| Tomás de Aquino | |
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O painel de Gentile da Fabriano situa Tomás na tradição artística de veneração aos santos. | |
| Dados biográficos | |
| Nome de nascimento | Tommaso d'Aquino |
| Nascimento | c. 1225 |
| Local de nascimento | Roccasecca, Reino da Sicília |
| Morte | 7 de março de 1274 |
| Local de morte | Abadia de Fossanova, Estados Papais |
| Formação | Abadia de Monte Cassino Universidade de Nápoles Federico II Universidade de Paris |
| Filosofia e teologia | |
| Período | Filosofia medieval |
| Escola | Escolástica; tomismo; aristotelismo; realismo moderado; ética das virtudes; direito natural |
| Interesses | Metafísica; lógica; teologia católica; filosofia da mente; epistemologia; ética; filosofia política |
| Ideias | Direito natural; cinco vias; analogia entis; hilemorfismo; simplicidade divina; distinção entre essência e existência; teoria correspondentista da verdade; axioma peripatético; princípio do duplo efeito; preço justo; quididade; Determinatio |
| Obras principais | Suma Teológica; Suma contra os Gentios |
| Veneração | |
| Títulos | Confessor da fé Doutor da Igreja |
| Venerado por | Igreja Católica Comunhão Anglicana |
| Canonização | 18 de julho de 1323, em Avinhão, Estados Papais |
| Canonizado por | João XXII |
| Principal templo | Igreja dos Jacobinos, Toulouse, França |
| Festa litúrgica | 28 de janeiro; 7 de março no calendário romano anterior a 1969 e no calendário dominicano tradicional |
| Atributos iconográficos | Suma Teológica, modelo de uma igreja e sol no peito do hábito dominicano |
| Padroeiro de | Academias, escolas e universidades católicas Estudantes, estudiosos, apologistas, filósofos e teólogos; livreiros e editores; da castidade (invocado também contra tempestades e raios) Cidade de Faro, Portugal |
Tomás de Aquino (em italiano, Tommaso d'Aquino; Roccasecca, c. 1225 – Fossanova, 7 de março de 1274) foi um frade da Ordem dos Pregadores, sacerdote católico italiano, teólogo e filósofo venerado como santo pela Igreja Católica. Um dos pensadores mais influentes da escolástica medieval e da filosofia ocidental, deixou escritos que marcaram a teologia católica e deram origem ao tomismo, corrente estudada e debatida até hoje. O filósofo Anthony Kenny o incluiu entre os seis maiores filósofos de toda a história.
Ao estudar as ideias de Aristóteles à luz da tradição cristã e recorrer a autores como Agostinho de Hipona, Tomás procurou compreender como a fé e a razão podem se relacionar. Para ele, fé e razão tinham a mesma origem divina, embora chegassem ao conhecimento por caminhos distintos. Sua reflexão sobre a lei natural, as virtudes e as cinco vias para argumentar sobre a existência de Deus tornou-se parte duradoura das discussões filosóficas e teológicas.
Na Suma Teológica, sua obra mais conhecida, Tomás procurou apresentar de modo ordenado a doutrina cristã, mas morreu antes de terminá-la. Escreveu também a Suma contra os Gentios, questões disputadas e comentários à Bíblia e a Aristóteles. Além dos textos de estudo, compôs hinos eucarísticos que ainda fazem parte da liturgia católica.
Foi canonizado em 1323 e proclamado doutor da Igreja em 1567. Conhecido como Doctor Angelicus (Doutor Angélico) e Doctor Communis (Doutor Comum), foi também chamado de Doctor Universalis (Doutor Universal) por Pio XI. João Paulo II deu-lhe ainda a designação Doctor humanitatis (Doutor da Humanidade), destacando sua reflexão sobre a razão e a liberdade humanas. Em 1880, Leão XIII o declarou padroeiro das escolas e universidades católicas. O Concílio Vaticano II recomendou seus ensinamentos para a formação sacerdotal, e o Código de Direito Canônico também os apresenta como referência no estudo da teologia dogmática.

Tomás provavelmente nasceu por volta de 1225 no castelo da família em Roccasecca, perto de Aquino, então parte do Reino da Sicília e hoje no Lácio, Itália. Pertencia à influente família d'Aquino. Seu pai, Landulfo VI, senhor de Roccasecca, era um cavaleiro a serviço do imperador Frederico II do Sacro Império Romano-Germânico. Sua mãe, Teodora Galluccio, condessa de Teano, vinha do ramo Rossi da família napolitana Caracciolo. Landulfo tinha ascendência lombarda, e Teodora, normanda.
Sinibaldo, irmão de Landulfo, era abade de Monte Cassino, antigo mosteiro beneditino. Tomás era o mais novo de pelo menos nove filhos. Seus irmãos seguiram a carreira militar. A família pretendia que ele sucedesse o tio como abade, caminho comum para o filho mais novo de uma família nobre do sul da Itália.
Tomás começou a estudar em Monte Cassino aos cinco anos. Quando o conflito entre Frederico II e o papa Gregório IX atingiu a abadia, no início de 1239, seus pais o enviaram ao studium generale de Nápoles, atual Universidade de Nápoles Federico II. Ali estudou aritmética, geometria, astronomia e música com Pedro da Irlanda. Seu biógrafo Guglielmo Tocco também mencionou um mestre Martinho, identificado posteriormente como Martinho da Dácia, que lhe teria ensinado gramática e lógica. Em Nápoles, Tomás provavelmente conheceu as obras de Aristóteles, Averróis e Maimônides. Pedro da Irlanda ensinava textos de Aristóteles recém-traduzidos acompanhados dos comentários de Averróis. Nesses anos, Tomás também se aproximou de João de São Juliano, pregador dominicano envolvido no recrutamento de novos membros para a ordem.
Aos dezenove anos, Tomás decidiu entrar na Ordem dos Pregadores, contrariando a vontade da família. Para evitar que Teodora impedisse a escolha, os dominicanos planejaram levá-lo a Roma e, depois, a Paris. Durante a viagem, porém, seus irmãos o capturaram por ordem da mãe enquanto ele bebia água de uma fonte e o levaram ao castelo de Monte San Giovanni Campano.
Tomás ficou retido por quase um ano nos castelos da família em Monte San Giovanni e Roccasecca. Seus parentes tentaram fazê-lo abandonar o hábito dominicano, e preocupações políticas impediram o papa de ordenar sua libertação. Nesse período, ensinou as irmãs e manteve contato com membros da ordem.
Segundo depoimentos recolhidos para sua canonização, dois irmãos contrataram uma prostituta para tentar afastá-lo do celibato. Tomás a expulsou com um pedaço de lenha em brasa, com o qual desenhou uma cruz na parede. O relato prossegue com uma experiência mística: enquanto dormia, dois anjos lhe teriam cingido a cintura, dizendo que recebera de Deus o dom da castidade que a força humana não podia garantir. Tomás teria usado esse cordão pelo resto da vida.

Em 1244, depois de fracassarem as tentativas de fazê-lo desistir, Teodora organizou sua fuga noturna por uma janela. Uma saída discreta lhe parecia menos danosa à reputação da família do que uma entrega pública aos dominicanos. Tomás seguiu para Nápoles e depois para Roma, onde se encontrou com João de Wildeshausen, mestre-geral da ordem.
Em 1245, Tomás seguiu para Paris, onde estudou filosofia. Ali provavelmente conheceu o dominicano Alberto Magno, então professor de teologia no Colégio de São Tiago. Quando Alberto foi enviado ao novo studium generale de Colônia, em 1248, Tomás o acompanhou e recusou uma proposta de Inocêncio IV para se tornar abade de Monte Cassino. Alberto lhe confiou o posto de magister studentium. Seu silêncio levava alguns colegas a julgá-lo lento. Alberto respondeu que aquele "boi mudo", bos mutus, ainda seria ouvido pelo mundo inteiro por meio de seu ensino.
Em Colônia, Tomás ensinou livros do Antigo Testamento e escreveu comentários a Isaías, Jeremias e Lamentações, respectivamente Expositio super Isaiam ad litteram, Postilla super Ieremiam e Postilla super Threnos. Voltou a Paris em 1252 para concluir os estudos de teologia. Depois de ensinar a Bíblia, tornou-se baccalaureus Sententiarum e passou os três anos seguintes comentando as Sentenças de Pedro Lombardo. Desse trabalho resultou o extenso Scriptum super libros Sententiarum. Para os dominicanos de Paris, escreveu também De ente et essentia, sobre o ente e a essência.

Em 1255 e 1256, Tomás e Boaventura participaram da disputa entre professores seculares e membros das ordens mendicantes pelo direito de ensinar na Universidade de Paris. Tomás defendeu os religiosos no tratado Contra impugnantes Dei cultum et religionem, escrito em 1256 em resposta a Guilherme de Saint-Amour.
Em 1256, por intervenção de Alexandre IV, Tomás tornou-se mestre regente de teologia em Paris. Entre 1256 e 1259 escreveu as Quaestiones disputatae de veritate, com 29 questões debatidas em público durante a Quaresma e o Advento, e as Quaestiones quodlibetales, respostas a perguntas propostas pela audiência universitária. Comentou ainda o De trinitate e o De hebdomadibus de Boécio. Ao fim dessa regência, já trabalhava na Suma contra os Gentios.
Tomás e Boaventura ensinaram teologia na Universidade de Paris. Discordavam sobre o lugar da razão natural no estudo da fé.
Nesse período, Tomás escreveu De ente et essentia e seu comentário às Sentenças.
Tomás deixou Paris em 1259 para que outros dominicanos pudessem exercer a regência universitária. De volta a Nápoles, recebeu em 29 de setembro de 1260 a função de pregador geral da província. No ano seguinte, foi enviado a Orvieto para formar frades que não podiam frequentar um studium generale. Ali concluiu a Suma contra os Gentios, escreveu a Catena aurea e preparou textos para Urbano IV, entre eles obras ligadas à festa de Corpus Christi e o Contra errores graecorum. Hinos atribuídos a Tomás para essa festa, como Pange lingua, suas estrofes finais conhecidas como Tantum ergo e Panis angelicus, continuam a ser cantados; a atribuição desses textos, antes contestada, recebeu apoio dos estudos modernos. Outro hino a ele atribuído, Verbum supernum prodiens, inclui estrofes finais cantadas como O salutaris hostia.
Em 1265, depois de seu período em Orvieto, Tomás passou a lecionar em Roma. Nesse ano, o capítulo dominicano de Anagni lhe deu a tarefa de ensinar no convento de Santa Sabina. O curso ali organizado foi o primeiro studium provinciale da ordem, situado entre o ensino básico dos conventos e os grandes centros de estudo. Nas primeiras décadas dos dominicanos, a província romana oferecia apenas cursos elementares de teologia para seus frades, sobretudo na Toscana e no sul da península. Santa Sabina passou a oferecer também filosofia e formação mais avançada. Tolomeo da Lucca, que conviveu com Tomás, escreveu que ali ele ensinou temas filosóficos morais e naturais.

Em Santa Sabina, Tomás começou a Suma Teológica, que destinou a estudantes iniciantes. No prólogo, explicou que um doutor da verdade católica deve ensinar também quem começa a aprender. Retomou a imagem da Primeira Epístola aos Coríntios em que Paulo oferece leite, e não alimento sólido, aos recém-chegados à fé, e disse que organizaria a doutrina cristã de modo adequado a eles. Nesses anos escreveu ainda o inacabado Compendium Theologiae e uma resposta a João de Vercelli sobre 108 artigos extraídos da obra de Pedro de Tarentaise.
À frente do curso, Tomás promoveu debates sobre o poder de Deus, mais tarde reunidos em De potentia.
Tomás ensinou em Santa Sabina de 1265 até ser chamado de volta a Paris em 1268. Depois de sua partida, parte do ensino de teologia dos dominicanos romanos foi transferida, em 1288, para Santa Maria sopra Minerva, convento que passara aos frades em 1275. O curso tornou-se um studium particularis theologiae e, no século XVI, deu origem ao Colégio de São Tomás, Collegium Divi Thomae. Transferido no século XX para Santi Domenico e Sisto, o colégio integrou a Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, conhecida como Angelicum.

Em 1268, a ordem enviou Tomás novamente à Universidade de Paris, onde foi mestre regente até o início de 1272. A difusão do averroísmo e de leituras radicais de Aristóteles alimentava controvérsias. O recurso de Tomás a Aristóteles despertou suspeitas de proximidade com essas posições. Em De unitate intellectus, contra Averroistas, ele contestou a interpretação averroísta como incompatível com a doutrina cristã. Nessa segunda regência, concluiu a segunda parte da Suma Teológica e escreveu De virtutibus e De aeternitate mundi, contra murmurantes, este último sobre a possibilidade de um mundo sem começo temporal.
As disputas com mestres franciscanos tornaram a segunda regência mais difícil. Já em 1266 e 1267, antes de seu retorno a Paris, Guilherme de Baglione criticara suas posições, por julgá-las favoráveis a teses averroístas. A filósofa Eleonore Stump também apontou que De aeternitate mundi pode ter sido dirigido, em particular, contra o franciscano João Peckham.
Tomás se opôs às interpretações averroístas ensinadas por Siger de Brabante em Paris. Em 10 de dezembro de 1270, o bispo Étienne Tempier condenou treze proposições aristotélicas e averroístas e excomungou quem persistisse em defendê-las. Parte do meio eclesiástico temia que essas leituras comprometessem a fé cristã. Entre 1270 e 1272, Tomás promoveu debates reunidos em De virtutibus in communi, De virtutibus cardinalibus e De spe, sobre as virtudes em geral, as cardeais e a esperança.
Em 1272, os dominicanos de sua província natal pediram a Tomás que fundasse um studium generale em uma cidade à sua escolha. Ele escolheu Nápoles e assumiu a regência do novo centro de estudos. Ali trabalhou na terceira parte da Suma Teológica, ensinou assuntos religiosos e pregou diariamente durante a Quaresma de 1273. Seus sermões trataram dos Dez Mandamentos, do Credo niceno, do Pai-nosso e da Ave Maria. Um convento perto da Catedral de Nápoles conserva uma cela tradicionalmente apontada como sua moradia.
Em um dos relatos posteriores sobre experiências místicas de Tomás, G. K. Chesterton escreveu que a Virgem Maria lhe teria aparecido para lhe dizer que ele nunca seria bispo. Outra tradição conta que, em 1273, após as matinas na capela de São Nicolau do convento dominicano de Nápoles, o sacristão Domênico de Caserta o viu chorando e levitando diante de uma imagem do Cristo crucificado. O relato diz que Cristo lhe perguntou que recompensa desejava por ter escrito sobre ele. Tomás teria respondido: "Nada além de ti, Senhor".

Em 6 de dezembro de 1273, Tomás teria vivido uma experiência mística prolongada durante a missa. Depois disso, deixou de ditar seus escritos a Reginaldo de Piperno. Quando o secretário insistiu que retomasse o trabalho, respondeu que tudo o que escrevera lhe parecia "palha". A Suma Teológica ficou inacabada. Não se pode verificar a autenticidade do relato sobre essa experiência. Tomás adoeceu e, depois de algum tempo de repouso, recuperou parte das forças.
Em 1274, Gregório X convocou Tomás ao Segundo Concílio de Lyon, que se abriu em 7 de maio de 1274 e discutiu, entre outros assuntos, a união entre as igrejas do Oriente e do Ocidente. Durante a viagem pela Via Ápia, montado em um jumento, Tomás bateu a cabeça em um galho caído e voltou a adoecer. Repousou em Monte Cassino, mas precisou interromper novamente o trajeto na abadia cisterciense de Fossanova. Os monges o cuidaram por alguns dias. Ao receber os últimos sacramentos, submeteu ao juízo da Igreja tudo o que havia escrito sobre Cristo, os sacramentos e a fé.

Tomás morreu em Fossanova em 7 de março de 1274. Segundo um relato de Guglielmo Tocco, ele expôs brevemente o Cântico dos Cânticos aos monges que o acolheram; não deixou um comentário escrito a esse livro. Em 2024, Gabriel J. LeBeau e coautores propuseram que sua morte pode ter resultado de um hematoma subdural provocado pela pancada na cabeça sofrida semanas antes.
Em 1277, o bispo parisiense Étienne Tempier proibiu o ensino de 219 proposições filosóficas e teológicas. Tomás não foi citado pelo nome, e não há consenso sobre quantas teses suas foram atingidas. A condenação afetou as discussões universitárias, mas, em 1325, dois anos após sua canonização, o bispo de Paris esclareceu que ela não deveria ser aplicada aos ensinamentos de Tomás; essa ressalva não significava aprová-los expressamente.

O inquérito de canonização reuniu testemunhos em 1319; parte dos relatos tradicionais sobre a vida de Tomás veio dessas declarações, cuja autenticidade nem sempre pode ser estabelecida. Em 18 de julho de 1323, quase cinquenta anos depois de sua morte, João XXII o canonizou em Avinhão.
Seus restos mortais foram trasladados de Fossanova para a Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, em 28 de janeiro de 1369. Ficaram na Basílica de Saint-Sernin entre 1789 e 1974, quando retornaram à Igreja dos Jacobinos.

A festa litúrgica de Tomás foi inicialmente fixada em 7 de março, dia de sua morte. Como a data frequentemente coincide com a Quaresma, a reforma do Calendário Romano Geral, aprovada pelo Mysterii Paschalis em 1969, transferiu sua memória para 28 de janeiro, aniversário do traslado de seus restos mortais a Toulouse.
Algumas igrejas da Comunhão Anglicana também o comemoram em 28 de janeiro, em uma festa menor.
O cânone Episcopi sustentava que a feitiçaria, tal como era descrita, não podia ocorrer e que seus praticantes se iludiam. Tomás passou a ser citado em uma doutrina posterior que admitia a existência de bruxas, em contraste com o ensinamento de seu mestre Alberto Magno. A relação entre sua obra e a perseguição posterior às mulheres acusadas de bruxaria, porém, é objeto de interpretação histórica.

O Malleus Maleficarum, manual de caça às bruxas do século XV escrito por um dominicano, cita Tomás ao contestar o cânone Episcopi e volta a recorrer a ele mais de cem vezes. Defensores das perseguições posteriores também fizeram uso frequente de seus textos. Richard M. Golden, contudo, distingue as afirmações teóricas de Tomás da perseguição que veio depois.
Pio V proclamou Tomás doutor da Igreja em 11 de abril de 1567, pela bula Mirabilis Deus, e elevou sua festa ao nível da celebração dos quatro doutores latinos Ambrósio de Milão, Agostinho de Hipona, Jerônimo e Gregório I. A renovação da escolástica nos séculos XVI e XVII levou autores como Francisco de Vitória, Caetano, Domingo de Soto, Domingo Báñez e João Poinsot a estudar e desenvolver suas teses. Os Complutenses também figuraram entre os tomistas da segunda escolástica.

No século XIX, a neoescolástica retomou os escritos de Tomás e de seus seguidores para responder à filosofia moderna e a correntes teológicas chamadas de modernistas. Na encíclica Aeterni Patris, de 1879, Leão XIII apresentou a teologia de Tomás como uma exposição segura da doutrina católica e pediu que o clero estudasse seus ensinamentos. Seminários e universidades católicas deveriam ensiná-los e, nos assuntos que Tomás não abordara, buscar conclusões compatíveis com seu pensamento. A encíclica também citou Boaventura ao lado dele entre os doutores da escolástica.
Em 1880, Tomás foi declarado patrono das escolas e universidades católicas. Leão XIII fundou a Pontifícia Academia São Tomás de Aquino em 1879, como parte das medidas associadas à Aeterni Patris. Pio X voltou ao tema na encíclica Pascendi Dominici gregis, de 1907, ao advertir os professores contra o abandono da filosofia de Tomás, em especial na metafísica. No motu proprio Sacrorum antistitum, de 1.º de setembro de 1910, determinou que sua filosofia escolástica servisse de base aos estudos dos jovens clérigos. Em 1914, o decreto Postquam sanctissimus deu respaldo a 24 teses neoescolásticas apresentadas como derivadas do tomismo.

Os nomes Doctor Angelicus e Doctor Communis se difundiram na tradição escolástica. Pio XI empregou também Doctor Universalis, ao defender a relevância de seus ensinamentos para toda a Igreja.
No início do século XX, alguns teólogos católicos questionaram a neoescolástica ao dialogar com a filosofia e a ciência modernas. A corrente chamada nouvelle théologie também defendia o retorno às fontes antigas da tradição cristã, por isso continuou a estudar autores escolásticos como Tomás. Vários representantes da nouvelle théologie participaram dos debates do Concílio Vaticano II. O decreto Optatam totius recomendou que os estudantes aprofundassem os mistérios da salvação sob a orientação de Tomás.
Na carta apostólica Lumen ecclesiae, de 20 de novembro de 1974, Paulo VI convidou os dominicanos a voltar aos escritos de Tomás. O Catecismo da Igreja Católica cita seus escritos em diferentes temas, inclusive ao explicar os sacramentos. Seu pensamento também recebeu atenção nas encíclicas Fausto appetente die, de Bento XV, e Fides et ratio, de João Paulo II.
João Paulo II o chamou de Doctor Humanitatis, ou Doutor da Humanidade.
Na formação teológica dos candidatos ao sacerdócio, o Código de Direito Canônico o recomenda como mestre principalmente da teologia dogmática; o mesmo cânon prevê o ensino de teologia moral, liturgia, história da Igreja e direito canônico.
Em 2025, Leão XIV nomeou John Henry Newman copadroeiro, junto com Tomás, dos participantes da missão educativa da Igreja.
Entre os primeiros autores a trabalhar a partir dos escritos de Tomás esteve o dominicano Remígio de Girolami, que provavelmente estudou com ele em Paris. Seu tratado sobre a usura retomou argumentos de De malo e os aplicou a debates econômicos de Florença.
No século XV, João Capréolo defendeu as teses de Tomás contra objeções de outros escolásticos em sua obra Defensiones theologiae divi Thomae Aquinatis. O cardeal Juan de Torquemada também participou da formação da escola tomista nesse período. No início do século XVI, Caetano escreveu um comentário à Suma Teológica e desenvolveu uma interpretação da analogia que influenciou os debates sobre a linguagem usada para falar de Deus. Sua leitura de Tomás também recebeu críticas de intérpretes posteriores.

No século XX, Reginald Garrigou-Lagrange continuou a tradição de comentário teológico ligada à neoescolástica. Sua obra voltou a ser estudada por pesquisadores da história do tomismo. Étienne Gilson deu destaque à distinção entre essência e existência em sua leitura da metafísica de Tomás; Jacques Maritain aplicou princípios tomistas a questões da filosofia política, da arte e do conhecimento. O dominicano espanhol Santiago Ramírez divergiu de Maritain quanto à relação entre filosofia moral e teologia.
As discussões sobre o bem comum levaram Charles De Koninck a questionar certas formulações personalistas, enquanto Mieczysław Albert Krąpiec trabalhou a metafísica tomista na escola filosófica de Lublin. Josef Pieper examinou a doutrina das virtudes, e Anton Charles Pegis traduziu a Suma contra os Gentios para o inglês.
Frederick Copleston publicou uma introdução à filosofia de Tomás, e Brian Davies organizou pesquisas sobre suas ideias em diálogo com a filosofia contemporânea. E. R. Fairweather estudou o humanismo cristão em sua teologia, e Ralph McInerny publicou uma introdução ao pensamento tomista.
Em trabalhos mais recentes, J. Budziszewski comentou o tratado de Tomás sobre a lei, Edward Feser retomou seus argumentos sobre direito natural e metafísica aristotélica, e James V. Schall tratou da filosofia política de Tomás.

Entre filósofos morais mais recentes, Alasdair MacIntyre e Philippa Foot retomaram a ética das virtudes de Tomás em debates com o utilitarismo e a ética do dever de Immanuel Kant. G. E. M. Anscombe, sobretudo em Intention, também abriu caminho para novas leituras de seu princípio do duplo efeito e de sua teoria da ação intencional.
O neurocientista Walter Freeman propôs que o tomismo poderia oferecer uma explicação filosófica da cognição compatível com a neurodinâmica.
Bertrand Russell criticou, entre outros pontos, a defesa que Tomás fez da indissolubilidade do casamento. Russell citou o argumento de que a presença do pai ajudaria a educar os filhos por sua suposta maior racionalidade e força física. Para o filósofo britânico, um seguidor de Tomás continuaria a defender o casamento permanente mesmo depois de rejeitadas essas razões. A passagem que ele discutiu, porém, está no suplemento à Suma Teológica, compilado por discípulos a partir de escritos anteriores após a morte de Tomás.
Russell também objetou à demonstração de uma causa primeira, citando a série infinita dos números inteiros negativos como exemplo de sequência sem primeiro termo. Criticou ainda os argumentos sobre a identidade entre essência e existência em Deus. Para ele, quando uma conclusão é aceita antes da investigação, os argumentos filosóficos correm o risco de apenas justificá-la depois. Caleb Cohoe distinguiu as séries de causas essencialmente ordenadas discutidas por Tomás de uma sequência matemática ou temporal, como a mencionada por Russell.
Lorenz Puntel criticou as cinco vias por considerar insuficiente partir de fenômenos particulares para compreender Deus em relação ao ser como um todo. Ao mesmo tempo, reconheceu na noção tomasiana de Deus como ipsum esse per se subsistens um ponto de partida importante para sua própria filosofia.

Em Coimbra, os dominicanos dedicaram a Tomás um colégio cuja construção começou em 1543. O edifício foi transformado ao longo dos séculos e hoje abriga o Tribunal da Relação de Coimbra; seu portal renascentista encontra-se no Museu Nacional de Machado de Castro.
No fim do século XIX, o bispo de Coimbra Manuel Correia de Bastos Pina promoveu a retomada do tomismo. A Academia de São Tomás de Aquino começou a funcionar em 1880, e a revista Instituições Christãs, iniciada em 1883, difundiu seus estudos. A Academia e a revista respondiam a críticas à religião e ao papel da Igreja feitas em nome das ciências modernas. Tomás também é padroeiro de Faro, onde sua festa é celebrada em 28 de janeiro.

No Brasil, José Soriano de Souza publicou no Recife o Compêndio de filosofia, ordenado segundo os princípios e métodos de São Tomás de Aquino em 1867. Suas Lições de philosophia elementar racional e moral, de 1871, baseadas na filosofia tomista, foram adotadas naquele ano para o ensino no Ginásio Pernambucano.
No século XX, o Centro Dom Vital, fundado em 1922 por Jackson de Figueiredo, tornou-se um dos espaços de difusão do neotomismo no país. Depois de 1928, Alceu Amoroso Lima passou a liderar o centro; a revista A Ordem publicou debates ligados a essa corrente. As interpretações brasileiras também receberam influência do neotomismo de Jacques Maritain, sobretudo nas discussões de Alceu sobre a sociedade e o catolicismo. Sérgio Buarque de Holanda criticou a concepção tomista de Alceu ao discutir seus efeitos políticos e sociais.

Na Divina Comédia, concluída por volta de 1321, Dante Alighieri colocou Tomás entre os sábios no céu do Sol. No Purgatório, Dante repetiu a suspeita de que Tomás morrera envenenado por ordem de Carlos de Anjou. A acusação não tem fundamento histórico conhecido.

No último capítulo de Mont Saint Michel and Chartres, Henry Adams comparou o projeto intelectual de Tomás ao das catedrais góticas e chamou o filósofo de "artista". Erwin Panofsky retomou essa aproximação em Gothic Architecture and Scholasticism, publicado em 1951.
A teoria estética de Tomás, especialmente as noções de integridade, proporção e claritas, interessou a James Joyce. Ao elaborar sua própria concepção da beleza, o escritor partiu dessas ideias e as interpretou de uma maneira que não coincide inteiramente com a de Tomás.
Umberto Eco também estudou a estética de Tomás em um livro publicado em 1956 e reeditado, com revisões, em 1988.
Em retratos e pinturas, Tomás costuma aparecer com um livro e um raio de luz no peito ou no ombro. A pomba, o lírio, o cálice e uma pequena igreja também figuram entre seus atributos iconográficos.
O hábito dominicano e o cordão à cintura remetem ao relato de sua oração pela castidade perpétua. O cálice se relaciona à sua doutrina da transubstanciação eucarística.
| Parte de uma série sobre |
| São Tomás de Aquino |
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Tomás entendia a teologia, ou "doutrina sagrada", como uma ciência: um campo de conhecimento que parte das Escrituras e da tradição da Igreja e emprega o raciocínio para compreender o que foi revelado. Fé e razão tinham, para ele, funções distintas e complementares. Sem a revelação, certos conteúdos da fé não seriam conhecidos, mas a razão ajuda a estudá-los e a explicar suas relações.
Ao reunir filosofia grega e doutrina cristã, Tomás tratou o estudo racional da natureza como uma forma de buscar a verdade sobre a criação. A teologia, em seu entendimento, procura conhecer Deus e orientar a pessoa para a salvação. Sua formulação gratia non tollit naturam, sed perficit — "a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa" — resume a relação que estabeleceu entre as capacidades humanas e a fé.

Para Tomás, a razão pode alcançar certas verdades por meio da experiência e da reflexão, enquanto a revelação sobrenatural depende da ação do Espírito Santo. A tradição da Igreja e as Escrituras transmitem esse segundo tipo de conhecimento. Entre as verdades acessíveis à razão, ele situou argumentos a favor da existência de Deus.
Tomás sustentava que a razão podia investigar a existência de Deus e alguns de seus atributos, como unidade, bondade e poder. A Trindade, a Encarnação e a caridade, porém, dependeriam da revelação em Cristo e não poderiam ser deduzidas apenas pela filosofia. Ele distinguia a demonstração de uma doutrina sagrada da busca de argumentos que a tornassem plausível. No primeiro caso, há uma pretensão de certeza; no segundo, o raciocínio oferece uma defesa provável daquilo que se crê.
Por isso, Tomás considerava algumas doutrinas cristãs coerentes com a razão mesmo quando não podiam ser demonstradas. A Encarnação e a Ressurreição são exemplos que ele discutiu desse modo.

Tomás distinguiu o sentido literal ou histórico das Escrituras dos seus sentidos espirituais. No sentido alegórico, acontecimentos antigos prefiguram os da Nova Aliança; no moral, orientam a conduta; no anagógico, apontam para a glória futura. Para ele, os sentidos espirituais pressupõem o literal, no qual devem se apoiar os argumentos da doutrina.
Fé e razão, para Tomás, podem chegar à mesma verdade por caminhos diferentes. Se parecem entrar em conflito, o problema estaria em um erro no estudo da natureza ou na leitura das Escrituras. Um texto bíblico tomado literalmente quando emprega uma metáfora, por exemplo, poderia criar uma contradição aparente com o conhecimento científico.
A reflexão de Agostinho de Hipona sobre Deus influenciou pensadores como Ricardo de São Vítor, Alexandre de Hales e Boaventura. Tomás também recorreu à teologia negativa, que procura dizer o que Deus não é, e retomou a afirmação do Êxodo "Eu sou aquele que sou". Ao tratar da relação entre essência e existência, sustentou que em Deus não há composição: sua essência é existir. Nesse ponto, dialogou com Boécio e com a tradição platônica, mesmo tendo Aristóteles como uma de suas referências principais.
A frase "Eu sou aquele que sou" tornou-se, nessa leitura, uma afirmação sobre o próprio ser de Deus. Étienne Gilson chamou essa interpretação de "teologia existencial" e a situou no centro de sua leitura do tomismo. A expressão latina haec sublimis veritas, "esta verdade sublime", aparece nessa discussão sobre Deus como ato de ser.
Tomás distinguia aquilo que é evidente em si daquilo que é evidente para nós. A proposição "Deus existe" seria evidente em si mesma porque, em Deus, o sujeito e o predicado coincidem. Como não conhecemos diretamente a essência divina, precisamos partir dos efeitos observáveis para argumentar a favor de sua existência.
Na Suma Teológica, Tomás apresentou de modo breve cinco argumentos para a existência de Deus. A Suma contra os Gentios desenvolve a discussão com mais detalhes. Esses argumentos ficaram conhecidos como as cinco vias.
Tomás também dialogou com a prova do ser necessário de Avicena.
As cinco vias empregam ideias da filosofia de Aristóteles. A expressão latina prima causa, ou "causa primeira", remete à argumentação sobre a origem do movimento e da existência. Tomás apresentou Deus como causa primeira e fim último das coisas.
Ao examinar a natureza divina, empregou a via negativa, começando por afastar de Deus os limites e as composições próprios das criaturas. Sua exposição reúne cinco afirmações:
Tomás explicou que termos como "bom" e "sábio", quando aplicados a Deus e às criaturas, não teriam exatamente o mesmo sentido, mas tampouco sentidos sem relação entre si: seriam ditos por analogia, pois as perfeições das criaturas procedem de Deus sem existir nele do mesmo modo limitado.

Como católico, Tomás afirmava que Deus criou "todas as coisas visíveis e invisíveis". Para ele, a razão podia demonstrar que os seres dependem de Deus para existir, por meio de argumentos filosóficos sobre a participação no ser. Também sustentava a criação ex nihilo, sem matéria preexistente. Já a ideia de que o mundo teve um começo no tempo, em vez de existir desde sempre, seria conhecida pela fé e não demonstrável pela razão natural.

Seguindo Agostinho de Hipona, Tomás definiu o pecado como uma palavra, um ato ou um desejo contrário à lei eterna. Na sua filosofia jurídica, a lei natural é a participação da criatura racional nessa lei. Desobedecer à razão, nesse sentido, também contraria a lei natural e a lei eterna. A vontade divina pode ser conhecida pela razão e pela revelação, que Tomás distinguia sem colocá-las em conflito.
Tomás tratou o problema do mal nas Quaestiones disputatae de malo, datadas aproximadamente de 1270–1271, e em artigos da Suma Teológica. Partiu de ideias de Agostinho e as articulou com sua própria concepção de ser e de bem.
Para Tomás, o mal não é um ser nem um princípio independente. É a falta de um bem que deveria estar presente, ou privatio boni. A cegueira, por exemplo, é a falta de visão em um ser que normalmente pode enxergar; a ausência de visão em uma pedra não seria um mal.
Dessa concepção decorre que ser e bem são conversíveis, na fórmula latina bonum et ens convertuntur: tudo o que existe é bom enquanto existe. O mal está na falta de algo devido, e quem pratica uma ação má busca nela algum bem aparente, como prazer ou poder, mesmo quando o caminho escolhido causa dano.
Ao tratar da origem e da responsabilidade pelo mal, Tomás distinguiu duas formas:
A distinção entre o mal sofrido e o mal causado por uma escolha permite a Tomás atribuir a responsabilidade moral a quem age, sem fazer de Deus o autor do pecado. Jean-Yves Lacoste relaciona essa ideia à tese de que Deus pode tirar um bem do mal e de que a pessoa humana responde por sua própria escolha.
Tomás explicava a possibilidade do mal pela diversidade dos seres criados, que podem falhar e perder bens que lhes caberiam. O mal só entra na ordem do universo de maneira acidental, por causa de algum bem que permanece ligado ao ser afetado, e não por ter valor positivo em si mesmo.

Na teologia de Tomás, Deus é um só, e a Trindade reúne Pai, Filho e Espírito Santo em relações distintas dentro da mesma essência divina. O Filho, ou Verbo, procede do Pai, e o Espírito Santo é entendido em relação ao amor divino. Tomás escreveu que a palavra "Trindade" se refere ao número de pessoas relacionadas entre si, não às relações tomadas isoladamente.
Tomás não fazia a Trindade depender do mundo criado. Em sua explicação da salvação, a graça chega aos seres humanos pela Encarnação do Verbo em Jesus Cristo e pela presença do Espírito Santo.

Na Suma Teológica, Tomás relacionou a Encarnação à restauração da natureza humana após o pecado original. Considerou esse modo de salvação adequado, embora afirmasse que Deus poderia agir de outra maneira. Na sua teoria da expiação, Cristo morreu para oferecer satisfação pelos pecados da humanidade.
Tomás afirmou, contra Fotino, que Jesus era divino, e não apenas humano. Rejeitou a separação proposta por Nestório entre o Filho de Deus e o homem Jesus, mas também discordou de Apolinário de Laodiceia, que negava a Cristo uma alma racional humana. Para Tomás, a natureza divina e a humana permaneceram distintas após a Encarnação, contra Eutiques, e se uniram em uma pessoa e em um corpo humano real, contra as interpretações atribuídas a Mani e Valentim.
Ao comentar a passagem da Epístola aos Filipenses em que Cristo, "existindo em forma de Deus", se esvazia ao assumir a condição humana, Tomás interpretou essa passagem sem concluir que a natureza divina tivesse mudado. A Encarnação não teria mudado a pessoa divina. Em suas palavras, o mistério ocorreu quando Deus "se uniu à criatura de um modo novo, ou, melhor, uniu-a a si".
Cristo "se esvaziou", nessa leitura, ao assumir a natureza humana, sem perder a divina. Tomás distinguia a plenitude da natureza divina da capacidade humana de receber a perfeição. Por isso, entendia a linguagem de Paulo como uma referência à humanidade assumida por Cristo, e não à perda de sua divindade.
Para Tomás, Cristo tinha um corpo da mesma natureza que o nosso, uma alma racional humana e a plenitude da divindade. Há uma só pessoa, ou hipóstase, que subsiste em duas naturezas distintas, a humana e a divina.
A pessoa ou hipóstase de Cristo pode ser considerada de dois modos. Em si mesma, é inteiramente simples, como a natureza do Verbo. Mas também pode ser considerada enquanto subsiste em uma natureza. Nesse sentido, a pessoa de Cristo subsiste em duas naturezas. Há nele um só ser subsistente, embora existam modos distintos de subsistência, e por isso se diz que é uma pessoa composta, na medida em que um só ser subsiste em dois.
Citando Agostinho de Hipona, Tomás escreveu que Deus se fez homem «para que o homem se tornasse Deus», no sentido de participar da vida divina.
A doutrina eucarística de Tomás recorre à distinção aristotélica entre substância e acidentes. Na transubstanciação, sustentou que a substância do pão e do vinho se converte no corpo e no sangue de Cristo, enquanto permanecem suas características perceptíveis, como aparência e sabor. A presença de Cristo no sacramento não seria uma presença física localizada como a de um corpo em um lugar: Tomás distinguia esse modo sacramental de sua presença corporal no céu.

Tomás situava a finalidade da existência humana na união permanente com Deus. A visão beatífica, pela qual a pessoa contemplaria a essência divina, traria uma felicidade plena e sem fim. Em sua teologia, essa visão é um dom concedido após a morte àqueles que receberam a salvação e a redenção por Cristo.
Na vida presente, Tomás entendia que a vontade deve voltar-se para bens como a caridade, a paz e a santidade, e organizou boa parte de sua reflexão moral em torno da felicidade. A retidão da vontade depende de sua ordenação ao fim último, a visão de Deus. Quem busca conhecer e contemplar Deus, em sua concepção, passa a amar aquilo que Deus ama, e esse amor aparece nas escolhas concretas da vida.

Tomás aceitava que a alma continuasse a existir depois da morte do corpo, mas a entendia como a forma substancial do corpo humano. Uma pessoa viva é, assim, uma união de matéria e forma, pertencente à espécie dos animais racionais. A matéria precisa de uma forma para existir, enquanto a alma, por ser imaterial em certos aspectos, poderia existir separada do corpo. Embora tenha capacidades intelectuais voltadas para os universais, a alma humana só começa a existir junto do corpo material criado por Deus.
A alma poderia subsistir após a morte, mas o corpo continua fazendo parte daquilo que torna alguém humano. Tomás atribuía à alma a organização da matéria que constitui a pessoa viva, sem reduzi-la à própria matéria. Sua concepção de natureza humana plena envolve, portanto, corpo e intelecto. A existência separada da alma após a morte é possível, mas não é a condição completa da pessoa.
Tomás rejeitava uma separação definitiva entre alma e corpo. A alma subsistiria entre a morte e a ressurreição da carne, mas o destino final da pessoa exige também um corpo ressuscitado. Por isso, recompensa e punição na vida futura não seriam apenas espirituais. A pessoa completa, em sua teologia, receberia também bens ou penas na existência corpórea recuperada.
A ressurreição se relaciona ainda à justiça divina: para Tomás, a vida futura oferece uma resposta ao sofrimento dos cristãos nesta vida. "Se não há ressurreição dos mortos", escreveu, "não resta aos seres humanos bem algum além desta vida". A esperança nessa recompensa ajudaria a renunciar a certos prazeres imediatos. Ele associava a recompensa à preparação moral e intelectual, embora a atribuísse, em última instância, à graça de Deus.
Tomás ligou as penas da vida futura às ações terrenas e usou sua concepção da alma para discutir a possibilidade de céu e inferno. Sustentou ainda que os eleitos poderiam contemplar a condição dos condenados e, por isso, alegrar-se ainda mais na justiça de Deus. Friedrich Nietzsche criticou essa ideia como expressão de ressentimento.

A Ordem dos Pregadores, à qual Tomás pertencia, surgiu com a missão de converter os albigenses e outros grupos considerados heterodoxos, inicialmente pela pregação. O conflito com os albigenses também tomou a forma da Cruzada Albigense. Na Suma Teológica, Tomás escreveu sobre o tratamento dos hereges:
"Quanto aos hereges, devem-se considerar dois aspectos: o deles próprios e o da Igreja. Por sua parte, há o pecado pelo qual merecem não apenas ser separados da Igreja pela excomunhão, mas também apartados do mundo pela morte. Corromper a fé, que vivifica a alma, é muito mais grave do que falsificar moeda, que sustenta a vida temporal. Se falsificadores de moeda e outros malfeitores são condenados à morte pela autoridade secular, com maior razão os hereges, depois de condenados por heresia, poderiam ser excomungados e executados." "Por parte da Igreja, há misericórdia, voltada à conversão de quem se afastou. Ela não condena de imediato, mas depois da primeira e da segunda advertência, como orienta o Apóstolo. Se a pessoa persistir, a Igreja, já sem esperança de sua conversão, procura a salvação dos outros: excomunga-a, separa-a de si e entrega-a ao tribunal secular para que seja eliminada pela morte."
No século XIII, governantes seculares passaram a aplicar a pena de morte a condenados por heresia em determinados territórios. As leis do imperador Frederico II são um exemplo dessa mudança.
Roubo, falsificação e fraude também podiam receber pena de morte. Tomás comparava a corrupção da fé à falsificação de moeda porque a primeira atingiria os bens espirituais de outras pessoas. Sua proposta entregava os hereges a um tribunal secular, não à execução direta pela autoridade eclesiástica. A afirmação de que "mereciam" morrer vinha de sua compreensão teológica do pecado e da vida humana. Ao tratar dos judeus, porém, ele defendeu que seus ritos fossem tolerados, e se opôs ao batismo de crianças contra a vontade de seus pais.
Tomás sustentava que a Igreja não podia retirar das famílias a autoridade sobre crianças criadas em outra religião para batizá-las contra a vontade dos pais. Na Suma Teológica, II-II, questão 10, artigo 12, argumentou:
"Não se deve cometer injustiça contra ninguém. Seria injusto batizar os filhos dos judeus contra a vontade de seus pais, porque estes perderiam sua autoridade sobre as crianças assim que elas se tornassem cristãs. Portanto, não devem ser batizadas contra a vontade dos pais. O costume da Igreja possui grande autoridade e deve ser observado com cuidado em todas as coisas, pois a própria doutrina dos doutores católicos recebe dela sua autoridade. Por isso, devemos seguir a autoridade da Igreja antes da de Agostinho, Jerônimo ou qualquer outro doutor. Ora, nunca foi costume da Igreja batizar os filhos dos judeus contra a vontade dos pais. Há duas razões. A primeira é o perigo para a fé: crianças batizadas antes do uso da razão poderiam facilmente ser levadas pelos pais a abandonar aquilo que abraçaram sem saber, o que prejudicaria a fé. A segunda é a justiça natural. A criança é, por natureza, parte de seu pai. No ventre, não se distingue corporalmente da mãe; depois do nascimento e antes de exercer o livre-arbítrio, permanece sob os cuidados dos pais, como em um ventre espiritual. Enquanto não usa a razão, não difere, nesse aspecto, de um animal irracional. Seria contrário à justiça natural retirá-la da guarda dos pais ou agir contra a vontade deles."

Na Suma Teológica, III, questão 68, artigo 10, Tomás voltou ao tema:
"Está escrito nos Decretais, com citação do Concílio de Toledo: quanto aos judeus, o santo sínodo ordena que doravante nenhum deles seja forçado a crer, pois não seriam salvos contra a vontade, e sim livremente, para que sua justiça não tivesse defeito. Os filhos dos não crentes podem ou não ter o uso da razão. Se o têm, já começam a dirigir seus atos em matérias de direito divino ou natural e podem, por vontade própria, receber o batismo contra o desejo dos pais, assim como podem contrair matrimônio. É lícito aconselhá-los e persuadi-los. Se ainda não têm livre-arbítrio, ficam sob os cuidados dos pais pela lei natural enquanto não puderem cuidar de si. Por isso dizemos que até mesmo os filhos dos antigos foram salvos pela fé de seus pais."
Bento XIV retomou a questão em uma bula de 1747. O papa escreveu que, entre teólogos e canonistas, a posição de Tomás tinha recebido mais apoio do que a de Duns Escoto.
Ao discutir magia e ação dos seres espirituais, Tomás fez as seguintes distinções:
O Suplemento da Suma Teológica, compilado após a morte de Tomás com base em seu comentário às Sentenças, discute os feitiços entre os possíveis impedimentos ao casamento. Nesse texto, a impotência atribuída a um feitiço, assim como a decorrente de causas naturais, só anularia o casamento se fosse considerada permanente. O texto distingue, porém, os dois casos quanto à possibilidade de contrair um novo casamento.
| Parte de uma série sobre |
| Filosofia católica |
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Embora seja considerado filósofo da escolástica, Tomás não se apresentava como tal e criticava pensadores pagãos por não chegarem à sabedoria que, a seu ver, se encontrava na revelação cristã. Mesmo assim, tratava Aristóteles com grande respeito e frequentemente o chamava apenas de "o Filósofo" na Suma Teológica. Ao incorporar ideias aristotélicas, adaptava-as quando julgava haver conflito com a doutrina cristã.
Seus escritos filosóficos passaram a integrar o ensino da teologia católica e continuaram a ser discutidos na filosofia ocidental.
Tomás escreveu comentários a obras de Aristóteles como Sobre a alma, Da Interpretação, Segundos Analíticos, Ética a Nicômaco, Física e Metafísica. Seu trabalho se relaciona às traduções do grego para o latim feitas por Guilherme de Moerbeke.
Tomás acompanhou Aristóteles ao admitir que, em certas circunstâncias, seres vivos poderiam surgir de matéria sem vida ou de plantas. Ao falar da criação, escreveu:
A geração de uma coisa envolve a corrupção de outra. Assim, não seria incompatível com a formação inicial das coisas que seres mais perfeitos surgissem da decomposição de outros menos perfeitos. Animais gerados da decomposição de coisas inanimadas ou de plantas poderiam, desse modo, ter surgido então.
Em seu comentário à Física de Aristóteles, Tomás também discutiu a hipótese de Empédocles sobre criaturas que teriam surgido com formas misturadas, como seres metade boi e metade homem. Ele explicou sua ausência posterior pela incapacidade dessas formas de se manterem vivas, e relacionou tais ocorrências à corrupção de princípios naturais na geração.
Se esses seres não podiam chegar a um estado final no qual se conservassem, não era porque a natureza deixara de tender a esse fim, mas porque eles não podiam subsistir. Surgiram pela corrupção de algum princípio natural, como acontece com descendentes de formas anômalas quando há corrupção da semente.

Tomás escreveu que, para conhecer qualquer verdade, o intelecto humano depende da ajuda divina. Isso não significava que cada descoberta exigisse uma revelação especial: as pessoas teriam capacidade natural de conhecer muitas coisas, embora a revelação fosse necessária para certas verdades da fé. Ele explicava essa capacidade pela luz intelectual dada à natureza humana.
Cada forma concedida por Deus às coisas criadas tem capacidade para um ato determinado, que pode realizar segundo sua própria medida. Para além disso, permanece incapaz, a menos que receba uma forma acrescentada, como a água que só aquece ao receber calor do fogo. O entendimento humano possui uma forma, a luz inteligível, suficiente por si para conhecer certas coisas acessíveis aos sentidos.
Na Suma Teológica, Tomás comparou o primeiro princípio do raciocínio teórico, o princípio da não-contradição, ao primeiro princípio da ação: fazer e buscar o bem, evitando o mal.
Na lei natural, esse preceito orienta a busca do que a razão reconhece como bem. Tomás agrupou os bens que considerava evidentes em três conjuntos: conservar a própria vida; procriar e educar os filhos, inclinações compartilhadas com outros animais; e viver em sociedade enquanto se busca conhecer a verdade sobre Deus, algo próprio dos seres racionais.
Tomás aproximou o amor a Deus e ao próximo dos primeiros princípios da lei natural ao tratar dos bens que se desejam para si e para os outros. Os mandamentos do Decálogo decorreriam desses princípios gerais como conclusões práticas.
Em seu tratado sobre a lei, Tomás distinguiu a lei eterna, a natural, a humana e a divina. A lei eterna é a razão divina que governa a criação e, por isso, seria imutável. A lei natural é a participação da razão humana nessa ordem, enquanto a lei divina se conhece pela revelação. As normas humanas são estabelecidas para reger a convivência e devem partir dos primeiros princípios práticos.
Na definição de Tomás, a lei é uma ordenação da razão para o bem comum, estabelecida por quem cuida da comunidade e promulgada para aqueles a quem se dirige. A vontade isolada de um governante, sem referência à razão, não bastaria para constituir uma lei.
Tomás entendia que as inclinações humanas, inclusive as ligadas ao desejo e à reação diante de perigos, pertencem à lei natural na medida em que são orientadas pela razão. Os preceitos particulares podem ser muitos, mas derivam de um princípio comum.
Ao discutir casamento e família, apresentou a união entre as pessoas e a educação dos filhos como partes da busca humana pelo bem. O amor, para ele, se dirige à pessoa amada e ao bem que se deseja para ela.
Ao passar dos princípios gerais à legislação de uma sociedade, Tomás explicou como a razão humana formula regras particulares:
Na razão especulativa, partimos de princípios conhecidos naturalmente e indemonstráveis para chegar às conclusões das ciências. Seu conhecimento é adquirido pelo esforço da razão. Da mesma forma, a razão humana parte dos preceitos gerais e indemonstráveis da lei natural para determinar questões particulares. Essas determinações são chamadas leis humanas, desde que satisfaçam as outras condições necessárias a uma lei.
A lei humana é, nesse sentido, uma forma de direito positivo: regras estabelecidas para uma sociedade a partir dos princípios da lei natural.
Tomás chamou sindérese ao hábito pelo qual a mente conserva os primeiros princípios da lei natural que orientam as ações humanas.

Na Suma Teológica, Tomás relacionou a vida moral à busca virtuosa do bem e definiu a virtude em relação ao fim de uma capacidade humana:
A virtude indica certa perfeição de uma potência. Ora, a perfeição de algo é considerada sobretudo em relação ao seu fim. O fim de uma potência é o ato; por isso, ela se diz perfeita na medida em que está determinada para o ato que lhe cabe.
Para ele, a lei natural se relacionava a todos os atos virtuosos, embora nem toda ação virtuosa fosse uma inclinação imediata da natureza:
Todos os atos de virtude são prescritos pela lei natural, pois a razão de cada pessoa naturalmente a orienta a agir de maneira virtuosa. Mas, se considerarmos os atos virtuosos segundo sua espécie própria, nem todos são prescritos pela lei natural: muitas coisas são feitas virtuosamente sem que a natureza incline a elas desde o início, e a investigação racional mostra que favorecem uma vida boa.
Essa distinção separa o caráter virtuoso de uma ação das características do tipo particular de ato praticado.
Tomás enumerou quatro virtudes cardeais: prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas pertencem à vida moral natural. A fé, a esperança e a caridade são virtudes teologais, voltadas diretamente para Deus. Ele também distinguia virtudes imperfeitas e perfeitas: a caridade levaria uma virtude moral à sua plenitude. Assim, uma pessoa não cristã poderia ser corajosa, mas a coragem cristã estaria unida à caridade.
O objeto das virtudes teologais é o próprio Deus, fim último de todas as coisas e superior ao conhecimento de nossa razão. O objeto das virtudes intelectuais e morais, por sua vez, é algo compreensível pela razão humana. Por isso, as virtudes teologais são de espécie diferente das virtudes morais e intelectuais.

Tomás situou as paixões no apetite sensitivo, ligado à unidade de corpo e alma. Distinguiu as que se dirigem ao bem ou ao mal sensível, como amor e tristeza, das que enfrentam um bem difícil de alcançar ou um mal difícil de evitar, como esperança e temor. Elas não seriam incompatíveis com a virtude: seu valor moral depende da relação com a vontade e com a razão que orienta a ação.
Tomás classificou a avareza como pecado contra Deus, pois nela a pessoa troca os bens eternos pelos temporais.
Tomás também discutiu a distinção entre pecado mortal e pecado venial.
Tomás chamava os animais de seres não racionais e entendia que, na ordem da natureza, podiam ser usados pelas pessoas. Não lhes atribuía o mesmo dever de caridade devido a outros seres humanos, o que, em seu raciocínio, permitia matá-los para alimento. Ainda assim, advertia contra a crueldade, pois o hábito de maltratar animais poderia se estender ao tratamento das pessoas.

Tomás entendia que as pessoas dependem umas das outras, cooperam e dividem o trabalho; caberia ao governo ordenar essa convivência ao bem comum.
Tomás chamou a monarquia de melhor forma de governo quando o rei é virtuoso; sob um governante perverso, ela se torna a pior. Considerava a oligarquia mais propensa a degenerar em tirania e defendia limites ao poder do rei. Mesmo um tirano poderia ter de ser tolerado quando sua deposição ameaçasse produzir uma anarquia ainda pior. Em De regno, sujeitou a autoridade política à lei divina e à lei humana:
Assim como o governo de um rei é o melhor, o governo de um tirano é o pior.
Rei é aquele que governa o povo de uma cidade ou província em favor do bem comum.
Tomás distinguia a autoridade espiritual nas questões relativas à salvação da autoridade dos governantes na vida temporal da comunidade.
Tomás distinguiu o governo de pessoas livres do domínio senhorial sobre escravizados. Para ele, a pessoa livre pode dispor de si mesma, enquanto a escravizada é submetida ao interesse de outra; associou essa forma de domínio às consequências do pecado, não ao estado original da humanidade. Sua reflexão sobre o preço justo também foi retomada em estudos da economia medieval.
Ao discutir a resistência à tirania, Tomás afirmou que quem se opõe ao tirano em favor do bem comum não é necessariamente sedicioso. O tirano, ao governar para o próprio interesse e causar discórdia entre os súditos, é que incorre em sedição. Tomás ponderou, no entanto, que a reação poderia tornar-se injusta caso produzisse danos ainda maiores à comunidade.
Na Suma contra os Gentios, livro III, capítulo 146, escrita antes da Suma Teológica, Tomás admitiu a pena de morte aplicada por um tribunal. Expôs seu argumento nos seguintes termos:
Aqueles que exercem autoridade sobre outros não cometem injustiça quando recompensam os bons e punem os maus. [...] Para preservar a concórdia entre os homens, é necessário impor penas aos que praticam o mal. Portanto, puni-los não é mau em si. Além disso, o bem comum é superior ao bem particular de uma pessoa. O bem particular pode ser retirado para preservar o bem comum, e a vida de certos homens nocivos pode impedir a concórdia da sociedade. Por isso, eles podem ser afastados da sociedade pela morte. Assim como o médico busca a saúde, que depende da harmonia ordenada dos humores, o governante busca a paz, que depende da concórdia ordenada dos cidadãos. O médico corta um órgão doente quando sua corrupção ameaça o corpo; da mesma forma, o governante executa os homens nocivos para que a paz da comunidade não seja destruída.
Na mesma discussão, impôs limites a essa conclusão:
É proibida a execução injusta de pessoas. Matar por ira também é proibido. A execução dos maus é vedada quando não pode ser feita sem pôr os bons em perigo.
Tomás distinguia a guerra de atos como cisma, sedição e briga, pois considerava possível perguntar em que condições uma guerra seria justa. Partindo também de argumentos de Agostinho de Hipona, tratou da autoridade que a declara, da causa apresentada e da intenção de quem combate.

Tomás entendia o ser humano como uma só substância composta de matéria e forma. A alma é a forma do corpo vivo; um cadáver é chamado "humano" apenas por analogia. Embora a pessoa seja uma unidade corporal, a alma intelectual poderia subsistir depois da morte do corpo.
Na Suma Teológica, Tomás chamou a alma de "primeiro princípio da vida". Ela não é um corpo, mas o ato de um corpo. Como a atividade intelectual não depende, em sua explicação, de um órgão corporal do mesmo modo que a visão depende dos olhos, Tomás argumentou que o intelecto é incorpóreo.
Para Tomás, a alma não podia ser matéria, nem mesmo uma matéria espiritual, pois assim não conheceria os universais imateriais. O conhecimento assume o modo de quem o recebe, e essa capacidade intelectual exige uma forma que não se reduza à matéria. Ainda assim, a pessoa humana concreta é uma única substância formada por corpo e alma: a alma tem o papel de forma substancial e o corpo, de matéria.
Ao comentar a geração dos seres humanos na Suma Teológica, Tomás reproduziu uma ideia de Aristóteles segundo a qual a mulher seria "defeituosa" considerada a geração de um indivíduo. Acrescentou que, considerada a natureza humana em geral, a mulher não seria um resultado acidental, pois a distinção entre os sexos faria parte da criação. Defendeu, ainda assim, uma subordinação doméstica da mulher ao homem, apoiada no juízo de que este teria maior discernimento racional.

Tomás tratou das questões econômicas sobretudo ao discutir a justiça, que colocava entre as virtudes morais. Definiu-a como o hábito de dar a cada um o que lhe é devido com vontade constante. Joseph Schumpeter observou que seus escritos só se detêm em fenômenos econômicos quando estes suscitam problemas de teologia moral.
Leituras posteriores de sua lei natural foram usadas em debates sobre salários dignos, monopólios, aumento abusivo de preços, práticas laborais injustas e comércio.
Tomás distinguia o preço justo de um valor obtido pela exploração da outra parte. Ao avaliar um bem, considerava sua utilidade para as pessoas e as condições concretas da troca. Perdas efetivas que a venda causasse ao vendedor também podiam ser consideradas na avaliação. O preço, escreveu, mede a qualidade de uma coisa destinada ao uso humano. Em outro exemplo, observou que ouro e prata valem também pela pureza de sua substância, além dos objetos que permitem fabricar.
A necessidade urgente de quem compra, por si só, não autorizaria cobrar mais: o benefício particular do comprador não se converte automaticamente em direito do vendedor a um preço superior.
Ao tratar da justiça distributiva, Tomás escreveu:
Na justiça distributiva, algo é dado a uma pessoa na medida em que a parte tem direito ao que pertence ao todo, em quantidade proporcional à sua posição em relação a ele. Assim, alguém recebe uma parcela maior dos bens comuns quando ocupa uma posição de maior destaque na comunidade. Em uma aristocracia, essa posição é medida pela virtude; em uma oligarquia, pela riqueza; em uma democracia, pela liberdade, e em outras comunidades por outros critérios. A medida da justiça distributiva, portanto, não está na igualdade entre uma coisa e outra, mas na proporção entre pessoas e bens: conforme uma pessoa supera outra, a parcela que recebe também varia.
Tomás também atribuía aos cristãos o dever de atender às necessidades das pessoas mais pobres.
O uso da expressão "justiça social" foi difundido no século XIX por Luigi Taparelli. Ele a aplicou a uma realidade que identificava com aquilo que Tomás chamara de justiça legal ou geral. A justiça distributiva reparte os bens comuns entre as pessoas segundo uma proporção; a justiça legal se ocupa do que cada pessoa deve ao bem comum. Os dois movimentos seguem, assim, em direções opostas.

Tomás condenou a usura, entendida como a cobrança de juros por um empréstimo de dinheiro. Para ele, "cobrar usura pelo dinheiro emprestado é injusto em si", pois equivaleria a vender algo que não existe. O uso do dinheiro se consome com sua transferência, de modo que cobrar separadamente pelo dinheiro e por seu uso faria o credor receber por algo que já não lhe pertence.

Tomás escreveu por cerca de duas décadas e deixou uma obra estimada em mais de oito milhões de palavras. A Suma Teológica e a Suma contra os Gentios são seus textos sistemáticos mais conhecidos, mas a edição completa ocupa dezenas de volumes. Seus escritos costumam ser agrupados em seis conjuntos:

Entre as séries de questões disputadas estão De veritate, De potentia, De anima, De malo e De virtutibus. Tomás escreveu ainda o tratado polêmico De unitate intellectus contra Averroistas e o texto político De regno.
A expressão homo unius libri e outras fórmulas sobre o «homem de um só livro» foram atribuídas a Tomás na tradição posterior. Konstantin Dushenko situou os primeiros registros dessas fórmulas no século XVII e considerou lendária a atribuição direta a Tomás.
A primeira edição reunida, chamada editio Piana por ter sido encomendada por Pio V, foi preparada em 1570 no convento romano de Santa Maria sopra Minerva, antecessor da Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino.
A edição crítica encomendada por Leão XIII ficou conhecida como Edição Leonina. Iniciada em 1882, ela reúne a Suma Teológica, a Suma contra os Gentios e comentários, além de outros textos. A comissão encarregada da edição continua a preparar volumes a partir da comparação de manuscritos e testemunhos históricos.
Textos eletrônicos, em grande parte baseados na Edição Leonina, são mantidos pelo Corpus Thomisticum, de Enrique Alarcón, da Universidade de Navarra, e pelo repositório Documenta Catholica Omnia.

O jesuíta Roberto Busa iniciou em 1949 o Index Thomisticus, uma concordância computadorizada de 118 textos de Tomás e 61 obras relacionadas. O projeto permitiu pesquisar as ocorrências das palavras no conjunto de seus escritos e tornou-se uma das primeiras iniciativas de análise computacional de textos humanísticos.
No Brasil, a tradução da Suma Teológica por Alexandre Correia foi seguida por uma edição em volumes das Edições Loyola, publicada nos anos 2000. Entre as edições acadêmicas de acesso livre estão a tradução das questões 84–89 da Suma de Teologia por Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento, publicada pela Universidade Federal de Uberlândia, e a tradução de O ente e a essência por Mário Santiago de Carvalho, disponibilizada pela Universidade da Beira Interior.

Em Roma, o Angelicum recebeu a denominação de Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino quando foi elevado à categoria de universidade pontifícia, em 1963. Em Manila, a Universidade de Santo Tomás teve origem em um colégio fundado em 1611, inicialmente chamado Colegio de Nuestra Señora del Santísimo Rosario e depois renomeado em memória do teólogo dominicano; tornou-se universidade em 1645. Nos Estados Unidos, a Universidade de São Tomás, fundada em Minnesota em 1885 pelo arcebispo John Ireland, também foi nomeada em sua homenagem. No campus, a capela dedicada a Tomás foi concluída em 1919, segundo projeto de Emmanuel Masqueray. Desde 2021, uma escultura de bronze de Timothy Schmalz, instalada diante da capela, o representa segurando a Suma Teológica, cujas páginas se transformam em uma pomba.
Em Bogotá, a Universidade Santo Tomás retomou em 1965 a tradição de uma universidade dominicana estabelecida na cidade em 1580. No Chile, a Universidade Santo Tomás, fundada em 1988, recebeu seu nome em homenagem a Tomás e adotou seu pensamento como referência para a formação oferecida.

Em Paris, a igreja de São Tomás de Aquino, antiga igreja ligada a um convento dominicano, foi classificada como monumento histórico em 1982. Em Portugal, a província dominicana criou em 1954 o Instituto São Tomás de Aquino para promover o estudo e a reflexão teológica. Seu nome também identifica uma igreja paroquial em Lisboa.
No Brasil, o povoado que se tornou o município de São Tomás de Aquino, em Minas Gerais, cresceu em torno de uma capela dedicada ao santo, cuja pedra fundamental foi lançada em 1885. O município se emancipou em 1923. O nome é usado ainda pelo Instituto Santo Tomás de Aquino, centro de formação religiosa em Belo Horizonte, e por escolas públicas como a Escola Municipal São Tomás de Aquino, em São Bento do Tocantins.

Na igreja da Ordem Terceira de São Domingos, em Salvador, conserva-se uma imagem de Tomás, testemunho material de sua veneração no Brasil. Em Ouro Preto, um busto-relicário de Tomás integra um conjunto de imagens dos doutores das ordens mendicantes associado à oficina de Aleijadinho. As quatro peças foram tombadas pelo município em 2010.
Em Luanda, os dominicanos fundaram a Casa de São Tomás de Aquino em 1987; uma comunidade que leva seu nome integra o vicariato da ordem em Angola.
Entre 2023 e 2025, a Ordem dos Pregadores celebrou os setecentos anos da canonização, os 750 anos da morte e o oitavo centenário aproximado do nascimento de Tomás. Em Portugal, a Academia Portuguesa da História realizou uma sessão evocativa do aniversário de sua morte em março de 2024. Na Itália, um selo postal emitido nesse ano reproduziu uma estátua de Tomás situada em Roccasecca; o Vaticano também lançou um selo e um carimbo comemorativos dos 750 anos de sua morte.
Obras e estudos em português
Obras e estudos em outros idiomas