Jean Bodin à luz do direito natural moderno.Mairet, 2013, p. 44 Criticou Hugo Grócio, Samuel von Pufendorf e John Locke por considerarem naturais paixões que, a seu ver, eram produtos da história.Lepan, 2015, p. 45 A necessidade de obter alimento e abrigo tende, no estado inicial que imaginou, a separar os indivíduos: ela não os reúne, como pensava Pufendorf, nem os põe em conflito permanente, como sustentava Hobbes.Mairet, 2013, p. 50

Em 1749, a caminho de uma visita a Diderot, então preso em Vincennes, Rousseau leu no Mercure de France que a Academia de Dijon promovia um concurso sobre a questão: «O restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para aprimorar ou corromper os costumes?»Scott, 2012, p. XVIILepan, 2015, p. 24 A leitura provocou a chamada «iluminação de Vincennes», momento que ele descreveu como um turbilhão de ideias e que mudaria o rumo de sua vida.Scott, 2012, p. XXI Diderot o incentivou a defender uma posição contrária à opinião corrente.Lepan, 2015, p. 24 O Discurso, premiado em 1750, provavelmente saiu em janeiro de 1751, embora sua página de rosto trouxesse o ano do prêmio.

No Discurso sobre as Ciências e as Artes, Rousseau contrapõe-se a Montesquieu, Voltaire e David Hume, para quem o desenvolvimento das artes e das ciências representava um avanço. Situa o renascimento das artes após a queda de Constantinopla, quando estudiosos gregos chegaram à Itália. Inspirado por Tito Lívio, Tácito e Plutarco, faz uma crítica da artificialidade da sociedade moderna. Toma como modelos a antiga Esparta e a República Romana antes do Império; em contraste, considera a Atenas do Século de Péricles demasiado voltada ao comércio, à literatura e às artes, que, segundo ele, favoreciam a corrupção dos costumes.
Seu argumento distingue as artes e ciências úteis das que considera fúteis, valoriza o gênio criador e critica o luxo por corromper a virtude. Atribui origens pouco nobres a vários campos de conhecimento: a astronomia teria nascido da superstição; a eloquência, da ambição e da lisonja; e até a moral, do orgulho humano. Ainda assim, diferencia os saberes ligados aos ofícios e ao trabalho manual, então desprezados, daqueles voltados apenas ao prestígio social. Para ele, a virtude é uma «ciência sublime das almas simples», aprendida ao ouvir a consciência quando as paixões se calam.
Rousseau distingue o criador excepcional, que resiste à corrupção social, do autor preocupado em agradar ao mundo elegante. Censura Voltaire por sacrificar, em sua opinião, a força da escrita à delicadeza e à galanteria. Reconhece, porém, o valor de figuras como Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton, que contribuíram para o conhecimento humano.
Rousseau considera o luxo, associado ao comércio e ao dinheiro, contrário à virtude: observa que os políticos antigos falavam de costumes e virtude, enquanto os de seu tempo se concentravam no comércio e nas finanças. A seu ver, o luxo amplia as desigualdades e degrada os costumes. Nisso discorda de Bernard Mandeville, dos fisiocratas, de Voltaire, que no poema Le Mondain defende o supérfluo, e de David Hume, que via no consumo de luxo um estímulo econômico. Ele indaga que destino restaria à virtude se fosse preciso enriquecer a qualquer preço.
Antes do Discurso sobre a desigualdade, Rousseau já expunha no prefácio de Narcisse (1752) uma ideia central de seu pensamento político: numa sociedade em que a riqueza acumulada facilita o enriquecimento dos que já possuem bens e torna difícil aos demais adquirir alguma coisa, os vícios decorrem sobretudo das formas de governo.Launay, 1971, p. 180


Em 1755, Rousseau publicou o Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Para investigar a origem das desigualdades, imagina um estado de natureza que talvez jamais tenha existido historicamente e pergunta como seres humanos naturalmente bons se tornaram capazes do mal. A mudança decorreria do processo histórico e das instituições sociais, políticas e econômicas, não de uma natureza humana originalmente perversa nem de uma falha de Deus. Sua ideia de um ser supremo criador de uma natureza regida por leis convive com a possibilidade de estudá-las cientificamente. Em comparação com o primeiro Discurso, a explicação da desigualdade assume um caráter mais econômico e político. Rousseau defende a liberdade e a igualdade, mas reconhece a tensão entre elas: a propriedade, que ele também chamou de direito fundamental do cidadão, pode aprofundar diferenças de riqueza. Descreve a progressão da desigualdade até a relação entre senhor e escravo, estágio que pode terminar com a dissolução violenta do governo.
Rousseau contesta a ideia aristotélica de que o ser humano é por natureza um animal social. Sua capacidade de se aperfeiçoar permitiu a socialização e o afastou do estado de natureza, mas também deu origem a novos males. O discurso termina reconhecendo que esse estado original não pode ser recuperado e imaginando uma sociedade em que as diferenças de condição guardassem relação com as diferenças naturais de aptidão.
Nas Confissões, Rousseau contou que Diderot apreciava esse livro mais do que seus outros escritos e que seus conselhos haviam sido especialmente úteis. Há afinidades entre o discurso e o verbete «Autorité politique», escrito por Diderot para a Encyclopédie, sobre a usurpação do poder, o direito de resistir à tirania e a soberania do povo; isso sugere que os amigos discutiram tais questões.
Segundo Jean Starobinski, o discurso reconta em termos filosóficos uma história das origens que lembra a do Éden, com a perda da inocência e a transformação das relações humanas. O mal inclui tanto o sofrimento interior de que tratavam os estoicos quanto a alienação: o indivíduo passa a depender excessivamente do olhar dos outros e se afasta de si mesmo.
Voltaire, a quem Rousseau enviara o livro, respondeu com ironia. Disse que ninguém havia empregado tanto engenho para fazer os homens desejar andar sobre quatro patas, embora ele próprio já tivesse perdido o hábito havia mais de sessenta anos.

No verbete Économie politique, publicado em 1755 na Encyclopédie e separadamente em 1758 sob o título Discours sur l'économie politique, Rousseau examina a administração econômica e critica Jean-François Melon e Bernard Mandeville. Propõe regras fiscais para reduzir a desigualdade: quem só dispõe do necessário não deveria pagar impostos, ao passo que a contribuição dos ricos poderia alcançar o excedente. Para ele, os tributos também deveriam desencorajar o luxo e favorecer a produção e o sustento dos menos favorecidos.
Ao tratar da educação patriótica, Rousseau argumenta que o amor à pátria deve apoiar-se no respeito à liberdade e à propriedade de cada cidadão, para que a defesa da comunidade também corresponda a seus interesses. Defende ainda que as crianças aprendam a amar tanto a pátria quanto as outras pessoas.
Rousseau desenvolve ali a ideia de vontade geral em diálogo com o verbete Droit naturel, de Diderot, mas aos poucos se afasta da concepção deste.
Ao se mudar para o Ermitage em 1756, Rousseau levou manuscritos do abade de Saint-Pierre, morto em 1743. Madame Dupin lhe pedira que os preparasse para publicação. Entre os textos estavam o projeto de Polysynodie e o Projet de paix perpétuelle, que apostava nos interesses comerciais comuns dos Estados para preservar a paz. Rousseau examinou esse argumento e o considerou insuficiente, pois, a seu ver, governantes e ministros ainda tinham incentivos para expandir seu poder por meio da guerra.
Na Lettre à Voltaire sur la Providence, Rousseau respondeu ao Poème sur le désastre de Lisbonne, no qual Voltaire questionara a providência divina após o terremoto. Defendeu a crença na providência como fonte de consolo e atribuiu parte do sofrimento humano ao afastamento da natureza. Argumentou também que nossa visão limitada pode fazer a natureza parecer desordenada e convidou Voltaire a formular uma moral favorável à liberdade de consciência e contrária à intolerância. Voltaire acusou o recebimento da carta em setembro de 1756, mas só respondeu de modo indireto três anos depois, em Cândido. Rousseau ainda o admirava; as divergências se agravaram após a Carta a D'Alembert sobre os Espetáculos, contrária à criação de um teatro em Genebra.
Às vezes chamadas Lettres à Sophie, essas cartas foram escritas após a paixão de Rousseau por Sophie d'Houdetot, que ele recordou nas Confissões. Nelas, procurou transformar o sentimento amoroso numa reflexão moral, propondo separar o amor do desejo físico para aspirar à perfeição.

Rousseau interessou-se cedo pelo teatro. Começou Narcisse ou l'Amant de lui-même em 1729, escreveu a comédia entre 1732 e 1740 e a viu ser apresentada na Comédie-Française em 18 de dezembro de 1752. Compôs também Les Prisonniers de guerre e o balé cantado Les Muses galantes, sem grande sucesso; em 1747, escreveu Arlequin amoureux malgré lui e L'Engagement téméraire. Com Le Devin du village (1752), alcançou popularidade em Paris. Experimentou ainda a tragédia em Iphis, La Découverte du Nouveau Monde e La Mort de Lucrèce, esta última inacabada.

O volume VII da Encyclopédie, publicado em 1757, trazia um verbete de d'Alembert sobre Genebra, talvez parcialmente inspirado por Voltaire. Nele, d'Alembert lamentava que a cidade não tivesse teatro e criticava a religião de pastores calvinistas que, segundo ele, haviam abandonado dogmas fundamentais. O texto irritou o governo genebrino. O teatro agradava a parte da elite, mas era visto por muitos cidadãos como um luxo caro. Rousseau respondeu em 1758 com a Carta a D'Alembert sobre os Espetáculos.
Rousseau apresenta o teatro como prática social capaz de corromper os costumes, em oposição à ideia de que a experiência estética necessariamente ensina a virtude. Retoma a crítica de Platão à arte que agrada à parte irracional da alma e procura antes de tudo satisfazer o público. A adequação de um espetáculo dependeria também dos costumes locais: algo aceitável em Paris, cidade de corte e monarquia, poderia prejudicar a pequena república de Genebra. Além de objeções morais, Rousseau aponta o custo de manter um teatro e dos ingressos pagos pelos cidadãos. A ideia de atores que representam convincentemente sentimentos que não experimentam, associada por Diderot à arte dramática, lhe parece um exercício de dissimulação. Em lugar do teatro, defende as festas públicas nas quais a própria população participa. A carta teve grande repercussão. D'Alembert respondeu educadamente; Voltaire e Grimm criticaram Rousseau; e as opiniões em Genebra permaneceram divididas. Apesar dessa crítica, Rousseau escreveu depois a peça musical Pygmalion.

Na primavera de 1756, depois de trabalhar no Projet de paix perpétuelle, Rousseau concluiu que uma reforma política exigiria mudar preconceitos e costumes. Embora antes tivesse criticado os romances lidos sobretudo por mulheres, decidiu escrever um para alcançar um público amplo, inclusive feminino. No segundo prefácio, argumenta que qualquer reforma dos costumes públicos deve começar na vida familiar. Em sua visão, o romance, ao acompanhar personagens comuns, podia tornar a virtude atraente aos leitores de um modo diferente do teatro.

Depois de experimentar a ficção em Les Amours de Claire et de Marcellin e Le Petit Savoyard ou la vie de Claude Noyer, Rousseau dedicou-se ao romance epistolar que se tornaria Júlia ou A Nova Heloísa, um dos grandes sucessos editoriais do século XVIII. Nas Confissões, afirmou que escrevera o livro para satisfazer pela ficção um desejo de amar que não conseguia realizar na vida. Nesse sentido, o romance também lhe serviu de consolo.
Com o romance, Rousseau procurou questionar as desigualdades sociais pela experiência afetiva dos leitores. A relação central contrapõe o amor às barreiras de riqueza e posição social. Uma fala de Julie defende a dignidade de uma mulher pobre e virtuosa diante de uma aristocrata sem virtude. A obra também critica os duelos, a carreira militar comprada e as conversas superficiais dos salões; discute a educação dos filhos, a relação entre patrões e empregados, a caridade, o suicídio, a administração da casa e da comunidade, a alimentação e os jardins. No quarto livro, aborda o colonialismo e as divisões sociais.
No romance, o jovem preceptor plebeu Saint-Preux e sua aluna Julie d'Étange se apaixonam. A diferença de posição social e de fortuna impede o casamento, e Julie aceita unir-se ao rico e ateu senhor de Wolmar, cerca de trinta anos mais velho. Rousseau separa, assim, o sentimento amoroso do compromisso matrimonial: embora Julie e Wolmar não se amem como amantes, a fidelidade ao vínculo assume para eles uma obrigação moral. Em Clarens, o casal organiza uma comunidade marcada pela moderação. Julie, porém, morre confessando que nunca esqueceu Saint-Preux. O livro manteve grande popularidade nos séculos XVIII e XIX.


Du contrat social, ou Principes du droit politique foi publicado em 1762. Rousseau planejara um livro abrangente sobre as instituições políticas, mas abandonou o projeto e se concentrou nos fundamentos teóricos do direito político. Diferenciou sua investigação daquela de Montesquieu, que, segundo escreveu em Emílio, examinara o direito positivo dos governos existentes. Para Gérard Mairet, o livro vincula desde o começo liberdade e verdade e toma a liberdade como direito inalienável. Rousseau sustenta que renunciar a ela é renunciar à própria condição humana.
O contrato social não designa necessariamente um documento formal assinado por pessoas. Expressa a ideia de que o poder legítimo não se apoia apenas numa alegação de direito divino ou natural de mandar: precisa da autorização dos governados.
Em Du contrat social, Rousseau procura responder ao que ele considera a questão fundamental da política: como conciliar a liberdade dos cidadãos com a autoridade do Estado, uma autoridade baseada na noção de soberania que ele retoma em Bodin.
Em oposição a Hugo Grócio e Thomas Hobbes, para quem uma pessoa poderia abrir mão da liberdade a fim de preservar a vida, Rousseau considera a liberdade inalienável. Também distingue o povo formado pelo pacto social daquele submetido pelo temor ao poder, como na interpretação de Hobbes. Michel Launay resume sua proposta como a tentativa de fazer o direito, fundado na liberdade individual, orientar os fatos políticos. Rousseau acusa Grócio e Hobbes de justificar a autoridade existente apenas por ela existir, método que considera favorável aos tiranos.
Para Rousseau, a associação política transforma os direitos de que as pessoas dispõem no estado de natureza. Nesse ponto, distancia-se da escola de direito natural de Pufendorf, Grócio, Burlamaqui e Jean Barbeyrac, que descrevia o direito político sobretudo como o direito das sociedades civis. Seu problema central é o fundamento do próprio Estado.
Para Gérard Mairet, a novidade do livro está em atribuir a soberania ao povo. Rousseau procurava impedir que os cidadãos dependessem do arbítrio dos governantes: numa carta a Mirabeau de 26 de julho de 1767, resumiu seu objetivo como o de colocar a lei acima dos homens. No início da obra, propõe buscar uma regra legítima de administração que considere as pessoas como são e as leis como podem ser, reunindo justiça e utilidade.
O Contrat social contém quatro livros. Os dois primeiros são dedicados à teoria da soberania e os dois últimos à teoria do governo.
Em uma nota, Rousseau adverte que a igualdade jurídica pode ser apenas aparente sob governos injustos: a lei pode manter o pobre na miséria e o rico na posse de bens adquiridos injustamente.
Michel Launay observa que Rousseau denuncia a igualdade apenas formal da ordem social, embora veja na lei uma proteção contra o despotismo. Essa tensão deu margem a interpretações divergentes da obra.
No livro I de Do Contrato Social, Rousseau contesta a ideia de que a força possa criar um direito de governar. Ao discutir os argumentos de Hugo Grócio sobre a escravidão, sustenta que uma pessoa não pode renunciar à liberdade em nome dos filhos e que a submissão imposta pela guerra não constitui um acordo legítimo. Sua crítica incide sobre as justificativas jurídicas da escravidão; o filósofo John Christman observa, contudo, que Rousseau quase não tratou da escravização praticada no comércio transatlântico de seu tempo.

Iniciado em 1758 e publicado em 1762, Emílio, ou Da Educação é um tratado sobre educação escrito também na forma de narrativa sobre o crescimento de um aluno imaginário. Sua proposta rompe com práticas pedagógicas tradicionais e, como em A República, de Platão, e As Aventuras de Telêmaco, de Fénelon, liga educação e política. Rousseau já tratara do assunto em 1740, no Mémoire présenté à M. de Mably sur l'éducation de M. son fils, em que se opunha aos castigos físicos e defendia a felicidade da criança como objetivo da formação.
Em Emílio, a educação se liga aos escritos políticos de Rousseau: uma mudança na vida privada e na formação das pessoas poderia ajudar a construir uma sociedade mais justa. Ele abre o livro com a ideia de que as instituições sociais moldam profundamente o ser humano.

Emílio parte da ideia de que a criança nasce sem vícios e de que é a experiência social que pode corrompê-la. Por isso, a primeira etapa deve ser de «educação negativa»: em vez de ensinar cedo conceitos abstratos de virtude e verdade, procura afastar o vício e o erro. Rousseau insiste em que a criança viva a infância de acordo com seu desenvolvimento, antes de assumir tarefas próprias dos adultos. Sua posição se opunha à transmissão precoce de conhecimentos defendida, entre outros, por Louise d'Épinay.
O livro acompanha cinco etapas de formação, correspondentes a seus cinco livros.
O livro I trata dos primeiros anos de vida. Rousseau defende que a mãe cuide e amamente a criança, em vez de entregá-la a uma ama de leite, como era comum nas cidades francesas de seu tempo. Critica também o cueiro apertado, que impedia os movimentos do bebê e facilitava que as cuidadoras o deixassem por longos períodos sem atenção.
O livro II acompanha a criança aproximadamente dos 2 aos 12 anos. Rousseau sustenta que ela deve receber o que precisa, e não tudo o que pede, e aprender pelas consequências das ações, em vez de agir apenas por obediência. Critica John Locke, em Some Thoughts Concerning Education (1693), por esperar cedo demais que as crianças respondam a argumentos racionais. Por isso, também adia a aprendizagem livresca de Emílio, afirmando que a leitura não deveria substituir a experiência direta na infância.
O livro III, sobre a faixa aproximada dos 12 aos 15 ou 16 anos, privilegia a curiosidade, os conhecimentos úteis e as habilidades práticas que permitem agir no mundo e sustentar a própria vida. A formação social também ganha espaço. O preceptor mostra a Emílio a igualdade fundamental entre as pessoas, sem tomar a posição social ou a fortuna como medida do valor humano. Rousseau lembra que a ordem vigente pode mudar por meio de revoluções.
O livro IV aborda a adolescência, quando razão e paixões entram em tensão. É então que a educação moral deve preparar o jovem para viver com outras pessoas. O objetivo é formar alguém capaz de conservar suas qualidades naturais dentro da sociedade. O livro trata ainda de religião e metafísica na Profissão de Fé do Vigário Saboiano, passagem publicada também separadamente.
Por fim, o livro V acompanha o jovem adulto no encontro com a política e com Sophie, sua futura companheira. Para Launay, essa parte introduz as obras políticas de Rousseau e evidencia a ligação entre suas reflexões morais, psicológicas e políticas.
O Parlamento de Paris condenou Emílio em 9 de junho de 1762, sobretudo por motivos religiosos. Apesar da proibição, o livro circulou amplamente e influenciou debates sobre educação e costumes. Trinta anos mais tarde, Louis-Sébastien Mercier o chamaria de obra que deveria ser consultada em todas as épocas; François-René de Chateaubriand também destacaria seu impacto na Europa moderna. Foi traduzido e lido fora da França.
Para Jean Fabre, a pedagogia posterior aproveitou várias ideias de Rousseau, entre elas as etapas de desenvolvimento da criança, a aprendizagem por atividade e a adequação do ensino às capacidades de cada idade.

A música foi uma vocação persistente de Rousseau. Aprendeu suas primeiras noções com Madame de Warens e, em Paris, sustentou-se por longos períodos como copista de partituras. Embora tenha contribuído para a discussão da música francesa, preferia a música italiana e era crítico de parte da tradição musical de seu país de residência.
Em 1749, Diderot convidou Rousseau a colaborar na Encyclopédie com verbetes sobre música, tarefa que ele aceitou com entusiasmo. O conjunto de textos atribuídos a Rousseau chega a 371 na lista da Wikisource; Michael O'Dea calcula aproximadamente 400, dependendo do critério adotado.
Rousseau compôs o balé operístico Les Muses galantes, apresentado a Alexandre de La Pouplinière e, mais tarde, à Ópera, sem alcançar o sucesso desejado. Também escreveu o melodrama Pygmalion, em que a orquestra responde à fala da personagem e exprime seus sentimentos, característica destacada por François-Joseph Fétis. Seu catálogo contém ainda fragmentos de outras composições e o Dictionnaire de musique, publicado em 1767, trabalho de que se orgulhava especialmente.
Le Devin du village (1752), um intermezzo pastoral, foi sua composição mais bem recebida. Paul Pittion considera simples sua escrita musical, mas reconhece encanto em trechos como a ária de Colin Je vais revoir ma charmante maîtresse e os versos de L'art à l'amour est favorable. A peça foi cantada por toda a França e agradou a Luís XV, que quis conceder uma pensão ao compositor. Rousseau não compareceu à audiência com o rei, decisão que causou uma de suas primeiras discussões com Diderot.
A avaliação posterior de Rousseau como compositor foi desigual. Hector Berlioz, em suas Mémoires, ironizou o orgulho que ele demonstrava por Le Devin du village, obra que Berlioz julgava musicalmente modesta diante da força de seus escritos.

Na história da música francesa, Rousseau é lembrado também por sua oposição a Jean-Philippe Rameau. Segundo Jean Malignon, a Querela dos Bufões reuniu críticos da ópera francesa com objetivos distintos: Diderot atacava a cultura da corte de Versalhes, Grimm questionava o gosto musical francês e Rousseau se opunha especialmente a Rameau.
Na Lettre sur la musique française (1753), Rousseau atacou a teoria da harmonia de Rameau, autor de Hippolyte et Aricie. Sustentou que o acompanhamento excessivamente completo e ruidoso podia enfraquecer a expressão musical e atribuiu essa característica à música francesa de sua época.
A conclusão da carta foi deliberadamente provocadora e causou escândalo; segundo Fétis, artistas da Ópera queimaram Rousseau em efígie. Rousseau chegou a afirmar que a língua francesa não favorecia a melodia nem a expressividade do canto e concluiu polemicamente que os franceses não tinham música própria.


Críticos posteriores contestaram esses ataques a Rameau. Jean Malignon chamou as objeções de Grimm e Rousseau de pouco sensatas. Berlioz suspeitou de ironia nos elogios que Christoph Willibald Gluck fez à música de Rousseau diante de Maria Antonieta. No início do século XX, Claude Debussy também ridicularizou a estética musical de Rousseau e suas críticas a Rameau.Claude Debussy, 1987, p. 203 e 246 O crítico Louis Laloy observou, em tom satírico, que Rousseau chamava de «gótica» a música que não sabia escrever. Antoine Goléa julgou sua atitude diante da harmonia e do contraponto retrógrada, embora reconhecesse a importância da discussão que suscitou.
Malignon, contudo, atribui valor à crítica teatral de Rousseau na Carta a D'Alembert sobre os Espetáculos, para além das disputas da Lettre sur la musique française. Na leitura do historiador, o ensaio questionou convenções da tragédia lírica e do espetáculo de corte.
Malignon observa que o modo como Rousseau fala da «alma» na música soava novo para sua época. Fétis também apresenta uma avaliação matizada: apesar de suas limitações em harmonia, contraponto e leitura de partituras, Rousseau exerceu influência sobre o gosto musical francês e formulou ideias estéticas que mereciam atenção.Fétis, 1867, p. 337
Anne-Marie Mercier-Faivre e Yannick Seité relacionam os registros de cantos de povos americanos feitos por Rousseau em seu Dictionnaire de musique à história da etnomusicologia; trata-se de uma interpretação historiográfica, não de uma designação usada por Rousseau.Mercier & Seité, 2001

Em 1763, Rousseau recebeu de um representante corso o pedido de elaborar um Projet de constitution pour la Corse para a ilha, cuja independência havia sido proclamada em 1755. O manuscrito ficou inacabado, mas leva em conta a economia rural e a pobreza locais.Trousson, 1989, II Rousseau recomenda fortalecer a agricultura para reduzir a dependência externa e formar cidadãos capazes de defender a comunidade. Ao comparar agricultura e comércio, sustenta que a primeira favorece a liberdade política, enquanto o segundo produz riqueza.
A pedido de patriotas poloneses apresentados a ele por intermédio do governo francês, Rousseau escreveu em 1771 as Considérations sur le gouvernement de Pologne. Diante da influência da Rússia no país, aconselhou os poloneses a preservar sua cultura e suas instituições para resistir à assimilação. Na obra, afirma que a educação deveria fazer a criança ver a pátria desde os primeiros anos e conservá-la em mente até a morte.

Os escritos botânicos de Rousseau incluem as Lettres élémentaires sur la botanique dirigidas a Madame Delessert (1771–1774), fragmentos de um dicionário com 184 termos, outros manuscritos, herbários e correspondência com estudiosos de vários países.
Admirador de Lineu, Rousseau desenvolveu uma relação própria com a história natural. Nas Confissões, descreveu o estudo das plantas como uma atividade especialmente próxima de seus gostos e as caminhadas no campo como uma coleta quase contínua de exemplares.
Durante o exílio em Môtiers, no cantão suíço de Neuchâtel, a partir de 1762, Rousseau passou a dedicar-se intensamente à botânica. Coletava plantas com Jean-Antoine d'Ivernois, Pierre-Alexandre DuPeyrou, Frédéric-Samuel Neuhaus e, sobretudo, Abraham Gagnebin, que o orientou nos primeiros estudos. Consultou obras de referência, como o Systema Naturae, de Lineu. Numa carta de 1765 a François-Henri d'Ivernois, brincou que sua paixão pela botânica aumentava a cada dia.
Na Inglaterra, em 1766, Rousseau conheceu a duquesa de Portland, também interessada em botânica. Enviou-lhe exemplares de seus herbários portáteis e manteve com ela uma longa correspondência.
Ele também correspondia com o botânico Marc Antoine Louis Claret de la Tourrette, o magistrado e botânico Chrétien-Guillaume de Lamoignon de Malesherbes e o abade François Rozier. Estes intercâmbios lhe permitiram consolidar seu domínio da identificação das plantas.

Por onde passou, Rousseau colheu, identificou e classificou plantas para seus herbários. Fez coletas na região da Grande Chartreuse em 1768, em Maubec e no monte Pilat em 1769 e, depois, nos arredores de Paris. Em Ermenonville, pouco antes de morrer, ainda saía para colher plantas com os filhos do marquês de Girardin e preparava novos herbários.
As descrições de Rousseau observam com cuidado as partes das plantas, como pétalas e pistilos, e expressam seu gosto pela natureza. Além de reunir termos botânicos de sua época, experimentou um sistema abreviado de anotações para registrar as observações mais rapidamente durante as caminhadas.
As oito Lettres élémentaires sur la botanique, escritas entre 1771 e 1774 a Madeleine-Catherine Delessert, destinavam-se a apresentar as plantas à filha dela, Madelon, então com cinco anos. Rousseau ensinava a observar as flores antes de memorizar seus nomes. Publicadas posteriormente, as cartas alcançaram leitores europeus no início do século XIX, quando muitos livros de botânica ainda se destinavam sobretudo a especialistas.

Rousseau deixou três grandes obras autobiográficas: As Confissões, Rousseau juge de Jean-Jacques e Os Devaneios do Caminhante Solitário, esta última inacabada.
Rousseau começou a escrever as Confissões em 1765 e trabalhou no texto até cerca de 1770. Recordou ali episódios de que se envergonhava, como a acusação injusta contra uma criada pelo roubo de uma fita, mas o livro é também um autorretrato, mais próximo nesse aspecto de Michel de Montaigne do que das confissões religiosas de Agostinho de Hipona. Seu propósito declarado era mostrar sua vida interior em todas as circunstâncias. Para Jean Fabre, a novidade da obra está em buscar revelar quem o autor foi, além do que fez ou pensou.
Fabre destaca ainda o papel da memória no livro: a recordação pode ganhar, para o autor, uma presença mais intensa que a experiência passada, enquanto a escrita lhe permite reviver e preservar momentos felizes.
Entre 1772 e 1776, Rousseau trabalhou em Rousseau juge de Jean-Jacques, também conhecido como Dialogues. Publicada parcialmente em 1780, a obra descreve uma suposta conspiração de Grimm, Voltaire, d'Alembert e Hume contra ele. O texto encena uma conversa entre «Rousseau», que defende a obra de «Jean-Jacques», e um personagem chamado «o francês», representante do público que não conhecia pessoalmente o escritor nem lera seus livros. Rousseau procura convencer esse interlocutor.
Os Devaneios do Caminhante Solitário foi escrito entre 1776 e a morte de Rousseau em 1778. A obra transforma a experiência individual em objeto de reflexão filosófica. Nela aparece uma tensão entre o projeto político de participação do cidadão na comunidade e a preferência pessoal do autor pela independência e pelo recolhimento. Em uma passagem, Rousseau diz nunca ter se adaptado plenamente às obrigações da vida em sociedade.
A relação dessas obras com o restante do pensamento de Rousseau é debatida. Para Alexis Philonenko, elas representam um retorno à reflexão sobre a existência individual; para Géraldine Lepan, completam o sistema de ideias iniciado com a «iluminação de Vincennes». Nessa segunda leitura, Rousseau continua a procurar o eu que as relações sociais deformam.
Nos últimos escritos, Rousseau descreveu as perseguições que acreditava sofrer havia décadas. Desconfiava até de amigos antigos e interpretava pequenos acontecimentos, como alterações nas provas de impressão de seu romance, como sinais de uma conspiração. A maioria dos estudiosos interpreta essas suspeitas como um quadro persecutório; alguns autores, entre eles Musset-Pathay e G. H. Morin, admitiram a possibilidade de uma perseguição política coordenada. Estudos sobre a formação da opinião pública no século XVIII também examinam os Dialogues como reflexão de Rousseau sobre o julgamento público de sua vida e obra.

Para George Armstrong Kelly, Rousseau aborda a história sobretudo por suas consequências morais: ela oferece exemplos e mostra como as capacidades humanas mudam diante das circunstâncias. Em vez de tomar o registro do passado como ponto de partida neutro, seleciona acontecimentos para discutir a condição humana. Em Emílio, considera que conhecer o passado também deve educar o caráter. Nisso se diferencia de d'Alembert, que atribuía à história a função de apresentar à posteridade um quadro mais distanciado de vícios e virtudes. Em sua Histoire de Lacédémone, Rousseau escreve: «Pouco me importa que me censurem por não ter a frieza recomendada aos historiadores [...] como se a principal utilidade da história não fosse ensinar todos os homens a amar ardentemente os bons e a odiar os maus.»
Para Jean Starobinski, a história conjectural de Rousseau reconta de modo filosófico a origem da vida social, em paralelo com temas do Gênesis, como o Éden, a queda e a confusão das línguas. O estado de natureza funciona como reconstrução imaginária, distinta do relato bíblico e da doutrina do pecado original formulada por Agostinho de Hipona. Rousseau, embora rejeite a ideia de uma culpa herdada no nascimento, menciona essa doutrina numa nota do Discurso sobre a desigualdade.
Para Victor Goldschmidt, Rousseau desenvolve o método conjectural de seus contemporâneos para explicar a passagem do estado de natureza à sociedade civil por causas naturais. Considera condições físicas, como saúde e semelhanças biológicas, capacidades como liberdade e perfectibilidade, e disposições morais como amor de si e compaixão.

Assim como Thomas Hobbes e John Locke, Rousseau usa o estado de natureza como ponto de partida para pensar a política, diferentemente da tradição antiga de Platão e Aristóteles. Não identificava com esse estado os povos indígenas americanos de seu tempo, que considerava já socializados. Seu ser humano natural era uma hipótese ainda mais remota, talvez sem correspondente histórico verificável. Descreveu-o como um animal fisicamente menos forte ou ágil do que alguns outros, mas bem organizado para sobreviver.
Segundo Goldschmidt, Rousseau distingue uma primeira passagem gradual do isolamento inicial a formas simples de convivência e, depois, transformações externas que levam à sociedade civil. A agricultura e a metalurgia favorecem a divisão do trabalho e a apropriação dos recursos; mudanças ambientais também alteram a vida comum. As novas dependências intensificam as paixões e conflitos. Antes do pacto político, Rousseau descreve quatro etapas:
No fim desse percurso, um primeiro pacto político põe termo à guerra, mas institucionaliza a desigualdade em favor dos ricos. Em Do Contrato Social, Rousseau procura formular um pacto legítimo, fundado na vontade geral, pelo qual cada pessoa disponha da força comum sem perder a liberdade. Goldschmidt ressalta que os dois relatos examinam a formação de relações desiguais, ainda que tenham funções distintas.
Goldschmidt destaca que Rousseau percebeu a força própria das estruturas sociais: elas se desenvolvem para além das intenções individuais, ao mesmo tempo que condicionam profundamente a vida das pessoas que delas participam.

Rousseau afirma repetidamente que o ser humano é bom por natureza, mas a sociedade pode corrompê-lo. Isso suscita uma pergunta: como o mal surge entre pessoas inicialmente boas? «Bom», aqui, não significa virtuoso desde o nascimento. Segundo John T. Scott, o ser humano vive inicialmente em equilíbrio entre suas necessidades, seus desejos e a capacidade de satisfazê-los. A dependência das outras pessoas pode desfazer esse equilíbrio.
Segundo Rousseau, as pessoas têm um instinto de conservação, o amor de si, e a capacidade de sentir compaixão pelo sofrimento alheio. O primeiro as leva a cuidar de suas necessidades; a segunda as impede de ser indiferentes aos outros. No Discurso sobre a desigualdade, a compaixão aparece como um impulso independente. Em Emílio e no Ensaio sobre a origem das línguas, relaciona-se mais diretamente ao amor de si, que Rousseau apresenta como origem das paixões.
A comparação com os demais faz surgir o amor-próprio, associado à busca de reconhecimento e à competição, inclusive para atrair um parceiro. Na nota 15 do Discurso sobre a desigualdade, Rousseau distingue o amor de si, ligado à conservação de cada ser, do amor-próprio, que nasce na sociedade e leva as pessoas a dar mais importância a si mesmas do que aos outros. Essa comparação pode alimentar conflitos, mas também, quando orientada pela educação e por boas instituições, participar da formação moral. Rousseau examina essas possibilidades em Emílio e em Do Contrato Social.
A competição por parceiros não explica sozinha os efeitos sociais do amor-próprio. Quando as pessoas passam a depender economicamente umas das outras, procuram bens e reconhecimento e podem se subordinar a outras pessoas para alcançá-los. Rousseau vê nessas relações uma ameaça à liberdade e ao respeito que cada pessoa tem por si mesma.

Ao contrário de Aristóteles e de modo comparável a Hobbes e Locke, Rousseau atribui às paixões um papel decisivo no desenvolvimento da razão. No estado de natureza que imagina, o ser humano tem poucos desejos e raciocina pouco. Não age mal por desconhecer o vício e manter paixões relativamente calmas, não porque já possua uma virtude moral elaborada. Rousseau sustenta que as paixões estimulam a inteligência: as pessoas procuram conhecer aquilo que desejam alcançar ou temem perder. As paixões, por sua vez, crescem com as necessidades e com o conhecimento do mundo. A capacidade de se modificar e aprender, que chama de perfectibilidade, distingue os seres humanos dos demais animais e se desenvolve conforme as circunstâncias. Essa capacidade não representa por si só progresso moral: pode levar tanto a aperfeiçoamentos quanto à corrupção.
Segundo George Armstrong Kelly, Rousseau atribui à consciência moral a capacidade de despertar no ser humano o senso de uma ordem mais ampla. O conhecimento, desligado dessa convicção íntima, pode se tornar apenas uma expressão do amor-próprio. A razão ajuda a compreender o que é justo, mas também pode ser usada para justificar interesses egoístas; a consciência leva a amar a justiça e a agir de acordo com ela. Em sua visão, essa disposição é difícil de preservar numa sociedade dominada pela competição.
Rousseau desenvolveu sua filosofia política sobretudo no Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, no Discurso sobre a economia política, em Do Contrato Social e nas Considérations sur le gouvernement de Pologne. Seu pensamento participa da tradição contratualista dos séculos XVII e XVIII e dialoga especialmente com Thomas Hobbes. Para Christopher Bertram, seu princípio central é que um Estado só é legítimo quando orientado pela vontade geral dos cidadãos.
Jean Fabre destaca a precisão com que Rousseau define termos como soberania, príncipe e governo, em contraste com o uso menos uniforme dessas palavras entre os juristas de sua época.
| Termo | Definição e significado em Rousseau |
|---|---|
| Amor à pátria | "Sentimento doce e vivo que une a força do amor-próprio a toda a beleza da virtude". Ajuda os cidadãos a seguir a vontade geral. |
| Corpo político | Rousseau compara-o a um "corpo organizado, vivo e semelhante ao do homem": o poder soberano é a cabeça, as leis e os costumes são o cérebro, os magistrados são os órgãos, a atividade econômica é a boca e o estômago, as finanças públicas são o sangue e os cidadãos são os membros. "O corpo político é, portanto, também um ser moral dotado de vontade." Forma-se por um contrato em que as partes se comprometem a cumprir as leis. |
| Corrupção do povo e dos dirigentes | Quando os interesses particulares se unem contra o interesse geral, os vícios públicos enfraquecem as leis mais depressa do que as leis conseguem reprimir os vícios. A corrupção chega então ao governo. |
| Governo | Embora não seja o senhor da lei, cabe-lhe garanti-la e dispõe de meios para fazer com que seja estimada. |
| Legislador | Seu primeiro dever é ajustar as leis à vontade geral. |
| Lei | Nasce da vontade geral, dirigida à conservação e ao bem-estar do todo e de cada parte. Serve de regra do justo e do injusto para os membros do Estado. Equivale à razão pública, em oposição à razão privada orientada por interesses particulares. |
| Soberania | Autoridade suprema da qual procede o poder legislativo. Rousseau transfere ao povo a "potência absoluta e perpétua" antes atribuída ao monarca.Mairet, 2013, p. 55 |
| Virtude | "Todo homem é virtuoso quando sua vontade particular concorda em tudo com a vontade geral." Seus princípios estariam inscritos em todos os corações. |
| Vontade geral | Busca "sempre a conservação e o bem-estar do todo e de cada parte". É a voz do povo quando este não se deixa conduzir pelos interesses particulares. |

A vontade geral é um conceito central da filosofia política de Rousseau. Para compreendê-lo, Patrick Riley propõe examinar separadamente as ideias de vontade e de generalidade.
Para Rousseau, como para outros autores que refletiram sobre o livre-arbítrio desde Agostinho de Hipona, a vontade precisa ser livre para ter valor moral. Liberdade significa, em primeiro lugar, não estar sujeito à autoridade pessoal de outro, seja por força, seja por dependência. Rousseau, porém, não supõe que a vontade se oriente sozinha para o bem: legisladores como Moisés, Numa Pompílio e Licurgo de Esparta, assim como educadores, podem ajudá-la a formar-se sem destruir sua liberdade.
A expressão «vontade geral» aparecia antes em Antoine Arnauld, Blaise Pascal, Malebranche, François Fénelon, Pierre Bayle e Gottfried Wilhelm Leibniz, frequentemente em referência à vontade divina. Rousseau aplicou-a à vontade dos cidadãos. Também se afastou de Diderot, que no verbete «Droit naturel» da Encyclopédie defendia uma vontade geral de toda a humanidade e uma moral universal. Rousseau ressaltou, ao contrário, os costumes e as instituições próprios de cada comunidade, como Roma, Esparta ou Genebra.

Christopher Bertram identifica duas leituras possíveis da vontade geral: numa interpretação democrática, ela decorre das decisões dos cidadãos; em outra, designa o interesse comum considerado independentemente da soma dos interesses particulares. A primeira leitura se apoia sobretudo no livro II, capítulo 3, de Do Contrato Social, onde Rousseau discute como deliberar para reconhecer esse interesse.
As duas leituras podem ser conciliadas se, em condições adequadas de deliberação, os cidadãos chegarem a decisões que correspondam ao interesse comum. Rousseau, porém, não considera isso automático: diz que a vontade geral tende ao bem público, mas as deliberações do povo podem falhar.
A vontade geral não se confunde necessariamente com a opinião da maioria nem com a simples soma das vontades individuais. Jacques Julliard lembra a distinção feita por Rousseau: a «vontade de todos» agrega interesses privados; a vontade geral considera aquilo que os cidadãos têm em comum.
Rousseau teme que a retórica de oradores influentes ou a união de interesses particulares distorça a deliberação coletiva. Sua leitura crítica da democracia ateniense e sua oposição a facções e associações políticas devem ser entendidas nesse contexto.
No Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, Rousseau distingue dois sentidos de lei natural. Para os juristas romanos, ela descrevia relações estabelecidas pela natureza entre os seres vivos para sua conservação. Para autores modernos do direito natural, era uma regra dirigida a seres inteligentes, livres e capazes de relações morais. Rousseau observa que os filósofos divergiam sobre os fins naturais da humanidade e, portanto, sobre o conteúdo dessa lei. Segundo Victor Gourevitch, quando Rousseau fala de «lei natural», muitas vezes está examinando a doutrina de outros pensadores; para expor sua posição, prefere «direito natural».
O amor de si e a compaixão poderiam orientar a conduta no estado de natureza. Com a crescente dependência econômica entre as pessoas, porém, o amor-próprio ligado à comparação social pode se tornar egoísta. Gourevitch resume o problema de Rousseau: uma vez formada essa interdependência, não é possível restaurar espontaneamente, para toda a sociedade, o respeito natural aos outros.Gourevitch, 1997, p. XII
Rousseau distingue o direito natural do direito político, que trata dos princípios de um Estado bem constituído. A finalidade deste último não é retornar ao estado de natureza, mas estabelecer instituições nas quais as pessoas possam viver bem. Gourevitch identifica em sua obra três planos de justiça: a divina, a universal concebida pela razão e a humana, que precisa de reciprocidade dentro de uma comunidade política.Gourevitch, 1997, p. XIII Rousseau escreve: «O que é bom e conforme à ordem assim o é pela natureza das coisas e independentemente das convenções humanas. Toda justiça vem de Deus [...]. Talvez exista uma justiça universal emanada da razão apenas; mas, para ser admitida entre nós, essa justiça deve ser recíproca.»

Para Rousseau, a sociedade política nasce de convenção e consentimento, não de uma sociabilidade inevitável inscrita na natureza humana. Ele chama o corpo político resultante de povo ou república; denomina-o Estado quando considerado passivamente e soberano quando exerce sua vontade. O pacto legítimo deve reunir forças comuns para proteger a pessoa e os bens de cada associado, de modo que cada um, ao unir-se aos demais, obedeça a uma lei da qual participa como autor.

Em Júlia ou A Nova Heloísa, Rousseau apresenta o estudo do ser humano em suas diferentes relações como seu objetivo. Para Bruno Bernardi, o homem natural ainda não desenvolveu plenamente suas capacidades humanas, enquanto o homem civil pode perder algo de si ao adaptar-se à sociedade. A humanidade, portanto, é também uma possibilidade a construir, não um estado original a recuperar.
Rousseau distingue o cidadão, formado para contribuir para a comunidade política, da pessoa moral, que busca realizar suas capacidades humanas. Tzvetan Todorov identifica três caminhos possíveis em sua obra: a educação cívica e patriótica, apresentada nos textos políticos; o recolhimento do indivíduo solitário, explorado nas cartas a Malesherbes e nos Devaneios; e a formação moral universal proposta em Emílio. Esses caminhos mostram exigências distintas da vida humana, sem oferecer uma receita única para toda sociedade. A educação moral poderia reunir o reconhecimento de valores comuns à humanidade com o vínculo concreto do indivíduo à sua comunidade, suas instituições e seus costumes.
Para unir os cidadãos, Rousseau valoriza hábitos, crenças e práticas compartilhados. O patriotismo poderia favorecer a identificação com a vontade geral: no Discurso sobre a economia política, ele relaciona a virtude à concordância entre a vontade particular e o interesse da comunidade.
Em Rousseau, a justiça política exige reciprocidade entre os cidadãos. Como a liberdade e a igualdade naturais se alteram na vida social, as instituições precisam estabelecer uma igualdade jurídica capaz de proteger a liberdade. Em Do Contrato Social, o pacto substitui as diferenças físicas e de força por uma igualdade moral e legal entre os associados. Rousseau procura conciliar essa exigência de direito com os interesses de pessoas reais, de modo que justiça e utilidade não fiquem separadas.
Embora atribua ao povo uma soberania diferente daquela concebida por Hobbes, Rousseau também considera que a entrada na associação política transforma ou substitui os direitos naturais dos indivíduos, inclusive a possibilidade de controlar o soberano como se fosse um poder externo a eles.

Para Rousseau, o povo, enquanto soberano, estabelece as leis gerais que exprimem a vontade geral. O governo é um grupo menor encarregado da administração e da execução dessas leis, inclusive por meio de decretos para situações particulares.
Rousseau distingue a soberania legislativa do poder executivo: a primeira estabelece regras gerais, e o segundo as aplica a casos concretos. Teme que o governo acumule as duas funções e usurpe o poder do povo. Para Gourevitch, a tensão entre pessoas «como são» e leis «como podem ser» permanece um problema difícil mesmo numa comunidade bem organizada.
Rousseau considera extremamente difícil um governo executivo exercido diretamente por todo o povo: escreve que jamais houve uma democracia perfeita desse tipo. Essa afirmação não elimina seu princípio de soberania popular. Também critica a representação quando substitui a participação dos cidadãos na legislação. A seu ver, os ingleses só seriam livres no momento de eleger o Parlamento se depois não pudessem decidir as leis; a soberania, por ser expressão da vontade geral, não poderia ser simplesmente transferida aos deputados. Christopher Bertram ressalta, contudo, que o alcance de sua rejeição à representação é debatido.
Rousseau distingue formas natural, eletiva e hereditária de aristocracia. Rejeita a hereditária e vê a natural como possível apenas em comunidades muito pequenas. Prefere a aristocracia eletiva, na qual cidadãos considerados capazes são escolhidos para administrar a comunidade sob as leis estabelecidas pelo povo. Para funcionar, esse governo exige moderação dos ricos e que os pobres não sejam colocados numa situação de antagonismo permanente.
Nos conselhos à Polônia, Rousseau dá à educação cívica o papel de formar vínculos com a pátria desde a infância. Goyard-Fabre interpreta essa formação do senso cívico como uma proteção contra conflitos que ameaçariam a vida política.
Rousseau vê problemas na monarquia: o favorecimento de cortesãos pode afastar do governo as pessoas mais competentes. Julga ainda que ela tende a exigir mais recursos dos súditos e, por isso, só seria sustentável em Estados ricos.


A fé de Rousseau combinava elementos cristãos com uma crença em Deus apoiada na ordem da natureza, em diálogo com autores como Bernard Lamy e Nicolas Malebranche. Não era materialista nem seguia integralmente a ortodoxia protestante ou católica. Apresentava-se, contudo, como crente: em carta de 14 de fevereiro de 1769, exortou Paul Moultou a não abandonar a fé por influência da moda intelectual.
Rousseau rejeitava a doutrina do pecado original, pois ela lhe parecia responsabilizar a natureza humana por uma culpa anterior à experiência de cada pessoa. Suas dúvidas sobre a revelação divina, os milagres, a ressurreição e o inferno chocaram leitores de seu tempo. Na Profissão de fé do vigário saboiano, apresenta Jesus como um homem de virtude excepcional, sem aceitar todos os dogmas da tradição cristã.
Em vez de fundamentar a fé somente em provas filosóficas, Rousseau recorre ao sentimento diante da natureza, à consciência do bem e do mal e à aspiração a algo além da vida imediata. A Profissão de Fé do Vigário Saboiano, inserida no livro IV de Emílio, é uma das exposições mais diretas dessas ideias: nela, o narrador diz encontrar as regras morais gravadas no próprio coração, e não deduzi-las de um sistema abstrato.
Rousseau sabia que essa passagem poderia causar escândalo e atribuiu a profissão de fé a uma personagem, um vigário saboiano, em vez de apresentá-la diretamente como declaração pessoal. Nas Confissões, disse ter composto o personagem a partir de dois religiosos que conhecera na juventude. O recurso narrativo permitia-lhe expor ideias controversas sem afirmar que cada frase representava sua própria crença.

Rousseau discute a religião civil no livro IV, capítulo 8, de Do Contrato Social. Observa que, em comunidades antigas, legisladores e crenças religiosas ajudavam a dar autoridade às leis. Na sua avaliação, o cristianismo trouxe um conflito entre autoridade religiosa e poder civil ao orientar as pessoas para uma comunidade de fiéis que ultrapassava as fronteiras do Estado. Embora tenha difundido noções morais amplas, também podia dividir a soberania política.
Para reunir a comunidade política, Rousseau propõe uma profissão de fé civil com poucos princípios: a existência de uma divindade providente, a vida futura, a recompensa dos justos, a punição dos maus e a validade do pacto social e das leis. Rejeita a intolerância como dogma incompatível com essa religião civil. Sua proposta é coercitiva: admite expulsar quem se recuse a reconhecer esses princípios e até punir com a morte quem, após aceitá-los publicamente, aja contra eles.
Essa passagem provoca leituras opostas. Alguns críticos veem nela uma contradição entre a defesa da liberdade e a imposição de crenças sob ameaça de punição; outros ressaltam que Rousseau incluiu a condenação da intolerância entre seus princípios civis.
Rousseau considera frágeis as regras então chamadas de direito das nações, hoje parte do direito internacional, pois faltava um poder capaz de obrigar Estados soberanos a cumpri-las. Seus planos de federação europeia e de normas para limitar a guerra permaneceram incompletos. Para ele, a guerra ocorre entre Estados, entidades políticas, e não entre indivíduos enquanto tais; seu alvo é desarticular o poder do Estado inimigo, não matar uma população.

Até o início do século XX, muitos leitores separavam o talento literário de Rousseau de seu pensamento político e viam nas aparentes contradições da obra sinais de instabilidade pessoal. A edição mais completa dos textos políticos favoreceu interpretações de conjunto. Gustave Lanson e depois Ernst Cassirer, em Le problème Jean-Jacques Rousseau (1932), defenderam a unidade de seu pensamento; Victor Basch continuou a enfatizar sobretudo o poeta e romancista. Em Anthropologie et politique, Victor Goldschmidt também ressaltou a coerência de um método baseado em observação e raciocínio aplicado a temas diferentes. Robert Derathé e Alexis Philonenko viram os escritos como partes de um projeto ordenado.
John T. Scott propõe que algumas contradições sejam apenas aparentes. Para ele, a «bondade natural» em Rousseau não significa que o ser humano nasça virtuoso; designa um equilíbrio inicial entre necessidades, desejos e capacidade de satisfazê-los. A dependência em relação aos outros pode desmanchar esse equilíbrio e alimentar condutas prejudiciais.
As diferenças entre homens e mulheres ocupam lugar importante nos textos filosóficos e literários de Rousseau. Laurence Mall descreve suas opiniões sobre as mulheres como conservadoras mesmo para sua época, embora muito influentes. Em Le Lévite d'Éphraïm, contudo, Rousseau afirma que homens e mulheres só podem ser felizes juntos quando a mulher não é tratada como escrava nem como tirana, mas como igual.
Na dedicatória do Discurso sobre a desigualdade à República de Genebra, Rousseau elogia as mulheres como parte da comunidade cuja influência, segundo ele, favoreceria a paz e os costumes.
Suas posições mais controversas aparecem em Emílio, ou Da Educação. Rousseau atribui às mulheres a vida doméstica e a educação dos filhos, sustentando que sua formação deveria prepará-las para agradar, aconselhar e cuidar dos homens. Apresenta essas funções como decorrência de diferenças entre os sexos observáveis desde a infância, exemplificadas por sua descrição dos brinquedos preferidos por meninos e meninas.
Na interpretação de Laure Challandes, Rousseau atribui às meninas uma consciência precoce da própria posição sexual, enquanto os meninos só a desenvolveriam plenamente na adolescência. Na Carta a D'Alembert sobre os Espetáculos, ele ainda associa a virtude feminina ao recato e à vida doméstica e reprova a exposição pública das atrizes.

Essa concepção de papéis femininos como consequência da natureza foi criticada por autoras feministas. Em Reivindicação dos Direitos da Mulher (1792), Mary Wollstonecraft contestou Rousseau por tratar como natural aquilo que resultava da educação e dos costumes. Mais tarde, Simone de Beauvoir condensou uma crítica semelhante na frase «Não se nasce mulher: torna-se mulher», em O Segundo Sexo.
Há interpretações diferentes dessa parte de sua obra. Alguns estudiosos veem no modelo de casal proposto por Rousseau uma tentativa de dar coesão à sociedade, embora fundada em papéis rígidos. Outros apontam que os personagens de Júlia ou A Nova Heloísa nem sempre se ajustam a essas divisões: seus comportamentos apresentam ambiguidades e mudanças. Laure Challandes observa que o próprio manuscrito oscila entre atribuir à «natureza» ou à «sociedade» a diferença de ocupações de homens e mulheres, sinal de tensão no pensamento do autor.
John O'Neal destaca a troca de papéis esperados de homens e mulheres entre os personagens do romance. Em sua leitura, Julie frequentemente assume a posição dominante, enquanto Wolmar e Saint-Preux aparecem como figuras mais passivas.
O tema já aparecia em Narcisse ou l'Amant de lui-même, iniciado quando Rousseau era jovem. Sua comédia transforma o mito de Narciso: Valère se apaixona por um retrato de si próprio alterado para parecer uma mulher. Para Challandes, ele ocupa ao mesmo tempo o papel do amante e o do objeto feminino do amor. Em La Reine fantasque, a preferência por um sexo ou outro também é confrontada com a dificuldade de distingui-los por sinais seguros. Rousseau voltou a explorar ambiguidades semelhantes em Pygmalion.
Leituras feministas posteriores procuram compreender essa combinação de prescrições rígidas e ambiguidades literárias. Rosanne Terese Kennedy aponta uma ambivalência que identifica também no uso, por Rousseau, das roupas armênias; em Rousseau in drag, interpreta essa escolha como uma apresentação menos convencional da masculinidade.

Desde o século XIX, Rousseau recebeu críticas severas. Pierre-Joseph Proudhon chegou a chamá-lo de inimigo da Revolução, da República e do povo.
Em A History of Western Philosophy (1945), Bertrand Russell chamou Rousseau de precursor da filosofia política de «ditaduras pseudodemocráticas», em contraste com as monarquias absolutas tradicionais. Em sua leitura, a ênfase na igualdade poderia sacrificar a liberdade, e um governante poderia alegar que encarna a vontade geral do povo. Russell também criticou a hostilidade de Rousseau às associações políticas parciais e o espaço concedido à religião civil obrigatória.
Isaiah Berlin argumentou que Rousseau entendia a liberdade sobretudo como participação dos cidadãos no poder coletivo, que pode interferir na vida de cada um, e não como uma esfera individual protegida contra a intervenção política.
Apesar de Rousseau criticar as tiranias de seu tempo e defender a liberdade de consciência, autores como Russell, Jan Marejko e Jacob Talmon associaram aspectos de sua obra ao totalitarismo moderno. Marejko ressalta que essa interpretação não atribui a Rousseau a intenção de criar um regime totalitário. Talmon, em The Origins of Totalitarian Democracy, relaciona a vontade geral ao que chamou de «democracia totalitária».
Leo Strauss rejeitou a ideia de que Rousseau fosse um fundador do totalitarismo. Na leitura apresentada por Céline Spector, o pacto social não pode exigir o sacrifício completo do indivíduo, pois parte também de seus interesses. Strauss descreveu o pensamento de Rousseau como uma combinação peculiar da crítica moderna e revolucionária com a prudência da filosofia antiga. Jean Fabre sustentou, por sua vez, que a soberania popular e a vontade geral são incompatíveis com qualquer ditadura, inclusive uma que se proclame representante do proletariado.
Bruno Bernardi ressalta que, em Do Contrato Social, o mesmo indivíduo é cidadão enquanto participa da soberania e súdito enquanto obedece às leis que ajudou a instituir. Separar essas duas dimensões e confundir o povo soberano com o governo tornaria possível uma leitura autoritária que, a seu ver, distorce a obra.
Ainda assim, autores como Bernard-Henri Lévy continuaram a associar Rousseau ao totalitarismo, enquanto movimentos ecologistas e alternativos dos anos 1970 também reivindicaram aspectos de seu legado.
Para Jacques Julliard, Rousseau se opunha às associações políticas porque temia que uma facção forte impusesse seu interesse particular como se fosse o interesse de todos. No Contrato Social, ele adverte que, se uma associação dominar as demais, sua opinião particular poderá passar por vontade geral. Julliard considera o totalitarismo contrário à intenção do filósofo, mas reconhece que sua herança foi interpretada de modos divergentes pelos movimentos políticos posteriores.

Leo Strauss estudou Rousseau ao lado de Nicolau Maquiavel, Hobbes e Alexis de Tocqueville. Viu nele o início de uma segunda fase da modernidade política, entre a de Maquiavel e Hobbes e a de Nietzsche. Em sua leitura, Rousseau reagiu à tendência de tratar a moral e a política como problemas apenas técnicos, sem simplesmente retomar os autores antigos. Strauss relacionou a vontade geral a ideias que culminariam no imperativo categórico de Immanuel Kant. Destacou ainda a crítica do primeiro Discurso à expectativa iluminista de que a ciência bastaria para conduzir a sociedade à felicidade: Rousseau admitia seu valor para poucos estudiosos, mas duvidava de seus efeitos gerais sobre os costumes.
Strauss também observa uma tensão: leis capazes de unir a comunidade dependem da figura do legislador e de crenças compartilhadas, enquanto a filosofia procura examinar criticamente suas origens. A investigação filosófica pode, portanto, enfraquecer convicções que sustentam a vida política.

Jürgen Habermas lê Rousseau como um dos pensadores pioneiros da opinião pública e da formação da vontade coletiva. Destaca que Rousseau desconfiava de debates longos, por vê-los como sinal do enfraquecimento dos vínculos sociais. Em Do Contrato Social, a opinião pública aparece como uma espécie de lei informal, observada pelo censor; o legislador ajuda a transformá-la em normas políticas. Habermas, ao contrário, atribui à discussão pública um papel constitutivo na formação da vontade política. Sua proposta também se afasta da expectativa rousseauniana de uma comunidade relativamente homogênea, com crenças e costumes compartilhados, ao buscar procedimentos comuns para sociedades plurais.

Tzvetan Todorov destaca que Rousseau levou até consequências amplas as ideias que propôs para a política, a educação e a vida pessoal. Seu legado atravessa áreas diferentes: segundo essa leitura, ajudou a reformular as bases do pensamento político e pedagógico, transformou o romance e a reflexão musical e deu novo lugar à liberdade nas relações políticas e ao amor na vida familiar.
Seu pensamento influenciou a Revolução Francesa e o republicanismo da Terceira República Francesa, mas foi contestado por pensadores liberais e por alguns marxistas. Também deixou marcas na filosofia alemã, na antropologia, na educação e na crítica às grandes cidades.

No início da Revolução Francesa, o prestígio político de Rousseau cresceu. Segundo Raymond Trousson, já em agosto de 1789 se propôs um concurso em sua homenagem, e a rua Plâtrière passou a levar seu nome. Durante a Festa da Federação, em 14 de julho de 1790, os cidadãos dos departamentos franceses fizeram um juramento solene que Jacques Julliard relaciona à ideia de pacto político de Do Contrato Social. Louis-Sébastien Mercier também associou à obra de Rousseau os debates revolucionários sobre virtude pública e observou a nova popularidade do Contrato social. A influência não foi uniforme: como aponta Tanguy L'Aminot, grupos políticos de posições opostas reivindicaram sua herança.

No relatório apresentado em 18 floréal do ano II (7 de maio de 1794), sobre a relação entre ideias religiosas e morais e os princípios republicanos, Maximilien de Robespierre mencionou Rousseau em sua defesa do culto do Ser Supremo. Raymond Trousson observa que reformadores revolucionários retomaram propostas de Emílio, entre elas a crítica aos castigos físicos e a adequação do aprendizado ao desenvolvimento da criança.
Os revolucionários também retomaram a ideia de Rousseau de que a sociedade podia afastar as pessoas de sua condição inicial. A possibilidade de uma espécie de novo começo político, evocada por exemplos como Esparta e Roma, marcou os montanheses, em especial Robespierre e Saint-Just. Eles imaginaram novas instituições e referências cívicas para superar a herança do Antigo Regime e restaurar virtudes que julgavam preservadas no povo.

Edmund Burke já criticava em 1790 o ideal igualitário associado a Rousseau, argumentando que a prosperidade comum seria uma meta mais concreta do que a eliminação das diferenças de condição. Joseph de Maistre atacou o caráter de Rousseau e afirmou que Do Contrato Social seria internamente contraditório. Louis de Bonald também rejeitou as ideias revolucionárias.
No século XX, o monarquista Charles Maurras apresentou Rousseau como inspirador da Revolução e fonte de males que atribuía à França moderna. Maurras afirmou odiar a influência de Rousseau sobre as ideias, os costumes, a política e a religião francesas.
Para Jean Starobinski, o caráter revolucionário do pensamento de Rousseau se apoia numa ideia de natureza humana duradoura, e não numa crença simples no progresso histórico. Alguns textos revelam sua prudência política: em Jugement sur la Polysynodie (1756), Rousseau adverte que mexer bruscamente nas instituições de uma grande monarquia poderia ter efeitos imprevisíveis.
Starobinski aproxima essa cautela da de Montesquieu e lembra que Rousseau, nas Lettres écrites de la montagne, disse ter descrito em Do Contrato Social aspectos da antiga república de Genebra, não um programa imediato para substituir a monarquia francesa. Nas Confissões, o próprio Rousseau apresentou o tratado como reflexão abstrata sem aplicação que tivesse planejado diretamente.
O historiador Jonathan Israel atribui parte das consequências negativas da Revolução a uma aplicação equivocada da teoria da vontade geral.

A crítica de Hannah Arendt incide sobre dois pontos: Rousseau teria aproximado soberania e poder e dado à compaixão um papel político excessivo. Para ela, a prioridade concedida ao sofrimento social dificultou que a Revolução Francesa estabelecesse a liberdade por meio de instituições. Arendt interpreta a atenção de Rousseau aos próprios sentimentos como parte da origem dessa política da compaixão. Na sua visão, compaixão e virtude, sem limites, não bastam para construir a ação política; a solidariedade, ligada à razão, é mais apropriada a esse fim.
Em L'idée républicaine en France (1982), Claude Nicolet atribui a Rousseau um papel importante na elaboração teórica do republicanismo francês. Para ele, as ideias de soberania popular e de lei desenvolvidas pelo filósofo forneceram referências decisivas aos republicanos. Nicolet acrescenta que Rousseau foi, durante mais de um século, uma referência incontornável e ao mesmo tempo um motivo de divisão entre os republicanos franceses.
Rousseau, Immanuel Kant e o positivismo são frequentemente apontados como três fontes da doutrina republicana francesa. A herança rousseauniana, entretanto, abre uma disputa de interpretação: o pensador preferia em certas circunstâncias um governo executivo aristocrático eletivo, mas sua teoria da soberania popular foi reivindicada por republicanos como Robespierre. Para Nicolet, «república» conserva em Rousseau o sentido amplo de Estado legítimo governado por leis. Seu legado reuniria soberania do povo, lei como expressão da vontade geral e virtude orientada ao interesse público.
O renascimento acadêmico da tradição republicana promovido por Quentin Skinner e John Pocock desde as décadas de 1960 e 1970 deu menos destaque a Rousseau. Esses autores recorreram sobretudo a Cícero e à tradição de Maquiavel para estudar a liberdade ligada à participação nas instituições políticas.

Jacques Maritain viu na vontade geral de Do Contrato Social uma transferência para o povo da soberania antes atribuída ao rei absoluto. Considerou problemática a ideia de um poder coletivo concebido como uno e ilimitado. Maritain argumentou que essa noção poderia prejudicar a democracia e aproximou a figura extraordinária do legislador descrita por Rousseau das justificativas modernas para governantes autoritários.
Em sua formulação mais dura, Maritain comparou o Estado de Rousseau ao Leviatã de Hobbes, agora coroado pela vontade geral em lugar do monarca.
Alain de Benoist também ressaltou que Rousseau tornou a soberania uma peça central de seu sistema e a considerou indivisível. Em sua leitura, isso o separa dos autores liberais que procuram limitar o poder por meio da divisão de competências. De Benoist observa, porém, que a soberania do povo, em Rousseau, não determina necessariamente uma forma única de governo executivo.

Em 1788, Madame de Staël publicou as Lettres sur l'œuvre et le caractère de J.-J. Rousseau, nas quais discutiu criticamente sua obra. Benjamin Constant atribuiu à ausência de limites para a soberania popular uma parcela de responsabilidade intelectual pelo Período do Terror. Partindo de premissas diferentes, Hegel também associou a formulação rousseauniana da vontade geral ao Terror.
Constant opôs à ênfase de Rousseau na participação política, próxima da «liberdade dos antigos», uma «liberdade dos modernos» mais centrada na vida individual e econômica. No fim do século XIX e começo do XX, liberais como Émile Faguet e Léon Duguit o acusaram de subordinar o indivíduo ao Estado. Duguit chegou a chamá-lo de precursor de teorias de ditadura, das jacobinas às bolcheviques. Críticas similares reapareceram na Guerra Fria, inclusive em Jacob Talmon. Friedrich Hayek relacionou Rousseau ao construtivismo e criticou a nostalgia de uma comunidade guiada por sentimentos morais que poderia, em sua avaliação, justificar a imposição de uma «justiça social» pela autoridade estatal.
Christopher Bertram também encontra afinidades entre Rousseau e a teoria liberal da justiça de John Rawls. A posição original de Rawls, em que as pessoas escolhem princípios de justiça sem conhecer sua posição social futura, lembra procedimentos de imparcialidade discutidos por Rousseau.
Para Pankaj Mishra, Rousseau antecipou tensões produzidas pelo crescimento das desigualdades e pela transformação crescente das relações humanas em relações de mercado. Mishra valoriza sua crítica à comparação invejosa, ao interesse individual e à criação incessante de necessidades artificiais.

Rousseau influenciou profundamente Immanuel Kant, que mantinha um retrato do escritor em seu gabinete. Uma anedota conta que Kant teria interrompido sua caminhada diária habitual por estar absorvido na leitura de Emílio.
Kant reconheceu em Rousseau um orientador de seu pensamento moral e o comparou a Newton pelo impacto de suas ideias. Divergiram, porém, quanto ao futuro: Rousseau temia que o desenvolvimento descontrolado das paixões culminasse no despotismo, enquanto Kant defendia a possibilidade de progresso em liberdade e autonomia moral e política.
Para Bertram, a vontade geral de Rousseau antecipa aspectos do imperativo categórico de Kant, sobretudo a ideia de uma lei que as pessoas possam reconhecer como sua. Há uma diferença: Kant formula princípios morais de alcance universal, enquanto Rousseau rejeitou, nos esboços de Do Contrato Social, uma vontade geral de toda a humanidade e a vinculou a comunidades políticas particulares. Sua influência sobre Kant também aparece em questões de psicologia moral, como as tratadas em Religião nos Limites da Simples Razão.
A relação de Hegel com Rousseau é complexa. Na Filosofia do Direito, Hegel elogiou a ideia de que a vontade fundamenta o Estado, mas interpretou a vontade geral como soma de vontades individuais contingentes, leitura contestada por estudiosos de Rousseau. Retomou ainda a análise do amor-próprio e da busca de reconhecimento, que pode levar uma pessoa a depender do julgamento alheio.
Arthur Schopenhauer chamou Rousseau de um dos maiores moralistas modernos. Admirava o conhecimento que, a seu ver, o escritor tinha da vida e do coração humano, bem como a capacidade de comunicar ideias morais sem perder o interesse do leitor.
As ideias de alienação e exploração em Karl Marx podem ser comparadas a problemas levantados por Rousseau. Bertram adverte, contudo, que as referências diretas a Rousseau na obra de Marx são raras e não permitem afirmar uma influência específica com segurança.

O pensamento político de Rousseau influenciou revolucionários franceses de 1830 e 1848, Auguste Blanqui, participantes da Comuna de Paris de 1871 e anarquistas do fim do século XIX. Em Os Miseráveis, Victor Hugo pôs na boca de Gavroche uma canção que ironicamente atribuía a Voltaire e a Rousseau as dificuldades de sua vida:
A alegria é meu caráter
É culpa de Voltaire
A miséria é meu enxoval
É culpa de Rousseau.
O economista liberal Frédéric Bastiat chamou Saint-Simon, Charles Fourier e seus seguidores de «filhos de Rousseau». Pierre-Joseph Proudhon o rejeitava duramente, mas Louis Blanc reivindicou sua herança, embora defendesse a representação política em vez da democracia direta. Para Jean Jaurès e Célestin Bouglé, Rousseau também antecipou questões do socialismo.
A atenção de Rousseau aos conflitos resultantes da divisão do trabalho e da propriedade privada levou estudiosos a vê-lo como crítico da aristocracia e da concentração capitalista da riqueza. Pode assim ser comparado a certas críticas marxistas, embora Marx o cite pouco. Ao comentar uma passagem do livro II de Do Contrato Social, Marx a chamou de expressão da abstração burguesa e considerou insuficiente a atenção de Rousseau às relações sociais concretas. Leituras marxistas do século XX criticaram especialmente a vontade geral por parecer apagar os conflitos entre classes.
Na Itália, Galvano Della Volpe, ligado à tradição de Antonio Gramsci, mudou sua avaliação de Rousseau. Em 1945, situou-o numa linha do direito natural que julgava incompatível com o marxismo. Em 1954, passou a distinguir uma linhagem liberal, de Locke a Constant, e outra, de Rousseau a Marx e Lênin, que associava à democracia soviética. Nessa nova leitura, Rousseau poderia ajudar a desenvolver o pensamento marxista.
No começo do século XXI, autores próximos a Antonio Negri criticaram Rousseau como teórico da soberania e de uma concepção jurídica do poder que, em sua leitura, poderia favorecer estruturas burocráticas. Jacques Julliard, embora admirasse Rousseau, concluiu que seu pensamento político não oferecia respostas diretas aos problemas de sua época.

Jacques Julliard descreveu um desconforto de parte da esquerda francesa com aspectos conservadores e nacionalistas do pensamento de Rousseau. Em Destin français (2018), Éric Zemmour reivindicou esses aspectos e opôs Rousseau, associado à igualdade e à vontade geral, a Voltaire, associado à liberdade individual. Trata-se da leitura política de Zemmour, que também atribui à esquerda francesa um afastamento do patriotismo rousseauniano desde o Caso Dreyfus.
Zemmour cita as Considérations sur le gouvernement de Pologne, nas quais Rousseau lamenta que as instituições nacionais percam força diante de costumes europeus cada vez mais semelhantes. Também recorre às passagens em que o filósofo distingue o patriotismo do amor universal à humanidade. Blaise Bachofen, porém, argumenta que o patriotismo de Rousseau não corresponde à ideia posterior de nacionalismo baseada num princípio sistemático de preferência nacional.
Essa apropriação contrasta com a hostilidade de setores da extrema direita francesa no início do século XX. Charles Maurras atacava Rousseau como inspirador da Revolução. Durante o regime de Vichy, as posições divergiram: Marcel Déat elogiou o Rousseau que interpretava como socialista e nacional, enquanto autores próximos do maurrassismo o apresentaram como inimigo da ordem hierárquica. M. Duconseil o atacou em termos antissemitas num livro de 1943; Dominique Sordet também associou suas ideias à destruição de uma suposta ordem «ariana».

A prosa de Rousseau contribuiu para afastar a escrita francesa de convenções rígidas herdadas do Grand Siècle. Louis-Sébastien Mercier já observava, em 1791, que a força de seus textos vinha da combinação de ideias e sentimentos, expressa numa linguagem clara, variada e capaz de mudar de tom sem perder a unidade.
A força de seus escritos também foi relacionada ao cuidado com o ritmo, as imagens e os sons das palavras, ligado à reflexão sobre a linguagem no Ensaio sobre a origem das línguas. Por volta de 1755, Rousseau passou a organizar os textos em capítulos menores e a buscar mais clareza e concisão. Na Carta a d'Alembert, admitiu que, ao tentar tornar-se compreensível a todos, por vezes usara mais palavras para dizer menos coisas.
Fora da França, Rousseau influenciou, entre outros, Aleksandr Púchkin e Liev Tolstói na Rússia; William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge, Lorde Byron, Percy Bysshe Shelley e John Keats na literatura britânica; Nathaniel Hawthorne e Henry David Thoreau nos Estados Unidos; e Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schiller e Johann Gottfried von Herder na Alemanha. Tolstói contou que, aos quinze anos, levava ao pescoço um medalhão com o retrato de Rousseau em lugar da cruz habitual. Herder o considerava um guia, e Goethe registrou em 1787 o impacto de Emílio entre leitores instruídos.

Em Emílio, Rousseau apresenta a vida no campo por meio de uma fazenda quase autossuficiente, onde a família cultiva trigo e uvas, fia o cânhamo e prepara a própria comida. Na cena, a vida do camponês se organiza em torno da casa, do moinho mais próximo e do mercado local.

Claude Lévi-Strauss atribuiu a Rousseau um papel fundador na antropologia e na etnologia, por ter proposto comparar modos de vida humanos distintos.
Lévi-Strauss ressalta a pergunta de Rousseau sobre o que pertence à natureza e o que resulta da cultura nas sociedades humanas. Também destaca seu convite a conhecer povos distantes para compreender melhor aquilo que as pessoas têm em comum. Rousseau escreveu que, para estudar os homens próximos, basta olhar ao redor; para estudar o ser humano em geral, é preciso observar diferenças em lugares distantes.
Lévi-Strauss também observa que Rousseau lamentou o pouco interesse de seus contemporâneos em estudar culturas e costumes, que preferiram viajar para estudar pedras e plantas, em vez de estudar os povos.
Para Lévi-Strauss, a introspecção de Rousseau também antecipa um cuidado da pesquisa etnográfica: o observador precisa conhecer seus próprios pressupostos para não projetá-los sobre as pessoas estudadas. Contrasta essa atenção às sociedades intermediárias com a passagem direta do sujeito ao mundo que atribui a Descartes.
O historiador Léon Poliakov também ressalta que Rousseau convidou seus contemporâneos a estudar os povos e costumes das regiões visitadas, em vez de observar apenas pedras e plantas.

No Japão da Era Meiji, o jornalista e pensador Nakae Chōmin traduziu e comentou parte de Do Contrato Social. Sua versão, Min'yaku yakkai, publicada em 1882, ia até o capítulo 6 do segundo livro e circulou no contexto do Movimento pela Liberdade e pelos Direitos do Povo, que reivindicava uma assembleia eleita e maior participação política. A Biblioteca Nacional da Dieta registra também uma tradução anterior, inédita e escrita em chinês clássico, preparada por Nakae em 1874. A recepção coreana passou em parte por essa mediação: um estudo sobre Rosaminyak, publicado no jornal Hwangsŏng Sinmun em 1909, identifica como fontes a tradução de Nakae e interpretações do reformista chinês Liang Qichao.

Em Portugal, Leonor de Almeida Portugal, a marquesa de Alorna, traduziu em 1800 as cartas de Rousseau sobre os elementos da botânica. Um estudo sobre seu círculo examina essa tradução como parte da circulação do conhecimento botânico entre mulheres das camadas altas portuguesas no início do século XIX.
No Brasil, a leitura de Rousseau também envolveu divergências. Em 1831, o periódico mineiro O Mentor das Brasileiras elogiou métodos e lições de Emílio, mas criticou a dificuldade de aplicá-los e as posições religiosas do autor; a obra continuou a servir de referência às discussões do jornal sobre educação feminina. Thomaz Kawauche estudou a circulação posterior de Emílio entre 1928 e 1968, quando editores, tradutores e educadores ajudaram a consolidar sua presença na literatura pedagógica brasileira e se formaram as condições para a primeira tradução integral da obra no país.
A proposta de homenagear Rousseau no Panteão surgiu depois que a Assembleia Nacional decidiu, em 4 de abril de 1791, transformar a igreja de Sainte-Geneviève em sepultura de figuras consideradas ilustres, e após o traslado de Voltaire em 11 de julho. Em agosto, o jornalista Pierre-Louis Ginguené reuniu cerca de 300 assinaturas numa petição. Uma delegação parisiense pediu uma estátua e o traslado do corpo de Rousseau; moradores de Montmorency preferiam um cenotáfio na cidade.
A decisão demorou a ser executada. Em 11 de abril de 1794, a viúva Thérèse apresentou-se à Convenção Nacional para cobrar o traslado prometido. Os acontecimentos do Período do Terror adiaram novamente a cerimônia, marcada por fim para 11 de outubro de 1794.
O cortejo entrou no Panteão ao som do órgão, em clima de recolhimento. Jean-Jacques-Régis de Cambacérès, presidente da Convenção, apresentou Rousseau como precursor da liberdade e da igualdade e lhe atribuiu parte das mudanças políticas e morais da Revolução.
A cerimônia terminou com um Hymne à Jean-Jacques Rousseau, de Marie-Joseph Chénier, musicado por François-Joseph Gossec. Naquela noite, houve danças populares. Uma gravura de Christian Gottlieb Geissler imaginou a ressurreição simbólica de Rousseau saindo do túmulo com o gorro armênio. A ópera cômica L'Enfance de Jean-Jacques Rousseau, de Nicolas Dalayrac sobre libreto de François Andrieux, estreou em 23 de maio de 1794 e foi encenada até 1796.
As relações de Rousseau com sua cidade natal foram tumultuadas: em 1762, o Conselho de Genebra condenou Emílio e Do Contrato Social à queima pública, por motivos religiosos e políticos, respectivamente.
A Ilha Rousseau, em Genebra, recebeu seu nome em 1834; antes era chamada de Ilha dos Barcos. Em 1835, James Pradier criou para o local uma estátua do filósofo. Homenagens anteriores incluíam bustos no Parque dos Bastiões: um de Jean Jaquet (1793) e outro, de mármore, de Pradier, inaugurado em 1821 e hoje conservado no Museu de Arte e História de Genebra.
Em 1969, foi inaugurado no bairro genebrino de Bouchet o Collège Rousseau, instituição de ensino que recebeu o nome do autor de Emílio, ou Da Educação.
Genebra comemorou o tricentenário do nascimento de Rousseau em 2012 com exposições, apresentações, concertos, filmes, passeios, publicações e encontros. Também foi criada a Maison de Rousseau et de la Littérature, espaço de encontros e debates.
Na rua Jean-Jacques Rousseau, em Argenteuil, funcionam uma escola maternal, uma escola primária e uma escola de ensino secundário que levam seu nome.
O Museu Jean-Jacques Rousseau fica em Montmorency, no departamento de Val-d'Oise. Rousseau deixou Paris em 1756 e se instalou primeiro no Ermitage, nos arredores da cidade. Em dezembro de 1757, mudou-se com Thérèse Levasseur para o Petit Mont-Louis, atual sede do museu.
Entre 1757 e 1762, Rousseau trabalhou no pequeno pavilhão do jardim chamado «Donjon». Ali escreveu a Carta a D'Alembert sobre os Espetáculos, Júlia ou A Nova Heloísa, Emílio, ou Da Educação e Do Contrato Social. A condenação de Emílio em Paris levou-o a fugir de Montmorency em 9 de junho de 1762.
O conjunto museológico compreende a casa do Petit Mont-Louis, a Maison des Commères, o pavilhão de trabalho e o jardim. Conserva cerca de 12 mil peças ligadas à vida e à obra de Rousseau. Sua biblioteca de estudos, instalada num edifício do século XVII, reúne aproximadamente 30 mil documentos.
Ver também: Les Charmettes.

Nos Charmettes, perto de Chambéry, Rousseau viveu parte de seus anos de formação ao lado de Madame de Warens. A casa onde residiram tornou-se um museu de época, com os quartos dos dois reconstituídos.
Após a morte de Rousseau, os Charmettes tornaram-se lugar de peregrinação. Ele recordou a estadia como um tempo de felicidade, leitura e formação do «depósito de ideias» que alimentaria suas obras.

O Museu Jacquemart-André, na Abadia de Chaalis, conserva cerca de 6 mil obras de arte, móveis e objetos decorativos. Ocupa um edifício do século XVIII próximo aos vestígios de uma abadia cisterciense do século XII.
O Espaço Jean-Jacques Rousseau, criado em 2012, apresenta três conjuntos reunidos em épocas diferentes. O fundo Fernand de Girardin, adquirido pelo Institut de France em 1924, compreende aproximadamente 400 objetos de arte, mais de 500 manuscritos e 600 livros da biblioteca de Rousseau. O fundo de Nélie Jacquemart-André reúne sobretudo bustos e desenhos; o fundo Dehaynin acrescentou, em 1993, páginas do arquivo de Louise Dupin. O antepassado de Fernand, o marquês René-Louis de Girardin, acolheu Rousseau nas últimas semanas de vida.
O Parcours Rousseau fica na casa natal do escritor, no número 40 da Grand-Rue, na Cidade Velha de Genebra, integrada à Maison Rousseau et Littérature. Seus sete espaços temáticos abordam felicidade, Genebra, sentimento, liberdade, infância, natureza e as múltiplas faces de Rousseau, relacionando sua obra a questões atuais.
A Biblioteca de Genebra conserva manuscritos de Rousseau, entre eles o chamado Manuscrito de Genebra, versão preliminar de Do Contrato Social com diferenças em relação à publicação final. Guarda também um primeiro texto do Dictionnaire de musique, o manuscrito da primeira parte das Confissões e o dos Devaneios do Caminhante Solitário. Seu centro de iconografia possui um acervo expressivo de retratos e imagens ligados ao autor.


Após a morte de Rousseau, Pierre-Alexandre DuPeyrou reuniu seus papéis, entre eles o manuscrito dos Devaneios do Caminhante Solitário. A Biblioteca pública e universitária de Neuchâtel recebeu em 1795 um conjunto de manuscritos que inclui cerca de 2.800 cartas originais, 800 delas assinadas pelo filósofo. Seu Espaço Jean-Jacques Rousseau, fechado para reformas até 2028, reúne manuscritos das Confissões e dos Devaneios, além de correspondência e materiais sobre música e botânica.
Em 2011, os acervos de Rousseau em Neuchâtel e Genebra entraram no registro internacional Memória do Mundo da UNESCO. Fundada em 1956, a Associação Jean-Jacques Rousseau de Neuchâtel contribui para a conservação e o estudo desses manuscritos e criou o percurso comentado Via Rousseau, que atravessa lugares visitados pelo filósofo na Suíça francófona.

Rousseau viveu em Môtiers de julho de 1762 a setembro de 1765. O museu local, inaugurado em 1969, ocupa dois cômodos da casa em que morou com Thérèse Levasseur durante o exílio no principado de Neuchâtel. A construção remonta ao século XV; a exposição aborda sobretudo os anos que passaram na região.

O quarto em que Rousseau ficou em 1765 na ilha de São Pedro, no Lago de Bienna, pode ser visitado. O priorado onde se hospedou foi transformado em restaurante. Na outra margem do lago, um hotel recebeu seu nome.
O asteroide (2950) Rousseau foi nomeado em sua homenagem.
Em 2016, mais de 650 vias francesas levavam o nome de Rousseau, o que o colocava na 38.ª posição entre as pessoas mais homenageadas nos nomes de ruas do país.
Outros elementos honram a sua memória, como:
Henri Kling, trompista e compositor francês radicado em Genebra, escreveu uma cantata intitulada Jean-Jacques Rousseau para solistas, coro misto e orquestra. Também publicou textos sobre a atividade musical do filósofo.
Para uma lista de 640 livros e artigos sobre Jean-Jacques Rousseau publicados desde 1991, consulte a bibliografia organizada por Benoît Melançon (sítio eletrônico, em francês).