Alfaporactanto

Alfaporactanto
Nomes
Outros nomes Poractant alfa; Curosurf
Alfaporactanto
Identificadores
Número CAS 129069-19-8
DrugBank DB09113
KEGG D08402
Código ATC R07AA
DCB n° 10033
Alfaporactanto
Farmacologia
Via(s) de administração Intratraqueal
Página de dados suplementares
Estrutura e propriedades n, εr, etc.
Dados termodinâmicos Comportamento de fases
Sólido, líquido e gás
Dados espectrais UV, IV, RMN, EM
Exceto onde denotado, os dados referem-se a
materiais sob condições normais de temperatura e pressão.

Referências e avisos gerais sobre esta caixa.
Alerta sobre risco à saúde.

O alfaporactanto (DCI em inglês: poractant alfa), vendido sob o nome comercial Curosurf, é um surfactante pulmonar extraído do pulmão de porcos. É usado no tratamento da síndrome do desconforto respiratório do recém-nascido, a doença dos bebês prematuros que ainda não produzem surfactante suficiente. É aplicado diretamente nos pulmões, por meio da cânula traqueal. Foi desenvolvido na década de 1980 pelos pesquisadores Bengt Robertson e Tore Curstedt, e o nome Curosurf vem do sobrenome dos dois. Consta da Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde, inclusive na lista para crianças.

Usos médicos

O alfaporactanto é indicado para o tratamento de resgate da síndrome do desconforto respiratório em recém-nascidos prematuros. Reduz a mortalidade e a ocorrência de pneumotórax associadas à doença. A dose inicial é de 2,5 mL por quilo de peso ao nascer (200 mg/kg). Se a síndrome continuar a comprometer a respiração, podem ser dadas até duas doses adicionais de 1,25 mL/kg, com intervalos de cerca de 12 horas. A dose total máxima é de 5 mL/kg.

No estudo que levou à aprovação nos Estados Unidos, com bebês de 700 a 2000 g em ventilação mecânica, uma dose única reduziu a mortalidade aos 28 dias de 48% para 31% e o pneumotórax de 36% para 21%, em comparação com o grupo de controle. Num segundo estudo, o esquema de doses múltiplas teve menos mortes (13% contra 21%) e menos pneumotórax (9% contra 17%) que a dose única.

Os surfactantes de origem animal, como o alfaporactanto, mostraram-se superiores aos surfactantes sintéticos sem proteínas numa revisão sistemática da Colaboração Cochrane, com menos pneumotórax e menos mortes, embora com aumento do risco de enterocolite necrosante. Outra revisão Cochrane comparou o alfaporactanto ao beractanto, de origem bovina. Os bebês tratados com beractanto tiveram mais mortes antes da alta hospitalar. A diferença apareceu apenas nos estudos que usaram doses iniciais mais altas de alfaporactanto (acima de 100 mg/kg), e os autores não puderam dizer se ela se deve à dose ou à origem do produto. Num ensaio clínico britânico com prematuros de 25 a 29 semanas de gestação, a mortalidade antes da alta foi de 14,1% com o alfaporactanto e de 31,0% com o pumactanto, um surfactante sintético. O estudo foi interrompido antes do previsto por causa dessa diferença.

Efeitos adversos

Durante a aplicação podem ocorrer efeitos passageiros: bradicardia, hipotensão, obstrução da cânula traqueal e queda da saturação de oxigênio. Nesses casos, a administração deve ser interrompida até a estabilização do bebê. Como o surfactante altera rapidamente a oxigenação e a complacência pulmonar, o bebê precisa de avaliação clínica e laboratorial frequente para ajustar o oxigênio e a ventilação. O produto deve ser aplicado apenas por profissionais treinados no cuidado de recém-nascidos prematuros. A bula norte-americana não lista contraindicações.

Farmacologia

Composição

O alfaporactanto é um extrato do surfactante natural do pulmão de porco. É formado por 99% de lipídios polares, principalmente fosfolipídios, e 1% de proteínas hidrofóbicas associadas ao surfactante, as proteínas SP-B e SP-C. Cada mililitro da suspensão contém 80 mg de extrato, com 76 mg de fosfolipídios (dos quais 55 mg de fosfatidilcolina, sendo 30 mg de dipalmitoilfosfatidilcolina) e 1 mg de proteínas (0,45 mg de SP-B e 0,59 mg de SP-C). A suspensão é feita em solução de cloreto de sódio a 0,9% e não tem conservantes.

Mecanismo de ação

O surfactante produzido pelo próprio organismo reduz a tensão superficial na superfície entre o ar e o líquido dos alvéolos e impede que eles se fechem ao fim da expiração. Nos prematuros, a falta de surfactante causa a síndrome do desconforto respiratório, com expansão insuficiente dos pulmões, troca gasosa deficiente e colapso progressivo dos alvéolos (atelectasia). O alfaporactanto supre essa deficiência e restaura a atividade de superfície nos pulmões.

Farmacocinética

O produto age diretamente na superfície dos alvéolos. Não foram feitos estudos de farmacocinética em seres humanos sobre a absorção, a transformação ou a eliminação do alfaporactanto.

História

A falta de surfactante foi identificada como causa da síndrome do desconforto respiratório em 1959. As primeiras tentativas de reposição, na década de 1960, fracassaram, porque usavam apenas fosfolipídios, aplicados por nebulização. Na década de 1970, Bengt Robertson e Göran Enhörning mostraram que o surfactante natural, com fosfolipídios e proteínas, melhorava a doença em coelhos imaturos.

Na década de 1980, Robertson e Tore Curstedt desenvolveram o surfactante de porco, testado num estudo piloto a partir de 1983. O primeiro ensaio clínico randomizado começou em 1985 e mostrou que o Curosurf reduzia os vazamentos de ar no pulmão e a mortalidade em prematuros com a forma grave da doença. Um segundo ensaio, coordenado por Christian Speer, mostrou que doses múltiplas eram mais eficazes que a dose única. Estudos europeus posteriores mostraram que o tratamento precoce era melhor que o tardio. O produto é comercializado pela Chiesi e foi aprovado nos Estados Unidos em 1999.

Sociedade e cultura

Nomes

Alfaporactanto é a Denominação Comum Brasileira (DCB n.º 10033). Poractant alfa é a denominação em inglês, e Curosurf é o nome comercial.

Lista de medicamentos essenciais

O alfaporactanto consta da 24.ª Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2025, na lista complementar, no grupo dos medicamentos administrados ao recém-nascido, na forma de suspensão para instilação intratraqueal de 80 mg/mL. Consta também da lista complementar da 10.ª Lista Modelo de Medicamentos Essenciais para Crianças.

Referências

  1. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 «Curosurf (poractant alfa) intratracheal suspension: prescribing information» (em inglês). Chiesi USA; U.S. National Library of Medicine (DailyMed). Dezembro de 2025. Consultado em 28 de outubro de 2026
  2. 1 2 3 Curstedt, T.; Halliday, H. L.; Speer, C. P. (2015). «A unique story in neonatal research: the development of a porcine surfactant». Neonatology (em inglês). 107 (4): 321–329. PMID 26044099. doi:10.1159/000381117
  3. 1 2 Organização Mundial da Saúde (2025). The selection and use of essential medicines: report of the WHO Expert Committee on Selection and Use of Essential Medicines, 2025 (including the 24th WHO Model List of Essential Medicines and the 10th WHO Model List of Essential Medicines for Children). Col: WHO Technical Report Series (em inglês). 1064. Genebra: Organização Mundial da Saúde. pp. 603, 673. ISBN 978-92-4-011974-1
  4. ↑ Ardell, S.; Pfister, R. H.; Soll, R. (2015). «Animal derived surfactant extract versus protein free synthetic surfactant for the prevention and treatment of respiratory distress syndrome». Cochrane Database of Systematic Reviews (em inglês) (8): CD000144. PMC 9210808Acessível livremente. PMID 26301526. doi:10.1002/14651858.CD000144.pub3
  5. ↑ Singh, N.; Halliday, H. L.; Stevens, T. P.; Suresh, G.; Soll, R.; Rojas-Reyes, M. X. (2015). «Comparison of animal-derived surfactants for the prevention and treatment of respiratory distress syndrome in preterm infants». Cochrane Database of Systematic Reviews (em inglês) (12): CD010249. PMC 9465687Acessível livremente. PMID 26690260. doi:10.1002/14651858.CD010249.pub2
  6. ↑ Ainsworth, S. B.; Beresford, M. W.; Milligan, D. W.; Shaw, N. J.; Matthews, J. N.; Fenton, A. C.; Ward Platt, M. P. (2000). «Pumactant and poractant alfa for treatment of respiratory distress syndrome in neonates born at 25–29 weeks' gestation: a randomised trial». The Lancet (em inglês). 355 (9213): 1387–1392. PMID 10791521. doi:10.1016/S0140-6736(00)02136-X
  7. ↑ «Lista consolidada das Denominações Comuns Brasileiras». Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Outubro de 2026. Consultado em 28 de outubro de 2026